A Substituta
Autora: Érika
"Saint Seiya" é propriedade de Masami Kurumada, Shueisha e Toei Animation.
Capítulo 11 - Parte 3
Os pais de Crystal faleceram quando ele estava com vinte e um anos de idade. Sua situação era estável, logo, ele não teve problemas e não enfrentou nenhuma dificuldade de natureza financeira. Mas sofreu muito com a perda de seus entes mais queridos. Demorou um longo tempo para se habituar. Tinha vários amigos, os quais tentaram reanimá-lo. Mas seus esforços se mostraram inúteis. O rapaz afastou-se de todos, tornou-se recluso e encerrou-se em sua dor. Mas esta solidão voluntária foi exatamente o que conseguiu libertá-lo de sua pena, pois começou a sentir-se extremamente carente do afeto das amizades que outrora o rodeavam. Por isso, com muito esforço se retirou de seu isolamento e pôde recomeçar, recuperando a vida que havia abandonado. E todos os seus amigos o receberam calorosamente, contentes por vê-lo recuperado e disposto a superar toda a tristeza que levara consigo por tanto tempo.
Anos mais tarde, Crystal terminou seus estudos com menção honrosa, tornando-se engenheiro químico. Mas nesta época ele conheceu uma jovem chamada Svetlana. Ela sentia grande fascinação por Mitologia Greco-Romana. Os dois se tornaram bons amigos e posteriormente namorados. Ela conseguiu entusiasmá-lo com seus conhecimentos acerca dos deuses e congêneres. E foi desta maneira que ambos, devido a alguns contatos que Svetlana possuía, saíram de Moscou, onde viviam até então, e dirigiram-se à Sibéria para treinar sob a tutela de Camus.
Crystal começou a portar-se de forma impetuosa, pois se sentia ridículo por ter de obedecer às ordens de uma pessoa mais jovem. Além do mais, não lhe agradava a acerbidade de Camus, e o considerava um indivíduo deveras prepotente. Svetlana porém se comportava serenamente. Mas durante o treinamento, a aprendiz de amazona conheceu outro aluno de Camus, que era um pouco mais novo do que ela e Crystal. Logo eles se apaixonaram e fugiram juntos. Ela deixou um bilhete para Crystal explicando tudo superficialmente. Perdê-la foi algo que o afetou sobremaneira, principalmente por tudo ter ocorrido de uma maneira tão súbita e inesperada. Mas ele resolveu camuflar seus sentimentos, ignorando sua dor e se mostrando frio e indiferente.
Poucos anos depois, Crystal se converteu em cavaleiro. Mais tarde, conheceu dois órfãos e começou a treiná-los. Eles eram Hyoga e Isaac. Rapidamente se afeiçoou a eles, e todo o carinho que tinha retido dentro de si após seu fracasso amoroso veio à tona. Dedicou-lhes muito afeto, embora freqüentemente fosse rigoroso nos treinamentos. Entrementes, de vez em quando pensava em Svetlana. Lembrava-se de como a conhecera e como ela parecia amá-lo tanto quanto ele a amara naquela época. E depois, quando ela sugerira que eles treinassem para ser cavaleiro e amazona, quando ela fingira que ele jamais vira seu rosto, já que naqueles tempos as amazonas deveriam ter a face encoberta. Fora bastante fácil enganar Camus neste sentido. Ele nunca desconfiara de nada. E mesmo que o fizesse, eles se amavam mesmo, então estava claro que ela nunca o mataria.
"Pelo menos isso era o que eu pensava. Que ela me amava. Que tolo", refletiu Crystal com acridez.
Mas sempre tratava de afastar tais pensamentos de sua mente e saía com algumas mulheres, procurando nelas alguma forma de esquecer. Os resultados eram pífios. A única coisa que efetivamente conseguia animá-lo era o afeto existente entre ele e seus alunos. Além de Isaac e Hyoga, também treinava outros meninos, mas certamente os dois eram seus favoritos, e ele não ocultava essa predileção de ninguém. Seus outros discípulos sentiam um pouco de ciúme deles, mas Crystal mantinha perfeito controle em relação a isso.
Tempos depois, quando Hyoga já estava crescido, Crystal o encontrou desolado, o rosto desfigurado pelas lágrimas.
- O que houve? - perguntou Crystal preocupado.
Hyoga explicou tudo entre soluços:
- Quis visitar minha mãe no navio no qual ela afundou. Mas uma corrente marítima me apanhou. Issac me salvou, mas feriu gravemente a vista e as águas o levaram.
- Mas isto não pode ser! Deve haver algo que possamos fazer! - exclamou Crystal atônito.
E sem esperar uma resposta de Hyoga, mergulhou nas águas gélidas da Sibéria, procurando inutilmente por Isaac. Apenas muito tempo depois se rendeu, exausto, e desistiu. Ele e Hyoga se consolaram mutuamente por esta fatalidade.
Hoje os três estavam unidos de novo e, afortunadamente, ninguém tinha morrido.
"Athena e Hyoga me perdoaram por eu ter lutado contra eles. Isaac também felizmente está bem. Mais uma vez eu tenho a oportunidade de começar de novo. E desta vez, juro que não a desperdiçarei", pensou Crystal, com um brilho de alegria nos olhos.
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Assim como Algethi, Sírius e Dio, os cavaleiros Asterion, Moses e Babel também eram amicíssimos. Os três estavam na mesma faixa etária e se conheciam desde que eram adolescentes. Possuíam interesses em comum como cinema, Literatura Medieval e música sacra, embora Moses também gostasse muito de rock. Os outros dois, mesmo admirando tal gênero musical, não gostavam tanto dele quanto o amigo.
Asterion era órfão de pai e não tinha irmãos. Sua mãe era uma mulher bastante independente e que nunca dedicara muito tempo ao filho. Mas ele jamais se ressentiu por isso, e a amava da mesma forma.
Babel fora criado pelos avós desde que seus pais morreram em um acidente de carro. Também era filho único e, sendo órfão desde muito pequeno, nem sequer se lembrava de seus progenitores. Para ele, seus avós eram seus verdadeiros pais.
Quanto a Moses, era órfão de mãe e tinha três irmãos mais velhos do que ele. Sua classe social era inferior à de Asterion e Babel, e ele conseguiu estudar no mesmo colégio que os outros dois devido a uma bolsa de estudos que obtivera com suas ótimas notas. De modo geral, ninguém o discriminava por sua condição humilde. Seu pai era um bom homem, trabalhador e completamente devotado aos filhos, sempre tentando proporcionar-lhes uma vida mais cômoda. Diversas vezes os filhos mais velhos se ofereciam para ajudá-lo no sustento da casa, mas ele recusava argumentando que preferia que eles se dedicassem apenas aos estudos. Moses era o favorito e o que recebia mais atenções, basicamente por ser o caçula.
Quando Babel, Asterion e Moses estavam com dezesseis anos de idade, começaram a estudar Mitologia Grega e demonstraram grande interesse pelo Santuário. Sua professora de História tinha um irmão que era cavaleiro de Athena e comentou este fato com eles. Os três se entusiasmaram, mas quando falaram com suas famílias sobre suas intenções, não receberam nenhum apoio. Então decidiram que esperariam até que tivessem dezoito anos, pois com esta idade poderiam tomar suas próprias decisões sem que seus familiares pudessem interferir.
De fato, dois anos mais tarde, eles se encaminharam ao Santuário. O irmão de sua professora, um homem de cinqüenta e cinco anos chamado Hesperos, já tinha sido avisado e portanto os recebeu de bom grado; afinal, quanto mais guerreiros Athena tivesse, melhor seria para todos.
No princípio, as famílias dos rapazes ficaram magoadas com o comportamento deles, mas pouco a pouco se resignaram. De mais a mais, eles enviavam notícias regularmente. Esporadicamente também recebiam permissão para visitá-las.
Moses demonstrou bastante dificuldade nos treinos, mas Asterion e Babel geralmente tinham um bom desempenho. Anos depois, eles conseguiram conquistar suas armaduras, mas Moses conseguiu a dele somente três anos após os amigos. Hesperos morreu ao lutar contra Moses, para que este conseguisse sua armadura. Durante a luta inesperadamente ele se sentiu mal. Na verdade, havia alguns meses que já vinha sentindo fortes dores na cabeça, mas não se preocupava, pensando que não era nada importante. Moses se sentiu responsável pela morte dele, mesmo quando foi esclarecido que ele não tivera nenhuma culpa, porque Hesperos já estava doente.
Asterion e Babel várias vezes tentaram consolar o amigo, mas ele nunca conseguiu deixar de se sentir culpado pela morte do mestre. Por causa deste acontecimento, a armadura não foi entregue imediatamente a Moses, e foi decidido que ele deveria lutar contra outro mestre de cavaleiros para consegui-la. A escolhida foi Helena Marin. E foi desta maneira que ele obteve a armadura de prata de Baleia Branca. A vitória, porém, teve um preço: durante o selvagem combate, a amazona acertou-lhe um poderoso golpe no rosto e, como resultado, Moses veio a perder um de seus olhos.
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Agora Moses achava-se imerso em suas reflexões, divagando sobre todas as coisas que tinham acontecido em sua vida. Por isso não notou imediatamente que Asterion e Babel o chamavam. Quando finalmente percebeu, respondeu com um sobressalto:
- Oh, não tinha visto vocês!
- Nota-se - comentou Babel.
- Não precisa ficar assustado, "criança". Não vamos te fazer nada - brincou Asterion.
Moses riu, descontraindo-se.
- Em que estava pensando, tão absorto? - indagou Babel.
- No meu passado - respondeu Moses.
- Pois eu prefiro pensar no futuro, especialmente depois de tudo o que aconteceu. Felizmente, não morremos e Athena nos perdoou, dando-nos uma nova oportunidade - disse Asterion com firmeza.
Os outros dois se voltaram para ele. Babel comentou:
- Tem razão. Quando eu pensei que fosse morrer, vi a luz dela me confortando. Não há nada que se possa comparar àquela sensação.
- Imagino - disse Moses, pensativo.
- Por isso mesmo, não podemos voltar a errar - disse Babel.
- Vários de nós aqui no Santuário estamos nessa mesma situação. Lembrem-se de que pensávamos que a verdadeira Athena estava aqui. Fomos enganados, isto é tudo - disse Asterion secamente.
- Claro, eu sei. Ainda assim, agimos muito mal - insistiu Babel.
- E você ainda se queixa? Então imagine como eu me sinto, porque não foi a primeira vez que eu falhei miseravelmente. Já tinha feito o mesmo com meu próprio mestre, matando-o - disse Moses bruscamente.
- Ah, por favor, quando você esquecerá isso? Sabe muito bem que não o matou, foi uma fatalidade - replicou Asterion.
- Ele está certo, você já deveria ter se esquecido disso. Foi há tanto tempo... - disse Babel.
- Ainda há pouco eu estava lembrando. Creio que nunca poderei superar - disse Moses obstinado.
- É uma pena que Athena não possa ressuscitar pessoas - murmurou Babel.
- Por que está dizendo isso? - perguntou Asterion intrigado.
- Porque se ela pudesse, estou seguro de que ressuscitaria o mestre Hesperos. Isto seria ótimo, porque ele falaria com Moses e isentá-lo-ia de qualquer culpa. Então ele já não teria que sentir remorsos - respondeu Babel.
- Ele não tem que sentir nenhuma culpa, porque não é culpado de nada. E espero que um dia possa entender isso - disse Asterion, encarando Moses.
- Não adianta, jamais poderão me convencer. Mas o que você disse não corresponde à realidade, Babel. Quero dizer, sendo uma deusa, é claro que Athena pode ressuscitar quem quer que seja - rebateu Moses.
- Eu sei disso. Mas o que eu quis dizer é que ela não pode, por ser esta uma prática condenável - argumentou Babel.
- Claro, é verdade. Mas mesmo assim ela ressuscitou o cavaleiro de Pégasus - disse Asterion.
- Sim, mas não quer que ele saiba - redarguiu Moses.
- E por que será? - perguntou Asterion.
- Quem sabe? Realmente é estranho - disse Babel.
- O que não entendo é que pensávamos que Marin fosse a irmã de Seiya. E eis que de repente, vimos que estávamos enganados - comentou Asterion, com ar de perplexidade.
- É mesmo. Isso é que é esquisito. Mas como foi mesmo que começou o rumor de que Marin era supostamente irmã de Seiya? - retrucou Moses.
- Não sei ao certo. Sabe como são os boatos, muitas vezes é extremamente difícil descobrir de onde partiram, como começaram - disse Asterion em tom vago.
- De qualquer modo, foi tudo um equívoco. Agora já sabemos que a irmã dele é uma pessoa comum, sem nenhuma relação com o Santuário - disse Moses.
- Sim, é mesmo - concordou Asterion. Mas no seu íntimo, ainda se sentia um pouco perplexo.
