Capítulo 36 – Verdades Reveladas

6 de Junho 1994

Segunda-feira, pior dia da semana… Mais aulas, mais trabalho, mais sofrimento. Deveriam abolir as segundas, principalmente as dos estudantes do Terceiro Ano de Gryffindor, que estavam fadados a iniciar todas as semanas com uma nova profecia sobre a horrenda e dolorosa morte que aguardava Harry Potter num futuro próximo.

Como morreria hoje?

Escorregaria na banheira e bateria com a cabeça na parede?

Nah! Muito simples, mas caso assim fosse… Morreria afogado ou de hemorragia intracraniana?

Talvez tropeçaria nos degraus das escadarias móveis e rolaria de cabeça, partindo o pescoço e falecendo no ato? Soa quase misericordioso, pelo menos seria indolor.

Melhor ainda… Seria atacado por uma legião de corujas que o atacariam às bicadas até à morte? Se calhar, fariam como os corvos e comeriam os seus olhos, estando ele ainda vivo? Seria uma maneira terrível de morrer… Yep! Parece a cara chapada da Professora de Adivinhação.

Como morreria Harry Potter nesta arejada e solarenga semana?

Quem saberia!?

Bom, a Professora Sybill Trelawney saberia como entretê-los por um tempo… Isso era um facto, sem dúvida alguma.

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O Trio de Ouro permanecia reunido na Sala de Aula, mesmo após o sinal de conclusão da aula de Adivinhação, encarando as borras de chá no fundo da chávena do Menino-Que-Sobreviveu. Os restantes alunos já haviam abandonado o sótão, com ares de loja de chá passada de moda, incluindo a mulher de horrorosos óculos de fundo de garrafa e cabelo de vassoura estragada.

― Grimm… ― murmurou Hermione concentrada ― O regresso de um grande aliado de Vocês-Sabem-Quem…

― Só pode ser Sirius Black! ― exclamou Ron.

― Hmm… Pode ser, mas…

― Mas o quê, Hermione? ― perguntou Harry ansioso.

― Sirius fugiu de Azkaban há já muito tempo e até conseguiu entrar no castelo… Hmm…

― Explica de uma vez, o tempo urge… A vida de Harry corre perigo.

― E não corre sempre!? ― perguntou Harry com a voz carregada de sarcasmo.

― Devo consultar isto com o Draco… Ou com a Pansy, o melhor é mesmo ser com os dois, eles devem ter alguma teoria sobre o que se passa. Já sabem, aqueles dois mandam nas serpentes, pelo que têm acesso a muito mais informação do que nós todos juntos. Além disso, Sirius Black não pode unir-se a "ele", se estiver atrás de ti, como insinuou a Professora Trelawney. É confuso! E eu prezo-me por não me confundir facilmente…

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Conseguir uma audiência com Sua Majestade, o Príncipe Draco Malfoy da Nobre Casa de Salazar Slytherin, não era fácil; não quando deviam passar por um batalhão de Slytherins e a General Parkinson. Mas com esforço e perseverança tudo se consegue!

― Mione tem razão! Sirius fugiu de Azkaban há muito tempo e nunca fez nada que indicasse a mínima intenção de se reunir com Voldemort ― O grupo arrepiou-se ao escutar o nome proibido abandonar os lábios do loirinho. ―, em vez disso… Eu diria que parece desesperado por encontrar Harry. Para não falar que o meu papá não acredita na história de que ele traiu a família Potter e eu confio nele. Mas vocês são livres de pensarem o que bem entenderem. Não é como se pudesse impor-vos as minhas crenças…

― Pensem bem, Black era o melhor amigo do casal Potter, pelo que não acham que era demasiado óbvio se o tivessem escolhido para ser o Guardião do Segredo? Não era preferível uma pessoa que passasse despercebida pelo inimigo? ― expôs Theodore, para admiração dos leões, que não se recordavam de alguma vez ter escutado a sua voz antes.

― Isso… ― começou Hermione.

― Na verdade faz sentido! ― concluiu Ron, para espanto do grupo, que observava boquiaberto ― O que foi? ― perguntou com expressão ofendida ― Eu também posso ser atento e analítico quando necessário… Só sou um pouco distraído! Que eu saiba isso ainda não é crime! ― exclamou com o rosto vermelho e as orelhas a arder, arrancando sonoras gargalhadas aos presentes.

― Mas então… Quem será? ― questionou a leoa.

― Mais do que tentar averiguar o presente… procurem no passado. A história de que Sirius Black era o único que sabia a localização dos Potter, aquando do encantamento Fidelius não parece estar correta; provavelmente havia outra pessoa mais adequada para manter o segredo! Essa pessoa viria a ser o verdadeiro traidor e Death Eater e como tal, o aliado de Vol…Vocês-Sabem-Quem ― Vendo a expressão aterrorizada dos amigos, Draco havia-se corrigido apressadamente. ― que ressurgirá…

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George fechou as mãos com força, formando punhos apertados até as unhas marcarem as palmas das mãos, lutando contra o instinto de bater no ladrãozeco sem escrúpulos que rondava o seu Fred.

Oliver Wood expunha entusiasmadamente os seus planos futuros e o ruivo maior escutava atentamente.

"Se Oliver Wood tivesse a posição de apanhador e não a de guardião, eu diria que ele persegue Fred como um apanhador persegue a snitch durante um Jogo de Quidditch…", Lee Jordan ria disfarçadamente, testemunhando o ataque de ciúmes de um dos seus melhores amigos.

― Não tenho dúvida alguma de que terás uma grande carreira como jogador profissional ― disse Fred animadamente.

― Já recebi várias ofertas! ― exclamou Oliver, com o peito inchado de orgulho, causando uma careta de desgosto por parte de George.

Cansado da abordagem do Capitão da Equipa de Quidditch de Gryffindor, o ruivo mais jovem decidiu sentar-se ao lado do irmão, passando um braço, nada discretamente, sobre os ombros de Fred e exibindo um sorriso de triunfo dedicado exclusivamente ao seu rival, que fingiu não notar o seu gesto peculiarmente possessivo.

― Parabéns, Capitão! ― disse George, puxando o gémeo ao seu encontro e prensando-o contra a lateral do seu corpo ― Qual proposta pretendes aceitar?

― Puddlemere United! São uma das melhores equipas da nação e oferecem termos muito acessíveis. Vou visitar as instalações deles no primeiro fim de semana após graduar-me, deverias vir, Fred, penso que irias adorar.

Oliver sorriu encantadoramente, ignorando propositadamente o irmão do seu ruivo amor, não querendo que George se metesse nos seus planos de sedução. Este era o seu último ano em Hogwarts e a última oportunidade de conseguir conquistar Fred Weasley… E nada… Nem ninguém… Se interporia entre ele e os seus objetivos: A Taça de Quidditch seria sua tal como era suposto, a posição de Guardião dos Puddlemere United seria sua como sempre tinha ansiado e o coração da Beleza Ruiva que tanto desejava seria seu.

O amor de Fred seria seu! Tinha plena confiança nas suas habilidades de cortejo, para além do seu próprio charme, e aquela visita às instalações dos Puddlemere United era a cereja no topo do bolo, o gémeo mais velho cairia rendido aos seus encantos…

A Corte de Prata assistia à disputa pela atenção de Fred, quando um confuso Dragãozinho acabou com qualquer pensamento racional por parte dos seus amigos.

― Porque é que George e o Capitão Wood estão a comportar-se como os pavões albinos do meu papi durante a época de acasalamento? Parecem duas bestas prestes a saltar em cima do pobre Fred…

Ninguém sabia o que dizer. Como explicar ao seu inocente Príncipe de Gelo os segredos por detrás da mente luxuriosa de um bando de adolescentes hormonais?

Os seus cérebros sofreram um curto-circuito e derreteram.

― Hã… Hmm… Pois… ― Eram estes os únicos sons que as suas bocas conseguiam articular.

Eis que Pansy parte ao resgate… Ainda que… Talvez fosse melhor que não o tivesse feito… Ou assim viriam pensar algumas pessoas…

― Draco, todos os homens são coisas para esquecer, são criaturas irracionais, bestas selvagens, como as que o Hagrid cria no Bosque Proibido, entendes? ― O loiro recordou a última aquisição do Guardião das Chaves, uma criatura aparentemente híbrida, cujas possíveis espécies progenitoras ainda ninguém havia sido capaz de identificar. ― Ignora-os! Principalmente se alguma vez vires alguém agir daquela forma perto de ti… Não, melhor ainda… Lança-lhes um encantamento para lhes baixar a temperatura corporal! Estilo banho frio, aliás… Com gelo! ― O menino de olhos prateados encarou-a com expressão confusa. ― Não se comparam nem com os instintos dos animais, querido. As cabeças deles são puramente água, os pensamentos afogam-se lá dentro, asseguro-te que nem o melhor feitiço de flutuação seria capaz de salvar as mentes deles. São casos perdidos… Talvez até mesmo mortos e enterrados. Pelo que deves ignorá-los. Compreendeste, meu pequeno?

― Acho que sim ― respondeu Draco, não muito convencido, sem notar a expressão fúnebre de Blaise.

Ele era homem, o seu papi e o seu padrinho eram homens e nenhum deles tinha água na cabeça. Lucius e Severus eram duas das pessoas mais inteligentes que já conhecera… Ainda que, talvez Crabbe e Goyle tivessem água em vez de cérebro, a julgar pelas suas classificações académicas. Fluffy faria melhor! Era um cachorrinho (de três cabeças e muitos metros de altura) muito inteligente e perspicaz, pena que o seu papi só o deixasse ir vê-lo uma vez por mês. Draco quis adotá-lo, mal soube que Hagrid havia sido notificado pelo Ministério da Magia de que não possuía permissão para criar uma Criatura Mágica de Nível Vermelho na Escala de Perigosidade Britânica.

Hagrid recebera o primeiro aviso anos antes, mas Dumbledore tratara do assunto, pois precisava que Fluffy permanecesse no castelo para guardar a entrada que guiava à Pedra Filosofal; mas, passada a necessidade, não se prestou a auxiliar novamente o semi-gigante.

Numa noite fria, vários meses antes, Harry escutou-os falar do assunto, escondido debaixo da capa de invisibilidade, e comentou com o loiro, que prontamente se prestou a falar com Severus e este com por sua vez falou com Lucius.

Resultado: Fluffy estava a ser muito bem cuidado numa pequena reserva natural, que Lucius comprara, tendo crescido já quase o dobro do seu tamanho original. Draco visitava-o uma vez por mês na companhia de Hagrid e Lucius. Sendo que o Guardião das Chaves se prontificara a cuidá-lo sempre que tivesse tempo e até começara a procurar uma namorada para Fluffy, diziam os rumores de que esta se viria a chamar Wooly, outro nome estranho e inadequado. O macho era macio e a fêmea era lanuda?

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Essa mesma noite, o Trio de Ouro comprovou as suas suspeitas…

Sirius Black não tinha traído os pais de Harry, fora Peter Pettigrew quem arquitetara a tramoia toda. Este tinha sido nomeado Guardião do Segredo e fora ele quem revelara a localização do refúgio do casal Potter ao Lord Voldemort.

Pettigrew era um Death Eater, tendo sido ele o atacante que vitimara diversos muggles, colocando a culpa em Sirius e simulando a sua própria morte para poder executar uma fuga eficaz. Sirius entrara no castelo para tentar capturá-lo, antes que este pudesse atentar contra a vida de Harry, visto que permanecera nas sombras, sempre próximo, sempre vigilante, perfeitamente oculto na sua forma animaga. Uma forma animaga que combinava plenamente com a sua atitude e personalidade, um ratazana traidora, suja e fedorenta. Ficava-lhe bem!

Severus chegou à Casa dos Gritos a meio da revelação, momento que Peter aproveitou para empreender com êxito uma fuga covarde, deixando-os sozinhos a lidar com um novo problema…

A lua cheia brilhava no céu em todo o seu auge!

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Sirius fez uma generosa reverência, que Buckbeak, como Hagrid chamara ao hipogrifo, retribuiu. E foi dessa forma, que o homem fugiu do castelo, nas costas do recém-salvo hipogrifo, rumo à pseudo-liberdade. Mas quão livre seria de facto escondido em Grimmauld Place?

Ao longe escutou-se um uivo… O lobisomem partira à caça de várias e suculentas presas. Com as emoções, que o embargaram no decorrer desse longo dia, não se recordou de tomar o poção Wolfsbane… Que ficara abandonada e esquecida sobre a sua mesa de cabeceira.

Que Merlin vele pela segurança dos leões…

Bom, Merlin não foi realmente de grande ajuda, já Severus sim que o foi. Com um potente feitiço desmaiou o lobo, amordaçou-o e jogou-o dentro de uma cela improvisada no último momento, por Hermione que recorrera a um encantamento que lera num livro por engano, permanecendo de vigia pelo resto da noite. Não permitiria que este cometesse um ato do qual nunca se poderia perdoar. Lupin nunca se recuperaria se matasse um dos seus preciosos fedelhos, se pelo Mestre de Poções fosse, ele começaria a elaborar o cardápio do licantropo. Neville Longbottom para o pequeno-almoço, Oliver Wood para o lanche da manhã, os gémeos Weasley para o almoço, Jordan Lee como sobremesa, Minerva McGonagall para o lanche da tarde, Sirius Black para o chá das cinco, Albus Dumbledore ao jantar e Harry Potter para snack da meia-noite. Adeus, empecilhos! Olá, paz de espírito!

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Sirius estremeceu-se ao ver entrar uma coruja pela janela. Ninguém deveria saber onde ele estava… Quem poderia ser?


Caro Sirius,

Não sabes o quanto lamento não ter podido ajudar-te antes. Mas quero que saibas que sempre velei pela tua integridade na prisão. Vários membros de Wizengamot desejavam ver-te morto pelo que aconteceu aos Potter, mas eu sempre acreditei em ti…


― Mentiroso! ― O animago jogou a carta na lareira sem se dar ao trabalho de terminar a leitura e deitou-se no sofá, enquanto Kretcher limpava o seu antigo quarto, soltando insultos contra a sua pessoa a cada trinta segundos.

― Vejo que finalmente abriste os olhos, Sirius. ― A voz atravessou o Salão, desde o outro lado do corredor. ― Dumbledore não é quem tu pensas…

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Dumbledore ponderava como deveria proceder de seguida. Enviar a carta fora meramente o primeiro passo, precisava convencer o Sirius de que estava do seu lado, para assim ser capaz de o manipular e acabar com a amizade entre Harry e Draco.

Claro que não pretendia inocentá-lo, necessitava que este ficasse longe do olho público, caso contrário este conseguiria a custódia de Harry e arruinaria os seus planos de vez. A criança devia permanecer com os Dursley, era crucial que o abuso não cessasse… Harry Potter tinha que ser vulnerável e manipulável… Uma vida feliz ao lado do seu padrinho seria o oposto ao que planeara para o "Salvador" e a ruína absoluta para as suas maquinações.

Quanto a Sirius, começaria por envenená-lo aos poucos, não que fosse ter muito trabalho… Este já odiava a família Malfoy e em menos do que Lucius esperava, Sirius seria aquele que o levaria à perdição. Bastaria pressionar os botões corretos e o moreno seria aquele que tomaria a vida de Draco Malfoy, regressando à prisão, onde não apresentaria perigo algum aos seus planos futuros.

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Com o sol, veio um novo dia e uma nova dose de aulas. Os estudantes entraram na Sala de Defesa Contra as Artes das Trevas, esperando ver Remus Lupin e receber uma lufada de ar fresco, depois da seca da aula de História da Magia. No entanto, depararam-se com o Mestre de Poções e a sua revelação de que o Professor Lupin era uma lobisomem e tinha sido expulso de Hogwarts, sendo que ele iria substitui-lo pelo curto período de aulas restante.