Capítulo Trinta e Seis

Those Few Minutes

(Aqueles Poucos Minutos)

Ron sentiu o chão sólido sob seus pés e o calor em seu rosto sumir até sobrar a sensação de ter se queimado com o sol. A luz forte e laranja de Fawkes brilhou em frente aos seus olhos, e Ron ouviu vozes sobre o som das chamas. Ginny se moveu um pouco – e Ron tirou conforto disso –, mas seu peso estava todo apoiado em Ron. Então, sumiu – assumiu que Harry a pegara –, assim como a luz de Fawkes, apesar de Ron conseguir sentir o pássaro em seu ombro.

O Saguão de Entrada entrou em foco, e Ron ficou surpreso ao ver quantas pessoas estavam lá; pelo jeito, as quatro casas – Fred e George foram contidos por McGonagall –, a maioria dos professores e vários Aurores e outros funcionários do Ministério. Se fosse justo, todo mundo parecia igualmente surpreso por ver ele, Harry e Ginny, Ron supôs, aparecerem com uma fênix no meio da evacuação da escola. Ele provavelmente também ficaria olhando.

Ron se virou para Harry, incapaz de conter seu sorriso; tinham salvado Ginny, não tinham visto o basilisco, derrotaram Riddle por enquanto e tinham saído de lá inteiros – menos Ginny, que ficaria bem quando a levassem a Madame Pomfrey. Mas não tinha sido Harry a pegar Ginny e não era ele ao seu lado; era Sirius.

Ron se virou no lugar, e Fawkes afundou as garras em seu ombro ao tentar se manter equilibrado. Harry não estava em nenhum lugar. Com o coração apertado, voltou-se para Sirius, que tinha passado Ginny para Marlene.

— Ron — chamou ele. — O que... Onde está o Harry? — A sensação de alívio de Ron sumiu completamente ao ouvir essas palavras.

— Ele estava... Fawkes estava com a gente, e ele estava bem ao meu lado... ele... Eu não o deixei lá, juro... — A mão de Sirius era firme no ombro de Ron, apesar de sua voz e expressão estarem trêmulas.

— Lá? Na Câmara? — Ron assentiu.

— Com Riddle, mas a gente não viu o basilisco...

Sirius o olhou dos pés à cabeça.

— Está machucado?

— Estou bem — respondeu. Estava com um pouco de dor de cabeça do que tinha certeza de ter sido a maldição Imperius e se sentia enjoado com a culpa e preocupação com Harry, mas eram coisas que conseguia aguentar. — Mas temos que ajudar o Harry. Ele está lá com Riddle e o basilisco... — Ron torcia para que Harry tivesse um motivo para ter soltado Fawkes, e não que tivesse sido atacado. Mas o que havia lá embaixo que Harry poderia querer? Ele e Sirius se sobressaltaram quando Fawkes sumiu em uma bola dourada de fogo.

— Você lembra o caminho? — perguntou Sirius. Ron assentiu, e a expressão de Sirius vacilou. Ron achou que ele parecia aliviado. — Vamos precisar da sua ajuda, então; é melhor que você vá junto do que perder tempo explicando. Espere aqui. — Sirius se virou e foi se juntar aos Aurores e professores, provavelmente para montar um grupo.

— Graças a Merlin! — disse a professora Sprout.

— Senhorita Weasley, você se machucou? — perguntou McGonagall.

— Professora — ouviu Ginny dizer com a voz fraca —, não, por favor, você não entende... Ron... ele está ajudando o Tom, ele... e Harry... — Ela parecia estar cada vez mais estressada. Ron se aproximou do grupo e recebeu um tapinha nas costas dado por um George que parecia preocupado e, ao perceber que não estava machucado, aliviado. Ginny o olhou com os olhos arregalados. Perguntou-se, distraído, se as bolsas sob eles sempre estiveram ali, se suas bochechas tinham sempre sido tão fundas. Apesar de ela estar acordada, parecia que estar longe de Riddle não ajudava muito e o aperto no estômago de Ron voltou mais forte do que antes. Ela estará morta em alguns minutos, Riddle tinha dito.

— Estou aqui — disse ele, engolindo. — E não estou... era um feitiço... Eu não... — O lábio de Ginny tremeu e, por um instante, Ron achou que ela fosse chorar, mas ela olhou ao redor, vendo todas as pessoas, e pareceu se recompor. McGonagall mandou um gato prateado escadas acima para pedir a Madame Pomfrey que esperasse Ginny imediatamente.

— E... e o Harry? — perguntou ela. Ela parecia fazer um grande esforço, mas conseguiu se sentar para que pudesse olhar para as várias pernas ao seu redor. Ron não gostou da forma que seu rosto empalideceu, e Marlene se moveu para segurá-la quando ela cambaleou. Ginny permitiu. — Ele está bem? — perguntou, fraca.

— Vai ficar — respondeu Sirius, e Ron achou que só a expressão em seu rosto era o bastante para fazer Riddle fugir. Snape e quatro Aurores estavam atrás dele, e ele olhou para o Auror mais velho ao lado de Fred. — Robards, eu preciso de ajuda. — O Auror assentiu, e Sirius colocou uma mão no braço de Marlene, que se levantou, deixando Ginny sob os cuidados da professora Sprout.

— Ele não voltou com a gente? — perguntou Ginny a Ron, e ele poderia jurar que o rosto dela ficara mais fino nos últimos segundos. Balançou a cabeça para ela, que se afundou contra Sprout, o rosto muito pálido.

Quando os Aurores chegarem lá, eles podem forçar Riddle a libertá-la, Ron disse a si mesmo. Na Câmara, Riddle tinha dito que ela tinha meros minutos e isso tinha sido há... bem, meros minutos. Ela estava ficando sem tempo, e Harry estivera sozinho lá embaixo há alguns minutos, também. Riddle podia ter chamado o basilisco, e aí o que Harry teria feito?

— Ron, vamos — chamou Sirius, apressado, e Ron deu as costas para Ginny. Esperava que Sirius permitisse que descesse na Câmara mais uma vez, apesar de não achar que isso fosse acontecer, mas estava feliz por poder ajudar de qualquer forma. Supôs que isso tudo, se mais nada, mostrava que todos estavam tão preocupados, que permitiam que um garoto de quase treze anos ajudasse e ninguém se opusera. Ron o olhou por alguns segundos e os outros Aurores, e até Snape, que o observavam, esperando.

— Certo — disse. — Por aqui. — Começou a ir na direção das escadas e eles o seguiram sem fazer perguntas.

— Espere — disse uma voz fraquinha, e Ron se virou para ver Ginny em pé, dando pequenos passos cambaleantes na direção deles. Fred, George e McGonagall estavam ao redor dela, claramente prontos para segurá-la se ela caísse. Enquanto Ron observava, ela se segurou em Fred para se equilibrar. — Eu também vou.

-x-

— O único lugar a que vai, senhorita Weasley — disse McGonagall, conjurando uma maca —, é para a Ala Hospitalar. Você está morta de cansaço.

Ela viu Ron se encolher e imaginou se ele, também, pensava que McGonagall estava mais perto da verdade do que sabia. Mas Ginny ainda não tinha morrido, não podia morrer ainda, não quando ainda precisavam dela. Sua visão falhou e ela cambaleou. Fred tentou colocá-la na maca, mas ela se segurou nele, envergonhada e brava por ser tão difícil ficar em pé.

— Mal consegue ficar em pé, Ginny — disse George, aparecendo do outro lado para ajudar Fred a colocá-la na maca. Ela tentou chutá-los, mas mal tinha forças para levantar a perna. Seus irmãos a levantaram sem problemas.

— Não — disse ela. — Eles precisam de mim...

— Por mais nobres que suas intenções sejam — disse McGonagall, gentilmente, ao guiar a maca com um aceno da varinha —, os Aurores são muito competentes e certamente terão sucesso sem você.

Ouviu isso, Ginny? A voz era de Tom e a fez ofegar como se tivesse tomado um banho de água fria. Eles não precisam de você. Ninguém precisa de você. De fato, eles ficarão melhor sem você. Ginny tinha certeza de que não era realmente Tom, mas sua imaginação, influenciada... bem, influenciada por Tom. Ou pelo menos era o que esperava; a única coisa boa de ele ter o próprio corpo era que ele não precisaria mais do dela. Isso a mataria, se o que ele tinha dito era verdade, mas pelo menos morreria como ela mesma, sem Tom em sua cabeça, controlando sua boca e membros.

Ela nem tinha mais medo. Ou não tinha mais tanto medo.

A maca estava macia, mas firme sob ela, e ela estava tão cansada. A mão suada de Fred segurava a sua, e ela conseguia ver a expressão preocupada de George quando ele a olhava enquanto a maca flutuava. Seria tão fácil simplesmente fechar os olhos e permitir que todos os outros se preocupassem com as coisas. Mas Harry e Ron tinham ido atrás dela, e Ron estava bem, mas ela ainda podia ajudar Harry ou, pelo menos, ajudar os Aurores a ajudarem Harry. Podia ser tarde demais para ela, mas, com ajuda, Harry poderia impedir Tom, ou os Aurores poderiam, e Ginny achava que valia a pena morrer por isso. Sua visão falhou mais uma vez, e ela brigou contra a escuridão.

Ainda não, pensou, sentindo-se tonta.

— Eu tenho que ir com eles — disse Ginny, puxando a manga de McGonagall. Ela apenas a olhou, mas Ginny conseguia ver a preocupação em seus olhos. — Por favor — disse num fio de voz. Sentiu mais um pouco de suas forças sumir e seu coração perdeu uma batida. Talvez ele soubesse que estava ficando sem tempo. Ron e os Aurores tinham ido, mas não chegariam longe. — Caso contrário, eles não vão conseguir descer.

— Senhorita Weasley, você precisa da Ala Hospitalar — disse McGonagall com a voz pastosa.

— Tenho que ajudar — disse. Se estivesse bem, provavelmente teria gritado e batido o pé no chão para dar maior ênfase. Mas só deitou a cabeça na maca e lutou contra as pálpebras pesadas. Sua língua também estava pesada, como um pedaço de madeira. — É... ofidioglossia... eles não podem... mas eu... posso... — Virou a cabeça na direção de McGonagall, cujo rosto era um borrão sob um chapéu verde. — Eu tenho que... ajudar...

— Ofidioglossia? — perguntou McGonagall. Ela soara preocupada e um pouco sem ar. — Como você abriria, senhorita Weasley?

— Diga... Abra — suspirou. Achou reconhecer a moldura borrada de um quadro do quarto andar. — Nós... esse é... o caminho errado...

McGonagall disse alguma coisa que Ginny não ouviu e uma luz prateada brilhou. Ginny não conseguia nem juntar a força necessária para se sentar e ver o que era.

— Ginny — chamou George. Ginny não conseguia vê-lo, então assumiu que seus olhos estavam fechados. Não conseguia se lembrar do que fazer para abri-los, mas conseguiu virar a cabeça na direção da voz para mostrar que estava ouvindo.

— De novo, senhorita Weasley — pediu McGonagall do outro lado. — O que você diria para abrir?

Abra — disse Ginny para a escuridão; ainda não descobrira como abrir os olhos. — Você diz abra. Por favor... eu tenho que ajudar...

— Rápido — disse McGonagall (mas achou que não para si) e, então, começou a dizer outra coisa, mas o silêncio preencheu o mundo escurecido de Ginny.

-x-

— Você não a salvou — disse Riddle, tirando as vestes molhadas e olhando com irritação para o lugar de onde Fawkes sumira. — Só conseguiu mais alguns minutos para ela. O suficiente, talvez, para que pensem que ela vai se salvar. E aí ela morrerá. — O sorriso de Riddle era cruel.

— Não se eu te impedir — falou Harry, blefando. Estava ali pelo diário e sairia assim que o pegasse. Só torcia para que Fawkes voltasse, ou não teria escolha além de aparatar ou tentar ser mais rápido que Riddle. Não olhou para o diário ao falar; a última coisa que queria era que Riddle se lembrasse dele, porque isso dificultaria ainda mais as coisas.

— Que nobre — disse Riddle, zombeteiro. — Mas caso não tenha notado, Harry, está sozinho e eu estou ficando mais forte a cada minuto.

— Eu te venci quando você estava no auge — falou. Deu um passo para frente e sentiu algo suave sob seu pé. Era o Chapéu Seletor; pegou-o e o guardou no bolso. Fawkes tivera seus motivos para trazê-lo, tinha certeza, mas não sabia qual poderia ser esse motivo. Achava seguro assumir que o motivo não era entregar o Chapéu a Riddle. — Nem precisei sair do berço. — Sorrir era um esforço, mas ver Riddle corar num tom horrível de rosa fazia valer a pena. — E você também está sozinho. Eu gosto bastante da minha chance. — Apesar de gostar muito mais delas quando Ron e Fawkes estavam ali.

— Sozinho? — perguntou Riddle com outro sorriso. — Mas não estou sozinho, Harry; fale comigo, Sonserina, o melhor dos quatro de Hogwarts! — Um ruído forte fez Harry olhar para a estátua de Sonserina. A boca estava abrindo e conseguia ver algo se mover dentro dela.

Harry correu. Não para muito longe, porque não podia se afastar muito do diário, mas longe o bastante para estar escondido atrás de um pilar quando ouviu a cobra cair no chão da Câmara.

— Mate-o — mandou Riddle soando quase entediado, e a cobra respondeu com um sibilo que não significava nada. Harry ouviu as escamas contra a pedra quando a cobra se moveu e ouviu o tremeluzir de sua língua cortando o ar. Apalpou os bolsos, desesperado, mas só tinha sua varinha e o Chapéu.

Me deixe em paz — disse Harry ao basilisco — e eu não vou te machucar. — Lembrou-se do cavalo-do-lago na Mansão Malfoy e como tinha conseguido tirar vantagem de seu senso de autopreservação. Esperava que o mesmo funcionasse aqui.

Me machucar? — perguntou o basilisco. Soltou um sibilo estranho que poderia ter sido uma risada. — Por que eu teria medo de alguém com o cheiro tão aterrorizado quanto o ssssseu? — Ele soltou aquela risada estranha de novo, e Harry o ouviu se aproximar. Ele não estava com pressa, percebeu; o basilisco estava gostando disso tudo. Não que o culpasse; não teria muita chance se não pensasse em algo logo.

Olhou os pilares e imaginou se conseguiria derrubar um deles em cima da cobra. Conhecia o Bombarda, mas não achava que seria forte o bastante. E se o pilar não caísse do jeito que queria? E os feitiços ricochetariam das escamas grossas do basilisco...

A não ser que eu não mire diretamente no basilisco, pensou. Sacou a varinha, fechou os olhos e colocou a cabeça do outro lado do pilar, torcendo para ter calculado certo e para que o basilisco não estivesse perto o bastante para dar o bote. Não conseguia ver o basilisco – e, por isso, não podia ser petrificado –, mas conseguia ouvi-lo e sentir seu cheiro. Ele deu sua risada sibilada novamente, e arrepios correram pela coluna de Harry.

Colloshoo — gritou Harry e voltou para trás do pilar. Ouviu um sibilar de raiva (apesar de não ter certeza se tinha vindo de Riddle ou da cobra), mas o entendeu como um sinal de que o feitiço tinha funcionado. Harry procurou por outros feitiços que podiam ser úteis, mas os feitiços mais ofensivos que conhecia eram o Bombarda e o Incendio, e não achava que eles seriam particularmente úteis. Desejou ser bom o bastante em Transfiguração para conseguir conjurar um galo. Harry tinha certeza que conseguiria transfigurar um lobo, mas não tinha ideia de por onde começar com pássaros.

Conseguia ouvir o basilisco se debater do outro lado do pilar, tentando se livrar do feitiço de Harry.

Dê um jeito. — Ouviu o basilisco sibilar para Riddle.

Não posso. — Riddle soara particularmente amargurado sobre isso, e Harry sentiu uma onda de alívio. Conseguira, pelo menos, confirmar que Riddle não tinha uma varinha.

Certo, pensou, a cobra está presa, mas eu morro se olhar pra ela... meu lobo não vai ajudar em nada; a Madame Nora foi petrificada, como todo mundo. Ficou feliz por isso, caso contrário poderia ter tentado. E não sei onde a cobra está presa. Se a cabeça dela estivesse livre, ela ainda poderia dar o bote. E eu preciso do diário, mas se eu chegar muito perto de Riddle, ele pode roubar minha varinha e aí vou acabar morrendo do mesmo jeito.

Sentiu inveja de Padfoot então, por sempre conseguir convocar as coisas com magia. Harry ainda ia aprender essa habilidade. A única coisa que conseguia convocar era Monstro – e se xingou por não ter pensado nisso antes, mas com Fawkes lá não teria feito diferença –, mas não tinha como avisar Monstro e não podia arriscar que ele aparatasse dentro do campo de visão do basilisco.

Sentindo-se desesperado – mas era o antigo chapéu de Grifinória, então ele devia saber algo útil –, Harry pegou o chapéu e o colocou na cabeça. O basilisco ainda sibilava loucamente, frustrado.

Eu preciso matar o basilisco de Sonserina, disse Harry ao chapéu. Conhece algum feitiço ou... tem alguma ideia...

E uma ideia foi o que lhe acertou, dura, na cabeça.

Continua.