36. A Rosa Chantageada
Bervely, parada em frente ao espelho do sótão, fechou os olhos e deixou vir. Aprendera naquelas últimas semanas que era como chamar uma onda, e depois se deixar afogar por ela; e apesar de suas poucas (e traumáticas) experiências com o mar, curiosamente a metáfora funcionava.
Um formigamento sob a sua pele – sensação que beirara o doloroso no começo, mas agora começava a se tornar suportável – avisou que a metamorfomagia acontecia. Seu nariz mudando e alongando, o formato do seu rosto e boca, até as sobrancelhas, e o pescoço. O resto do corpo tomando contornos diferentes, mas mantendo a mesma altura (que era, aprendera, um dos aspectos mais difíceis de modificar com metamorfomagia). A cor da sua pele tomava o tom mais amarelo, um ardor nos olhos quando mudavam de cor. Tudo isso ela precisava imaginar em sua cabeça, mas segundo Tonks dissera, a maior parte era intuição, pura e simples.
Estava certa; quando abriu os olhos, Charlotte Summers lhe olhava de volta, ligeiramente transtornada. Apesar do profundo rancor que guardava a respeito daquela garota, aparentemente ter vivido com ela por tantos anos garantira a memorização perfeita do seu traços. O tom rosa pálido da boca, os olhos mais arredondados que os seus. Os cabelos… cachos apertados se despejando em seus ombros, loiro-palha e macios, os quais Hector um dia tanto apreciara.
Talvez de todas as exigências para a empreitada de se infiltrar no Projeto Orcus, o seu disfarce fosse a mais incomoda. Usar a pele de Charlotte era como vestir a capa banhada do sangue de alguém amado, mas morto. Às vezes, ela se sentia tão suja quanto a própria Charlotte, como se tivesse sido ela, e não a sobrinha de Rodolphos Lestrange, a tentar roubar Hector de sua família, e iniciar a sucessão de desastres que ocasionaram a sua morte. Uma traidora, e a sensação era como uma argola de ferro em torno do seu peito.
Um mal necessário, repetiu a si mesma, cerrando os olhos e respirando fundo. Quando o relógio marcou as oito horas, ela tirou o pequeno botão metálico do seu bolso, ele ferveu na palma da sua mão; houve um puxão no fundo do seu umbigo, e o sótão desapareceu.
– BD –
Bervely e Dr. Fritz andavam por um dos longos e circulares corredores de Azkaban. Este especificamente pertencia ao circulo externo, ala onde se encontravam locais como a Sala de Operações, a enfermaria, a Central de Segurança e, mais importante, a Sala de Arquivos, que era para onde estavam indo. O benefício do círculo externo era que não possuía celas – e consequentemente, nem dementadores.
– Se sente bem, Srta. Summers? Os primeiros dias em Azkaban podem ser difíceis.
– Eu estou ótima, obrigada. – lhe respondeu rigidamente. Apesar da consciência de que estava usando uma aparência completamente diferente da sua própria, era difícil manter em mente que o seu antigo medibruxo não tinha como reconhecê-la. O Dr. Fritz possuía olhos muito penentrantes, e ao contrário da maioria das pessoas, ele buscava contato visual sempre que tinha a chance. Passado o choque inicial de encontrá-lo ali em Azkaban no Projeto Orcus, ela estava dividida entre o alívio de trabalhar ao lado de alguém em quem já conhecia, e o receio de que o tanto que ele a conhecia fosse colocar o seu disfarce em risco.
– Lembre-se de sempre usar a sua Chama Patronal – apontou para a corrente em torno do seu pescoço, que brilhava azulada – Não é porque ainda não estamos trabalhando diretamente ao lado de dementadores que eles não nos afetarão.
Ela assentiu; como se precisasse daquela recomendação para saber que não tiraria o colar do seu pescoço em nenhuma hipótese enquanto estivesse em Azkaban. O artefato não tinha a força de um Patrono, já que não era gerado pelas memórias felizes do bruxo que o utilizava – era, na verdade, uma memória feliz genérica encantada para ficar dentro da esfera; se tratava portanto de um feitiço fugaz, e que exigia reforços frequentes para não perder o seu efeito. Ainda assim, mantinha os dementadores desinteressados, um disfarce mágico que deixava suas emoções invisíveis, desde que estivessem relativamente equilibradas.
Eles finalmente encontraram a Sala de Arquivos no fim do corredor; um dos quarters, que Bervely ainda não conhecia, aguardava com a chave enfeitiçada em um molho, e abriu a porta para eles com a cara fechada. Não pela primeira vez, ela teve a sensação de que os membros do Projeto Orcus causavam certa indisposição nos funcionários da fortaleza.
– Hoje daremos início à parte que nos cabe no Projeto – começou a dizer o Dr. Fritz, enquanto ela olhava ao redor da sala com curiosidade. Estavam cercados por paredes repletas de nichos quadrados, fechados com portinholas de pedra, cada uma marcada com runas e números. Lembrou à Bervely um mausoléu com gavetas para guardar ossos. – Aqui ficam as informações de todos os bruxos que estão ou já estiveram em Azkaban. É claro que não vamos visitar todos, isso seria impensável. O que sugere, Srta. Summers?
Ela tomou um susto; estivera tentando descobrir o que os símbolos nas portas significavam. Estudara Runas em Durmstrang, mas não era o seu forte, definitivamente. Voltou o corpo para o Dr. Fritz, cogitando a pergunta por um momento e ganhando tempo… sabendo que se parecesse um pouco retardada, aquilo ia perfeitamente bem com a aparência que usava.
– Podemos… tirar uma amostra?
Ele sorriu amplamente.
– Uma ótima ideia, e acredito que a melhor opção num caso como este. Agora, existe um feitiço perfeito, mas na ausência das nossas varinhas, vamos com o velho e bom pergaminho. – Fritz tirou de sua pasta de couro um rolo de papel pardo, que esticou na única mesa empoeirada do aposento. Bervely se aproximou para ver uma lista de códigos iguais aos que haviam nas portinholas ao redor deles. – Eu tive a oportunidade de me reunir com o Diretor da prisão ontem, – o medibruxo explicou, enquanto pegava uma pena entre os seus pertences – e ele me orientou sobre o sistema usado aqui em Azkaban para organizar os prisioneiros. Eles ficam dispostos em ordem de periculosidade; os que cometeram crimes mais leves ficam nas celas mais distantes da torre de vigilância, e os que cometeram crimes mais graves ficam mais perto. A torre de vigilância é onde os dementadores se concentram, você sabe.
Ela assentiu. Azkaban não disponibilizara um mapa para a equipe – segundo eles, a divulgação de tal material poderia configurar uma ameaça à segurança da prisão, e era por isso que eles precisavam ser seguidos por quarters onde quer que fossem – mas ela estava ciente de que a prisão tinha três níveis concêntricos de celas, e no centro havia a torre, um obelisco de vinte metros de altura de pedra sólida muito imponente e visível do cais, no exterior da prisão. As sombras dos dementadores eram visíveis pairando em torno dele o tempo inteiro, e sua extremidade tocava as nuvens baixas e pesadas que residiam sobre a ilha.
– Vamos escolher a nossa amostra de forma aleatória a partir dessa lista. – ele definiu, indicando a pena – Pelos meus cálculos, cinquenta prisioneiros é um número bom o bastante. Pode me ajudar?
– Eu? Sim, claro. – adiantou-se, inclinando-se para a lista incompreensível. Parecia bastante difícil que em meio às centenas de prisioneiros isolados naquela fortaleza e listados naquele pergaminho ela fosse capaz de escolher o código que a levaria à Sirius Black, mas Bervely fez o que lhe fora pedido e começou a apontar nomes, contando que a sua intuição fizesse um bom serviço.
Alguns minutos mais tarde, Fritz tinha em mãos os códigos dos cinquenta prisioneiros que estariam avaliando no mês seguinte. Ele lhe explicou a lógica das runas – elas indicavam a Ala em que o prisioneiro se encontrava, a duração da sua sentença, e o número da sua cela– e depois identificaram o primeiro da lista (†¥ 267) e acharam o seu respectivo nicho na parede.
– Precisaremos solicitar que um dos Quarters abram o arquivo de que precisamos. – informou em voz baixa, e depois voltou a falar no nível normal, se dirigindo ao guarda parado na porta e solicitando a abertura enquanto Bervely observava fazendo uma careta.
– Isso parece contra-produtivo. – observou, quando o Quarter já retornara a sua posição e não podia mais ouví-los. O Dr. Fritz continuou sério, enquanto manuseava o conteúdo retirado do nicho.
– São as normas de segurança. Veja, dentro da pasta ficam todas as informações do interno, e dentro da caixa, todos os pertences que estavam com ele no dia da sua prisão, ou pelo menos os que não são apreendidos para análise. Agora, eu entendo que você ainda não tem experiência prática com avaliações psicofísicas, então hoje só vai me acompanhar e observar o modo de proceder, está bem?
– Como o senhor quiser. – disse em concordância, com o mesmo tipo de voz doce e servil que ouvira Charlotte usar a sua infância inteira. Se estava usando o corpo da garota, podia muito bem se aproveitar da sua personalidade subserviente para ganhar a confiança do medibruxo, porque certamente iria precisar disso no futuro.
Bervely recebeu a pasta, folheando o conteúdo do interior. Havia a foto de um homem de meia idade com o cabelo falho, já vestido no fardamento de Azkaban; um macacão cinzento áspero, com reforços nos joelhos e cotovelos, e segundo diziam, completamente revestido com os mais diversos feitiços de contenção.
"Bruxo nascido trouxa em 1961. Sete anos completos de ensino escolar em magia, com NIEMS em Poções, Feitiços e Numerologia. Retido por cultivo de ervas venenosas sem portar permissão da Sessão de Controle do Uso de Ingredientes Perigosos. Pena: 1 ano e 3 meses de retenção na prisão de Azkaban."
Embaixo disso, um texto extenso explicava em detalhes a situação do bruxo, mas ela leu apenas superficialmente. Um trecho de atualização automática ao final da página indicava que ainda faltavam 4 meses para o fim da sua sentença.
– O primeiro passo é pedir ao Quarter para nos levar até a cela 267. Como as celas em Azkaban estão sempre mudando de lugar, não há uma forma de encontrá-las sem ajuda.
Ela assentiu, e logo eles caminhavam pelo interior labiríntico de Azkaban mais uma vez. Lembrou-se vagamente de quando estivera ali na páscoa, do quão mal os dementadores lhe fizeram, o quão horrivelmente o seu braço queimava… escondida pela manga da camisa, a marca da rosa continuava adormecida, e Bervely esperava que a situação não mudasse à medida que se aproximasse do interior da fortaleza e dos dementadores. Por alguma razão que não podia compreender, Bellatrix se encontrava incapaz de saber que estava ali, tão perto, e Bervely não estava reclamando.
– Srta. Summers, me permite fazer uma pergunta pessoal? – o Dr. Fritz questionou, à meio caminho da cela para o qual o Quarter os guiava. Ela manteve sua expressão neutra e assentiu, mas internamente uma ponta de nervosismo brotou instantaneamente. – Qual interesse teria uma bruxa jovem como você, recém formada e com toda uma variedade de áreas de trabalho pela frente, em escolher servir num projeto como o Orcus, em um ambiente inóspito como Azkaban?
Eles tinham acabado de atravessar um corredor perpendicular que os levava para o primeiro anel de contenção da fortaleza, e o frio desesperançoso proveniente dos dementadores começava a se insinuar entre as paredes de pedra. A Chama Patronal impedia-lhe de ser diretamente afetada por um dementador, mas nada podia fazer em relação à atmosfera depressiva que as criaturas impregnavam no local.
– O Projeto Orcus paga bem – mentiu, com uma sinceridade limpa impressa na voz de Charlotte – E eu preciso do dinheiro.
– Paga bem por uma razão – o Dr. Fritz pressionou – Poucos bruxos se dispõem a prestar um serviço como esse, mesmo considerando a retribuição monetária. Mas às vezes outras motivações…
– É a minha única motivação. – disse com segurança. Fritz lhe olhou de um jeito que ela só pode definir como intrigado, mas eles finalmente chegaram à entrada do primeiro nível, e os dois dementadores parados no corredor se viraram em sua direção como flores muito macabras atraídas pelo sol.
– Aguardem aqui – disse o Quarter, avançando na frente. Bervely sempre se perguntara como eles se comunicavam com os dementadores, mas tudo que pode ver foi o guarda apontando a sua varinha para a própria Chama Patronal; ela se tornou branco luminosa, e um minuto depois os dementadores estavam flutuando para o fim do corredor, longe deles.
– Me sigam. Se mantenham no centro do corredor, sem se aproximar das celas. – o auror recomendou, avançando logo em seguida sem esperá-los. Bervely atravessou a sucessão de celas, e várias delas pareciam vazias. Aqui e ali, rostos apareciam e desapareciam nas sombras, mas ela honestamente preferia não encará-los. – Cela 267. Interno, mãos na grade!
O homem dentro da cela obedeceu, colocando ambos os braços em aberturas circulares nas grades, e elas envolveram seus pulsos, se transformando em correntes ligadas às hastes de metal. Ela desviou o rosto com desconforto, e logo que o fez encontrou o Dr. Fritz lhe observando atentamente. Havia algo no olhar dele… empatia? Talvez a cena também não lhe agradasse.
– Vocês podem entrar agora – informou o Quarter, fazendo surgir um espaço entre as grades com um novo aceno da sua varinha. – Assim que passarem eu devo trancá-los, por medida de segurança, mas não se preocupem, estarei aqui por todo o tempo e o interno não lhes pode fazer mal.
O interno, ela repetiu mentalmente, seguindo Fritz para dentro da cela, que fedia à degradação humana. Aquele homem, que só estava ali há um ano e dois meses, sequer possuía o direito ao seu próprio nome. O quanto de si mesmo teria perdido Sirius Black, naqueles últimos doze anos?
– BD –
Não tomou ciência do seu nível de exaustão até voltar para para Ottery St. Catchpole, usando a mesma chave de portal de duas vias que lhe fora entregue pelo Olho de Horus como parte do "Kit Infiltração". O botão metálico tinha um feitiço portal ativado em horas muito específicas do dia: pela manhã, quando precisava ir à prisão, e à noite, quando era hora de voltar, mas nem o artefato mágico podia colocá-la de volta direto no seu quarto no sótão do chalé sem disparar todo tipo de feitiços de proteção que envolviam a casa. Em lugar disso, quando o navio de Azkaban a deixava no ancoradouro do continente, ela usava a chave de portal para voltar à St. Catchpole, nas proximidades do chalé, e cobria o restante do caminho a pé.
Essa noite, seu corpo tremia inteiro, apesar de não estar frio. A sua cabeça doía como se estivesse prestes a pegar uma gripe, e tudo que queria era um banho quente e a sua cama. Poderia dormir até mais tarde no dia seguinte, só era esperada na ilha na quarta feira… mas quando abriu a porta da cozinha, percebeu que não estava sozinha, e que a única ocupante da mesa lhe analisou de cima abaixo atentamente sobre uma caneca de chá.
– Andrômeda? – reconheceu, surpresa. Era muito cedo para a bruxa estar de volta ao hospital, de qualquer maneira.
– Bervely. – ela entoou, num tom em suspenso, mas como não teceu nenhum outro comentário, a garota entrou e se precipitou para a despensa, de onde retirou uma barra de chocolate das reservas da prima. Foi observada enquanto abria o pacote e comia um pedaço, se sentindo tão melhor, de forma tão instantânea, que mal se incomodou com a pergunta silenciosa impressa no rosto da outra bruxa.
– O trabalho terminou mais cedo hoje? – perguntou casualmente, destacando outro quadradinho.
Andie franziu o cenho ligeiramente; estava analisando as suas roupas. Bervely vestia um conjunto antigo: calças verde escuras, uma camisa social cinza clara de botões e um casaco de corte reto que já estava curto em seu braços, então ela dobrava na altura dos cotovelos para disfarçar. Voltara, é claro, à sua aparência normal, mas sabia que a mulher estaria estranhando o uso daquelas roupas formais.
– Não, na verdade eu pedi uma pequena dispensa hoje. Lembra-se que combinamos de ir até o Beco Diagonal lhe comprar umas roupas?
– Nós não combinamos, você decidiu que eu precisava e eu fiquei calada porque parece inútil ter essa discussão, você vai acabar comprando tudo de qualquer jeito.
– Olhe só, você está ficando esperta – ela sorriu em aprovação satisfeita – Agora, será que eu posso perguntar onde esteve até uma hora dessas, ou isso seria muito incomodo?
O teor da pergunta não lhe incomodou, como teria há algum tempo – já a esperava, honestamente. E já tinha a resposta para ela, teria de contar cedo ou tarde.
– Eu arranjei um emprego.
– Como assim? Você não pode trabalhar, é menor de idade.
– É num programa de jovens aprendizes – explicou pacientemente, destacando o terceiro quadradinho da barra e o analisando por um momento. – Não é nada demais, mas não posso ficar dependo do seu dinheiro para sempre, né?
Ela estreitou os olhos suspeitosamente.
– Que programa de jovem aprendiz, e como exatamente você obteve uma autorização? Severus por acaso concordou com isso?
– Não, eu falsifiquei a assinatura de Narcissa.
– Bervely!
Ela suspirou entediada.
– Eu sou filha de dois criminosos, lembra? Você não pode esperar que eu aja corretamente o tempo todo.
Andrômeda pousou sua caneca com um pouco mais de força do que precisava, seu rosto ganhando uma nuance de insatisfação evidente.
– Se você pretende usar esse argumento absurdo para se safar de atitudes irresponsáveis…
– É só um trabalho de férias, Andrômeda. – cortou, engolindo o chocolate e se sentindo bem melhor. – Não precisa esse monte de preocupação, eu sei me cuidar, ok?
Andie deu um suspiro exasperado e meneou a cabeça, mas enfim pareceu se convencer de que pressionar a sobrinha não faria nenhum bem àquela relação, que vinha se equilibrando relativamente bem pelos últimos dias. Ao invés disso, puxou dois envelopes de debaixo da fruteira e lhe estendeu.
– Você recebeu correspondência.
Bervely aceitou, por um momento esperançosa que fossem notícias de Tara. Desde o fim das férias não tinha notícias da garota, e como nenhuma nota saíra no jornal a respeito de um certo ruivo morto pelo pai de uma certa ruiva, supunha que o seu plano insano de fuga ao Egito tinha dado certo. Mas nenhuma das duas era da garota. Estava escrito "Anne L.", numa caligrafia bem redondinha e caprichada. A outra era de Oliver.
– Hum, obrigada. Vou ler lá em cima.
Quando ela olhou para a mulher novamente, havia um sorrisinho malicioso em seus lábios que não estava ali antes.
– Oliver é o rapazinho da estação, não é?
Bervely sentiu o rosto esquentar, diante do tom interessado da tia. Não há nenhum motivo para ficar constrangida, disse duramente à si mesma, se sentindo uma idiota.
– Ele é só um amigo.
– É claro que é, querida.
– Boa noite, Andrômeda.
A mulher deu uma risadinha divertida.
– Boa noite, Bevy. Acorde cedo amanhã, vamos fazer um passeio divertido ao Beco e então você pode me contar tudo sobre o se novo emprego e o seu… amigo.
– BD –
– Tonks não vai? – Bervely estranhou, quando na manhã seguinte se encontraram em frente a lareira, a bruxa mais velha em um longo vestido turquesa que lhe deixava espetacular, e Bervely sonolenta e mau humorada por precisar acordar cedo no único dia da semana que não iria trabalhar ao lado de seres das trevas que ganhavam a vida sugando almas.
– Não, ela está arrumando as malas.
– Ela não pode fazer isso à noite?
– Você já viu sua prima fazendo malas? Pode levar uma semana inteira. – e com essa afirmação deu uma risadinha, avançando e lhe entregando o vaso de flú para que pegasse o seu punhado.
A garota rolou os olhos, se perguntando se Tonks herdara da mãe aquele humor luminoso de manhã cedo e que sentido fazia a existência, ou porque ela realmente precisava comprar roupas, ela odiava comprar roupas, porque não podiam simplesmente enviar as suas medidas para a Madame Malkin, como Narcissa fizera por anos a fio ao longo da sua infância?
O Beco Diagonal estava lotado, com pessoas se esbarrando com sacolas e crianças melequentas correndo de um lado para o outro, implorando aos pais por coisas como ferrets e corujas ou alguma vassoura recém-lançada. O sol, por sua vez, estava tão à pino que Bervely se arrependeu por ter se vestido inteira de preto em homenagem ao seu humor matinal.
Andrômeda lhe apontava uma e outra loja de roupas as quais nunca considerara entrar antes, ignorava as suas caretas indecisas e tinha o bom senso de lhe sugerir cores razoáveis – azuis escuros, verdes, beges e roxos profundos, um branco aqui e ali, mas rolava os olhos para as peças pretas e cinzas.
– Você tem uma pele tão linda – ela dizia, pegando uma saia xadrez cinza e amarela – precisa destacá-la com uns tons mais vivos! Olha, que tal essa aqui, azul royal, vai ficar tão bonita…
Em uma hora, ela já tinha experimentado uma centena de peças (ou ao menos era como se sentia) e escolhido um numero de eleitas bem reduzido, as quais a vendedora ia empilhando no balcão. Elas finalmente saíram da loja apertada para o lado de fora, onde Bervely conseguiu respirar novamente sem o cheiro de tecido impregnando as suas narinas.
– Nós estamos ficando sem opções – Andrômeda suspirou. Obviamente, estava desolada que a sua diversão forçosamente chegava ao fim – o Beco Diagonal é bom para muitas coisas, mas moda feminina definitivamente não é uma delas! Sabe, a Dora costuma comprar em algumas lojas em Londres, acho que você gostaria…
– Nem pensar. – frizou, no fundo sabendo que o momento perigoso chegaria. – Não vou comprar roupa trouxa.
– Mas todo mundo da sua idade usa roupa trouxa por baixo das vestes bruxas, querida. As calças jeans…
Ela teve um arrepio de aversão, quando se recordou da opinião de Narcissa sobre jeans. Podia guardar mágoas da tia, mas continuava carregando as suas concepções de indumentária fielmente – a Malfoy era a mulher mais elegante que conhecia, e nem o fato de ter lhe dado as costas poderia mudar esse fato.
– Tudo bem – Andrômeda lamentou – Mas mesmo assim, eu preciso ir na Londres trouxa pegar algumas encomendas que Tonks fez pra a viagem… se importa de vir comigo?
– Eu prefiro esperar no Caldeirão Furado.
– Mas eu realmente poderia contar com a sua ajuda para carregar os pacotes, não é como se eu pudesse reduzi-los com mágica no meio dos trouxas, não é mesmo?
Bervely rolou os olhos; sabia que Andrômeda estava usando desculpas, e nem disfarçava de verdade, mas acabou concordando, porque naquela hora o Caldeirão Furado começava a se encher com famílias dando uma pausa nas compras para almoçar, e o lugar parecia e soava muito com um corujal superlotado.
Então, ela se viu andando nas ruas de Londres, onde curiosamente as pessoas não esbarravam acidentalmente umas nas outras. Era engraçado observar os trouxas e como eles eram esquisitos – levavam montes de objetos estranhos consigo, falavam sozinhos com caixas grudadas em seus ouvidos, prendiam os animais de estimação com cordas em torno de seus pescoços, tinham um monte de meios de transporte diferentes, e nunca estava claro para que serviam… se havia aquele trem que passava por debaixo da terra, porque eles precisavam dos automóveis e das coisas estreitas de duas rodas, que pareciam terrivelmente instáveis? Como se equilibravam naquilo sem mágica?
– Tudo bem aí? – Andrômeda olhava para ela com uma expressão cômica. Bervely franziu mais quando um casal de adolescentes trouxas passou ao seu lado, e cada um deles tinham um fio saindo de dentro de sua orelha, ligado à uma das caixas pequenas que ela não entendia pra que serviam.
– É só que eles são tão bizarros. – incomodou-se, observando o casal se afastar atravessando a rua.
– Eles são ótimos.
– É, você diria isso.
Elas entraram, sob o direcionamento de Andrômeda, numa pequena galeria com vitrines de vidro cheias de manequins em roupas. Manequins perfeitamente estáticos, com perucas e olhos pintados, que lembravam gente morta – um tanto macabro, se lhe perguntassem.
– Sabe, os trouxas pensam exatamente do mesmo jeito à respeito de nós, bruxos, quando conhecem os nossos hábitos. Também somos bizarros para eles.
– Isso porque eles não sabem como é viver do jeito certo. – ela retrucou.
– E qual seria o jeito certo?
– Com magia, é óbvio.
– Isso não é verdade, Bervely.
– O quê, quer dizer que você acha mesmo normal isso de viver sem magia? Olha pra eles! Todo tipo de adaptação bizarra, de máquina estranha, que precisam inventar pra se virar sem uma varinha! Parece tão trabalhoso, e consome tanto tempo, como eles tem tempo pra viver, quando precisam resolver tanta coisa?
– Para a maioria deles, viver é resolver esse monte de coisas.
– Soa muito como desperdício de vida. – ela bufou, achando aquela conversa um absurdo, mas Andie sorriu complacente.
– Também pode ser fascinante. – comentou, em seguida entrando em uma das lojas da galeria e perdendo o rolar de olhos incrédulo da sobrinha. Era cheia de couro preto, spykes e correntes, e parecia muito mais com o tipo de roupa que Guilherme Weasley gostaria.
– O que Tonks poderia possivelmente querer dessa loja para levar à Romênia?
– "Uma bota descolada" – Andie fez aspas com os dedos, divertida – Palavras dela. Ah, por favor, moça, a minha filha fez uma encomenda com vocês há uma semana… isso, Nimphadora…
Quando a atendente, que tinha cinco argolas pregadas na pele sobre a sua sobrancelha, saiu para os fundos da loja para pegar o pacote, Bervely cruzou seus braços e apoiou o quadril na quinta no balcão, muito cética.
– Como Tonks fez uma encomenda aqui? Não me diga que os trouxas já estão recebendo correio coruja.
– Ah, não ela usou a internet.
– A o quê?
– É uma espécie de rede de comunicação, uma.. uma coisa que fica na linha… eu não sei, se quer mesmo saber, melhor perguntar pra ela.
– Não mesmo, é capaz dela querer me mostrar. – negou, fazendo a tia rir. Ainda de forma superior e desdenhosa, Bervely correu seus olhos distraidamente pelo resto da loja, percebendo que depois da sessão "rebelde sem causa com espinhos" havia uma outra, com um tipo diferente de roupas, rendas e veludo, espartilhos e abotoaduras… foi quando ela o viu. O impacto foi tão grande que perdeu o fôlego por um segundo, e então ajeitou sua postura, o que chamou a atenção de Andrômeda para o seu ponto de interesse.
A bruxa sorriu em compreensão.
– Você gosta?
– Sim. – confessou Bervely, sem conseguir tirar os olhos dele.
– Quer provar?
– Não sei, será que vai ficar bom?
– Só vamos saber se tentar.
Pestanejou, incerta. Estava numa loja trouxa, mas então…
– Tudo bem. – disse num suspiro de rendição. Sentia-se como se estivesse cedendo à um terrível pecado. Ao seu lado, Andrômeda abriu seu sorriso de forma tão ampla que era de se pensar que tinha acabado de ver um sonho se realizando.
– BD –
Uma hora – e surpreendentemente, muitas sacolas cheias mais tarde – ambas saíram da loja trouxa com um balanço de humor bem melhor do que entraram, especialmente Bervely, que estava surpresa com as sensações que a experiência lhe proporcionara.
Estava se sentindo tão leve que nem implicou com o que acharam no fim da galeria; uma espécie de corredor cheio de quadros nas paredes, iluminados ao redor da moldura, com imagens que definitivamente não eram pinturas. Ela leu "Dennis, o Pimentinha" (o garotinho da foto lhe lembrou Draco em sua melhor fase), "Aladdin", "Proposta Indecente" e "Free Willy" – nenhum dos nomes fazia qualquer sentido, especialmente o último, onde um golfinho fora pego no meio de um salto no ar. Nenhuma se movia, tornando tudo mais estranho – porque os trouxas colocavam fotos com nomes nas paredes?
Na verdade, a primeira foi a que lhe chamou atenção, e ela logo percebeu o porquê: estava escrito "O Mundo Perdido – Jurassic Park". Na imagem, havia uma fera enorme, esverdeada e cheia de dentes que não era nenhum animal mágico que ela estudara, mas tampouco parecia uma fera com a qual trouxas podiam lidar.
– Bervely, o que foi? – Andrômeda percebeu que a sobrinha não estava lhe acompanhando, e voltou para ver por que parara.
– O que exatamente isso significa?
– Jurassic Park? Não sei, nunca assisti. Se está em cartaz, deve ser novo.
Ela lhe deu um olhar branco e confuso, provocando humor na bruxa.
– Desculpe, acho que a sua pergunta era mais fundamental. É um filme. É transmitido em um cinema, como esse aqui. – ela apontou mais à frente, onde havia uma espécie de bilheteria com cabines de vidro cheias de doces trouxas e outros produtos desconhecidos.
– Um cinema? – ela perguntou, incerta, tinha certeza que não conhecia a palavra.
– Sim, é um pouco difícil explicar, mas eu poderia lhe mostrar, se quiser. É bem divertido. Posso olhar lhe eles tem uma sessão para hoje mais tarde…
– Não. – ela arregalou os olhos, alarmada – Já tive bastante de exposição trouxa por hoje, obrigada.
– Tudo bem, vamos para casa, já passou da hora do almoço de qualquer maneira. Você sabe como Ted e Dora podem ficar mal humorados e homicidas quando passa da hora de comer deles.
Elas retornaram para o Caldeirão Furado, e voltaram para casa de forma segura através de Flú – não via a hora de passar em seu exame de aparatação e se livrar do incômodo das cinzas de lareira.
– Me deixa ver TUDO que você comprou! – Tonks saltou em cima dela, meio histérica, quando entrou no sótão para guardar as sacolas. Ela não poderia esperar um só segundo sem inspecionar suas as compras, mas pela primeira vez Bervely não se importou em apresentar as peças recém-adquiridas.
Foi inesperadamente satisfatório ouvir a aprovação da garota mesmo que as suas peças não fizessem parte da paleta de Tonks (que basicamente compreendia as cores primárias e suas variações brilhantes ou fluorescentes). – AH MINHA DEUSA ESSE VESTIDO! – ela guinchou, ao abrir a peça que Bervely vira no manequim, e que tocara o seu coração como nenhuma roupa tinha tocado antes.
Não conseguiu conter um sorriso presunçoso.
– Eu sei.
– Você tem que vestir ele agora! Preciso ver no seu corpo, deve ficar incrível, olha esse decote! Eles tinham esse modelo em rosa choque?
Bervely rolou os olhos, mas arrancou a blusa – tinha feito aquilo tantas vezes naquele dia que o gesto se tornara automático. Se virou suspendendo o cabelo para a outra ajustar as cordas nas costas, e depois que ajeitou a parte da saia nas pernas, tirou as calças que ainda usava e as jogou longe.
– Você está tão sexy que se eu gostasse da coisa eu iria pro altar com você nesse exato momento. – ela brincou, fazendo Bervely lhe dedicar uma careta e arremessar um travesseiro em sua cara. – Não, sério, eu disse altar, mas eu quis dizer outra coisa. – completou com uma piscadela.
– Cala a boca, Nimphadora. – resmungou, indo se olhar no espelho.
– Ela tem razão, sabe. – disse o espelho em tom de aprovação. Bervely fechou a porta do armário com outro muxoxo exasperado.
– Você vai usá-lo para o seu encontro com Oliver? – Tonks cantarolou, fazendo a Black se virar tão rápido que o seu pescoço estalou.
– O quê? Do que encontro está falando?
O cabelo dela ficou rosa, bem como suas bochechas, e Nimphadora olhou para cima de forma culpada, como se tivesse acabado de fazer uma travessura.
– Ops, ele não te chamou ainda? Ou você ainda não se tocou?
– Você sabe alguma coisa – estreitou os olhos perigosamente – É claro que sabe! – enérgica, puxou o papel que Oliver lhe entregara dias atrás e estendeu na frente dela – É o que isso significa, um encontro? Em um daqueles… ci..nemas trouxas?
O sorriso satisfeito que a garota abriu foi bem semelhante ao que a sua mãe usou mais cedo, quando Bervely aceitara provar a vestido.
– Hum, como estamos espertinhas desvendando os mistérios!
– Tonks! O que exatamente isso significa? – pressionou, usando seu tom perigoso. Infelizmente este nunca tivera grandes efeitos com Nimphadora e ela continuava rindo como se soubesse de ótimos segredos.
– Não estou autorizada a falar nada sobre isso, mas posso dizer que está no caminho certo.
– Mas você acabou de dizer que é um encontro!
– Pensei que fosse óbvio. Quero dizer, já não está mais que na hora? Vocês estão se pegando há meses.
– Não estamos "nos pegand–, ah, pelas abotoaduras de Slytherin. Acho melhor a gente descer pro almoço, antes que eu esgane você.
Sua retribuição à ameaçada foi uma gargalhada, que durou enquanto Bervely tirava o seu vestido novo, pendurava cuidadosamente no guarda roupa e vestia roupas de ficar em casa.
– Mas você vai, não vai? – Tonks se preocupou, quando finalmente conseguiu parar de rir – Encontrar o Oliver?
– Não estou autorizada a te falar nada sobre isso. – devolveu. Tonks quicou fora da sua cama, pronta para lhe acompanhar ao andar de baixo.
– Por favor vá. Talvez eu apareça por lá disfarçada, só pra ver a cara que Wood vai fazer quando te ver nesse vestido…
– BD –
Você já descobriu o que significa?
Oliver.
– BD –
Eu acabei de descobrir o que significa. Eu vi um monstro verde em uma foto. Eu acho que você está fora de si.
B. Black.
– BD –
Vai ser divertido.
Oliver.
– BD –
Bem, nesse caso, divirta-se.
B. Black.
PS: Eu não acredito que você desperdiçou uma viagem de coruja para escrever três palavras.
– BD –
Dê uma chance pra um pouco de magia trouxa.
Oliver.
PS: Eu disse à minha coruja que era uma dissertação de cinquenta linhas sobre os hábitos de acasalamento dos sereianos. Acho que ela ainda não sabe ler, então não ficou ofendida com a mentira.
– BD –
Eu estou suponho que a "mágica trouxa" se refira à você? Poupe-me.
B. Black.
PS: Haha, muito engraçado.
– BD –
Eu estava me referindo ao cinema, mas também posso te mostrar a minha Mágica Wood.
Oliver.
– BD –
De verdade, Wood? Isso foi completamente indecente, não sei nem por onde começar. Essa é a sua estratégia para chamar uma garota para um encontro? Não me surpreende que a sua vida seja tudo sobre quadribol e vassouras. Leve aquela sua Cleansweep 200, talvez ela possa gostar de um pouco de "Mágica Wood" também.
B. Black.
– BD –
"Também" significa que vocês duas gostam? Ok, parei com as gracinhas. Desculpe. Se quiser posso pedir permissão ao seu guardião (Isso seria Ted Tonks? Posso enviar uma carta para ele agora mesmo, com o selo da família Wood e tudo). Do que você precisa para ir ao cinema comigo?
Oliver.
PS: Estou honrado que você se lembre a marca da minha vassoura.
– BD –
Não se atreva a mandar uma carta para Ted Tonks sobre isso. Eu não preciso de nada para ir ao cinema com você, na verdade ando muito ocupada. E a sua família não tem um selo.
B. Black.
– BD –
Então você não vai?
– BD –
As imagens dos trouxas nem se movem. O quão deprimente é isso? Nada de Jurassic Park mim, obrigada.
B. Black.
– BD –
Eu não queria, mas eu vou ter que apelar para o golpe baixo, então.
– BD –
E qual seria esse, "Mágica Wood" de novo?
B. Black.
PS: Assine suas cartas. Pare de ser um bárbaro.
– BD –
Não, Mágica Wood é boa demais para usar em chantagem, pra ganhar você tem que merecer.
Vou usar a carta que tenho guardada na manga: você me deve uma, lembra? Na verdade, você me deve duas (endereço de Olivia Loren e aquela viagem divertida à uma certa ilha, caso não se lembre).
Uma vez alguém me disse que Blacks honram suas promessas.
OLIVER PETER WOOD.
– BD –
SEU NOME DO MEIO É PETER?
– BD –
Sim, por quê?
Rose, tenha dó da minha coruja, ela já está com asas penduradas aqui, tem ideia de quantas viagens ela já fez até Ottery e de volta essa semana? Foram DEZOITO.
Diga sim. Te vejo amanhã às sete e meia da noite no Century 8. Eu serei a pessoa com um saco enorme de pipoca, não tem como confundir.
Sr. Quem Foi Que não Assinou Agora?
– BD –
Não faço ideia do que está falando. Como eu disse, ando ocupada.
B. Black
Bervely acabou de escrever o bilhete, enrolou e colocou no pé da coruja; tinha atrasado aquela resposta de propósito, a recebera na noite do dia anterior e fora dormir sem escrever. Mas a coruja de Oliver – que se chamava Quaffle e era a primeira da espécie a ver a Srta. Calliway e ter a decência de não tentar caçá-la – ficara rondando a casa até agora, o entardecer do dia seguinte.
Despachou a coruja e olhou para o relógio, sentindo-se muito, muito exausta. Acabara de chegar de Azkaban, de mais um dia de trabalho completamente intenso, cheio de muito treino em análise psicofísica com Fritz e nenhuma chance de se aproximar da cela de Sirius Black; sentia como se a missão da sua vida fosse deitar em sua cama e se fundir à ela como se fosse parte da espuma do colchão.
Seis horas e trinta e cinco, os ponteiros indicaram. Inquieta, puxou uma nova – a terceira – barra de chocolate que devorava aquela semana. Felizmente Tonks não se encontrava por ali para reclamar que estava dizimando seus doces, pois fora passar algumas semanas na tal reserva de dragões da Romênia. Segundo ela, tinha que "aproveitar as coisas boas da vida enquanto ainda era livre", e talvez Andie e Ted acreditassem que as "coisas boas" eram dragões filhotes fofos, mas Bervely sabia muito bem que a prima pretendia era se aproveitar era de um certo ruivo filhote de Weasley.
Seis horas e quarenta minutos.
– Eu não acredito que o nome do meio dele é Peter – praguejou em voz alta para ninguém em especial, já que os tios também não estavam por ali. – Isso só pode ser uma brincadeira de mal gosto do destino!
Destacou mais um quadradinho de chocolate, mas o doce não estava ajudando. A inquietude em seu estômago, hoje, não tinha qualquer relação com o efeito dos dementadores ou a rotina decrépita da prisão. Não. O que se debatia ali dentro eram coisas com asas e um propósito.
Seis e quarenta e cinco.
Mesmo se eu decidisse ir agora, de qualquer maneira não daria tempo, racionalizou consigo mesma, querendo que o estúpido coração parasse de bater rápido como se ela estivesse fazendo alguma coisa errada.
Seis e cinquenta.
Subiu para o sótão, tentando entender porque já não estava mais tão cansada, porque a vontade de se fundir com a cama e morrer até o dia seguinte de repente sumira. Quando acendeu as luzes com a varinha, percebeu que não estava sozinha; Quaffles lhe esperava no parapeito da janela.
Se recusara a levar a sua resposta.
– Coruja má! – acusou. Recebeu um pio agudo e irredutível em resposta. – Eu não acredito nisso! Vou matar Oliver Wood!
Dali a quinze minutos ela estava tomada banho, enrolada em uma toalha e pingando, tirando do cabide a sua alma gêmea em forma de vestido.
Por que precisaria usá-lo, se ia cometer um assassinato – ou um encontro – aquela noite.
(Continua…)
Nota: Toda menina já passou por esse momento: dar de cara com AQUELE vestido que faz seu coração bater mais forte, seus joelhos enfraquecerem e seus olhos se encherem de lágrimas de emoção. Para vocês, como seria o vestido alma-gemea da Bevy? Me mandem fotos, quem sabe não aceito a sugestão de algum de vocês!
Ah, e não passem por cima das partes de Azkaban, elas são, obviamente, muito importantes.
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