(Cap. 37) Melhor

Notas do capítulo
Segundo capítulo extra depois do final prometido devido a comentários e participação de leitores.

Melhor

"Eu tenho medo do mundo

Eu tenho medo do que pode

Acontecer

Eu tô cansado de tudo

De tanto lutar e nunca vencer

A raiva que eu sinto

Vem das coisas que nós

Sabemos de cor

Quando eu vejo seu rosto

Eu quero ser melhor

Eu quero ser melhor

Pense no seu futuro

Essa conversa sempre

Me dá sono

Eu sou o rei da derrota

E me sinto pequeno

Aqui no meu trono

A dor do fracasso

Podia ser muito maior

Se eu não tivesse você

Pra me fazer

Melhor

A raiva que eu sinto

Vem das coisas que nós

Sabemos de cor

Quando eu vejo seu rosto

Eu quero ser melhor

Eu quero ser melhor"

Alvin L. / Dinho Ouro Preto

Eu estava morando na casa de Kent há algumas semanas. Minha casa na vila dos vitoriosos já estava quase pronta, e em breve eu poderia mobilhá-la. Mas a verdade é que eu não pretendia fazer isso tão cedo. Não fazia muito sentido, já que eu e Kent estávamos juntos. Como vitoriosa, a casa era a minha, mas não pensava em me mudar para lá, pelo menos por enquanto ela ficaria vazia, e talvez eu pudesse usá-la de outra forma mais para frente.

A casa de Kent me agradava bastante, tinha um estilo de decoração bonito e prático. E seus funcionários eram bem discretos, Kent os pagava muito bem para se portarem assim. Eu sabia que algumas pessoas já tinham conhecimento da nossa situação. Falavam sobre o fato de estarmos morando juntos, mas até que o falatório era pouco, e não tinha se tornado uma fofoca geral. Isso era um alívio, eu não pretendia mais esconder o que acontecia, mas não gostava da idéia de ter a minha vida pessoal sendo comentada por todo o distrito 3 e quem sabe por toda Panem.

Eu era até menos solicitada e incomodada na casa de Kent do que na do meu pai. E gostava de aproveitar essa privacidade que não deveria durar muito. Mas por enquanto podia ficar com Kent sem muito alvoroço. Nós passávamos muito tempo juntos, dormíamos, comíamos, conversávamos, assistíamos televisão, líamos, até brincávamos e jogávamos e claro fazíamos muito amor.

Eu ainda chorava, e era assombrada por pensamentos e pesadelos, mas era mais fácil passar por eles com Kent ao meu lado. E bem, ele ainda carregava as suas culpas, e de vez enquanto, também tinha os seus momentos de insônia e sonhos ruins e eu o ajudava. As vezes, Kent tinha que sair para resolver algum problema, ou comparecer em compromissos oficiais como vencedor dos Jogos Vorazes, eu ainda estava livre disso, mas em breve também teria que fazer esse tipo de coisa, e pensar que ainda era um joguete nas mãos da Capital e que em breve teria que cumprir as suas vontades, me dava muito ódio, mas era melhor não preocupar com isso agora.

Eu acordei, ainda era cedo, e não estava me sentido bem. Olhei para Kent e ele dormia. Isso era bom, não gostava de ver as pessoas preocupadas comigo por causa de alguma doença, não gostava daquele olhar de pena, e aquela preocupação exagerada, de ahh, você tem que descansar, ahhh, como está se sentindo,ahhh, vamos chamar o médico! E na maioria das vezes, não era nada! Não queria que Kent se preocupasse. Mas já havia algum tempo que eu estava tendo mal estares constantes, ele havia percebido, mas recusei qualquer atendimento médico, queria ficar na minha, não era nada sério, e só me incomodava em uma pequena parcela do dia.

Corri até o banheiro da suíte, e vomitei. Não era muito agradável, mas pelo menos me sentiria melhor depois disso. Fiquei lá mais alguns momentos, e decidi me levantar, meu estômago já estava melhor. Fui até a pia e comecei a escovar os dentes, aquilo iria tirar aquele sabor ruim da minha boca, e ainda, esconderia um pouco os vestígios do que havia acontecido.

Eu escovava os dentes quando senti uma tontura. Me agarrei a pia e consegui conter um pouco a queda, mas não totalmente,no caminho até o chão acabei derrubando coisas e fazendo bastante barulho. Eu já estava no chão e ainda consegui ver Kent entrando correndo no banheiro antes de ficar desacordada.

Acordei em cima da nossa cama, com um lençol cobrindo o meu corpo nu, vi Kent me olhando preocupado e outro homem de cabelos grisalhos que eu não conhecia, e estava mais tranqüilo:

– Calma, ela acordou está vendo?- falou o homem

A tensão no rosto de Kent diminuiu um pouco e ele vinha até a mim, mas o homem disse em tom de ordem:

– Agora nos deixe sozinhos, eu preciso examiná-la. Depois você poderá ficar com ela quanto tempo quiser!

Kent parecia contrariado, mas saiu e fechou a porta, o homem virou para mim e falou:

– Hope, eu sou o doutor Pasteur.

– Kent não devia ter te chamado. Eu estou bem- falei me sentido recuperada

– Ele estava preocupado, você desmaiou no banheiro, teve sorte que não se machucou na queda!

– Agora, estou bem. Pode ir.

– Eu não vou antes de te examinar. Você não gosta de médicos, né?

– Não é nada particular, só não gosto de símbolos de autoridade em geral.

– Eu não sou uma autoridade, eu cuido de pessoas doentes. Não vou sair sem tentar descobrir o que você tem.

– Tá bom, pode me examinar então.- falei contrariada

Ele olhou minha cabeça, pediu para examinar o resto corpo, e afastou o lençol que me cobria, me olhou por completo e tocou em algumas partes. Aquilo era incômodo, mas pelo menos ele parecia ser um médico cuidadoso com seus pacientes. Depois começou a fazer algumas perguntas: sobre o que estava sentido, há quanto tempo acontecia, mas uma delas realmente me assustou:

– Quando veio a sua última menstruação? – eu fiquei calada durante um momento pela surpresa, mas depois disse

– Você não esta pensando que? Não pode ser!

– Não pode? Você está com vários sintomas, pela minha experiência, está grávida. Então quando foi a sua última menstruação?- aquilo era uma bomba para mim, mas ele tinha razão, eu estava com muitos sintomas de gravidez, e minha última regra tinha acontecido antes de me voluntariar para os jogos

– Antes dos jogos... mas eu tenho evitado–não era totalmente verdade, já que eu só começara a tomar o remédio depois que eu e Kent fomos morar juntos

– Bem antes de culpar o método anticoncepcional, você tem usado de acordo com as instruções? E desde quando usa?

– Comecei há algumas semanas.

– Considerando que desde antes dos jogos vorazes, você ...

– Eu sei.

– Acredito que começou um pouco tarde. E tem que parar imediatamente viu? Pode fazer mal a criança.

Eu não podia acreditar. Isso não devia ter acontecido, não tinha planejado e sequer tinha conversado com Kent sobre filhos. Eu era muito nova para ser mãe, estava tão perdida e confusa...

Pasteur pegou alguns aparelhos e começou a fazer medições. Viver num distrito que fabrica tecnologia tinha suas vantagens, aquelas máquinas faziam exames e davam o resultado na hora. Ele confirmou a gravidez e até o tempo de gestação. Eu estava com um pouco mais de 14 semanas, assim deveria ter engravidado antes de entrar na arena.

Segundo ele estava tudo bem comigo e com meu bebê, mas fiquei com muito medo e não era só pelo temor de ser mãe. Mas também porque meu filho tinha passado por tudo aquilo comigo. Tinha passado por fome, por quedas e até mesmo ingerido as drogas que os médicos da capital aplicaram quanto me recuperava da arena. Apesar do médico ter dito que tudo estava normal, tinha medo que de alguma forma, o tivesse prejudicado e que ele nascesse com problemas. Eu não iria me perdoar se isso acontecesse.

Tinha sido irresponsável demais. Não pensava que eu iria voltar dos jogos, e que teria uma vida depois. Então agira de forma inconseqüente com Kent, quase como me despedindo do mundo, sem pensar nas eventuais conseqüências. Se meu filho tivesse algum problema, a culpa seria minha, mais uma, e não saberia como suportá-la.

Eu iria me cuidar dali para frente. Pedi pro médico escrever com detalhes tudo que precisava fazer, de comidas, hábitos e medicamentos, pois não conseguia prestar a atenção devida no que ele dizia. Eram muitas angústias para eu conseguir prestar atenção.

Eu ainda continuava perdida em meus pensamentos depois que ele saiu, e nem notei a entrada de Kent. Quando dei por mim, ele estava na minha frente, segurando as minhas mãos e preocupado comigo, me fazia perguntas:

– O que aconteceu? Hope? Está me ouvindo? O que o médico disse?- o abracei apertado e ele me acolheu em seus braços, mas depois desfez o nosso enlace e me olhou apavorado, devia estar achando que estava prestes a morrer – O que foi? È muito grave? Você está muito doente?

– Não... eu estou bem. – um alívio apareceu em seu olhar, e resolvi contar tudo, podia não ser a melhor hora, mas não mentiria para ele- Estou grávida, Kent!

Ele ficou completamente assustado, e mudo por momentos, mas depois falou:

– Mas você não estava tomando remédio? – não eram essas as palavras que eu queria, já me sentia bem confusa e não esperava isso dele que sempre sabia me consolar

– Agora a culpa é só minha? Você nunca se preocupou com isso. E se divertiu muito na hora de fazer o filho. Agora vem me culpar?

– Não, Hope, só quero entender! – ele estava abalado

– Eu estou tomando remédio, mas comecei depois de vir para cá. Enquanto estávamos na Capital não usava nada. Estou com mais de 3 meses, Kent. Eu fiquei grávida antes de entrar na arena!

– Isso é loucura! Não podia ter acontecido, Hope... Merda, nós não...

– Se você está pensando qualquer coisa sobre não ter essa criança. Vou te dizer algo, eu já matei e vi muitas crianças morrerem na arena! Não vou matar a minha. Ela já está aqui e se você não a quiser, não é problema, eu quero!

– Hope, eu não disse isso, é que há mais coisas que você deve pensar. – eu estava com muita raiva, e de certa forma até decepcionada com ele

– Não quero saber, Kent! Você não tinha que ir naquela inauguração hoje? Já deve estar atrasado!

– Eu estou, mas eu não posso ir agora, não com a gente desse jeito!

– Vai, é melhor! Você precisa pensar e eu também. – ele ainda me olhou com dúvida e eu gritei – Vai! Eu não quero você perto de mim!

Ele mal havia saído, eu me joguei na cama, e comecei a chorar. E fiquei assim durante um bom tempo. Depois enxuguei as lágrimas, me levantei, peguei uma mala e comecei a juntar minhas coisas.

Afinal, a minha casa na vila dos Vitoriosos não ficaria desocupada. Eu estava decidida a voltar para a casa do meu pai, e logo que a minha fosse liberada, ela receberia meus móveis e eu iria viver lá. Não ficaria sozinha durante muito tempo, em breve meu filho nasceria. Kent não queria ser pai, e eu não ia obrigá-lo a isso. Meu filho não ia precisar dele, ele teria a mim! Eu ainda arrumava minha mala quando escutei uma voz:

– Você disse que não fugiria mais de mim.

– Eu não estou fugindo, Kent. Estou voltando para casa do meu pai e depois vou morar na minha. Você saberia onde me encontrar!

– Você briga, e vai embora assim. È isso?

– Agora é diferente, não é somente eu – o olhei séria e continuei arrumando minhas coisas

Ele se aproximou de mim, jogou um pacote na cama, sentou-se ao meu lado e me abraçou pela cintura. Eu me mexi, queria me desprender dele, mas ele me segurava firme:

– Me solta, Kent. Não adianta! Eu vou embora!

– Você acha que eu vou deixá-la ir embora com nosso filho?

Eu parei. Era a primeira vez que ele dizia isso, nosso filho! NOSSO, e aquilo me atingiu de tal forma. Era verdade, era nosso filho! Ele aproximou o seu rosto do meu e me beijou na testa com carinho. Depois mirou aqueles olhos verdes arrependidos em meu rosto e disse:

– Eu sou um imbecil. Me desculpa, Hope!- minha expressão deve ter mudado um pouco e ele continuou- quando você disse que estava grávida, só pensei em coisas ruins. Que eles iriam usar o bebê contra mim, que iriam ameaçá-lo e feri-lo, que me pediriam as piores coisas e eu seria obrigado a fazê-las. Pois não iria suportar que nada de mal acontecesse ao nosso filho. Imaginei ele sendo sorteado para os Jogos Vorazes. Enfim só pensei nos aspectos ruins. Em coisas que eu não conseguiria suportar, em mais sofrimento e culpa.

– Kent, eu sei que não será fácil... – ele me interrompeu

– Mas não são só coisas ruins né? Esqueci de pensar no nosso filho. Naquele pedacinho de gente que vai ser parecida com nós dois. Na primeira vez em que o pegarei no colo, ou que ele sorrir, ou andar ou falar. E naquele monte de outras coisas, como vai ser bom ver isso, Hope. Como ficarei feliz ao criá-lo, ao vê-lo crescendo, ao contar histórias, ensinar coisas, como vai ser bom amá-lo, minha vida terá muito mais sentido. Por favor , não vai embora! – ele chorava ao dizer as últimas palavras – eu não consigo viver sem você, e nem sem nosso filho ou filha agora! Me perdoa e fica comigo!

Depois de escutar tudo aquilo, eu não tive mais dúvidas. Colei os meus lábios aos dele, eu o havia perdoado, não tinha como não fazer isso.

– È claro, Kent. Eu vou ficar! – ele me olhou mais animado, pegou o embrulho que havia jogado na cama e colocou nas minhas mãos

– Pra mim? – ele fez que sim com a cabeça, eu o abri, era um par de sapatinhos de tricô vermelho bem pequenos

– Na verdade é para ele – Kent beijou a minha barriga, eu sorri, era o primeiro presente para o nosso bebê

– Por que vermelho? – perguntei curiosa

– Eu entrei numa loja, e uma senhora idosa que fez esses sapatinhos me atendeu. Ela disse que quando um bebê sai pela primeira vez na rua, seja menino ou menina, deveria usar sapatinhos vermelhos, pois isso traz boa sorte, e eu acho que nosso bebê precisará de muito sorte, não?

– É claro – eu ri, aquilo era muito bonito e o abracei

Nós deitamos na cama e começamos a conversar. Falamos em qual quarto o bebê ficaria, sobre as coisas que compraríamos, conversamos até sobre os nossos nomes preferidos e que podíamos colocar nele. Mas quanto a isso, Kent ainda não sabia. Eu já havia decidido os nomes do nosso filho, um de menina e outro de menino. Meu filho teria um dos nomes das duas pessoas que eu mais tinha amado até então. Caso fosse menina, se chamaria Mercy, igual a sua tia e caso fosse menino teria o nome do pai, Kent.