Disclaimer: Naruto não me pertence.
Areia
Hinata observou aquela outra mulher por um momento. Estavam novamente sentadas sob um enorme símbolo yin e yang. Tudo fora do símbolo era distorcido e ela não sabia dizer ao certo qual era a cor daquele vácuo. Sabia que estava ali já havia algum tempo. Ela podia ouvir ecos da voz de Gaara e as vezes até mesmo de Shukaku. Algumas vezes, quando se concentrava bastante, o vazio ao seu redor ficava denso e formava uma espécie de espelho Um espelho que lhe permitia ver o outro lado. As vezes podia ver Kankuro se movendo rapido por seu escritório cheio de papeladas. As vezes via Temari se preparando para liderar seu batalhão para o confronto que esperava para estourar.
As vezes via Gaara sentado na beirada da cama. Fitando-a com uma expressão exausta somada a mais alguma coisa. Os olhos dele pareciam sozinhos. Pareciam buscar alguma coisa. Sakuraso uma vez lhe sussurrara que era a ela que ele buscava, mas se recusava a acreditar. Estava suja. Encardida. Destruída.
Desde que ambas trocaram de posição, Hinata não fazia muito mais do que meditar. Sem qualquer noção de tempo, ela meditava por longos períodos sem se importar. As vezes focar na própria respiração fazia com que ela relaxasse um pouco mais. Fazia com que seus pensamentos positivos voltassem e ela se sentia revigorada. Mas também era frequente que suas meditações a guiassem para outro lado de si mesma. Todo seu sofrimento parecia se condensar e atacá-la.
Ela podia jurar que via o formato de seus medos no vazio ao seu redor. Sempre tão perto. Sempre tão longe.
Não sabia dizer ao certo em que momento se deixou vagar pelo seu passado. Sua mente brincava com imagens de sua infância e de tanto repassa-las, ela finalmente conseguiu enxergar suas memórias. Ela não se limitava mais a apenas ver. Agora prestava atenção aos detalhes. Agora deixava as imagens se repetirem até que decorasse cada detalhe. Analisou cada momento. Cada olhar. Cada palavra. Fez isso com todas as memórias que forçavam seu caminho até ela.
No início se sentia exausta todas as vezes. Sentia que não suportaria repetir o processo. Mas ela estava determinada a abandonar seus próprios demônios. Não era sobre as energias negativas que havia absorvido enquanto crescia, mas sobre as energias que havia criado. Cada pensamento que ela mesma deixara nascer. Cada sentimento que ela deixara criar raiz. Dessa vez era sobre ela. Apenas ela. Não Hyuuga Hinata. Não Sabaku no Hinata. Não sobre sua relação com Sakuraso. Mas sobre Hinata. Apenas Hinata.
De repente não doía tanto quanto antes. De repente...
De repente ela era uma menina uma mulher um ser humano.
De repente ela podia ter defeitos. Ela tinha defeitos. Ela podia odiar e odiava. Ela podia chorar e chorava. Ela podia sentir raiva e ateava fogo em tudo ao seu redor. De repente sentiu o gosto da ira, da inveja, do ciúme, da possessividade e da sede de vingança.
De repente ela sentiu inveja de Neji por ser amado por Hizashi e motivo de orgulho para Hiashi.
De repente sentiu raiva de Hanabi por lhe mostrar a vida que ela poderia ter tido caso tudo fosse diferente.
De repente odiou Hiashi e Orochimaru por tudo que lhe causaram.
De repente sentiu ciúmes e foi destruída pelo sentimento de possessividade apenas ao imaginar Matsuri próxima a Gaara.
De repente quis se vingar de tudo e todos apenas para vê-los sofrer. Apenas para fazê-los sentir um terço do que ela sentiu.
De repente não sabia mais o que era realidade e o que era fantasia. Ou sabia. Ou finalmente conseguiu traçar o limite entre ambas as coisas.
Estabeleceu limites. Estabeleceu regras. Estabeleceu ordem. Fez todas as perguntas que se recusou a tocarem a superfície de sua mente e respondeu todas elas. Levantou todos os muros e paredes que nunca ousou permitir tomarem forma e derrubou todos eles.
Sentia que havia dormido por toda sua vida. Sentia que havia sido uma marionete sendo jogada de sonho em sonho. Alguns bons, outros ruins. Nenhum deles sob seu controle. Agora que estava quebrada um pouco mais além do que ela entendia que podia suportar, iria se arrastar atrás da sua vida. Não ia buscar a perfeição, como havia feito antes. Ia buscar viver. Tomar as rédeas. Tomar o controle. Tinha tomado nojo das paredes brancas da mansão que era sua mente. Iria dar cor a todas elas. Iria criar janelas. Iria criar portas. Iria se dar a oportunidade de ser livre dentro da própria mente, ao invés de ser mantida em cativeiro por ela.
Ela estava em um lugar ruim. Um lugar que estava caindo aos pedaços. E dessa vez não havia ninguém para salvá-la a não ser ela mesma. Precisava aceitar seu passado, abraçar seu presente e construir seu futuro. Precisava se reinventar. Se fortalecer. Se conhecer.
Havia sido abusada emocionalmente.
Havia sido abusada fisicamente.
Havia permitido que as vozes em sua mente gritassem mais alto do que sua própria voz.
Havia deixado que os outros controlassem cada passo seu.
Havia pensado que estava no controle, que tinha resistido e sobrevido. Mas ela sabia. Cada vez que olhava para Gaara através daquele espelho em meio ao nada ela sabia que não tinha sido suficiente. A verdade, ela sabia, era que tinha medo de fazer o que seu instinto mandava e errar. Tinha medo de tomar o controle, de ter voz, e mostrar que ela não era tudo isso que os outros acreditavam.
Mas ela podia ver a decepção nos olhos de Gaara. Podia ver que ele tinha esperado por ela. Podia ver que ele depositara suas esperanças nela. Podia ver que ele também resistira à dureza de sua realidade só para encontra-la e não conseguia se sentir satisfeito em ter apenas o corpo passeando ao redor. Ele acreditou que ela ia resistir, por ele. Que ela ia voltar para ele.
Entretanto, se cansara de tudo isso. Sua mente era uma mansão em que o material utilizado para levantar a estrutura era dor. Sua dor. Desse ponto em diante iria mudar as estruturas. Iria mudar tudo. Iria corrigir tudo. Iria deixar seu medo de lado e voltar para Gaara. Iria seguir em frente. Iria ser feliz. E se as circunstâncias não desejassem que ela fosse feliz, ela iria abrir um caminho. Estava deixando todos seus arrependimentos para trás. Estava deixando sua mania de não consertar as coisas, preferindo sempre ignorá-las, para trás. Estava andando para frente. Estava tomando as rédeas de tudo. Estava saindo desse confinamento.
Sakuraso franziu o cenho ao perceber algo dentro de si mudar. "Já era hora, criança.", pensou. Seu olhar voltou para a cena correndo em sua frente. Tio e sobrinho se encaravam e ela quase teve pena de Hiashi. Quase. Uma coisa que aprendera a sentir desde que descera até o plano físico era rancor. Ele a devorava por inteiro. Hiashi era tão parecido com o pai de seu falecido filho que ela sentia vontade de deixa-lo atado a uma árvore e assistir por dias os corvos se alimentarem do homem vivo. Mas não podia fazer isso. Sabia que as coisas deviam seguir um fluxo e seu dever era garantir que tudo ocorresse de acordo. Ela já havia cometido um crime ao soltar aquela profecia tanto tempo atrás.
Piscou.
Podia sentir a presença de alguns dos seus mais antigos irmãos lutando ao lado dos Uchiha e alguns poucos ao lado dos Hyuuga também. Ah!, como desejava que tudo isso acabasse e que ela finalmente pudesse viver tranquila com Shukaku e conversar tranquila com todos seus irmãos.
Hiashi observou com o coração apertado o modo que os olhos de Neji brilhavam. Nunca desejou que as coisas chegassem nesse ponto. Podia ouvir os gritos de dor e brados de ataque do lado de fora.
— Filho...
— Não, eu não sou seu filho. Nunca fui. Chega de mentiras, Hiashi-sama. A hora da verdade chegou.
Hiashi suspirou. Seu olhar pousou em Hinata e voltou para Neji.
— Então você finalmente descobriu, hm? Parece que nenhum segredo pode ser mantido se todos aqueles que o guardam não estão mortos.
— Estamos aqui para concertar seus erros, Hiashi. Não. Melhor! Estamos aqui para concertar todos os erros que os homens deste clã insistiram em cometer por tanto tempo.
— Eu não te dei permissão para falar, Hinata! - sibilou.
Ela sorriu.
— Eu não sou sua filha. Você sabe disso, consegue sentir. Sempre soube, não é? Sempre soube que havia mais em Hinata do que dizia as profecias. Acha que não percebi seus olhares? Acha que não escutei seus sussurros pela mansão? Você sempre consegui ver a massa de energia tão similar à da tua filha, mas estranhamente diferente ao mesmo tempo, como a de todos os jinchuuriki que você já havia encontrado. Surpresa! Essa energia sou eu, Sakuraso, também conhecida como a Grande Hyuuga Hime, primeira matriarca desse clã amaldiçoado, o anjo que deu início a linhagem mais pura de todos os líderes de olhos brancos.
Hiashi arregalou os olhos e então sorriu. Com os olhos cheios d'água, ao invés de se lançar no combate ele se apoiou em sua mesa. Respirou fundo e voltou à sua face estoica. Olhos secos novamente e inexpressividade marcando seu ser.
— Minha esposa sempre falava que quanto mais eu corresse, pior seria meu destino. Ela conseguia sentir seu poder ainda dentro do ventre e me avisava que a criança seria algo a se temer. O engraçado é que enquanto me esforçava em fazer Hinata me temer... Quem sempre sentiu mais medo fui eu. Sempre soube que esse dia chegaria. Por anos pensei que lutaria, pensei que resistiria e tentaria vencer. Mas agora, olhando para vocês... Eu só sei que estou cansado de tudo isso. Meu clã está morrendo porque fui um mau líder. Porque fui um mau pai. — seu olhar voltou para a figura de Neji. — Eu tenho orgulho de você, filho. Sempre te considerei como meu herdeiro, ainda que seu sangue não seja diretamente meu ou da minha esposa. — Voltar a fitar Sakuraso. — Mas nunca consegui amar você.
Neji rangeu os dentes furioso. Como ele podia ser tão... cru e odioso com a própria filha?
Sakuraso sorriu.
— Sabe o que é pior? Hinata te amou. Te amou do momento em que nasceu e, não importa quanto rancor guarde, ela vai continuar a te amar. Da mesma forma que amei meu primeiro filho, apesar de assistir o menino crescer para se tornar um monstro igual ao pai. Igual a você!
Hiashi respirou fundo.
— Eu sei.
E então o mundo se moveu em câmera lenta. Sakuraso caiu de joelho urrando de dor, Gaara se abaixou para ajudá-la e Hiashi se lançou sobre ela. A reação de Neji foi imediata. Com um golpe certeiro no peito, Hiashi desabou no chão cuspindo sangue.
Hinata piscou os olhos e viu o pai agarrando o peito e lutando para respirar enquanto rios vermelhos jorravam de sua boca e nariz. Imediatamente curvou-se na direção dele. Um baque surdo ecoou. Neji havia caído de joelhos no chão, seus braços ainda estendidos na posição do golpe que aplicara. Enquanto fitava o homem ao lado de sua "irmã", percebeu com amargura que em poucos minutos aquele que o criara como filho seria só mais uma baixa no meio da guerra. Havia matado seu Hiashi sem vacilar.
Hinata não conseguia entender o que exatamente havia acontecido. Uma hora Sakuraso estava no controle e como se tivessem acendido uma vela, era ela quem estava no controle novamente. À sua frente seu pai morria, ao seu lado seu primo tremia e atrás dela Gaara e Shukaku permaneciam imóveis e em silêncio.
— Otou-san... - sussurou.
O olhar do mais velho a fitou em resposta. Ela deitou-se de frente pra ele, seu rosto se lambuzando no sangue que alagava tudo ao redor.
— O-Otou-san... E- Ele tentou me matar. Me torturou. Me e- estuprou. Matou meu filho, Otou-san. Meu filho, seu neto. Ele me ma- matou. Ele me matou, Otou-san... No final, você ganhou. Era isso que queria, n- não é? Queria que eu morresse. — sussurrou.
— Eu te amei, Hinata. Te amei quando você ainda estava no útero da tua mãe, mas... - tossiu um pouco e puxou ar. — Do momento em que descobri que era uma menina em diante, todo aquele amor se esvaiu. Sua mãe tentou... — a garganta ardia e ele tentou respirar profundamente novamente. Puxar fôlego. Porém falar enquanto cospe sangue não era a mais fácil das ações. —Sua mãe tentou me fazer voltar a te amar. Por um momento tentei, só que... Toda vez que eu te olhava, podia ver o clã inteiro banhado em sangue. Podia ver minha cabeça rolando para fora do meu corpo. E te odiei. Te odiei com todas as forças. Te odiei porque ao invés de ganhar um filho, ganhei uma promessa de morte. Te odiei porque você era uma lembrança constante de que eu iria perder tudo, inclusive minha vida.
Uma pausa. Ele curvou-se para o lado e contorceu-se para cuspir mais sangue. Tossiu, tossiu e tossiu. Parecia que nunca acabava. Seu corpo tremia de dor e ele se sentia mais fraco a cada gota de sangue perdida. Mas não choraria. Ah, não! Não choraria. Morreria com um líder digno, já bastava estar perdendo a vida por causa de um único golpe. Puxou o ar de forma trêmula e voltou a olhar para Hinata.
— Parece que eu estava correto, não é? Perdi. Perdi tudo. — Sorriu amargo. — Já não me resta mais tempo. — fitou Neji com o canto do olho — Estou orgulhoso de você, Neji. Será um líder superior a todos os outros. Diga a Hanabi que seja menos orgulhosa e que te ajude com o clã. Amo vocês dois, meus filhos — Neji apenas assentiu — . Hinata — voltou a fitá-la. Baixando o tom para que só ela ouvisse, continuou —, por anos te odiei, mas te odiei porque te temia. Eu desejei que morresse, sim. Mas nunca quis que as coisas chegassem nesse ponto. Sinto muito por seu filho, pelo meu neto. Se tudo fosse diferente... Em outra circunstância eu tenho certeza... Tenho certeza que amaria a ti tal qual sua mãe te amou, ou até mais. Em outra circunstância, eu nunca teria permitido tudo isso. Mas... parece que o destino não estava ao nosso favor, hã? — Sorriu miúdo, apenas para ela. — Seja feliz. Seja feliz por todo inferno que te fiz passar. Seja feliz por toda a vida que não me permiti desfrutar. Você é a filha que qualquer pai mataria para ter. É a minha filha. Sinto muito. — sussurrou.
Então o sorriso se desfez. Os olhos perderam a vida. Os movimentos congelaram. E antes de conseguir sequer dar um suspiro completo, Hyuuga Hiashi estava morto. Percebendo isso, Gaara, que também havia retomado o total controle de seu corpo, arrastou Hinata para longe do líder assassinado e a tomou no colo. Decidiu que daria a notícia que Hiashi havia caído enquanto Neji, que ainda parecia estático, se despedisse do corpo.
Gaara entregou Hinata para Sasuke e correu para a torre que Shukaku lhe apontava. Não demorou muito até que estivesse no alto dela e sem pensar duas vezes soltou o peso de seu corpo assim que tocou a corda. Enquanto o impulso o fazia balançar de um lado para o outro, o sino ecoava para todos os lados. Na terceira badalada correu até a janela e gritou lá do alto
— HYUUGA HIASHI ESTÁ MORTO. HUUGA NEJI É O NOVO LÍDER!
A resposta às suas palavras foi imediata. A luta cessou enquanto os Hyuugas se perguntavam se precisavam prosseguir na luta ou cessar. Foi aí que Neji, banhado em sangue, passou pelas portas da mansão principal com Itachi ao lado e, em absoluta sincronia, ambos se viraram de frente um para o outro e se curvaram levemente em sinal de respeito.
Estava feito.
A contagem de baixas foi iniciada logo em seguida e cada clã chorava seus mortos. No quarto no antigo líder do clã, Gaara e Hinata observavam como Neji cobria o corpo do tio. Hanabi chorava sem parar, inconsolável com a batalha rápida, porém sangrenta. Ao saber da morte do pai, havia quebrado tudo que encontrara pelo caminho até chegar ali. Seus dedos finos sangravam com cortes das porcelanas que arrebentara no soco enquanto assistia com a respiração presa o corpo do pai começar a ser velado. A herdeira mais nova não sabia como reagir. Tentara atingir Hinata, entretanto, Neji a imobilizara e lhe sussurrara que explicaria depois. Mandou que ficasse quieta ou não poderia se despedir do própio pai.
Hinata consegui sentir a confusão e o ódio saltando em ondas da menina. E ignorava com maestria. Amava a irmã, com todas as limitações que a convivência de ambas havia sido imposta, certamente. Porém a amava de qualquer forma. Ainda que talvez, não sabia ao certo, o sentimento não era recíproco.
Com um suspiro, Hinata virou-se para Gaara e, antes de desmaiar, sussurrou:
— Só mais um passo e seremos livres. Todos nós.
Continua
Sou péssima no quesito violência, como podem perceber. Meu lance é mais o drama mesmo. Sorry se queriam ler membro voando e uma luta digna.
Plus: pensa num bloqueio pra escrever esse capítulo? Eu tinha metade dele pronto e a outra metade simplesmente não saía.
LadyhShadow, finalmente chegou! Aleluiaaa *comemora* Desculpa demorar mil anos.BarbaraGava, girl i'm back. Mas a alma do negócio é terminar os cap assim. É o que dá o tchan~
Mas matei de morte matada ele. Me senti culpada se fizesse ele bater no Neji (n consigo fazer essa imagem na cabeça, daí matei assim). HAHAHAAHAH NEJI ADOTADÍSSIMAAAAA. Achei foda, mas tava nos planos e decidi seguir eles, neam. Ficou bem pesado e chorei escrevendo várias e o pepel higiênico parceiros forever. Lançando agora eu acho q vou ferrar teu job de novo ahahahah
