Capítulo XXVII- Ir para o passado adiantará?

Uma sineta longínqua tocou. Harry tinha medo de deixar Hermione sozinha. Ela parecia desesperada. Tudo poderia passar pela sua cabeça naquele momento. Ele bem o sabia que Hermione era uma pessoa ponderada e criteriosa, mas a vida dela desabara em instante, e mesmo que ele jamais pudesse, nem sequer entender o amor que ela dizia sentir por Snape, gostava muito da amiga para abandoná-la naquele momento terrível. A sineta anunciava que seria procedido o enterro da menina. Aquilo seria doloroso demais para Hermione. Gostando ou não de Sarah ele tinha que admitir que a amiga amava a filha, e que enterrar um filho era a coisa mais triste, mais terrível que poderia acontecer a um pai. O moreno preferiu não se colocar no lugar de Hermione pois amava muito seus dois filhos.

Hermione levantou-se da cama de Sarah, e acompanhada de Harry, ela desceu as escadas da casa dos Longbotton. Poderia se perceber o quanto à velha sra. Longbotton estava abatida, sentada num canto aparada por Neville. Neville também estava muito triste... gostava de Sarah como uma espécie de irmã, companheira de travessura.

A sala de estar da casa estava toda forrada com panos negros, com pessoas espalhadas por todos os cantos. Hermione sentia muita dor em seu coração... poderia explodir de dor, poderia gritar, poderia fazer qualquer coisa, mas jamais teria Sarah de volta, nem Sarah, nem Severo... Se pudesse ter uma segunda chance! O que não daria para ter uma segunda chance?

Seu olhar cruzou com o de Severo, que acompanhava todos os seus movimentos, com uma expressão mista de censura, de ódio e pior, de desprezo estampado no rosto. Ela sabia o quão aquele homem era inflexível.. Porque maldição não acreditara nele?

Harry tentava acalmar Rony num canto do salão, enquanto o ruivo limitava-se o olhar na direção de Hermione com um ar profundamente decepcionado.

Seus olhos correram pela madeira do caixão onde estava Sarah até pousarem na menina . O rosto pálido, os cabelos bem arrumados em torno de um rosto falsamente angelical. Ela parecia apenas estar dormindo. As lagrimas começaram a escorrer pelo rosto da mulher mesmo que ela não quisesse.. Nunca mais Sarah desceria aquelas escadas correndo.. nunca mais ela sairia com a sra. Longbotton para fazer compras, ou simplesmente para apreciar o movimento na pracinha em frente à casa, nunca mais ela lhe pediria dinheiro para comprar livros de Magia negra, ou simplesmente compraria os livros que quisesse e mandaria colocar na conta da mãe da Floreios e Borrões... nunca mais, nunca mais ouviria a voz de Sarah, nunca mais veria seu sorriso, nunca mais...

Por Deus, deveria haver algum modo, alguma forma de trazer Sarah de volta. Se ela mesma se encarregará de mandar Severo para longe, ao menos que pudesse ficar com Sarah, que pudesse fazer a menina retornar a vida...

Não, mas não havia isso em mundo nenhum. Não existe a possibilidade de ressuscitar alguém.... mas.. mas... Hermione levantou a cabeça, secou as lagrimas... sim existia uma possibilidade... uma possibilidade de não deixar Sarah morrer.

Era loucura, ela sabia que era.. e mesmo será que conseguiria? Mas se não conseguisse pouca diferença faria. Não tinha mais vida para a sra. Snape.. Não existia mais razão para viver. Dedicara todos aqueles anos a ocultar a filha, a protegê-la, e sempre achara que o dia seguinte era o dia ideal para contar a verdade a Severo.

Seus olhos cruzaram novamente com os do marido. Severo Snape ficou intrigado, ele conhecia muito bem Hermione e poderia perceber que ela tivera alguma idéia, algum lampejo, pois mesmo naquela situação faltava pouco para sorrir.

Hermione moveu-se em torno do caixão e chegando ao lado do marido, disse em voz baixa:

- Vou tentar fazer uma loucura, eu sei que é loucura, mas isso não me assusta. – ela disse com urgência e gravidade. – Apenas não os deixe enterrar Sarah.

Hermione não esclareceu mais nada e saiu correndo, subindo as escadas com uma pressa jamais vista. Severo apenas observou a esposa correndo, enquanto pensava consigo mesmo o que Hermione planejava fazer.

Hermione guardava aquele gira-tempo desde os tempos de colégio. Prometera jamais utiliza-lo sem autorização expressa do Ministério a magia. Mas naquele momento aquilo pouco lhe importava, tudo o que queria ter era sua vida de volta seu marido e sua filha ficar vivos. Talvez conseguisse convencer a seu eu do passado, a seu eu de mais de 10 anos atrás que Severo era inocente ... era uma possibilidade pequena.. era mesmo minúscula para dizer a verdade, mas pouco daria se fracasasse..teria que voltar para casa e enterrar Sarah... Não, era tristeza demais... Hermione calculou com precisão o tempo, tinha que chegar lá antes que seu eu jovem fizesse as malas e saísse em disparada da Mansão Snape, sem deixar Severo explicar e falar qualquer coisa.

Hermione pensou mais uma vez no que estava fazendo. Obviamente não daria certo, e se desse alteraria muita coisa. Sarah, por exemplo não deixaria de ser uma das crianças das Trevas, mas saberia sempre disso, e poderia se precaver. E de qualquer forma , será que não merecia um pingo de felicidade? Felicidade de que ela mesma abrira mão?

Com decisão ela moveu o gira tempo, treze vezes.

Hermione estava num lugar escuro, lúgubre mas que ela conhecia muito bem. Era o laboratório de Severo. Estava em casa! Ela abriu a porta, e saiu no corredor. A porta de seu quarto estava entreaberta. Ela poderia reconstituir aquela cena em seu intimo. Aquela visão das nuvens escuras prontas para a chuva fora à imagem que relacionara com sua casa até pouco tempo atrás, talvez porque fosse algo que lhe marcasse profundamente. Era incrível como num momento de crise a atenção das pessoas se fixasse um determinado e por vezes insignificante ponto que jamais seria esquecido.

Ela abriu a porta. Seu eu jovem, ocupava-se em jogar roupas num malão. Lembrava-se com perfeição daquele instante, do desespero, da sensação de ter construído um castelo na areia e ver tudo desmoronar.

A Hermione jovem olhou surpreendia para a recém-chegada.

- Quem é você? – ela quis saber, jogando uma blusa amarelo claro dentro do malão.

- Seu eu mais velho.

- Que coisa engraçada. – respondeu a jovem . – Meu eu mais velho! – mesmo numa situação dessas consigo ser irônica. – E o que meu eu mais velho quer aqui?

- Quero fazer você enxergar o obvio.- respondeu Hermione mais velha, entrando no quarto, abrindo uma gaveta da penteadeira, tirando uma pequena caixa e colocando ao lado do Malão. – Você ia esquecer a caixinha de musica.

A jovem Hermione olhou admirada a recém-chegada. Só ela mesma sabia sobre aquela caixinha de musica.

- Se você é mesmo meu eu mais velho porque estou fazendo as malas?

- Porque você acha que Severo esteve envolvido na morte de papai e mamãe. – respondeu a velha Hermione, sentando-se na cama.

- Eu não acho! Ele está! – afirmou ela, bravia- Ele matou os meus pais, aquele desgraçado. Porquê ele foi fazer isso? Eu sou uma idiota, a vida inteira acreditando que ele era bom, que não era do mal, que tinha mudado, que tinha boas intenções. Para quê? Para ele me trair dessa forma torpe.- ela parecia estar desabafando o que estava preso em seu intimo. A própria Hermione mais velha também se sentia de uma maneira muito estranha, aliviada. – Eu vou embora, vou embora daqui, vou me separar...

- Mas não existe divórcio no mundo bruxo.

- Eu estava justamente pensando nisso. – a jovem Hermione olhou para a outra surpresa.

- Eu sei. – Hermione do futuro sorriu.

- Quem é você, fale a verdade?- a jovem pediu, afastando o cabelo do rosto.

- Sou seu eu futuro.

- E porque você está com essas olheiras, parece que chorou muito, mais até do que eu? – a jovem tinha o olhar fixo na mulher mais velha.

- Sarah morreu.

- Quem é Sarah?

- O bebê. – a Hermione mais velha apontou para o ventre da outra.

- Sarah?Belo nome, tenho bom gosto. – assentiu Hermione jovem- mas ela morreu? Não pode ser. Severo me traiu e o bebê morreu. O que vai ser de mim, então? –ela olhou inquisitivamente para outra.

- Você terá duas alternativas. A primeira é convencer seu eu mais jovem de que fez um julgamento errado. Se isso falhar, acho que o ideal seria se matar.- Comentou Hermione mais velha- Você não pense que essa idéia não passou muitas vezes por minha mente nos últimos tempos. Nos últimos dias para ser precisa. Depois que finalmente percebi o que estava na minha cara o tempo todo e eu não quis ver.

- Você não poderia vir até aqui. Eu conheço as regras. Você não...

- Pode viajar no tempo sem expressa autorização do ministério da magia... – sim, completou a Hermione mais velha com pouco caso- Eu sei disso tudo, mas você tem que entender que estou desesperada. Meu mundo desabou! Quer dizer, o mundo em que vivi desde que sai daqui, desde que não acreditei em Severo.

- Não tem o que acreditar nele! Ele é um traidor. Não se pode confiar em alguém assim. – respondeu a Hermione jovem inflamada. – Muito me admira que você ainda continue caída por ele.

- Lastimo lhe informar minha cara, mas você o amará para sempre.

- Que consolo.- ironizou a jovem. – mas e o que você veio fazer aqui?

- Convencer-lhe de que Severo é inocente.

- Ah, ah, ah.- riu a outra sem a mínima vontade de rir- Devo estar tendo alucinações. Concordo que talvez eu não tenha 100% do equilíbrio mental necessário, mas não a esse ponto. Por favor... Devo estar louca. Uma cidadã que se diz vinda do meu futuro, resolve me convencer de que Severo é inocente...

A Hermione vinda do passado passou então a falar com firmeza e objetividade para seu eu mais jovem. Ela não poderia fracassar... Muita coisa dependeria desse êxito. Seu eu jovem, porém parecia determinada a não acreditar em nada do que ela afirmava. Era difícil ter um temperamento tão forte. Hermione falou sobre a dor e o arrependimento, sobre o desespero de ter uma vida fria e estéril, de ter que criar Sarah sempre a escondendo, de ter que alterar a idade da menina. Do quanto fora difícil ficar longe de Severo, mesmo acreditando erroneamente que ele matar seus pais, sobre Voldemort, as revelações dele.

Nesta ultima parte, a Hermione jovem passou a dar mostras de interesse e Hermione contou como Voldemort lhe contara que Severo não era culpado, mas que aproveitar para declarar que Severo era pai de Sarah.

- Você tem que me ajudar.- Hermione do futuro pediu. – Tem que nos ajudar.

- Olhe, tenho que concordar que essa sua historia tem lógica, mas como você quer que eu a ajude? Não entendo o que posso fazer? Se tudo o que você falou for verdade, eu estarei cometendo um grande erro em abandonar e não acreditar em Severo....

- A idéia é essa... Você não pode deixar Severo e tem que fazer o possível para acreditar na história dele.

- Mas ele matou nossos pais.- reclamou a outra- Como você consegue ser complacente?

- Não matou, não matou! – gritou a Hermione mais velha. – Você não acredita em si mesma? Por favor, eu sou você, será que não percebe que nossa vida estará arruinada se você cometer esse passo?

- Mas como você quer me obrigar a ficar ao lado de Severo, se eu não acredito eu ele seja inocente.

- Ele é inocente. – afirmou Hermione já certa de que não adiantaria nada toda essa conversa. Seu eu mais jovem estava irredutível. – Você quer acreditar nisso, mas as evidências impedem. Nunca lhe ocorreu que tudo isso pode ser uma armação contra Severo, com o objetivo de os separar? Eu fui muito idiota de não ter percebido isso na época. Nunca foi muito bem aceito que Severo tivesse se casado com uma 'sangue-ruim".

- É uma idéia e tem lógica, mas...

- Pense no bebê. – pediu a Hermione mais velha.

- Tinha me esquecido inteiramente de Sarah, é esse o nome, não é?

- Sei que esqueceu, nem raciocinou...- comentou Hermione do futuro- Já cometi esse erro. Se não quiser ficar com ele, ao menos lhe conte que está grávida... desta forma conseguiremos salvar Sarah.

- Você é muito presunçosa Hermione, comete toda a espécie de erros, e depois joga sobre minha responsabilidade de fazer as coisas certas, mas....

Passos foram ouvidos fazendo a escada ranger e interromperam a conversa. E uma voz conhecida de ambas, chamou:

- Hermione? Hermione!