SAVE ME

Capítulo 37. Sobrevivência

Às vezes Kai se perguntava como certas coisas eram capazes de mudar tanto. Em que momento o lugar onde teve seus piores pesadelos pôde tornar-se algo semelhante a um paraíso?

Não entendia e, francamente, não perdia muito tempo buscando soluções para uma pergunta a qual não tinha resposta. Preferia usufruir a paz que aquele porão representava, pois não sabia quanto tempo aquilo ia durar. Ali teria paz enquanto Yune sentisse culpa.

Era oportunista de sua parte, mas tentava não se sentir mal por isso. Manipular a culpa que o outro sentia fora a única forma de sobreviver e garantir a si mesmo um mínimo de sanidade. Não gostava disso nem era de sua índole, mas não era uma situação normal e depois de tudo que sofrera era isso ou nada. Para viver com Yune e ser seu companheiro, tinha de estar com a mente sã. Aquilo não era uma opção.

Ainda sentia dores no corpo e seu rosto continuava um pouco inchado enquanto os cortes e arranhões cicatrizavam lentamente. Seria uma questão de tempo para que seu corpo se restabelecesse, mas não para sua mente. Por isso não era difícil manipular Yune, pois o medo de uma nova agressão era real, assim como o receio de ser tocado. Bastava manifestar aquilo que antes lutaria para reprimir. Não precisava mentir e isso tornava as coisas bem mais simples.

Enquanto seu sequestrador sentisse culpa, a sensação de ameaça iminente lhe daria um tempo. Não precisava ter medo de dormir por dez minutos e dizer algo errado, ou ficar vinte e quatro horas pesando gestos, atitudes, palavras e até mesmo pensamentos. Nem ficaria sujeito aos desejos de Yune.

Por mais que aquelas paredes representassem sua prisão e carregassem a lembrança de um estupro, parecia tudo muito distante. Longe o suficiente para crer que ali estaria em segurança. Aquele porão agora significava tranquilidade e precisava disso por pelo menos alguns dias. Precisava se restabelecer no mínimo até que não sentisse mais tanta dor e aceitar que sua vida ainda seria um pouco pior do que pensara, mesmo cedendo a ele e fazendo todas as suas vontades.

Nunca pensou que pudesse ser alvo de um ciúme tão doentio. Tudo por causa de um prato de comida... ele lhe violentara de forma tão brutal que fez o primeiro ataque naquele porão parecer uma simples noite casual.

Só esperava que Kami-sama lhe desse forças para superar logo. Não poderia manipular Yune para sempre.

OoOOoo

Já estava ali pelo que parecia ser uma semana. Nos primeiros dias seu marido lhe trazia sopa e mingau. Ele sabia que mastigar era um movimento doloroso ainda que nunca tivesse lhe dito nada. Depois, alimentos leves e de fácil digestão. Além disso sempre que Yune descia ali levava algo. Nunca aparecia de mãos vazias: comida, remédios para dor, kit para limpar os ferimentos e trocar os curativos além de alguns agrados. Já havia reposto seu material de desenho com lápis, papel e também gravuras com paisagens e motivos para copiar e criar.

A aproximação de seu algoz acontecia aos poucos, com gestos contidos e atenção infinita. Yune fazia de tudo para agradá-lo e se esforçava para controlar o contato físico. Um afago leve nos cabelos, um toque no ombro, um beijo rápido na face quando Kai demonstrava mais confiança. Este era o limite imposto a ele e não pretendia ceder tão rápido. Seu próprio algoz tinha muito mais cuidado com isso, pesando todos os seus gestos.

Em geral, as visitas eram rápidas. Por mais que de vez em quando mostrasse boa vontade e partilhassem uma refeição, Yutaka passava a maior parte do tempo sozinho, e durante as horas de solidão desenhava exaustivamente. Sequer sabia dizer quanto tempo passava absorto naquilo, mas sempre terminava como se não tivesse mais energias. E dali entregava-se a um sono sem sonhos, um descanso mínimo, mas infinitamente melhor que a antiga insônia a qual se obrigava. Entregue pela exaustão, nem mesmo as lembranças do último ataque eram capazes de alcançá-lo.

Apesar disso, as lembranças lhe aterrorizavam. Quantas vezes não despertara com a nítida sensação dos dedos de Yune apertando seu pescoço enquanto lhe penetrava brutalmente? A percepção da dor ainda era vívida o bastante para sentir medo. Quando Yune afagava seus cabelos parecia ser apenas uma questão de tempo para que ele o jogasse de joelhos, puxando os fios e violando sua boca, obrigando-o a engolir seu gozo enquanto o moreno se esforçava para não vomitar. Cada gesto parecia ser a iminência de um soco.

Naqueles momentos, sabia que não havia qualquer culpa em manipular seu sequestrador. Para que sentir culpa? Se queria proteger Miyavi, precisava cuidar também de si mesmo. Enquanto fosse o companheiro perfeito, o tatuado estaria seguro. A segurança da pessoa que amava dependia da sua capacidade de proteger a si próprio, controlando a situação quando fosse preciso.

Talvez estivesse finalmente entendendo como sobreviver naquele inferno.

OoOOoo

Um dia comum.

Kai estava sentado, distraído com seus desenhos e tentando afastar lembranças súbitas quando ouviu o som das chaves na fechadura. Não sabia dizer se era hora de alguma refeição, remédio ou se Yune estava apenas sentindo sua falta. Se fosse isso, ele entraria pedindo desculpas e permissão para passar algum tempo ali.

E claro Yutaka aceitaria de boa vontade e um sorriso discreto, como se aquilo fosse o que mais quisesse no mundo. E durante esse tempo teria de fazê-lo sentir-se como se fosse o melhor companheiro da face da Terra. Curiosamente era o tipo de tratamento que fazia Yune sentir mais culpa, o que era muito bom, porém ainda era muito difícil tratá-lo como um rei.

De qualquer modo era o que Kai fazia, suportando todo o desconforto e disfarçando tudo isso como se fosse um bom ator. Talvez fosse seu sorriso ou outra coisa, mas Yune sempre acreditava em sua boa vontade e afeto. Melhor para si.

Respirou fundo e muniu-se com todo autocontrole que poderia ter. Quando o marido entrou, presenteou-o com seu melhor sorriso, tendo como resposta a expressão fascinada de seu algoz.

– Como está se sentindo, Yukee?

– Estou melhor, já não sinto mais tanta dor. Mais algum tempo e estarei cem por cento.

– Que bom, meu amor. Não vejo a hora disso acontecer. Eu me sinto tão mal por ter te machucado...

– Esqueça, Yune. Sei que está inseguro por causa do meu passado e pelo jeito que as coisas aconteceram para nós. Perdoe-me se não sou o companheiro que merece.

– Você é o melhor companheiro que eu sonharia em ter. Não precisa pedir perdão. - fez uma pausa - Está confortável aqui? Precisa de alguma coisa?

Yune nunca se cansava dessa pergunta, parecia querer lhe compensar usando todos os meios possíveis. Realmente estava se esforçando para que não lhe faltasse nada segundo sua visão torta de vida e de amor. O material de desenho parecia infinito, além de toda sorte de condimentos e comidas prontas ou de tudo que o outro pensasse que ele poderia gostar. Suprir toda e qualquer necessidade era uma obsessão.

– Estou bem, Yune. Não me falta nada.

– Desculpe se faço sempre as mesmas perguntas, mas você nunca me pede nada,

Kai sorriu, tentando encobrir o próprio nojo pela mentira naquela fala. Queria sim uma coisa, mas era algo que Yune nunca lhe daria, e sequer tinha razões para lutar por isso. Já abrira mão de sua liberdade. Não tinha mais desejos.

– Não tenho tempo de pensar em pedir, você é sempre mais rápido e está sempre atento. Você cuida demais de mim.

– Nunca é demais.

Notou a mão dele desejando tocar seu rosto e assim o permitiu, como se o deixasse ultrapassar um limite e ainda fosse capaz de confiar nele plenamente apesar de tudo. Porém, franziu o rosto ao sentir os dedos em sua face. Ultrapassara o limite do medo, mas ainda restava a dor.

Gomen, Yukee.

– Não tem problema.

Viu Yune morder o lábio diante daquela demonstração de dor, então tratou de tentar conter o desconforto traçado em seu rosto, também tendo o cuidado de evidenciar seu esforço no que poderia ser apenas um débil disfarce.

– Não quer subir? Voltar pra nossa casa?

– É cedo, Yune.

– Mas achei que quisesse...

– E eu quero, Yune. Muito! Mas não quero que se sinta culpado por minha causa.

– Mas eu sinto sua falta!

– Não se preocupe, não vai durar pra sempre. Só até que eu melhore e as marcas sumam. Não quero que sinta culpa a cada vez que me veja machucado. Por nós, Yune. Onegai.

O pedido veio acompanhado de um gesto: Kai se aproximou do outro, deixando que ele tocasse seu rosto, novamente ignorando a dor evidenciada. Um novo ato para lhe causar culpa.

– Hai, tudo bem amor. Como quiser.

Havia um tempo, uma data marcada. A calmaria ia durar pouco. Queria prolongar ao máximo essa estadia no porão, mas não poderia se esconder para sempre.

Esperava apenas que ele lhe desse algum tempo antes de querer tocá-lo novamente. Tinha medo de não ser forte o bastante para encarar aquilo que talvez não pudesse ser adiado.