Capítulo Quinto
O som constante de areia triturando-se debaixo dos seus pés enchia seus ouvidos. Para unir-se à sinfonia, o bater das ondas do mar nas rochas, ritmicamente, dava uma sensação de conforto e Catelyn podia apenas seguir caminhando. Tinha plena consciência que cada um dos seus passos era observado por algum dos seus guardas, mas eles mantinham uma distancia apropriada para que ela pudesse se sentir sozinha e protegida.
A capa de viagem que pusera sobre os ombros, feita com a pele de algumas dezenas de coelhos, tentava resguardá-la do frio que se instalava no Oeste naquele inicio de noite. As rochas, úmidas e escorregadias pelo mar e pela neve que caia hora sim, hora não, foram seu assento e sua proteção contra o vento que insistia em soprar, fazendo seus cabelos vermelhos chicotearem tudo a sua volta.
-Tywin...
Ela repetia seu nome, mesmo que apenas num sussurro. Observava a Lua muito próxima de tocar o limiar do horizonte e imaginava se um dia poderia embarcar num navio e ir ver o que existia além daquilo que seus olhos podiam ver. Focava-se em coisas que não tinha como saber, divagações e pensamentos sem muito sentido... Mas essa era a única forma que conhecia para afastar do seu peito a dor que, egoisticamente, ela vivenciava sem dar-se conta de que ela já não tinha mais esse direito. Sofrer apenas por si mesma, quando o resto do reino precisava dela.
Deixou escapar todas as lagrimas que afogavam seu coração. Odiava, e permitia-se odiar, até mesmo as letras que formavam o nome de Joanna. E se ela dominava tanto assim do coração de Tywin, mesmo trinta e tantos anos após sua morte, Catelyn odiava também aquilo, o lugar onde as memórias dela repousavam. Nunca se imaginou capaz de odiar o coração do homem que ela amava, mas era imperativo e ela não sabia como arrancar isso de si mesma.
-Catelyn. –ela ouviu a voz rouca do nortenho que podia ser um grande causador de problemas apenas por estar ali, mesmo que suas intenções não fossem essas. Mas no fundo de seu peito, não queria repeli-lo.
-Lorde Stark... –ela virou o rosto, para secar as lagrimas na manga do vestido- O que o senhor faz aqui?
-Eu a vi caminhando pela praia. Não é seguro estar tão distante assim do Castelo. Mesmo com seus guardas estrategicamente posicionados e vendo tudo o que está acontecendo.
-Eu tinha que ficar sozinha. Tanta coisa tem acontecido... Há tanto o que considerar...
-Eu não devia ter vindo até aqui. Casterly Rock, eu quero dizer. –ele sentou-se na areia diante dela e costas para o Mar, apoiando-se numa pedra- Há implicações demais em estar no mesmo ambiente em que a senhora novamente. E eu posso estar causando conflitos no seu casamento, confesso que imaginei que isso pudesse acontecer, mas nunca foi minha intenção.
-O senhor não é o problema. –ela assegurou- Talvez não a esmagadora maior parte do problema.
-Eu partirei amanhã cedo. –anunciou- Eu preciso estar em Winterfell o mais rápido possível, mesmo que signifique perder o casamento de Brandon. E o senhor seu marido não me quer aqui. –ele disse tentando não dar espaço para que ela interrompesse o que ele pretendia dizer- Eu apenas não posso partir sem dizer-lhe todas as coisas que eu tenho prontas para serem ditas durante todos esses anos, desde a morte de Brandon.
Catelyn temeu o que escutaria, mas não fez nenhuma objeção. Recebeu um odre de vinho das mãos dele e tomou um gole. Era doce, talvez o mais suave que ela já tenha provado. Serviu para esquentar seu peito no meio de todo aquele frio.
-Quando a senhora se casou com Lorde Tywin, ou mesmo antes disso... Quando a noticia se espalhou pelo reino e eu estava atravessando a Campina, indo para minha primeira incursão em Dorne, eu decidi voltar. Eu não podia permitir que a senhora fizesse isso. Eu tinha na memória sua juventude, sagacidade... Tinha o som do seu riso mesclado ao riso de Brandon e fui testemunha, grande parte das vezes, dos planos que vocês faziam para o futuro. E então, no meio de toda aquela atrocidade, você estava aceitando Tywin Lannister. O homem mais cruel que eu já tive noticia. Mais que o Rei Louco, que assou meu pai vivo, mais do que qualquer outro. O Rei Louco era louco. Tywin Lannister era cruel, por apenas ser. –Catelyn não podia objetar-se a isso- Westeros sabia disso. E você também sabia, mas o aceitou mesmo assim, porque imaginava que o apoio dele nos daria ganho de causa na Rebelião. Você se sacrificou, ou estava se sacrificando, e eu não podia conviver com isso.
Ele fez uma pausa e tomou um gole de vinho, observava as lágrimas peroladas escorrendo pelo rosto dela, mas não podia secá-las. Seria muito intimo e talvez fosse mal interpretado. Ou talvez fosse o primeiro ato de uma serie de outros que fariam com que ele se arrependesse.
-Jon Arryn, após a morte de Brandon e do senhor meu pai, me disse o que eu deveria fazer a seu respeito. Era o correto, era o que se esperava de mim àquele ponto da historia.
-Eu esperei que o senhor pedisse minha mão. –Catelyn confessou- Todos esperavam que a carta chegasse, ou que o senhor aparecesse e honrasse o acordo entre nossas casas. Sempre fora um acordo entre nossas casas, não importava se eu ou Lysa o honraríamos, ou se seria o senhor ou Bran ou Benjen. –ela disse, tentando conter os cabelos que não paravam de esvoaçar por todos os lados- Eu esperei por sua carta e estava pronta para aceita-lo. Mas ela jamais veio e eu entendia que era pela guerra. Que não havia espaço algum para casamentos no meio de uma situação como aquela. E eu confesso que não saberia como lidar com uma união com alguém tão parecido a Bran, tão semelhante e tão diferente, alguém que nos viu juntos e que foi feliz por nós dois...
-Eu não sabia o que faria com a senhora quando minha carta chegasse a suas mãos e você, estimulada por todo seu senso de dever e honra, dissesse que sim. Mas eu resolvi me arriscar. Eu jamais seria alvo do amor que Brandon teve de sua parte, eu jamais seria tudo o que meu irmão foi, e era injusto prendê-la a mim. Você merecia muito mais, um lugar mais feliz, algo que preenchesse seu coração em luto... Mas não Tywin Lannister e seus odiosos gêmeos. Eu não podia lidar com isso, eu queria resolver tudo aquilo, eu queria toma-la para mim e unir nossas casas como foi o esperado, eu me esforçaria ao máximo por fazer com que você fosse feliz, a Catelyn de sempre, com um sorriso nos lábios e flores no cabelo, caminhando pelo rio enquanto cantava canções de cavaleiros... A Catelyn que ensinou Lyanna a arrumar os cabelos e a usar uma agulha do modo sulista... Eu não me conformava com a doce Catelyn pela qual o Norte esperava, presa entre leões.
-E por que razão você jamais chegou?
-O Senhor seu pai me impediu. Eu enviei a carta tão logo pude unir meus pedaços após a morte de Bran. Eu pedi sua mão, mas você não estava em condições de aceitar nada, ou lidar com mais nada. Seu pai me respondeu dizendo para esperar, que você ficaria melhor com o tempo e que apenas então se pensaria em unir casas novamente.
-Eu jamais soube. –ela murmurou, um pouco contrariada por aquilo.
-Mas eu me sinto grato por isso. Eu logo descobri que um ato de leviandade durante o Torneio de Harrenhal rendeu-me Brandon, no ventre de Ashara. Minhas obrigações foram outras, e mesmo que o irmão dela estivesse inclinado em mantê-la longe de mim e do bebê que ela esperava, eu tinha sentimentos por ela. Eu a amava, devo dizer-lhe com todo meu coração. Mas ao mesmo tempo, minha preocupação residia em você e no que aconteceria com seu futuro. Exatamente na mesma época em que surgiu a história que Brandon nascera morto e Ashara se suicidara, seu casamento com Tywin foi anunciado. Eu tinha a chance de fazer as coisas darem certo, e quando cheguei a Riverrun, sozinho, sem comitiva e sem anunciar-me previamente, eu a vi nos braços dele. No mesmo jardim onde Brandon destripou Petyr Baelish, e você tinha um sorriso no rosto e ele beijava seus lábios. Eu encontrei seu pai àquela noite e implorei que ele jamais dissesse a você sobre o que me levou até ali. Absurdamente, eu sentia que tinha perdido a mulher da minha vida para sempre. Ambas as mulheres que eu poderia amar, Ashara e Catelyn.
-Mas Ashara estava viva. –ela estava tentando não comover-se com a história, não diante dele, mas tudo, além de fazer muito sentido, era algo que machucava seu peito um pouco mais. Revelações de como sua vida poderia ter sido diferente... outro tipo de felicidade e plenitude.
-Ashara estava viva. –ele abriu um sorriso- E Brandon havia nascido saudável, mas ambos estavam sendo mantidos cativos numa torre isolada em Tombastela. E quando eu soube disso, pelos lábios de Lyanna minutos antes de sua morte, eu senti esperança de novo, uma chance, algo pelo que lutar, alguém para amar... E eu a encontrei e me casei com ela no mesmo dia. Então, mesmo seu nome tendo sido banido de Winterfell quando Ashara soube de tudo o que eu sentia a seu respeito, eu continuava mantendo uma vigília silenciosa, por meu irmão, por tudo o que você significou para minha família e pela gratidão que eu sentia por sua atitude de sacrificar-se assim pela causa do homem que você amou. Eu jamais pude expulsá-la de mim, e eu sei que nada do que eu diga agora mudaria nada, e nem deve mudar. Mas eu a amo, Lady Cat. Embora eu jamais possa de fato amá-la, eu sempre a amarei.
-Oh... –Catelyn sobressaltou-se. Definitivamente não esperava por uma declaração de amor como aquela, não naquele dia e muito menos estando tão fragilizada e magoada com Tywin- Lorde Stark, eu não sei o que lhe dizer...
-Nada. –ele sorriu- A senhora não deve dizer nada. Não é segredo que o que eu chamo de sacrifício de sua parte, tenha se tornado amor tanto no seu coração, quanto no dele. E aquele homem, ainda que não me inspire toda a confiança que eu deveria ter no meu Rei, moldou-se em alguém melhor pelas suas mãos. Há amor em cada olhar que vocês trocam, em cada pequeno gesto, nas palavras e no modo como um sorri para o outro. É o que me conforta, Lady Cat, minha Rainha... Você vive um amor e é feliz por isso.
Nesse ponto, lembrando-se de tudo o que aconteceram durante aquele dia, ela despencou em lágrimas novamente. Queria que Edmure estivesse ali, para poder aninhar-se em seu colo e contar todas as suas aflições. Necessitava um abraço, alguém que afastasse o desespero do seu peito, mas olhando para Eddard Stark percebia que a maneira correta de agir era sair dali o mais rápido possível.
-Meu marido não me ama como eu o amo. –ela disse.
-Ele seria o maior tolo do mundo se não a idolatrasse, minha senhora.
-Ele jamais superou sua primeira mulher... –e traindo-se, Catelyn contou a ele o que ouvira de Tywin apenas algumas horas antes.
Eddard Stark segurou sua mão e ofereceu-lhe um sorriso.
-Eu falarei por mim, mas imagine-o na mesma situação. –ele começou, seu polegar áspero afastando as lágrimas dos olhos dela- Eu amava Ashara. Amo. Cada momento em que estivemos juntos, cada dia e cada segundo em que ela esteve me apoiando, me inspirando a abrir um sorriso, a vencer o gelo que ao perder metade de minha família instalou em meu coração... Não há como esquecer as memórias boas, não é justo exigir de ninguém que deixe para trás aquilo que o manteve forte durante tanto tempo. Eu ainda amo Ashara, e Lya já tem dez anos. Eu perdi minha esposa, minha companheira, a mãe do meu garoto e a senhora da minha vida da mesma forma que o seu marido perdeu a dele. É a mesma situação, é o mesmo sentimento. Eu não pude olhar para Lya por dias, eu não pude lidar com mais nada a não ser com o desespero que eu sentia. E cada instante de dor, me fazia sentir mais falta dela, ela não estava ali para me consolar e ela jamais estaria novamente. Então eu sabia que ela odiaria me ver daquele modo, que eu precisava reagir... Então cada segundo em que eu fui forte por ela, eu reafirmava meu amor, meu sentimento, minha entrega às vontades de alguém que já tinha me deixado havia anos e anos. O amor cresce, mas ele cresce de modo diferente. E quando eu digo que a amo, Lady Catelyn, eu de fato a amo e se eu pudesse fazer com que você fosse minha, eu faria. Porque apenas mulheres como a senhora são capazes de fazer com que um homem esqueça seu luto e se vincule a alguém novamente. Então o senhor seu marido a ama, ele a venera, ele mataria e morreria por você. Eu mataria e morreria por você, eu lutaria uma guerra, eu a protegeria com minha vida. Mas é um sentimento novo e esperançoso, real e não apenas uma lembrança constante que lhe deu forças pra seguir. É algo que se pode tocar, ouvir, sentir e perceber que independente de qualquer coisa que tenha ficado no passado, ter um presente que viver e um futuro pelo qual esperar é extremamente melhor. Não o culpe, vá até ele e lhe diga que o entende. Não deixe uma sombra do passado estragar a felicidade que você tanto lutou para impregnar no coração daquele homem.
-Como o senhor afirma me amar, mas ao mesmo tempo me convence a voltar pros braços de outro homem? –ela estava abismada.
-Porque é o correto a se fazer. –ele segurou sua nuca e uniu suas testas- Por que jamais seremos nós dois, e eu não quero que você seja infeliz. –ele tocou seus lábios nos dela, sentindo o gosto do vinho que compartilharam- Agora vá, meu amor. Você pertence a ele agora.
