Cap. 36
Delicate Bound
O dia foi calmo. Era meningite no paciente "x". Claro, que você teria descoberto antes caso eu tivesse mandando as 3 cartas anteriores, nas quais falo deste episódio. Terias acertado na 1ª carta, mesmo com a infecção nos rins.
Ainda me é estranho iniciar estas cartas, tenho que dizer, não sei como te chamar.. Não sei que tom usar.. Nem sei se elas te ajudariam. De alguma maneira elas tem me ajudado. Depois do que passou entre a gente não sei como agir.
Sinto tua falta.
Acho que todos a sentem. Sim, todos sentem.
O hospital nunca esteve com as contas mais em ordem sem teus "gastos extras"[sim, não podia perder te de dizer]. Mas isso não tirou a preocupaçao do rosto da Cuddy. Parece que já superou a culpa por não ter intervindo antes, não ter percebido que você estava tão mal. Acho que todos nós nos sentimos assim.
Creio que nos acostumamos com tuas indas e vindas na desintoxicação, e recentente não demos a devida atenção.. E não pode ser. Falhamos.
Mas você foi mais forte que todos, e como sempre, conseguiu ver algo que perdemos. E uma felicidade me conforta, que desta vez, você salvou...Você mesmo. Usou tua genialidade para o teu bem.
Estava lendo um livro e uma passagem me fez pensar em você.
"Ter talento é acertar um alvo que ninguém acertou. Ser gênio é acertar um alvo que ninguém viu". [Se teu ego não explodiu ainda, continue a ler]. É de um filosofo pessimista e rabugento do século XIX, Schopenhauer, que acreditava que o contato com os 'bipedes'[era assim q ele chamava o resto das pessoas] era descartável. E que a vida é indiscutivelmente dor e sofrimento, e o paliativo máximo para isso é a música. E pasme: ele foi a maior influencia para o pensamento de Freud na psicanálise [ok, pode rir de mim agora!]
Além das boas finanças, o hospital está um tédio. Não se preocupe, os casos continuam vindo e o Foreman tem se esforçado muito em estar no seu lugar. Ele tem feito um bom trabalho [mas nego a ter a morte se disseres que eu falei isso]. É apenas muita pressão e coisas a decidir. Chase tem ajudado também. E o Wilson ameaçou queimar vivo quem for até você pertubar com algum problema de diagnostico. Até eu fiquei com medo do olhar do nosso amigo. Ele vive repetindo "House ia gostar de ver isso".. "House ia dizer isso..".. "House não ia perder essa"...
Remy tem se mostrado ótima em descobrir algumas pistas importantes e em frear algumas loucuras do novo chefe. É divertido vê-los juntos nesta nova relação. Às vezes, tenho um deja vu. Confesse que era divertido quando eu estava do seu lado nos diagnoticos! [Pelo menos você não reclamava do meu café. Taub contou-me que você sentia falta disso].
Quem anda impossível de conviver é o Cotton. Você definitivamente estragou meu gato. Desenvolveu uma predilação psicopata por presunto. Não posso descuidar da mesa ou da geladeira aberta. Inventou de querer caçar passarinhos na janela e de escalar minhas cortinas.
Outro dia, achei uma camisa sua no meu armário. Ainda tinha teu cheiro. E tua presença se materializou sem que eu pedisse. Foi quase insuportável. Não sei o que dizer. Sinto tua falta. Não sei se como antes, ou antes do antes.. Mas minha vida parece uma cópia falsa e cruel de algo que tive.
É por isso que estas cartas acabam não sendo entregues. Eu as sinto como aquelas mensagens que se jogam no alto mar em garrafas; esperando que a pessoa certa as ache.
Quero tanto que você fique bem. E você sabe que eu falo demais. E não quero te causar dor ou preocupação. Porém queria tanto falar com você. Ver se você está bem. O que eu posso fazer. Eu não sei o que fazer. Não sei se é melhor que eu fique longe ou perto de você para que você fique melhor. Para que eu fique melhor; minha resposta é muito egoísta.
Sei que fui eu que parti primeiro, sei que fui eu que me afastei de você... E me senti assim perdida quando teu pai morreu, pois eu tinha decidido me afastar de você naquela época [sempre tentando] e não sabia como estar presente naquele momento de luto, sem estar.
Mas muito mudou, creio eu.. E com tudo que você está passando, não pense que eu não me importo com você. Não pense que eu te abandonei. Estou aqui pra você.. Mesmo que não sejamos o q antes fomos, ou o que antes disso representamos. Estou aqui pra você. Muito. Sempre....
Ele sabia muito bem onde acha-la.
Lá estava ela sentada, com seu cabelo em um coque frouxo e bagunçado, segurando forte seu casaco de tricot. Escrevendo. Concentrada. Sozinha.
Ficou observando-a por um momento.
Você pode perder a fé em várias coisas. Duvidar das dúvidas. Até desacreditar em achar alguém certo para você. Um amor como mito dizem ser. Mas quando ele te acha, não há mais nada o que fazer.
Como podia ser possível que ele se lembrasse da primeira vez que a viu? Tímida e silenciosa, respondendo as perguntas dele com poucas palavras e evitando olha-lo com mais atenção. Ele se deteve em cada detalhe do rosto dela. No tom da voz. Na forma como ela mexia com a caneta e depois no cabelo.
Da mesma maneira que agora, ele observava seus movimentos no trabalho antigamente. Ele tentou não admitir aquilo, tentou correr daquilo. Ele nunca tinha amado alguém tão desesperadamente.
E quando ele fazia um retrato delicado dela, um comentário malicioso perfeito, destruía qualquer afirmação que ele conhecia o próximo passo daquela mulher.
Ele gostava daquilo. Ficar sem ação perto dela. Ela era a combinação perfeita. Ela era perfeita para ele. E ele a amou docemente. Completamente rendido. Pois não podia fazer mais nada, pensar em perde-la era .. Ele não conseguia conceber esta idéia.
Mas ela não o amava. E dentro de si, ele sabia isso desde a 1ª vez que viu como ela olhava para ele. Sim, ele sabia. Ele, Dr. Robert Chase, que conseguira todas as mulheres que queria... E ela não tinha sido uma exceção.. Sabia que Cameron não o amava.
Por mais que a rejeição, a dor de perdê-la, de vê-la com outro lhe matasse..Ele reconhecia que ela tinha tentado. Reconhecia que ela tinha gostado dele, tentado ama-lo tanto como ele a amara, aceitado o pedido de casamento. Ele sabia disso também. Ela pensara que aquele amor maldito por House não lhe traria mais que uma alma despedaçada. E Chase faria de tudo para que isso não acontecesse.
Era impossível de não pensar em um poeta que falava de "João que amava Teresa que amava Raimundo...". Contudo, Cameron, mesmo sem ama-lo, teve a esperança de faze-lo. E House amava Cameron, era só covarde mesmo. Enquanto ela teve a audácia de ficar em um relacionamento sem amor, ele teve medo de viver um de verdade.
Mas não estava mais nas mãos dele. Ele tinha que prosseguir. Ele estava fazendo-o. E mesmo assim, ridículo como era, ao vê-la... Algo nele não estava totalmente superado. Um dia estaria? Como se esquece alguém que se amou de verdade? Alguém que você amou tanto que nem se importou em ser amado de volta?
Ele se recordou de como ela lhe disse que tinha que ser verdadeira com o que sentia. E lhe falou de House, do que tiveram. E que ela nunca se perdoaria em se esconder no amor que o jovem médico tinha por ela. Como ela sumiu por um tempo depois do casamento cancelado. De como ficou um pouco isolada, e passando períodos na casa dos pais. Como aparecia no hospital com o mesmo sorriso, mas a face preocupada em outro lugar. O corpo mais frágil. Existia uma alegria nela, diferente, nova.. Mesmo nos dias tristes, que ele não compreendia. Ele ficara preocupado que ela adoecera, q ela perdesse aquela vontade de viver tão dela. Machucava não estar come ela, o tempo já tinha curado alguns laços, e acima de tudo ele compreendeu que não queria vê-la infeliz.
Ele resolveu parar de ser egoísta, e pensar em apenas o que lhe faria feliz. E pensar que a felicidade dele e a dela não estavam mais ligadas. Coexistiriam. Era isso.
- Não está um pouco frio aqui fora? – ele olhou pra entrada do Hospital -...
- Você me assustou!.. - ela deu um sorriso meigo- .. Não faça isso com uma mulher que passou dos 30 e mora tão perto de Nova York...
- Perdida nas suas palavras? – ele se sentou próximo dela-...
- .. Você não sabe como... Aproveitando o meu intervalo para organizá-las...
Ele observou como o casaco espesso escondia o corpo dela e a ponta do nariz estva um pouco vermelha do frio. A neve já não tinha sua presença na paisagem há um bom tempo, mas o ar continuava gelado.
- Você irá vê-lo hoje? – ele falou- .. Isso é estranho, ne? Falarmos dele?.. – ele fez uma careta-...
- É .. – ela riu-.. Bem estranho.. – ela devolveu a careta-..
- Você está bem, Cam? – ele perguntou singelo-..
Ela olhou para o pedaço de papel em suas mãos.
- Ficarei. – ela sorriu-..
- Isso é bom.. – ele concordou-...
O assunto foi mudado porque as cicatrizes dos dois não lhes permitiam ir alem daquela linha. Ainda se queriam bem, de uma maneira que só apenas quem amou e vê seu fim em cinzas, e parte antes de causar mal, pode contar. Existe dor, contudo não há mágoa. É algo estranho, incomodo e bizarro. Porém o tempo ajuda, não há rancor.
- Irei fazer uma especialização em Cuba.. – ele começou-...
Ela ficou indecisa no que dizer.
- Você sabe as praias são boas por lá.. Os charutos e a música excelentes.. Ahh... E a medicina também...
Ela riu. E depois ficou séria.
- É por minha..
- Não, é por mim.. Preciso disso.
- Isso é bom... Fico contente...
- E falando nisso, você não vai acreditar no que o Foreman me pediu quando eu estiver lá!
- Ahh.. Tenho até medo de advinhar...
Eles riram timidamente no começo. Conheciam muito bem aquele old duck pra saber que seria algo que Fidel desaprovaria.
Seguir as indicações parecia mais fácil que realmente fazer-lo, e todos aqueles corredores pareciam iguais. Era melhor que sua imaginação tinha pintado, porém.
Tinha que admitir que as cenas cinematográficas conhecidas eram mais intensas que aquele lugar. Não era bem uma cela com o Marques de Sade, escrevendo nas paredes com.. Sim, ela lera muitos romances antigos. House estava bem. E estamos no século XXI. A lobotomia também não era uma opção.
Ela sentiu uma mão em seu braço.
- Pensei que era apenas eu que estava fugindo do minotauro... – ela sorriu delicadamente-.. Também procurando a área de visitas?..
Cameron demorou uns segundos para reconhecê-la. Fazia quantos anos que não se viam?
- ... É você, Allyson? Não é? .. Estou sem meus óculos... E fiquei em duvida quanto a você.. Você mudou..
- Sim.. Sou eu... Sim.. Isso é um labirinto ..- ela riu-... Sim.. mudei.. – ela tocou nos cabelos e elas trocaram um abraço desajeitado-....
- Se eu soubesse que meu filho estaria em boa companhia, não teria vindo... Ele não gostou de me ver da ultima vez, parecia quando ia busca-lo na escola, todo envergonhado... Mas ele me falou que estaria sem visitas este domingo.. Não queria deixa-lo sozinho...
- Sra. House..
- Blythe, querida.. Sempre lhe pedi...
- Blythe... Desculpe-me.. Nos mails era mais fácil esta informalidade... Ele não sabe que eu vim..- ela falou corando-..
- Ahh.. É uma surpresa!! – ela ficou animada com a ideia- ... Ahh.. minha querida!! Ele vai ficar feliz!
- Eu espero.. House não gosta muito de surpresas..
- Deixe dessa bobagem.. Ele é terrível.. Mas sempre gostou de você....
- Sempre? ...
Cameron não tinha certeza se falara em voz alta ou não, mas o rosto da mãe de House lhe alertara que fora mais alto que pensara.
Desde que haviam se conhecido pessoalmente, certa vez que os pais dele tinham visitado o Hospital, elas mantinham uma correspondência indepentende. Começara porque era a jovem médica que respondia os mails dele; primeiro fazendo-a pensar que era o filho rebelde que o fazia. Ela era até boa nisso, e acha um crime a mãe implorar por noticias [a Sra. House aprendera até usar a internet como outro meio de tentar se conectar ao filho].
E depois, Blythe House lhe enviara um mail para seu próprio endereço eletrônico, agradecendo aquela gentileza com eles. A senhora lhe dissera que o erro da jovem foram as respostas regulares, aquilo era demais pra House, mas foi apenas quando "eu vi a maneira como você olha meu Gregie, compreendi a razão que você faz isso. Entendi porque ele muda ao falar de você".
Não havia uma amizade íntima, não se trocavam receitas de tortas de maçã, nem o humor diário de House.. Era algo esporádico, que trocavam noticias suas e sobre seu elo em comum, nas quais Cameron percebia o quanto a mãe dele se sentia isolada e queria saber mais do filho. E pelas quais Blythe percebia como aquela jovem amava o teimoso de seu rebendo, mesmo não admitindo, e queria o melhor pra ele.
Contudo, quando Cameron decidiu sair do Departamento de Diagnósticos, teve medo em perder esta ligação. E escrevera falando sobre este receio. Elas aprenderam a se conhecer, e muitas vezes contar coisas pelas quais não tinham pedido. Uma amizade diferente havia se formado. A mãe de House apoiou sua decisão, e foi taxativa ao lhe demandar que a correspondecia continuasse. Os assuntos eram outros, mais pessoais, contudo House ainda era um assunto em comum. E Blythe notara isso, sua experiência de vida lhe servia para alguma coisa. Sua intuição materna lhe servia para mais outtras.
Quando John House morreu, Cameron mandou flores e um cartão. Queria muito ir ao funeral, mas sentia que a proximidade virtual poderia não correspoder ao mundo concreto, ainda mais em um momento tão dolorido e familiar. House perceberia também que algo se passara as suas costas, já que nenhuma das duas tratara daquela correspondência com ele. Ele se sentiria traído.
E mesmo assim quis o destino que as duas se encontrassem em mais um momento dolorido e familiar. Delicado.
- Srta. Cameron.. – ela balançou a cabeça-...Deixe de gracinhas.. Não vejo a hora de vocês dois pararem com esta dança infinita e ...
- É acho que é por aqui.. Veja a placa.. – Allison falou ansiosa pra mudar de assunto, o recente affair deles fora algo que ela não tinha comentado nos mails-...
Elas pararam na grande sala.
Uma ansiedade súbita bloqueou a garganta da médica.
Lá estava ele, sentado em uma cadeira perto da janela, alheio ao mundo. Estava fazendo palvras-cruzadas.
Elas se aproximaram sem saber como serem anunciadas.
- Gregie? .. – ele olhou para mãe como uma cara divertida e perdeu a fala ao ver Cameron-... Olha só quem eu achei no meu caminho para cá... Estava perdida assim como eu nestes corredores, sinceramente, eles deviam..
Mas os outros dois elementos da conversa permaneciam com um olhar profundo pra consigo, tentando absorver esta proximidade. Tentando processar como agir agora. Qual era o próximo movimento.
- House... é bom... Você está bem.. Isso é bom.. – ela falou pensando que não eram aquelas as palavras que queria dizer.
Ele sorriu. Sentia falta daquela voz. Demorou os olhos em como ela estava bonita, com uma bata bordada, e uma calça jeans, e um casado escuro. Segurava na mão um cachecol. Procurou mais uma cadeira para próximo deles.
- Mamãe.. Não falei que não precisava vir.. Quando disseram que eu tinha visita, achei que era apenas o Jimmy fazendo o milagre do espaço e tempo para chegar aqui. Não imaginei serem vocês duas.. – ele olhou indiretamente para Allisson-...
- Bem, não foi combinado... Se eu soubesse que Allison viria... Não teria vindo.. Gregie, de verdade...
- A gente apenas se encontrou aqui..
House achou anômalo a mãe chama-la de Allison, mas o q ele podia achar anormal em um hospício? Ficou olhando a sua mãe contar as ultimas novidades e abrir uma bolsa com pequenos presentes pra ele. Ela era divertida, ele sentia a falta do carinho dela, apenas não sabia como encaixa-la em sua vida. Via como Cameron ria das historias da mãe. Ela tinha vendido vários bens, e passado uma temporada viajando logo depois da morte do marido. Tinha boas lembranças para contar. Ela tinha se divertido, ultrapassara a perda. Ele estava feliz. Não conseguia ver a mãe triste, não de novo.
- Mas chega de falar sobre isso... Essas coisas de velhos.. Se não forem engraçadas, são trágicas.. Gregie, ela não está mudada? ..- e ela voltou-se para Cameron-...Não é apenas a cor do cabelo.. Uma mãe sabe.. É algo mais..- ela olhou demoradamente para a jovem-...
- Bem.. Eu o cortei um pouco também... – ela forçou um sorriso, constrangida com a situaçao-...
House ficou observando Cameron. Ela estava ainda mais bela do que lembrava. Ela tinha mudado sim. Ela parecia mais mulher. Mais segura de si. Ele não sabia explicar. Era como se fizesse mais de alguns meses longe dela. E a falta que ela lhe fazia parecia concordar com este calculo de tempo.
A Sra. House observou os dois.
- A minha memória já não anda a mesma... Eu esqueci um presente da sua tia Yolanda no carro.. Eu já volto...
Eles assentiram. A conversa retornou quando ambos viram a figura maternal sair da sala.
- Não sei como ainda a permitem dirigir... – ele disse sem olhar pra ela-...
- Eu não acho que exista outro pacote pra você ..- ela riu ao dizer-...
- Se não tem, ela vai dar o jeito em um.. Minha Tia Yoli não é muito boa mesmo em escolhas .. – ele riu-.. Mas que bela alcoviteira minha mãe se saiu... – ele olhou indignado-...
- Não fale assim dela... – ela o repreendeu ríspida-..
- E não é que a velha Sra. Blyte conseguiu uma defensora... Ela gosta de você também... Mas deixe que ela saiba como você enganou o filho dela .. As mães são assim...
Cameron olhou para as mãos, fechou o casaco, cruzou os braços. Protegeu-se.
- Allie...... Cameron.. Eu.. Eu não queria que soasse assim.. – ele parecia preocupado demais-.. Desculpe-me.. Eu apenas quis romper esta barreira entre a gente...
- Não, House.. Não precisa se desculpar.. Eu que estou nervosa em estar aqui..
- Não .. veja bem.. Ando cercado pelos 12 macacos aqui.. E você sabe que eu nunca fui muito sutil.. Estou tentando interromper meus "padrões de comportamento".. –ele fez as aspas com os dedos e uma cara de deboche-... Não quis te machucar...
Ela estava sentada proxima dele. Ele tinha mudado também. O mesmo charme, a voz aveludada e o sorriso encantador. Mas ele tinha mudado.
Segurou na mão dele. A mão estava fria, num impulso ela quase retirou a sua, mas permaneceu ali. Olhou para ele.
- Eu sei...
Ele sentiu um grande alivio. O toque dela foi como uma recompensa para algo que ele já não lembrava. Ela retirou a mão.
- Como você está? Wilson me conta as novas.. Mas quero saber o que ele não me andou contando...
- Bem... – House tentou se manter concentrado-.. Logo que eu cheguei aqui, desconbri que era muito alto para fingir ser Napoleão.. Não havia serviço de quarto.. E nem um famoso que preste pelas imediações.. Nenhum paparazzo.. A comida não é melhor que a da cafeteria do Hospital.. E eu tenho que varrer o meu quarto... A minha psiquiatra é insana, deve mexer com magia negra, não sei como ainda estou vivo...
- Sério House.. Por favor... ?
- Humm.. Eu vi que você riu...
- O que é diferente das outras internações? – indagou séria-...
Um balde de água fria. Ele tinha que ser sério agora. Ele olhou para os lados. Ele sentira saudades dela, mas era tão desconfortável vê-la ali. Sendo testemunha de onde ele tinha chegado com seu vício.
- Ninguém me obrigou desta vez a vir. Não houve apostas ou obrigações. Finalmente, percebi que se não parasse... Morreria. E não quero isso. Talvez com as alucinações, cheguei no fundo do poço.. Como se diz.. E pulei vários estágios da recuperação que negara das outras vezes... Desta vez, consigo dizer: "Eu tenho um problema. Sou um viciado. Quero mudar."
Ela segurou a emoção. Segurou a mão dele mais uma vez.
- Estou orgulhosa de você.
Gregory House estava sentado na sala de televisão, o barulho alheio não lhe pertubava. Digerindo todas as emoções do dia anterior. Ele aprendera que tinha que senti-las, e fazia muito tempo que ele não sentia nada. Não sentia sem ajuda das drogas para dopar-lhe a realidade. Ele não precisava encarar nada, resolver nada quando as drogas agiam em seu organismo, viajavam em suas veias e explodiam seu cérebro. Agora sem elas, lembrava de coisas do passado que eram antes apenas um borrão. Ainda não sabia como lidar com tudo sem enloquecer de vez.
A ex-amante não lhe dera um abraço ao partir. Nem um beijo. Ele não sabia o que significava a vinda de Cameron. Ela queria uma volta? Ou apenas, como sempre, como boa samaritana, engolira o ódio por ele.. E lhe oferecia sua ajuda.. Sua amizade?.. Que fora ao diabo com sua amizade... Ele não a queria..
Alguém se aproximou dele.
-Dr. House... Vim lhe trazer um dever de casa pra nossa próxima sessão ... – Dra. Buendia tirava um maço de cartas com um belo laço amarelo envolto-.. São da Srta. Cameron...
Ele estendeu a mão. Tomou-as. A pergunta ficou no ar.
- Encontrei com ela.. Escrevendo de novo.. Aproveitei um descuido da parte dela e roubei o pacote.. – ela abriu um sorriso-...
House ficou em choque... Aquela médica era melh.. pior que ele!!.. Roubar as cartas?!!...
A velha senhora bufou de frustração.
- E eu achando que você tinha aprendido algo, perdão pela minha liberdade poética... Dra. Cameron veio hoje no meu consultório. Falou-me das cartas, o que mais ou menos elas diziam.. E se eu achava que faria mal para sua recuperação le-las. Tenho meus escrúpulos, não roubaria as cartas. Senhor Jesus.. que pensas de mim.. Leia-as. Conversamos sobre as mesmas depois. Creio que lhe ajudaram...
- Certo...
Foi tudo que ele conseguiu falar, ao ver a pequena figura sair.
Tocou o laço amarelo. Aquele laço delicado. Era algo que Alisson faria.
Aquele laço delicado entre ela e ele. Não frágil. Apenas viceral. Delicadamente deles.
