TEPT – Capítulo 33
"Emergência"
PDV EDWARD
Quando eu cheguei até a sala de emergências, Carlisle já estava lá, tomando conta da situação. Bella estava na maca, desacordada, com a máscara de oxigênio em seu rosto, enquanto a enfermeira entrava com o acesso e ele ditava os procedimentos seguintes.
Eu parei na porta, olhando para Bella, sem saber como prosseguir.
Desde que tínhamos começado o tratamento, Bella havia tido poucas crises. Seu avanço era lento, mas relativamente calmo. Eu cheguei mesmo a acreditar que, por não estar mais vivendo os momentos traumatizantes com os pais, talvez ela pudesse chegar a superar o transtorno - Ou, ao menos, controlá-lo.
Mas agora ela estava em seu pior momento.
E por minha culpa.
- Edward! - Carlisle finalmente me viu. - Isabella tem alergia a algum medicamento?
- Oi? - Eu fiquei o olhando, sem conseguir processar direito o que ele havia dito.
- Dr. Masen, concentre-se: a paciente tem alergia a algum medicamento? - Ele ergueu sua sobrancelha e eu não pude deixar de notar como ele passou a me chamar de forma profissional.
- Eu...
- Dr. Masen, responda rápido! – O tom de Carlisle era cada vez mais exigente. - Eu estou esperando e a paciente também!
- N-não há nada no prontuário. – Eu gaguejei um pouco, mas consegui responder. Minha mente estava pensando em mil coisas e em nada ao mesmo tempo.
- Ótimo. - Ele bufou antes de se virar. - Sra. Copper, prossiga com os medicamentos.
- Carlisle... – Eu suspirei, me sentindo como um total derrotado.
- Sim, Dr. Masen? - Ele nem se virou, continuando a examinar Isabella.
- Isabella tem histórico de pseudo-asma na infância. - Eu percebi que ele parou um pouco, embora continuasse de costas para mim. - Sem resultado de tratamento preventivo, apenas controle das crises, sempre associadas a episódios de traumas psicológicos.
Soltei o ar preso em minha garganta quando terminei de falar e notei que Carlisle fez o mesmo.
Eu sabia que estava confessando minha culpa ao informa-lo sobre o histórico de Bella, mas ele precisava saber. Apesar de todos os erros anteriores, eu não colocaria Isabella em perigo para defender minha reputação.
- Sra. Copper, continue com os procedimentos. - Carlisle ordenou, ele mesmo trabalhando também. – Precisamos estabiliza-la o mais rápido possível.
- Sim, Senhor. – A Sra. Copper não parava de trabalhar. Ela era uma boa enfermeira e eu já havia tido muitas provas de sua dedicação por todo o tempo em que estava trabalhando na Clínica Cullen.
- Dr. Masen, há alguém da família para ser avisado? – Carlisle questionou, com sua voz impassível, em um tom altamente profissional.
- Sim, Ângela. – Eu informei.
- Então vá telefonar para ela. - Ele ordenou e eu fiquei olhando para suas costas, confuso. Aquele não era trabalho de um médico e Carlisle nunca havia me pedido algo assim.
- Mas...
- Dr. Masen. - Ele finalmente se virou para mim e olhou em meus olhos. - Como seu superior, eu estou te dando uma ordem. Vá fazer o que eu lhe pedi.
- Sim, senhor... - Eu abaixei meus olhos diante da força com a qual ele havia falado, e me virei para sair.
Porém, quando cheguei à porta, parei um instante, olhando para Bella apenas mais uma vez. Embora ela ainda estivesse desacordada, seu peito agora subia e descia com certa cadência; seu rosto, apesar de continuar coberto pela máscara de oxigênio, já apresentava alguma cor.
"Ela vai ficar bem". - Eu repeti para mim mesmo. - "Ela vai ficar bem". E, com certeza, naquele momento, Carlisle era muito mais adequado para cuidar dela do que eu.
- Edward! - Emmett surgiu do nada. - Ela está bem?
- Seu pai está cuidando de tudo. - Minha voz estava um pouco falha, mas eu fiz meu melhor. - Preciso telefonar para Ângela. - Eu saí andando pelo corredor, sentindo Emmett andando logo atrás de mim.
- Edward, - Emmett pousou a mão em meu ombro. - Está tudo bem mesmo?
- Vai ficar, Emmett. - Eu o olhei, assentindo, tentando tranquiliza-lo.
- Você está com uma cara péssima. – Ele me informou e eu suspirei. Como se eu não soubesse. E como se fosse apenas a cara: eu estava me sentindo péssimo por inteiro.
- É uma situação complicada. - Eu suspirei e Emmett me olhou, parecendo tão confuso quanto eu. - Não estava esperando por uma crise dessas. Mas seu pai vai resolver. Ela já está estabilizando.
- Ok... - Ele pareceu ainda duvidoso, mas disposto a deixar passar. Ao menos por agora.
- Eu preciso mesmo ligar para Ângela. - Eu dei a justificativa, já me afastando, e percebi que dessa vez, Emmett não me acompanhou. O que eu agradeci mentalmente.
Eu andei até minha sala e procurei pelo número de Ângela em meu celular. Fazia parte do trabalho ter os contatos dos pacientes e de pessoas próximas que pudessem nos auxiliar em momentos de crise.
Eu fiquei olhando para o nome dela na tela do celular por um segundo, com medo de finalmente discar. Mas eu sabia que era preciso.
O mundo todo estava funcionando em um ritmo meio estranho para mim. Ou talvez fosse apenas eu que estivesse fora do eixo.
Ângela pareceu preocupada desde o momento em que me atendeu. É claro que ela sabia que eu só podia estar ligando sobre Bella, mas eu fiquei remoendo comigo mesmo a ideia de que ela pudesse saber de tudo.
Afinal, não seria mesmo de se estranhar: Ângela era a pessoa mais próxima de Bella. Se ela tivesse que contar a alguém, seria para sua prima.
De toda forma, Ângela não me perguntou nada, nem mesmo me questionou o que havia desencadeado a crise em Bella. Ela apenas disse que estava indo imediatamente para a Clínica.
Nós desligamos o telefone, e eu apenas me deixei afundar na cadeira. Sinceramente, naquele momento, tudo que eu queria era ficar ali para sempre, sem precisar reagir aos problemas que me aguardavam fora da sala.
- Com licença? – Emmett bateu à porta, depois de um tempo que eu não sabia discernir. – Só vim te avisar que meu pai já estabilizou a paciente. Parece que ela já está fora de risco.
- Que bom. – Eu assenti.
- Edward... – Ele suspirou e decidiu entrar, fechando a porta atrás de si. – Eu sei que tem algo muito errado acontecendo aqui. Você não vai mesmo me dizer o que é?
- Emmett... Eu não tenho nada para te dizer.
- Isso não é verdade, Edward. – Ele fez uma careta, mas eu o olhei com meu melhor pedido de silêncio e ele finalmente deixou ir. - Mas eu vou fingir que acredito.
-x-x-x-x-x-
PDV BELLA
Eu acordei com aquele silêncio acolhedor da tarde. A luz calma estava entrando pela janela e eu estava me sentindo estranhamente leve demais.
- Bella? - A voz de Ângela me chamou baixinho e logo sua imagem estava em meu campo de visão. Meus olhos demoraram um pouco para ajustar o foco. - Você está bem?
Quando Ângela segurou minha mão, meus olhos foram até lá e eu percebi que havia um acesso preso.
- O que aconteceu? – Minha garganta estava muito seca.
- Não fala nada. Fica quietinha que está tudo bem. - Ângela sorriu e afagou meu cabelo. - Você teve uma crise de asma, mas eles já te medicaram.
- O que? - Eu fiquei confusa, pois fazia anos que eu não tinha uma crise de asma.
- Shh... - Ângela sorriu outra vez. - Fica calma. Você está bem agora.
Eu devia estar medicada e isso me mantinha mais lenta, então eu tentei formar as conexões com um pouco mais de esforço.
"Eu acho que você compreende que precisamos implementar algumas mudanças... Eu não posso mais acompanhar o seu caso depois do que aconteceu".
Bella idiota.
De repente, as coisas vieram em um jorro.
- Bella? – Ângela me chamou outra vez e, quando eu olhei para ela, sua imagem já estava distorcida pelas lágrimas em meus olhos. – Fica calma, por favor. Você não pode passar mal outra vez. Por favor.
- Ang... O Edward...
- Shh... – Ela colocou um dedo sobre meus lábios e me olhou com aquele aviso silencioso. – Não fala nada aqui. Vamos conversar em casa, está bem?
- Hu-hum. – Eu gemi em resposta. Ela estava certa: sabe-se lá quem podia nos ouvir e eu não queria que as coisas ficassem ainda piores.
- Então seca esse rosto. – Ângela passou os dedos debaixo de meus olhos, secando as lágrimas que já começavam a escorrer. – Eu preciso avisar que você acordou.
- Não! – Eu segurei o braço de Ângela. – Eu não quero ver o Edward, Ang. Por favor.
- Não se preocupa: quem está cuidando de você é o Dr. Cullen.
- Ah... – Eu soltei o ar e o braço dela. – Tudo bem...
- Promete para mim que vai ficar calma? Eles disseram que, se você acordasse bem, poderíamos ir para casa. Mas, se você tiver outra crise...
- Eu vou ficar bem. – Assenti mais que depressa, chegando a engasgar um pouco com a aspereza de minha garganta. - Por favor, Ang: o que eu mais quero agora é sair daqui. Não quero ver ninguém, ter que explicar nada para ninguém.
- Ok. – Ela suspirou. - Se você promete que vai se comportar... Você sabe que eu não posso lidar com uma crise de asma se estivermos em casa. Se você acha que pode acontecer de novo, acho melhor ficarmos aqui mais um pouco.
- Não vai acontecer nada. Eu prometo. Só quero ir para casa e ficar sozinha um pouco. – Eu olhei em seus olhos, para que ela acreditasse. Meu corpo estava todo estranho, mas minha cabeça, com certeza, estava muito pior.
- Bells...
- Não me olhe assim, Ang! – Eu protestei sob seu olhar desconfiado. - Eu não vou fazer nenhuma besteira quando estiver sozinha. Só quero poder ficar triste, sem que isso cause ainda mais problemas.
Ângela soltou o ar devagar e afagou meu rosto mais uma vez, sorrindo sem nenhum humor.
- Você não mentiria para mim, não é?
- Eu juro que não.
- Ok. Eu já volto. – Ela soprou antes de me deixar sozinha.
Quando eu era pequena, eu pensava que as pessoas deviam ter uma cota máxima de tristeza. Na verdade, eu realmente me forçava a acreditar nisso. Porque isso me consolava quando as coisas ficavam muito ruins.
Então, quando eu me sentia mais destruída, eu me deitava na minha cama e escondia minha cabeça debaixo das cobertas, pensando que, em algum momento, minha cota de tristezas acabaria e eu, finalmente viveria uma vida como a das outras pessoas.
Ou talvez, até melhor.
Afinal, se minha cota de tristezas havia acabado, eu só teria uma cota de coisas muito boas acontecendo todo dia, o tempo todo.
Sim, eu era uma criança.
Sim, eu já aprendi que as coisas não funcionam bem dessa forma.
Ao que tudo indica, a cota de tristezas é infinita.
Ou, talvez, seja só a minha...
- Hey, olha só quem acordou! – A Sra. Copper invadiu o quarto, sendo toda solar, como ela costumava ser, e eu tentei sorrir de volta.
- Ela já está bem melhor, não é Bella? – Ângela me deu aquele olhar de aviso para que eu a acompanhasse.
- Bem melhor. – Eu assenti.
- Oun... O que foi que aconteceu, menininha? – A Sra. Copper me olhou como se eu tivesse cinco anos de idade e eu precisei me esforçar mais um pouco para segurar minhas lágrimas. Aquele não era o melhor momento para lidar com uma figura sendo tão materna ao redor de mim.
- Eu... Eu... Não sei. – Tudo bem, eu devia ter pensado em alguma coisa antes.
- Eu acho que ela ficou muito nervosa com uns... problemas da faculdade. – Ângela veio em meu socorro. – E aí, hoje de manhã, ela... viu uma briga no trânsito. Não é, Bella?
- É. – Eu assenti. – Me deixei abalar demais. Mas agora eu só preciso ir para casa e... descansar.
- Bom, eu vou precisar que o Dr. Cullen veja você. Ele ficou tão preocupado que nem esperou o Dr. Masen! Ele mesmo te atendeu! – Ela riu um pouco, como se isso realmente fosse algo incrível. Mal sabia ela que o Dr. Masen é que não queria nem estar perto de mim. Mesmo que eu estivesse morrendo. - Vou pedir que ele venha examinar você, está bem?
- Está...
O Dr. Cullen logo veio me ver, me examinou, fez algumas perguntas sobre minhas crises na infância, os tratamentos que haviam tentado... Eu expliquei que haviam chegado à conclusão que minhas crises eram totalmente causadas pelos traumas psicológicos – O que ele parecia já estar sabendo.
Conversamos por um bom tempo, mas eu estava sentindo um clima horrível entre nós. Parecia que havia uma parede extra, que nunca havia sentido antes.
E eu comecei a imaginar: será que ele sabia do que estava acontecendo?
- Isabella, eu vou permitir que você vá para casa mas, a qualquer sinal de que algo não está bem, eu preciso que você ligue para mim ou para o James.
Deus... Ele sabia.
Meu estômago se contraiu com a constatação.
- Estes são os meus contatos diretos. – Ele passou um cartão para Ângela. – Você pode ficar com ela o resto do dia?
- Claro, doutor! Não se preocupe. Eu vou estar de olho.
- Você é muito forte, Isabella. – Dr. Cullen me encarou com um sorriso sem humor. – Você já superou as coisas mais difíceis que eu vi alguém superar. Não desista agora, está bem? Você é capaz de seguir em frente.
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Olá, meninas!
Me desculpem pelo atraso e também porque hoje não responderei as reviews.
Essa semana está meio cheia para mim.
Até semana que vem!
Beijos
Bah Kika
