Sala de interrogatório.

"Onde você escondeu a arma do crime?" A voz de Nolan foi detectada através do meu sistema auditivo, mas eu não olhei para ele. Estava observando a sala acinzentada. Tudo dentro deste maldito local era cinza, as vezes pendente para o preto. Uma prisão, não somente física, mas psicológica, onde você era privado até das cores. Eu sentia falta do cheiro da minha floresta, do verde em seus diversos e inúmeros tons ao meu redor.

Olhei para a vidraça vedada, onde Emma estava recostada e olhava para o próprio reflexo. Emma não parecia bem. Seus olhos estavam fundos, com olheiras escuras na pele inferior de seus olhos, os cabelos bagunçados. Eu entendia a sua dor. Mas ela precisava saber que eu nada tinha a ver com isso. Eu nunca tocaria em Henry, ou Regina. Ou mesmo Thomas, apesar de odiar o fato de ele ter tocado em Regina de maneiras que me enojava imaginar.

"Não existe arma do crime. Quantas vezes terei que repetir que eu não matei ninguém?" Respondi, já exausto. Eu estava cansado de todas as acusações. Eu sequer estive presente no velório ou no enterro da mulher que eu amo. Eu não pude me despedir dela decentemente. Regina estava morta e se dependesse deles, logo eu também estaria. "Onde estão meus filhos?"

"Com a Branca." Respondeu ele, me encarando. Finalmente encarei seus olhos azuis, mas eles já não eram os mesmos. Eram duros, frios. Era como se a quebra da maldição houvesse quebrado algo dentro de cada um deles. Eu não sabia explicar o que havia acontecido. Mas eu me sentia melhor, uma melhora significativa. Branca de Neve era um dos seres mais altruístas, generosos e bondosos de todos os reinos. Se havia uma pessoa boa e decente para qual eu confiaria a guarda dos meus tesouros mais preciosos, era ela.

Emma finalmente estava me encarando, e eu olhei em seus olhos. Eu reconhecia a dor. Perder alguém que se ama é, entre todos, o tormento mais doloroso, a carga mais pesada. "Eu não matei o seu filho." Disse a ela, e ela assentiu, mas eu não sabia se ela acreditava em mim ou não.

"Não fale com ela." Orientou David, sem me encarar. Ele mexia em alguns papéis. "Robin, você precisa cooperar. Por que não assume o que fez, e conta o que aconteceu? Quer dizer... Thomas morreu de maneira similar à Regina. A lona onde o corpo dele foi enrolado estava repleto das suas digitais. Na sua garagem. E Zelena estava conosco o tempo todo."

"Eu..." O que eu ia dizer? David e sua família de idiotas não entendiam o quão fácil era para Zelena armar tudo aquilo. Eu não duvidaria nada. Mas veja bem, eu atravessei desertos, eu atravessei vilarejos, eu atravessei desertos ermos. Não eles. Eu sei bem do que Zelena é capaz, mas eles, eles não conviveram nada com ela. Não foram castigados por ela. "Vocês não percebem que isso é coisa da Zelena. Esqueceram tudo que eu passei para trazer Regina de volta. Que eu a amo, que eu fiz tudo por ela. Vocês querem se apegar às leis desse mundo nojento e animal para demonstrar alguma ética, alguma justiça. Você sabe que eu não fiz isso, David. Você sabe muito bem disso. Mas está aí, querendo provar algo que te faça sentir mais justo. Mais princípe. Que bom que encontrou um bode expiatório. Que bom que eu fui o escolhido para isso."

Eu engoli em seco, e olhei para Emma, que voltara a encarar o vidro novamente. "Eu não matei o seu filho, Emma." Disse, com a voz firme. "Carceireiro!" Gritei. "Me leve de volta para a cela."


"Olá, querido marido."

A voz me enfureceu de uma forma, que eu voei de cima do acolchoado precário. Enfiei meus braços através das grades mas não a alcancei. Eu queria estrangular Zelena. Mas ela me encarava com os olhos atentos, belíssima em um vestido preto e o chapéu preto por cima da sua cabeça. Um belo exemplar de Satanás.

"O que você quer? Não desgraçou a minha vida o suficiente?" Cuspi as palavras com o ódio e o asco misturados em uma massa homogênea de palavras.

"Não. Ainda não." Ela me fitava com atenção. "Mas... eu tenho uma proposta para você."

"Eu não quero nada que venha de você. Tudo que fez foi mais do que suficiente." Sibilei. Olhei ao redor. Por que os guardas não a pegavam?

"Robin, querido." Senti meus braços imobilizados pela magia dela, presos às grades. Zelena aproximou-se de mim e deslizou seus dedos pelos meus cabelos. "Tire suas mãos de mim, sua bruxa." Rosnei, irritado. Ela apertou as unhas ao redor do meu maxilar, me obrigando a encará-la.

"Agora eu sou uma bruxa, mas algum tempo atrás você estava me amando. Me beijando. Me fazendo sua."

"Eu tenho nojo de você."

Zelena se afastou. "Você deveria ter nojo dela. Ela, que escolheu Thomas. Ela, que te jogou para os meus braços. Tenha nojo dela, não de mim. Eu amei você, Robin, eu..."

"Você me amou?" Gritei, apertando as grades de ferro que me separavam dela da maneira que eu queria apertar seu pescoço. "Você me colocou na cadeia, sua desgraçada! Você me incriminou de três assassinatos! Você não me ama, você nunca amou! Você só queria estragar a vida de Regina e olhe só: ela já está morta. O que mais você quer? Ela não está aqui para me ver sofrer. Já pode parar com essa brincadeira ridícula."

"Você ainda a ama." Ela me acusou, com os olhos vermelhos. Demorei algum tempo para entender o que ela queria dizer com aquilo. Por que se importava se eu amava Regina ou não? Regina estava morta. A não ser... Não, era muito improvável. Mas eu estava prestes a ser condenado. O que eu tinha a perder?

"Você não achou que eu me apaixonaria por você, achou?" Ela me encarou com raiva e eu percebi que estava certo, para a minha surpresa. Zelena havia se apaixonado por mim, de algum modo. Viver a mentira confundira sua mente a ponto de ela se permitir sonhar um futuro comigo. E eu pedira para me separar dela. Como eu imaginava, a culpa realmente caía sobre mim. A culpa por todo o derramamento desnecessário de sangue.

"Cale a boca." Sussurrou ela.

"Pois aqui vai a verdade, Zelena. Morta. Viva. Casada. Solteira. Nesse mundo ou em qualquer outro mundo. Com ou sem maldição. Meu coração sempre pertenceu a Regina e sempre vai pertencer. Eu posso morrer hoje, mas com certeza na próxima vida vou nascer procurando por ela. Porque é ela, sempre foi ela, e nunca, nunca será você."

Ela estava chorando. Eu me sentia péssimo por esmagar os sentimentos de alguém assim, mas sabendo tudo o que Zelena fizera, as pessoas que ela matara, eu não sentia piedade por ela. Eu sabia que estava assinando a minha sentença de morte. Zelena faria de tudo para me incriminar e conseguiria. Eu jamais sairia dali. Mas se eu fosse morrer, eu morreria com a certeza de que essa tatuagem em meu braço não é um simples desenho.

Lembrei-me de Regina, do seu toque, dos seus dedos delicados deslizando por cima do desenho. "É bonita." Lembrei-me dela encarando meus olhos enquanto segurava meu braço. "O que significa?"

"Lealdade."

"Só isso?"

Zelena desaparecera, mas eu continuei ali, encostado às grades. Meus braços estavam enfiados por entre as barras de ferro grosso, e minha cabeça recostada em meus braços. Fitei o chão, e após respirar fundo, fechei os olhos – deixando que as lembranças me embalassem.

"Além do mais, o leão quando escolhe sua parceira, é para sempre. Quer morra, ou fique viúvo, ou seja capturado - ele nunca mais procura outra, nem a leoa busca outro parceiro. São fiéis até o fim."

"Mas você já não está casado pela segunda vez?"

"Mas eu não sou um leão, Regina. Eu sou um homem. Eu amei a mãe do meu filho, mas ela morreu. Eu não sei se amo minha esposa, ainda mais sem me lembrar de como me casei com ela. Mas eu sei que se eu amar uma mulher, eu lutarei com mil leões por ela e nada será capaz de me fazer parar de amá-la."

Essas palavras ressoavam na minha mente como sinos de uma grande candelária. Lealdade. São fiéis até o fim.

Eu não costumava acreditar em sinais. Mas quando você está sem destino, sem perspectiva, sem futuro, você precisa acreditar em alguma coisa. E a tatuagem em meu pulso me ensinava algo. Você a escolheu, Robin. Para todo o sempre.


Dias e dias estavam passando.

Trancafiado nessa masmorra, a vida parece de uma completa miséria. A comida é insossa. Gelada. As paredes rangem a noite toda, como almas chorosas. Um frio insuportável em acomete todas noites, independente de quantos cobertores vagabundos eles ofereçam. Eu não estava vivendo. Eu estava no purgatório.

Eu não estava contando a quantos dias estava ali. Mas eu sabia que não havia mais saída. Zelena mexera os pauzinhos no mesmo dia em que me fizera aquela visita. Foram encontrados vestígios de Regina em casa, vestígios dela em minha cama (que ironia), e claro que tudo isso foi um prato cheio para eles. Tinkerbell fora trancafiada no hospital psiquiátrico logo após o enterro de Regina. Ela poderia testemunhar a meu favor, mas... Eu havia perdido isso também.

Estou um caco, assumo. Minha barba está enorme. Meus olhos estão fundos e sem vida, olheiras enormes me fazem parecer um panda bêbado. Não tenho vontade de me cuidar, de me arrumar, de fazer qualquer coisa. Quando olho no espelho, vejo por fora o que existe por dentro. Um homem derrotado. Um homem feito de perdas. Um homem sem esperança.

"Visita, Hood."

Levanto-me a contragosto. Com passos curtos, vejo Branca se aproximar. Meus olhos se enchem de lágrimas.

"Papa!" A voz da minha filha me desestrutura, e eu ajoelho no chão, abraçando-a pelas grades. "Você está linda, minha princesa! Roland, garotão! Vem cá." Abraço meu menino, passando meus dedos em seus cabelos escuros. Meus filhos parecem assustados com a minha aparência e eu os entendo. Eles quase não tem como me reconhecer. Beijo o topo da cabeça de Abigail. Assim que ela se afasta, poucos centímetros, seus olhos viajam para a minha barba. Ela sorri, passando os dedos nos fios duros.

"Você tá barbudo." Anuncia ela. Roland ri, mas percebo que há algo de curioso em seu olhar. Não preste muita atenção, filho. Não pense muito. "Como está lá na casa da tia Mary?" Pergunto, tentando mudar de assunto. Mary está em pé perto da parede, mas evita me olhar. Ela disfarça, dando privacidade às crianças.

"Muito legal! Emma nos leva para passear, e David faz muitas pizzas, doces, ele compra sorvete... Só não conte isso para a Mary." Sussurra Abigail, me fazendo sorrir. De repente, ela para de sorrir e me encara novamente. "Pai, quando você vai sair daqui e ir embora? Estou com saudades."

"Em breve, meu amor." Tento tranquilizá-la com uma mentira. A verdade seria muito traumática e dolorosa para ela. "Fique tranquila. Não vai demorar nada." Dou o meu melhor sorriso e bagunço os cabelos de Roland, que me encara em silêncio. Roland sempre foi mais introspectivo, mais quieto. Ele sorri. "E você, campeão? Não vai me falar nada?"

"Quero que você volte pra casa, papa. Quero brincar de arco e flecha na floresta... Podemos voltar pro acampamento na floresta quando você voltar?"

"Podemos." Asseguro, engolindo as lágrimas que começam a se criar na base dos meus olhos. Não vou chorar na frente dos meus filhos. Não de novo. Há algo muito estranho em toda essa situação. Abigail e Roland nunca vieram me visitar. Eu os abraço, e beijo a bochecha de Roland através das grades. "Logo logo estaremos todos juntos."

"Cinco minutos!" Grita o carcereiro.

Finalmente, meu olhar cruza com o de Mary Margareth. Ela nunca foi boa em esconder nada. Seus olhos eram como janelas límpidas, revelando tudo em seu interior e essa era uma das suas mais belas características. Mas o que eu vi em seus olhos, não era nenhuma pintura renascentista de um jardim florido. Eu vi medo em seus olhos. Eu vi dor, eu vi compaixão, vi uma carga de tristeza ao redor de seus olhos verdes.

Ela continuou me encarando, como se quisesse me dizer algo, mas não pudesse dizer por causa das crianças. Demorei a entender mas quando finalmente alinhei os fatos, meu coração desacelerou violentamente até que eu quase não o sentisse batendo em meu peito.

Era a primeira vez que Abigail e Roland me visitavam.

Mas era claro que havia uma razão. Sempre existia uma razão. Eles não decidiram simplesmente levar as crianças para me torturar ou para me fazer uma agrado. Engoli em seco quando a única resposta óbvia cruzou a minha mente.

Minha sentença havia saído.

Meus filhos não estavam me visitando. Eles estavam se despedindo.