Só você para me sustentar.
Primeira Parte.
As folhas secas cruciam baixo os passos vacilantes de Harry, enquanto caminhava guiado por sua bengala, pelo longo caminho que o sol da tarde pintava de uma tênue cor dourada ao se refletir na estaladiça lisa. Ron, que caminhava a seu lado, podia observar como o suave vento fazia girar as folhas em círculos ao redor deles antes de devolver ao solo.
-Não precisa me acompanhar até o Castelo. Posso regressar eu só.
-Nada disso, colega. Ainda é cedo. –Ron envolveu os ombros de Harry e suspirou, triste ao pensar que os verdes olhos de seu amigo não fossem capazes de apreciar a beleza da paisagem outonal que os rodeava.
Harry aumentou a velocidade de sua marcha ao sentir o abraço de Ron, e deixou-se guiar de regresso para o Castelo. Faltava só uma hora dantes de que começasse o turno do ruivo no restaurante e Harry não queria que por sua culpa se lhe fizesse tarde. Mas isso a Ron não se importava. E ainda que podia ter ocupado essa tarde livre para recuperar suas horas de sonho, o ruivo preferia a companhia de seu melhor amigo a quem já não podia visitar com tanta frequência.
-Que fará agora que o Ministério te autorizou a ajuda para Hermione? –a bengala negra que lhe servia de apoio chocou contra as escalinatas da entrada e o moreno começou a contar os degraus, como contava todos os passos que dava para não equivocar o caminho. –Seguirá trabalhando no restaurante?
-Assim é. Ainda que agora só vou pagar a metade das despesas, precisarei seguir trabalhando –Harry pôde detectar um tom de alívio na voz de seu amigo quando este prosseguiu. –Mas já me sento mais tranquilo porque não estarei tão pressionado. Calculo que com o que ganhe poderei enfrentar só as despesas e ficará algo para mim.
-Alegra-me escutar-te falar assim –Ron sorriu com ligeireza e ainda que Harry não o viu, pôde sentir que o coração de seu amigo estava mais alegre. –Sei que quando Hermione se recupere, apreciará tudo o que está fazendo por ela.
-Conformo-me com que se recupere, Harry. A doutora Sayers diz que não tem deixado de ler seus diários. –o rosto de Ron se ensombreceu por um breve instante. –Diz que não consegue assimilar suas próprias lembranças. Que é como se... tudo o que escreveu no diário não lhe tivesse passado a ela. Mas prometeu averiguar o motivo e encontrar uma solução. E você? Como vai o professor Snape com o do veneno? Tem encontrado o modo de ajudar-te?
-Está fazendo todo o possível. –Harry deixou que sua bengala o guiasse pelos corredores. Ambos decidiram ignorar os murmúrios dos estudantes que encontravam a seu passo em seu caminho para as masmorras. –Mas não o posso pressionar, sabe? Tem bastante trabalho com as classes de Poções e com lidar todos os dias com os estudantes de sua Casa.
-Entendo...
-Se eu pudesse... –Harry não terminou a frase, e seu amigo pôde advertir que seu rosto se entristecia. –Supunha-se que neste ano seria auxiliar na matéria de Duelo. E Remus é quem carrega com ela junto com as classes de Defesa. E ademais é chefe da Casa.
-Não acho que a Remus lhe moleste cumprir com todas essas funções. –o tratou de consolar seu amigo. Harry pronunciou a contrassenha dos aposentos que compartilhava com seu companheiro. Ron sentou-se junto a ele no sofá da sala, em frente à lareira acendida.
-Também não posso fazer nada para ajudar a Severus com sua investigação. –prosseguiu o moreno, e o ruivo sentiu seu coração se encolher quando a voz de seu amigo se avariou em um murmuro. –Ele crê... que não me dou conta que passa as noites em vela. Mas senti-o quando me abraça antes de cair rendido... e uma ou duas horas mais tarde levanta-se para começar no dia.
Ron não soube que dizer. Só pôde observar como Harry cobria seus olhos com suas mãos e suspirava. Foi um gesto que só durou um segundo antes de que o moreno voltasse a sorrir, surpreendendo a seu amigo com sua atitude. Harry mudou a conversa e Ron só suspirou ao o ver fazendo um enorme esforço por ocultar seu pesar.
Mas a ele já não podia o enganar. Era mais que óbvio que seu melhor amigo tratava de aparentar uma tranquilidade que não sentia. O estreitou com carinho, tratando de conforta-lo. Harry respirou com força e seu corpo tremeu por um momento entre os braços de seu melhor amigo, dantes de voltar-se a ele sem afastar seu sorriso de seu rosto.
-Harry... se quer falar disto...
-Chegará tarde ao trabalho se não te dá pressa. –Ron assentiu em silêncio e soltou o abraço para se dirigir à lareira. –Irei vê-los... quero dizer... irei visitá-los o fim de semana.
-Lhe direi a mamãe que prepare algo especial. –Harry voltou a sorrir em agradecimento e escutou quando seu amigo tomou os pós da lareira antes de desaparecer para a Toca.
E ainda que não o pôde ver, Ron quase pôde adivinhar que junto com ele, o sorriso de Harry tinha desaparecido também.
\*\*\*\*\*\*\*\*\*\
Sentada em um cômodo sofá em frente a janela de seu escritório na Área de Psiquiatria, a doutora Sayers achava-se rodeada de uma grande quantidade de livros e pergaminhos. Concentrada, repassava os escritos uma e outra vez, tratando de encontrar a resposta ao porque Hermione não era capaz de assimilar suas próprias lembranças.
Ela tinha mais que claro que o que lhe ocorria a seu paciente tinha que ver com as emoções positivas que o Dementador absorvesse durante aquele beijo. E ainda que as drogas psicoativas estavam-lhe ajudando a controlar a depressão que isso lhe originava, era óbvio que não estavam conseguindo que as memórias escritas em seu diário tivessem influência sobre ela.
Isso só significava uma coisa: Que apesar do tratamento, Hermione não tinha conseguido recuperar suas emoções positivas.
-Mas... Por que? –perguntou-se a doutora, ao mesmo tempo em que fechava o grosso livro que sustentava e jogava a cabeça para atrás, cansada. Duas firmes mãos posaram-se sobre seus ombros, obsequiando-lhe uma suave massagem que a relaxou. Ela sorriu e fechou os olhos quando respondeu ao saúdo amável de seu esposo. –Olá... não te ouvi entrar.
-Pude dar-me conta –Michael Sayers tomou o livro que ela acabava de deixar e se sentou a seu lado, repassando algumas páginas enquanto ela recostando sua cabeça sobre seu ombro, o observando.
A seus cinquenta e três anos, Michael Sayers era um prestigiado Psicólogo com residência em Londres. Ela o tinha conhecido dezoito anos atrás, em uma reunião de especialistas em Psicologia. Para então ele já tinha verdadeiro renome no Mundo Muggle, enquanto ela mal começava a fazer de um nome no Mundo Mágico.
Só tinham precisado cruzar uma quantas palavras para se dar conta que estavam feitos um para o outro. Ambos amavam suas respectivas carreiras e eram ambiciosos, possuíam a fortaleza para se manter firme em suas ideias, mas eram capazes de aceitar quando o outro tinha a razão. A ela não lhe tinha importado que ele fosse Muggle, e para Michael, conhecer a complexidade do Mundo Mágico tinha resultado toda uma aventura, da qual desfrutava muito em companhia de sua esposa.
-Ainda não tens conseguido encontrar a solução ao problema de seu paciente? –ela suspirou ao mesmo tempo em que negava em silêncio. Deixou o ombro de seu esposo e pôs-se de pé para observar a tarde através da enorme janela. –Que grau de avanço leva em seu tratamento ?
-Ainda estamos na primeira fase. –foi a resposta da doutora. –Não quero me aventurar a enfrentar às pessoas às que conhecia antes do beijo, até que ela se sinta pronta.
-E se nunca chegasse a ser assim? –ela se girou para encontrar com os olhos cafés de seu esposo. As canas já eram visíveis sobre seus cabelos castanhos e ela os acomodou sobre sua têmpora, lhe escutando com atenção. –E se quando ela termine de ler seus diários, decide que não tem caso algum recuperar sua vida se não conseguiu assimilar o escrito neles?
-Cries... que lhe estamos dando aos diários uma importância que não merecem?
-O que penso é que não deveria permitir que os diários condicionem a conduta de seu paciente. Ela não deve basear sua expectativa de vida neles, senão em sua própria capacidade natural de recuperação.
A doutora guardou silêncio, meditando nas palavras de seu esposo. Era verdade que desde que lhe entregasse a Hermione seus diários, ela se tinha enfrascado de cheio neles até o ponto de esquecer que sua recuperação não devia basear nas lembranças perdidas, senão em algo bem mais importante: A recuperação de sua mesma vida.
-Por um lado tem razão... –reconheceu a medimaga. –Mas por outro lado, não vejo nada de mau que Hermione queira conhecer seu passado. Como uma parte importante da terapia, é necessário que mediante seus diários possa reconhecer com mais facilidade às pessoas que fazem parte dele.
-Estou de acordo contigo nesse aspecto. –Michael tomou a mão de sua esposa para a conduzir de regresso ao sofá. –E estou seguro que encontrará o modo de fazer que os diários ajudem a seu paciente, de uma melhor maneira em que o fizeram até agora. –Depositou um suave beijo em seus lábios dantes de dirigir à porta. –Te verei para jantar. Os rapazes querem preparar-te algo especial.
A doutora Sayers sorriu desde seu lugar junto a seus livros, antes de ver a seu esposo partir para a carruagem que o esperava para o levar a casa. Ainda que ela contava com Rede Flu ele se negava à utilizar, pois não lhe agradava a ideia de ter contato com o fogo, sem importar de que cor fosse.
Permaneceu em seu escritório uma hora mais, antes de tomar uma decisão. Dirigiu-se à habitação de Hermione e a jovem recebeu-a com um tímido sorriso.
-Como vai com seus diários? –a medimaga tomou assento na orla da cama, enquanto observava a Hermione abrindo um deles em suas primeiras páginas.
-Acabo de começar com o quinto. –respondeu-lhe a jovem, sentando na cama junto a ela. –É de quando cumpri dez anos. –a doutora Sayers observou a seu paciente durante um instante. Hermione parecia ter-se esquecido de sua presença, pois seguiu com a leitura do pequeno livro até que uma tosse da doutora chamou de novo sua atenção. –Sinto muito... é que não posso esperar ao ler.
-Compreendo-te muito bem –a doutora pareceu o meditar um momento dantes de continuar. –Tenho estado pensando... que seria conveniente que começássemos a segunda fase de seu tratamento o mais cedo possível.
Hermione franziu o cenho, surpreendida ante a decisão de sua medimaga. Moveu a cabeça de um lado a outro, temerosa.
-Não me sinto... pronta... ainda. –a doutora Sayers se acercou a ela e tomou o diário que a jovem sustentava. Hermione sentiu a perda quase de forma física. Esse gesto não passou por alto para a doutora, o que a ajudou em sua decisão de lhe insistir.
-Tenho entendido que ingressou ao Colégio de Hogwarts aos onze anos –seu paciente assentiu com um gesto muito sério. –O que significa que este é o último diário antes de conhecer às pessoas com as que conviveu desde então... –a rapariga voltou assentir, a cada vez mais intrigada. –Bem... Que te pareceria se ao chegar à leitura de seus diários a partir de onze anos, ao mesmo tempo tratasse de conviver com essas pessoas?
-Está-me propondo... que volte a ver às pessoas que conhecia antes do beijo?
-Sei que recorda à maioria. –a rapariga guardou silêncio ante a última afirmação de sua doutora, dando a entender com isso que não se sentia preparada para se enfrentar a essas pessoas e a todas as más lembranças sobre elas. Lembranças que ainda a atormentavam, muitas vezes. –Sei o sentimento que guarda ao redor deles, mas tem em conta que se alterna suas memórias escritas em seus diários, irá conhecendo os aspectos positivos dessas pessoas. E assim te será bem mais fácil voltar aos conhecer.
-E se não quero voltar aos conhecer?
-Estaria em todo teu direito, Hermione. –sentenciou a doutora, lhe devolvendo o diário e a olhando com profunda seriedade. –Inclusive, poderia dizer-se que se encontra pronta para sair daqui e iniciar uma nova vida longe dessas pessoas.
-Mas... eu não tenho a ninguém –o medo foi palpável no rosto de Hermione. –Não conheço a ninguém fora deste lugar.
-Está segura disso?
Hermione olhou com firmeza aos azuis olhos da doutora Sayers. Apertou contra seu peito o diário, como costumava fazer quando precisava se sentir segura, protegida. E assim se sentia nesse lugar. Mas tinha que aceitar que não poderia viver por sempre aí. Em algum dia teria que se marchar, e a só ideia de sair e não ter a seu lado a ninguém a quem pudesse lhe importar, a assustava bem mais que a ideia de ter que voltar a ver às pessoas cujas lembranças não lhe eram de todo gratos.
-Esse diário te fala de grandes amigos, pessoas que te amam e que esperam por ti. –a doutora se acercou a ela e tomou seu queixo para a fazer olhar aos olhos. –Pensa no muito que poderia ganhar se o tenta... não tem ideia de quanta gente importa.
Hermione baixou a mirada para o livro que sustentava. Ela sabia de uma pessoa à que se importava. A pessoa que estava pagando seu tratamento nesse lugar. Aquela que chegava à visitar várias vezes à semana, ainda que ela não a visse. A pessoa que se tinha tomado a moléstia de lhe levar esses diários e com eles lhe tinha devolvido a esperança.
Volteou a ver à doutora, que permanecia sentada a seu lado esperando uma resposta.
-Tratarei de ler este diário o mais rápido possível. –decidiu ao fim. A doutora Sayers assentiu em silêncio, celebrando por dentro a decisão de seu paciente. –E quando comece com o seguinte... estarei pronta para voltar a ver a essas pessoas.
-Tem tomado uma grande decisão, Hermione. Quando chegue o momento, você me dirá a quem quer voltar a ver primeiro. –lhe assegurou a medimaga. A rapariga só suspirou, não muito segura disso, mas albergando por dentro uma estranha impaciência que fez que seu coração batesse muito rápido.
E ainda que não disse nada, em sua mente já tinha uma ideia muito clara de quem seria a primeira pessoa à que estava disposta a voltar a ver... e a conhecer.
\*\*\*\*\*\*\*\*\*\
Aferrando-se com todas suas forças às barras paralelas, Lucius deixou que o terapeuta o soltasse e respirou profundo para acalmar os tremores que o percorriam desde a cintura até os pés. Ao final do alfombrado caminho azul que servia de guia para seus braços Remus o esperava, ansioso. Concentrou-se na sensação formigante de suas pernas ao dar um passo ao mesmo tempo... outro mais... sempre aferrado às frias barras de metal.
-Trate de concentrar suas forças nas pernas, não nos braços. –lhe recordou o terapeuta.
-Vamos, Lucius... você pode fazer –a voz de Remus se escutava emocionada e preocupada ao mesmo tempo. O loiro só suspirou, uma gota de suor escorregando por sua frente. –Só um pouco mais...
Apertando os dentes, Lucius decidiu confiar na força de suas pernas e diminuiu a pressão de suas mãos sobre as barras. Suas pernas tremeram e o medimago deu um passo adiante, os braços estendidos para ele. Lucius negou com a cabeça quando sentiu as mãos do profissional em sua cintura, tratando do sustentar.
-Está bem... posso fazê-lo. –o homem soltou-o ao instante e Lucius voltou a concentrar-se. O objetivo ao final era muito tentador. Abriu os olhos, que tinha mantido fechados o tempo todo, para encontrar com os olhos dourados de quem já considerava seu companheiro, em quase toda regra.
Remus correspondeu a sua mirada, lhe encorajando em silêncio a continuar. Lucius voltou a fechar os olhos, refletindo todo seu esforço nos músculos tensos de seu rosto. Deu uns quantos passos mais até que, exausto, deteve seu andar para deixar que Remus o sustentasse entre seus braços.
-Muito bem, Lucius! –emocionado, Remus manteve-o abraçado enquanto o terapeuta acercava a cadeira de rodas para que seu paciente pudesse descansar. –Avançou três metros mais que ontem.
-É um grande lucro, senhor Malfoy –o medimago acercou lhe um copo reboante de água fresca, que o homem bebeu entre arquejos. –Se continua a este ritmo, para os primeiros meses do ano próximo já terá deixado esta cadeira.
-Vou ... recuperar-me... mais cedo... –Remus sorriu ante a determinação do loiro, e o terapeuta moveu a cabeça em sinal afirmativa.
Como terapeuta profissional, ele tinha analisado o processo de reabilitação de seus pacientes. Ele sabia melhor que ninguém que ainda que a fortaleza física era primordial para uma pronta melhoria, também a motivação era igual de importante. Recuperavam-se com maior rapidez aqueles que para valer o desejavam e que ademais, contavam com o apoio incondicional das pessoas que amavam.
E vendo a grande capacidade física do senhor Malfoy, aunada à presença constante de seu filho e de seu amigo em todas suas sessões, não duvidava nas palavras que o loiro acabava de pronunciar. Seu paciente terminou de beber do copo para voltar-se a ele.
-Se descanso o suficiente durante o resto do dia, poderei tentá-lo mais tarde?
Remus e ele se olharam, surpreendidos. O terapeuta negou com a cabeça, enquanto convocava uma cadeira para sentar a seu lado.
-Não é recomendável forçar ao corpo até o extremo, senhor Malfoy –Remus se agachou junto à cadeira de seu companheiro, pendente das palavras do doutor. –Se realiza duas sessões em um só dia, ao dia seguinte estará tão cansado que nem sequer poderá se mover.
-Nestes dias não me senti tão cansado como outras vezes. –foi a resposta de Lucius. O medimago pareceu meditar durante um momento.
-Podemos aumentar meia hora ao tempo de cada sessão. E meia hora mais a cada semana dependendo de sua resposta. –resolveu ao fim. Lucius pareceu satisfeito com sua decisão. –Mas sejamos prudentes. Se em decorrência da primeira semana não resiste o ritmo de trabalho voltaremos ao ritmo anterior, de acordo?
Quando o medimago se marchou, Remus ajudou a seu companheiro a mudar a bata por suas finas túnicas, e conduziu a cadeira de rodas de regresso para seus aposentos. Percorriam os corredores em um silêncio cúmplice, agradável. Remus ainda seguia sem poder crer na força e determinação que Lucius tinha mostrado durante os últimos meses. E o poder ver que sua recuperação era a cada vez mais próxima com a cada dia que passava, o enchia de uma grande alegria.
A dor quase tinha deixado de ser uma moléstia, e só aparecia de vez em quando, para lhe recordar ao loiro que não devia exceder-se demasiado durante as sessões. De não ser por Draco, Remus e o mesmo terapeuta que se encarregavam de que não ultrapassasse seus próprios limites, a dor seguiria sendo constante, pois o homem não se permitia nem um só momento de descanso. Enfrentava suas sessões como se de seus mesmos negócios se tratassem.
Detiveram-se quando chegaram em frente às habitações de Lucius. Entraram e Remus esperou a que seu companheiro tomasse uma ducha rápida e se mudasse antes de voltar com ele à sala. Remus conteve um suspiro quando o loiro apareceu em frente a ele, seu corpo coberto por uma cômoda bata de seda cor cinza pérola, entreaberta à altura do varonil peito. Contendo as vontades de abrir bata-a por completo, deu espaço ao loiro para que se acomodasse no cadeirão, a seu lado.
Já era costume que a cada amanhã desde o arribo do outono, o fogo permanecesse acendido. Como em todas as lareiras que ardiam em todo o Castelo, bastante frio a essas alturas do ano. Lucius rodeou seus ombros e o licantropo suspirou absorvendo seu fragrância, fresca ainda pela recente ducha. Suspirando, descansou sua cabeça sobre o forte ombro, sentindo a macieza da fina bata contra seu rosto.
-Não se preocupa que Draco possa nos encontrar assim? –perguntou-lhe com um sussurro que vibrou na orelha do loiro, lhe estremecendo sem querer.
-Foi a Hogsmeade a surtir o laboratório de Severus. Não regressará até após o almoço. –Lucius estreitou o abraço em que tinha preso ao professor. –E ainda que assim fosse, não vejo problema algum em que se inteire. Acho que já vai sendo tempo, não o cries?
Remus não respondeu. Ele não via problema algum em que Draco o soubesse, mas não sabia se o rapaz estaria pronto para ver a seu pai com outra pessoa. Eram poucos nos meses decorridos desde que perdesse a sua mãe, e ainda que Lucius não o aparentava, ele sabia que ainda estranhava a sua defunta esposa. A prova era que seus momentos de intimidem entre eles não tinham chegado para além das comuns mostras de afeto.
Não lhe desagradava o trato quase platónico de seu companheiro, pois isso lhe tinha ajudado a entender aspectos de Lucius, detalhes importantes que durante sua relação de juventude jamais se preocupou por conhecer. Compreendia, ademais, que Lucius não estivesse pronto ainda. Nem sequer ele sabia se era conveniente aprofundar até esse ponto em uma relação cujos sentimentos ainda não se definiam do tudo. Já não era um jovenzinho. Já não lhe interessavam as relaciones passageiras. Ele já não queria jogar.
-Leva muito tempo calado, sucede algo? –Remus negou em silêncio e encolheu-se sobre o cadeirão, buscando mais calor do corpo a seu lado.
Permaneciam abraçados, suas miradas cruzando-se de vez em quando. Desde que ambos decidissem começar essa espécie de relação, nenhum se tinha atrevido a falar sobre seu verdadeiro significado. Por sua vez, Lucius estava seguro do que sentia, do que queria. Amava-o com todo seu ser, ainda que sua atitude para ele às vezes fosse distante, coisa que com frequência confundia ao professor de Defesa. Mas compreendia-o. Era Lucius e não podia esperar mais de alguém como ele.
Por sua vez, Remus já tinha admitido que o queria. Mas durante essas últimas semanas, uma certeza muito grande tinha acordado em seu coração. Uma verdade que não podia seguir negando. Queria-o como jamais pensou que chegaria ao querer. Se alguma vez tivesse-se proposto amá-lo, talvez não o teria conseguido. Mas sem propor lhe, tinha permitido que o loiro se metesse em seu coração pouco a pouco. Queria-o, e queria-o para valer. Quase podia atrever-se a assegurar que começava ao amar... a amá-lo como alguma vez amasse a Sirius.
"Como alguma vez o amei..." Meditou o licantropo, sentindo o calor que emanava do homem junto a ele. Desde a noite da última batalha, quando Sirius lhe deixou claro que o queria como a um amigo e que só o veria como a um irmão, Remus se propôs ser realista e deixar de sofrer por quem jamais corresponderia a seus sentimentos.
Essa tinha sido a principal razão que o motivou em seu momento a aceitar de novo a Lucius. Mas agora, rodeado por cálidos braços de seu colega durante os últimos meses, seus sentimentos pareciam ter dado um viro a sua vida. Já não era o corpo de Sirius o que desejava em sua cama, e seus sonhos mais ardentes agora tinham a um arrogante loiro como protagonista. E o mais interessante de tudo era que a ideia gostava. E muito.
-Se agora mesmo não me diz em que pensa, terei que te sacar pela força. –Remus reagiu às palavras de seu companheiro e riu com ligeireza. Isso só terminou por exasperar ao loiro quem, apesar de seu rosto impassível, não pôde enganar ao licantropo. –E bem? Me dirá que te passa?
-Que te quero. –o rosto imperturbável de Lucius mudou a um de genuína surpresa. Nervoso pelo que acabava de fazer, Remus calou e acariciou seus lábios com seus dedos, se deleitando com a calidez que desprendiam. Ainda que não queria o admitir, estava temeroso de sua resposta. Mesmo assim não deixou a caricia sobre os finos lábios do loiro.
Lucius tomou o rosto de Remus entre suas mãos, perdendo sua mirada azul nos olhos dourados que o olhavam com atenção, esperando uma resposta. Sustentou seu rosto enquanto respondia a sua declaração com um beijo apaixonado, que Remus não demorou em corresponder.
-Repete... –demandou contra seus lábios. Ao ouvi-lo, Remus voltou a rir, sentindo seu coração palpitar como nunca dantes.
-Quero-te... –Lucius voltou a beija-lo.
-Diz outra vez... –outro beijo e Remus separou-se dele, se perdendo dentro de sua mirada azul. Uma mirada que lhe disse bem mais do que queria escutar. –E depois... diz uma vez mais...
Mas Remus já pôde seguir falando, porque os lábios de Lucius selaram qualquer palavra que quisesse dizer... ou pensar.
\*\*\*\*\*\*\*\*\*\
Draco entrou ao escritório de Poppy com uma nova dotação de poções que a enfermeira lhe tinha solicitado dias atrás. Deixou a caixa sobre a mesa e consultou seu relógio. Oliver não demoraria em começar seu turno e o loiro se sentou sobre a orla da mesa para o esperar. Enquanto fazia-o, percorreu com a mirada as gavetas através de cujas portas de cristal se podiam apreciar as poções de uso exclusivo da enfermaria.
Franziu o cenho, mortificado ao ver que as pomadas para as queimaduras estavam por se esgotar outra vez. E fazia menos de uma semana que acabava de entregar uma grande dotação delas. Levantou-se de seu lugar e acercou-se às gavetas para contar os frascos. Se os cálculos não lhe falhavam, se estavam utilizando uma média de três garrafas ao dia. Uma grande quantidade, sem dúvida alguma.
Com tantas poções por elaborar e trabalhos por qualificar, o rapaz passava-lhe encerrado no laboratório ou no escritório de Severus, alheio a quase todo o que sucedia ao redor do Castelo. De vez em quando se dava tempo para conversar um momento com Harry, ou convidar a almoçar a Oliver e dar algum passeio com ele pelos arredores. Após isso regressava de novo a seu trabalho até que Severus voltava de suas rodadas noturnas e o mandava a seus aposentos.
Recordando suas conversas com Oliver durante seus passeios, este lhe tinha comentado em mais de uma ocasião, que a quantidade de acidentes durante as classes de poções tinha aumentado de forma considerável nos últimos meses. Draco assumiu-o então como algo natural, tomando em conta que Severus se encontrava muito pressionado dividindo seu tempo entre seu trabalho e estudar o veneno de Nagini.
De modo que não lhe estranhou que o homem mostrasse um caráter mais irascível durante suas classes, o que com toda certeza estava originando tensão entre seus estudantes, e com isso, mais acidentes. Mas agora, observando o gabinete das poções Draco começou a se preocupar. Por muito pressionado que seu padrinho estivesse, sempre era bastante cuidadoso à hora de evitar incidentes em sua aula.
Draco deixou seus pensamentos a um lado ao recordar o motivo pelo qual estava aí. Oliver não aparecia e o loiro supôs que estaria ocupado atendendo a algum estudante acidentado. Saiu do escritório e seguiu o caminho para as camas que Poppy sempre tinha prontas para os estudantes. As camas estavam tendidas e ao que parece não tinha nenhum aluno.
Sua olhada cinza percorreu todo o corredor em busca do auxiliar de Poppy, sem o encontrar. Encolheu-se de ombros e deu meia volta para voltar ao escritório. O esperaria uns minutos mais e depois se marcharia, pois ainda tinha pendentes alguns trabalhos por qualificar e queria os terminar antes de que Severus voltasse de sua rodada.
Passou junto à porta entreaberta da habitação que ele ocupasse a última vez. Atingiu a ver uma pequena luz proveniente da candela sobre o criado-mudo, que ele recordava à perfeição. Duvidando se seria correto entrar a uma habitação que talvez estivesse ocupada, Draco assomou a cabeça com cuidado e se surpreendeu ao ver a cama vazia.
Imaginando que talvez Oliver tinha esquecido apagar a vela, Draco entrou à habitação e se acercou à mesinha para apagar o trémulo lume, que se agitava de vez em quando pelas suaves rajadas de ar que se colavam por algum resquício da janela. Acabava de fazê-lo e dispunha-se a sair, quando atingiu a escutar um ruído que parecia provir de alguma parte da habitação.
Intrigado, Draco convocou um Lumus e brilhou tudo a seu redor. Sua surpresa foi grande ao descobrir a Oliver sentado sobre o solo a um lado da cama, abraçando seus joelhos. O Lumus feriu as pupilas cafés e Oliver cobriu-se o rosto com os braços, o que fez que o loiro baixasse a guarda para se sentar junto a ele.
-Que faz aqui? –Draco apagou o Lumus de sua varinha e lançou um feitiço. A pequena vela voltou a acender-se e Oliver permaneceu com o rosto escondido. –Esperava-te no escritório para entregar-te umas poções –o moreno levantou a mirada e à tênue luz da vela acendida, Draco pôde advertir uma enorme tristeza ensombrecendo seu rosto. –Está bem?
Oliver negou com a cabeça, fazendo um grande esforço para que a voz não se lhe avariasse quando respondeu à pergunta de Draco.
-Não tenho ido ao visitar... –um doloroso nodo formou-se na garganta do loiro ao compreender o que Oliver lhe dizia. –Já faz quase quatro meses que se foi... e nem uma só vez tenho ido a deixar-lhe flores.
Draco não soube que responder a isso. O nodo em sua garganta fez-se maior ao reconhecer que ele também não o tinha feito. Ele visitava a tumba de sua mãe a cada semana, sem falta. Permanecia um momento com ela e depois deixava jasmins frescos sobre a fonte e se marchava. Mas desde o enterro de Blaise, ele não tinha voltado nem uma só vez para lhe deixar uma flor.
-Pensei que se deixava passar um tempo... não seria tão doloroso. –Oliver calou e Draco respeitou a breve pausa, dando espaço para que pudesse ordenar seus pensamentos. –Hoje quis ir... porque achei que ao fim poderia parar em frente a sua tumba e despedir-me dele como é devido... –nesse ponto, Oliver abriu uma mão que tinha apertada em um punho, e um pó prateado se deslizou por seus dedos, caindo sobre o frio chão da habitação. –Mas não pude o fazer... não posso...
Draco fechou os olhos e suspirou, pensando nas palavras de Oliver. Ainda que seguia molesto com Blaise, devia admitir que esse não era o motivo pelo qual não tinha ido ao visitar. Também lhe doía sua ausência e muitas vezes ao igual que Oliver, ele se tinha ficado parado em frente à lareira com os pós Flu na mão. Tinha medo de perder a pouca força que ainda lhe ficava e derrubar em frente a sua tumba como alguma vez Oliver o fizesse.
-Entendo muito bem como se sente... –o moreno levantou a mirada para pôr atenção às palavras de quem agora considerava seu amigo. –E acho que é normal que um sinta assim porque... a ausência da pessoa que alguma vez amou com toda sua alma... dói. Dói muito.
Oliver assentiu em silêncio, dando-lhe a razão. Secou com dissimulo uma lágrima que já corria por sua bochecha e Draco rodeou seus ombros para o atrair para ele.
-Tivesse gostado... dizer-lhe adeus –Draco estreitou mais o abraço, e Oliver respirou o doce aroma que emanava dele e que sempre conseguia sossegar seu coração dolorido. –Nem sequer soube... quais foram seus últimos pensamentos.
-Foram para ti. Você foi... seu último pensamento –ao escutá-lo, Oliver tremeu entre seus braços e deixou que as lágrimas brotassem com liberdade. Draco já não pôde seguir falando. A só lembrança daquela terrível noite lhe doía tanto que lhe custava respirar.
-O estranho... –Oliver deixou o cálido lugar no ombro do loiro para encontrar-se com sua olhada cinza.
-Eu também o estranho... –Draco desviou a mirada de seus olhos cafés para fixá-la na pequena e trémulo lume da vela junto a eles. –Eu também...
-Em algum dia deixará de doer tanto?
-Em algum dia... talvez. Só o tempo o dirá. –Oliver assentiu em silêncio, deixando que as palavras de Draco fizessem eco em sua mente e em seu coração.
-Quando já não doa como agora... irei deixar flores a sua tumba.
Ao escutá-lo, Draco voltou sua mirada para ele. Suspirou, suas palavras ditas em um suave sussurro que vibrou nos ouvidos de Oliver quando lhe respondeu.
-Quando já não doa como agora... irei contigo.
Oliver fechou seus olhos cafés e Draco apagou a pequena vela para voltar a estreitando entre seus braços. E no meio da escuridão que os rodeava, nasceu uma silenciosa promessa de que sem importar quão grande fosse sua dor ambos seguiriam aí, se sustentando um ao outro.
\*\*\*\*\*\*\*\*\*\
Severus bocejou por enésima vez essa noite e se dando por vencido, fechou o livro de Flamel. Ainda que as poções revitalizadoras ajudavam-lhe em grande parte, já não lhe era possível enganar a seu corpo por mais tempo. Estava exausto. Agradeceu a todos os deuses que fosse fim de semana, assim aproveitaria todo o domingo para se tomar um merecido descanso.
Levava três noites dedicado à tarefa de analisar o veneno de Nagini, e estava surpreendido. Esse veneno era rico em grande quantidade de enzimas e toxinas. Não lhe estranhava que fosse tão poderoso. Com cuidado, guardou em um lugar seguro o único frasco que utilizava. Tinha preferido não tocar os demais, que permaneciam em sua caixa a bom resguardo no armário. Não queria se arriscar aos contaminar e atirar ao lixo qualquer esperança de recuperação de Harry.
Pensando em seu companheiro, deu-se pressa em deixar seu laboratório em ordem. Fechou-o com contrassenha para dirigir-se ao quarto, onde encontrou ao rapaz sumido em um profundo sono. Acercou-se a ele e terminou de acoberta-lo, como a cada noite desde que se mudasse com ele a suas habitações. Sorriu. Ainda podia recordar a cara de assombro de Remus quando o rapaz lhe deu a notícia de que se iria viver com Severus.
E ainda que ao princípio o licantropo não se tinha mostrado muito convencido do deixar ir, ao final decidiu respeitar sua decisão. Severus argumentou sua rápida aceitação ao temor do homem de não querer correr a mesma sorte que Sirius. De modo que só se encolheu de ombros e após lhe ajudar com seu baú, lhe disse que estranharia sua companhia.
-Mas se seguirei no Castelo –tinha-lhe dito Harry, contendo as vontades de rir e abraçá-lo ao mesmo tempo, sentindo a genuína preocupação de quem queria-o como a um filho. –E me verás tantas vezes que terminarei te aborrecendo.
Severus deu-se uma ducha rápida e colocou-se o pijama antes de depositar um beijo sobre a testa de seu companheiro. Harry se revolveu entre sonhos, para depois seguir dormindo. Em silêncio, saiu da habitação e encaminhou-se à sala, onde se serviu um copo antes de sentar em seu cadeirão preferido.
Apesar de que ainda tinham muitos problemas por resolver, parecia que as coisas regressavam pouco a pouco a sua cause. Remus estava ungindo como Chefe da Casa Gryffindor e era respeitado por seus estudantes. Ademais, fazia-se cargo da matéria de Duelo, classe que a Junta Escolar decidiu que continuasse dando devido a alguns ataques isolados de comensais. E ainda que não tinha subdiretor, Minerva lhes arranjava para cobrir ambos postos com o apoio do professor de Defesa.
Nunca tinha duvidado de seu caráter forte e determinado, mas após ver a forma em como enfrentava sua responsabilidade como Diretora, o homem concluiu que o pensaria duas vezes antes de se pôr na contramão dela. Era uma mulher muito forte. Como forte tinha sido sua determinação de fazer voltar a Albus a suas habitações, apesar de que Poppy não estivesse ao todo acordo com ela. Após não receber notícias do senhor Flamel, não lhe tinha encontrado sentido a que continuasse na enfermaria.
Ao final, Poppy tinha acedido com a condição de visitá-lo com frequência para seguir mantendo seus músculos exercitados por meio de um feitiço, e assim evitar que seu estado físico se deteriorasse. Preferiu fazer seus pensamentos sobre Albus a um lado. Ainda que Harry esforçava-se em fazer-lhe entender os motivos do idoso mago, ainda seguia molesto com ele. Serviu-se outra copa, sentindo seu corpo relaxar-se. A última poção revitalizadora estava deixando de surtir efeito e o sonho não demoraria em chegar.
Outra coisa que não deixava de lhe preocupar era a tristeza de Harry. Ainda que o rapaz tratava de dissimula-lo, era mais que evidente que sua cegueira lhe fazia sentir impotente. Não podia ser auxiliar de Remus nas classes de Duelo, nem podia lhe ajudar a ele com sua investigação sobre o veneno de Nagini. Não podia visitar a Hermione em St. Mungo, pois não tinha caso algum se não podia a ver nem lhe falar. Nem sequer podia conversar com Ron tão seguido, pois o ruivo tinha aceitado um turno extra no restaurante onde trabalhava.
Draco passava-lhe no laboratório ou qualificando trabalhos, e mal tinha tempo para cruzar umas quantas palavras com ele. Já não visitavam juntos o lago, pois o Castelo estava cheio de estudantes no dia, e as noites após o toque de recolher eram muito frias. Desde o primeiro dia de classes, negou-se a apresentar-se no Grande Comedor e comiam em seus aposentos, coisa que ao professor não lhe desagradava em absoluto. Preferia a tranquilidade de suas habitações em companhia de Harry, que o bulício insuportável de seus estudantes e as conversas aborrecidas de seus colegas.
Tratando de ajudar-lhe a distrair-se, tinha-lhe ensinado um feitiço para "escutar" os livros que ele quisesse com só passar a ponta de sua varinha sobre qualquer texto. Harry agradeceu-lhe com a alma, pois isso ajudou a que suas horas não fossem tão tediosas. Mesmo assim, o jovem estranhava marotear pelos corredores do Colégio. Os Weasley visitavam-no de vez em quando e os fins de semana passava quase todo o dia com eles, o que lhe dava tempo a Severus de enfocar-se em seu trabalho sem distrações de nenhuma classe.
Severus se revolveu no cadeirão, preocupado. Ele sabia que o estado anímico de seu companheiro não se devia só a sua cegueira. Ainda que não o aparentara, era mais que óbvio que o rapaz pensava em Sirius. O homem não tinha dado sinais de vida desde que desapareceu dois meses atrás, coisa que também preocupava a Remus. Nem sequer Arthur no Ministério tinha conseguido dar com ele, pois o animago parecia ter renunciado a usar sua magia.
Harry negava-se a falar de seu padrinho, o que demonstrava que seguia molesto com ele. Pese à relutante atitude de parte do rapaz com respeito a tudo o relacionado com Sirius, Severus sabia que o estranhava. Sabia que Harry seguia o querendo e que ao pensar nele podia sentir o que o animago sentia. Pelo bem-estar de seu companheiro, esperava que o animago estivesse bem, onde queira que se encontrasse.
Deixou a taça vazia a um lado e pôs-se de pé para encaminhar à habitação. Lhe deixaria uma mensagem a Harry para que não o acordasse temporão, e depois cairia rendido sobre o colchão, o abraçando. Mas todos seus planos se vieram abaixo quando ao entrar, viu a Harry o buscando às apalpadelas, seu rosto ansioso e umedecido pelo pranto.
-Está bem? –Harry negou com a cabeça e Severus acercou-se a ele enquanto o rapaz conjurava sua bengala, antes de se dirigir à lareira para tomar um punhado de pó e chamar a Remus.
-Que sucede, Harry? –escutou-se a voz adormecida do professor de Defesa.
-É Sirius... acho que algo lhe passou –uma longa pausa seguiu a suas palavras. Remus preparou-se para traspassar o nicho.
-Está seguro, Harry? –o rapaz voltou-se para onde provia a voz de seu companheiro, as lágrimas percorrendo suas bochechas.
-Estou-o sentindo, Severus... sei que algo mau lhe ocorreu –a preocupação cruzou o rosto de Remus, quem acabava de chegar pela Rede, e Severus sentiu que algo dentro dele se alterava ao escutar a voz desesperada de seu companheiro. –Faz favor... ajudem-me a encontrar a meu padrinho.
\*\*\*\*\*\*\*\*\*\
Para os únicos dois garçons que atendiam o modesto bar do "Urso" Huxley, já era costume que cerca da meia noite, um homem fizesse seu arribo ao pequeno local. Sem saudar a ninguém, se sentava em frente à barra e pedia uma garrafa de wiskey, alheio às miradas curiosas dos demais visitantes que poucas vezes viam a um homem com cabelos longos e despenteados, e coberto por uma estranha capa cinza que ocultava quase por completo o que pudesse levar embaixo.
A cada noite, as suspeitas dos clientes assíduos sobre o estranho visitante noturno eram a cada vez mais audazes. Alguns diziam que pela estranha capa que vestia, podia ser um fantasma de algum Castelo, morto séculos atrás. Outros diziam que embaixo da capa estava nu, e que após pagar seu consumo, se dirigia às vias próximas à estação do comboio para se abrir a capa e assustar às mães solteiras, que a essas horas voltavam a suas casas após trabalhar nas fábricas próximas.
Em qualquer outra circunstância, essas teorias teriam passado por simples conjecturas sem valor, de não ser porque o lugar onde o pequeno bar se achava era a área Este do Londres Muggle. Em uma zona pobre e deprimente, onde a humilde classe operária convivia contra sua vontade com quadrilha e drogas, em uma aparente harmonia que era controlada por um setor do governo que não desejava que essa parte oculta de Londres fosse conhecida por seus turistas.
Mas ao homem sentado na barra não se importava o que as pessoas pensasse dele. Não buscava lhe agradar a ninguém, e muito menos lhe interessava fazer amizades. Todos sabiam que não teria problemas enquanto o deixassem beber em solitária paz. Não aceitava tragos grátis nem os oferecia, e o único com o que cruzava uma que outra palavra cordial era o dono do lugar, que também atendia a barra. O senhor Huxley para seus dois empregados, e o "Urso" Huxley, para os demais.
-Sirvo-lhe o de sempre, senhor...? –o homem assentiu e o "Urso" Huxley suspirou em resignação quando sua pergunta voltou a ficar sem resposta. Parecia que o homem não queria que ninguém soubesse quem era. Abriu uma garrafa de wiskey e deixou o copo a um lado, que encheu até o topo antes de ver como o líquido âmbar desaparecia com rapidez ao ser bebido por seu pontual cliente. –A noite é longa. Quer que lhe consiga companhia?
Sirius negou com a cabeça antes de encher seu copo e beber de um só gole. Esse bar não era o único que tinha na zona. A rua estava cheia de bares que ademais, ofereciam diversão extra. Se ele tinha elegido esse pequeno refúgio, era pela singela razão de que não oferecia o mesmo que os demais. Era um lugar em onde podia beber tranquilo sem que ninguém o molestasse.
O animago bebia uma copa depois de outra com rapidez incomum, que fez que o cenho do senhor Huxley se franzisse em preocupação. Só em duas ocasiões anteriores o tinha visto beber dessa maneira, e as duas tinham sido noites de Lua Cheia. Recordava-o à perfeição, porque nessas duas noites ele mesmo se tinha visto obrigado a acompanhar a sua casa, pois o homem não podia dar um passo de tanto que tinha bebido.
Não era costume seu a de servir de guarda-costas a todos seus clientes, mas sua aguda intuição lhe dizia que esse estranho homem não era qualquer pessoa. A força de vê-lo sempre sentado em frente a ele na barra, o "Urso" Huxley tinha descoberto verdadeiro ar de aristocracia em suas facções e em sua forma de se comportar. Bebia de sua taça com elegância e o mais importante: Sua carteira sempre estava repleta de bilhetes.
E pôde comprovar suas suspeitas, quando aquelas duas alumiadas noites ele mesmo teve que abrir com a chave o departamento de seu cliente mais assíduo e generoso. Um formoso penthouse mobiliado com o mais fino gosto, em um dos edifícios mais antigos e belos no Oeste de Londres.
-Não o entendo, senhor. –lhe tinha perguntado, intrigado quando em um gesto de generosidade lhe tirou a fina capa e os sapatos de marca italiana, para o ajudar a chegar até sua cama. –Por que atravessa toda a cidade para beber em meu bar, vivendo em uma zona tão elegante como esta?
-Porque é pequeno... e acolhedor –tinha-lhe respondido seu cliente. Antes de ficar dormido agregou. –E ninguém me buscaria em um lugar como esse.
Após isso, o senhor Huxley já não voltou a fazer mais perguntas a seu cliente. Suas razões privadas teria para preferir sua cantina aos luxuosos centros noturnos da zona onde vivia, e ele seria o último no questionar e se queixar. Quando seu cliente ficou dormido, só se assegurou que a lareira desprendesse o calor suficiente e se retirou do apartamento sem tocar nada.
O começo de uma briga no fundo do local fez que o cantineiro regressasse de suas lembranças. Desviando sua atenção de Sirius, deixou seu posto por trás da barra e segundos depois, os dois desordeiros eram lançados para a rua pelo enorme moreno de quase dois metros de estatura. Isso acalmou os ânimos e os demais clientes seguiram bebendo em relativa acalma, sem desejos de provar em pessoa o porque do apodo do dono desse lugar.
O "Urso" Huxley sacudiu-se as mãos e alisou o avental sobre sua singela camisa caqui. Regressou a seu lugar em frente a Sirius e viu com surpresa que o homem já se tinha bebido toda a garrafa.
-Sirva-me outra –Huxley abriu outra garrafa e voltou a encher o copo. Ia retirá-la quando o homem o deteve. –Deixe.
Huxley só moveu a cabeça em desaprovação, e depois se encolheu de ombros. Era seu negócio e não ia contradizer os desejos de seu cliente. Deixou a garrafa junto a Sirius e dedicou-se a atender aos demais clientes que já começavam a encher o pequeno bar a essas horas da noite. Uma hora depois regressou sua atenção ao homem da estranha capa, só para ver que já se tinha terminado a segunda garrafa.
Ao ver a garrafa vazia, Sirius suspirou com resignação e rebuscou no bolso de sua capa até encontrar sua carteira. Tomou uns quantos bilhetes que lhe estendeu ao cantineiro sem os contar sequer. O homem contou o dinheiro e guardou o que lhe correspondia para depois lhe devolver o resto.
-Acho que é... hora de... marchar-me... –Sirius tentou levantar de seu assento, mas teve que sustentar da barra para não cair. –Uff... acho que... bebi demasiado...
-Não me diga... espere aqui. Vou ver se alguém pode acompanhar até sua casa.
O grande homem percorreu seu pequeno local com a mirada e negou com a cabeça. Era fim de semana e seus dois empregados mal se davam abasto atendendo à freguesia, e os desordeiros seguiam afora. Não queria deixar seu local sozinho e se arriscar a que esses dois bebedores lhe rompessem as poucas coisas que tinha, em vingança pelos ter lançado para a rua.
Estava a ponto de resignar-se a deixá-lo marchar-se só, mas seu rosto se alumiou quando viu entrar a um jovem que ele conhecia. O rapaz dirigiu-se à barra para saudar ao dono. Tinha ao redor de dezesseis anos e era alto e delgado. Seus negros cabelos caíam alborotados sobre sua testa ocultando seus olhos cafés. O rapaz sabia que o senhor Huxley precisava ajuda em seu bar os fins de semana, e sempre chegava com a intenção de lhe oferecer sua ajuda como garçom. Uma ajuda que o "Urso" Huxley nunca desprezava.
-Vem a ganhar um dinheiro? –o rapaz assentiu com um sorriso esperançada, fazendo que seu pequeno nariz reto se respingara. Residia nessa zona e passava por empregos transitórios para poder ajudar a sua mãe e assistir à escola os fins de semana. –Está bem. Mas não servirá nas mesas. Acompanhará ao senhor até seu apartamento.
O rapaz fixou então sua atenção em Sirius, que o olhava confundido. Sorriu-lhe com timidez ao mesmo tempo em que assentia em silêncio às ordens do senhor Huxley.
-Deixa ao senhor a salvo em sua casa, e depois volte aqui. Não esqueça o caminho de regresso, é muito esquecido –lhe indicou com voz enérgica. –E não quero me inteirar que tem tomado algo que não te pertença.
-Sim, senhor. –respondeu o rapaz, obediente. Só uma vez tinha tido problemas com o senhor Huxley, e com isso tinha sido suficiente. –Me deixará trabalhar esta noite aqui?
-Só se faz bem o que te pedi –o jovem voltou a assentir e momentos depois Sirius saía do bar, sustentado de um braço pelo rapaz.
-Não precisa... sustentar-me. –recusou o animago, desfazendo-se do agarre do jovem junto a ele. –Posso... caminhar... eu só...
Se dirigiram para seu destino seguindo o caminho marcado pelas vias do comboio. Esquivando pedras e vigas abandonadas aos lados, Sirius tratava de manter o precário equilíbrio para não cair. De vez em quando, o rapaz se apressava ao sustentar para evitar que se rompesse a cara contra o frio ferro dos reles, cuja lisa superfície refletia o constante transitar dos comboios que arribavam à estação.
-Chamo-me Erick. –o delgado rapaz só escutou um rosnado como resposta e se resignou a caminhar em silêncio. A estação do comboio estava a quatro quadras e olhou ao céu.
Era Lua Nova, e em noites fechadas como essa não gostava de caminhar por aí. A menos de dez metros à direita, podiam ver-se pequenas casas feitas de madeira e lâmina, mal visíveis no meio da escuridão por pequenos focos em suas janelas que lhe davam uma aparência ambarina ao pouco espaço que alumiavam. À esquerda, um trecho de vias abandonado décadas atrás pelo serviço de transporte, e cujos vagões serviam de lar aos mais desabrigados, se perdia ao longe no horizonte.
Duas fileiras de vagões de ônus, um junto à outra, tamponavam a via até a estação. Erick guiou a Sirius no meio delas e apressou o passo por instinto. Sabia muito bem que caminhar entre vagões significava um grande risco, pois muitos deles eram utilizados para dar refúgio a viciosos, ladrões e toda classe de gente com a que nenhum garoto quer topar-se em uma noite tão escura como essa, nem nenhuma outra noite. Volteou sobre seu ombro e teve que voltar sobre a marcha para apressar a Sirius, que caminhava com lentidão e oscilação desesperantes.
-Será melhor que vamos mais rápido. Este lugar é perigoso de noite, senhor.
-Não... deveria preo... cupar... muito... –respondeu Sirius entre híspidos. –Tenho... minha... varinha...
Mas o rapaz não estava pondo atenção. Seus olhos cafés passeavam nervosos de um lado a outro. Sirius cantarolou uma melodia baixinho e deteve-se por um momento para buscar algo embaixo da capa, e Erick seguiu seu caminho só. Mas ao sentir que Sirius já não ia a seu lado deteve seu andar e voltou sua mirada, só para ver quando uma sombra emergia de um vagão a um lado, para lançar sobre o homem que o senhor Huxley tinha deixado a seu cargo.
Erick ficou parado no mesmo lugar sem saber que fazer. Quando ao fim reagiu, tomou um punhado de pedras para lançar contra o homem que os atacava. Enquanto fazia-o, outra sombra saiu do vagão por trás dele, surpreendendo com um golpe que o deixou aturdido. A uns quantos metros de distância Sirius era golpeado e despojado de seus pertences.
O animago observou com impotência como o rapaz era arrastado e forçado a entrar a um vagão, um segundo antes de que um forte golpe na cabeça lhe nublara a consciência.
\*\*\*\*\*\*\*\*\*\
Severus esperou na entrada do Beco Knockturn, ao grupo de Aurores que Arthur acabava de enviar. Apesar de que só tinham decorrido uns quantos minutos desde a alerta de Harry, o homem já tinha percorrido os arredores sem encontrar nada. Fazia demasiado frio e abraçou a negra capa em torno de seu corpo, seu fôlego convertendo-se em nevoeiro quando perguntou ao primeiro Auror que chegou até ele.
-Só são cinco? Onde estão os demais?
-Há mais grupos buscando em diferentes lugares. –respondeu o Auror, notando com clareza o tom de enfado do homem de negro. –Mas poderia estar em qualquer parte, até no Mundo Muggle. Será muito difícil dar com ele nestas circunstâncias.
Muito a seu pesar, o professor teve que admitir que o estratégia tinha razão. Arthur tinha-se ficado no Ministério, pendente de qualquer uso de magia por parte de Sirius para assim poder rastreá-la e dar com ele. Mas se o néscio de Black negava-se a utilizar sua varinha, encontrá-lo seria tarefa quase impossível. Despediu-se do Auror, quem marchou-se com seus homens para continuar com a busca.
Apressou-se a voltar ao Caldeirão Furado. Remus, Arthur e ele tinham ficado de se encontrar aí. Sentou-se na mesa mais afastada do local e Tom serviu-lhe um copo de wiskey de fogo, que tratou de beber devagar para fazer mais ligeira a espera pelo licantropo.
Não passou muito tempo antes de que Remus aparecesse pela lareira do local. Sem tomar-se a moléstia de sacudir o pó de suas túnicas apressou-se a atingir ao professor de poções, cuja bebida ainda levava ao meio.
-Encontrou algo? –Severus negou com a cabeça e pôde ver o gesto desesperado do licantropo quando prosseguiu. –Em Grimmauld Place não estava. Também consegui dar com seu apartamento em Paris, mas nada. –negou com a cabeça. –É como se lhe tivesse engolido a terra.
-É óbvio que Black não quer que o encontremos. –Severus deu outro sorvo a sua bebida, e Remus suspirou com frustração ante o gesto tão impassível de seu colega. –De ser assim, já tivesse feito uso de sua magia.
-Não parece estar muito preocupado do fato de que não podemos o encontrar –o tom de reproche e enfado foi claro para Severus, cuja imperturbável expressão não mudou. –Não será que no fundo quisesse que nunca voltasse? Só assim evitaria que seguisse interpondo em sua relação com Harry.
-Não diga tolices, Lupin. Ainda que Black tratasse de intervir não poderia fazer nada esta vez. Mas admito que se estou aqui a esta horas da madrugada após várias noites sem dormir, é só por Harry. Nada mais.
Remus guardou silêncio, observando ao professor de Poções enquanto este continuava bebendo de seu copo. Não o culpava por sua atitude, pois não podia ser outra após tudo o que Sirius lhe fizesse. Já o fato de estar nesse lugar há essas horas o buscando, ainda que só fosse por Harry era algo que lhe agradecia. Mesmo assim, assaltava-o a pergunta que alguma vez lhe fizesse a seu amigo, e pensou que o homem em frente a ele poderia lhe dar a resposta.
-Que foi o que lhe fizeste para que te odeie tanto? –Severus não respondeu no momento. Terminou sua bebida e pôs-se de pé para dirigir à barra. Depositou algumas moedas sobre o balcão e Tom facilitou-lhe o recipiente com os pós Flu, do qual tomou um punhado antes de se dirigir à lareira. Voltou-se ao licantropo que parado junto a ela, esperava sua resposta. –Para valer quisesse sabê-lo.
-Eu também quisesse o saber, Lupin. –lhe disse dantes de desaparecer pela lareira para suas habitações em Hogwarts.
Já em seus aposentos, a pergunta de Remus durou em sua mente o tempo que demorou em entrar a seu quarto. Harry encontrava-se em um rincão da habitação, em frente à lareira. Sustentava entre suas mãos trémulas a caneca de chocolate quente que ele mesmo lhe desse. Não pôde evitar sentir um grande pesar ao ver o rosto ilusionado de seu companheiro se voltar para ele quando o escutou entrar.
-Nada, Harry. Sinto muito. –o rapaz suspirou e deixou que Severus se sentasse junto a ele para envolver entre seus braços. Ao instante, o frio que ainda sentia se desvaneceu com o calor do corpo mais jovem. –Já há muitos Aurores o buscando, e Lupin e Weasley estão ao pendente de qualquer pista que os possa levar a ele. Estou seguro que não demorarão no achar.
-Sinto muito ter-te feito sair a estas horas. –se desculpou seu companheiro. –Sei que não tem obrigação alguma para com ele. Nem sequer... merece.
-Não diga isso, Harry –o professor estreitou o abraço e retirou de suas mãos a caneca, já vazia. –Sabe que não me move nenhum afeto para ele, mas também sabe que não estarei tranquilo até o encontrar porque sei que o quer. O que acaba de dizer não o sente para valer.
-Não posso o evitar, Severus. –o professor pôde advertir a preocupação e o enfado misturados na voz de seu companheiro. –Não suportaria que algo mau lhe passasse... mas por outro lado... ainda sigo muito molesto com ele por tudo o que nos fez.
-É compreensível. –Severus guiou a seu companheiro para a cama, onde após acoberta-lo se recostou junto a ele para voltar ao abraçar. –Mas já não tem caso falar disso, Harry. Agora estamos juntos e ele não poderá fazer nada para nos separar.
-Quando soube do nosso aquela noite junto ao lago... estava disposto a matar-te. –Severus assentiu em silêncio e um calafrio percorreu-o ao recordar ao enorme cão negro a ponto de rasgar lhe o pescoço. –Por que te odeia tanto?
-Sabe? Essa mesma pergunta me acaba de fazer Lupin. –Severus fez uma breve pausa, escarvando seu passado em busca de algum episódio em onde ele pudesse ter provocado esse ódio de Sirius para sua pessoa. Segundos depois deu-se por vencido. –Não o sei, Harry. Juro-te que... não o sei.
Um longo momento de silêncio seguiu às palavras de Severus. O sono começou a vencê-lo e antes de permiti-lo decidiu beber outra poção revitalizadora. Esperava que o mantivesse acordado até receber notícias de Remus. Agradeceu que Harry não lhe perguntasse que tinha feito e em mudança, o encontrou dormido no mesmo lugar onde acabava do deixar.
-Ao menos alguém poderá dormir bem esta noite... –murmurou, satisfeito de que a poção tranquilizante que ele mesmo pusesse na caneca fizesse efeito. Avivou o fogo da lareira e dirigiu-se à sala, onde esperaria notícias sobre a busca de Sirius.
Continuará...
Próximo Capítulo: Só tu para me sustentar. Segunda Parte.
Nota tradutor:
Espero que vocês gostem do capitulo!
Acho que demorarei para postar novamente, pois logo logo começarei a fazer um curso de administração e logística, espero que vocês tenham paciência, que seguirei postar o restante dos capítulos dessa fic, não demora muito para estar no final dela
Então espero vocês nos reviews
Ate breve!
Fui…
