Resumo: Eu tinha sete anos quando o conheci. E nem eu nem ele sabíamos como nossas vidas iam mudar a partir daquele momento. AU, B/B.

N/a: Passei a semana inteira sem conseguir nem pensar em fanfic. E ontem finalmente consegui sentar pra escrever, e esse capítulo me veio em uma sentada só. Me digam o que acharam do encontro que o Booth bolou. :)

OliveSan, às vezes tenho um pouco de medo dos seus reviews. Mas também adoro eles, me fazem rir. Mikaelly, obrigada. Mais um capítulo de Booth-sonho-de-consumo para nós então. Paulinha, acho que se ele tivesse se machucado a autora seria linchada... hahaha, mary-gwg, orgulho de mim mesma! Consegui escrever o capítulo no prazo! Nine, enquanto ela puder vai esconder essa informação, do jeito que é cabeça-dura. Barbara, mas podemos ter uma história sem Michael... *pensando* Angie, muito obrigada por continuar me deixando uma opinião aqui e ali. E fiquei feliz em atender seu pedido.


Brennan's Song

37. Você e eu

Take me back to the creek beds we turned up
(Me leve de volta ao leito do rio onde estávamos)
Two A.M. riding in your truck and all I need is you next to me
(duas da manhã dirigindo na sua caminhonete e tudo de que eu preciso é de você perto de mim)

Na segunda, a casa ressoava com os gritos e bater de portas. Por isso, quando não estava fazendo minhas tarefas, estava trancada em meu quarto.

Um dos irmãos de Lauren iria vir para jantar, por isso achei que seria a oportunidade perfeita para escapulir. Faria o que fosse necessário na cozinha e na arrumação da casa e então, quando todos fossem jantar, me trancaria no meu quarto, fingindo ir dormir cedo. Nenhum dos dois gostava que nós ficássemos à vista quando havia visitas na casa, e isso seria ótimo naquele dia.

Dentre minhas roupas, peguei um vestido que há muito tempo não usava. Minha mãe havia comprado para que eu usasse em meu aniversário de 15 anos, e havia sido a última vez que o vestira. Era o único vestido que eu tinha comigo, e não sei bem por que havia escolhido levá-lo junto, já que nunca o usava. Mas naquela noite ele me pareceu perfeito para o encontro com Booth.

Arthur e Leon me ajudaram a sair, patrulhando o corredor para garantir que eu não seria pega no exato momento em que estivesse à porta.

Caminhei alguns passos e vi o carro de Booth, parado alguns metros à frente como havíamos combinado. Quando entrei, ele pareceu aliviado.

-Deu tudo certo?

-Deu. – respondi sorrindo.

Só então ele se aproximou, sussurrando, antes de me beijar:

-Você está linda, Bones.

Eu aceitei o beijo, inalando o suave perfume masculino dele. Passei a mão em seu rosto, que estava barbeado e macio ao toque. Poderíamos ficar o encontro todo ali, e eu não iria reclamar. Mas ele disse, sorrindo, que tinha outros planos em mente e ligou o carro.

Booth pegou a Interestadual 66 e logo estávamos em Arlington. Eu não estava familiarizada com as ruas, mas ele navegou por elas com naturalidade enquanto conversava comigo, e logo parou à frente do que parecia ser um aconchegante restaurante.

Fizemos nossos pedidos, os olhos dele procurando os meus a todo momento. Ele me contou uma história que nos fez rir por alguns minutos, e então nossos pratos chegaram.

-Você realmente vai comer só essa salada, Bones?

Eu olhei para o prato dele, tão cheio que formava uma pequena pilha.

-Diferente de você, eu me contento com um tamanho normal de prato. Além do mais, não é só salada, tem peixe grelhado e purê de batatas.

-Peixe... nem se compara a um bom bife! – disse Booth, indicando o próprio prato. – E não venha roubar minhas batatas!

Com meu garfo eu fiz exatamente aquilo, para provocá-lo.

-Bones! Por que não pediu um prato que viesse com fritas?

-É mais divertido roubar do seu. – disse eu, rindo da expressão indignada dele.

Depois de devorar o prato, Booth ainda pediu um imenso brownie com sorvete, que acabamos por comer juntos.

-Por que você quis vir até aqui, Booth? Podíamos ter ido em algum restaurante em Falls Church mesmo. – disse eu, logo que o garçom terminou de recolher os pratos.

-Por que ainda não acabou. Quero te levar em um lugar.

Eu não esperava por aquilo, achei que só iríamos jantar. Mas ele se negou a me contar aonde íamos quando perguntei e, sorrindo, colocou duas notas sobre a mesa e se levantou, estendendo a mão para mim.

Entramos novamente no carro, e novamente ele se negou a me contar onde estávamos indo. A certa altura, ele me pediu para fechar os olhos.

-Por que eu faria isso?

-Por favor, Bones. Uma vez na vida não questione, só faça.

-Não vejo sentido em fechar os olhos.

-Eu estou pedindo, e vai me fazer feliz. Vamos lá, pense nisso como um jogo.

Eu olhei para Booth com o canto dos olhos, incerta. Quando éramos pequenos, e ele me dizia que havia inventado um jogo, sempre acabávamos metidos em problemas. Quebrando coisas pela casa por estarmos correndo na sala, com um imenso arranhão no braço por que estávamos saltando em folhagens, correndo do cachorro do vizinho por que estávamos pulando muros.

-Ok, não um jogo desses que você está pensando. Eu juro que não envolve nenhum de nós nos machucando.

Eu finalmente fechei os olhos, ainda incerta.

-Você sempre diz isso.

Senti ele virar em uma curva, e então andar em linha reta por mais algum tempo. Quase cinco minutos se passaram até que senti o carro parar suavemente.

-Não saia daí e não abra os olhos. – pediu Booth, e ouvi ele descer do carro e sua porta se fechar.

Logo a porta do meu lado estava se abrindo, e senti a mão dele segurar a minha. Ele me guiou para fora devagar, e fechou o carro. Então senti a mão livre dele cobrir meus olhos, e Booth se posicionar atrás de mim.

-Ok, vamos caminhar alguns passos, Bones... eu serei seus olhos, confie em mim.

Eu suspirei, mas obedeci a ele, prestando atenção em sua voz e no peso morno da mão dele sobre meu rosto. De alguma forma, desprovida da visão, eu podia prestar mais atenção a esses pequenos detalhes. A respiração dele em meu pescoço, sua voz baixa e grave me passando instruções.

-Ok, pare aqui.

As duas mãos dele desceram para a minha cintura, e ele as cruzou em minha barriga, descansando o queixo em meu ombro.

-Pode abrir os olhos, Bones.

Extremamente curiosa, fiz o que ele me pedia. E nada poderia me preparar para a linda visão que se estendia à minha frente.

Estávamos um pouco ao norte da Ponte Arligton Memorial, encarando Washington de frente. Mas eu não sabia de nada daquilo naquele momento. Tudo que eu via era a linda imagem da cidade iluminada pelas luzes contra um céu azul marinho, o reflexo da lua se projetando nas águas escuras do Rio Potomac.

Por alguns momentos eu não disse nada, deslumbrada. Não só pelo que estava vendo, mas pelo tato de Booth em querer fazer daquele um momento especial. Entendi então o pedido dele para que eu fechasse os olhos. Sem esse elemento, minha surpresa não teria sido tão grande.

-E então?

-É lindo, Booth. Obrigada.

Nos sentamos em uma árvore próxima, ele se encostando ao tronco e eu me encostando às costas dele, e ficamos listando os pontos que conseguíamos reconhecer. Mais próximo, a vegetação do Washington Mall, mais à esquerda os edifícios do complexo da Universidade Georgetown e, se destacando no meio, o monumento a Washington.

Então ficamos em silêncio, e eu respirei fundo. Um sentimento quente se aninhara em meu peito, e eu me sentia tranquila. Sentir a respiração de Booth contra minhas costas me deixava tranquila.

Ele falou, baixinho:

-Bones, eu sei que nos conhecemos bem demais. Mas eu quero que a gente finja que isso é um primeiro encontro. Vou propor outro jogo.

-Que tipo de jogo?

-Um bem simples. Eu pergunto algo a você, e você tem que responder, não importa qual pergunta seja, com sinceridade. Como recompensa, você pode fazer uma pergunta a mim e eu também irei responder honestamente.

-Está bem. – disse, achando que as regras não eram difíceis. Eu não tinha problema algum em falar honestamente.

-Então lhe concedo o direito da primeira pergunta.

Uma vez que eu poderia perguntar qualquer coisa, resolvi começar por algo que tinha curiosidade há muito tempo.

-O que realmente aconteceu com sua mãe?

Senti Booth se retesar sob mim.

-Ouch, direta ao ponto, hein Bones?

Ele parou, imagino que pensando. Booth raramente tocava no assunto, poucas vezes havia ouvido alguma história relacionada à mãe dele sair de seus lábios. Mas eu nunca soubera o que havia acontecido a ela, para que não estivesse ao lado dos dois meninos quando eles sofreram os abusos por parte do pai.

-Ela morreu quando eu tinha seis anos. Ela sempre teve a saúde fraca, e imagino que a situação lá em casa acabou por sugar suas energias.

-Booth, eu sinto muito...

-Ela me incubiu de cuidar do Jared... – senti a voz dele ficar mais baixa, e sabia, sem vê-lo, que ele estava mordendo os lábios – Ele tinha quatro anos, mal se lembra dela...

Eu me virei para mirá-lo, me sentindo culpada.

-Booth, me desculpe. Se quiser paramos aqui.

Ele fez um esforço para sorrir.

-Não, está tudo bem. Você pegou o espírito do jogo.

Passei o dedo carinhosamente pelo rosto dele, e vi os olhos lacrimejantes de Booth fixarem os meus. Com um meneio mínimo, ele indicou que estava pronto para recomeçar.

-A minha pergunta para você... quando foi que percebeu que gostava de mim além da amizade?

Eu me pus a pensar seriamente. Quando havia sido?

-É tão difícil assim? – perguntou ele, depois de vários segundos.

-Não tenho certeza, Booth. Acho que nunca houve um acontecimento isolado que me levou a esse conhecimento. Começou... começou no dia que o Michael me trancou no porão, e eu fugi para a sua casa.

Senti ele fechar mais as mãos em minha barriga, como se quisesse me proteger de um terror imaginário.

-Na noite em que dormimos na mesma cama?

-Foi. Pela primeira vez eu senti... algo diferente. Havíamos feito aquilo vezes sem conta, mas nunca antes eu havia sentido o que sentira naquele dia. Não sei se eu lhe disse, mas seu apoio naquele dia foi muito importante para mim, me deu forças.

Senti o sorriso na voz dele ao falar:

-Continue.

- Pouco depois teve o jogo de basquete em que você se machucou. Me lembro de Angela falar algo sobre eu tomar uma posição parecida com a de um animal cuidando de sua prole.

Booth começou a rir.

-Ela te chamou de mamãe urso?

-Foi exatamente essa expressão que ela usou. Não posso dizer se a comparação é acurada, mas naquele dia eu fiquei terrivelmente preocupada. Me lembro de sair do hospital completamente confusa com a imensidão de sentimentos que tinham surgido.

-Você nunca me contou isso.

-À época eu não queria pensar na possibilidade. – disse com sinceridade – Ela me assustava, na verdade, ainda me assusta.

Ele beijou minha bochecha, mantendo o corpo bem próximo ao meu.

-Obrigado por ser tão sincera, Bones.

-Minha vez de te fazer uma pergunta.

-Vá em frente.

Eu pensei um pouco.

-No dia que nos despedimos, em que você e sua família foram até minha casa... quando seu avô e meu pai foram buscar algumas coisas que estavam na garagem...

-Quando nós dois ficamos sentados na sala?

-Isso. Você me encarou por um longo tempo, então se aproximou e começou a dizer alguma coisa. Mas desistiu de falar e, não importando o quanto eu pedisse, não quis me contar o que era.

Ele levou apenas alguns segundos para responder.

-Eu ia pedir um beijo.

-Só isso?

-Um beijo nos lábios.

-Mas você achava nojento!

-Talvez aos nove anos sim. Mas àquela idade eu estava começando a descobrir as coisas boas da vida.

-E por que você não conseguiu pedir?

-Não tive coragem. Talvez tenha tido medo que você fugisse de novo.

Eu me virei novamente, deixando um beijo muito leve em seus lábios e dizendo em seguida:

-Eu teria dado.

Ele sorriu, divertido.

-E eu só descubro isso agora...

Trocamos outro beijo, mais profundo dessa vez, e levou algum tempo até que conseguíssemos retornar ao jogo.

-Ok, Bones... Minha pergunta: Se você tivesse a chance de procurar por seus pais, você faria?

Meus pais. Eu me esforçaria em encontrar as pessoas que haviam me abandonado?

Logo depois do ocorrido, eu acreditara que algo havia acontecido a eles para que não conseguissem voltar para casa. Várias vezes pensei nas possibilidades do que poderia ter acontecido. Mas no dia que Russ também foi embora, me convenci que na verdade eles deviam ter nos abandonado. Me abandonado.

-Sim. Eu os procuraria.

Booth não disse nada, e ficamos em silêncio por alguns segundos. Ouvi o relógio de pulso dele indicar com um alarme uma hora cheia.

-Uma hora da manhã, Booth! – disse, mirando os ponteiros iluminados. Não havia percebido que havíamos ficado tanto tempo conversando – Não devíamos voltar?

-Vamos ficar só mais alguns minutinhos aqui, está bem? Não quero que isso acabe.

-Isso é impossível.

-Mas não me impede de desejar.

Eu concordei, relaxando o corpo e deitando a cabeça contra o ombro dele.

-Baby, antes de irmos tem algo...

-Não me chame assim, Booth!

Ele bateu com o nariz contra o meu rosto de forma brincalhona.

-Está bem, baby.

Eu o mirei com um olhar zangado, e ele riu.

-O que você quer me contar?

O sorriso sumiu do rosto dele devagar e senti que ele estava ficando nervoso. Por algum tempo ele só me encarou. Então fechou os olhos, balançando a cabeça.

-Nada. Nada importante.

-Booth, me fale agora!

-Era bobo.

-Bobo ou não eu quero saber.

Ele abriu os olhos.

-É só que... eu estou realmente feliz em poder estar com você aqui, hoje. Você me faz feliz.

Eu não respondi de imediato. Fiquei olhando ele por mais alguns segundos, sondando suas expressões.

-Eu também estou feliz. – disse por fim, sorrindo.

Ele então sorriu, me puxando para que levantássemos.

-Então vamos logo, ainda temos um bom caminho até chegarmos em casa.

Vi ele se afastar para destravar o carro, e caminhei vagarosamente. A noite havia sido incrível. Mas havia algo de estranho no que havia acabado de acontecer. Da mesma forma que eu havia sentido algo de estranho quatro anos antes, quando nós dois nos despedimos na sala de minha casa e Booth não teve coragem de me falar algo, como confessara.