Part XXXVI: New Paths

Os chás da tarde haviam sido intercalados com café. O motorista fora substituído por uma bicicleta e seus horários não eram mais fixos como antes. Apenas a empregada tinha continuado a mesma, apesar de ser necessário um telefone com vídeo para falar com ela e ter a sua ajuda. O caos de Nova York não chegava nem perto de se equiparar à calmaria de San Francisco, e apesar de ter aderido à bicicleta como meio de transporte, não a evitava de ouvir as buzinas. Talvez fosse a razão de Cathy ser tão repentinamente estourada às vezes. Sua vida havia mudado quase que completamente e em poucos meses. O que 18 anos não fazia com uma pessoa...

A peça em si havia estreado com a casa cheia e, graças ao sucesso, continuaria assim nos dias seguintes. Em compensação, Layla teria de lidar com críticas severas a seu respeito, apesar do sucesso atual. Ao longo dos milênios, o ser humano sempre teve dificuldades em aceitar novas idéias, atitudes e recomeços, portanto, nessa situação não era diferente. A mídia maior a chamava de "frustrada em cena", enquanto os canais de notícias de entretenimento menores insinuavam que caso essa sua situação de agora não desse certo, o próximo passo seria o bordel. Como seria de seu costume, poderia processá-los, mas desta vez, com tudo diferente, isso também seria. Simplesmente ignorou, porque afinal, se ligasse para críticas desse tipo, seria como ligar para provocações de competidores antes de subir ao palco para competir. O que eles queriam era o circo pegando fogo e isso ela não teria o prazer de dar.

- Não me interessa. Apenas queime isso e vamos ensaiar. - Ela disse a um dos atores que lhe veio mostrar as barbaridades que haviam escrito sobre ela depois da noite de estréia. Cathy parecia cada vez mais admirada com as atitudes e reações da loira.

- Sabe, Layla, eu realmente não acreditava que você fosse do tipo que "topava-tudo". - Comentou a ela antes que o ensaio começasse, ganhando o olhar da outra. - Quer dizer, você sempre foi vista como a filha de um milionário e quando eu me dispus a ir atrás de você, eu imaginava que fosse encontrar uma pessoa completamente diferente.

- Diferente como? - Perguntou a ela, e naquele momento soube que seus colegas mais próximos e amigos valiam muito mais em críticas do que todo o resto da imprensa mundial juntos.

- Pensei que fosse alguém que se achasse demais. Alguém que reconhecia o trono de ouro que nasceu e quisesse virar rainha. Ao menos, é a impressão que me passava.

Layla apenas sorriu de olhos fechados enquanto abria uma água para tomar um gole. "Cathy, se você soubesse que não é a única...", pensou em meio àquela pausa, antes de voltar a fitá-la.

- E agora, o que pensa de mim?

- Eu penso que você não nasceu para ser rainha, mas sim para ser uma estrela. - Cathy sorriu quando o sorriso da outra sumiu. Ali nascia um carinho mútuo sem que percebessem. - E que fez de tudo para sair do trono de ouro, ao invés de se conformar e ficar nele. Eu te admiro por isso.

Pelo visto, ela era a única por ali. Bem, ela, Charlotte e Julie, apesar de não confiar intimamente nessas duas últimas. Não por nada, mas nunca se sentiu confortável suficiente perto delas para isso. O fato é que Cathy não era a primeira nem seria a última a pensar aquilo dela, e ela sabia. Infelizmente, seu gênio, signo e condição social a impedia de ser diferente, ou de se fingir de humilde. Ela simplesmente sabia o seu lugar e sabia o que exigir dos outros, caso coubesse uma exigência. Jamais diminuiu os outros por conta de suas condições físicas, sociais ou o que fosse, mas mesmo assim sempre iria parecer que o faria, ainda mais pela mídia parecer ter uma certa atração em destruir a vida de quem está de bem com ela, por isso sempre arrumavam motivos para fazê-la parecer arrogante, carrasca, hostil e, claro, uma prostituta. Tudo o que queriam eram razões pessoais para piorar o quadro, e claro, conseguiram algum tempo depois.

Jason Stewart era o típico ator americano que tentava a sorte, sem ligar para o que os outros pensavam dele. Havia tentado ponta em filmes, teatros outros, televisão e agora voltara ao teatro. A única coisa que recusara na vida foi filme para adultos e por isso, no auge dos seus 26 anos, era alguém extrovertido, brincalhão e cheio de energia. Era de se esperar que ele tentasse arrancar sorrisos da sempre-séria-Layla, a qual por muito tempo o ignorou completamente. Ele era um coadjuvante, por vezes figurinista, mas se destacava não só pela sua atuação, como também pela sua disposição. Layla aos poucos reconheceu nele alguém de futuro promissor e já que aos poucos a peça foi dando cada vez mais certo, ela se permitiu relaxar.

- Não acredito que finalmente arranquei um sorriso seu. - O moreno de olhos claros sempre lhe sorria, não importava a situação. Cathy se divertia com as reações e os "foras" que ele levava dela, mas aquela vez foi diferente.

- Muito bem. Se quer sair comigo, por que não pede de uma vez? - Ela perguntou em um tom tranquilo, o mesmo que certa vez desafiou uma certa japonesa a realizar o Fênix Dourado, e para a surpresa dele, ela sorriu levemente mais uma vez. Já que tudo estava diferente, era hora de continuar seguindo em frente, sem olhar para trás. Alguém que por meses não lhe deu notícia, talvez não desse nunca mais, quanto mais quisesse qualquer coisa de volta. Imaginava que no futuro mais distante pudessem se encontrar, e ele provavelmente já teria um filho nos braços e ela estaria se aposentando da carreira artística. Por isso, não hesitou quando Jason lhe chamou para sair, sabendo que ele finalmente receberia um "sim".

O rapaz não era dos mais ricos financeiramente, mas tinha bom gosto. O restaurante que ele a levou era simples, mas era também um ideal criado por nutricionistas recém-formados, então todo o cardápio era balanceado e repleto de opções para quem precisava chegar ou se manter em um peso certo. Ou seja, ela.

O jantar foi bastante tranqüilo, e ela pela primeira vez aproveitou a companhia de alguém de uma forma mais natural, sem se resguardar ou se soltar demais. Ele era divertido o tempo todo, e a extroversão dele em momento algum se tornou espaçosa ou invasiva. Ela acabou rindo (do seu jeito leve e inevitavelmente resguardado de ser) de alguns comentários dele a respeito de si mesmo e de algumas criaturas que havia encontrado ao longo da vida, fazendo piadas sobre esses produtores, roteiristas, diretores e outros que passaram pela sua vida profissional, o que a fazia crer que apesar de não ser rico, ele se sustentava muito bem e tinha valiosos contatos que lhe renderiam emprego pelo resto da vida.

- Eu só faço o que eu gosto e ganho com isso. Se eu não gosto, não duro um mês fazendo. - Ele lhe dizia enquanto dirigia rumo ao apartamento dela. O carro também era simples, mas tinha tudo o que precisava, segundo ele próprio, e a levaria para casa com segurança. - Também já sentiu que estava no lugar errado e na hora errada? Ah, mas que pergunta. Haha você, sendo quem é, deve ter sempre feito o que mais gostava.

- Nem sempre. - Ela não respondia em detalhes o que ele supunha, como por exemplo explicar que os filmes que fez foram horríveis ou que ter saído do Kaleido foi o sentimento mais difícil de entender e suportar que já tivera, mas ela dava um parecer para que não ficasse a sensação de que ela era perfeita e indestrutível e rica e famosa e arrogante, como pensavam que ela fosse.

- Mesmo? E eu que pensava que dinheiro e fama resolveriam meus problemas - Ele brincou ao estacionar quando ela lhe pediu e manteve o sorriso enquanto tiravam o cinto. - Obrigado por ter aceitado jantar comigo hoje. Nem em um milhão de anos eu pensei que fosse aceitar.

- Olha, eu... Não digo um milhão de anos, mas... Estava bem perto disso. - Ela brincou de volta, pegando a chave da bolsa e voltando a olhá-lo. - Mas fico contente em ter resolvido aceitar, foi uma boa noite.

- E será que eu posso deixá-la melhor? - Os olhares se cruzaram novamente e houve uma pausa de alguns segundos, mas que pareceu gigantesca. A mão segurou a chave mais firmemente enquanto ela pensava se estava pronta para dar esse novo passo. Mas por parecer hesitar, ele não esperou um sim ou um não em palavras; aproximou-se de Layla, e ela, desistindo de pensar, cedeu.

A sensação, no início, fora suficientemente estranha. Havia beijado apenas outra pessoa, e essa outra maldita pessoa ainda não tinha sido esquecida, por óbvios motivos. Aquela experiência lhe passava em mente naquele momento justamente por não ter sentido o mesmo "choque" que sentiu com o primeiro beijo do outro. Talvez porque tinha sido seu primeiro beijo da vida toda, mas este de agora não era de todo ruim. Jason beijava bem e a trazia para si sem parecer um completo pervertido, o que já era um bom começo. Do jeito que ele era, imaginou que ele fosse agarrá-la ali mesmo ou querer subir com ela, mas o máximo que fez foi envolvê-la com as mãos em um leve abraço enquanto a beijava e aquilo a fez sorrir em agradecimento pelo respeito.

- Agora sim, nós... Hm, nos vemos amanhã..? - Ele disse ainda meio consternado por parecer ter gostado ainda mais daquele beijo do que ela.

- Mas é claro... Temos ensaio e peça amanhã. - Disse em tom mais tranquilo.

- Ah, sim, claro. - Ele riu, fazendo questão de ver se a porta já estava destrancada e de dar a volta para abrir para ela. - Nesse caso, nos vemos às 4?

- Às 4. Boa noite. - Disse ao manter o leve sorriso e sair do carro. No entanto, antes que pudesse entrar em segurança no seu prédio, os flashes foram inevitáveis. Achou ter sentido um clarão enquanto se beijavam, mas agora tinha certeza do que tinha imaginado. Não tinha o que fazer agora, já tinham duas fotos comprometedoras, ou talvez mais, e seria suficiente para nova enxurrada de notícias ruins pela manhã. Apenas suspirou, beijando-o no rosto e lhe desenhando uma boa noite antes de entrar.

Não houve dúvidas. O primeiro jornal que infelizmente não conseguiu evitar de ler teve direito a montagem de foto dela com Yuri no passado junto da dela com Jason no presente. Precisou respirar profundamente algumas vezes antes que fizesse qualquer loucura além de amassar o jornal e tacá-lo no lixo. Quando é que a deixariam em paz?

Ninguém do elenco ou do staff disse uma só palavra a respeito das notícias locais, mas ao mesmo tempo parecia que todos sabiam. Jason, pro outro lado, parecia bastante tranquilo. Ele podia não ser tão conhecido quanto ela, mas talvez já tivesse vivido situações do tipo, o que a tranquilizou um pouco, já que assim ele não aumentaria a polêmica, como muitos aspirantes a astros faziam para aumentar a fama.

- Desculpe por isso. - Ela disse em um momento a sós com ele. - Eu já devia saber que não me deixariam em paz, e agora te coloquei no meio disso.

- Não precisa se desculpar. Só tem de se acostumar, essa laia é assim mesmo. Qualquer coisa é motivo de fofoca. E eles ainda acham que são importantes meios de comunicação. - Ele debochou, junto a um leve carinho em seu ombro. Era incrível como ele conseguia confortá-la sem parecer invasivo e daquele momento em diante não se importou em aparecer ao lado dele. Os ensaios continuaram os mesmos, os bastidores também, e no final daquela semana ele passou a levá-la todos os dias de volta para casa. Abandonara a bicicleta por um bom motivo, afinal.
Aquilo tudo estava longe de ser um romance, no entanto, e em breve descobriria que não seria nada duradouro, mas por enquanto era apenas passível de se considerar os fatos envolvendo aquela pessoa. Ela gostava de conversar com ele, da sua presença junto aos outros atores e do modo como era tratada - ainda que certa vez tenha que ter impedido-o de dar passos a mais naquela relação -, mas não era como se não pudesse ficar sem a sua presença. Ainda bem, pelo que viria a seguir, ela precisaria de bastante frieza.
Com o passar do tempo, a peça ganhou certo nome e não foi graças a ela, apenas. O ator que fazia o personagem Johan teve de sair e Jason foi a primeira pessoa em que ela pensou para o papel. Independente de se darem bem no pessoal, ele era um bom ator, então sugeriu que ele fizesse os testes, e graças ao talento dele, conseguiu. Infelizmente, como muitos dizem, a fama mudava algumas pessoas. O reconhecimento do nome dele para aquele papel deu a ele uma sensação de estrelato muito maior do que ele poderia suportar, e apenas com uma semana em um dos papéis principais, ele mudou completamente. Continuava extrovertido, mas ao invés de atencioso, ficou arrogante, e ao invés de brincalhão, ficou sarcástico.
Com ela, a coisa piorou um pouco mais; ele deixou de cavalheirismos, deixou de se importar com o que ela tinha a dizer e usou-a para conseguir mais atenção ainda da imprensa - a fama parecia ser viciante, afinal, e ele queria cada vez mais dela -, até que enfim ele passou dos limites e tentou forçar o que não devia com ela.
- Já chega! Boa noite! - Disse irritada ainda dentro do carro ao se desvencilhar dos braços pegajosos e bater com mais força que o normal a porta do carro dele.
- Hey! Se fosse uma lamborghini, eu ficaria muito irritado!
- Ah, que sorte a minha, não? - Ironizou ainda irritada, fechando a porta do próprio prédio com a mesma raiva que fechou a do carro dele. É lógico que essa cena seria lembrada pela manhã nos novos jornais, mas não só isso. Se ele já estava arrogante, agora ficaria pior ainda. Ele passou a fazer o seu papel de qualquer jeito e ainda por cima convenceu a atriz que fazia o papel da Cólera de que ela era a cretina da história. Em resumo, não só as cenas dele com ela, mas também o clímax estava sendo feito de qualquer jeito.
Ela podia ser xingada em público; podiam dizer que ela era terrível no que fazia, que tinha saído com 50 pessoas nos últimos 2 meses, mas nada, absolutamente nada, era mais devastador e irritante do que aquele tipo de atitude. Descontar no profissional aquilo que não se resolve no pessoal é sempre a pior opção, ainda mais quando a envolve no meio da história. A parte boa era que ela tinha liberdade para fazer o que bem entendesse naquela situação, e com a casa deixando de ficar lotada por culpa da queda de qualidade na apresentação, não pensou duas vezes em chamá-los para dispensá-los.
- Você só pode estar de brincadeira! Demitidos?! - Irritado, Jason, jogou a toalha da rosto contra o chão, enquanto a garota ao lado dele continuava boquiaberta com a notícias.
- Foi você quem me disse que quando está fazendo algo que não gosta, não dura um mês, não foi? Pois bem, estou lhe poupando o trabalho. E você também, Jessie. Estão dispensados. - A frieza dela chegava a -10. Pouco se importou com as expressões de raiva que lhe dirigiam. Apenas Charlotte, Julie e mais dois atores estavam presentes, então ficava ainda menos preocupada.
- Quem você pensa que é? Não pode nos demitir! - Finalmente a garota resolveu dizer algo, e parecia tão arrogante quanto ele. - Só porque ELE não está com você, não é direito seu descontar nos nossos empregos!
- Layla Hamilton. - Respondeu ainda mais rude do que ela, e sequer precisou erguer o tom para isso. - Suponho que seja com você que ele esteja agora, para defendê-lo assim. Caso não tenha notado, isso não me importa. Vocês estão há dias fazendo uma apresentação por fazer e eu fui muito clara quando disse que não trabalho com pessoas que não amam o que fazem. Quanto a você. - Ela o olhou novamente - Espero que com isso aprenda a lição. Fama não é tudo.
- Não importa, o cacete! Não pode nos demitir, Jessie disse muito bem! - Ele respondia cada vez mais irado com aquilo. - E se bobear, ainda ganha um processo na cabeça! É isso o que quer?!
- Jason, que o seu nome fosse Tom Cruise, eu ainda sim poderia demitir você. Eu me darei o trabalho de relembrá-los que também sou produtora, eu tenho esse direito. E você pode tentar me processar, se quiser, mas vai perder o dinheiro da sua lamborghini para isso. - Ela não pôde perder a oportunidade de um sarcasmo.
- Isso NÃO VAI ficar assim! Guarde minhas palavras! - Ele só faltou voar no pescoço dela antes de puxar Jessie consigo para irem embora. Layla permaneceu imóvel por alguns segundos, olhando na mesma direção, antes de fechar os olhos e puxar o celular para ligar para Cathy.

- Como assim, vamos ter que cancelar as apresentações dessa semana?! - Cathy pôde ser ouvida por toda a extensão do teatro, e se bobear, até do lado de fora.
- Você disse que eu tinha liberdade de fazer o que eu achava certo, então eu fiz. sabe muito bem que ele era um péssimo Johan e ainda transformou a Cólera em... Inveja. - Usou da ambigüidade para tentar clarear o que tinha acontecido até mesmo para si própria, enquanto via Cathy se afastar espumando em direção à própria bolsa para poder ligar para o diretor.
Aquele dia fora bastante problemático porque tiveram apenas 2 horas para avisar o elenco, o público e a imprensa que os assistiria naquela semana que a peça seria adiada até encontrarem novos atores para integrarem o elenco. Tentaram organizar uma coletiva para se explicarem, mas Jason já havia feito isso da maneira dele bem antes de 24 horas. Disse-lhes que aquele teatro resguardava uma pessoa de protagonista sem qualquer talento que não fosse a arrogância e que ela não valia o prato que comia. A resposta dela contra todo e qualquer ataque foi uma só: "eu não trabalho com pessoas que não estão dispostas a fazerem o seu trabalho corretamente sem levar para o palco seus problemas pessoais", para não falar que ele era completamente incompetente. Depois disso, não ligou mais para as críticas. Só se deu ao trabalho de responder às de Cathy, que continuaram ao longo da semana.
- E sabe o que é pior? Nem desculpas você me pediu! Ou ao Mike! - Ela dizia enquanto analisava os portfólios dos atores novos junto com ela. - isso porque a idéia de colocá-lo como Johan tinha sido sua!
- Eu me enganei com ele. Em todos os sentidos. - Respondia na calma de sempre, enquanto destacava as fotos e trabalhos de quem achava mais interessante. E com isso, estaria decidida a nunca mais se envolver com ninguém profissionalmente de novo.

Do outro lado do globo, também havia um novo caminho a ser traçado. No final das contas, escolheu a arte por influência de sua mãe, então não importava em qual "setor" da arte trabalhasse ou usasse de hobby, contanto que sempre o tivesse em sua vida para se lembrar dela. Tratando-se de desenho, ficava ainda mais próximo das "aulas" que recebia dela quando pequeno, e por essa razão, o primeiro quadro que terminou foi o de sua imagem. Parecia um anjo com aqueles cabelos loiros ondulados quase brancos, pele alva e olhos azuis em tom gelo, sentada sob um banco de praça e lendo um livro em tempos de verão. Ele não agüentou ficar olhando aquele quadro por muito tempo, uma vez que a saudade apertava demais por culpa da fidelidade com que o tinha pintado, então acabou colocando-o em outro cômodo para não olhá-lo demais.
Com o passar dos meses, seu apartamento na França ia lotando de quadros, a maioria composta por pessoas e todas elas sorridentes. Devia ser a saudade de ver o sorriso dos espectadores, ele pensou certa vez. Ou então poderia ser a simples saudade de ter companhia por perto. Foi apenas isso que o fez se desligar um pouco dos estudos para ir dar uma volta pela cidade e finalmente conhecê-la, após tanto tempo morando nela.

Ele não achava Paris "tudo aquilo" que muitos achavam. Era uma cidade bonita, tinha o seu charme, mas se fosse escolher, preferia Moscou, ou mesmo San Francisco. E por falar nessa última, era inevitável se lembrar dela. Sabia que Layla não estava mais em Cape Mary, sabia do seu recente contrato com a Broadway e ficou contente em saber que ela não parou no tempo, mas também ficou bastante reticente quando viu algumas imagens dela com outro na web. Não que ele estivesse procurando, mas bastou que pesquisasse por "Kaleido Star" que qualquer assunto relacionado vinha. Tanto esse assunto quanto a notícia de que Leon Oswald estaria temporariamente no Kaleido o deixaram suficientemente irritado, mas ao contrário do que poderia antes, não fez nada. Não valia a pena se envolver ainda, e quando o fizesse, seria da melhor forma. Ainda devia uma ao rival, ao invés de tê-lo como inimigo, então, no momento certo, voltaria.
Naquele momento, no entanto, ele parava para tomar um café enquanto se lembrava das notícias que leu e das fotos que viu. Em um primeiro momento, perguntou-se se ela já o teria esquecido, e logo em seguida ele suspirou para si mesmo, conformando-se em lembrar que a decisão de partir foi dele e ela havia seguido em frente, obviamente. Talvez devesse fazer o mesmo.
Foi quando sem querer uma moça esbarrou nele, e quase que o café para viagem foi para os ares.
- Pardon...! - A moça loira de olhos caramelados logo arregalou os olhos por parecer reconhecê-lo, e ele fez o mesmo. - Yuri...?!
- Catherine? Minha nossa, quanto tempo. - Ele retribuiu ao espanto e ao sorriso também. Quais as chances de achar uma ex de outro país lai, onde ele estava? Uma ex muito bonita, por sinal, que o fazia cumprimentar a si mesmo mentalmente por ter tido alguém assim consigo (e depois de condenar por idiotice mental). - O que faz por aqui?

- Estou aqui a trabalho, os circos daqui são famosos e estão sempre precisando revezar artistas. - Disse, e logo o assunto "Leon Oswald" veio à mente dele de novo. Talvez ela pudesse ajudá-lo a desvendar suas dúvidas.
- Ah sim, tem razão em estar aqui.
- Mas e você? Também está a trabalho?
- Não, não. Escute, está com pressa? Podíamos tomar um café aqui mesmo. O que acha?
- Claro. - Ela voltou a sorrir e escolheu uma mesa para se sentarem. Quando estava adoçando o café, voltou a lhe perguntar. - Se não está a trabalho, está aqui por...?
- Estudos. Depois de algumas coisas terem dado errado no Kaleido, eu resolvi me afastar um pouco.
- Ah sim, é verdade. Eu fiquei sabendo en passant sobre isso. Mas tome cuidado, viu? Não se afaste por muito tempo, sabe o que acontece. - Ela brincou e ele deu um leve riso entre um gole de café e outro. - E a sua... Parceira? Ela foi mesmo embora do Kaleido?
- Imagino que sim. - Ele disse aquilo fingindo pouco interesse. - Não cheguei a esperar qualquer confirmação oficial para ir embora do país e não corri atrás para saber. Como eu disse, quero distância, por enquanto.
- Hm, entendo... Bem, quem sabe eu não tente a sorte por lá, nesse caso?
- Está de trapezista agora?
- Estou começando, tem uns 6 meses. Meu negócio é trampolim, mas também gosto dos trapézios, então estou treinando.
- Isso é muito bom, terá mais chances de ser contratada assim. - Novamente, ele sorriu. Conversa vai, conversa vem, ela acabou contando sobre o que sabia de Leon. Ele andava buscando uma parceira fixa desde que Sophie morrera e, por não encontrar ninguém que valesse a pena no continente europeu, resolveu aceitar a oferta de Kalos depois que viu a Técnica Fantástica. Então, concluindo para si mesmo, o seu pior temor antes era que Leon tomasse seu lugar no Kaleido, e agora que ele finalmente tinha conseguido esse feito sem competirem por isso, Yuri estava ok. Aquele topo já não lhe valia nada e talvez nunca mais valesse na vida.
Acompanhar Catherine até o apartamento dela lhe rendeu muito mais que a simples socialização que procurava quando resolveu sair do seu próprio apartamento. Dormiu com ela na condição de não tocarem nos assuntos do passado e ela até acabou agradecida por não ter sido nada sentimental, mas ele logo lembrou do porquê de terem terminado. Sentiu o forte traço de egoísmo e egocentrismo da parte dela quando ela mencionou em simples e bom som que não teria mais tempo para ele nos próximos dias e que por isso nem adiantava ir procurá-la, a menos que fosse a trabalho. Saiu da casa dela feliz da vida por não ter procurado sentimento nenhum aquela noite, ou aquilo afetaria um bom tanto o seu orgulho.

No entanto, o sentimento viria inevitavelmente quando pensasse nele e ele o levasse a ela. Céus, como errou com ela. Estava tão vidrado na própria vida que se esqueceu do sentimento alheio. e ele ali, achando um absurdo ter ouvido o que acabara de ouvir de Catherine. Nessas horas, concordava com ela: era mesmo muito patético. Ainda mais porque cogitou ir atrás dela pela terceira vez em dois meses, estando ela com namorado ou não. Que fosse ao encontro dela para assistir à nova peça em que ela estava, assim ao menos teria uma desculpa para passar e dizer "oi", mas ainda não tinha toda essa coragem, ou melhor, cara-de-pau. Era o que achava de si naquele momento em que se lembrava de tudo o que fez e saiu ileso, sem culpas, até que tudo o que jamais acreditara que aconteceria aconteceu, através dela. Lembrou-se da Técnica Fantástica e do quão maravilhado ficara com aquela apresentação, do quanto se chamou de tolo depois disso e do quanto se arrependia em ter jogado fora uma vida que tinha tudo para dar certo, não fosse pela sua vingança.

O tempo passou e ele continuou a acompanhar as notícias de longe sobre ela e sobre o Kaleido. Layla fazia o mesmo quanto ao Kaleido, já que ele parecia ter sumido do mapa de vez, mas tanto ele quanto ela ficaram sabendo da nova peça (Viagem ao Oeste) e das audições para novos acrobatas que havia selecionado um bom número de pessoas novamente - o que era ótimo, já que desde a audição em que Sora entrara para o Kaleido não haviam feito outra, então quem sabe dali não surgissem novas estrelas para o futuro. Ouviram boas notícias sobre May Wong, por exemplo, e de outras pessoas de nomes desconhecidos até então. Era bom para renovar o mercado saber que novos estavam surgindo e ambos estavam de olho nisso, cada qual ao seu modo.
Ele também soube do escândalo que foi no teatro de Layla por conta da repentina demissão do tal Jason, logo depois que eles pararam de serem vistos juntos, acabando por acusar a ela de falta de profissionalismo contra "um jovem ator que estava começando a carreira agora". Ficou se perguntando por que que era sempre na cabeça dela que as notícias caíam, mesmo quando eram os outros que pareciam errados na história (inclusive ele). Deveria ser algum karma que ela teria de carregar por toda a vida só por ser filha de quem era, ou por ter escolhido a carreira que escolheu, ou por ser do jeito que era. Ou os três. Não sabia. Só sabia que independente de qualquer mulher que ficasse, o pensamento com relação a ela voltava logo em seguida, e cada vez mais forte.
Afinal, ele não a tinha amado completamente do modo como deveria ser porque estava "ocupado demais" usando-a pelos seus propósitos, e agora descobria que queria tentar aquilo de novo, queria saber se conseguiriam manter um relacionamento sem os problemas de antes. Ficou imaginando-a ali com ele, as coisas que poderia fazer em Paris e em outros lugares, e se algum dia iria conseguir convencê-la de que agora seria para valer, amando-a da forma como tinha de ser, sendo ele apenas Yuri e ela apenas Layla, sem os sobrenomes, sem os títulos, sem o passado. Apenas eles.


Nota da autora: Eu fiquei emocionada escrevendo o final desse capítulo. Mesmo. Achei que ia me emocionar só nas partes da Layla, mas foi na do Yuri que eu desmanchei. Se mais alguém teve o mesmo ''problema'', HI 5 o/

Eu não ia postar tão rápido assim, mas a cobrança é grande (e é boa!), então assim que eu termino o capítulo dá vontade de deixar todo mundo ler. E eu sei que tenho seguidores fiéis por aí, por isso, agradeço de coração, sempre. 3

Quanto ao próximo capítulo, é a hora de Sora voltar em cena e também de MONSIEUR Leon Oswald estrear... Talvez. Ainda estou pensando em como vai ser o próximo capítulo, mas com certeza não vou demorar mais para postar xD Aguardem!