7VERSE : REALIDADE 5

EPILOGO VIDA 5: SOBREVIVENDO AO INFERNO

CAPÍTULO 34

DIA INFERNAL NO INFERNO

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CIDADE DE IRONWHEEL, INFERNO

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O caos se espalha por Ιρονωηεελ.

Os diabretes eram uma praga mil vezes pior que as gangues de macacos rhesus que ainda hoje infernizam Jaipur e outras cidades indianas.

Os diabretes não se limitavam a roubar e a quebrar objetos, embora fossem especialistas nisso. Quando punham a mão em facas, varas ou objetos de tortura, coisas que existiam por toda parte em Ιρονωηεελ, usavam-nas para fustigar e irritar os cidadãos demônios.

Os demônios, por sua vez, quando provocados, mostravam o que tinham de pior para oferecer. Os diabretes eram como crianças maldosas e birrentas. Os demônios eram o mal friamente planejado e executado. Quando irritados, levavam a desfeita para o lado pessoal. Empenhados em capturar e destroçar os diabretes com requintes de perversidade, os exemplares cidadãos demônios de Ιρονωηεελ causavam tanta destruição tanto estes.

Enquanto isso, bairros inteiros estavam sendo arrasados pela fera que Palemon usou para invadiu a cidade. Mesmo que a criatura fosse dócil, o que não era nem de longe o caso, a destruição seria inevitável. Simplesmente porque a criatura era grande demais para as ruas apertadas e cheias de becos desta área pobre de Ιρονωηεελ.

Qualquer movimento brusco do monstro fazia as construções desabarem sobre os seus não tão inocentes moradores. Inúmeros demônios que se viram encurralados pela fera, foram pisoteados até serem reduzidos a algo parecido com uma pasta. Muitos outros foram esmagados contra as paredes de pedra das vielas estreitas.

O monstro espalhava pânico e ódio por onde passava. Os demônios, tanto os amedrontados quanto os enfurecidos, pioravam o que já estava ruim. Gritavam, atiravam pedras, investiam com armas improvisadas, fustigavam o monstro com óleo fervente e fogo. A algazarra que faziam enlouquecia o monstro e o monstro reagia se debatendo e investindo cegamente contra tudo e contra todos que se pusessem em seu caminho. Nada parecia capaz de deter a criatura. A destruição só aumentava.

A cidade fora apanhada de surpresa, mas se preparava para reagir. Não fora a primeira vez que fora invadida por diabretes e feras. Por mais mortíferas que fossem, essas criaturas não eram páreo para as artes e para a máquina de guerra dos senhores do Inferno.

Os grandes portões da entrada principal do palácio-fortaleza de Alastair se abrem e todo um pelotão da tropa de choque senhorial segue em formação de combate, passo acelerado, ao encontro do monstro descontrolado. Não voltariam antes de dar cabo do monstro. Além das tradicionais espadas de lâmina larga e dois gumes, eles estavam armados com longas lanças embebidas em uma poderosíssima toxina paralisante. Um extrato concentrado da peçonha da mais mortífera das aranhas infernais.

A tropa de choque impunha respeito pelo tamanho e pela aparência feroz de seus componentes. A maioria apresentava forma humanóide, mas com as proporções entre as partes do corpo alteradas de forma grotesca, principalmente os braços hipertrofiados. A armadura e o elmo, guarnecidos por pontas afiadas, reforçavam o efeito intimidador. Os mais baixos da tropa tinham duas vezes a altura média dos cidadãos-demônios comuns.

A tropa de choque tinha uma justificada fama de brutalidade. É claro que, para amedrontar demônios, a brutalidade tinha que ser extrema. A tropa de choque, quando entrava em ação, costumava causar uma destruição até maior que a que o monstro estava causando. Não perdiam tempo em considerações. Chegavam destruindo e infeliz de quem estivesse no caminho.

A carapaça do monstro que, até aquele momento, o tinha protegido de tudo, é facilmente perfurada pelas lanças embebidas em veneno. O veneno atacava o tecido orgânico externo e avançava através das camadas interna de pele até os órgãos internos. Nada o detinha. Não importa o quão forte fosse a carapaça. Queratina, o material de unhas, chifres e carapaças, é orgânico. O veneno corroia material orgânico como acontece quanto ácido concentrado é gotejado sobre pele humana. Em segundos, o veneno alcançara e se espalhara pela corrente sanguínea do monstro.

Nem seriam necessários tantos soldados. Um único contato com o veneno e o monstro estava condenado. O monstro seria fatiado vivo pela população enlouquecida, num festim de embrulhar o estômago. Dezenas de demônios, desavisados da toxina, acabariam igualmente envenenados ao tentarem devorar partes do monstro.

Quase ao mesmo tempo, no alto de sua torre em estilo modernoso, que contrastava fortemente com o entorno de aparência medieval predominante em Ιρονωηεελ, Crowley destampa um cântaro e uma densa fumaça negra, muito semelhante à forma que demônios desencarnados assumem no plano material, escapa do jarro numa quantidade que parece interminável. A fumaça vai se dividindo em inúmeros tentáculos, que, por sua vez, se subdividem mais e mais à medida que se afastam do ponto de origem, sem, no entanto, perder sua aparência e densidade.

A fumaça se espalha por toda a cidade e alcança os diabretes onde quer que eles se encontrem. Os tentáculos de fumaça agiam como se estivessem vivos e fossem dotados de inteligência. E existia um motivo para que assim fosse. A fumaça era, na verdade, formada por demônios capturados em guerras passadas que tiveram a memória apagada e que agora serviam seus captores como armas vivas.

Um diabrete assustado corre na direção de Autólico, mas, antes que o alcance, um tentáculo de fumaça, em elegantes movimentos serpenteantes, captura o monstrinho. Como uma anaconda, a fumaça, ao mesmo tempo em que envolve, se contrai ao redor do diabrete, esmagando-o. O monstrinho solta um grito estridente. Um único grito antes da fumaça invadir seu corpo pela boca. A criaturinha se debate e estremece em sofrimento e, então, começa a se dissolver. Não leva nem um minuto para que esteja reduzida a uma poça fétida de gosma negra. O tentáculo de fumaça se retrai e segue em busca da próxima vítima. Uma cena que se repete em toda a cidade.

Autólico recua horrorizado com a cena, sem atentar para o gigante vestindo armadura de combate que se posicionara logo atrás dele, sorrindo. Acostumado a surpreender ao se movimentar rápida e silenciosamente, Autólico é surpreendido quando é agarrado pelo braço e arrastado pelo gigante para dentro da fortaleza. Ele vê com apreensão o portão ser fechado.

O príncipe dos ladrões engole em seco ao reconhecer os padrões em alto relevo da armadura de seu captor. Um oficial graduado da brutal tropa de choque do inquisidor-mor do Inferno, o arquidemônio Alastair.

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Com o monstro e os diabretes neutralizados, os semideuses perdem a cobertura e o elemento-surpresa. Os senhores do Inferno, novamente donos da situação, eram experientes o bastante para saber que aqueles não eram eventos isolados e que não aconteceram por acaso. Eram ações orquestradas. Não tinham dúvidas que inimigos caminhavam em Ιρονωηεελ. Restava encontrá-los e fazê-los pagar dolorosamente a ousadia.

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SANTA MONICA, CALIFORNIA

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– Permite que o acompanhe?

– Porque tanto formalismo? Desde que consiga acompanhar meu ritmo, sem problemas. É uma companhia muito bem vinda. Senão, vai ficar para trás. Estou logo avisando que não pretendo faciltar as coisas.

– E se for o contrário? Se for VOCÊ a não conseguir acompanhar o meu ritmo?

– É um desafio? Ótimo, adoro desafios.

Jared acelera, mas em segundos Necker está emparelhado com ele. É a vez de Jared acelerar ainda mais. E assim eles correm quase oito quilômetros ao longo da orla de Venice Beach. Desafiando seus limites. Pelo menos, era o que Jared acreditava. Para Necker, mesmo ainda não completamente recuperado, não chegava a ser nem mesmo um aquecimento.

– Chega, .. eu me rendo. Ad .. mito a derrota.

– Você já vinha correndo quando eu o alcancei. Eu estava descansado. Portanto, vamos considerar um empate.

– Empate? Estou aqui .. morrendo. Sem .. fôlego. Su .. ando em bicas. Já você .. nem parece que correu. Parabéns. Está .. em grande forma.

– Eu corro todos os dias.

– Eu também. Ou tento. Bem, .. Não sei quanto a você, .. mas eu estou precisando .. de uma água de côco. Urgente.

– Mais na frente tem um quiosque. Vamos! Eu te acompanho.

– Creio que devemos nos apresentar.

– Lars Necker, prazer.

– Os amigos me chamam de JT.

– Legal saber que me considera um amigo, JT.

– Não conheço ninguém em L.A. Foi legal ter companhia para correr. Fico aqui só mais dois dias e sempre corro de manhã.

– Ótimo! Por mim podemos repetir amanhã. Vai ter a chance de uma revanche.

– Jura? Está marcado então.

– Está aqui sozinho?

– Com a minha noiva. Se tudo der certo, vamos nos casar ainda esse ano.

– Não é todo mundo que quer se amarrar assim tão cedo.

– Não é todo mundo que teve a sorte que eu tive de encontrar a mulher ideal.

– Uau! Parabéns! Ouvindo você falar, até fiquei com uma pontinha de inveja.

– Para as coisas ficarem perfeitas, eu só preciso garantir o papel.

– Papel? Não entendi.

– Desculpe. É que eu sou ator. Não, não precisa puxar pela memória. Não esperava mesmo que você me reconhecesse. Bem, temos sempre uma esperançazinha. Não ser reconhecido significa que ainda tenho um longo caminho pela frente no meu projeto de me tornar um ator famoso e respeitado. Estava fazendo um seriado estilo mulherzinha, mas tenho um teste para o piloto de um seriado de ação, em que vou empunhar armas, dar murros e salvar o mundo de monstros e criaturas sobrenaturais.

Criaturas sobrenaturais? Que interessante. Você tem toda a razão de estar entusiasmado.

– Estou. O chato é ter que me mudar para Vancouver, Canadá.

– Conheço. É uma cidade interessante. Você vai acabar gostando.

– De qualquer forma, tendo a Sandy ao meu lado, qualquer lugar vira o Paraíso.

'Essa noiva pode ser um complicador. Já não seria uma única pessoa a morrer. Passam a ser duas. Sem contar que a morte dela teria que ser de conhecimento geral. Bem, ela pode sofrer acidente. Um horrível acidente de carro. Pode acontecer com qualquer pessoa.'

– Que houve? Ficou pensativo de repente.

– Nada. Está com muita pressa? Depois da água de côco, que tal entrar na água? É um pecado não aproveitar esse sol lindo e dar um bom mergulho.

– Eu gosto de mar, mas ainda fico meio intimidado com praias de mar aberto. Sabe como é, eu cresci no Texas.

– Não se preocupe, cowboy. É só me acompanhar que não tem perigo. Nadar é o que eu faço de melhor. Eu brinco dizendo que nasci com um rabo de peixe.

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FORA DOS PORTÕES DA CIDADE DE IRONWHEEL, INFERNO

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– Encontrei Adam Winchester.

– Onde, Zetes?

– Em uma das muitas salas internas de uma imensa fortaleza que fica bem no centro da cidade. A porta da sala é reforçada e a sala não tem janelas. Não vai ser fácil tirar o humano de lá. É um caminho longo por dentro da fortaleza. Precisa ser muito bem planejado. Já foi difícil chegar aqui sem ninguém nos perseguindo. Mas, o verdadeiro motivo para eu não ter agido, foi porque não saberia o que fazer com Adam Winchester depois de libertá-lo. Precisamos, em primeiro lugar, de um lugar seguro para levá-lo. E depois? Sem Gabriel, como fazemos para sair do Inferno?

– Um problema de cada vez. Como ele estava? O Adam?

– Estava sendo torturado. Pelo manda-chuva do lugar em pessoa. Você não imagina o que é aquele lugar. Os horrores que acontecem lá dentro. Minha vontade era arrasar completamente o lugar. Qualquer coisa que forçasse os demônios a pararem com as torturas. Até mesmo matá-los, se isso for necessário para forçá-los parar.

– Talvez seja isso mesmo que precisemos fazer depois de libertarmos Adam Winchester. Destruir Ιρονωηεελ.

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FOSSAS VULCÂNICAS DE IRONWHEEL, INFERNO

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Eufemo tinha aberto as correntes que o prendiam ao chão. Mas, ainda estava preso no interior da cela quando a lava invadiu o lugar, avançando pelo piso até cobri-lo por inteiro.

Em resposta a uma ordem não explicitada em palavras, as sandálias abertas que Eufemo usava se transformam em uma sapatilha fechada de solado alto. Isso de nada adiantaria para uma pessoa comum, mas Eufemo podia caminhar sobre água sem afundar. Descobria agora que podia igualmente caminhar sobre lava. O solado o protegia de sofrer queimaduras, mas sentia em todo o corpo o calor que emanava da lava. A temperatura ambiente de mais de 70 graus podia matar uma pessoa em poucas horas no plano material.

Ele tenta inutilmente primeiro derrubar a porta. Depois, tenta alargar a abertura entre as grades. Impossível. Porta e grades foram projetadas para conter seres com força bruta muito superior à do semideus. Eufemo volta a se desesperar. O nível de lava continuava subindo. A sapatilha não o protegeria quando toda a cela inteira estivesse submersa.

É quando escuta novamente a voz serena da deusa da noite.

– Eufemo, você pode. Mas, precisa acreditar. Você é filho de Poseidon, cujo poder rivaliza com o do próprio Zeus. Você nunca explorou todo o seu potencial. Nunca utilizou todo o poder que herdou de seu pai. Feche os olhos e mentalize seu pai em todo seu esplendor. Mentalize seu pai ostentando o símbolo máximo do seu poder: o Tridente. Visualize o tridente, cada detalhe dele, tal como o viu no dia em que seu pai lhe deu o pequeno pedaço de rocha que se transformaria na ilha de Santorini. Transforme a chave que usou para abrir as algemas no Tridente de Poseidon. Transforme suas roupas na armadura de guerra do Deus do Mar.

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18.03.2015