[PENÚLTIMO CAPÍTULO - SEGUNDA PARTE]

CAPÍTULO 35

A noite do cosplay: Parte 2

Anteriormente em "A Fogueira das Paixões 2: REFLEXOS"...

Recorde a primeira vez que, em nossa história, vimos Aaron Raccer...

Ela (Hermione) ficou encabulada, enquanto os dentes muito brancos de Aaron faiscavam em sua direção. Aaron era um rapaz de cabelos escuros e cavanhaque, que havia sido transferido para Hogwarts quando o pai assumiu o cargo anteriormente ocupado por Frieda Lambert (...) Além do anel sempre fixo no dedo, não tirava um pequeno brinco argolado da orelha esquerda, brinco que só brilhava menos do que seu sorriso. (capítulo 4)

...o momento em que Rebecca escondeu Ted numa das casas de Florence Bennet e Serena escutou a conversa com as amigas...

O sinal tocou, encerrando a conversa entre Ted e a inspetora. Alone, Mione e Joyce levantaram-se, deixando a concha de lado, e aproximaram-se de Serena, que havia recuado até o fundo da sala.

-Como... Como Rebecca pode saber do que minha mãe gostava? – indagou a jovem. – Elas não se conheciam... (capítulo 29)

...e, na mansão dos Bennet, Serena encontra uma foto reveladora ao lado de Lewis...

Ali, no quarto dos pais, com o retrato de Florence Bennet nas mãos, pensava no quão pouco conhecia da vida dos dois. Colocara o pai num pedestal por tanto tempo e, depois da sua morte, não descobrira que fora capaz de manipular Frieda para se dar bem em Hogwarts? Será que, se vasculhasse o passado da mãe, encontraria coisas indesejáveis? (...)

Na imagem, um grupo de mulheres se reunia diante de uma mansão, rindo, animadas. Estavam sentadas ao redor de uma mesa repleta de doces.

(Serena)-Essa mulher ao lado da minha mãe...

(Lewis)-É Rebecca. (cap. 29)

...as palavras ditas por Kleiton, destinadas a Ted, num momento de pânico quando Hermione lançou um facho de luz contra ele...

-Não... Não, isso não vai adiantar... Imbecil... – murmurava Kleiton em meio aos gritos. – Se eu morrer, você continuará da mesma forma. O único meio de ter sua força recuperada é mantendo o frasco fechado até o término do ciclo lunar... Se me deixar morrer, nós dois perderemos. (capítulo anterior, 34)

...Ted sequestra Jennifer Star e parte para a festa cosplay...

-Pode prever o que vai ocorrer com a cantora se você e suas amigas abrirem o último frasco e eu estiver aqui, tão perto da Jennifer? Não será uma boa ideia tentar me matar... Agora que isso ficou claro, vamos combinar o seguinte: quero o meu frasco antes do amanhecer; se não aparecerem, mato essa daqui com a minha adaga. Sei que não é uma Encalhada, mas não vão querer derramar sangue inocente nessa trama de vingança que diz respeito somente a você e a suas amigas, vão? Porque foi o meu ódio por vocês que iniciou tudo isso. Se falharem, terão que conviver com o peso da culpa, pela morte de alguém que não tem nada a ver com isso.

(Hermione) -Tudo bem. Vamos para uma festa cosplay, numa fazenda, sei apenas que é de um sobrinho do Lorenzo Martin e que é perto de Hogsmeade. Nos encontre lá. Levaremos o frasco, mas não machuque a Jennifer.

-Ok, eu localizo a festa – respondeu Ted, desaparatando com um estalo, carregando Jennifer consigo. (capítulo 34)

...Lanísia deixa o castelo para se encontrar com Augusto e levá-lo para a festa...

-Podia ter providenciado a fantasia completa – ela justificou-se – a minha ideia era vesti-lo de The Flash, aquele super-herói vermelho que corre quase à velocidade da luz, mas não tinha como conseguir da noite pro dia...

-Não era preciso – ele tocou-a no rosto. – Porque a melhor coisa que faremos essa noite, faremos sem fantasia... – sussurrou provocante ao pé do ouvido. – Sem roupa. (capítulo 34)

...Lanísia, que não sabe que Ted está tão perto...

(Hermione) -Joyce, o que o seu pai tem na cabeça? Mas que droga! O pior é que eu marquei com o Ted justamente na festa cosplay! Se ele topar com Augusto e Lanísia por lá, tudo irá desandar! (capítulo 34)

...Kleiton diz a Marjorie para recuperar o frasco antes que as garotas façam a entrega a Ted na festa; porém, Rony desconfia das intenções de Marjorie e frustra os seus planos ao lhe oferecer Poção do Sono numa taça de bebida...

-Terá que adiar a maldade prevista para hoje, Marjorie – murmurou Rony, olhando para a garota sem piedade.

Ele então andou rumo ao saguão de entrada, deixando-a sozinha no corredor, perdendo as últimas palavras que Marjorie murmurou antes de adormecer:

-Se eu dormir... ninguém abrirá o frasco... Kleiton... Kleiton vai matar Rony... Perderei a minha fama... perderei... Se as Encalhadas... passarem o frasco... ao Ted... Kleiton... Vai... matar... Rony...

Seu traseiro então tocou o chão, a cabeça pendeu para o lado e Marjorie dormiu.

...Rony em perigo, sem ter noção disso; Lanísia também. Após Marjorie cair no sono terminamos a primeira parte do penúltimo capítulo de Reflexos; nesta segunda parte, conheceremos o fim do embate entre Kleiton X Ted...


Na entrada da festa cosplay, o bruxo parado na bilheteria precisava cobrar a entrada e ainda analisar se as fantasias condiziam com o evento. O jovem sardento acabava de despachar um homem vestido de leprechaun – isso depois de muito insistir que se tratava de uma espécie mágica e não de um personagem – quando um casal aparatou a alguns metros. Provavelmente um casalzinho animado. Corpos colados. Movimentação frenética.

Enquanto o bruxo conferia a quantidade de galeões auferidos até o momento, o homem de manto escuro conversava com a garota, seu suposto par, mas o bilheteiro não escutava as suas palavras:

-Você vai se comportar como uma jovem feliz por participar de uma festa ao lado do namorado, ou eu enfio essa faca nas suas costas, num golpe tão violento que ela vai sair, com cabo e tudo, do outro lado, carregando consigo todas as vísceras que encontrar pela frente. Fui claro?

-Tão claro que senti minhas tripas saltarem, traumatizadas – respondeu Jennifer. – Ai, vai com calma! – reclamou, ao sentir a ponta da faca rente às costas. Caminhando bem juntos para que Ted continuasse com a arma pressionada de modo que ninguém percebesse, eles avançaram até a bilheteria, coberta por um toldo listrado e cercada por inúmeras lâmpadas amarelas e redondas.

O bilheteiro fez uma bola exagerada com o chiclete que mascava; ergueu o rosto; as lâmpadas incidiam contra o rosto deteriorado do homem parado à sua frente; a bola de chiclete estourou; horrorizado, o rapaz tentou erguer-se apressadamente do banquinho em que estava sentado e, desajeitado, caiu com as pernas para o ar.

Ted curvou-se sobre a bancada da bilheteria. Do chão, o rapaz pôde visualizar melhor a fisionomia deteriorada do homem; conseguia divisar nervos, as escleróticas dos olhos, os músculos.

-Fantasia bem feita, cara – disse o rapaz. Olhou pela primeira vez para Jennifer, levantando-se. –Você é a cara da Jennifer Star!

-Eu costumo fazer alguns covers dela – respondeu Jen, olhando de soslaio para Ted.

-Até o figurino é parecido! Olha, na boa, vocês têm grandes chances de vencer o concurso de Melhor Fantasia que vai rolar no fim da festa... É um galeão por pessoa, moço.

-Já vou pagar. Mas, antes disso, vou deixá-lo pronto para transmitir um recado a alguns convidados de honra que estão prestes a chegar – Ted girou a varinha; o rapaz caiu de joelhos no chão e cuspiu o chiclete enquanto sentia o corpo ser dilacerado pela Maldição Cruciatus; ele estrebuchava e, quando a dor recuou, seu corpo foi atingido por uma segunda Maldição Imperdoável.

Atentamente, ele ouviu cada palavra de Ted, pronto a seguir suas ordens. Por fim, permitiu que Ted arranhasse a sua mão com a ponta da varinha.

-Esse é o nosso elo de comunicação. Quando estiver com elas, caminhe até a clareira próxima aos pinheiros na floresta aqui ao lado. E não esqueça de me comunicar.

-Eu estarei pronto para recebê-las – murmurou o bilheteiro.

-E caso a pessoa a quem se dirigir não estiver com o frasco, o que você faz? – perguntou Ted.

-Eu mato – falou o bilheteiro controlado pela Maldição Imperius, colocando as mãos abaixo da bancada, a varinha pronta para atacar se assim fosse preciso.

Colado a Jennifer, Ted entrou na festa cosplay.


Instantes depois, Alone, Joyce, Hermione e Serena aparataram perto da fazenda, acompanhadas pelos professores Flitwick e Ipcs Raccer e de Adam, Harry e Juca. Do local em que estavam, conseguiam visualizar a tenda aberta em que ocorria a festa. O som da música alcançava os seus ouvidos; luzes coloridas piscavam dentro da tenda, misturando-se às cores vivas das fantasias dos cosplayers. Havia uma ampla casa de fazenda no centro e, mais afastado, um celeiro feito de tábuas vermelhas, onde, no topo, girava um moinho.

Uma corrente de ar gelado provocou calafrios quando o grupo começou a subir o caminho até a festa.

-Ainda bem que escolhi uma fantasia bem quentinha! – comentou Juca, enquanto Joyce tirava sua touca para despentear-lhe os cabelos.

Juca estava usando um gorro vermelho e branco e um suéter com as mesmas cores em linhas horizontais. As jeans eram azuis; usava lentes de contato, mas estava com óculos sem grau de lentes arredondadas. A fantasia intrigara Serena desde o momento em que o rapaz descera a escadaria de mármore; ela aproveitou o comentário sobre a roupa para aproximar-se dele e perguntar:

-Juca, sei que teve que arrumar algo para vestir em minutos, mas por que resolveu vir fantasiado de um cruzamento de Harry Potter... – ela mexeu nos óculos dele – ...com Freddy Kruegger? – completou, pegando no suéter.

-A roupa do Freddy tem listras vermelhas e pretas. De qualquer modo, não foi essa a minha intenção.

-Não?

-Serena, lembre-se do Wally – explicou Joyce. – Você sabe: onde está Wally?

Serena olhou para os lados, depois para baixo, para cima, até mesmo conferiu os bolsos do sobretudo rosa-choque de Penélope Charmosa.

-Oh, como eu sou tonta! – disse, por fim.

-Ah, sabia que essa você ia entender!

-Pô, uma ameba mesmo, procurando um cara que nem sei quem é! Quem é esse tal de Wally?

-É um personagem, mané – respondeu Alone. – Colocam Wally em figuras empesteadas de outros desenhos. A brincadeira é descobrir onde ele está escondido em cada uma delas.

-E quem te emprestou essa bengala de velho aí? – indagou Serena a Juca. – Foi o senhor, Professor Flitwick?

O baixinho, que era da altura da bengala que Juca segurava, olhou feio para a garota e não respondeu.

-É uma recordação da aula de Transfiguração – respondeu Juca. – Isso aqui era, na verdade, um rolo de pergaminho.

-Uma transformação perfeita, é isso o que se espera do Wally mais nerd, gostoso e fofo que existe – disse Joyce, enchendo o rosto de Juca de beijos e manchando o rosto dele com batom. – Não adianta procurar esse Wally, ele já é meu!

-Wally sendo atacado por Betty Boop, dá pra acreditar? – zombou Alone, cutucando Hermione.

-É o que dizem, nada como a possibilidade de uma tragédia para reavivar relacionamentos conturbados – comentou Mione, aos sussurros, com a amiga. – Pelo menos por enquanto, a fixação dela pelo Axel deixou de atrapalhar os dois.

-Es-estamos nos a-a-aproximando da f-fe-festa – avisou Ipcs.

-Quem vai encabeçar o grupo na entrada da festa? – perguntou Flitwick.

-A Joyce – respondeu Harry de imediato.

-Por que eu?

-Porque a Betty Boop é a mais cabeçuda.

Joyce tomou a bengala de Juca e girou-a no ar, tentando atingir Harry, que correu para escapar, a capa amarelada esvoaçando.

-Se eu te acertar, Potter, vou bater tanto no seu cocuruto que o cabeçudo aqui será você!

-Al-alguém precisa se a-a-apresentar aos anfitriões – disse Ipcs, indicando a entrada da tenda.

-Acho melhor os professores fazerem isso – sugeriu Mione. – Talvez vocês consigam até mesmo interromper a festa, facilitaria muito na hora de encontrarmos o Ted.

-Tem razão, Srta Granger – Flitwick assentiu, olhando em seguida para Ipcs, e ambos avançaram de varinhas em punho.

Agrupadas alguns passos atrás, as Encalhadas se entreolharam, assustadas.

Flitwick adiantou-se para falar com o bilheteiro.

-Olá, rapaz!

O jovem sardento não se inclinou sobre a bancada para olhar o rosto do diminuto professor; continuou concentrado em alguma coisa abaixo da caixa registradora. Flitwick pareceu ficar desconcertado, mas prosseguiu:

-Somos professores de Hogwarts e estamos aqui seguindo ordens da diretora Minerva McGonagall. Não há motivos para alarme, ainda não, mas temos fortes suspeitas de que esse assassino foragido encontra-se presente no evento... – Flitwick descolou o cartaz de "Procura-se" e exibiu-o ao bilheteiro. – A aparência dele está um tanto quanto diferente agora, mas se olhar com atenção, o reconhecimento é possível. Por acaso passou por aqui alguém semelhante a Ted Bacon?

O rapaz teve a atenção despertada ao ouvir o nome de Ted. Escutou uma voz sussurrar em sua mente:

Diante qualquer menção ao meu nome, faça a pergunta, a questão para a qual, dependendo da resposta, lhe guiará para duas diferentes opções.

Uma guia para o sim, outra para o não...

E o bilheteiro assim o fez.

-Você está com o frasco? – indagou, o olhar fixo em Flitwick.

Ipcs ficou estupefato.

-E-então Ted re-realmente passou p-por aqui? O que e-ele lhe d-disse rapaz?

-Vocês está com o frasco? – o jovem repetiu, ignorando a presença de Ipcs, concentrado no minúsculo professor de Feitiços.

-Não, não estamos com ele – respondeu Flitwick, confuso – ...mas as garotas...

Não havia explicações para um "mas"; sua negativa já despertava o bilheteiro a seguir o que lhe fora ordenado a fazer com quem não possuía o frasco...

-CUIDADO! – berrou Hermione.

Todos se jogaram no chão, a Maldição da Morte lançada pelo bilheteiro passando por cima de suas cabeças.

Mas estavam em território livre; se ele investisse mais uma vez...

Quando Mione ergueu o rosto, seu estômago despencou.

O rapaz continuava com a varinha e agora estava debruçado sobre a bancada da bilheteria.

Foi muito rápido, mas pareceu durar minutos na mente de Mione; ela teve tempo de registrar a expressão feroz do bilheteiro no momento em que seus lábios formavam o feitiço:

-Avada...

Nesse momento, os olhos horrorizados de Mione viram que a varinha do rapaz enfeitiçado agora apontava diretamente para o professor Ipcs.

Ela viu o horror espalhar-se pelo rosto do professor, o pai de Aaron Raccer, o homem que ajudara Mégan Huggins a usar a Magia do Aprisionamento para trazer o filho de volta e depois se arrependera. O homem bom que explicara a ela e as amigas a ligação sinistra que existia entre Kleiton e Ted.

-...Kedavra!

O rosto horrorizado do professor foi banhado em luz esverdeada, assim como o rosto dela e de todos os que ali estavam; o clarão era demasiado intenso... porém, era o resultado da maldição que foi disparada a partir da varinha do bilheteiro, mas contra ele mesmo, lançando-o de encontro à parede da barraca, de olhos vidrados, morto.

-A varinha... ele tinha virado para ele – ofegou Mione, apontando para o corpo do rapaz, enquanto olhava abismada para o professor Ipcs, cuja palidez demonstrava que ele pensara da mesma forma.

-Ipcs, vamos esconder o corpo. A festa não pode ser interrompida até solucionarmos o sequestro de Jennifer Star – orientou Flitwick.

Enquanto olhavam o corpo ser carregado até um poço e ser arremessado lá dentro, Alone comentou com as amigas:

-Ted está querendo ceifar as nossas vidas e as vidas de pessoas inocentes para nos angariar o peso da culpa.

-Festa cosplay, que nada, isso aí será a festa dos horrores – disse Serena, aturdida.


-Se perguntarem por Ted Bacon, ou ouvir qualquer menção a este nome, você questionará se a pessoa que fez a pergunta está com o frasco. Se a resposta for positiva, pegue o frasco e o traga a mim – é fácil reconhecê-lo, deve estar cheio de fumaça enegrecida; em caso negativo, se a pessoa estiver com as mãos abanando, quero que a ataque com a Maldição da Morte. Se falhar, lance a maldição contra você mesmo e aceite a morte de bom grado. Entendeu bem?

Oculto nas sombras, próximo ao palco da festa, Ted amaldiçoava mais um frequentador da festa, este com o corpo pintado de verde num cosplay bem elaborado de Hulk. Era o quinto a ser controlado por Ted através da Maldição Imperius; a todos eram transmitidas as mesmas orientações passadas ao bilheteiro.

-Agora aproveite a festa e divirta-se, afinal, esses podem ser os seus últimos momentos – aconselhou Ted, observando o jovem Hulk se afastar. Flexionou os dedos desajeitadamente, tomando o cuidado de manter Jennifer presa aos seus braços. – Isso está dando um trabalhão...

-Para mim também não está nada fácil – retrucou Jennifer, olhando-o por cima do ombro. – Fingir que estou satisfeita sentindo esse seu cheiro de defunto e o odor repugnante do seu hálito podre.

-Oh, isso incomoda a grande estrela? – debochou Ted, aproximando o corpo ainda mais, resvalando a intimidade nas coxas da garota. – Tem muita coisa viva aqui, e se não calar a boca eu faço você experimentar antes de libertá-la. Sempre quis ir pra cama com uma artista, descobrir se existem talentos ocultos que o grande público desconhece. Se me provocar, será posta à prova.

Jennifer sentiu a garganta seca e um aperto de medo engolfa-la.

-Aqui não temos visão da festa, portanto vamos esperar o sinal de um dos meus escravos. Eles nos avisarão quando as Encalhadas estiverem partindo para o local da negociação.


Lanísia e Augusto estavam dentro do celeiro vazio, com candeeiros iluminando parcialmente o local. Montes de fenos espalhavam-se pelo celeiro amplo; a um canto, barris cheios de bebidas ficavam agrupados; para não serem incomodados, Lanísia cruzou uma trava de madeira na porta.

Em seguida, dirigiu-se até a escada que levava ao patamar superior e colocou uma perna no segundo degrau da escada; a fenda do vestido vermelho ergueu-se, revelando a coxa grossa; dando um sorrisinho, ela usou a mão para que chegasse até a polpa do bumbum.

Colocando a franja vermelha diante de metade do rosto, olhou para Augusto e começou a cantarolar baixinho:

-You had plenty money, 1922…

-Ah, não vai fazer isso… - riu Augusto, sentando-se sobre um quadrado de feno para assistir.

-You let other women make a fool of you… - ela agachou-se e acariciou lentamente as próprias pernas. Em seguida, jogando os cabelos longos para trás, deslizou pela parede, um braço atrás da cabeça, o outro acariciando os seios. – Why don´t you do right, like some other men do?

-Oh, Jessica – murmurou Augusto, brincando.

Lanísia iniciou então um ritmo em que estirava bem cada perna antes de dar o próximo passo, mantendo o cabelão à la Jessica Rabbit escorrido sobre a face, o vermelho dos lábios misturando-se ao fogo dos longos fios. A voz era praticamente um sussurro enquanto prosseguia com a canção, que saía de seus lábios carnudos, entreabertos:

-Get out of here and get me some money too.

Ao chegar diante de Augusto, Lanísia estendeu a mão enluvada para ele; ele a tomou e ficou em pé, esperando o próximo passo.

-You're sittin' down and wonderin' what it's all about, You ain't got no money, they will put you out.

Sem delongas, Lanísia abriu a camisa azul de Augusto num único movimento, rompendo botões que rolaram pelo chão e perderam-se em meio ao feno.

As luvas roxas que lhe cobriam os braços quase até os ombros roçaram pelo peitoral de Augusto, descendo até o umbigo. Lanísia ergueu uma das mãos, propositalmente, até a boca dele, que primeiro beijou e depois prendeu a luva com os dentes, puxando-a. Lanísia sorriu, cantando:

-Why don't you do right, like some other men do? – deixou Augusto arrancar a luva e depois deu três tapinhas no rosto dele. -Get out of here and get me some money too – depois, fez uma pausa no espetáculo para perguntar. – Os cortes provocados por Ted ainda doem muito?

-Não, estou bem melhor.

-Ótimo – e com uma nova sacudidela nos cabelos, empurrou-o; Augusto caiu de costas sobre o monte de feno em que estivera sentado, a camisa, agora quase inteiramente sem botões, aberta. Lanísia curvou-se diante dele, as mãos apoiadas sobre os seus joelhos, de modo que os seios que naturalmente quase saltavam pelo vestido apertado e sem mangas ficaram com os contornos bem visíveis.

Augusto estendeu a mão para tocá-los; ela censurou-o com um tapa, sacudindo depois o dedo enluvado de um lado para o outro:

-If you had prepared twenty years ago, you wouldn't be a-wanderin' from door to door – ela tirou-lhe a camisa e depois abriu a braguilha da calça branca. Em seguida ficou de costas para ele, o cabelo cascateando pela pele nua que a abertura do longo vermelho revelava. O formato do bumbum estava bem delineado; Augusto sentiu a excitação aumentar, enquanto tirava a calça e a cueca de uma só vez. -Why don't you do right, like some other men do? – balançando os quadris, Lanísia enfiou a mão por baixo do vestido; a calcinha fio-dental caiu entre suas pernas; ela chutou-a para longe com um dos sapatos de salto alto. - Get out of here and get me some money too.

E assim, de vestido e tudo, passou os braços em torno do pescoço de Augusto e abriu bem as pernas; ele beijou-lhe um dos joelhos, sentindo o cheiro da pele; Lanísia agachou-se de encontro ao membro ereto do seu eterno professor, que o guindou em direção ao quadril que descia em sua direção. Ela o deixou deslizar inteiro para dentro dela; o cabelo cobria um dos olhos sombreados com a cor roxa, mas o outro, toldado por intensos cílios postiços, não deixava o rosto de Augusto em nenhum momento; Lanísia começou a subir e descer, arrancando a outra luva com um movimento fluido.

Augusto avançou para o decote, descendo o vestido e libertando os seios, que pularam para fora. Ele envolveu-os com a mão, depois deixou-os livres, para contemplar os movimentos ritmados que os fazia estremecer.

Lanísia parou de gemer e, ofegante, rebolou com o membro dele inteiro dentro dela. Beijando-a de maneira sôfrega, Augusto ergueu-a e colocou-lhe um dedo em meio ao bumbum. Lanísia ofegou; Augusto tirou, depois chupou o dedo e enfiou novamente.

-Abra mais as pernas pra mim, minha querida.

Lanísia assim o fez; Augusto então colocou o membro em seu traseiro e arrancou gritos profundos da garota, entrando e saindo sem parar, olhando bem para a face dela, os cabelos ruivos que se espalhavam desordenadamente enquanto ela balançava a cabeça de um lado para o outro.

Passaram em seguida para o chão, onde ele a deitou carinhosamente sobre um monte de feno, de lado e, postando-se atrás, continuou a invadi-la pelo bumbum volumoso e provocante. Com os dedos a masturbava, sentindo a umidade aumentar, beijando-lhe, vez ou outra, o pescoço, os ombros, as orelhas.

Terminou com ela de frente para ele, com as pernas longas cruzadas sobre suas costas, roçando o salto alto do sapato que ainda usava na pele suada de Augusto, cujos cabelos molhados e cheios respingavam em seu rosto, misturando-se ao suor que o corpo dela própria emitia. Ela atingiu o clímax vibrante por três vezes; a última foi ali, no chão, inteiramente aberta para o seu homem, os corpos embolados sobre o feno, o teto cheio de vigas do estábulo bem acima, mas, em destaque, o rosto tão amado de Augusto, o prazer expresso em cada linha do rosto, em cada gota de suor, em cada respiração que vinha do fundo da garganta, que escapava pelo nariz e pelos lábios.

Para Augusto era um momento surpreendente; ali não havia vestígio da fase transitória entre garota e mulher que acompanhara Lanísia desde que ela passara de aluna à tentação; tinha ali uma mulher feita, fêmea, exalando sexualidade e maturidade; não havia vestígio de juventude nas pernas que o prendiam, no pé que estava oculto pelo salto agulha, na gota de suor que desaparecia entre os seios mais belos que ele já vira na vida. Era tudo pleno de desenvolvimento, sem mais necessidade de um desabrochar. Todo o corpo de Lanísia abria-se para ele, dava-se por inteiro; tudo isso aliado ao vestido longo e apertado, ao olhar delineado pela sombra roxa, os cílios alongados, a maneira com que ela gritava para que ele não parasse de arremeter, tudo contribuía para aumentar a sensação de que a ninfeta deixara aquele corpo para dar lugar à mulher.

Ele desceu o rosto, lambeu o suor que se insinuava entre os seios, e seu rosto ali ficou, enquanto a abraçava bem apertado e derramava-se em gozo dentro dela, numa sensação que fez com que Augusto revirasse os olhos, tamanha a intensidade.

Queria ficar ali para sempre, abraçado a ela, sendo um só. Mas Lanísia afastou-o, virou-o de frente e, com os seios a balançar diante do corpo e o vestido erguido revelando a virilha, aproximou-se dele.

Augusto abriu um sorriso. Esse sorriso morreu numa exclamação prazerosa de surpresa quando sentiu a boca pintada de vermelho-vivo de Lanísia abocanhar-lhe a intimidade, sem palavra, enquanto passava a mão pelo corpo dele.

Ele encolheu os dedos dos pés, maravilhado, dando tapinhas no bumbum da jovem.

Aquele ambiente rústico colaborava para pôr todos os instintos para fora; não havia o papel de professor e aluna, vice-diretor e aluna, não mais; mesmo que Lanísia estivesse fantasiada, ele via, por baixo do cabelo pintado e dos adornos, a mulher com quem desejava dividir a cama pelo resto da vida.


Ao entrarem na festa, Hermione, Serena, Joyce e Alone ficaram admiradas com a decoração. Abaixo da tenda colorida que cobria todo o ambiente, foram espalhados balões brancos que reproduziam as falas de personagens de histórias em quadrinhos; os balões arredondados traziam as costumeiras reproduções de sons: "ZZZZZZ", lia-se em um deles; "HUNF!", estava estampado em outro, o típico som do desdém; "POF!", a reprodução de um tombo. Em um balão, as letras garrafais "AHHHH", um grito representado graficamente; esses inúmeros balões flutuavam magicamente sobre os convidados, vez ou outra descendo até o meio da multidão.

Serena puxou a varinha e, com a ponta chamuscada, tocou-a em um balão que trazia um "RONC!"; o balão de fala estourou, deixando para trás um ronco alto e prolongado.

-Podemos ouvir o que está escrito em cada balão, que incrível! – exclamou a garota, espetando outro balão em que se lia "BUÁÁÁ".

Um choro alto e desesperado sobrepôs-se à música; os convidados que estavam por perto levaram os dedos aos ouvidos, divertindo-se com a balbúrdia.

-É como se estivéssemos dentro de um gibi – disse Hermione. – Adorei!

-O que faremos agora? – perguntou Alone.

-Não temos outra opção a não ser esperar que o Ted ou um de seus "enviados" venha até nós – respondeu Joyce. – Enquanto isso não acontece...

-Vamos curtir a festa – completou Serena, atraindo com um feitiço convocatório uma taça de hidromel da mesa de bebidas. No interior da taça, um canudo esverdeado terminava num cata-vento, que girava sem parar.

-Mas vocês vão acabar perdendo o foco – observou Adam. – Existe um assassino à solta com uma cantora como refém. Não podemos ficar aqui como se nada estivesse acontecendo!

-Se quiser um pouco de ação, o Robin aqui providencia – ofereceu-se Harry.

-Entre ficar aqui de braços cruzados e divertir-se, eu fico com a diversão – replicou Joyce, a líder, falando por todas as Encalhadas. – Relaxe e aproveite, Adam. Seu bumbum está muito tenso, flexionado – ela disse, dando uma espiadela. – Conheço uma ótima forma de relaxamento para Super-Homem nenhum botar defeito, caso queira experimentar...

-Joyce, mais respeito, eu estou aqui! – disse Juca, manifestando-se.

-É, Juquinha, mas não deveria! Acho que seria muito proveitoso você fazer as vezes de Wally e dar um perdido aí na festa!

-Acha? – Juca perguntou, incerto.

-Claro! Faça jus à sua fantasia, esconda-se bem e depois eu tentarei encontrá-lo! Quando conseguir, prometo, vou lhe cobrir de beijos formados com beicinhos apertados de Betty Boop – ela encolheu-se toda e mandou um beijinho para o marido.

-Ei, vejam só, demoraram tanto para encontrar o "Wally" que ele cortou os pulsos – comentou um garoto que passava, fantasiado de Coringa, apontando para as ataduras que cobriam os pulsos de Juca.

Os convidados ao redor prorromperam em gargalhadas.

Joyce chorou de tanto rir.

-Cortou os pulsos... de tanto que procuraram... ai, vou morrer de rir hoje... – notando a insatisfação do marido, Joyce parou de rir e pigarreou, secando as lágrimas. – É, não tem graça mesmo, Juquinha, foi mal. Mas, voltando... Não quer brincar comigo? Vou lhe premiar com muito carinho depois.

-É, gostei dessa brincadeira de esconder, Joyce!

-Não é o máximo?

-Mas não pode olhar enquanto eu me escondo, não trapaceie!

-Pode ficar tranquilo, tem coisa muito interessante pra me entreter por aqui – ela olhou para Adam, interessada. – Enquanto o Wally se esconde, que tal brincarmos de "onde está a bilonga?". Upa... – ela apalpou-o. – Já achei!

-Ei, vamos tirando a mão! – disse Adam, recuando. – Essa Encalhada não é casada com aquele cara...? – ele apontou para Juca.

-Ela é casada, Adam, mas tem um fogo que o casamento não conseguiu dominar! – ralhou Alone, olhando feio para a amiga.

-Não devia ter se casado então – comentou o rapaz.

-Eu amo o Juca, tá legal? Só... Sinto saudade de variar de vez em quando...

-Podiam ter uma relação aberta – sugeriu Adam, pegando um copo de cerveja amanteigada da bandeja de uma garçonete.

-Adam, me explique, em detalhes, o que é um relacionamento aberto? Por que o meu é fechado? – perguntou Joyce cheia de interesse.

-Porque você está restrita ao contato íntimo com o seu marido. Na relação aberta, vale tudo: vocês continuam casados, mas a fidelidade termina no amor que devotam um ao outro. Quanto ao sexo, podem transar à vontade com quantos homens e mulheres quiserem, até mesmo compartilhar os relatos das relações extraconjugais.

-Como é que ninguém me falou a respeito disso? – perguntou Joyce, revoltada, olhando para as amigas. – Tô arreganhando o meu relacionamento agora mesmo!

-Um detalhe: esse relacionamento, pra dar certo, precisa ser isento de ciúme e colocar as duas partes envolvidas em liberdade de caça. Você pode pegar quantos homens quiser, mas o Juca também tem todo o direito de atacar a mulherada.

-Juca não tem potencial pra isso – Joyce riu. – Só eu capto o sex appeal do meu Juquinha.

-É bom que esteja certa, porque eu acho que você ficaria com ciúmes – disse Hermione.

-Ah, querida, com um Thor daqueles... – apontou para um rapaz que passava. – Ou aquele Demolidor ali provando que é "o homem sem medo" em cima de mim, eu nem ligo! Juca pode pegar qualquer biscate, também sairei no lucro!

-Então terá que convencê-lo a aceitar essa relação aberta – disse Mione. – Juca quase não casou com você por ciúmes de seu passado depravado.

-Mas ele é homem, que homem não gostaria de continuar aprontando depois do casamento? Vou fazer com que Juca perceba as vantagens da relação aberta. Assim, quando estiver em Hogwarts, faço o Axel Carver meter o microfone em mim e realizar um show incrível na minha "amiguinha"! Uhuuu! – ela comemorou; percebendo que o Professor Ipcs tinha se aproximado e a olhava assustado, Joyce avisou. – Não é nada do que o professor possa estar pensando!

-E eu sou uma mulher casada agora e nem posso ter um relacionamento aberto – disse Serena, erguendo o dedo em que o Anel do Vínculo Eterno brilhava.

Ipcs pegou o dedo de Serena e observou o anel com atenção.

-E-esse é um a-anel do...

-"Anel do Sofrimento Eterno", é esse mesmo, professor... – disse Serena.

-E-esses anéis são ve-verdadeiras p-provas de a-a-amor – disse o Professor Ipcs. – O m-meu filho Aaron co-compartilha o mesmo a-anel com a mãe. Am-ambos são p-p-prateados e têm o desenho de u-uma fênix... Já vi-viram o a-anel do Aaron?

-Sim – confirmou Hermione.

-Se bobear, a Mione aqui já viu os dois anéis dele, o do dedo e o do traseiro – riu-se Joyce, que recebeu um olhar venenoso da amiga.

-Mas esse Anel do Vínculo Eterno é horrível, professor – disse Serena. – Eu não tenho como arrancá-lo e não posso tocar em homem nenhum que não seja o Draco. Isso não é justo com uma mulher casada!

-É, a m-magia existente no a-a-anel de Aaron não causa nenhum tipo de bloqueio co-como este, mas ele ta-também não pode tirá-lo do de-dedo. É u-u-uma prova de amor, um m-memorial permanente à me-memória da mãe.

Mione perdeu o fôlego. De repente lhe ocorreu que, de fato, jamais vira Aaron sem o anel.

-Como é que é, professor? Aaron não pode tirar o anel, em circunstância alguma?

-Nunca. É um a-anel mágico. Es-está atrelado ao co-corpo dele p-para sempre, da mesma f-forma que o de Se-Serena. E-eu também tenho u-um anel mágico.

-Não estou vendo nenhum no seu dedo – observou Alone.

-V-vou mostrá-lo, só um s-s-segundo... – Ipcs ficou de costas e, quando se voltou para as garotas, estava com o membro pendente entre as pernas.

-Ai, professor! – protestou Mione, escondendo o rosto ruborizado.

-Um anel peniano! – disse, indicando o anel que circundava a base do órgão. – N-n-nunca consigo tirá-lo. Quando fico d-duro ele aumenta a pressão em volta da b-b-bilonga e prolonga o prazer. Que-querem uma demonstração?

-Não! – disseram Mione, Alone e Serena.

-Eu quero – falou Joyce, olhando com interesse para o anel prateado, já estendo a mão para apalpá-lo.

-Agora não! – Mione interrompeu-a. – Esconda isso, professor Ipcs, daqui a pouco seremos expulsos da festa!

O professor sorriu, constrangido, e ergueu a calça.

-Onde se consegue um pinto desses? – indagou Harry, olhando interessado para o professor Ipcs.

-Onde se consegue um anel desses? – perguntou Flitwick, interessado. – Queria pôr no meu, achei elegante.

-Oh, professor Flitwick, no seu caso nem seria preciso um anel peniano. É só pegar um anel comum para dedos mesmo, com certeza vai se acomodar muito bem no seu pintinho! – Joyce intrometeu-se, oferecendo um sorriso simpático.

Flitwick olhou para a própria virilha, deprimido, e, revoltado, estourou um balão com símbolos diversos; um crânio, uma bomba e um punho fechado. A voz que saiu do balão pronunciou três palavrões.

-Eu... preciso de ar... – Mione abanou-se, caminhando trôpega para a mesa de bebidas.

-Não fui eu – disse Harry, escondendo o traseiro com as mãos, cheio de dignidade. – A costura no meu bumbum continua inteira, podem olhar!

Tapando o nariz, desconfiada pela aproximação de algum suposto odor incômodo, Joyce seguiu as amigas até a mesa de bebidas, onde Alone e Serena já cercavam Mione, e perguntou à amiga:

-Qual é o problema? Ficou pálida de repente! Foi o choque de olhar para o anel peniano do professor Ipcs? – antes que Mione pudesse responder, Joyce continuou. – Já sei, olhou a bilonga dele e percebeu o quanto é parecida com a do Aaron? Passei por isso, sei que acontece esse déjà vu ao olhar para pais e filhos pelados.

-Não, não foi isso... Mas, agora que você falou, tem certa semelhança mesmo, embora para comparar com exatidão com o que eu lembro da bilonga do Aaron o anel peniano do professor precisaria estar bem apertado.

-Mione, vai dizer ou não por que estava precisando de ar mesmo já estando ao ar livre? – indagou Alone.

-Ah, ok: meninas, Aaron não pode arrancar o anel de fênix e a Marjorie deixou bem claro para a Lanísia que foi ele quem tomou a Poção Polissuco para transformar-se em Augusto e fingir que a violentava.

-Tá, mas e daí? – indagou Alone.

-Isso significa que Aaron se transformou em Augusto e continuou com o anel preso no dedo! Se esse anel apareceu nas fotografias, pode ser o pequeno detalhe que precisávamos para incriminar Aaron e o grupo da Marjorie e, em consequência, inocentar o professor Augusto das acusações de estupro!

-Assim meu pai não irá mais para Azkaban! – exclamou Joyce, esperançosa. – Ah, meninas, precisamos pôr as mãos nessas fotos! Onde será que elas estão?

-Provavelmente no Ministério da Magia, para servir como provas de acusação na audiência que será realizada após capturarem o professor Augusto – respondeu Alone.

-Não tem como analisá-las através do Profeta Diário?

-Não, Serena, eles não publicaram as imagens – respondeu Joyce. – Uma foto daquelas só sairia no Profeta Sacana.

-Existe esse jornal? – indagou Serena, interessada. – Preciso assiná-lo!

-Não existe, mas seria uma ideia interessante, mané – disse Alone. – De que jeito vamos conseguir analisar as fotos?

-Precisamos pensar em alguma coisa e rápido – disse Mione. – Ei, parece que vão anunciar alguma coisa ali no palco! – a garota apontou.

Uma bruxa fantasiada de Mulher-Maravilha subiu ao palco, apontou a varinha para a garganta e, como resultado do feitiço Sonorus, sua voz retumbou por todos os cantos da festa:

-No meio da diversão, a competição! Os juízes já estão atentos para votarem na melhor fantasia da noite, espalhados em diferentes pontos do salão. Boa sorte a todos, lembrando que o vencedor tem direito a cinquenta galeões e ao prêmio mais importante... – ela ergueu uma taça cheia de líquido amarelo-dourado.

-Urina? – indagou Serena.

-Não seja estúpida – replicou Joyce. – Qual seria a vantagem de ganhar xixi?

-Isso não é urina – retorquiu Hermione. – É Sorte Líquida.

-Então é cerveja amanteigada? – indagou Serena.

-Não, uma poção! Felix Felicis.

A bruxa no palco prosseguiu, confirmando as palavras de Hermione:

-Uma enorme quantidade de Felix Felicis! A Poção da Sorte que garante a quem tomá-la efeitos tão incríveis que farão aqueles que estão vestidos como super-heróis experimentarem momentos superpoderosos!

No canto escuro perto do palco, Jennifer olhou para o rosto de Ted e percebeu o brilho da cobiça em seu rosto.

-Superpoderes... Claro! Tomarei as decisões mais sensatas, saberei como agir, como enfrentar as Encalhadas sem cair em suas armadilhas... Com essa poção, não vou cometer erros, serei invencível. Tem dose suficiente para manter o frasco comigo até a noite em que o ciclo lunar se encerra, sem empecilhos. E, se porventura os obstáculos surgirem... Ah, vou tirar de letra... Eu preciso pôr as mãos nessa Felix Felicis. Viu só, grande estrela?

-A poção só será sua se ganhar o concurso de melhor fantasia.

-Não tenho tempo para esperar essas frescuras. Vou pegar antes disso... – e, pressionando o punhal nas costas dela, obrigou-a a acompanhá-lo em direção ao palco.

-Não vai conseguir pôr as mãos na poção – retrucou Jennifer, ousada.

-Essa poção é tão rara, e uma dose assim aparece num momento tão oportuno... Ah! Não me deseje o mal, estrelinha, quando a sorte já abre as pernas para mim como uma vagabunda antes mesmo de conseguir a poção... – ele riu, enrouquecido.

Jennifer chegou a parar, firmando os passos nos degraus que levavam à câmara ao lado do palco, mas a lâmina do punhal atravessou o tecido da blusa e ela sentiu o aço frio tocando a pele das costas; a ameaça silenciosa colocou-a em movimento outra vez.

A bruxa fantasiada de Mulher-Maravilha depositava a taça de Felix Felicis sobre um banquinho, colocando-a lado de um troféu banhado a ouro. Olhou revoltada para o casal que invadia os bastidores.

-Ei, não podem entrar aqui! – ralhou.

-Ela não é uma qualquer – respondeu Ted, erguendo o rosto de Jennifer. – Olhe bem.

A bruxa soltou um gritinho esganiçado.

-Uau! Jennifer Star, aqui, na nossa festa! Me dá um autógrafo?

-Autógrafos não interessam mais para você – disse Ted, sacando a varinha; a fã entusiasmada não teve qualquer reação. – Avada Kedavra!

A bruxa caiu, sem vida, aos pés de Jennifer, que berrou horrorizada.

Eles ouviram sons de passos nas tábuas, bruxos que tinham escutado o grito ou visto o raio de luz esverdeada. Por esse motivo, Ted empurrou Jennifer, largando-a no chão, correu até a taça, agarrou-a, bebeu um gole da poção cintilante e depois a guardou na capa.

No mesmo momento, ele sentiu-se revestido de poderes especiais. O poder de manipular as forças do destino a seu favor; tudo, finalmente, daria certo.

Algo o incitou a lançar um feitiço estuporante à direita, e assim ele o fez; acabou estuporando Jennifer, que caiu de cara no chão – tentava fugir, ele não sabia, nem tinha percebido, mas o dom especial da sorte, instituído pela poção, dera a dica correta!

Da mesma forma, ele agachou-se atrás do banquinho um segundo antes de os feitiços dos três bruxos que vinham em socorro da "Mulher-Maravilha" cortarem o ar, e pôde, assim, alvejá-los facilmente, colocando-os fora de ação.

Ele aproximou-se de Jennifer, despertou-a com um "Enervate!" e arrastou-a consigo. Queria chegar ao sistema de som da festa; algo também lhe dizia que era suficiente para fazer seu aviso chegar às garotas; economizaria tempo; seria o ideal.

Seus pés o guiaram até onde ele queria chegar, seus dedos praticamente brincaram no intrincado sistema de som que, a um leigo, seria confuso e quase indecifrável; e então ele estava pronto para espalhar sua voz cavernosa para todos que estavam na festa, sua voz deteriorada, deterioração que nesse momento (veja só!) parecia ideal.

Dava o tom perturbador necessário à voz de quem, naquela noite, podia tudo.


-Nem sinal do Ted – disse Alone, desapontada, olhando ao redor.

A música parou. Inúmeras reclamações espalharam-se pela plateia. Então, a voz de Ted saiu das caixas de som:

-A primeira dose de Felix Felicis acaba de ser ofertada... a mim. Muitos não reconhecerão a minha voz, mas existe um grupo de garotas, chamado de As Encalhadas, que está entre nós e conhece muito bem. Aliás, devo a essas garotas o meu tom de voz característico e todos os agouros que atormentaram a minha vida nos últimos tempos.

Elas se entreolharam. Ipcs e Flitwick avançaram entre as pessoas, tentando se aproximar do palco onde, supunham, Ted se encontrava escondido nos bastidores.

-Mas até o azar da pessoa que só colheu desventuras pode mudar com essa poção, que agora está espalhada em meu corpo, guiando-me para a vitória. Entendam, meninas, vocês não têm como me enganar ou tentar me vencer. Eu simplesmente serei atraído para o frasco, para o meu objetivo, o alvo de minha ganância, porque é assim que a banda toca a partir de agora. Eu encontrei meu gênio da lâmpada, engarrafado em líquido. Nem tentem escapar, ou me ludibriar, pois eu sempre estarei um passo à frente. Chegamos à noite da justiça, a noite da minha vitória.

Houve um ruído de estática antes que a música voltasse a soar e as pessoas, lentamente, voltassem a dançar, sem entender o significado daquele recado.

-Como vencemos alguém que usou Felix Felicis? – perguntou Joyce.

-Não vencemos... – disse Hermione.

Elas ouviram dois fortes estampidos que geraram comoção em todos os presentes. Dois holofotes acabavam de explodir, caindo de extremidades opostas do palco após serem atingidos por feitiços.

Com precisão milimétrica, os holofotes atingiram os professores Flitwick e Ipcs, que tombaram de lado, desacordados, desaparecendo em meio a nuvens de faíscas.

Sem visão alguma dos seus inimigos, seguindo a mágica intuição da sorte, Ted acertara os alvos.

À Hermione (que sentia Serena apertar-lhe o braço em meio ao pânico; que via Alone retirar a máscara de Mulher-Gato com os olhos fixos nas faíscas que ainda espocavam; que percebia as linhas de tensão abaixo dos caracóis rígidos do cabelo de Joyce) só restou completar a desalentadora afirmação:

-...Nós perdemos.


Ao chegar ao saguão de entrada desacompanhado, Rony atraiu a atenção de Aaron Raccer, que estranhou a ausência de Marjorie ao seu lado. Para descobrir onde a líder do Nêmeses estava, Aaron se aproximou do goleiro da Grifinória com uma pergunta discreta:

-Acho que querem tirar novas fotos para o anuário, Weasley, precisa estar com a sua namorada em instantes no Salão Principal – Aaron olhou para o lado de Rony, como se buscasse a dama que deveria estar agarrada ao braço dele.

-Mais? Já tiramos tantas fotos!

-Não ao lado do corpo docente. Cadê a Marjorie?

-Ela... Bom... Na verdade, Marjorie não está nada bem. Eu... Eu estava realmente procurando ajuda para levá-la até o dormitório. Ela simplesmente apagou no caminho para a sala comunal da Lufa-Lufa depois de tomar uma dose de uma vodca especial fabricada pelo Lorenzo´s.

-Ela está adormecida em pleno corredor? – indagou Aaron, visivelmente perturbado.

-Sim... Você pode me ajudar?

Eles então foram até o corredor rodeado por pinturas e encontraram Marjorie no mesmo lugar. Carregaram-na até o dormitório e deitaram-na na cama.

-A cama dela é essa aqui, mais próxima da parede – avisou Aaron assim que passaram pela porta do quarto.

-Já visitou esse quarto antes? – indagou Rony.

-Pois é... Eu sou amigo da Marjorie... – e, querendo evitar detalhes, emendou. – Cuidado com a cabeça dela, Weasley, vai bater na cômoda! Isso... Com cuidado...

Eles aconchegaram Marjorie nos travesseiros. Apesar de todo o movimento, a garota sequer se mexia. Aaron mexeu nos olhos dela e deu beliscões em seus braços para tentar despertá-la; a ausência de reações só aumentava a sua desconfiança.

-Esse sono pesado não é comum. Só pode ter sido induzido por Poção do Sono – ele falou, olhando de modo acusador para Rony.

-Por que está olhando pra mim? Acha que me cansei das fotografias e sorrisos forçados do baile e resolvi colocar a minha namorada pra dormir mais cedo?

-A poção devia estar misturada com a bebida.

-Pode ser, mas não fui eu quem misturou – mentiu Rony, olhando para a janela.

O que viu ali o deixou encucado. O vidro ficara embaçado subitamente.

-O que está acontecendo ali fora? – indagou Rony, aproximando-se da vidraça.

-Deve ser a neblina batendo contra as vidraças – sugeriu Aaron em tom mal-humorado.

Ainda assim, Rony permaneceu intrigado ao perceber que a condensação desaparecia, deixando o vidro incólume, e em seguida embaçava a superfície novamente. Que estranho fenômeno seria este?

Estava estendendo a mão para o fecho da vidraça quando o reflexo de um casal surgiu no vidro. Um rapaz alto e moreno, de profundos olhos negros, olhou diretamente para ele, enquanto as mãos muito brancas desciam pelas costas da garota, envolvendo-lhe a cintura, apalpando-lhe o bumbum.

Rony olhou para trás, como se esperasse ver o casal ali dentro, mas o quarto permanecia ocupado apenas por ele, Aaron e Marjorie. Embora o dormitório estivesse localizado no térreo, ele sabia que o casal não estava lá fora; os contornos difusos deixavam claro que eles existiam apenas dentro do espelho.

Enquanto tentava entender como aquilo era possível, a garota emitiu um gritinho prazeroso e disse um nome:

-Kleiton...

O rosto dela ficou em perfil quando se esticou para morder o lábio do desconhecido. A ira cresceu dentro de Rony.

-Hermione! – confuso, ele abriu a janela, recebendo no rosto um sopro da brisa que, à distância, sacudia as copas das árvores na Floresta Proibida. Conforme previra, o casal não estava ali fora.

Rony recuou para o dormitório e viu os dois novamente, no espelho; a calcinha de Mione já se insinuava, e o estranho pôs os dedos dentro das jeans que a garota usava.

-Eu não... Não posso entender uma coisa dessas, isso... Isso não pode ser real, não pode...

-Ela disse "Kleiton", não foi? – indagou Aaron.

-Foi... – Rony parou, apontando um dedo para Aaron. – Você sabe quem é esse cara, não sabe?

-Eu... – Aaron olhou temeroso para Marjorie, que continuava dormindo. – Na verdade eu...

Rony atravessou o quarto, segurando-o firmemente pelo paletó, confrontando-o contra a parede.

-Desembucha, pode falar tudo o que sabe a respeito disso. Quem é esse Kleiton?

-Cara, eu sei que você me odeia por ter ficado com a Mione enquanto namoravam, mas acredite em mim, eu não faço a menor ideia de quem é Kleiton Huggins...

-Oh, agora ele tem sobrenome também? – Rony ergueu o punho. – Sei que você deve estar menosprezando os estragos que posso provocar, mas antes que consiga se defender já terei aberto o seu nariz! Você não gosta da Hermione?

-Eu amo a Mione.

-Então não ia querer que ela corresse riscos. Ela está correndo perigo agora, Aaron?

Lançando mais um olhar assombrado para Marjorie, Aaron assentiu, de olhos fechados e com os lábios apertados, como se confirmar aquilo exigisse dele um esforço absurdo. Ainda assim, ele prosseguiu antes que Rony fizesse a próxima pergunta:

-Kleiton foi alvo de uma maldição que o aprisionou em um espelho. Agora ele está mais forte e consegue se locomover dentro de superfícies envidraçadas. Embora não possa sair, ele pode puxar pessoas para o mundo dele, o Mundo dos Espelhos.

-Então o espelho funciona apenas como uma janela e Hermione está mesmo ali com ele?

-Sim – Aaron esfregava o pescoço, aliviado por livrar-se do aperto de Rony. – Para você, essa cena deve ter o peso de uma traição dupla. Deve irritá-lo mais do que o flagrar a Mione dando para os dois batedores.

-Traição dupla?

-Pois é. Sua ex está quase chegando aos "finalmentes" com o seu atual cunhadinho.

Rony perdeu o fôlego.

-Esse Kleiton... meu cunhado?

-Ele é irmão da Marjorie.

-Ela não chegou a me falar sobre o irmão... Ele é perigoso?

-Que tipo de membro da família nós tentamos jogar para baixo do tapete, Weasley? Kleiton não é exatamente o rebento do qual a família se orgulhe. Mas não é uma ameaça para Hermione. Ela parece estar se divertindo muito com ele. Tanto quanto se divertiu comigo, com os batedores, com tantos outros homens, tudo nas suas costas...

-Vou até lá socorrê-la – disse Rony, puxando a varinha do cós da calça. – Tenho que atravessar para o Mundo dos Espelhos.

-Acha que Kleiton vai deixar você entrar lá enquanto está comendo a Hermione? Eu já fiz isso, cara, e sei o quanto ela faz gostoso, não conseguimos lembrar de mais nada quando estamos dentro dela. Você, mais do que ninguém, deveria saber disso.

-Diga uma coisa, Aaron – murmurou Rony, ignorando a provocação – você que parece tão bem informado sobre a vida familiar de Marjorie: ela e o irmão são muito ligados?

-Por que quer saber?

Rony deu um risinho debochado.

-Se vai dificultar as coisas, acho que teremos que descobrir na prática o nível do laço fraternal entre Marjorie e Kleiton.

-Teremos?

Aaron mal teve tempo de terminar a pergunta; uma imensa corda saiu da ponta da varinha de Rony, entrelaçando-se aos seus pulsos e prendendo seus braços.

-Pra que isso, Weasley? Está de brincadeira?

Rony olhou para Marjorie, que continuava adormecida. Apontando a varinha para a ponta da corda, fez com que ela levitasse até a cama, parecendo por um momento uma serpente que preparava o bote contra a garota que dormia. A corda fez movimentos sinuosos, conforme o balançar da varinha de Rony, e atou os pulsos de Marjorie num nó apertado. Aaron estava em um dos extremos da corda e Marjorie no outro. Rony, então, fez com que o espelho de pé no canto do quarto se erguesse no ar e lentamente, pousasse no chão ao lado da cama, com o vidro voltado para cima, exibindo em seu reflexo o teto do dormitório da Lufa-Lufa.

-Ainda não entendi o que pretende com tudo isso, Weasley – disse Aaron, assustado.

Rony voltou a guardar a varinha no cós da calça social e, postando-se ao lado cama, agachou-se sobre os lençóis e agarrou a namorada. Arrastou Marjorie, segurando-a pelos braços, ofegando com o esforço. Tirou-a da cama e deixou-a próxima ao espelho, mantendo-a segura pelos braços, a cabeça adormecida pendendo sobre o pescoço.

Agachado ao lado dela, Rony espiou o interior do espelho, mais do que nunca semelhante a um buraco envidraçado que se abria no chão, ameaçando sugá-los para dentro dele. Não havia vestígio de Kleiton ou Hermione. Rony fechou a mão e deu duas pancadinhas de leve no vidro; estava sólido.

Ele segurou um pedaço da corda, que ficou preso em seus dedos. Segurou a cabeça molenga de Marjorie pelos cabelos, na altura da nuca, e olhou para Aaron.

-Veremos se Kleiton ama mesmo a irmã. É hora de medir o nível desse amor fraternal.

Aaron entendeu o que ele pretendia fazer; não, o que Rony ia fazer, porque não havia vestígio de medo em seu rosto. Ele estava decidido a desafiar Kleiton Huggins. Amarrara Aaron e Marjorie e prendera os dedos na mesma corda para que os três atravessassem, juntos, para o Mundo dos Espelhos. Quando Kleiton abrisse o portal para Marjorie, também abriria para os dois. Porque Rony ia arremessar o rosto de Marjorie contra o espelho.

-Rony, se Kleiton não abrir o portal, você vai estourar o rosto da Marjorie no vidro! Não faça isso... Ela vai se machucar feio!

-Kleiton irá se preocupar com isso? É o que vamos descobrir...

Rony puxou a cabeça de Marjorie para trás e, tomando impulso, urrou e arremessou-a de encontro ao vidro.

Aaron gritou.

Rony fechou os olhos, esperando o ruído do impacto do rosto de Marjorie contra o espelho.

Mas o impacto, na verdade, veio em suas pernas, que se dobraram como se ele tivesse saltado de uma grande altura. Ouviu baques idênticos vindos dos dois lados.

Abriu os olhos. Aaron estava caído a uns dois metros, tentando massagear os tornozelos com as mãos amarradas; Marjorie estava mais próxima, dormindo a sono solto, ignorando que havia acabado de cair no Mundo dos Espelhos.

Sim, estavam nele; Rony não tinha a menor dúvida. Os contornos das superfícies eram difusos, opacos; via as lombadas dos livros arrumados sobre a penteadeira e teve dificuldade em ler os títulos, uma vez que todos estavam com as letras ao contrário. Estava dentro de um reflexo do mundo real.

-Incrível...

-Incrível é a forma como você trata as próprias namoradas, Weasley – comentou Aaron, tremendo. – Eu tenho medo de você, cara! Agora tá explicado porque a Mione sentiu tanta necessidade de sair aprontando por aí.

-Não enche, Aaron – respondeu Rony, soltando a corda e avançando para desamarrar os pulsos do garoto. – Quer salvar a Hermione ou não?

-Quero, mas não precisa machucar ou deformar um de nós para que isso aconteça.

-Não me arrependeria nem um pouco... – pareceu que continuaria a falar, mas, lembrando-se da presença de Aaron, parou.

-Não é de seu feitio agir dessa maneira – disse Aaron, observando Rony com atenção. – Por que não parece ter dó alguma da Marjorie, sendo que começaram a namorar há poucos dias? – Aaron estava mais pensando alto do que perguntando, e, realmente, Rony não o respondeu; apenas olhou-o com o rabo do olho e depois seguiu para Marjorie e a desamarrou.

-Eu sabia que Kleiton não ia machucar a irmã.

-Uma ova! Não podia ter certeza a respeito disso! Não sabe nada sobre ele. Até eu tinha minhas dúvidas!

-Tenho vários irmãos, sei bem como nos preocupamos com eles em situações extremas...

-Conta outra, Rony! Você colocou a sua namorada em risco. O seu amor pela Mione é maior que aquele que sente pela Marjorie?

-Eu estava confiante de que meu plano ia funcionar, apenas isso. Veja, minha namorada continua bonita... apenas com o mesmo corte cicatrizado no rosto – havia um tom debochado em suas palavras que não passou despercebido por Aaron. – Tudo deu certo, por que ficar com questionamentos sobre o que poderia ter dado errado? Vamos, temos que encontrar a Hermione.

-Vamos deixar a Marjorie sozinha nessa sala comunal invertida? – perguntou Aaron.

Rony percebeu que rumava em direção ao que, no mundo real, ficava a porta do dormitório; deu meia-volta ao deparar-se com as janelas e, entontecido, olhou para a porta, agora localizada no lado oposto.

-Kleiton já demonstrou que não fará mal a ela. Nós é que estamos em perigo... Você vem comigo ou não?

Aaron confirmou:

-Esse mundo fora dos eixos me dá dor de cabeça, mas, pelo bem da Hermione, tô dentro!


-Não... Eu me recuso a aceitar a nossa derrota – falou Alone, enquanto era consolada por Harry e Adam, que davam docinhos na boca da "Mulher-Gato" Encalhada.

-Mas a nossa intenção, no fim das contas, não era a mesma do Ted? – indagou Serena. – Manter o frasco fechado?

-Ele não vai se conter apenas com o frasco, esse é o problema – respondeu Mione. – E com a sorte ao lado dele, qualquer tentativa de nos matar ou ferrar com as nossas vidas será bem sucedida!

-Precisamos encontrar uma forma de ludibriar a vantagem proporcionada pela Felix Felicis – disse Joyce.

-Não, não vai dar, meninas! – replicou Mione. – A poção é infalível. Ele conseguirá "sentir" quais são as melhores opções a cada investida...

-Hum, preciso dar isso ao Juca durante as nossas relações – comentou Joyce.

-Enfim, estamos perdidas – a aflição era evidente no rosto de Hermione.

-Não posso acreditar que Ted Bacon conseguirá matar todas nós – lamentou Serena.

Uma garota trajando uma fantasia de Fada Sininho parou ao lado da garota. Virou lentamente o rosto para Serena; elas conseguiam notar o olhar vidrado sob os cabelos platinados.

-Você está com o frasco? – ela perguntou, as asas de fada movendo-se magicamente.

As Encalhadas trocaram olhares de compreensão. A mesma pergunta do bilheteiro; mais um dos comandados por Ted.

Felizmente, aquela que mencionara o nome de Ted e que fora abordada pela garota estava com o frasco. Serena tirou-o do bolso da jaqueta cor-de-rosa e mostrou-o.

-Sim. Aqui está.

A garota exibiu a varinha. Por um instante, elas pensaram que Serena seria atacada mesmo seguindo as ordens de Ted Bacon. Mas a "Fada Sininho" não apontava a varinha para ela; simplesmente tocou a ponta num pequeno corte feito no dorso da mão, corte que resplandeceu momentaneamente.

-Está transmitindo o recado ao Ted – comentou Mione.

-Me acompanhe – a "Fada Sininho" pediu, sem delicadeza, baixando a varinha enquanto virava-se e caminhava em direção à saída da festa, sem parar para observar se a garota o seguia.

-E então, partimos pra negociação? – perguntou Serena às garotas.

-Ainda não – respondeu Hermione, um brilho de astúcia cintilando no olhar. – Tinha razão, Joyce. Talvez exista uma maneira de ludibriar a sorte, se o lance for completamente inesperado.

-Qual é a sua ideia? – indagou Alone, afoita, mordiscando uma bomba de chocolate que Adam lhe levava aos lábios, tomando o cuidado de secar a cobertura que lhe escorrera pelo canto do lábio.

-Alguém controlado pela Imperius pode conversar normalmente com outra pessoa?

-Sim, Mione – confirmou Joyce. – Desde que o bruxo que lançou a maldição não tenha dado a ordem do silêncio.

-Ou o enfeitiçado não seja mudo – falou Alone, observando Harry, que se lambuzara inteiro esperando que Adam secasse a cobertura que lhe sujara a boca; Adam pegou o lenço e meteu-o na boca aberta de Harry, que o cuspiu no chão.

-Ótimo – Mione olhou para Harry por um momento e depois voltou-se para Serena. – Descubra com a "Sininho" ali o local que o Ted marcou para a negociação. Depois vamos nos separar, eu, Joyce e Alone vamos por um lado e você por outro, acompanhada pela escrava dele.

Enquanto Serena corria, tentando se equilibrar nas botas de cano alto de Penélope Charmosa, Alone perguntou para Hermione:

-Ainda não entendi: o que pretende com isso?

-Esse é o segredo dos eventos inesperados. Espero que essa falta de compreensão também ocorra com a astúcia proporcionada pela Felix Felicis... Ted vai errar sem nem perceber...

Serena retornava ao lado da garota fantasiada de fada.

-Ted vai nos esperar numa clareira ali atrás – ela indicou as árvores escuras que margeavam a área da festa. – Eu disse à nossa amiga aqui que vamos fazer uma pequena alteração de percurso... certo?

-Certo – falou Mione; fez sinal às amigas, juntando-as num círculo, juntamente com Adam e Harry, enquanto a "Fada Sininho" permanecia à margem da reunião (Mione temia que a conexão entre ela e Ted permitisse que a garota transmitisse suas intenções, caso as ouvisse). – Joyce, Alone e Serena, vocês terão funções especiais nesse plano.

-Eu? – indagou Joyce.

-É... Acho que nunca imaginou que um de seus defeitos fosse servir para algo útil, mas hoje à noite servirá. Alone, você segue com o Adam perscrutando a festa e os arredores, procurando a Lanísia, que precisa ser avisada o quanto antes da proximidade do Ted e da vantagem propiciada pela Felix Felicis. Quando encontrá-la, disparem centelhas bifurcadas para nos unirmos a vocês.

-Qual será o meu papel nisso tudo? – perguntou Harry. – Posso oferecer meu consolo ao Super-Homem aqui?

-Não! Você... bom, fique procurando o Juca, Harry, e explique a ele tudo o que está acontecendo – disse Mione.

-Ih, nunca fui bom em jogar "onde está Wally?" – disse Harry, coçando o cabelo.

-Joyce vem comigo; precisamos chegar à clareira primeiro. Você aparece depois, Serena, ao lado da "Sininho", no exato instante em que a Joyce iniciar a confusão.

-Ainda não entendi o meu papel – disse Joyce.

-Nem precisa entender. Você vai cumpri-lo naturalmente – falou Mione, enigmática. – Ouça com atenção...


Hermione e Joyce entraram na floresta, procurando a clareira rodeada pelos pinheiros. Joyce não parecia nem um pouco feliz.

-Por que eu preciso entrar nesse lugar cheio de insetos e sombras ameaçadoras enquanto a Alone fica na boa, pegando o Super-Homem gostosão?

-Joyce, para de reclamar! A garota enfeitiçada disse que a clareira não fica muito longe e, de qualquer forma, nós precisamos de você aqui. Ouviu bem o que precisa fazer?

-Sim. Mas... Pombas, como isso vai ajudar?

Antes que Hermione pudesse responder, os pinheiros surgiram à frente. Ted estava sentado, tranquilo, com as costas apoiadas no tronco de uma árvore. Jennifer estava agachada na grama, no meio da clareira, com o rosto desolado; ergueu uma sobrancelha quando notou a aproximação das garotas, como se não acreditasse no que via.

-Hum, então é verdade, elas realmente vieram salvar a sua vida, estrelinha! – zombou Ted, levantando-se. – Hermione Granger e Joyce Meadowes. Devem ter escutado o meu recadinho durante a festa, não é? Nada de ataque surpresa hoje; estou com a intuição aguçada. Jennifer já captou bem o espírito da coisa, nem tentou fugir. Vamos lá, passemos à negociação... Cadê o frasco?

Joyce e Mione olharam uma para a outra.

-Não tenho o tempo inteiro, garotas! – berrou Ted, apontando a varinha para Jennifer. – Passem esse frasco logo ou farei história aqui nessa clareira, matando o mito, a promessa da música, Jennifer Star. Morta tão jovem, no auge do sucesso e da beleza! – de repente, Ted parou de falar e abriu um sorriso enviesado. – Lamento desapontá-las, mas o ataque pela retaguarda não funcionará hoje à noite – ele olhou para trás, antecipando a chegada de Serena, que surgiu logo em seguida, abrindo caminho entre dois pinheiros ao lado da "Sininho".

Joyce, então, fez o que Hermione lhe pedira para fazer assim que Serena aparecesse: entremeou o nome completo de Ted em uma frase e errou naturalmente:

-Como você está pretensioso, Ted Toucinho!

-É Ted Bacon, garota, fale corretamente ou...

A voz da garota enfeitiçada pela Imperius elevou-se imediatamente ao ouvir o nome e sobrenome de Ted.

-Você está com o frasco? – ela perguntou à pessoa que pronunciara o nome – o próprio Ted.

Em resposta à voz feminina, Ted respondeu de imediato:

-Não até vocês passarem o frasco pra mim, suas desgraçadas...

Ted negou; a garota atacou.

Conforme Hermione previra, a intuição privilegiada proporcionada pela Felix Felicis pareceu alertá-lo do que estava prestes a acontecer, mandando um aviso de emergência nos poucos segundos que a garota levou para sacar a varinha e pronunciar o encantamento:

-AVADA KEDAVRA!

Ted jogou-se no chão, puxando Jennifer com ele; não houve tempo para uma proteção mais eficaz, mas foi o suficiente para livrar-se da Maldição da Morte, que deixou de atingi-lo por um triz.

Da mesma forma que o bruxo da bilheteria após falhar, a "Fada Sininho" apontou a varinha para si mesma para tirar a própria vida, mas Serena já estava pronta para estuporá-la e assim o fez, impedindo-a; a garota voou entre os pinheiros, desacordada, mas segura.

Jennifer, por sua vez, estava profundamente assustada com tudo o que acontecera, mas sabia que aquela era a sua chance de livrar-se de Ted.

Enquanto o raio de luz esverdeada atingia e partia o galho de uma árvore próxima, Jennifer arrastou-se pelas folhas espalhadas no chão, as unhas cravadas na terra, impulsionando o corpo para longe do bruxo...

As mãos cadavéricas fecharam-se em garra em torno de seu tornozelo.

-Não pode fugir de mim, Jennifer, não quando a negociação ainda não foi feita – rugiu Ted, sorrindo.

Um estalo forte soou acima de suas cabeças; Ted recuou segundos antes de o galho partido cair com força sobre as folhas, erguendo nuvens empoeiradas; o recuo, no entanto, forçou-o a soltar Jennifer, separando-o da garota.

A cantora foi amparada por Joyce, que a ajudou a levantar-se. Hermione, por sua vez, ergueu a varinha, pronta para duelar com Ted se assim fosse preciso.

Mas agora era a vez de Serena cumprir a última etapa do plano. Imobilizar Ted Bacon.

Ted virou-se e olhou para a garota, gritando antes que ela lançasse o feitiço para imobilizá-lo. Aquela informação, assim lhe dizia a intuição da Felix Felicis, era o suficiente para impedi-la de seguir em frente:

-Você e Lewis não são irmãos!

Serena parou por um momento, perplexa, mas depois sacudiu a cabeça.

-Ótimo plano, Ted, mas não vai conseguir me enganar...

-Enganar? – ele riu. – Quartas à noite, mansão dos Bennet. Mamãe Florence sai para o seu encontro semanal com as amigas, papai Brian para partidas de bridge com os colegas.

-Como sabe essas coisas? – perguntou Serena.

-Deixe-nos isolados de suas amigas e você saberá.

-Não, Serena, não caia na conversa dele! – gritou Mione, apontando a varinha, mas Serena foi mais rápida; com um movimento circular da varinha, conjurou enormes labaredas, que a isolaram, junto com Ted, numa roda de fogo.

-O que você sabe sobre eu e Lewis?

-Ora, o que Rebecca me contou entre os lençóis... Segredos de alcova que sempre surgem naquele momento após o sexo em que o casal cai exausto sobre a cama e começa a partilhar confidências. Já passou por momentos assim em alguma de suas transas com seu suposto irmão, eu tenho certeza disso...

-Lewis não é meu "suposto" irmão.

-Ah, é sim. E essa informação foi descoberta numa outra alcova, mas não havia só um casal apaixonado, não... Tinha gente de todos os tipos na cama, no chão, umas sobre as outras...

-Estou perdendo meu tempo aqui, não é? Acho melhor mandá-lo direto pra essas chamas... – ela ameaçou enfeitiçá-lo; Ted, então, desatou a falar de modo desenfreado.

-Existe um vínculo desconhecido na vida da sua mãe. Acho que tem a finada Florence Bennet em tão alta conta, mas ficaria de queixo caído com o que ela aprontava.

-Não tem como saber sobre a vida da minha mãe, não a conhecia!

-Eu não. Mas Rebecca conhecia. E ela me contou tudo, Serena, ah, contou nos mínimos detalhes...

-Rebecca – balbuciou Serena, recordando-se do dia em que encontrara uma foto da mãe ao lado da inspetora.

-É... Sabe que estou falando a verdade, não sabe? Era uma amizade secreta, porque elas estavam metidas em algo que exige sigilo, discrição. Me imobilize, me mande para Azkaban, e o segredo morre comigo. Mas você é uma garota esperta e curiosa... Muita coisa já a impediu de ser feliz com o Lewis. Quer ouvir a verdade, não quer, Serena?

-Sim... – ela já se esquecera completamente de atacá-lo.

-Já ouviu falar num local chamado Mansão Linguiça?

-Claro. Rebecca fazia danças sensuais lá, nós descobrimos isso e até chegamos a ameaçá-la...

-Pois é, um lugar frequentado por muitas moças de família acima de qualquer suspeita, senhoras respeitáveis que ali naquelas paredes cheirando a suor e sexo, perdem os pudores e dão vazão a desejos socialmente impronunciáveis. Florence Bennet era uma dessas. Devassava por lá nas noites de quarta-feira; em algumas semanas, promovia festinhas eróticas em uma das mansões da sua família. A quarta do prazer... Pobre criança... Sei que ela devia sair toda arrumada e perfumada, discretíssima, mas pode acreditar que por baixo de toda a vestimenta a sua adorável mãezinha usava cinta-liga e calcinhas comestíveis...

-Ela saía com as amigas, sim. Mas... não posso acreditar que ela fosse para a Mansão Linguiça, ou para uma das mansões apenas em busca de sacanagem com outras pessoas... algo assim não combina com a minha mãe...

-Você acha que Karen acreditaria que a mãe gosta de rebolar e tirar a roupa diante de centenas de homens? Rebecca Lambert, a inspetora de Hogwarts? Longe do olhar da família, todas se transformam, Serena. Despertam o lado sexual intenso, reprimido perante os esposos, os filhos. Sua mãe era uma vagabunda...

-Não fale assim dela!

-Era sim, uma piranha, pistoleira de quinta, que passava de mão em mão, às vezes rodando tanto que dormia com cinco ou seis numa única noite.

-Não é verdade!

-Rebecca viu tudo, me contou que também participava! Ela e Florence tocavam nos peitos uma da outra para aumentar o tesão dos homens! Numa dessas noites de sacanagem, os homens caíram no sono e elas ficaram acordadas até tarde. Na penumbra do quarto, Florence confessou a Rebecca que não fazia ideia de quem era o seu pai, e que tinha sorte da filhinha parecer-se fisicamente com ela. Porque eram tantas as quartas de orgia que não fazia a menor ideia de quem seria o seu papai.

-Isso quer dizer que... Não sou filha do Brian...

-É, não mesmo, você não é uma Bennet, você e Lewis não têm o mesmo pai. Devia ter pensado nessa possibilidade. Vocês dois não saíram do mesmo ventre e, considerando a piranha que era a sua mãe, devia ter desconfiado de que ela passou pelas mãos de outros bruxos.

-Eu não sabia nada a respeito disso... Eu encontrei uma foto dela ao lado da Rebecca, e aquilo pra mim não fazia sentido... Elas estavam com outras mulheres.

-A turma da farra - Ted debochou.

-Minha mãe nunca falou na Rebecca, eu nem sabia que elas eram amigas até então...

-A vida de Florence é cheia de segredos. E quanto mais você cavar, mais lama irá desenterrar...

-Frieda... Sabia disso?

-Quando foi convocada para trabalhar em Hogwarts, Rebecca ficou a par do ódio que Frieda sentia por você. Ela então revelou à tia o segredo de Florence. Sei que está pensando que Frieda poderia usar esse segredo para destruí-la, mas o que ela ganhava com isso? Brian e Florence já estavam mortos por encomenda dela, não poderia separar o casal; e, no seu caso, era preferível que sofresse pela culpa de amar o próprio irmão. Tortura psicológica, sabe como é... Sempre muito eficaz. Lentamente essa tortura ia minar o amor que existia entre você e Lewis até torná-lo insustentável.

-Isso tudo é tão... cruel.

Com lágrimas nos olhos, Serena era incapaz de esboçar qualquer reação.

Só pensava na culpa que sentira por cada beijo apaixonado, por cada noite de amor; a crença de que estava com o irmão sempre deixara um gosto amargo por baixo da docilidade do prazer; carinhos discretos, segredo absoluto – como se ela e Lewis estivessem cometendo um crime apenas por amar.

Tanto sofrimento sem fundamento...

Serena deixou-se abraçar por Ted, que encostou o aço frio do punhal no pescoço da garota, sem tocar-lhe a pele. Apagando as labaredas com a varinha, comunicou-se com as Encalhadas que os cercavam.

-Enquanto estava dentro do espelho fui obrigado a optar por Jennifer, afinal eu precisava que uma Encalhada transmitisse às outras tudo o que havia acontecido por lá. Mas agora eu tenho uma Encalhada nas mãos. E... veja, sinto a intuição de colocar a mão dentro do bolso desse sobretudo... – assim, Ted puxou o frasco e transmitiu-o do bolso de Serena para o de sua capa puída. – Ah, aqui está ele... Finalmente meu.

-O que fará agora? – indagou Alone.

Em resposta, Ted empurrou Serena, que caiu com o rosto voltado para o chão; as amigas a ampararam no mesmo instante.

-Sinto que preciso estar em outro lugar – murmurou Ted, olhando para trás. – A sorte sorri para mim e me diz que o meu lugar não é este.

Após essas palavras misteriosas, ele embrenhou-se entre os pinheiros e desapareceu.

-Ele... ele foi embora? – perguntou Serena, ligeiramente desnorteada pelo choque provocado pelos segredos desenterrados por Ted.

-Sim – disse Mione, desconfiada. – O que será que faria o Ted sair de ação dessa maneira?

-Ele preferiu sair a ficar por aqui e nos torturar, então deve ser algo pra lá de bom! – exclamou Joyce.

- Oh, por Merlin, Lanísia! – exclamou Hermione, sobressaltando-se. – A luxúria! Ted é essencialmente movido por seus instintos!

-Isso, a Poção da Sorte deve estar conduzindo-o para o local em que ela está – disse Joyce. – Precisamos fazer alguma coisa para impedi-lo!

-Adam e Alone ainda não a encontraram – disse Mione, espreitando o céu à procura das centelhas coloridas. – Vamos procurar também!

-Só espero que não seja tarde demais – falou Joyce, preocupada, enquanto ela, Mione, Serena e Jennifer atravessavam os pinheiros.


Dentro do celeiro, Augusto estava deitado sobre o feno; Lanísia repousava a cabeça no peitoral dele, que lhe acariciava as coxas, ambos exaustos e sem uma única peça de roupa.

-Já teve alguma ideia de como provar a sua inocência? – perguntou Lanísia, mordiscando-lhe os mamilos.

-Ainda não. Marjorie pensou em tudo, executou o plano perfeito – parou para rir. – Difícil falar sério se você não parar de fazer isso...

-Não consigo me controlar. Estou com desejo acumulado... – levou a mão até o meio das pernas dele e ali ficou, acariciando. – Ela deve ter deixado uma lacuna, uma falha, nesse plano todo. Marjorie é esperta, oh, é sim, mas mesmo os espertos estão sujeitos a erros.

-Tomara – disse Augusto, suspirando. – Assim eu não precisaria mais viver fugindo. Poderíamos construir a vida com que sempre sonhamos.

-Foragido ou não, eu vou ficar com você. Vivo para sempre na clandestinidade, não tem problema. Quem sabe não vivemos usando Poção Polissuco? Assumimos outras identidades e assim conseguimos sair tranquilamente! Entre quatro paredes, claro, deixamos o efeito da poção passar.

-Óbvio, porque eu faria questão de ter o corpaço da minha Lanísia ao meu lado – ele beijou-a. – Você tem uma solução pra tudo...

-Sempre existe solução quando há vontade, e eu nunca vou desistir de você.

Ele segurou o rosto dela pelo queixo; Lanísia delirou, como sempre, com o roçar da barba dele pinicando a face conforme os maxilares se moviam.

Deu um selinho após o beijo longo e ficou acariciando o rosto de Augusto.

-O prazo para a Magia do Aprisionamento já terminou? – ele perguntou.

-Ainda não. Mas terça à noite, quando a lua surgir, o pesadelo termina. O frasco derradeiro está muito bem seguro conosco em Hogwarts.

-Ótimo. Assim evitamos o caos.

-Caos? – indagou Lanísia, confusa.

Augusto levantou-se, apanhou a varinha no bolso da calça largada no chão, conjurou uma taça e depois avançou para um dos barris arrumados a um canto do celeiro. Apanhou um pouco de vinho e bebeu de um gole só.

-Kleiton conseguir sair do espelho gera uma ruptura na Maldição do Espelho... você sabe, o encantamento que foi lançado em Celine e voltou-se contra ele...

-Sim, não tem como esquecer essa história de amor doentio – ela falou, enquanto Augusto sentava-se ao seu lado com uma segunda taça e a estendia a ela. – Obrigada... – Lanísia cheirou a bebida, estalou os lábios e bebeu um gole. – Uma obsessão que fez com que Kleiton desejasse uma Celine aprisionada só para ter o prazer de deixá-la ali, pertinho, num espelho de pé em sua sala de estar, mesmo que nunca pudesse tocá-la. Parece até o Ted fissurado em mim. Não é à toa que os dois possuem almas gêmeas.

-Almas gêmeas, os elementos essenciais para que a Magia do Aprisionamento funcionasse. Mégan penou por anos a fio, e de repente encontrou a cópia perfeita para ser oferecida às trevas no lugar de Kleiton. Lanísia, isso não foi fácil, não foi algo simples, e, digo mais, foi improvável. Entenda, não é uma reversão natural à Maldição do Espelho. Mégan juntou os pauzinhos...

-Na verdade, com a ajuda do Professor Ipcs, que era amigo da família na época. Ele não se orgulha nem um pouco disso.

-Exato, mas o que realmente importa é que, com esse desfecho inesperado, tira-se Kleiton do seu castigo eterno e lhe é oferecida, hipoteticamente, por enquanto, a oportunidade de uma nova vida. Trata-se de algo que, em circunstâncias comuns à Maldição do Espelho, não deveria acontecer.

-E não vai. Eu lhe garanto – Lanísia terminou o vinho e colocou a taça ao lado, perto da calcinha fio-dental que permanecia sobre o feno. – Todas as Encalhadas estão dispostas a manter aquele frasco fechado até que a próxima lua desponte no céu e ponha um fim a toda confusão. Serena, então, é a mais disposta... Acho que arranca o coração de quem tentar abrir aquele frasco, usando as longas unhas, essa noite excepcionalmente coloridas de rosa-choque... Devemos ser gratos à ela, sabe. Se a Serena não tivesse nos enganado e aberto o frasco assim que pôs as mãos nele, Kleiton já estaria entre nós tocando o terror.

Ela brindou com ele e estudou o rosto tenso de Augusto por alguns segundos.

-Agora... Suponhamos que isso tivesse acontecido. Que Kleiton tivesse conseguido romper a Maldição do Espelho, violando a lei natural da maldição, segundo o que você explicou... Então aconteceria esse caos que você mencionou?

Augusto aproximou o rosto dela, os olhos emoldurados de tensão.

-É. O caos. Caos na vida daqueles que estavam diretamente envolvidos com ele.

-Augusto, explique isso melhor... O que poderia acontecer com você? Com Celine? Ou... minha nossa, Joyce, Joyce também estaria ameaçada? Porque ele pensou que ela era filha dele, pode ter mágoas quanto a isso! Todos vocês estariam em risco?

-Não todos... Lanísia, controle-se, eu não tenho nem como medir o grau desse risco! Foi o que eu lhe disse, seria uma ruptura improvável, sem par, não é algo que esteja nos livros porque nunca deve ter acontecido.

-Mas seria algo ruim, não seria?

-Acredito que sim – ele mordeu o lábio inferior e pareceu ficar pensativo.

-Augusto, você desconfia do que poderia acontecer? Fale pra mim, meu amor...

-Desconfio, sim, mas... É bobagem, apenas uma suposição, e não tenho motivos para deixá-la preocupada – começou a beijar-lhe os ombros. – O frasco está bem seguro, não está? Tudo vai acabar bem na terça à noite, quando o ciclo lunar terminar...

-Augusto, nada vai me distrair, não tente me enrolar...

-Ah eu acho que tenho coisas que podem lhe distrair...

-Danado... Vou pegar um pouco mais de vinho.

Enquanto ela atravessava o celeiro, nua, Augusto inclinou-se sobre as roupas apoiadas no feno e tirou do bolso da calça uma foto dobrada. Desamassou-a e admirou o retrato de Karen; seus cabelos escuros estavam presos em maria-chiquinhas, que sacudiam conforme o movimento do balanço em que ela brincava. Procurando em outro bolso da calça, Augusto pegou o relógio redondo, feito de ouro, e retirou a camada de plástico que protegia o interior. Colocou a foto ao lado do mostrador, observando o tique-taque contínuo dos ponteiros.

-Posso saber o que está aprontando? – perguntou Lanísia, aproximando-se com a taça cheia de vinho.

Preocupado em explicar-se, Augusto olhou para a garota, sorrindo de modo embaraçado.

-Estava apenas olhando uma foto da Karen. Sinto falta da minha menina... – distraidamente, Augusto passou a foto para Lanísia e, sem olhar para o relógio, segurou o ponteiro maior e começou a girá-lo. – Admirando Karen aqui, com quatro anos, e meditando sobre o quanto o tempo é um fator determinante em nossas vidas...

-Passa depressa, não é?

-Muito.

Lanísia olhou intrigada para o ponteiro que Augusto movia, cujo movimento puxava o ponteiro menor automaticamente, ambos girando no sentido anti-horário.

-Está atrasando o relógio? Por quê?

-Por nada... – mentiu Augusto.

-Agora deixe esse relógio aqui de lado e vamos aproveitar mais um pouco o nosso momento juntos – falou Lanísia, pegando o relógio de ouro e colocando-o próximo às roupas. Ajeitava o relógio ao lado da foto quando a taça entornou o que restava do vinho sobre a fotografia de Karen. – Oh, droga... Pode pegar a sua varinha? Talvez tenha um jeito de aspirarmos o vinho antes que a bebida danifique a imagem...

Augusto levantou-se, pegou a varinha que havia deixado sobre o barril de vinho, mas, antes que pudesse tentar algum feitiço, seus olhos passaram da fotografia para o relógio e, novamente, para a foto, onde o vinho cobria o corpo de Karen num tom vermelho-rosado, que começava a espalhar-se de tal forma que iniciou uma descida a conta-gotas no piso recoberto de feno do celeiro.

O relógio, o sangue...

(Sangue, não, isso é vinho, vinho que caiu da taça de Lanísia, não sangue)

Sangue, sim, para seus olhos assustados é sangue, e ele não pode negar a sensação profética criada em sua mente ao visualizar aqueles três elementos.

Karen.

Sangue.

O relógio.

O peso no estômago e o tique-taque ganharam intensidade quando o líquido penetrou tão fundo no papel que começou a desmanchar a imagem de Karen no balanço, tornando os traços da garota de maria-chiquinhas embaçados. A impressão que Augusto tinha era de que o líquido engolia a sua filha, fazendo com que sua existência se perdesse em meio a um borrão de

(sangue)

vinho.

-Augusto? – chamou Lanísia. – Posso? – lentamente, tirou a varinha das mãos dele, apontou para a foto e sugou o vinho.

Os olhos aturdidos de Augusto acompanharam a imagem entrando em foco novamente, Karen com o sorriso encantador, indiferente a tudo o que acontecia, aos riscos que os erros do passado do pai a expunham. Lanísia deixou a foto intacta e a paralisação provocada pelo medo abandonou o corpo de Augusto através de um suspiro prolongado.

Virou-se para a garota.

-Você parecia ter entrado em transe – disse Lanísia, rindo. – Ainda pensando nas consequências do retorno de Kleiton? Achei que tínhamos concordado de que isso não irá ocorrer. Ou é tão grave assim que mesmo a ameaça remota é suficiente para provocar tanto medo?

-É... É sim... – resolveu jogar limpo com Lanísia. – Preciso compartilhar esse receio. Não dizem que a alcova é o local ideal para compartilhar segredos? – segurou a mão dela. – Tenho medo de que Kleiton, caso consiga sair do espelho, provoque um deslocamento temporal.

-Pode me explicar o que é isso?

-Sim – Augusto pegou o relógio outra vez. – É melhor sentar-se para ouvir o que penso que aconteceria... – disse, segurando o ponteiro e dando mais uma volta no sentido anti-horário.


Ted sentia uma atração incontrolável tentando puxá-lo para dentro do celeiro e sabia que só podia ser provocada por Lanísia. Ela não estava com as amigas, e somente ela, sua vida, a mulher mais sensual que já vira na vida, podia ser mais importante do que a sua vingança contra as Encalhadas.

Quando estava prestes a avançar para o celeiro, porém, algo lhe disse para aguardar alguns minutos. Precisava esperar o momento ideal para invadir o local. Seria mais fácil, mais seguro.

Ele ainda não sabia, mas a Felix Felicis queria que ele surpreendesse Lanísia sozinha, sem a companhia de Augusto.


Rony e Aaron avançavam pelos corredores de Hogwarts em silêncio, um silêncio que chegava a incomodar por ser tão profundo. Os passos retiniam no piso de pedra; quadros conhecidos estavam de lados opostos; um bruxo que cochilava sobre uma poltrona agora pendia para o lado esquerdo; a manada de testrálios pintados a óleo voava em outra direção.

Não havia ninguém no castelo. Por outro lado, os espelhos refletiam uma Hogwarts cheia de vida, com alunos arrumados que percorriam os corredores após as festividades do Baile.

-Você descobriu – afirmou Aaron quando ele e Rony se aproximavam do pátio. – Não tem mais pena da Marjorie, então deve ter descoberto.

-Descoberto o quê?

-Não se finja de desentendido, Weasley. Descobriu a verdadeira face da Marjorie e que Hermione não estava em seu juízo perfeito ao traí-lo comigo e com tantos outros homens. Sabia desde o princípio que havia algo errado no que via pelo reflexo, porque tem certeza de que Hermione jamais se entregaria a outro homem de modo tão fácil. Tem raiva da Marjorie, e por isso arremessou o rosto dela contra o espelho.

-Não acha que seria merecido? Se ama tanto a Hermione quanto diz, por que continua aliado à uma garota que quer matá-la?

-Marjorie não quer matar a Mione. E só conseguiu a minha ajuda quando prometeu que, no fim das contas, ela sairia com você e eu com a Mione.

-Ela considerou matá-la quando percebeu que eu não era seduzido – disse Rony.

-Foi você quem escutou o papo do Nêmeses! – Aaron apontou o dedo para ele. – Claro! Por isso procurou a Marjorie em seguida e logo engatou o namoro! Tudo para...

-...para evitar que a sua amiga matasse a Mione.

-Ela disse isso num momento de raiva. Marjorie jamais faria isso se eu pedisse para que deixasse a Mione viva.

-Claro, ela abriria mão de conseguir o que quer em consideração ao amigo do peito – debochou Rony. – Você pode fazer tudo por ela, nutrindo essa grande amizade, mas saiba que pessoas assim não consideram ninguém. Uma hora você vai descobrir isso, e eu espero, para o seu próprio bem, que não descubra tarde demais.

-Não tente me colocar contra a Marjorie, otário. E fique sabendo que vou contar tudo pra ela. Ela vai saber tudo o que aconteceu depois que caiu no sono, sono que, com certeza, não foi provocado por acaso. Sua farsa será revelada... Devia ter vergonha de enganá-la. Uma garota que sofreu tanto, que nunca teve o apoio da mãe, sempre viveu sem amigos...

-Posso te apontar muitas pessoas que sofreram tanto quanto ela e não se transformaram em monstros – retorquiu Rony. – Não tente justificar as merdas que a sua amiga faz apelando pro passado dela, nem busque explicações para seu consentimento nessa sua piedade. Você se cala porque quer tirar vantagens das atitudes da Marjorie, porque quer a Mione para si...

-Sou fissurado nela.

-Pode ser, mas sabe que a Hermione me ama e nunca vai ficar com você! É mais vantajoso ser amiguinho da Marjorie, não é? Ela segue mentindo, enganando, ameaçando os outros, mas pelo menos, no fim, você tem a possibilidade de ficar com a Hermione, mesmo que, para isso, a sua amiga utilize os meios mais sujos.

-Não sou esse tipo de pessoa. Está enganado...

-Não é o que as suas atitudes dizem. Aaron, eu preciso continuar esse namoro falso para proteger a Mione. Por favor, não conte pra Marjorie que eu descobri tudo.

-Você nem sabe se sairemos vivos daqui. A Marjorie tem medo do Kleiton. Só por aí você pode ter a real dimensão do caráter do seu cunhado.

-Vai contar pra Marjorie ou não?

-Weasley, que tal concentrarmos em encontrar a Mione? Nós... – Aaron parou de falar, olhando para o pátio, por cima do ombro de Rony.

-O que foi? – indagou Rony, olhando para trás.

Hermione estava do outro lado do pátio, cambaleante, o cabo de uma enorme lança projetando-se da barriga. Seus olhos brilhavam, vermelhos. Ela estendeu uma mão trêmula, um apelo por socorro.

-Rony, ele me pegou... Eu vou morrer, Rony, me ajude!

Ela caiu no chão, o corpo encolhido. Rony disparou e atravessou o pátio para socorrê-la, sem fazer ideia de que era Kleiton ali, Kleiton que arrancara a lança de uma armadura e, na forma de Hermione, usou a ponta afiada para abrir caminho dentro do corpo, imune a qualquer ferimento.

Rony, que não sabia que Kleiton podia transformar-se em outras pessoas, agora se agachava ao lado de quem pensava ser a sua namorada, fitando-a com preocupação:

-Precisamos tirá-la daqui, Madame Pomfrey cuidará de você, fique tranquila...

-Não tenho mais tanto tempo, Rony... Só peço a você que me abrace.

Ele beijou-lhe a testa e envolveu-lhe a cabeça num abraço, tentando manter-se distante da ponta da lança.

-Assim não, Rony, seja mais carinhoso...

Sentiu as mãos de Mione enlaçarem suas costas e, depois, surpreendentemente, puxá-lo para um abraço apertado.

Rony sentiu a ponta da lança abrir caminho no seu peito. Arregalou os olhos para o rosto de Hermione, ali, tão perto, para pedir que tomasse cuidado, que ela estava ferindo-o, mas perdeu o fio da meada quando notou que o rosto dela começava a se transformar. Os cabelos da garota encolhiam-se, e nesse movimento de recuo os fios alisavam-se e escureciam, ficando negros como asas de corvos; ele viu o maxilar da garota tornar-se mais pronunciado, alterando o formato do rosto.

Rony não tinha o que dizer diante de tudo aquilo; o rosto em transformação fechou-se em um esgar feroz enquanto aquele ser aumentava a intensidade do abraço, deixando-os de corpos colados. A ponta da lança enterrou-se mais fundo, abrindo um buraco de dor no peitoral do garoto, buraco de onde jorrava sangue quente e pegajoso.

-É assim que se abraça a mulher que você ama – disse a criatura com a voz de Hermione, depois, em outra sílaba, passando a uma voz masculina e fria, para em seguida voltar à entonação de Mione.

Mesmo em sua agonia, Rony viu quando os seios de Hermione se encolheram, desaparecendo sob a roupa, dando lugar a músculos, enquanto os ombros ganhavam envergadura. Abaixo do corpo dele, percebia que as pernas da criatura cresciam e sentia, na altura da virilha colada à sua, brotar um volume característico que jamais fizera parte do corpo gracioso e feminino de Hermione.

As íris que cintilavam em vermelho escureceram-se; os olhos ficaram mais finos, tão escuros quanto os cabelos, e uma barba escanhoada começou a espalhar-se nos dois extremos do rosto, terminando no queixo. O pescoço alargou-se e um pomo de adão proeminente esticou a pele, terminando de vez a transformação.

Não era nenhuma criatura desconhecida; era o homem que estivera com Hermione no reflexo da janela, a quem Rony podia chamar de cunhado, aquele que atendia pelo nome de...

-Kleiton – balbuciou o garoto, sentindo o suor frio cobrir-lhe o rosto, ainda preso naquele abraço mortal.

Deixou pender um fio de saliva sobre a face de Kleiton, que gargalhou, indiferente à fraqueza e ao sofrimento dele. O irmão de Marjorie tirou os braços de suas costas, segurou-o pelos ombros e o empurrou com força, conseguindo a custo arrancar a lança do corpo dele. Liberto, Rony pendeu para o lado, caindo com a barriga para cima, a frente do corpo ensopada de sangue.

Como podia existir tanta disposição naquele bruxo? Podia não ser Hermione, mas, antes de tudo, a lança estivera cravada no corpo dele. Rony fora perfurado pela ponta que escapava para fora após transpassar o físico de Kleiton; ele também devia estar morrendo, não sorrindo daquela maneira maligna e doentia.

Como se estivesse disposto a solucionar as dúvidas de Rony, Kleiton ajoelhou-se diante dele com a lança ainda fincada no corpo. O rapaz fechou uma das mãos em torno dela e a puxou sem cerimônia; num piscar de olhos, o cabo da lança que se projetava das costas saiu pelo peito, sem cascatas de sangue ou gritos de dor; Kleiton o arrancou como se fosse uma pequena farpa cravada na pele.

Rony então recordou que a lança não estava coberta por sangue antes de ser puxado para aquele abraço mortal; o líquido pegajoso que pendia da arma era somente dele.

Kleiton não se feria; Sangrar? Nem pensar...

Kleiton tocou-lhe o peito e o buraco aberto no lado esquerdo.

-Sabe o que se encontra bem aqui, não sabe? Acertei a extremidade do seu coração. E olha que não tinha pretensão nenhuma de acertar um órgão vital assim, de primeira – estalou os dedos. – Mas eu consigo captar a beleza trágica e poética da situação. Afinal, você possui o coração que minha irmãzinha sempre quis conquistar, e, veja só, ele foi perfurado por quem ela jamais deveria ignorar. Minha vingança está completa.

Boquiaberto, transpirando copiosamente, Rony apenas o olhou em silêncio, sem forças; seu corpo todo estremecia de modo incontrolável.

-Marjorie não vai gostar nem um pouco disso – gritou Aaron, desesperado, incapaz de mover-se e de manter a voz firme. – Não devia matar o Rony!

Ao som da voz dele, Kleiton ergueu o rosto e torceu os lábios finos num sorriso que prenunciava horrores.

-Graças à desobediência dela, acho que nunca deixarei esse espelho. Por isso, a minha irmã caçula, além do namorado, também merece perder um dos amigos...

-Ih, sujou – gemeu Aaron.

Kleiton arremessou a lança na direção do garoto, que se esquivou atabalhoadamente, fazendo com que a arma se chocasse, com estrépito, contra a parede de pedra do pátio.

Aaron berrou e saiu em corrida desabalada pelos corredores desertos e sombrios daquela duplicata de Hogwarts, sem a menor ideia de que era preciso quebrar um espelho para sair dali.


-Mamãe... mamãe, acorde...

Rebecca sentia-se zonza; uma dor lancinante fustigava-lhe a nuca. Abriu os olhos lentamente. Viu o rosto de Karen , sorrindo docilmente para ela e, no fundo, os terrenos de Hogwarts. Então se lembrou da luta com Lanísia e da informação valiosa que tinha em mãos.

-Preciso chamar o Ministério. Augusto está aqui perto, ele precisa ser preso, tenho que acabar com a farra dele e da ninfeta... – desatou a falar de uma só vez.

-O papai está próximo? – perguntou Karen. – Por que quer que ele seja preso? Não quero que ele vá para Azkaban, mamãe...

-Karen... terá que entender a minha atitude. Seu pai não presta...

-Eu amo o papai. E se soubesse que ia acordar para tentar prejudicá-lo, deixaria você aí, caída, até amanhã.

Aquilo machucou Rebecca.

-Então ele é melhor do que eu pra você?

-Sim, ele não é nada daquilo que você diz. E, se tentar denunciá-lo, esqueça que é minha mãe, porque eu me esquecerei de você.

-Ótimo, então tenho coisas para lhe mostrar. Dizem que devemos poupar as crianças do choque, mas acho que você já precisa ter esse contato com a realidade... Venha comigo.

Rebecca agarrou o braço da filha; juntas, elas entraram no castelo.

A inspetora subiu a escadaria de mármore e levou Karen até o seu dormitório. Deixou a garota sentada numa cadeira e saiu em busca da foto que havia surrupiado dos guardas do Ministério.

Encontrou-a guardada em seu armário, na sala dos professores. Uma imagem que mostrava, nitidamente, Augusto segurando os cabelos de Marjorie enquanto a penetrava de modo violento; o instantâneo deixava claro a violência e o ritmo das estocadas, a expressão doentia do rosto de Augusto e o sofrimento da garota ao ser coagida àquilo.

-Karen nunca mais irá venerar o papai – disse Rebecca para si mesma. – Quão doloroso será para o Augusto saber que será denunciado e desprezado pela própria garotinha...

Carregando a foto junto ao corpo, ela saiu da sala dos professores.


No celeiro, Augusto sentou-se com as pernas cruzadas enquanto contava a sua teoria para Lanísia, que enrolava o cabelo ruivo com o dedo, prestando atenção em cada palavra.

-O tempo para Kleiton ficou congelado nesse período em que ele ficou preso no espelho. Ele sairia de lá com a mesma idade, como se nenhum dia, nenhuma hora, nenhum minuto tivesse se passado desde que a Maldição do Espelho voltou-se contra ele. Pensei muito a respeito disso durante esse meu período de exílio e acredito que o retorno de Kleiton para o mundo real pode causar um deslocamento temporal que atingirá as duas pessoas diretamente envolvidas com ele e com as quais Kleiton têm assuntos pendentes a resolver.

-Você e Celine – falou Lanísia com desagrado. – O famigerado triângulo amoroso.

-Não mais. Para mim Celine não significa mais nada, mas quando Kleiton foi aprisionado esse laço afetivo ainda existia. Entenda, Kleiton foi motivado pelos ciúmes, a ira da descoberta de que Joyce era minha filha, a filha do homem que ele sempre odiou, e não dele. Em consequência, quis punir Celine e fazê-la sua prisioneira. Naquele momento, eu e Celine fomos as peças que o impulsionaram a lançar a maldição. Kleiton, no entanto, foi atingido pelo ricochete da maldição lançada por sua própria varinha, maldição impregnada por seu ódio e revolta. Estive refletindo desde que Celine revelou que eu sou o pai da Joyce e os reais motivos que levaram Kleiton a agir daquela maneira na noite fatídica. É possível... não tenho certeza, que fique claro, mas é possível que tais circunstâncias tenham criado uma ligação entre nós três.

-Seria uma espécie de ato contratual mágico não autorizado?

-Bem por aí – concordou Augusto, usando três fios de cevada e ajeitando-os com a varinha no formato de um triângulo. – Imagine que Kleiton é a base – apontou para o fio que estava na horizontal. – E eu e Celine estamos aqui, somos esses dois na diagonal... Se Kleiton deixa o espelho como se o tempo não tivesse passado para ele, o que aconteceria?

Augusto, então, puxou o fio que embasava os outros dois, que caíram um sobre o outro.

-O tempo não deveria ter passado para Celine e você – disse Lanísia, engolindo em seco.

-Pior do que isso. O tempo voltaria àquele mesmo momento em que Kleiton foi aprisionado. Tudo o que aconteceu depois viraria um vácuo, como se alguém passasse uma borracha nos últimos dezesseis anos.

-Em termos práticos, isso afetaria a vida de vocês de que forma?

-Existem muitas possibilidades. Mas estou quase certo de que tudo o que ocorreu a partir daquela noite, e que não teria acontecido se a Maldição do Espelho não reverberasse contra Kleiton, deixaria de existir.

-Você deixaria de me amar?

-Nessas condições, sentimentos são imutáveis. Minha memória não seria abalada, eu me lembraria de tudo o que aconteceu nesses dezesseis anos. Mas a questão é que eu criei duas vidas depois daquela noite. Se o deslocamento temporal fizer com que eu e Celine retornemos a partir daquele ponto para o acerto de contas com Kleiton, voltaremos a um tempo em que duas pessoas ainda não existiam. Karen ainda não tinha nascido, nem...

-Tínhamos gerado o nosso filho – disse Lanísia, acariciando a barriga. – Augusto, isso não pode acontecer, eu não posso perdê-lo... – ela sentiu os olhos encherem-se de lágrimas. – Quando penso que você não está em Hogwarts, que está longe de mim, é a presença dele aqui, comigo, que me conforta. Ele é uma parte sua alimentada pelo meu corpo. É o nosso amor germinando aqui dentro... – secou as lágrimas que corriam pelo rosto com o dorso da mão. – Você vive em mim agora, ele é o meu conforto. Não vamos perdê-lo, não vou permitir... – ela fitou-o com carinho enquanto Augusto secava o seu rosto. – É por isso que olhava tão entristecido para a foto de Karen, não é?

-É – ele confirmou, os olhos brilhantes, úmidos. – Eu tenho medo de que Karen e nosso filho tenham a existência varrida e que essa borracha no tempo apague a vida dos dois – ele ergueu a foto da garotinha no balanço. – Se Kleiton sair do espelho, Lanísia, acho que eles podem... eles podem morrer.

-Não... Isso não vai acontecer – Lanísia o abraçou com força. – Ninguém abrirá o último frasco. Kleiton ficará no mesmo lugar. Não há o que temer.

-Eu sei que vocês devem estar tomando todos os cuidados para preservar o frasco fechado, mas peço que aumentem a segurança em torno dele. Todo cuidado é pouco nesses últimos dias.

-Quer saber? Acho que nem a própria irmã dele está interessada em ajudá-lo. Será tranquilo vencê-lo.

-Kleiton é astuto demais. É melhor não subestimá-lo. Tem a única oportunidade de deixar o Mundo dos Espelhos nas mãos e tentará encontrar um meio de obter sucesso. Se Marjorie não quiser ajudá-lo, ele pode convencê-la de alguma forma... E, se ela resistir, pode puni-la.

-Matando-a?

-Não. Talvez tirando alguém muito importante da vida dela para que ela sofra em vida. Kleiton joga sujo; não siga o que ele espera e o castigo vem. Agora... – ele jogou o cabelo que caía sobre a testa para trás. – Que tal esquecermos esse assunto baixo astral e darmos uma rapidinha antes da despedida?

Ele já subia em seu corpo, beijando-a, quando Lanísia empurrou-o:

-Não, acho melhor pararmos por aqui...

-Você? Pedindo para que eu pare?

-Sim. É que... Já passou muito tempo e, na verdade, eu não contei porque estava sozinha quando cheguei à gruta – ela forçou um sorriso. – Sabe, o plano não era esse. Eu deveria ter vindo com as garotas, mas elas simplesmente foram impedidas de me acompanhar.

-E quem as impediu?

Cheia de culpa, Lanísia fechou os olhos e mordeu o lábio:

-Rebecca.

-Rebecca? – Augusto levantou-se de um salto. – E ela...?

-Sim, ouviu que você estava por aqui. Mas ficou desacordada porque caiu e bateu a cabeça, quando tentava me impedir. Só que agora já deve estar prestes a acordar, então, acho melhor pararmos por aqui... – mas Augusto já se apressava em recolher as roupas e começar a se vestir.

-Minha nossa, Lanísia, a audácia tem limites! Ficar aqui, tranquilamente, enquanto Rebecca pode acordar a qualquer momento e chamar os bruxos do Ministério!

-Ela acha que vamos nos encontrar na festa, não no celeiro.

-A festa é aqui do lado, garanto que não iam demorar nem um pouco para nos encontrar... Mas você gosta do desafio, não é? – ele perguntou, desistindo de fechar a camisa desprovida de botões. – Aposto como ficou mais animadinha pensando no perigo.

-Claro. E até torci para alguém abrir o celeiro e nos pegar no flagra. Um dos guardas do Ministério aparecer e, ao invés de prendê-lo, ficar se masturbando enquanto nos assiste... – ela espreguiçou-se sobre o feno. – Isso me lembra nossas adoráveis noites romanas.

Apesar do medo que assolava o coração, ele não pôde deixar de sorrir. A mistura de menina e mulher estava ali, novamente, à sua frente.

-Acho que a garota continua presente na mulher quando não estamos na cama.

-O quê? – ela perguntou, confusa.

-Nada... Eu te amo sua maluquinha – ele brincou, beijando-a uma última vez. – Eu entro em contato com você assim que puder. Prometo.

-Mal posso esperar.

-Dê uma volta e aproveite a festa! – ele exclamou, abrindo a porta do celeiro.

-A festa pra mim já aconteceu – mandou um beijo à distância. – Você estourou o champanhe dentro de mim e foi uma loucura. Eu amo você. EU – TE – AMO! – gritou para o celeiro vazio, fazendo com que Augusto saísse aos risos.

Abriu um sorriso melancólico, antecipando a saudade, e começou a recolher as roupas.


Adam e Alone decidiram verificar nos arredores da festa após não encontrarem abaixo da tenda nenhum vestígio da voluptuosa Jessica Rabbit encarnada por Lanísia. Durante a busca, Alone explicou ao rapaz o que era a Magia do Aprisionamento e como o professor Augusto fora acusado injustamente.

-Nem tenho palavras para agradecer a sua ajuda, Adam – ela disse enquanto passavam ao lado da casa da fazenda. – Você é mesmo um anjo que surgiu na minha vida. Acreditou em tudo o que eu lhe disse e agora está ajudando as Encalhadas.

-Sempre ouvi falar muito bem do professor Augusto. Nunca engoli essa história de que ele se aproveitava das garotas.

-Até porque no caso dele, eu lhe garanto, elas é que cairiam em cima se ele desse uma oportunidade, mané! E eu presenciei o quanto ele tentou resistir aos encantos da Lanísia. Mas minha amiga é determinada demais, provocou tanto que o homem abandonou toda a cautela e entregou-se ao amor... Queria lhe pedir desculpas pelo comportamento do Harry. Eu deveria ter dito a ele que não havia chance de conquistá-lo.

-O problema é que você também gostaria que acontecesse, não é? Você amou demais ele e o Colin.

-Havia tanta dificuldade, tantas críticas. Acho que, no fim das contas, isso dá força a uma relação.

-Alone, eu não tenho vontade de substituir o Colin, nem poderia, porque eu quero ficar apenas com você. Mas nada nos impede de pôr em prática tudo o que fazia com eles. Eu consigo fazer ainda melhor.

-Mas havia coisas que homem nenhum faria...

-Contanto que seja o seu corpo em contato com o meu, não me oporia à nenhuma posição – ele pegou a mão dela e levou-a à própria virilha. – Sente isso? Você me enlouquece. Podemos incluir alguns brinquedos eróticos, fazê-la ter a sensação de que está com dois homens. Eu posso enfiar um consolo bem longo no meio das suas pernas enquanto você brinca no meu com os seus lábios... – ele forçou-a de encontro à parede da casa e deu-lhe um beijo, as línguas tocando-se, dentes roçando com pequenas mordidinhas. – Deixo-a explorar meu corpo inteiro. Não tenho censura, desde que esteja apenas com você – ele guiou a mão dela ao seu traseiro; Alone apertou, sentindo-o por cima do tecido da fantasia.

-Seu pervertido – ela riu.

-Isso a excita, não é? – ele colocou um dedo na boca dela; Alone chupou-o e mordiscou. – Essa perversão misturada com o perfil angelical que sempre atribuiu a mim. Mas pode ter certeza, comigo você não sentirá falta de nada. Pode apalpar o que quiser, meter a língua onde lhe der na telha, fazer tudo o que a sua imaginação for capaz de criar.

-Gostei. Mas você fala demais, Adam, e não faz – ela deslizou a mão por cima do peitoral dele. – Só sabe me deixar na vontade.

-É pra você aprender que eu não preciso de muitas palavras pra te acender inteira – ele arrancou-lhe a máscara de Mulher-Gato; Alone sacudiu os cabelos longos e negros, finalmente livres.

Adam puxou o zíper da roupa negra de látex, o suficiente para olhar os seios claros de Alone. As auréolas rosadas intumesciam-se ao seu toque; Adam tocou-os, apertou-os, enquanto cobria de beijos os ombros da garota, que sentia o corpo estremecer de tanto prazer.

-Adam... Adam, pare, precisamos ficar atentos...

-Afaste-me, se for capaz – ele respondeu, os olhos azuis cintilando por baixo dos cachos do cabelo, desaparecendo depois enquanto ele cobria um dos seios com beijos e sugadas.

Ela descobriu que não era capaz de parar.

Estendeu as mãos e as longas unhas arranharam as costas de Adam. O tecido fino da fantasia rasgou-se em tiras finas; Alone aproveitou para encarnar de vez a fantasia de Mulher-Gato e percorrer a pele dele com profundos arranhões, que ficaram mais intensos quando Adam terminou de descer o zíper da fantasia e ela sentiu o vento da noite chocar-se contra a sua intimidade, profundamente molhada àquela altura.

De repente, não tinha apenas a língua de Adam dentro dela; o rapaz praticamente enfiara o rosto entre suas pernas. Alone sentia a língua penetrar-lhe, a barba rala roçando sua intimidade, os lábios de Adam de encontro aos seus lábios íntimos, sugando-os.

Ela deixava profundos vergões nas costas dele, com seus arranhões felinos, mas queria que ele sentisse na pele a excitação que transmitia a ela; era realmente algo animalesco, selvagem; as marcas de suas unhas comunicavam isso.

Esticou um dos pés e tocou com ele a intimidade de Adam, rígida por trás da sunga vermelha de Super-Homem. Roçava os dedos nele, movimentando-os de um lado para o outro; viu que ele pulsou, reagindo ao contato, o formato tornando-se cada vez mais visível.

Alone gemia, incapaz de controlar-se; em sua visão turva, olhou para o lado do celeiro onde o moinho continuava a girar preguiçosamente, julgando ter ouvido um barulho ali.

Reconheceu o professor Augusto de imediato; segundos depois ele colocou a máscara e ocultou o rosto, desaparatando em seguida com um estalo.

-Pare, Adam – ela pediu, pousando o pé no chão.

-Não posso acreditar que vai interromper agora...

-Não consigo pensar com esse seu movimento labial bem na "danada", mané! Por favor, acho que sei onde a Lanísia está.

Frustrado, Adam levantou-se, puxou um lenço e secou os lábios.

-Que droga! – exclamou, revoltado e todo babado.

-Não nos afastamos das garotas para transar, estamos aqui para ajudar a Lanísia.

-Nunca antes interromperam a minha língua.

-Nunca mandaram você calar a boca?

-Quando está de encontro a esse tipo de lábios, não mesmo!

-É, mas você nunca chupou uma garota que faz parte de um grupo constantemente perseguido por um semimorto. O objetivo maior me chama, preciso focar nele! – ainda assim, ela não resistiu e riu ao olhar para baixo. – É decepcionante quando achamos que vai acontecer e algo atrapalha, não é? Acho que dei o troco por você ter me animado e em seguida me largado durante o Baile.

-Bom, preciso relaxar agora, será que dá pra fechar a sua fantasia? Seu corpo nu na minha frente não está ajudando...

Os dois riram enquanto Alone puxava o zíper para cima. Ela apanhou a máscara e colocou-a.

-E então, onde a Lanísia está? – indagou Adam.

-Considerando que Augusto acabou de sair do celeiro com a camisa estropiada e os cabelos tão despenteados, quase um cosplay de Incrível Hulk após a transformação, ela deve estar lá dentro. Que tal irmos até lá conferir?

Os dois deram-se as mãos e estavam prestes a deixar as sombras do casarão escuro quando ouviram mais um "craque". Quase no mesmo lugar em que Augusto havia desaparatado, Ted Bacon aparatou, com um sorriso largo cheio de dentes podres, a face carcomida coberta por pequenos vermes.

Ted avançou determinado para o celeiro.

-A Felix Felicis deve ter dado a dica para ele. Lanísia é tudo o que Ted mais deseja nesse mundo – disse Alone.

Adam puxou a varinha.

-Precisamos mandar o recado às suas amigas.

-"Centelhas bifurcadas no ponto em que Lanísia for encontrada", é isso aí. Mantenha-as no ar até que as garotas apareçam, Adam – aconselhou Alone.

Ele assentiu e disparou; as luzes espocaram a partir da ponta da varinha erguida no ar, num fio único e luminoso, e depois se bifurcaram bem no alto, jorrando em cascata à direita e à esquerda, o vermelho e o verde derramando-se em diferentes direções.


Momentos antes, enquanto Alone e Adam interrompiam as buscas para iniciar a pegação, Serena, Joyce e Hermione, acompanhadas por Jennifer Star, continuavam a procurar por Augusto e Lanísia na floresta.

-Vocês ouviram que coisa horrível o Ted contou? – perguntou Serena, a varinha acesa diante do rosto, desviando-se de uma teia de aranha que estava ligada a duas árvores.

-Sim. Seu pai era um chifrudo – disse Joyce.

-Joyce, essa não é a maneira mais delicada de explicar essa quebra de galho na árvore genealógica dos Bennet – disse Mione. – Isso ofende a Serena...

-A árvore perdeu um galho, mas Brian Bennet ganhou uma galhada e tanto – zombou Joyce, usando os braços para simular chifres atrás da cabeça.

-Essas brincadeiras realmente me machucam, Joyce... – choramingou Serena, voltando-se para Jennifer. – O que é a árvore genealógica?

-Você... não sabe o que é?

-Não. Nos terrenos da mansão do papai temos ipês, salgueiros, mas não lembro de ver genealógicas plantadas por lá – disse Serena.

-Não, não se trata de uma árvore assim, Serena.

-É uma mudinha?

-Não... No caso, as garotas estão se referindo à árvore genealógica dos Bennet, essa família tão tradicional e de tantas posses à qual você julgava pertencer. A árvore remonta à ascendência dos Bennet, traçando toda a sua genealogia através dos tempos mais remotos.

-Pois é, você era um "galho" dessa árvore por ser o fruto da união entre Brian Bennet e Florence – completou Mione. – Agora descobrimos que você não tem sangue Bennet correndo nas veias, ou seja, não pertence à árvore da família.

-Isso é injusto! Eu... Quero voltar a ser um fruto Bennet!

-Já caiu da árvore, desista – replicou Joyce.

-Lewis é um Bennet e eu não... Preciso aprender a lidar com isso – Serena suspirou. – Não é todos os dias que descobrimos que o meio-irmão com quem namoramos na verdade não é nosso irmão e o nosso pai vira sogro.

Percebendo que Jennifer franzira a testa e tentava acompanhar o raciocínio, Mione sacudiu a cabeça:

-É um bocado confuso mesmo, nada é muito normal por aqui.

-Quem será o meu verdadeiro pai? – perguntou Serena.

-Augusto? – sugeriu Mione.

-Oh, aí seríamos irmãs, Serena, não seria o máximo? – comemorou Joyce.

-Por que Augusto? Endoidou, Mione?

-Oras, Serena, sabemos que o professor Augusto só produz filhas e andava diversificando muito antes de ser laçado pela Lanísia – disse Mione. – Ele era bem safadinho.

-Não posso ser filha do Augusto, não tenho essas bundonas dos Welch – Serena apontou para o derrière de Joyce, realçado pelo vestido curto de Betty Boop.

-O professor Augusto tem um bundão né? – falou Jennifer.

-Querida, é tanta bunda que eu sempre sentava na primeira carteira e vivia derrubando a minha pena no chão e pedindo para que ele pegasse para mim – disse Joyce. – A sala fervia quando ele se agachava.

-Mas ele não é o seu pai? – perguntou Jennifer.

-Eu não sabia! Até hoje preciso conviver com a culpa de ter sido gerada pela bilonga cujo volume eu ficava admirando durante as aulas!

Como Jennifer continuava olhando-a horrorizada, Joyce apontou para Serena.

-Ela transava com o Lewis mesmo achando que ele era irmão dela, foi sim, essa garota aí fantasiada de... de Barbie Esportista e... e... míope – apontou para os óculos brancos e exagerados.

-Penélope Charmosa, ao seu dispor – rebateu Serena. – E em minha defesa eu digo que... eu e Lewis fazíamos brincadeiras inocentes e comuns entre irmãos...

-Irmãos da Grécia antiga, só se for! – disse Joyce. – Admita, você e Lewis transavam, praticavam incesto!

-Nunca transamos em cesto, preferíamos em cama, em sofá e em pufes! – Serena tapou a boca e olhou para Jennifer. – Tá! Confesso, nos pegávamos mesmo. Mas me apaixonei por Lewis quando não sabia que ele era meu irmão. Do nada aquele louro charmoso e lindo de morrer virou fruto proibido. Eu fui lá e mordi... Mas, olhem só, agora descubro que ele não é tão proibido assim. Lewis voltou a ser um cara com quem posso trepar em pleno Salão Principal...

-Fazem isso em Hogwarts? – perguntou Jennifer.

-Não, estou brincando...

-Se for com cuidado, dá pra fazer gostoso – respondeu Joyce ao mesmo tempo. Diante dos olhares perplexos de Serena e Mione, explicou. – Ah, vocês não lembram? Eu sentada no colo do Juca, comendo um pudim de chocolate.

-Eu não disse que o pudim não estava tão delicioso para justificar aqueles gemidos? – perguntou Mione para Serena.

-E Juca então não estava suando e virando os olhos por estar sofrendo com uma unha encravada – disse Serena. – Como pudemos ser tão tolas?

-O creme espalhado no chão, em que eu escorreguei, não era creme da torta? – perguntou Mione.

-Não, foi diretamente produzido pelos testículos de Juca Slooper – disse Joyce.

-Argh! – Mione ficou enojada. – E depois ainda fiquei semanas traficando creme de chantily da cozinha, pensando que fazia bem para os poros, porque considerei minha pele sedosa depois de espalmar na meleca... Por isso só funcionou naquela noite... era sêmen de nerd!

-Sêmen faz bem pra pele? – indagou Serena.

-Hum, é por isso que eu nunca tive acne – disse Joyce, acariciando as bochechas lisinhas.

-Você vai deixar o Axel Carver explodir assim no seu rosto? – perguntou Serena.

-Axel Carver pode até vomitar em mim – respondeu Joyce. – É tão gratificante perceber que, quando Juca topar viver uma relação aberta, poderei transar com um popstar!

-Vocês valorizam muito essas coisas – disse Jennifer. – Ele é um homem como outro qualquer.

-Não, ele é especial – insistiu Joyce. – Nunca dormi com um cara que estampasse a capa de uma revista. Um cara por quem as jovens do mundo bruxo inteiro suspirassem... e, veja só que privilégio: garotas tontas admirando uma foto dele com um exemplar do Semanário das Bruxas nas mãos, eu passo, aponto a fotografia e digo: "esse tem a pegada; já experimentei". Oh, será fantástico!

-Será que a Lanísia faz isso quando percebe alguém com um exemplar de um jornal com a foto do Augusto? – perguntou Serena.

-Claro, ela aponta pro pôster de "Procura-se" e diz que vivia se engalfinhando com o professor foragido e estuprador – debochou Mione. – Óbvio que não, Serena. Não é a mesma coisa.

-Axel será especial por isso – falou Joyce. – E por realizar meus sonhos, claro: sempre tive ilusões de estar perto dele, o deus grego da música bruxa. E Juca, meu marido... Juca nunca estampará um pôster duplo de nu frontal. Metade de uma página seria suficiente para mostrar tudo, se é que você me entende... – deu uma cutucada com o cotovelo em Jennifer.

-Joyce, caso o ego de Axel fosse visível, seria preciso um pôster gigantesco para exibi-lo por inteiro – afirmou Jennifer. – Ele não é essa maravilha que aparenta, isso eu posso garantir. Esse mundo do showbizz tem suas armadilhas. O cantor simpático e talentoso vira uma pessoa desprezível quando não está sob os holofotes.

-Ele me contratou como assessora e não percebi esses defeitos...

-Supervalorizar o ídolo é normal. Mas observe com mais atenção e perceberá que ele não tem essa aura de perfeição.

-Não concordo. Eu admiro você pra caramba, curto suas músicas, mas isso caiu por terra desde que vi seu ataque psicótico que quase decepou os dedinhos da Serena. Tento lembrar da sua figura imponente no palco, mas tudo o que vejo são seus olhos esbugalhados e sua boca torta de serial killer. Passou de cantora à louca psicótica.

-Mas você sabia que eu era bipolar?

-Não.

-Exato, porque isso poderia ser prejudicial à minha carreira. É isso o que nós, artistas, fazemos com detalhes potencialmente explosivos. Deixamos o pavio aceso, mas bem escondidinho. Axel ganancioso e prepotente não é vendável; o Axel príncipe encantado, belo e humilde, vende revistas, popularidade e sonhos.

Joyce considerou aquilo.

-Faz sentido, mas Axel Carver é Axel Carver, a lenda. Eu não vou casar com ele mesmo. É só uma farra com um popstar, uma experiência inédita pra mim, e olha que não tem muita coisa que eu ainda não tenha provado nessa vida. O que importa é que aquela barriguinha, sorriso perfeito, cabelos dourados e peitoral durinho são extremamente vendáveis pra mim. Vou me esbaldar...

-Como sabe que ele vai querer transar com você? – perguntou Hermione. – Tem tanta fã em Hogwarts querendo dar pra ele.

-Como sou assessora, tenho acesso privilegiado aos aposentos dele no castelo, portanto vou me infiltrar no quarto e esperá-lo, nua, sobre a cama, com as pernas arreganhadas, enquanto acaricio o meu corpo untado em óleos aromáticos, passando os dedos pelos meus seios brilhosos e de mamilos intumescidos, ao mesmo tempo em que inclino o meu corpo em movimentos circulares.

Mione suspirou enquanto Joyce acariciava o colo.

-É, você vai mesmo transar com o Axel – admitiu.

-Minha "amiguinha" piscou só em imaginar – falou Serena, apontando para a virilha. Olhou para Jennifer. – Axel é vidrado por você. Nunca teve nada com ele?

-Não. Eu sou tremendamente apaixonada por um cara... desde então não consegui mais ficar com outro homem, mesmo que seja um popstar.

-Você está com esse cara? – perguntou Mione.

-Não. Não seria adequado para uma cantora. Na verdade, nem para uma bruxa comum, muitas repudiam essa classe de bruxos... – ela tomou fôlego. – Me enxerguem como uma cliente das Encalhadas, não espalhem o que vou lhes contar, por favor... Lucas, esse rapaz que eu tanto gosto, ele é... um aborto.

-Mas abortos não chegam a nascer, como ele pode ter nome e ainda lhe deixar apaixonada? – indagou Serena.

-Abortos são bruxos sem poderes mágicos, estúpida, esqueceu? – perguntou Joyce. – Considerados a escória. Tão ralés que muitos, iguais a você, até desconsideram a existência.

-Foi mal, esqueci por um momento, mas lembrei agora – retrucou Serena. – Filch é um aborto. Ele é o zelador de Hogwarts, Jen.

-Conseguiu um emprego como zelador, não é? Pois é... Mas alguns bruxos abortados... Na verdade, a maioria, não consegue um bom posicionamento. Isso aconteceu com Lucas. E o ramo em que ele atua é o segundo fator que me impede de ficar com ele...

-E o que o Lucas faz da vida? – perguntou Mione, intrigada.

Jennifer hesitou e, quando estava prestes a responder, as luzes lançadas pela varinha de Adam iluminaram o céu a alguns metros.

-A quem pertence esse sinal? – perguntou Serena olhando para a cascata dupla de centelhas vermelhas e verdes. – Conheço a Marca Negra de Voldemort, o morcego de Batman, mas não sei qual herói dispara centelhas luminosas. Será o Peter Pan?

-No nosso caso, é coisa da Mulher-Gato ou do Super-Homem – disse Mione. – Adam e Alone encontraram a Lanísia.

-O sinal está perto do celeiro – observou Joyce, apontando para o moinho.

-Vamos aparatar diante dele! – disse Jennifer, mas Mione segurou-a por um momento.

-Tem certeza de que quer nos acompanhar? Talvez o Ted ainda esteja por aqui, pode ser perigoso.

-Deixar-me entregue ao roteiro indeterminado da vida é um presente, Hermione. Há muito tempo não tinha uma noite tão emocionante. Eu quero acompanhá-las. Por favor.

Hermione sorriu.

-Tá bom. Mas com uma condição: queremos ouvir Palavras mágicas à capella, numa apresentação exclusiva para as Encalhadas depois que essa noite terminar.

-Deixa comigo, desfio toda a setlist do show só para vocês!

-Nossa, vamos nos sentir especiais! – exclamou Joyce, empolgada.

Para Jennifer Star, aquilo era ótimo. Poderia, assim, retribuir a maneira com que as garotas, que deixaram a segurança de Hogwarts para salvá-la e a deixavam à vontade para ser ela mesma, faziam-na sentir-se...

Especial.

Em conjunto, todas desaparataram.


Lanísia acabava de colocar o vestido vermelho de Jessica Rabbit quando ouviu a porta do celeiro abrir-se. Imaginando que fosse Augusto, voltou-se com um sorriso no rosto:

-Será possível que já ficou com saudade...?

Ela estancou, horrorizada, quando olhou e viu que era Ted. Ele estava à beira da decomposição; Lanísia via um verme contorcendo-se e entrando por um dos orifícios do nariz carcomido; a boca contava agora com poucos dentes amarelados e podres; a língua estava escura, dilacerada; os olhos de escleróticas amareladas contemplaram o corpo da garota, desejosos.

-Está linda... Não precisa temer, minha gata. Essa aparência aqui é temporária. Estou certo de que uma pequena melhora irá advir quando a Magia do Aprisionamento terminar... Eu não era exatamente um galã quando transamos e você gostou.

Lanísia tremia dos pés à cabeça, vendo-o aproximar-se.

-Vou levá-la comigo e seremos só nós dois, para sempre...

Ela forçou um sorriso, jogando a franja avermelhada sobre o rosto. Largou os sapatos no chão, aproveitando para olhar ao redor. Considerava as suas chances; não estava com a varinha, mas podia surpreendê-lo. Para Lanísia, o desejo voraz por sexo era a fraqueza masculina, e Ted a desejava acima de tudo.

Notou que havia um rastelo apoiado contra uma pilastra de madeira.

-Tudo bem, Ted, eu vou com você. Mas, antes eu posso... posso calçar os meus sapatos?

Ele assentiu, desconfiado.

Lanísia curvou o corpo, fingindo que ia se agachar para apanhar o par de sapatos roxos. Rapidamente, alterou o movimento, agarrou o rastelo e girou-o na direção de Ted.

Como se tivesse antecipado o seu ataque, Ted agachou-se e agarrou-lhe o braço.

-Péssima noite para tentar me enganar. Hoje você não me escapa, Lanísia. Posso prever cada um dos seus gestos.

-Será que consegue se tiver que prever o ato de mais de uma pessoa?

Ted arregalou os olhos, voltando-se para a entrada do celeiro. Serena, Joyce, Alone, Adam, Hermione e Jennifer passavam pela porta, todos de varinhas em punho.

-Droga... – ele praguejou, soltando Lanísia e sacando a varinha.

A Poção da Sorte lançou dicas conflituosas em sua mente; atordoado, Ted preferiu voltar-se para o grupo numeroso e tomou um golpe de rastelo do lado da cabeça, desferido por Lanísia.

O rosto assustador do bruxo mergulhou de encontro ao feno que se espalhava pelo piso de madeira.

-LANÍSIA! – gritaram as Encalhadas, entrando no celeiro ao lado de Adam.

-Você está bem? – perguntou Hermione.

-Sim – ela jogou o rastelo no monte de palha. – Como ele descobriu onde eu estava? O que está acontecendo?

-Longa história – disse Joyce. – Ele está com o frasco com a qualidade da Serena, veja se consegue pegar do bolso dele.

-Ah, certo! – Lanísia curvou-se e enfiou a mão no bolso da capa de Ted; finalmente seus dedos fecharam-se em torno do frasco. Ela ergueu a mão e mostrou-o às amigas. – Aqui, está comigo!

Ted despertou com um grunhido, saltando sobre o corpo da garota no momento em que ela ia correr para as amigas, derrubando-a ao cair sobre ela. O frasco rolou pelo chão do celeiro ao escapar dos dedos de Lanísia.

-Quando você vai parar de fugir, Lanísia, e entender que nunca a deixarei em paz? Você será minha, custe o que custar...

-Isso, Mione, pegue o frasco, saiam daqui! – gritou Lanísia à amiga.

-O quê? – indagou Ted, olhando perplexo para Mione, que se agachava para recuperar o frasco com o fragmento da alma de Serena. – Nãooo! – mirou a garota, que jogou o frasco para Alone segundos antes de ser estuporada; o raio de luz vermelha ergueu Hermione no ar e lançou-a para fora do celeiro.

-Jen, leve a Lanísia daqui, ela está grávida, não pode passar por isso. Veja também se a Mione está legal – avisou Joyce para a cantora, que recuou discretamente em direção à porta ao lado de Lanísia.

Joyce olhou para Alone; a garota fantasiada de Mulher-Gato passou bem perto dela; elas, então, seguiram em direções diferentes.

Ted perguntou-se: Alone passou o frasco para Joyce?

Com qual delas estaria o frasco?

Enquanto refletia, o bruxo desviou-se de um feitiço lançado por Alone, escondendo-se atrás de um barril, que explodiu em lascas de madeira, jorrando vinho sobre o piso. Ted rolou o corpo no chão e apontou a varinha para a garota, desarmando-a; a varinha de Alone voou no ar, perdendo-se no fundo do celeiro.

Ted tentava descobrir com qual Encalhada estaria o frasco; quando Joyce e Serena deram-se as mãos e depois se soltaram, a intuição da Poção da Sorte lhe avisou que devia desprezar Alone e atacar as duas.

-Crucio! – a maldição errou as garotas, que se desviaram da saída do celeiro, alterando o percurso, mas deixaram o vão livre para Adam, que foi atingido em cheio; o rapaz caiu no chão sobre a capa vermelha de Super-Homem, urrando de tanta dor.

Serena e Joyce, por sua vez, subiram a escada que levava ao patamar superior, localizada perto da porta, o frasco tão cobiçado guardado no bolso da fantasia de Serena. Ted correu; ia estuporá-las, mas, ignorando a calma que a Poção da Sorte recomendava, escorregou no vinho, caindo de bunda no chão.

-Não vão escapar, vagabundas! – vociferou Ted, levantando-se e correndo para a escada.

Ele subiu aceleradamente pelos degraus de madeira; suas mãos em decomposição deixaram resquícios de pele presos à escada.

No patamar superior do celeiro, Serena e Joyce, que conseguiram uma relativa vantagem na fuga, separaram-se, cada uma seguindo por um lado. Tinham uma boa visão de Ted, que ficou à mercê, de costas, subindo os degraus. Serena, então, ergueu a varinha para surpreendê-lo.

Mas a noite do cosplay e a vontade de incorporar a personagem fez com que ela resolvesse avisar de antemão o que pretendia fazer...

-Sou a Penélope Charmosa e vou estuporá-lo com meu super raio luminoso para detê-lo! – gritou.

Ted levantou o rosto; localizando as garotas, apontou a varinha e, segurando-se aos degraus com uma das mãos, lançou na direção de Serena:

-Avada Kedavra!

Serena apavorou-se com o jorro de luz esverdeada, agachando-se para se proteger atrás da mureta de madeira.

-Não precisa avisar o que vai fazer, sua tonta! – gritou Joyce.

-Super-heróis sempre antecipam os seus atos.

-Você não é uma heroína, nem está fantasiada igual a uma! – replicou Joyce, aos berros.

Ted terminou de subir as escadas e escutou os sussurros da Felix Felicis.

Serena... Serena... você quer a Serena...

Então o frasco estava com ela.

Ted virou-se para o lado de Serena, percorrendo o patamar e vencendo a passos largos a distância que os separava.

A garota subiu na mureta e tentou manter o equilíbrio. Estava sem saída. Pulou, então, para o único meio de fuga que possuía – as grossas vigas de madeira que cortavam o teto em diferentes camadas. Serena agarrou a mais próxima e içou-se para cima dela.

-Volte aqui, garota! Será menos doloroso se desistir agora – disse Ted, tomando impulso e subindo na mesma viga.

Serena já estava na metade, equilibrando-se precariamente, o frasco de vidro na mão.

-Se chegar muito perto, eu lanço o frasco lá embaixo! – ameaçou, embora a voz tremesse ligeiramente.

-Menina tola, a mais lerda das Encalhadas mesmo! Esse frasco não pode ser quebrado, esqueceu? Mas você, sim, pode se quebrar inteirinha durante a queda... Se não devolver por bem, fará isso por mal.

Ted, então, agachou-se e tocou a varinha na superfície da viga.

-Passe o frasco agora ou vou espalhar chamas por essa viga. Não tem escolha, Serena. Seja inteligente, ao menos uma vez, e me passe a sua qualidade.

Ela lançou um olhar receoso para o chão – estava a cerca de dez metros do solo – sentiu-se entontecer e, então, engoliu em seco.

Sem falar, aproximou-se lentamente de Ted, passando o frasco para as mãos dele. Ted agarrou o frasco firmemente, enquanto em sua mente, a Poção da Sorte sussurrava:

Olhe para cima... olhe para cima...

-Boa menina – elogiou o bruxo.

-É exatamente o que eu estou pensando agora – Serena sorriu enquanto recuava, olhando exatamente para onde a poção o aconselhava a olhar.

-O quê? – indagou Ted, confuso, olhando por cima do ombro.

Tarde demais.

Joyce desceu da viga acima e pulou nas costas de Ted que, com o susto, deixou a varinha e o frasco caírem.

-Não vai matar a minha amiga, não vai! – berrou Joyce.

-Me solta!

-Cuidado, Joyce! – gritou Serena, mas seu aviso foi inútil.

Ted se desequilibrou, segurando-se na viga desajeitadamente enquanto o corpo ficou solto no ar, tendo Joyce agarrada às suas costas, as pernas balançando no vazio.

Apavorada, Joyce olhou para baixo.

O piso estava a dez metros de distância; Adam ainda estava caído, tremendo convulsivamente após a dor provocada pela maldição lançada por Ted; Alone procurava a varinha; Hermione ainda devia estar desacordada após ter sido estuporada; Jennifer levara Lanísia para um lugar seguro; e, de qualquer forma, ninguém podia lançar um feitiço ali de baixo, correndo o risco de acertar Joyce no lugar de Ted.

-Se tentarem algo contra mim, eu me solto dessa viga e a amiga de vocês está morta, ouviram bem? Morta! – berrou Ted, ofegante, lançando ameaças contra possíveis reações.

-Não, Ted, SEGURE-SE! – gritou Joyce.

Escutou um estalo ensurdecedor. Viu as fissuras surgirem na base da viga. E então compreendeu...

A viga estava prestes a partir-se.

E lançar para a morte a líder das Encalhadas.


A mente de Ted, revestida pelo poder da Felix Felicis, deu a dica para que ele argumentasse com a garota loura que o olhava da viga superior:

-Serena... Não tem escolha: precisa me salvar primeiro. Tem que me socorrer junto com a Joyce, ou morreremos os dois!

Ele estava preparado para subir na outra viga e, assim que todos estivessem sãos e salvos, matar as duas; jogaria Serena e Joyce ali de cima, eliminando-as.

Mas Serena não sabia disso; tudo o que sabia era que precisava salvar Ted para conseguir salvar Joyce. Ted estava certo; não tinha opção.

A Encalhada curvou-se, trêmula, tentando se equilibrar na viga, e estendeu a mão para Ted.

Ele agarrou-a com firmeza no instante em que a outra viga partiu, mantendo-se no ar pelo braço de Serena enquanto os pedaços de madeira caíam ao seu redor.

Mas...

Algo errado aconteceu.

Ted sentiu no mesmo momento; um formigamento expandiu-se a partir das mãos, nascendo do toque entre os seus dedos e o corpo de Serena. O formigamento espalhou-se rapidamente pelos seus nervos, iniciando pontadas agudas de dor.

Imóvel, colado à mão da garota, Ted sentiu Joyce escalando o seu corpo, tomando impulso em seus ombros, depois segurando em Serena e precipitando-se sobre a viga, segura.

Ele permanecia acometido por aquelas dores lancinantes, preso à mão de Serena; o que era aquilo?

-Sua Poção da Sorte estava certa em lhe indicar que era minha a mão que poderia livrá-lo da morte – disse Serena. – Mas havia uma falha nisso tudo... – ela torceu a mão para que ele olhasse para a pedra azulada do Anel do Vínculo Eterno. – Não posso tocá-lo; você não é Draco Malfoy!

A dor tornou-se insustentável; sem fôlego, sem alternativa, Ted desprendeu-se da mão de Serena, soltando-a, para então cair no vazio.

Serena e Joyce viraram o rosto, não querendo presenciar o momento em que o corpo de Ted se estatelasse lá embaixo.

Mas o impacto não aconteceu.

Um clarão ofuscante iluminou o celeiro.

O corpo de Ted levitava a meio caminho da queda, trespassado por uma luz intensa que as Encalhadas conheciam muito bem.

Serena só teve tempo de descer da viga na segurança do patamar antes da nuvem A negra atingi-la após deixar o corpo de Ted, restituindo-a da qualidade perdida, sua racionalidade, o pensar duas vezes, o respirar fundo, o traçar planos-metas-sonhos, tudo antes de dar qualquer passo.

A vida deixava Ted.

E retornava para Kleiton Huggins no Mundo dos Espelhos.


Aaron Raccer entrou derrapando em um longo corredor do castelo. Olhou para trás, mas Kleiton não estava em seu encalço. Devia sentir-se seguro, mas não fazer ideia de onde o bruxo estava só servia para aumentar-lhe o medo.

Enquanto avançava velozmente pelo corredor, ouviu um estalo alto e Kleiton Huggins materializou-se alguns metros à frente, as mãos cruzadas às costas, todo vestido de negro.

Aaron parou de chofre, sem fôlego; Kleiton não podia ter aparatado ali dentro, bruxos normais não conseguiam fazer aquilo em Hogwarts, era impossível.

-Nem sempre o que o reflexo constrói corresponde à realidade – disse Kleiton, como se lesse seus pensamentos.

Kleiton desaparatou e aparatou novamente atrás de Aaron, que berrou, assustado; tentou recuar, mas o bruxo o agarrou pelos cabelos.

-Minha irmã te chupou bastante, hein? Quando eu não conseguia espiar, ouvia os gemidos, as barbaridades que vocês falavam um pro outro. Ela ajoelhava-se pra você, não é?

Kleiton apertou-lhe a nuca com força; Aaron imaginou que ele o queria ajoelhado, portanto agachou-se no piso de pedra.

-E depois, ficava movimentando a cabeça pra frente e pra trás, hum? – indagou Kleiton, movimentando a cabeça de Aaron de encontro à parede.

Uma pontada dolorosa espalhou-se pela testa do garoto, acompanhada de um calor intenso.

-Era assim que aquela vadia fazia, não era? Diga! DIGA!

-Era, era, sim, era – Aaron choramingou. – Kleiton, não precisa me matar, por favor...

-Viver ou não, só depende de você. Se for forte para aguentar tudo o que lhe está reservado...

O som ensurdecedor de uma explosão sacudiu o corredor.

Aaron estremeceu; a urina espalhou-se pela frente da calça. Explosões se sucederam umas às outras; as janelas do corredor estouravam, lançando cacos de vidro para todos os lados e cobrindo tudo com um brilho ofuscante.

E o vendaval começou.

Kleiton soltou Aaron para então agarrar-se à pilastra mais próxima antes que fosse carregado. Aaron pensou em fazer o mesmo quando notou que o vento intenso não o abalava. Arrepiava-lhe os cabelos, enfunava o paletó, mas não chegava a movimentar o seu corpo.

Kleiton, por outro lado, parecia ter sido envolvido pelo próprio tufão, que concentrava as forças em torno dele. A intensidade do vento atingiu tal nível que chegou a erguê-lo do chão, enquanto as vestes praticamente tocavam-lhe o rosto.

Uma nuvem escura espiralou para fora do corpo do bruxo através dos lábios, unindo-se a uma nuvem menor que acabava de passar por uma das vidraças abertas, obscurecendo sua luminosidade por um momento. As duas nuvens tornaram-se uma só, espiralando, contorcendo-se, lembrando uma enorme nuvem tempestuosa.

Nela, Aaron viu surgir a imagem do rosto do professor Augusto, do pescoço para cima, a barba por fazer, os cabelos cheios. Abaixo da cabeça do professor, fiapos de fumaça se dissiparam para formar o traçado de letras que, em conjunto, escreveram:

ÓDIO

Ao lado de Augusto, o rosto de Celine Meadowes rompeu as sombras da nuvem. A professora sorria de modo sensual; novamente, uma palavra brotou da fumaça, desta vez próxima à professora de dança.

LUXÚRIA

Os rostos dos dois encolheram-se; acima deles, no topo, em tamanho maior, surgiu uma representação da face de Kleiton Huggins até o tronco; ele ergueu os braços e cordas de ventríloquo surgiram das sombras; Kleiton então movia Augusto e Celine ao seu bel-prazer, tendo o poder absoluto sobre os dois. Aquela era a representação de um dos desejos que lhe permeavam a alma, e que foi escrito na nuvem, acima de sua cabeça:

AMBIÇÃO

As cabeças de Augusto e Celine se chocaram; as palavras ÓDIO, LUXÚRIA e AMBIÇÃO uniram-se; a nuvem negra, então, formou uma nova palavra, maior do que as outras, na qual todos aqueles sentimentos culminavam:

VINGANÇA

As imagens de Augusto e Celine escoaram pela fumaça, desaparecendo em seguida, no momento em que partículas da nuvem começaram a se solidificar, transformando-se numa areia escura.

Os olhos de Aaron desviaram-se quando pedaços de vidro no chão, restos das vidraças partidas, começaram a se unir; o vidro entortava-se, moldava-se, liquefazia-se para em seguida solidificar-se novamente de maneira mágica, formando dois novos objetos. A princípio, o garoto julgou serem dois funis, mas quando o encantamento terminou, tinha diante de si duas ampulhetas de vidro idênticas, que flutuavam a centímetros do chão, fechadas em cima, mas abertas embaixo.

A areia resultante da nuvem escura flutuou até a extremidade das duas ampulhetas e preencheu-as com a mesma quantidade; em seguida, mais pedaços de vidro uniram-se e lacraram definitivamente os medidores de tempo. Por fim, o vidro recuou em pequeninos pontos para formar na superfície envidraçada os nomes Augusto Welch e Celine Meadowes, um para cada ampulheta.

Os objetos flutuaram até Kleiton, rodeando o corpo dele.

O resto da nuvem de fumaça, completa, com a junção das partículas de alma que esvaíram de Ted Bacon e reintegraram Kleiton, rodopiou para o corpo dele, invadindo-o pelas narinas e pela boca aberta.

No mesmo instante, o vendaval passou a puxá-lo para uma das aberturas luminosas.

Aaron surpreendeu-se ao ver que o corpo do bruxo ganhara um pouco de cor; um dos cacos de vidro que flutuavam abriu um pequeno talho acima da sobrancelha do irmão de Marjorie e o corte esguichou sangue.

Kleiton ficou maravilhado com aquilo, tocando o corte com um dedo, depois cheirando o líquido vital. Mordeu a língua e ficou em êxtase ao sentir o gosto amargo espalhar-se pela boca.

-Estou livre... A maldição acabou! A MALDIÇÃO ACABOU!

Com os dentes manchados de vermelho, sorriu para Aaron e foi engolfado, de supetão, por um dos portais que se abriam para o mundo real, acompanhado pelo par de ampulhetas que não parava de circundá-lo.

O vendaval no corredor se encerrou.

Uma a uma, as luzes nas aberturas das janelas se apagaram, os cacos se ergueram do chão e se reagruparam, cobrindo as vidraças novamente e mergulhando o corredor no mesmo ambiente tépido e sombrio.

-Ele saiu... Isso quer dizer que... Abriram o último frasco!

Aaron aproximou-se das vidraças e espiou. Via no reflexo uma versão viva e colorida do mesmo corredor, o chão coberto por estilhaços de vidro e um grupo de alunos elegantemente vestidos para o Baile, agrupados em torno de um homem caído no chão. Rebecca Lambert, a inspetora, guardou algo pequeno e retangular, que lembrava uma foto, no decote, e só então se aproximou dos estudantes; para Aaron, ela parecia chamar a atenção dos alunos, tentando descobrir quem era o estranho e o que estava acontecendo ali. As duas ampulhetas perderam toda a magia que possuíam no Mundo dos Espelhos ao efetuarem a transposição ao mundo real; estavam em pé ao lado de Kleiton, com a areia nas bases, porém imóveis como ampulhetas comuns.

Aaron, no entanto, duvidava que fossem comuns ou descartáveis, pois Kleiton, assim que ergueu o rosto, agarrou as duas ampulhetas com urgência.

-Kleiton está em Hogwarts, na Hogwarts verdadeira! Ferrou! – exclamou Aaron, assustado. – Então... É quebrar uma janela e sair... Ótimo. Será que o Weasley tá morto? Preciso ajudá-lo... ou tentar, pelo menos... e rápido!

Atrapalhado, Aaron correu de volta ao pátio.

Chegou resfolegando. Rony continuava caído, mas viu que ainda respirava. Pegou a lança que Kleiton arremessara contra ele e investiu contra a janela mais próxima. Uma rachadura revelou-lhe uma réstia de luz; ia dar certo!

Apontou a varinha para Rony e conseguiu fazer com que o corpo do garoto levitasse até ficar bem perto da janela. Pousou-o no chão, registrando o sangue e a palidez do rosto dele.

-Aguenta aí, Weasley – disse Aaron, baixando a varinha, agarrando a lança e investindo contra a vidraça outra vez.

Conseguiu romper-lhe o vidro e a barreira entre os dois mundos. Apontou a varinha para Rony novamente e fez com que o corpo atravessasse o portal, subindo no parapeito para acompanhá-lo. Sentiu na pele a transposição de realidades enquanto ele e Rony saíam na versão original daquele mesmo corredor ao lado do pátio.

Aaron pretendia levar Rony diretamente para a enfermaria, mas viu algo que o surpreendeu de tal maneira que o fez perder a concentração e baixar a varinha, fazendo Rony levitar devagar de volta ao chão.

-Que sorte, Weasley... Que sorte! – exclamou, feliz.

Não fora apenas o corredor que invertera a posição; o buraco no corpo de Rony passara para o lado direito do peito.

Aaron então percebeu que Rony fora ferido exatamente ali, do lado direito, que na versão invertida da realidade tornara-se a parte esquerda do corpo, enganando Kleiton, que julgara ter atingido a metade inferior do coração do garoto – coração que, no Mundo dos Espelhos, pendia para a direita. Para matar Rony lá dentro, a mira de Kleiton teria de ser feita visando o outro lado, considerando a inversão dos corpos, a troca que ocorria em toda a matéria no mundo refletido, aquele local em que a direita fazia-se de esquerda e vice-versa.

Aaron viu Madame Pomfrey e a Professora Sinistra, que conversavam no pátio, se aproximarem, correndo.

-Me ajudem! Rony Weasley está ferido! Ajudem!

Só depois que as portas da enfermaria foram lacradas e Rony foi posto aos cuidados de Madame Pomfrey em estado grave foi que ele lembrou-se, com um aperto no estômago, de que deixara Marjorie Crane no Mundo dos Espelhos...


Augusto entrou na Torre Astral, sorrindo, desfrutando as lembranças dos momentos vividos no celeiro. Celine estava sentada à mesa da cozinha, com os braços cruzados.

-Essa foi a atitude mais insensata de sua vida - ralhou com ele. - Poderia ter sido preso e, se isso acontecesse, todo o meu esforço, o esforço da Minerva, todas as tentativas para protegê-lo teriam sido em vão!

-Fui encontrar alguém que me ensinou que nem sempre a decisão mais sensata representa a melhor opção - seu sorriso alargou-se. - Ah, Celine, nada pode estragar a minha felicidade hoje à noite... O que houve com aquele relógio?

Celine surpreendeu-se com o terror súbito provocado em Augusto e virou-se.

O ponteiro do enorme relógio de parede girava velozmente para trás, em sentido anti-horário, da mesma forma que ele fizera com o relógio de bolso no celeiro. O pêndulo balançava ao contrário, tão rapidamente que parecia prestes a romper-se.

Os ponteiros retornavam horas, minutos, segundos, mas, dessa vez, não era preciso a ajuda dos seus dedos para atrasá-los.

Horrorizado, Augusto olhou para Celine e murmurou:

-Kleiton voltou.


-Não posso acreditar... A Magia do Aprisionamento chegou ao fim! – exclamou Alone, a varinha recuperada na mão, olhando para o corpo que levitava.

-Isso significa que Kleiton está deixando o espelho nesse exato momento – gritou Joyce à amiga lá do topo, debruçada sobre a amurada de madeira.

-Mas... Quem abriria o frasco? – perguntou Serena.

O corpo de Ted descarnou-se ainda mais; diante das garotas, os resquícios de pele desapareciam, secando, expondo os ossos apodrecidos.

Quando toda a energia vital foi arrancada de Ted Bacon, o esqueleto deixou de levitar e caiu cerca de cinco metros, chocando-se contra o piso com um estalido seco; os ossos espalharam-se em diferentes direções; o crânio partiu-se em dois.

-Droga, Ted ia despencar e morrer na queda, mané – reclamou Alone. – Tínhamos a chance de vencer ele e Kleiton ao mesmo tempo! Quem cometeu a burrada de abrir o frasco?

Hermione surgiu, cambaleante; aparentemente, torcera o pé após ser estuporada por Ted. Mas em seu rosto empoeirado havia fúria e incredulidade; ela agarrava uma capa vermelha.

-Ele tentou fugir do celeiro, mas consegui pegá-lo ainda com o frasco na mão.

Ela empurrou o garoto para dentro, enquanto Jennifer e Lanísia surgiam às suas costas.

Alone, Serena e Joyce então viram quem estava ali, com o último frasco da Magia do Aprisionamento aberto na mão e um olhar misterioso no rosto abaixo dos cabelos encaracolados.

O nome formou-se nos lábios de Alone num grito de estarrecimento enquanto ela se perguntava:

Anjo ou demônio?

-Adam!


N/A: *Música que Lanísia cantou para Augusto: "Why don´t you do right", performance de Jessica Rabbit no filme "Uma cilada para Roger Rabbit" (há o vídeo da cena do filme no YouTube)

Quais serão as consequências do deslocamento temporal provocado pela saída de Kleiton? Adam: anjo ou demônio? Mandem reviews e até o próximo capítulo, o capítulo final de "Reflexos".

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