Capítulo Trinta e Sete
Surfacing
(Flutuando)
Harry esfregou a cabeça, tentando diminuir as ondas de tontura que o acertavam. Seu ombro estava queimando e doendo com a sensação de milhares de agulhas minúsculas o furando repetidamente. Ele se dobrou com a náusea causada pela dor, grato pela milésima vez que fora Ginny quem tinha dado a luz às crianças. Ele não teria conseguido lidar com isso.
Entorpecimento se espalhou por seu ombro, e Harry se afundou nos travesseiros com um suspiro trêmulo. Enquanto a náusea diminuía junto à dor, Harry deixou sua mente vagar, examinando e reexaminando tudo o que Sirius e Snape tinham lhe dito, em uma tentativa de decifrar o significado.
- Eles estão malucos. – murmurou.
- Não, não estão. – Lily cutucou o joelho de Harry. – Chega para lá, então. – ela se acomodou na ponta da cama com um sorriso torto. – Você dorme como seu pai, também. – ela lhe disse. – Esparramado pela cama toda, e tenho sorte se consigo centímetros do colchão.
Algo no que ela disse fez Harry se sentar ereto.
- Quanto você pode ver? – ele quis saber.
Lily pigarreou.
- O bastante. – ela respondeu suscintamente.
Harry olhou para sua mãe com horror.
- Eu nunca mais vou conseguir... – ele parou de falar, procurando pela palavra neutra. – Bem, você sabe.
- Oh, você não vai se lembrar da maior parte disso. – Lily disse alegremente. – Será como um sonho que você não consegue se lembrar direito no dia seguinte.
- Quem quer que esteja fazendo isso, precisa encontrar um passatempo bacana. – Harry resmungou. – Mandar pessoas para me falarem que, o que eu preciso saber, está na minha cabeça, mas depois eu não vou me lembrar?
Lily emoldurou seu rosto com a mão. Os olhos de Harry se fecharam e ele se inclinou famintamente contra o carinho maternal.
- Você sabe quem fez isso com você, querido. Já te falaram; apenas precisa procurar.
Harry não abriu os olhos.
- Mas como...? – imagens de um flash prateado de luz passaram atrás de suas pálpebras. Seus olhos se abriram, mas Lily tinha sumido, e o calor de sua mão suave era apenas uma lembrança.
-x-
Ginny esticou os braços sobre a cabeça e bocejou. Olhou para James, que estava esparramado em uma poltrona, lendo os placares de Quadribol para Harry.
- Você vai ficar bem se eu for até a cantina por um momento?
Os olhos de James foram de sua mãe para seu pai por um momento.
- Sim... Acho que sim.
- Quer alguma coisa? – Ginny perguntou.
- Estou bem. – James voltou a ler a narração do que acontecera no jogo da noite anterior, entre Montrose e Kenmare. Quando Ginny saiu do quarto, os ombros de James murcharam levemente. Ele estava exausto. Lily tinha se mexido a noite toda, deixando-o acordado a maior parte do tempo. Lily, também, ele imaginava. Manchas escuras marcaram a pele sob seus olhos, combinando com as sombras que marcavam o seu rosto, assim como o de Al e o de Ginny. James colocou os pés no chão e se inclinou lentamente para frente, até que sua cabeça estivesse descansando na cama, ao lado da mão de Harry. Ele piscou confusamente para o cobertor áspero sob sua bochecha, o jornal escorregando de seus dedos frouxos, e caindo aos seus pés, o quarto sumindo da sua consciência.
Algo roçou na parte de trás de sua cabeça, mexendo o cabelo que apontava para todos os lados. Os olhos de James se abriram e ele segurou o ar, esperando. O leve toque em seu cabelo aconteceu novamente, enviando arrepios por sua espinha. Ele se sentou, virando a cabeça na direção de seu pai, e sentiu o chão sumir de sob seus pés.
Os olhos de Harry estavam abertos. Eram meras fendas verdes, pesados e inchados. Mas ainda assim abertos.
O ar se perdeu na garganta de James.
- Pai? – ele murmurou.
Harry piscou lentamente.
James se ergueu em um pulo, quase derrubando a poltrona quando o fez.
- Não vá para lugar nenhum. – ele disse. – Eu já volto. – ele cambaleou até a porta e a abriu, descendo o corredor. – Mãe! – chamou roucamente. – Mãe!
Harry piscou confusamente algumas vezes — o mais perto de uma risada que conseguia no momento. Pelo amor de Merlin, onde ele acha que eu vou? Harry riu para si mesmo.
Ginny estava sentada em uma mesa pequena e bamba na sala de chá, uma xícara aninhada entre suas mãos. Ela inalou o vapor cheiroso, grata por chá ser a única coisa que o hospital não conseguia estragar. A borda da xícara estava lascada em um lado, e o logo verde claro de duas varinhas cruzadas sobre um osso, estava gasto. Ginny supôs que era o resultado de anos de incontáveis mãos ao redor da xícara. Fazia Ginny se lembrar de um jogo de porcelana que Molly usava quando eles eram mais novos. De algum modo, apenas isso já era reconfortante.
- Mãe! – James passou pelas portas.
Ginny se sentou ereta, quase derrubando a xícara de chá quando tentou deixá-la na mesa.
- O que foi? – ela perguntou ansiosamente.
- É o papai. – James ofegou.
A pouca cor do rosto de Ginny sumiu.
- O que...? – seus dedos se apertaram ao redor da xícara.
- Ele acordou.
Ginny não disse nada, mas afastou sua cadeira tão rapidamente que caiu, enquanto ela se levantava.
- Tem certeza? – ela perguntou, sua mão apertando fortemente o braço de James.
- Tenho certeza.
Ginny desceu correndo o lance de escadas, voltando para o andar de dano por magia, segurando no corrimão para manter seu equilíbrio. A porta da escada foi aberta violentamente quando Ginny passou por ela, correndo pela área de espera, ignorando os membros da família reunidos ali. Ela atravessou o corredor, escorregando até o quarto com James logo atrás.
Harry estava cercado por um time de Curandeiros, que o estavam cutucando, acenando varinhas e murmurando encantamentos.
- Pare... – Harry resmungou, inaudível sob as conversas dos Curandeiros, acenando uma mão cansada e vagamente na direção deles. – Não consigo ver...
- Pode me dizer quantos dedos estou mostrando, senhor? – um Curandeiro aprendiz perguntou rapidamente.
- Não. – Harry respondeu honestamente, já exausto.
- Pode ver qualquer coisa, senhor? – o aprendiz perguntou com histeria crescente.
Ginny parou para pegar sua bolsa, e tirou a caixa dos óculos de Harry. Impacientemente, ela empurrou o aprendiz, murmurando:
- Idiota. – ela colocou os óculos no nariz do Harry. – Melhor? – ela murmurou.
- Mmm-hmmm. – Harry piscou quando o quarto entrou em foco. Seu olhar pousou em Ginny e o canto da boca dele se ergueu em um sorriso torto. – Olá...
Ginny se inclinou sobre a cama até que seu nariz estava quase encostando ao de Harry.
- Me assuste assim de novo, e eu vou te matar. – ela murmurou, sua voz falhando.
O fantasma de uma risada foi sua única resposta.
- Senhora Potter? – o curandeiro encarregado de Harry lhe deu um tapinha gentil no ombro. – Pode sair por um momento? Gostaríamos de terminar nossos exames e, em alguns minutos, ele será todo seu. – ele disse com um toque de ironia, ciente dos vários membros da família que tinham entrado e saído do quarto a semana toda, e, mesmo agora, estavam na área de espera.
Ginny deixou sua testa descansar contra a de Harry por um breve momento, e se se ajeitou com um suspiro pesado. Ela se virou e saiu do quarto, passando um braço ao redor da cintura de James.
- Vamos, Jemmy. Voltaremos daqui a pouco.
James assentiu silenciosamente, engolindo pesadamente, e permitiu sua mãe guiá-lo até o corredor e através das portas duplas, até onde os outros estavam.
- Ginny? – Molly perguntou ansiosamente.
- Ele está consciente... – de repente, os joelhos de Ginny cederam e ela se sentou pesadamente na cadeira mais próxima.
James ficou parado perto da pequena multidão ao redor de sua mãe, respirando rapidamente, a boca se torcendo, enquanto ele tentava não chorar. Lentamente, se afastou e foi até a porta das escadas tão imperceptivelmente quando possível, os pulsos cerrados apertadamente. Com calma estudada, girou a maçaneta e passou pelo pequeno espaço. James desceu alguns degraus e se sentou na ponta de um degrau, com os braços ao redor de seus joelhos. Escondeu o rosto nos joelhos e respirou profundamente.
Ele não ouviu a porta atrás de si abrir, nem percebeu que Teddy tinha se sentado ao seu lado até Teddy cutucar seu braço. James ergueu a cabeça para encontrar um lenço dobrado em frente ao seu rosto. Pegou-o e o esfregou em suas bochechas úmidas.
- Se você contar para alguém que eu chorei, vou te chamar de mentiroso. – James disse sombriamente.
- Não vou contar. – Teddy prometeu. Bagunçou o cabelo de James. – Se faz você se sentir melhor, terça-feira de manhã eu fui para casa e chorei feito um bebê.
James fungou algumas vezes, secando o nariz no ombro de sua camiseta.
- Mesmo? - ele perguntou incredulamente.
- Sim. Na frente da Vic, também. – Teddy se apoiou nos cotovelos, estudando a parede a sua frente. – Eu não sabia o que estava acontecendo. – ele explicou. – E eu estava aterrorizado de que eu perderia... – Teddy respirou fundo. – Que eu perderia meu pai. – disse quietamente.
James o olhou com confusão.
- Mas... Seu pai... – ele parou de falar, envergonhado.
Teddy esfregou o espaço sob seu nariz.
- Meu pai sempre será meu pai. Nada irá mudar isso. Mas o seu pai... Ele me ajudou a virar um homem. – Teddy olhou para as pontas de suas botas. – Não acho que meu pai guardaria rancor de Harry por isso.
James assentiu rapidamente para Teddy.
- Temos que voltar agora? – ele murmurou.
- Podemos ficar o quanto quiser.
James torceu o lenço entre seus dedos.
- Como o seu pai era? – perguntou curiosamente.
- Eu sei apenas o que ouvi nas histórias dos seus pais e Ron e Hermione. E da vó. – Teddy pausou. – Eu o idolatrava quando era mais novo. Aí, eu descobri que ele tinha alguns defeitos, e fiquei bravo com ele por um tempo. Mas superei rápido. Mas ele era uma das pessoas mais gentis que seu pai já conheceu, apesar de ser um lobisomem, ou talvez por ser um. Ele lia bastante. Sempre tinha um livro com ele. Qualquer coisa e tudo. Livros e poesia trouxa. Pesquisas sobre Defesa Contra as Artes das Trevas. Ele sempre parecia um pouco triste. Ou, pelo menos, é o que sua mãe diz. Seu pai diz que ele foi um dos melhores professores que ele já teve. – Teddy deu de ombros. – Coisas superficiais, na maior parte. Eu acho. – a visão de Teddy ficou borrada e ele esfregou a nuca. – Às vezes, eu queria me lembrar do som de sua voz, ou qual era a sensação quando ele me segurava. Ou se ele e a minha mãe teriam gostado de Vic.
Teddy inalou lentamente. Ele conseguia sentir o cheiro do sabão em pó que Ginny e Harry usavam nas roupas de James e o cheiro mais fraco do sabonete que James usara no banho.
- Eu apenas não me prendo nisso. – ele disse. – Se me prendesse, pensaria nisso o tempo todo.
James esfregou uma mão no rosto. Ele conseguia sentir a barba rala em suas bochechas. Ele não tinha se barbeado desde domingo, por que todas as vezes que pegava a navalha, ele via Harry parado atrás de si, pacientemente guiando sua mão por seu rosto.
- Eu ficava pensando, - começou hesitantemente. – que eu nunca... Que ele iria... – James gaguejou.
Teddy apertou o ombro de James.
- Sim, eu sei.
-x-
Hermione sentiu o celular vibrar em seu bolso, e ela deixou a saia que estava dobrando de lado e o pegou. Era Ron.
- Olá.
Ron se escorou na lateral de um ponto de ônibus.
- Ele está acordado. – ele disse simplesmente. – Ele vai se recuperar; só vai demorar um pouco.
Os olhos de Hermione se fecharam.
- Oh, graças a Merlin. – ela murmurou.
Ron olhou para o movimento da rua sem realmente ver.
- Mas estou confuso. – ele disse.
- Por quê?
- Bem, é a mesma maldição que te acertou no quinto ano.
- Certo. – Hermione prendeu o celular entre o ouvido e o ombro, e pegou a saia abandonada.
- Eles falaram que ele devia ter acordado na terça-feira de manhã. Mas já é sábado.
- Teoricamente, ele devia ter acordado. – Hermione disse a Ron. – Depende de onde a maldição acertou. Veja, eu fui atingida no peito e o único motivo de eu não ter morrido foi por que a mira de Dolohov era ruim e não acertou meu lado esquerdo. Mas eu tive um dano enorme no pulmão direito.
- Mas Harry foi atingido no ombro, perto da clavícula... Não devia ter sido tão ruim. – Ron insistiu.
- É o que faz essa maldição tão ruim. – Hermione disse, colocando a saia em uma mala enorme. – É sobre onde atinge.
- Mas cinco dias? – Ron perguntou, confuso.
Hermione se sentou na ponta da cama.
- Depende da pessoa. Harry é mais de vinte anos mais velho do que quando eu fui atingida. – ela disse de modo pragmático. – Mas não sou uma Curandeira, então o que eu sei?
Ron bufou zombeteiramente.
- Sabe tanto quanto um. É de se pensar que existe uma poção ou feitiço que o faria acordar mais rápido.
- Você deve saber a resposta para essa pergunta, Ron. – Hermione lhe disse. – Magia...
- Não resolve tudo, eu sei... – Ron suspirou pesadamente. – Então... Como você está?
- Empacotando as coisas da mamãe.
- Onde está sua mãe?
Hermione olhou para a parede, com culpa.
- Dormindo.
Ron ergueu as sobrancelhas.
- Ela parece estar dormindo muito ultimamente, mulher. – ele riu. – Está colocando poção de dormir no chá dela ou algo assim?
- Erm... – Hermione pigarreou.
- Hermione! – Ron ofegou em choque. – Isso... Isso é antiético!
- Acha que não sei disso? – ela perguntou, tensa. – Mas se puder me falar outra forma de empacotar as coisas dela antes de amanhã à tarde, estou disposta a ouvir.
Ron suspirou e olhou para a rua, observando uma vã de entrega tentar fazer uma baliza no pequeno espaço entre dois carros.
- Não seria a primeira vez que fizemos algo assim... – ele murmurou.
- Usar poções para propósitos inapropriados? – Hermione disse secamente. – Certo. Começamos a fazer isso logo cedo, não é?
- Só um pouco. – Ron concordou com um sorriso. – Então, amanhã, huh?
- Sim. – Hermione desistiu de tentar empacotar e se sentou na ponta da cama. – Eu não sei como contar para ela, exceto falar que vamos nos mudar para um lugar menor, e torcer para que eu possa ir embora, enquanto ela está distraída.
- Meio que me lembra daquela época que Rose estava toda grudenta.
- Sim, lembra. Mamãe só é um pouco maior do quando Rose quando ela tinha dois anos.
Ron sorriu de modo afetado quando o motorista da van desistiu de estacionar naquele espaço e foi para o fim da rua.
- Como é?
- É... Bacana. – Hermione murmurou. – Tem aquários, e alguns cachorros e gatos que moram lá, e os pacientes parecem gostar de tê-los por perto. Ela tem um quarto só para ela, mas pode ser que tenha um colega de quarto mais tarde. Eles os levam para passear às vezes. Tem um jardim nos fundos, com cercas, onde ela pode ficar quando o tempo estiver bom.
- Parece um lugar bacana. – Ron trocou o celular de ouvido.
- Oh? Então, por que ficamos dizendo "bacana"? – Hermione perguntou amargamente.
- O que mais vamos dizer? – Ron retorquiu. – Que é um buraco do inferno?
- Bem, não... – Hermione se deitou lentamente. – Só parece que estamos tentando demais.
- Você está fazendo o que acha ser o melhor para sua mãe. – Ron disse.
- Sim... – Hermione apertou a ponte do nariz. – Eu vou para casa assim que acomodar a mamãe.
Um sorriso apareceu no rosto de Ron.
- Mesmo? – ele perguntou esperançosamente.
Hermione sorriu para a emoção não-tão-escondida na voz de Ron.
- Sim. Lá pela hora do jantar, provavelmente.
- Ei, Hermione?
- Sim?
- Eu amo você...
Hermione fungou e uma lágrima correu pelo canto de seu olho.
- Obrigada. Eu precisava ouvir isso.
- Eu sei.
- Tchau, então. – Hermione fechou o celular lentamente, e guardou no bolso de seu jeans. Levou o pulso até os olhos, vendo a hora. Jane acordaria em algumas horas, e Hermione queria que as coisas de sua mãe estivessem empacotadas e no carro antes de ela acordar. Ela se sentou e pegou outra saia da pilha sobre a cama.
Ela começou a cantarolar sob a respiração, enquanto dobrava a saia e a colocava na mala.
- Now the time has come to leave you/One more time let me kiss you/Then close your eyes I'll be on my way…
-x-
- Onde estamos indo, mesmo? – Jane perguntou nervosamente.
- Estamos nos mudando para outro lugar. – Hermione respondeu, os olhos grudados na rua. – Um lugar menor.
- Mas por quê? – Jane perguntou lastimosamente.
- Aquela casa estava ficando muito grande para apenas nós duas. – Hermione disse tranquilamente, discretamente cruzando os dedos.
- Oh...
- Vai ser bacana. – Hermione disse de forma encorajadora, mas se encolhendo internamente com o uso da palavra "bacana". – Nós não vamos ter de cozinhar nem limpar. Há um aquário parecido com aquele que você tinha.
- Mesmo? – o rosto de Jane se iluminou como o de uma criança. – Oh, eu espero que eu possa alimentá-los...
- Estou certa de que pode. – Hermione respondeu. Ela passou o resto da viagem até o asilo murmurando respostas para sua mãe. Ela saiu do carro e rapidamente foi para o lado do passageiro para abrir a porta de Jane.
Uma enfermeira saiu para cumprimentá-las, se apresentando para Hermione.
- Bom dia. Eu sou Rebecca.
Hermione sorriu fracamente.
- Olá. Hermione. Essa é Jane... – gentilmente, cutucou Jane. – Diga olá, mãe. – murmurou.
- Olá... – Jane finalmente ofereceu sua mão, como uma garota pequena que se lembrava de seus modos.
Rebecca aceitou a mão oferecida e a apertou.
- Gostaria de entrar? Tenho um gatinho que está querendo atenção.
Jane olhou duvidosamente para Hermione, que assentiu.
- Bem, tudo bem, então... – ela permitiu que Rebecca segurasse seu cotovelo e a guiasse pela porta da frente. Hermione abriu o porta malas do carro e tirou a mala de Jane. Uma mão enorme apareceu e pegou a alça.
- Permita-me, senhora. – um homem robusto murmurou. – Há mais alguma? – ele perguntou. Hermione indicou uma mala menor dentro do porta-malas, cheia de fotografias e livros. Ele carregou as malas até a porta, parando brevemente para digitar uma série de números em um painel perto da porta. Um suave click soou e ele abriu a porta. Exausta, Hermione o seguiu para dentro.
- Bom dia, senhora Weasley. – a diretora do asilo a cumprimentou com um sorriso. – Se puder vir aqui por um momento? – ela indicou um pequeno escritório. – Eu preciso que você assine alguns papéis, e depois poderá ajudar sua mãe se acomodar.
- Tudo bem. – Hermione se sentou na cadeira em frente à mesa, e assinou os lugares que a diretora indicou, cuidadosamente estudando os papéis. Era bastante simples; questões de saúde, medicações, alergias. – Uh. Ela gosta de peixes. Tipo os do aquário, quero dizer. – balbuciou. – Ela gosta de alimentá-los.
- Acho que posso providenciar isso. – a diretora sorriu. – Eu sei que você se sente mal com isso, mas vai ficar tudo bem.
- É o que fico me dizendo. – Hermione murmurou.
- Aqui está o código da porta. – a diretora disse, empurrando um pedaço de papel pela mesa. – Ele muda a cada quinze dias, então vamos te mandar um bilhete com o novo código. Apenas as pessoas que você permitir poderão tirar sua mãe daqui. Se algo acontecer com ela, ligaremos imediatamente.
- Obrigada. – Hermione brincou com a caneta que usara.
- Você pode vir vê-la sempre que quiser. – a diretora adicionou. – Levá-la para passear por umas duas horas se quiser. Traga alguns itens de casa para decorar o quarto dela, na próxima vez. Eles parecem gostar disso. E deixa menos institucional. – o sorriso da diretora se torceu levemente. – Mas, entre nós duas, não importa o quão "feliz" você tenta deixar, ainda é emocionalmente desgastante para a família que vem visitar.
Hermione riu em surpresa, colocando a mão sobre a boca em choque. Cuidadosamente, colocou a caneta na mesa.
- Mais alguma coisa?
- Não. Vá desempacotar as coisas da sua mãe. Ela está no quarto 418.
Hermione caminhou pelo corredor suavemente iluminado, tentando não olhar para os pacientes mais graves, que estavam sentados em silêncio, às vezes olhando para o nada, outros murmurando indistintamente sob a respiração. Alguns estavam relativamente lúcidos; conversando um com o outro sabia Godric sobre o que. Hermione encontrou a porta que já tinha o nome de sua mãe, a mala esperando sobre a cama. Jane estava sentada em uma poltrona, gentilmente acariciando um gato laranja e branco.
- Vejo que fez um amigo. – Hermione disse com mais alegria do que sentia. Ela esticou a mão e acariciou a parte de baixo do queixo do gato.
- O nome dela é Peaches. – Jane informou sua filha. – Foi o que aquela garota bacana que me trouxe aqui disse.
- Bem, olá, Peaches. – Hermione disse suavemente. Ela fez uma última caricia no gato, e foi abrir as malas. Ela guardou as roupas de Jane no armário, junto com alguns sapatos e chinelos. Algumas toalhas fofinhas e alguns artigos de higiene pessoal no pequeno banheiro anexo ao quarto. Não era ruim, Hermione cedeu, mas ainda não era o lar dela.
- Hermione? – a voz de Jane soara pequena no quarto relativamente silencioso. – Onde você vai dormir?
- Eu tenho um quarto em outro andar. – Hermione mentiu suavemente.
- Com outras garotas da sua idade, eh? Como na escola.
- Exatamente como na escola. – Hermione pegou algumas fotografias dela com Ron e as crianças, e uma de Jane e Richard de pouco antes de ele morrer, junto com uma foto do dia do casamento deles, e as colocou no pequeno criado mudo ao lado da cama. Uma pequena pilha de livro tinha sido colocada no parapeito da janela. Colocou a mão dentro da mala uma última vez e pegou o cobertor que encontrara no armário na noite anterior. Era o que ficava na cama de Hermione quando ela era criança. Borboletas dançavam sobre um fundo floral. Hermione tinha ganhado como presente de sua avó pelo seu quinto aniversário.
Ao esticá-lo sobre a cama, Hermione percebeu que a diretora estivera certa. Mesmo com todos os toques caseiros que tinha colocado no quarto, era exaustivo, mesmo pela hora que Hermione passara organizando as coisas de sua mãe.
- Certo, mãe, suas roupas estão aqui. – ela disse, tocando a lateral do armário. – Assim como seu roupão. Eu coloquei seus livros favoritos aqui. – Hermione adicionou, correndo um dedo pela espiral dos livros gastos. Ela piscou para afastar as lágrimas que cutucavam seus olhos. – Eu já volto... – rapidamente, Hermione se virou e colocou a mala pequena dentro da maior e a fechou.
Ela pensou que estava com suas emoções sob controle até ouvir sua mãe cantar suavemente.
- So kiss me and smile for me/Tell me that you'll wait for me/Hold me like you'll never let me go./I'm leaving on a jet plane/I don't know when I'll be back again/Oh, babe, I hate to go…
Hermione ofegou e sua mão se apertou ao redor da alça da mala. Lentamente, se sentou no pé da cama de Jane, escondendo o rosto nas mãos. Ela sentiu a cama afundar levemente quando Jane se sentou ao seu lado.
- Qual o problema, querida? Você vai voltar para o feriado de natal...
Hermione se sentou e secou as bochechas com as costas da mão.
- Eu vou sentir sua falta, mãe. – confessou.
- Você vai voltar logo, Hermione. Como você disse. – Jane secou algumas lágrimas das bochechas de Hermione. – Agora. Mais um abraço? – Hermione assentiu silenciosamente, e passou os braços ao redor de sua mãe, incapaz de não segurá-la apertadamente. – Vai dar tudo certo, Hermione. Vai ver. Vai fazer amigos naquela sua escola...
- Espero que sim. – Hermione disse tremulamente. Relutantemente, soltou Jane e beijou a bochecha de sua mãe. – Tchau, mãe. – ela se levantou e cambaleou até a porta, e atravessou o corredor, os braços cruzados ao redor de sua cintura. Ela assentiu uma despedida rápida para a diretora e saiu pela porta da frente. Hermione se sentou do lado do motorista, cruzou os braços sobre o volante e apoiou a testa neles, chorando.
Continua...
N/T: Obrigada pelos comentários no capítulo anterior e até semana que vem!
