Ali estava eu, sentada no meio da luxuosa sala de estar do Tsukasa, com as mãos e o estômago num frenesim, à espera do julgamento final.

A campainha tocou, eu levantei-me, a empregada abriu e eu ouviu-o, muito antes de o ter visto, parecia tão carregado como uma tempestade de inverno.

- Desapareçam todos daqui… imediatamente! – gritou, atirou com qualquer coisa para o chão do hall e entrou na sala. Ficou parado na entrada a fintar-me com um ar tão feroz, que me fez o coração saltar um compasso. – Então vamos lá perceber uma coisa. - começou ele com sarcasmo na voz – Pelo que percebi, tu e o Hanazawa, em menos de 48 horas, conseguiram tornar-se amantes.

- Sabes bem que não foi nada disso que aconteceu.

- Não, pois não, tens razão. Afinal não foi em 48 horas que vocês se tornaram amantes. Foi desde a publicação daquela revista que vocês o são.

- Pára, Tsukasa! Essa história novamente, sabes bem que não é verdade. – ele pareceu ficar ainda mais furioso, avançou sobre mim e agarrou os ombros.

- NÃO, NÃO PÁRO. PENSAS O QUÊ, QUE NÃO PERCEBI O QUÃO DESESPERADA FICASTE QUANDO ELE SE VEIO EMBORA? ACHAS QUE SOU CEGO? – isto não ia correr bem, mas eu também não haveria de ficar calada.

- AI SIM? REPARAS-TE? AINDA BEM. DEVIAS ERA TER-TE PERGUNTADO PORQUE RAZÃO HAVERIA EU DE ESTAR ASSIM? – respondi-lhe, empurrando-o para trás, para que ele me libertasse os ombros.

- EU SABIA QUAL ERA A RAZÃO: TU ANDAVAS A DORMIR COM OUTRO HOMEM. – levou a mão ao peito e depois passou-a pelo cabelo.

- TU VÊS O QUE QUERES. NUNCA TE PASSOU PELA CABEÇA QUE EU ME SENTIA SOZINHA E QUE O MEU AMIGO SE TINHA IDO EMBORA? OU ISSO é pedir DEMAIS PARA O TEU CÉREBRO COMPREENDER.

- ENTÃO EM VEZ DE TE METERES NA CAMA COM O HANAZAWA, DEVIAS TER COMPRADO UM CÃO. – deixei de ver bem, tal foi a descarga de fúria no meu organismo, levantei a mão e direccionei-a para a cara do Tsukasa. Ele agarrou-me o pulso, antes de cumprir o meu objectivo e baixou-me o braço, largando o bruscamente.

- NEM PENSES. NÃO ESTOU AQUI PARA BRINCAR. OUVE COM ATENÇÃO O QUE VAMOS FAZER: VAIS PARAR DE VER O RUI E NÃO VAMOS MAIS FALAR DESTE ASSUNTO, PARA NÃO PIORAR AS COISAS.

- Desculpa, mas acho que não percebi. – sentei-me no sofá, cansada e zonza. Ele deve ter ficado espantado com o meu tom de voz ou com o facto de me ter sentado, pois virou as costas e afastou-se, para encher um copo com whisky.

- O que é que não percebes-te? - perguntou-me com um tom de voz impaciente, segurando o copo na mão.

- Não percebi como é que conseguiste tornar-te tão hipócrita. – cerrou o maxilar, atirou o copo ao chão e mais uma vez avançou na minha direcção, para apoiar os braços na parte de trás do sofá e empurrar-me contra o mesmo.

- O que é que queres que eu te faça? – ele cuspia fogo, a cada sílaba, mas não gritava. – DIZ-ME… - e pronto tinha começado a gritaria outra vez, empurrei-lhe o peito com as mãos.

- Saí de cima de mim, mal consigo respirar.

- DEVIAS TER DITO ISSO AO HANAZAWA. ERA ELE QUEM DEVIA TER SAIDO DE CIMA DE TI, NÃO EU.

- PÁRA, TSUKASA. JÁ CHEGA. EU ERREI. SEI DISSO, LAMENTO IMENSO. NINGUÉM LAMENTA MAIS DO QUE EU… SINTO-ME MAL, SUJA, FÉTIDA E ENVERGONHADA. TU NÃO MERECIAS QUE EU O BEIJASSE, MAS NÃO ME PODES MANDAR FINGIR QUE NADA ACONTECEU, SÓ PORQUE TE CONVÉM. PREFERIA QUE ME BATESSES. – ele saiu daquela posição e afastou-se novamente, pisando o vidro do copo partido.

- SABES BEM QUE NÃO TE POSSO BATER. – confessou, com as mãos nas ancas. Claro que não me podia bater, mais uma vez as aparências eram mais importantes do que qualquer outra coisa. - EU AVISEI-TE, QUE NÃO O DEVIAS PROCURAR. ELE USOU-TE. FEZ-SE DE VÍTIMA E TU CAÍSTE NA ARMADILHA. ÉS TÃO BURRA E TEIMOSA. – continuou ele.

- Ele não fez nada disso. – e como se eu tivesse dito a anedota mais engraçada do mundo começou a rir-se amargamente.

- És tão simplória… achas que o Rui não sabe fazer meia dúzia de truques para impressionar as mulheres? – aquilo doeu, era uma sugestão cruel, pois se fosse verdade eu tinha magoado o homem que mais amava por um mero jogo do Hanazawa. – Credo… olha para a tua cara de espanto. Acreditas-te mesmo que ele te amava, não foi? – soltou uma gargalhada irónica. – Nunca pensaste porque razão o Rui nunca teve ninguém a sério na vida dele? – o jogo era agora mais cruel e ele sabia-o, por isso não ia parar tão cedo. - Não, claro que não pensas-te. Para ti ele é um príncipe encantado, sempre o foi, desde os nossos dias de escola. Mas eu digo-te, para não cansares essa tua cabeça bonita. O Rui gosta de jogos difíceis, como a Shizuka e agora tu. Mas claro no fim de resolver os desafios já não vale a pena brincar mais. – a voz dele era tão fria, ele estava tão furioso e magoado, conseguia-lhe ver os nós dos dedos brancos, da tensão que fazia.

- Isso não importa, agora. O que interessa é o que queres fazer comigo, eu beijei-o, ele não me forçou. – ele levou as mãos aos ouvidos, para os cobrir e gritou:

- PÁRA! NÃO QUERO OUVIR MAIS NADA SOBRE ISSO, JÁ TE DISSE. – se a ele lhe custava ouvir falar sobre isto, a mim matava-me fechar os olhos e lembrar a cena da noite anterior, com o Rui no meio das minhas pernas.

Há muitos anos, quando comecei a trabalhar na loja de doces, estava a carregar umas caixas de madeira e fiquei com uma farpa enfiada num dedo. A dor não era insuportável, no entanto estava sempre lá e quando tocava em alguma coisa doía mais, o pior é que para tirá-la tinha de utilizar uma agulha e eu tinha pavor de agulhas. Andei assim durante vários dias, com aquela farpa espetada no dedo e a doer-me constantemente, fazendo-me sentir sempre desconfortável. Farta daquilo, enchi-me de coragem, desinfectei uma agulha com uma chama e espetei-a na carne do dedo, doeu-me tanto, mais do que me doía a farpa, mas no fim quando retirei o pedaço de madeira o alívio foi imediato. O dedo já não me doía e podia mexer-me à vontade, sem medo de agravar a dor. O meu amor pelo Tsukasa era uma farpa de madeira espetada no fundo do meu ser, iria sempre doer, iria sempre magoar-me, mas eu jamais seria capaz de agarrar numa agulha e removê-lo de dentro de mim. Foi assim que a vida continuou e com ela o meu casamento.

Passou o Natal, chegou o Ano Novo e foi o início de uma nova era: a era do afastamento. Primeiro, nunca mais vi o Hanazawa Rui, telefonei-lhe uma vez, mas ele fez questão de tornar o telefonema o mais breve possível, o que me deixou ainda mais com a ideia de que os sentimentos dele, não tinham passado de uma encenação. Segundo, o Domyouiji tornou-se tão distante que raramente o via. Sim, os tempos tinham mudado, mas o mundo continuava a girar e eu não me sentia capaz de o fazer parar, para poder sair dali.

Estávamos em meados de Julho, um calor insuportável assomava o país e até já tinham morrido pessoas, devido à onda de calor. Cheguei a casa, ofegante, do peso dos livros, que ia precisar para o exame de Direito Penal.

- Hummm…sabe tão bem o fresquinho do ar condicionado! – disse pousando os livros na mesa da sala. – Estou toda transpirada e devo cheirar mal como tudo. – avisei a Syori, que se limitou a sorrir docemente, como sempre o fazia. – Alguma novidade? - perguntei estatelando-me no sofá e esticando as pernas em cima do mesmo.

- Apenas correio, nada mais. E a Srª. Yuki telefonou a dizer que afinal não vai poder jantar consigo, esqueceu-se que tinha um encontro com o Sr. Nishikado Soujiroh.

- Bem, esses dois desde que ele tomou a iniciativa de a procurar no Natal, nunca mais se largaram. Ainda bem, também já não era tempo.

- Também fiquei muito feliz, a Srª. Yuki é tão bondosa, merece ser feliz.

- Pois merece e eles fazem um par adorável. Gosto tanto de os ver juntos. Ele quase nem parece o mesmo, tão calmo e tão seguro de si.

- O amor tem esse poder nas pessoas.

- Pois é…- suspirei, pensando que por vezes a única coisa que o amor nos fazia era sofrer e transformar em pessoas implacáveis e cínicas. A mulher achou que a conversa devia ficar por ali, pelo que se despediu de mim e abandonou a sala, para voltar logo de seguida com uma bandeja cheia de envelopes.

- Posso deixar aqui o correio? – perguntou-me indicando a mesa de apoio, ao lado do sofá.

- Claro, muito obrigada. – a mulher fez uma vénia e voltou a retirar-se, antes que eu tivesse tempo de lhe perguntar o que era o almoço. Estava com o estômago a dar sinais de vida e isso só podia ser parado com uma coisa: comida. Preguiçosamente estiquei a mão para agarrar nos envelopes e os começar a inspecionar. – Tsukasa, Tsukasa, Tsukasa, Tsukasa… - enumerei, passando pela correspondência dele e que eu não iria abrir. – Humm…casal Domyouji, mais um convite… De quem será este? – interroguei-me, inspeccionando a frente do envelope branco que me era dirigido, mordida pela curiosidade, abriu-o. Lá dentro estavam 3 fotografias, que rapidamente me caíram das mãos e ficaram espalhadas no chão: o Tsukasa deitado, a fintar a câmara, com uma mulher adormecida em cima do peito nu dele; o Tsukasa, a ser abraçado numa cama por uma mulher claramente nua, tal como ele e o Tsukasa deitado de barriga para baixo, aparentemente nu, a fintar a câmara e na parte de trás a silhueta de uma mulher nua, sentada na cama, ao lado dele. Não sei explicar o que senti, as mãos tremiam-me e não conseguia tirar os olhos das fotografias, sobretudo naquelas em que ele olhava para mim com um ar, que eu não conseguia bem definir, mas era como se no momento em que lhe tiraram a foto ele soubesse que era eu quem estava do outro lado do papel, a olhar para ele. Agachei-me no chão e reuni as fotos, antes que alguém as visse.

A vida é um realmente um acontecimento estranho, acordamos de manhã, vivemos a nossa vida, cientes das coisas que sabemos e das coisas que não sabemos, mas de repente surge uma prova, que coloca em causa todos os alicerces que conhecemos e acreditamos e aí as coisas que sabemos e as que não sabemos, misturam-se de uma forma que ficamos com a cabeça perdida. Eu sempre soube que o Tsukasa me era fiel, que o Tsukasa jamais haveria de ter uma amante, não fazia parte da natureza dele, deixar outra pessoa entrar na intimidade dele. No entanto, lá estava ele agarrado a uma mulher, que eu já quase tinha esquecido, a Iku. Ele que tinha sido tão rude para ela, durante aquele jantar com o Rui, ele que nem sequer lhe tinha dignado um olhar mais directo, estava agora com ela retratado nu, numa cama de lençóis brancos.

Abri a porta do quarto, as cortinas dançavam ao sabor da brisa quente, que entrava pelas janelas, em outra ocasião teria inspirado e absorvido o aroma doce do ar. Mas naquele momento, a única coisa que fiz foi atirar-me para cima da cama. Queria afogar-me na banheira, mas não tinha forças para tal, era mais fácil ficar ali deitada, sem me mexer e sem pensar.