Capítulo 36
Irina estava a ir para a sala de Albus. No dia anterior não conseguira ver o amigo, que, quando chegara lá, estava recolhido no quarto, cansado demais para fazer alguma coisa. Snape, embora dando aulas exemplarmente, não conseguia esconder a sua preocupação, e foram imensas as vezes que entrara no quarto para verificar o estado do homem.
- Boa noite! – Cumprimentou Snape mal-humorado, abrindo a porta quando a francesa bateu.
- Boa noite! – Irina olhou por cima do ombro do professor, vendo Dumbledore sentado na poltrona a beber um líquido vermelho. – Albus! – Irina exclamou, passando por Snape para abraçar o amigo fortemente. – Albus, deixaste-nos tão preocupados ontem à noite! Como é que estás?
- Ótimo, vocês não deviam ter-se preocupado. – Dumbledore disse com um sorriso nos lábios.
- Albus, que mistela é essa que estás a beber? – Irina perguntou ainda desconfiada de que o homem estivesse a ser cem por cento sincero.
- Não sejas tão desconfiada, Irina, isto é licor de cereja, a bebida favorita dos enamorados. – Irina franziu a testa, cheirando o copo. Realmente aquele cheiro não enganava.
- Enamorado, Albus? Hum… Posso saber quem é a felizarda pessoa por quem estás enamorado? – Albus sorriu inocentemente.
- Ninguém. Mas, tendo em conta a ocasião, decidi tomar um gole desta fantástica bebida. – Irina estava confusa. De que ocasião estava o homem a falar? – Também tu, Irina? Não sabes que dia é hoje?
- Sábado. – Irina respondeu. – 14 de fevereiro de 1998. Oh… - Irina abaixou o olhar. – Hoje é dia de S. Valentim.
- Bastava ver a decoração da sala para perceber que dia era hoje. Grande mistério, Albus, que deste à Irina para resolver. – Disse ele ironicamente.
Irina olhou para a sala, que estava decorada a preceito. O sofá, onde costumava se sentar, era agora vermelho vivo e tinha almofadas em forma de coração igualmente vermelhas. As paredes estavam cobertas de corações e cupidos majestosamente desenhados. Imensas velas estavam acesas, dando meia-luz ao ambiente. Uma música lenta e harmoniosa tocava no gira-discos. Irina estava abismada.
- Para quê tudo isto, Albus? – Perguntou Irina para o homem que sorria.
- Também tu não gostas do dia dos namorados? – Perguntou ele. Irina mordeu o lábio inferior.
- Não acho um dia assim tão especial. Além disso, imensos ex-namorados meus acabaram comigo nesse dia, só para não terem de me dar prenda. Não tenho boas recordações. – Irina sorriu divertida. – Enfim... A Elle está sempre a dizer que eu não sou muito boa a escolher os homens.
- Olha, eu tenho algo para ti. – Albus disse, dando-lhe um embrulho. – Já que não há dia do amigo devidamente festejado, acho que este dia pode ser esse também. Abre! Vê se gostas.
Irina obedeceu a Albus, abrindo o embrulho vermelho. Dentro estava um manto roxo e prateado.
- É lindo, Albus, obrigada. – Irina agradeceu, dando-lhe um beijo na bochecha.
- Agora que ambos já foram presenteados, sentem-se, por favor… - Albus disse a ela e a Severus. Irina sentou-se no sofá, enquanto Snape se sentou na sua poltrona, afastando uma almofada em forma de coração, como se esta o pudesse comer vivo. – Eu quero saber as novidades.
- Não há novidades, Albus. – Disseram os dois ao mesmo tempo. Albus sorriu.
- Eu bem ouvi tu a tratares a Irina por Irina, Severus… - Irina franziu a testa, nem se tinha dado conta disso. Ótimo, mais uma coisa para explicar.
- A sério, nem me dei conta. – Snape disse calmamente. Irina encostou-se no sofá, um bocado indisposta com o ambiente.
- O que se passa, Irina?
- Oh, não gosto muito deste ambiente, é meio sufocante. – Irina respondeu, encolhendo os ombros. – Quero dizer, parece meio artificial no meio de tudo isto, meio deslocado.
- Irina, eu sei que vivemos uma guerra, mas temos que ter estes momentos, eles dão-nos força para continuar a lutar.
- Talvez tenhas razão. – Irina abraçou uma almofada em forma de coração, sorrindo. – Tenho saudades dos sonhos que tinha para este dia ser inesquecível.
- Ah, sim? – Albus sorriu ternamente. – Escrevias muitos bilhetes?
- Alguns, mas adorava comer os bombons que punham para o banquete da escola, eles eram deliciosos. Dizem que não é muito imaginativo dar-se bombons às pessoas, mas eu acho que é divino quando o fazem. Quero dizer, se não o fizessem, não poderíamos sentir o prazer de comer algo tão bom sem pagar nada. – Dumbledore riu sonoramente, parecia divertido. – Vá, Albus, não tens por aí nenhum bombom?
- Aqui tem, Mademoiselle Saint-Claire. – Severus passou-lhe uma caixa de bombons aberta. – O Albus pensa sempre em tudo. – Eles trocaram um breve olhar.
- Estou a ver que sim. – Irina falou, tirando um bombom e comendo-o. – Albus, tu és um maluco, sabes isso, não sabes?
- Obrigado, Irina! – Dumbledore uniu as suas mãos. – Mas eu sinto que há algo estranho entre vocês os dois. Parecem-me mais… envolvidos.
- Envolvidos? – Irina ergueu a sobrancelha, tentando compreender o que o velho homem queria dizer. – Estás a dizer que, finalmente, percebemos que estamos todos no mesmo barco? Oh, Albus, eu acho que é normal, depois de tanto tempo.
- Eu acho que me apercebi que, se a Mademoiselle Saint-Claire te faz bem, então eu devia aceitar isso e agradecer-lhe por isso. – Snape concordou, olhando para Dumbledore. – Além disso, já me dei conta de que não te vou conseguir convencer de que ela é uma desmiolada, e que coloca todos os nossos planos em perigo.
- Professor, pare de dizer mal de mim! – Irina mandou rispidamente. – É incrível! Mesmo quando é para explicar o porquê de agora já me apoiar mais, insulta-me, critica-me, fala-me como se eu fosse uma pária em tudo isto.
- Pronto, não discutam! Hoje, não!
- Eu não estava a discutir com ninguém. Mademoiselle Saint-Claire é que perde o controlo muito facilmente. Não sabe qual é o seu lugar.
- Aqui mesmo, professor, entre o senhor e o Albus! Convosco! – Irina respondeu prontamente, olhando-o.
- Acabou! – Dumbledore levantou-se. – Eu vou dormir agora, vocês não se atrevam a discutir! – Dumbledore entrou no quarto calmamente. Irina seguiu o homem com o olhar.
- Para de agarrar essa estúpida almofada! – Mandou o homem rispidamente. Irina abraçou ainda mais a almofada.
- Não vou fazer uma coisa só porque assim o quer, professor! – Irina disse, erguendo a cabeça, altiva. – Obrigue-me! – Mandou ela com um sorriso de desafio.
Snape sorriu de volta, abanando a cabeça lentamente. Irina ergueu a mão e, com o dedo indicador, chamou-o a si provocatoriamente.
- E as aulas? – Perguntou ele, sentando-se ao lado dela no sofá. Irina abanou a cabeça.
- Tss, tss, tss… Má escolha de palavras. Tenho a certeza que este meu coração adorará dar-me umas aulas. – Disse ela, mostrando-lhe a almofada vermelha. Severus sorriu.
- Eu gostaria de ver isso. – Snape falou. – Bem, o certo era que seria ainda menos improvável evoluíres. – Irina semicerrou os olhos um pouco irritada. Snape conseguia ser mesmo desagradável nos momentos mais inoportunos.
- Talvez ela me ensine mais do que tu… - Irina aproximou os seus lábios dos dele. – Em todos os aspetos.
- Irina… - Snape disse antes de a beijar ferozmente, deitando-a.
- Ai, espera, Severus, espera! – Snape afastou-se um pouco calmamente. – Em primeiro, quero comer um bombom. – Irina alcançou a caixa de bombons, comendo um. – Severus, sabes… - Irina deitou a almofada para o chão. – Eu lembro-me que quando tinha catorze anos estava mais ou menos nesta situação com um rapaz chamado Nugoit. Ele estava a beijar-me e a tentar desabotoar a minha camisa, como estás a fazer agora, e eu quis comer um bombom, e comi.
- Que interessante… - Snape disse arrastadamente, fazendo-a rir suavemente.
- Severus, não penses apenas em sexo. – Irina repreendeu, sem estar minimamente afetada com isso. – Sei que esse rapaz, por apenas pensar em sexo, deu-se mal e não teve aquilo que queria de mim, nem uma vez.
- Mas eu já tive! – Snape beijou-lhe a barriga lisa. – Irina, tu gostas de falar, não gostas?
- Adoro… - Irina assentiu, sentindo Snape tirar-lhe a saia. – Mas acho que gosto muito mais das sensações que me dás.
Snape afastou-se dela, sentando-se no sofá, olhando-a.
- O que se passa? – Perguntou ela, sentando-se de frente para ele.
- Eu também gosto… - Irina sorriu, desabotoando os três primeiros botões da camisa, e beijando suavemente o pescoço do homem.
- Eu sei… - Ela envolveu a cintura dele com as suas pernas. – Eu consigo sentir.
Severus deitou-se de novo sobre ela, beijando-a descontroladamente, percorrendo todo o seu corpo, procurando gemidos, prazer, o sabor dela. Irina queria senti-lo por completo, mais uma vez. Queria ouvir os seus gritos confundidos, os seus suspiros harmoniosos, a intensidade das sensações, a magia dos corpos…
- Irina… - Snape chamou-a calmamente, ela não acordou. – Irina…
- Oh, Severus, por favor, a noite foi muito longa… - Severus sorriu orgulhosamente. Ela tinha razão, ele próprio perdera a conta ao número de vezes em que a tomara como sua.
- Tu é que sabes, mas são cinco da manhã. – Irina abriu os olhos, desistindo. – Bom dia!
- Boa noite! – Ela respondeu mal-humorada. Snape beijou-lhe o lóbulo da orelha direita.
- Eu tenho uma coisa para ti. – Ele sussurrou, fazendo-a tremer. Irina reparou que estava com frio. Snape abraçou-a mais fortemente. – Eu era para te dar ontem.
Snape pegou numa rosa vermelha, percorrendo-a pelo tronco da francesa, que sorriu, quando a rosa se mostrou à frente dos seus olhos. Ela pegou nela.
- É linda! Obrigada. – Irina beijou a mão do homem carinhosamente. – Mas eu não tenho nada para ti.
- Oh, eu acho que tens muito. – Ele disse. – Eu ainda ontem te disse que gosto das sensações que tu me dás. O que temos faz-me deixar de pensar, pelo menos, por um pouco, na guerra. É a única coisa que eu faço sem pensar no que está lá fora. A única coisa que eu faria exatamente da mesma maneira se não houvesse uma guerra no mundo.
- Não sei não. Duvido muito que, noutra ocasião, te envolvesses com alguém como eu. – Irina fechou os olhos. - Tu és tão…
- Frio? – Perguntou ele duramente.
- Não. – Ela respondeu. – Ponderado. Talvez tudo isto te faça ser menos descuidado em relação às pessoas que tens a certeza de estarem no mesmo lado que o teu.
- Oh, Irina… - Snape levantou-se, começando a vestir-se.
- O que é que eu disse de errado desta vez? – Ela perguntou, levantando-se. Severus olhou-a.
- Não gosto que me digam que sou descuidado. – Ele falou irritado. Irina suspirou. – Eu não sou descuidado. Eu sou prudente, cauteloso… Percebes?
- Está bem. – Irina acenou com a cabeça, abraçando-se. Estava com frio. – Desculpa! Não vás já!
- Não posso ficar muito mais tempo.
- Só mais cinco minutos, Severus, só mais cinco minutos. – Pediu ela, abraçando-o. Ele abraçou-a de volta por mais tempo do que cinco minutos.
