Capítulo 37 – Verdade intragável – Elisa Thompson
Saí correndo do quarto. Eu não queria começar a chorar antes de ter certeza que a Sachiko não poderia ver minhas lágrimas. Corri até o parque e, sentada no primeiro banco que vi, chorei até achar que morreria desidratada.
A primeira coisa que fiz após secar as lágrimas foi me amaldiçoar por ter me vestido mal naquela manhã. Já que, graças à ideia de um certo alguém, nós teríamos que limpar o quarto logo cedo, eu vesti apenas um jeans skinny velho, uma camiseta branca de manga curta com uma estampada desbotada que um dia já foi uma rosa vermelha e uma sandália rasteira que um dia foi branca, mas ficou amarelada há tempo.
A segunda coisa foi me amaldiçoar por ter ido ao lugar mais cheio de gente da cidade vestida mal desse jeito. Sexta-feira 13 foi ontem, mas o azar deve ter perdido a hora do voo e se atrasado 24 horas...
Como eu não queria voltar ao dormitório tão cedo, decidi que o melhor que eu poderia fazer nesse momento era passear pelo parque, mesmo que morrendo de vergonha de ser vista desse jeito.
Eu já estava andando aleatoriamente há algum tempo, a passos de lesma, quando de repente uma criança passa por mim berrando "mãe!".
- O que houve, filho? Você não disse que ia brincar na caixa de areia? – respondeu a mãe. Não que eu tivesse a intenção de escutar a conversa dos outros, mas eu também não podia não ouvir algo do meu lado.
- Um garoto maluco expulsou eu e os meus amigos de lá! Disse que se a gente saísse sem fazer birra, ele ia fazer chover doces para dar para gente!
- O quê? E vocês acreditaram nisso e saíram?
- Eu não acreditei nele, mas ele ameaçou invocar o bicho-papão para me sequestrar de noite se eu não saísse de lá!
Deixe-me ver se eu entendi. O menino não acreditou na chuva de doces, mas acreditou que o bicho-papão apareceria para sequestrá-lo? Uau.
- Não ligue para esse garoto, querido. Vamos, a mamãe passa na sorveteria no caminho de casa. De que sabor você vai querer hoje?
Já que meu humor não estava bom, resolvi que não custava nada encontrar esse pedófilo disfarçado de Mágico de Oz e dar uma bela surra nele. Tudo bem, eu iria no máximo brigar verbalmente com ele, mas não custa imaginar um pouco.
- Eu devia ter imaginado que só podia ser você...
Realmente, eu não sei onde eu estava com a cabeça quando não percebi que o garoto maluco só poderia ser o Inglaterra. Sinceramente, quantos garotos eu conheço que iriam até uma caixa de areia infantil em um parque só para desenhar um círculo mágico?
- O que você está fazendo aqui, Thompson?
O Inglaterra estava vestindo uma calça marrom escuro, uma camiseta com a Union Flag[1] (egocêntrico...), um lenço vermelho quadriculado ao redor do pescoço e mocassins marrons. Ele estava parado no meio do círculo, pronto para começar seja lá o que ele tivesse em mente.
- A pergunta é o que você está fazendo aqui. As crianças têm todo o direito de brincar, sabia?
- Eu só quero testar o novo feitiço que eu- Ah, dane-se, você não precisa saber disso.
- Feitiço? – ergui uma sobrancelha e cruzei os braços. – Você acha que isso vai dar certo?
- Há! Olha só quem fala! Você foi amaldiçoada semana passada, não foi? Quem você acha que lançou a maldição, hein?
- S-são coisas diferentes e não relacionadas entre si! – exclamei, ao mesmo tempo em que descruzava os braços de supetão e batia com um pé no chão.
- Tanto faz. Fique aí e observe como se faz magia de verdade.
- E se eu não quiser ficar? – respondi, colocando as mãos na cintura.
- N-não me importo se você não ficar! S-só vai perder a chance de assistir um feitiço sendo posto em prática!
- Ah, é? E se eu fizer... – me aproximei do círculo e ergui o pé direito sob o contorno dele. – Isto?
- Não! Não pise aí! Vai estragar o círculo!
Lentamente, fui descendo o pé, aproveitando o desespero no rosto do Inglaterra. Não fui tão sacana a ponto de estragar o trabalho dele, então apoiei o pé direito fora do círculo. Foi quando percebi algo estranho.
- Não é por nada não, Inglaterra, mas alguém já estragou seu círculo antes de mim. – Estalei a língua. – Ah, assim não tem graça...
- Aquele maldito do Rússia! Sabia que era estranho demais ele estar rondando meu círculo!
Não sei exatamente o que deu em mim. Enquanto o Inglaterra xingava o Rússia, apaguei a parte defeituosa, peguei um graveto que encontrei por perto e redesenhei aquele pedaço do círculo, seguindo o esquema que o Inglaterra havia usado (ou ao menos tentando).
- O que você acha que está fazendo?
- É nessa hora que você deveria dizer "obrigada, Thompson!". Ninguém nunca lhe ensinou boas maneiras?
- Bah. Cale a boca e observe!
Eu e as crianças que ansiavam pela chuva de doces ficamos olhando o Inglaterra recitar as palavras mágicas do feitiço dele. Pode ter sido apenas insolação, mas juro que vi a areia brilhando por uns instantes... Até que uma caixa de madeira caiu na minha cabeça.
- Seu idiota! Eu deveria saber que você não poderia estar falando sério sobre esse feitiço... Quando foi que você tirou essa caixa do bolso, que eu não vi? N-não que eu estivesse encarando você fixamente, eu só estava torcendo para dar tudo errado! E não é que deu...?
- Você não tem cérebro? Essa caixa caiu do céu, não tem como eu ter jogado em você! Eu devo ter errado em algum lugar...
O Inglaterra parecia estar falando bem sério, e eu fiquei chocada. Ele materializou uma caixa de madeira? Só pode estar de brincadeira...
Foi quando, mais uma vez, eu comecei a me mexer sem saber o que estava fazendo. Eu me aproximei do círculo e examinei-o atentamente.
- Quem não tem cérebro é você. Você inverteu a ordem desses caracteres aqui, e o símbolo da Lua está no lugar onde deveria estar o do Sol... Francamente, que tipo de mago você pretende ser?
- Do que você está falando, Thompson?
Quando dei por mim, eu havia redesenhado alguns pontos do círculo do Inglaterra e acrescentado outros detalhes.
- Eu... Eu não sei. É só que... Esse círculo me lembrou de um que eu inventei quando criança, e então... Desculpe, Inglaterra.
Tudo aconteceu rápido demais. Em um instante, eu estava me abaixando para apagar minhas adições; no outro, algo me fez perder o equilíbrio e eu caí para dentro do círculo, aterrissando nos braços do Inglaterra. Antes que eu pudesse perceber as mãos dele segurando meus ombros, ele me soltou e eu caí de lado na areia aos pés dele. O círculo brilhou tão forte que quase me cegou, e por fim diversos tipos de doce começaram a chover.
- O que... O que aconteceu? – balbuciei, enquanto me levantava e sacudia a areia da minha roupa.
- Thompson, o que você é? – disse o Inglaterra duramente, olhando no fundo dos meus olhos.
- O que você quer dizer com isso?
Assumindo uma posição defensiva, saltei para fora da caixa de areia e, consequentemente, fora do círculo. Na mesma hora, a chuva de doces parou, esmaecendo o sorriso das crianças que guerrilhavam pelos melhores doces.
Eu me recusava a aceitar os fatos.
- Não só você enxerga algo que não deveria, como você também corrigiu meu círculo e ativou-o apenas caindo dentro dele... Literalmente. – O Inglaterra deu um passo para frente, na minha direção, o tempo todo me encarando. – Eu repito... O que você é?
E assim eu saí correndo pela segunda vez naquela manhã.
Só parei de correr quando percebi que havia penetrado tão fundo na clareira que talvez não soubesse o caminho de volta. Recostei-me na árvore mais próxima e sentei-me no chão, as costas deslizando pelo tronco. Fechei os olhos e tentei normalizar minha respiração.
- Você acha que ela está perdida? Ela parece desnorteada...
- Ela parecia estar fugindo, é razão o bastante para estar desnorteada...
- Mas fugindo do quê?
- E você espera que eu saiba?
Eu ouvia duas vozes conversando, mas não reconhecia nenhuma delas. Lentamente abri os olhos e, não vendo ninguém na minha frente, comecei a olhar em volta de mim.
- Você não acha que ela está ouvindo a gente, acha?
- Claro que não, isso não seria possível!
De súbito, olhei para cima. Para minha surpresa, havia uma moça loira vestida com um tecido branco amarrado de forma similar a uma túnica da Grécia Antiga, com uma coroa, um bracelete e um cinto feitos de folhas. Ela estava sentada em um dos galhos da árvore em que eu estava apoiada. Ao lado dela, havia uma garota ruiva vestida com o que parecia ser pétalas de flores amarelas. Ela não devia ter mais do que dez centímetros... E flutuava no ar, com um par de asas nas costas.
Aquilo tudo era demais para a minha cabeça.
- Oh, lá vai a garota, correndo outra vez.
Ela parece gostar de fugir das coisas, não?
[1] Union Flag ("Bandeira da União", em inglês) é o apelido dado à bandeira do Reino Unido, já que ela foi criada com a união das bandeiras de 3 dos 4 países integrantes do Reino Unido (Inglaterra, Escócia e Irlanda do Norte). Também é chamada às vezes de "Union Jack" (mesmo significado).
