Quando Piper acordou, estava em uma cama de hospital. Ela havia tido um sangramento, e os médicos estavam apreensivos. Piper estava amedrontada com tudo aquilo. A última coisa da que se lembrava era de ter visto Alex com a tal enfermeira. Tudo o que acontecera após fora apagado de sua mente, num golpe de borracha. Os policiais lhe contaram que a BMW tinha ultrapassado o sinal vermelho e que, se ela não tivesse conseguido brecar a tempo, o acidente poderia ter sido fatal. Absorvendo um soluço, Piper alisou o ventre com delicadeza e pediu aos céus que não acontecesse nada aos seus bebês.

A senhora não pode entrar sem antes preencher ficha de registro! – a enfermeira protestou, barrando a entrada de Alex do lado de fora do quarto onde Piper se encontrava. Alex não deu ouvidos a ela, e entrou no quarto. Ao se aproximar da cama, se inclinou e segurou nas mãos de Piper. – Querida, não se preocupe. Eu estou aqui.

O que você faz aqui? – perguntou Piper com as lágrimas jorrando de seus olhos azuis.

Eu sinto muito, Piper. – disse, enxugando as lágrimas que desciam pelo seu rosto. Piper virou o pescoço. – Você entendeu tudo errado. Eu havia conversado com Polly assim que ela a deixou em seu carro. Queria te fazer uma surpresa e dizer que eu pensei melhor sobre os bebês terem o sobrenome de Brad. – Alex parou a sentença no meio e a olhou profundamente. – Parei naquela maldita loja para comprar cigarros, casualmente encontrei Anne. Ela estava exuberante com a descoberta de sua segunda gravidez. Eu não a atendi porque iria estragar a surpresa, e contar que já havia chegado de viagem. Me perdoe, eu estou tão arrependida.

Piper sacudiu a cabeça com raiva.

Alex queria abraça-la, mas não sabia como estava seu estado.

Você está ferida? Ninguém quis me dizer nada. – suspirou, contraída. – Eu avisei a todos sobre o seu acidente.

Sofri alguns arranhões. – respondeu, encarando seus próprios dedos. – Fui salva pelo airbag. Recebi uma pancada forte no abdômen e os bebês... Eu tive um sangramento e... Não sei o que pode acontecer. – fechou os olhos, impedindo que mais lágrimas rolassem para fora de sua vista.

O coração de Alex congelou.

Não diga nada. A culpa não foi sua, eu sou a única responsável nisso tudo. Nossos bebês são fortes, eles estão bem. – Confortou-a.

No mesmo instante, uma enfermeira entrou no quarto e avisou Piper que os médicos haviam decidido realizar uma ultrassonografia. Alex agarrou firme a mão dela, dizendo que ficaria ao seu lado o tempo que fosse necessário. O resultado da ultrassonografia viria no dia seguinte. Alex deixou que Piper recebesse a visita de Vee, Taystee e Polly. Encontrou Nicky com Red na recepção, e se juntou a elas.

Vai dar tudo certo, querida. – Red deu uma leve batida em seu ombro.

Fique tranquila, Alex. – Nicky solidarizou-a.

Eu sou tão estupida.. – afastou os óculos de seu rosto, esfregando os olhos. – Piper está tão debilitada. Toda vez que eu a olho, é como se pudesse enxergar o coração dela rachando ao meio. Não irei me perdoar se algo de errado acontecer.

Nicky e Red se entreolharam, receosas.

Piper recebeu um medicamento para dormir, ela dispensou todas as refeições. – Vee dialogou, sentando ao lado de Alex. – Estou preocupada com ela.

Nicky estreitou os olhos, iria fazer uma piadinha com Alex, para que ela corresse, ou seria jogada pela janela. Deixou a ideia se desfazer, não era hora para brincar. O clima estava difícil.

Foi só um susto, aquela branquela vai ficar bem com os branquelinhos dela. – Taystee disse, virando o resto de coca-cola na boca.

Alex seguiu calada.

Gostaria de ficar, mas preciso ir. – Polly avisou, olhando todas. – Alex, você me mantém informada?

Claro. – murmurou.

Taystee, fique com Lorna. – Vee pediu. – Ela está com as crianças, e não conte nada a elas.

Ok. – olhou Polly. – Preciso de uma carona.

Se não se importa, levarei as crianças para Manhattan. – Red se pronunciou.

É claro. – Vee a viu levantar, e repetiu o gesto.

Alex, Nicky ficará aqui com vocês. – ela cumprimentou a mãe de Piper, mas sem desviar os olhos da neta. – Me deixem atualizada, virei amanhã cedo.

Tudo bem. – Alex recebeu um abraço dela.

Na manhã do dia seguinte, o Dr. Connor entrou no quarto para colocá-las a par da situação:

Devido ao trauma em seu abdômen, uma parte da placenta se separou do endométrio..

O que isso quer dizer? – Piper estava com o coração acelerado.

Ouça com atenção.. — disse o médico. — A placenta é um suporte de vida para os bebês. Quando a placenta descola da parede do útero antes de os bebês nascerem, interrompe o transporte de oxigênio e nutrientes para os fetos.

Alex estava com receio do que vinha a seguir, mas apesar do medo, apertou a mão de Piper.

Você quer dizer.. – Mudou o rumo das palavras. Alex. – Piper a chamou, com um olhar de suplica.

Calma, amor. – ela conseguiu pedir.

Existe uma boa chance de a gravidez ainda prosseguir. – afirmou Dr. Connor. – Mas infelizmente um dos bebês não conseguiu sobreviver. – disse, com cautela. – O bebê sobrevivente continuará se desenvolvendo normalmente. Por ser uma gravidez gemelar de univitelinos, será preciso que você continue em repouso absoluto. Haverá um pouco de sangramento, mas sem que o outro bebê seja prejudicado.

Piper cobriu o rosto com as mãos, não queria ouvir mais nada. Recusou-se a acreditar no que estava ouvindo. Alex uniu as mãos entre a boca e o nariz, chocada com a notícia. O sentimento de culpa já havia se espalhado dentro de si.

Iremos monitorar os sinais vitais do bebê ao menos uma vez por semana. – continuou ele. – O bebê que não resistiu, ficará junto do outro até que seja realizado o parto. Será possível vê-lo, mas não aconselhamos, pode ser doloroso para vocês.

Pode ser? – Piper gritou. – É doloroso! O que você pensa?

Senhorita Chapman, sei o quanto é difícil para você. Mas estou tentando deixa-la ciente. Não deve passar nervoso, um bebê sobreviveu, mas ele ainda está muito fraco. Acalme-se.

Piper se perguntou mentalmente como faria para se manter calma. O médico explicou mais alguns pontos e se retirou.

Amor, eu sinto muito. Sei o que você está sentindo. – Alex disse com a voz embagada.

Não! Você não sabe o que estou sentindo. Você não pode presumir o que é carregar a vida e a morte no ventre, então cala a porra da boca. Eu quero ficar sozinha!

Piper, não faz assim, pelo o amor de Deus, não faz isso comigo, eu estou sofrendo!

Eu quero ficar sozinha! Você me ouviu? Quer me fazer perder o meu segundo filho?

Alex a olhou intimamente, e saiu. No corredor esbarrou em Vee, que a abraçou. Ela se deixou chorar, molhando a blusa da outra.

Me desculpe, molhei sua roupa.

Venha, vamos caminhar. – ela não se importou.

As duas seguiram para fora do hospital. Lá fora estava frio, alguns flocos de neve caíam, deixando a rua branquinha. Alex esfregou os braços, seu rosto estava quente graças às lágrimas que caiam sem pausas.

Ela me odeia. – Alex afirmou com toda certeza e segurança que havia dentro de sua mente.

Você sabe que não. Não se culpe. – Vee encostou-se à parede, puxando Alex consigo. – Piper ficará bem, agora é doloroso ainda mais quando o bebê ainda permanece lá, junto ao outro. Aconteceu porque tinha que acontecer. Agora ela tem que lutar pela vida do filho de vocês. Não será fácil. Bem, você a conhece.

Ela me disse coisas horríveis. – Ergueu o olhar para cima, travando as lágrimas. – Eu queria tanto arrancar a dor que ela está sentindo.

Você a ama? – Vee também olhou para cima.

Mais que a mim.

Alex.. – esperou que ela a olhasse. – Conhecendo Piper como conheço, ela será um osso duro de roer. Eu aconselho que a deixe sozinha por uns dias. Dois ou três para ser mais exata.

Não a deixarei sozinha, ainda mais agora. O meu bebê perdeu um bebê! – esclareceu, duramente. – Por mais que ela me maltrate ou me culpe pelo o resto de nossas vidas, não irei deixa-la. Eu a amo!

Piper tentava se manter serena a cada vez que as visitas chegava. Ela sentia o emocional tão abalado que nem mesmo sabia como deveria agir diante as palavras de incentivo que recebia. Soube por Nicky que Alex havia saído por algumas horas, mas retornaria o mais depressa possível. Uma enfermeira lhe trouxe uma sopa com legumes, ela ficou do mesmo modo que chegou, intocável. Piper não sentia fome. Tudo o que queria fazer era chorar, e lamentar a morte do seu filho. A ideia de tê-lo em seu ventre era tão perturbadora. Agora sozinha naquele quarto sem cor, pensou o que faria com o segundo bebê. Será que ela o amaria? E se ele adoecesse e morresse? A entrada de Alex censurou seus pensamentos vagos.

Como você está? – ela andou até a cama, tamborilando os dedos no colchão.

Piper notou que ela havia trocado de roupa. Seu semblante estava deprimido, os olhos levemente marcados pelo choro. Queria responder que estava sem vontade de viver, que gostaria de ter morrido no lugar de seu filho. Ficou quieta, e virou um pouco o queixo na direção da janela.

Você precisa se alimentar, Piper. Por favor.

Por que você voltou? Eu quero ficar sozinha. – respondeu sem olhá-la.

Não vou te deixar sozinha. – Alex a escutou chorando baixinho. – Amor, me perdoe.

Pare..

O que eu posso fazer? Me diz, eu faço.

Vá embora! – berrou, fazendo a veia de seu pescoço saltar. – Eu não quero ter que olhar pra você e lembrar tudo, porra.

Fique calma, ok? – implorou, dando passos para trás. – Ficarei do lado de fora.

Saia de uma vez! Inferno!

Nicky correu de encontro a sua irmã, assim que avistou ela sair aos prantos do quarto.

Eu vou dar uns murros em Piper. Não se preocupe.

Será uma jornada difícil. Ela não entende o quanto eu sinto por tudo isso.

Ela vai superar aos poucos. O médico dela disse à Red que ela irá precisar passar por alguns psicólogos.

Eu irei precisar também. – Alex deixou um sorriso aparecer.

Piper teve alta depois de dez dias internada. Ela se recusou a ser examinada, ou realizar qualquer exame que pudesse ouvir ou ver o bebê. Os médicos protestaram, mas desistiram, encarregando-a das responsabilidades. Alex já havia se acostumado com a nova identidade dela: Rude e fria. Pelo menos com ela. Com as outras pessoas, Piper até arriscava sorrir, ou conversar amenidades. As crianças a visitaram alegando sentir saudades, antes de partirem deixaram uns desenhos engraçados de Piper com os bebês. Chegando em casa, encontrou a maioria das coisas encaixotadas. Polly e companhia haviam cuidado de toda a mudança para a nova casa, em Manhattan. Piper tomou a decisão dias atrás, quando soube que Polly mudaria para lá também, devido ao novo emprego de Pete como editor chefe de um jornal local. Sua melhor amiga moraria em Greenwich Village. Alex mantinha uma casa em Old Westbuby, perto de Red. A casa estava à venda, pois a morena não chegou a morar lá, só a comprou para agradar a avó. Quando Piper lhe contou sobre a mudança para Manhattan, ofereceu-lhe a casa sem hesitar. Ela aceitou, mas pagaria por ela, Alex recusou de todas as formas, mas Piper declarou que desistiria caso protestasse em vende-la. O lugar era maior do que o planejado, levaria um bom tempo para pagá-la. Esperta como era, Alex a convenceria mais tarde. A casa era um presente para os filhos. E apesar de todo o transtorno, ela ainda seria.

Mamãe! – Benjamin deslizou dos braços de Vee para o chão, e correu até Piper. – Você já voltou? Como você está?

A mamãe precisa descansar, Ben. – Alex o afastou para longe.

Eu estou bem, Benjamin. – Piper alisou com as costas da mão a cabeça dele.

Piper, querida. – sua mãe a chamou. – Vá descansar, levarei seu jantar em alguns minutos.

Eu não estou com fome.

Piper..

Você é surda Alex?

Sentindo-se desprezada, Alex encolheu os braços, e olhou um ponto fixo da sala.

Piper, vá agora para o quarto, e nem adianta fazer essa sua cara de coitadinha. – Vee estava sufocando de tanto presenciar aquela grosseria por parte dela.

Contrariada, ela andou até o quarto sem olhar para trás.

Irei conversar com ela, Alex.

Eu já não me importo, Vee.

Oi tia Alex! – Maya deu uma cambalhota no sofá, chamando a atenção dela, em especial de Benjamin que olhou encantado o que ela fazia. – Minha mãe está malcriada.

Alex sorriu.

Eu aposto que sim.

Vee deu uma batida antes de entrar no quarto. Piper estava deitada de lado, espiando através da janela a neve caindo lá fora.

Querida eu sei como você está se sentindo.

Piper escondeu as lágrimas, disfarçadamente. Então de repente todo mundo sabia como era perder um filho e ter de carrega-lo até o fim da gestação?

Você está falando isso para eu me sentir melhor?

Cabe a você escolher.

Eu já não tenho escolhas. Uma parte de mim morreu.

Você tem que se alimentar e tratar bem a Alex.

Ela olhou Vee com um ar sarcástico.

Não me olhe assim, Piper. – Vee sacudiu o dedo na direção dela. – Você tem culpado Alex, mas a culpa também se aplica a você. Ela errou por não tê-la atendido, e você por não ter parado para escutá-la. Ela está sofrendo e se humilhando diante desta tua revolta toda. Quer parar de bancar a vítima e agir igual uma mãe forte que você insiste em massacrar?

Eu não consigo, é mais forte do que eu. – Piper se deixou chorar, novamente. – Eu perdi meu filho por..

Imprudência das duas partes. Não ouse jogar a responsabilidade toda nela para se sentir menos culpada. – ponderou. – Alex não merece isso, ela está com você nessa.

Ela está porque se sente culpada.

Ela está porque te ama.

Piper apertou os olhos.

Agradeça por ela ainda estar aqui aguentando essa sua fúria, outra pessoa em seu lugar estaria longe. Uma vez que ela não tem obrigação nenhuma de criar o seu filho. Se ela está se humilhando dessa forma, é porque te ama. Pare de pensar em sua dor, e comece a se preocupar com o outro bebê que conta com a sua ajuda para sobreviver. – Vee esperou, mas Piper não disse mais nada. Ela então saiu, deixando-a sozinha para raciocinar.

Mais tarde, Alex terminava de arrumar uma tenda improvisada de lençóis na sala para as crianças. O espaço seria pequeno, mas acabou sendo um pouco extenso e agradável. Ela entrou na brincadeira das crianças acompanhada de livros, lanternas e chocolate quente. Piper havia adormecido após comer uma canja, onde Vee esmagou um comprimido de calmante que o médico receitou.

Tia Alex, o papai Larry vai ganhar presentes de Natal no céu? – Maya sacudia a lanterna rapidamente, olhando-a.

É claro que sim. Ele adorava revistas da Playboy. – Alex arqueou a sobrancelha. – Papai Noel deixará uma coleção das coelhinhas dos anos oitenta. Eram suas preferidas.

Por que essas mulheres aparecem nuas? Elas precisam de roupas?

A boca de Alex se abriu em um ''O''

Baby, você sabe de qual revista estou me referindo?

Sei! – Benjamin arrancou sua lanterna. – Devolve! – ela a puxou de volta. – Tia Nicky tem algumas. – Contou, como se não fosse nada demais para a sua idade.

Eu vou matar Nicky.

Eu gosto dela, mamãe. – Benjamin coçou a cabeça, bocejando.

É, eu também! Estão com sono?

Sim. – disseram.

Legal. Deitem. – as crianças seguiram o seu comando. – Amanhã iremos nos mudar para a casa nova. O que me dizem? – quis saber a opinião dos pequenos, ao deitar, tirou os óculos.

Estranho, tia. – Maya ergueu o pé no ar, balançando-o para ambos os lados. – Quem morará aqui?

Tia Taystee.

E nós iremos morar com a vovó Red?

Não, meu bem. – Alex se dispôs a explicar. – Vocês morarão perto da casa da vovó.

Você vem morar com a gente?

Não.

Por que mamãe? – Benjamin perguntou com o dedo polegar na boca.

Ainda é cedo. Mamãe Piper e eu estamos.. Namorando. – ainda considerava o namoro por sua parte. Não podia dizer o mesmo por Piper.

Eu acho que entendi. – Maya disse, fechando os olhos. – Boa noite.

Boa noite! – Alex desejou, acompanhada de Ben.

Piper despertou sentindo uma fome monstruosa. Ela tomou um banho rápido e, vestindo uma roupa de frio agradável, seguiu até a cozinha. No caminho, encontrou uma tenda bem improvisada com nós resistíveis, abrigando três pessoas dentro. Os pés de Alex acabaram ficando de fora, ela era tão grande para o espaço. Piper deu uma olhadinha mais de perto e encontrou as crianças deitadas em cima dela. Maya descansava a cabeça em seu estomago, deixando uma marca de baba ali. Benjamin estava com a parte da nuca encostada no espaço do pescoço dela, sua boca estava aberta livremente. Um barulhinho de ronco preenchia o espaço. Alex dormia profundamente, Piper pode afirmar que ela não dormira bem nos últimos dias. Vee estava certa, ela não era a única culpada, e mesmo assim se manteve ali, para ela.. Saiu com cuidado para não acordá-los. Preparou seu ultimo café da manhã em silêncio. Pode sentir o bebê mexer em seu ventre, lágrimas de angústia já se formava em seus olhos, queimando sua visão. Outra vez pensou em como seria. Toda vez que olhasse para aquela criança, imaginaria como seria se o outro estivesse ali. Não queria criar o filho nessas condições, precisaria de muita ajuda para superar a perda. Contaria com Alex para isso.

Ei. – Alex entrou na cozinha com os pés descalços, com os cabelos saranhados. Chamou Piper para não assustá-la com sua súbita presença. Seus olhos verdes estudaram o rosto dela, os olhos de Piper estavam vermelhos. – Você está melhor hoje? – mesmo sabendo que tomaria um esporro, perguntou-lhe.

Eu acordei com fome, acho que é um bom sinal, não é? – respondeu com calmaria, fazendo Alex relaxar em agradecimento.

Quer que eu prepare algo? – ofereceu-se.

Eu já comi. – apontou para o prato com migalhas de pão. – Vá tomar um banho e tirar essa blusa toda babada.

Alex ganhou uma cor no rosto, agradecendo mentalmente a Deus por Piper falar com ela sem xingá-la. – Eu.. Eu.. – gaguejou. – Vou acordar as crianças. Partiremos em uma hora. – apressou os passos até a sala, antes que Piper soltasse os cachorros em cima dela. Por mais que tentasse, não conseguiria entender uma grávida no estado de Piper.

Quando chegaram em frente à propriedade e o carro parou, Alex desceu e abriu a porta para Piper sem nenhum comentário. Benjamin com a ajuda de Maya tirava o cinto preso à sua cadeirinha. Piper adentrou a casa, e precisou de alguns segundos para ajustar sua visão à tênue iluminação do local. Ainda que externamente a mansão parecesse reluzente, deslumbrante, seu interior era tristonho e gélido. Tapeçarias escuras cobriam todas as paredes do hall. Estas eram vistas também na escadaria que conduzia ao andar superior da casa. Um grandioso lustre de cristal pendia do teto bem no centro do ambiente, porém não estava aceso. Apesar da aparência, o lugar não ocultava o luxo reinante na casa.

Uau! Aqui é tão bonito. – a voz de Maya soou alegre, e satisfeita atrás de Piper.

Nós iremos reforma-la a seu gosto Piper. – Alex disse. – O quarto do bebê será montado em menos de cinco dias, como havia lhe dito no caminho. – ela tocou no assunto com muito receio.

Piper a olhou, olhou, olhou e concordou. Não trouxeram muitas coisas do antigo apartamento. Piper deixou a maioria dos móveis para Taystee de presente. Na casa nova havia praticamente tudo, e mais do que desejara.

Passaram uma semana no apartamento de Alex enquanto a casa era reformada. Piper havia melhorado muito. Mas evitava tocar no assunto em que envolvesse os bebês. Toda noite chorava, pois era inevitável. Ela optou por dormir sozinha por esse tempo. Alex a respeitou, mesmo com o coração ferido. Piper já não a tratava mal, mas também era direta quando ela puxava algum assunto. Uma discussão boba surgiu quando Alex lhe pediu que fosse ao médico para saber da saúde do filho. Piper deixou claro que não iria até o fim da gestação. A decoração da casa estava esplêndida. Cores vivas alegravam o hall e o restante da pequena mansão. O lugar não era nada comparado à casa de Red. Era espaçoso e muito simples. Havia duas salas, cinco quartos, uma brinquedoteca que era de Benjamin, agora redecorada e dividida em três espaços com diversos brinquedos, uma cozinha ridiculamente espaçosa, uma área de lazer com piscina, churrasqueira e um mini playground. Piper achou a cozinha tão enorme, Alex adorava cozinhas enormes, a julgar pela cozinha de sua cobertura. Na primeira noite em seu novo lar, Piper recebeu a visita ilustre de Nicky e Lorna. Elas a acompanharam até a sala, onde Alex acendia a lareira. Partes de uma árvore de natal estavam espalhadas pelo chão.

Eu já até mudei a árvore da minha casa, e vocês estão montando essa. – Nicky comentou, exibida. – É maravilhoso saber que somos vizinhas, Piper.

É amável. – ela encolheu-se no sofá. – Não consigo imaginar você montando uma dessas. – Inclinou a cabeça para árvore.

Ela personalizou as bolinhas da nossa árvore com as fotos do Snoop Dogg! – Lorna confessou, abraçando o corpinho de Maya.

Eu não acredito. – Alex deu uma risada descontraída. – Red não a expulsou?

Ela adorou! Não foi amor?

Não minta, Nicky. Ela ficou constrangida.

Nicky sorriu com astúcia.

E você P, está melhor?

Eu estou legal. – ela balançou a cabeça, olhando Alex fincar a estrela no topo da árvore.

Terminei aqui. – Alex bateu palmas. – Como ficou? – perguntou de modo geral.

Tá tudo lindo. – Benjamin cruzou os bracinhos atrás da cabeça, deitado no tapete.

Ah! Você está aí, é? Diabinho. – Nicky sentou em cima de sua pequena barriga, sem fazer pressão.

Oi! – ele respondeu, se remexendo.

Está incrível, Alex. – Piper elogiou o trabalho dela, deitando a cabeça em cima do braço dobrado.

Verdade? – inquiriu, sem jeito.

Absolutamente. – argumentou com afetação.

Alex sorriu, orgulhosa de si mesma. Apanhou um Elfo de pano e o pendurou na estante.

Vocês estão se comportando bem, crianças?

Estou! – Maya respondeu por si.

Eu também! – Benjamin disse.

Muito bem! – Alex os olhou. – O Nunu Elfo estará de olho em vocês, ele estará fazendo um relatório do comportamento de cada um. Na noite de Natal, ele levará os relatórios ao Papai Noel. O mais importante: Vocês em hipótese alguma devem se aproximar ou tocar nele.. – indicou o boneco. – Porque senão, ele perde os poderes mágicos!

Que legal! – Maya sentou sobre os calcanhares.

Oh!Piper exclamou encantadíssima.

Ganharemos Candy cane, mamãe?

Sim, Benjamin. – Alex disse, e ligou a árvore de Natal. As luzes piscavam sem parar, de todas as formas, e de todas as cores. Antes de sentar perto de Piper, ela pendurou uma plaquinha que dizia a seguinte frase: Papai Noel, leve minha irmã e deixe um presente.

Essa plaquinha está na casa errada. – Nicky observou.

Não penso assim. – debochou Alex.

Piper levantou devagar, sorrindo da palhaçada das duas.

Tudo certo?

Eu estou com fome, Alex. – os olhos azuis buscaram a figura de Lorna. – Lorna, me acompanha até a cozinha?

É pra já.

Na nova cozinha, Piper fazia uma salada de cenoura, banana, kiwi e pepino. Lorna experimentou e adorou a mistura louca. Piper a adorava, ela era tão agradável e doce.

Eu adoro a suas invenções, Piper.

Você é adorável. É por isso que eu te amo!

Sorriram.

Como está sendo essa nova etapa? – Lorna perguntou.

Difícil. – suspirou. – É tão triste entrar no quarto dele, e notar tudo diferente do que havia planejado. Mas eu estou feliz por ele ainda permanecer aqui comigo. – Alisou com carinho o estômago. – Quando vou dormir tenho a sensação de que os dois estão mexendo. Tenho evitado todas as consultas, não quero ouvir somente um coraçãozinho batendo.

Lorna tentava entende-la.

Você será uma mãe maravilhosa! – sorriu, mexendo a maçã do rosto. – Quer dizer, você novamente será uma mãe incrível.. Maravilhosa.

Obrigada, querida. – Piper agradeceu, e fez um convite na sequência:

Gostaria de ver o quarto do seu sobrinho?

Com toda a certeza.

No quarto do bebê, Piper explicava cada parte dos móveis planejados. As paredes foram pintadas nas cores brancas e amarelas. Uma faixa decorativa com leões pequenos dava um toque especial ao lado do berço. No espaço havia pelo menos uns dez leãozinhos diferentes. As luzes eram fraquinhas, de acordo com a visão do bebê. A sua parte preferida do quarto, era uma pequena área de amamentação que fora montada exclusivamente para que ela amamentasse o recém-nascido tranquilamente. O espaço ainda contava com um pequeno closet, onde as roupinhas estavam devidamente em seus lugares certos.

Na sala Alex tomava outro gole de vinho, seguida por Nicky.

Fico feliz em saber que as coisas estão se ajeitando aos poucos. Vocês já fizeram um amorzinho apaixonado de reconciliação?

Piper não pode se esforçar ainda, Nicky. A gravidez dela ainda é arriscadíssima.

Ai, que merda. – lamentou.

E não estamos dormindo na mesma cama, ela nem sequer me beija.

Que dureza. – desdenhou para irritar Alex.

Foda-se, sei que você quer me irritar.

Há! – riu, brevemente. – Já escolheram o nome do bebê?

Sim, nós conversamos e já decidimos. Pelo menos ela ainda me considera mãe dele. – falou baixinho.

Qual é o nome do bebê?

Não contaremos ainda. – tlintou as taças, ignorando a cara avaliativa de Nicky.

Você é uma puta. – Deixou sua bebida pra lá, e puxou o notebook de Piper. – Veremos uns vídeos aqui no youtube.

Você está digitando errado.

Ela é burra, mamãe. – Benjamin provocou, montando seus brinquedos de lego.

Maya riu histericamente.

Respeite-me, seu safado. – ela não se importou, acabou rindo também. Ao acessar o site, procurou por partos naturais.

Deus que me livre. – Alex tapou a boca, horrorizada, olhando a cabeça do bebê passando pela vagina da mãe.

Imagina a mãe de Arnold Schwarzenegger empurrando ele dessa forma? – Nicky ria, com nojo.

Como você sabe que ele foi empurrado por baixo?

O pai da Lorna é fã do cara.. Puta merda! Olha isso.. – virou o notebook.

Alex sentiu o estomago embrulhando.

Estamos falando em termos de cabeça?

É, Alex.

Tia Nicky, deixa eu ver? – Maya já se aproximava, mas foi detida.

Não, isso é feio!

O que é isso comparado às revistas da Playboy? – Alex rolou o mouse para baixo, analisando os outros vídeos.

Como assim? – Nicky acompanhava a setinha.

Ela encontrou suas revistas.

Puta merda. Piper soube?

Não.

Enfim. – sorriu. Ela não vai querer ver um bebê saindo dali.

Sabemos que não.

Clica nesse. – afundou o dedo na tela.

Alex deu play no vídeo indicado.

Voltando aos termos de cabeças.. Acho que a do Sylvester Stallone é maior.

Seria legal se ele fizesse um trailer de Rocky com o tema ''Renascendo das Cinzas.'' Saindo de dentro da xota da mãe dele.

Alex não aguentou, e deu uma risada gostosa.

Nicky, solte o meu computador.

As duas fecharam o notebook, como se estivessem sido pegas por seus pais, ao ver um site pornô.

Aqui. – Ela estirou-o na direção das mãos de Piper.

Nicky, vamos? – Lorna colocava suas luvas.

Sim!

Depois de se despedirem, Lorna partiu levando sua esposa. Alex colocou as crianças na cama. Maya estava insatisfeita por ter que dormir longe do irmão. Mas teria que se acostumar, os dois não poderiam dormir juntos para sempre. Piper estava lendo um livro de receitas para bebês, quando sentiu a energia da presença dela.

Você não está com sono? – Alex sentou à frente dela, abraçando os joelhos.

Um pouco. Irei subir. – Reergueu-se, fechando o livro.

Alex suspirou profundamente.

Você não vem?

Eu? – exclamou, sorrindo com incredulidade.

Só tem você e eu aqui, Alex.

E o Nunu Elfo. – corrigiu-a.

E o Nunu Elfo, claro. – Piper esperou que ela se levantasse. – Mude ele de lugar.

Era isso o que estava prestes a fazer. – ela pendurou o boneco pendurado na porta do hall.

Vamos!

Piper esperou que ela entrasse e fechasse a porta. Alex sentou com tanto medo na cama, que Piper sorriu.

Você está com medo de mim?

Eu estou com medo de irritá-la. – ela disse, se cobrindo até o pescoço.

Alex, olhe para mim.

Alex virou um pouco a cabeça, mirando-a.

Me desculpe por culpa-la.. Nós duas fomos responsáveis por isso.

Querida, não precisamos tocar no assunto.

Piper a essa altura já chorava.

É tão difícil.. Queria colocar a mão dentro de mim e ressuscitá-lo.

Shh. Não chore. – Alex sentou na cama, e a puxou com cuidado. – Vai ficar tudo bem, eu prometo. – ela a confortou, antes de pegarem no sono juntas, após dias dormindo separadas.

Cinco dias depois.

Mamãe, eu quero abrir os meus presentes. – Benjamin chorava, nos últimos dias ele estava tão sentimental. Era de dar pena.

Meu amor, você só poderá abrir amanhã. – Piper sorria de sua manha.

Hoje é Natal!

Hoje é véspera, querido.

Amanhã é o Natal. – Maya replicou. – O Nunu Elfo está vendo você chorar, seu bobão.

O menino conteve as lágrimas. De olhos atentos no boneco de pano, posto nas prateleiras da brinquedoteca.

Iremos descer, não os quero correndo pela casa. Combinado?

Os dois confirmaram com a cabeça. Piper e Alex decidiram fazer uma ceia pequena, onde esta terminaria antes das dez da noite. As crianças vestiam um pijama de pezinhos, com um casaco por cima. Estava muito frio, mas a casa era quente. Havia aquecedores espalhados por todos os cômodos. Piper usava um vestido longo, e vermelho. Alex optou por um modelito parecido com o seu. Os convidados para a ceia estavam no andar de baixo.

Você está linda, meu amor.

Obrigada, mãe. – Piper sorriu para o elogio.

Amor, Polly ligou. – Alex disse, segurando em sua cintura. – Disse que está com a família de Pete no México. Provavelmente ela chegará depois do Ano Novo.

Ligarei para ela depois. – ela lamentou. Sempre passou o Natal ao lado de Polly, ela era muito engraçada com as suas tradições. Alex deu um beijo em sua bochecha, e seguiu para o lado de Nicky.

Você e Piper não querem ir conosco para a casa de Sophia?

Piper ainda não está no clima, Nicky. Sem contar que estamos exaustas. Principalmente ela, não tem dormido direito, na noite passada ela teve um pesadelo com o falecido Fred, e custou a dormir.

Você irá perder a melhor festa natalina, cunhadinha. – Taystee comentou para incentivá-la.

Mãe! – Benjamin cutucou Alex. – Luminor comeu minha almofada de foguete.

Coitadinho! Vamos lá conversar com ele.. – ela virou os olhos. – Divirtam-se.

Me mate se um dia eu ficar patética assim. – Taystee disse para Nicky.

A ceia percorreu dentro dos conformes. Red chegou montada de presentes de todos os tamanhos, cores e formas. Maya e Benjamin colocaram os biscoitos com um copo de leite embaixo da árvore, e subiram para o quarto. Onde dormiram meia hora depois.

Piper, tem certeza de que vocês não querem nos acompanhar? – Vee perguntou.

Mãe, eu até gostaria, mas não será possível.

Amanhã nós voltaremos. – Taystee abraçou Piper, se despedindo. – Feliz Natal. – desejou e abraçou Alex, ao lado.

Feliz Natal.

Nicky, Lorna e Vee desejaram os votos e partiram. Taystee as aguardavam no carro.

Minhas queridas! – Red as envolveu em um único abraço. – O jantar estava maravilhoso. – afrouxou o a perto em torno delas. – Eu espero que vocês tenham um Feliz Natal, com essa pequena maravilha aqui – tocou a barriga de Piper. –, estou feliz por vocês duas. Durmam bem. Voltarei amanhã para dar um beijo em vocês e nas crianças.

Eu te amo, Red. Obrigada por tudo, e nos perdoe por não darmos uma festa grandiosa.

Besteira, querida. A festa não é importante comparada à união de vocês.

Novamente, Red abraçou-as. Seu motorista a aguardava com a porta do carro aberta.

Obrigada Red, Feliz Natal. – Piper desejou a ela.

Cuidado com a neve. – Alex abraçou Piper, vendo sua avó partir.

Piper deitou a cabeça no peito de Alex, aquela posição estava tão confortável. O bebê mexeu de repente, cutucando o abdômen da morena.

Tem uma pessoinha acordada..

Ele está lhe desejando Feliz Natal.

Feliz Natal, Lennon. – ela acarinhou a barriga de Piper. – A mamãe te ama.

Eu te amo, Alex. Obrigada. – disse, depositando um beijo terno nos lábios dela. – Feliz Natal.

Feliz Natal meu amor. Durma bem!