Capítulo Trinta e Sete
A Time To Speak
(Hora de Falar)
Furiosamente, Harry aumentou seu aperto ao redor dos braços de Seamus, incapaz de falar. Aparatou os dois para o beco atrás do prédio onde estava ficando em Belfast, jogando Seamus pela porta para dentro do apartamento, jogando-o contra a parede.
- O que eu estou pensando? O que você está pensando? – rosnou, jogando Seamus na cadeira. – Meu Deus, Seamus, você já não teve o bastante dessa merda ano passado?
- O que isso te importa? – Seamus retorquiu. – Não tem nada a ver com magia!
- E como você sabe? – Harry gritou, a raiva tão próxima à superfície que supôs que conseguia sentir o calor emanando de sua pele. – Como você sabe que não há bruxos das trevas por trás disso?
- E como você sabe que há? – Seamus retorquiu raivosamente.
- Não sei. – Harry bufou, cruzando os braços sobre o peito. – Mas você não devia estar lá.
- Você não é minha mãe. – Seamus argumentou. – Você não pode me falar o que fazer!
Harry soltou o ar com força pelo nariz.
- Seamus, - começou. – você escutou o que eles estão falando?
- Eles querem os ingleses fora da Irlanda. – Seamus disse com um encolher de ombros.
- Da mesma maneira que eles queriam os nascidos-trouxas fora da comunidade? – Harry sibilou. – E que tal as bruxas e bruxos que se casaram com trouxas?
- É diferente. – Seamus insistiu.
- É? Então me diga como é diferente. – Seamus ficou sentado, os lábios pressionados. – Não é tão diferente, é? Eu sei que você mora aqui, Seamus, e você não pode ser totalmente ignorante ao que está acontecendo.
Seamus desviou os olhos do olhar penetrante de Harry. Seu maxilar estava tenso e os tendões de seu pescoço estavam saltados com o esforço.
- Sabe o que é diferente? – ele perguntou em voz baixa. – Eu posso lutar dessa vez.
- O que isso deveria significar?
- Eu fiquei sozinho o ano todo! – Seamus gritou. – Você, Ron e Dean não voltaram, e Neville estava muito ocupado bancando o herói! – tirou a varinha do bolso e começou a destruir vários itens do cômodo. Harry ficou parado, sem interferir nem falar algo, esperando pacientemente até que o braço de Seamus abaixasse, e o ar fosse preenchido pelo som de sua respiração pesada. – Eles estavam em todos os lugares. – disse inexpressivamente. – Corredores, salas de aula. Não importava o quanto eu tentasse ficar com os outros, um dos Sonserinos colocava um feitiço de silêncio em mim, me petrificava e... – engasgou.
- E o quê?
Seamus balançou a cabeça violentamente.
Harry olhou para Seamus, se lembrando de como ele estivera machucado quando o vira na Sala Precisa antes da batalha começar. Seamus se encolheu sob o olhar de Harry, incapaz de encontrar seus olhos.
- Eles apenas te bateram?
Seamus corou e imediatamente empalideceu, deixando seu rosto manchado. Pulou para fora da cadeira e correu para a porta, puxando-a, mas ela se recusou a abrir.
- Por que não abre? – ofegou, angústia presente em sua voz.
- É encantada. – Harry disse simplesmente. – Você não consegue abrir de nenhum lado a não ser que um dos Aurores a toque. – andou até Seamus e colocou uma mão no ombro trêmulo dele. Para sua surpresa, Seamus gritou, então virou e socou Harry no maxilar.
- Não me toque!
Harry recuou alguns passos, esfregando a área machucada de seu rosto.
- O que aconteceu com você?
- Me deixe sair! – Seamus implorou, virando-se de volta para a porta, os braços ao redor de si mesmo. – Por favor...
Hesitante, Harry andou ao redor de Seamus, lhe dando bastante espaço, certificando-se de que Seamus pudesse lhe ver.
- Eu vou tocar a porta. – Harry disse suavemente. – Certo? – Seamus assentiu, mantendo os olhos fixos no chão de madeira sob seus pés. Harry esticou a mão na direção da maçaneta, seus dedos a roçando, e um suave click soou pelo cômodo. Seamus abriu a porta e passou correndo pela passagem, o som de seus passos sumindo nas escadas.
Harry tirou o boné e correu uma mão pelo cabelo, que estalou por causa da estática criada pelo algodão do boné. Deixou o boné na cadeira que Seamus deixara livre e deixou seu agasalho junto, antes de ir para a cozinha, acenando a varinha para a chaleira. Estava se sentando à mesa com uma xícara de chá entre as mãos, quando Peter entrou na cozinha.
- Suponho que você o conheça?
- Quem? – Harry perguntou estupidamente.
- A pessoa que você trouxe com você.
Harry ergueu os olhos rapidamente para seu supervisor.
- Você ouviu?
- Não estava tentando entreouvir. – Peter disse apologeticamente, se servindo de chá. – Vocês dois fizeram bastante barulho.
Os ombros de Harry caíram.
- Desculpe.
- Está tudo bem. – Peter misturou leite em seu chá e tomou um gole. – Como você o conhece...? Seamus?
- Mesmo ano da escola. Mesma casa, também. – Harry cuidadosamente tocou o lugar em seu maxilar que Seamus tinha socado. – Não sabia que ele tinha uma boa direita...
- Parece que vai ficar um hematoma feio. – Peter comentou. – Aqui, deixe-me... – tirou a varinha do bolso e gesticulou na direção do rosto de Harry.
- Não, tudo bem. Obrigado.
Peter deu de ombros e guardou a varinha.
- Tudo bem. – estudou Harry por um momento, antes de pegar sua xícara. – Atacar não é sobre infringir dor. – disse casualmente. Harry olhou para Peter e de volta para a superfície de seu chá. – É sobre poder. Não importa como.
- O que quer dizer?
- Você é bastante ingênuo com algumas coisas, não é? – Peter disse, suavizando suas palavras com um pequeno sorriso.
- Erm... – Harry deu de ombros.
Peter olhou Harry duramente.
- Mulheres não são as únicas vítimas de estupro. – disse rapidamente.
Harry balançou a cabeça lentamente.
- Não Seamus. – disse.
- Talvez não. – Peter cedeu. – Mas é uma possibilidade. – permitiu que Harry digerisse essa informação, antes de mudar de assunto. – Viu alguma coisa na reunião?
- Não. Estava acabando quando eu peguei Seamus.
- Hm. – Peter tirou um pedaço de pergaminho amassado do bolso e o deslizou pela mesa. – Essa é uma lista de bares em que eles costumam se encontrar.
Harry terminou seu chá e colocou o pergaminho no bolso.
- Certo.
- Enfeitice seu copo, então. – Peter avisou. – Você não vai nos servir de nada se ficar tão bêbado que não consegue achar sua própria bunda com as duas mãos e um feitiço dos Quatro Pontos.
- Sim. – o rosto de Harry se torceu em linhas pensativas e foi para a sala de estar, pegar seu agasalho e boné.
Peter o seguiu, observando Harry cuidadosamente colocar o boné sobre o cabelo e cicatriz.
- Harry, sobre seu amigo...? – Harry passou os braços pela manga de seu agasalho e não disse nada, mas olhou para Peter com expectativas. – Não desista dele, eh? Não o pressione, mas também não desista dele.
Harry assentiu e saiu pela porta.
-x-
George parou do lado de fora da porta de Katie e ergueu a mão para bater, mas se parou no meio do movimento e cheirou cuidadosamente seu suéter. Não tinha se dado ao trabalho de ir para casa depois de fechar a loja e o suéter tinha sinais do trabalho na sala dos fundos. Antes que pudesse realmente bater, a porta atrás de si abriu um pouco.
- Ela não está em casa.
George se virou para ver o bruxo que vivia no apartamento de frente para Katie.
- O que você faz? – perguntou distraidamente. – Monitora ela?
O bruxo riu ruidosamente.
- Não. Apenas fico de olho. – se escorou na batente da porta e olhou longamente para George. – Fica até mais tarde nas noites de quinta-feira naquela revista dela, para ajudar com os esboços.
- Oh. – o rosto de George se abateu levemente. – Você sabe quando ela volta? – perguntou esperançosamente.
- Só mais tarde, garoto. – o bruxo olhou longamente para George mais uma vez, estudando-o. – O escritório é naquele pequeno prédio entre o Empório das Corujas e a loja de caldeirões. – indicou. – Último andar. – George olhou de boca aberta para ele e o bruxo bufou com escárnio. – E se você não consegue ler entre essas linhas, garoto, você é mais estúpido do que aquele cara que ela acabou de dispensar.
George começou a descer as escadas. Parou no patamar debaixo.
- Obrigado! – gritou para o andar de cima, antes de continuar a descer até o térreo, batendo na porta na pressa. Desceu o Beco Diagonal até chegar ao pequeno e discreto prédio, quase perdido entre os caldeirões brilhantes e a decoração do Empório das Corujas. Abriu a pesada porta e subiu as escadas escuras e estreitas até um conjunto de salas cheias e sujas. A maioria estava apagada e vazia, mas algumas tinham luzes fracas brilhando no corredor. George caminhou pelo corredor, espiando dentro das salas.
- Posso ajudá-lo? – uma bruxa de meia idade, que o lembrava de Molly, perguntou cansadamente.
- Estou procurando pela Katie...
- A Katie ainda está aqui? – a bruxa perguntou para a outra pessoa na sala.
- Sim. Está ajudando a organizar a coluna de artes.
- Segunda porta da direita. – a bruxa falou para George.
- Obrigado. – George falou e rapidamente encontrou a sala onde Katie estava sentada em um banquinho comprido, o cenho franzido para uma coleção de fotografias e desenhos. – Olá. – falou ofegante.
Katie pulou, derrubando as fotos o chão.
- George! O que está fazendo aqui?
- Estava imaginando se você está com fome. – falou pateticamente.
- Não posso... – Katie disse, se abaixando para pegar as fotos.
- Certo, bem, você parece estar ocupada. Tem planos para amanhã à noite?
Ela balançou a cabeça.
- Não de verdade, mas...
- Brilhante! Te pego as sete?
Katie suspirou e acenou a varinha para a porta, fechando-a. Esse não era o lugar em que queria ter essa conversa, mas sentia que qualquer outra coisa seria desonesta.
- Não. – colocou as fotos na mesa e pousou as mãos trêmulas sobre elas. – George, eu realmente gosto de você. – começou. – E eu adoraria ir jantar com você e qualquer outra coisa que tenha em mente.
- Certo. – George falou perplexo.
- Mas não consigo fazer isso. – Katie terminou dolorosamente. – Apenas não consigo...
George puxou o ar com dificuldade, sentindo como se Katie tivesse lhe dado um soco no peito.
- Por quê?
Katie abaixou a cabeça, até que seu cabelo estivesse escondendo seu rosto.
- Só não consigo...
- Mas eu achei... – a boca de George estava seca, impossibilitando para que ele falasse. – Achei que você...
- E está certo. – Katie falou rapidamente. Pressionou os lábios. – É só que três pessoas em um relacionamento são um pouco demais. – confessou suavemente. – Sinto muito. – adicionou, sua voz falhando. Esperou pela resposta de George, mas o único som foi da porta se abrindo e fechando quase silenciosamente.
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Ginny estava na aula de Defesa, mordendo o lábio, sem prestar atenção ao que estava acontecendo ao seu redor. Normalmente, as aulas de Carter eram interessantes, cheias de discussões animadas sobre quando e como usar determinados feitiços, e quando algo cruzava a linha de defesa e virava magia ofensiva, mas ela ignorou tudo ao redor para analisar sua agenda de dever de casa. A ponta de sua pena batia em cada quadrado, enquanto contava os dias com uma grossa linha os marcando. Onze dias... Disse para si mesma. Tinha uma longa carta para Harry na sua mesa de cabeceira, que tinha escrito no seu ritmo normal, adicionando um pouco a cada dia, mas agora estava o dobro do tamanho normal.
- Senhorita Weasley? – Carter chamou. – Senhorita Weasley? – repetiu um pouco mais alto.
Luna acotovelou Ginny nas costelas, fazendo-a derrubar sua pena.
- O quê? – perguntou estupidamente.
- Eu estava perguntando se há algum motivo para usar os feitiços ou maldições mais cruéis que causam um monte de destruição e estragos. – Carter respondeu. Olhou para a ampulheta sobre sua mesa e suspirou. – Mas isso é tudo por hoje, senhoras e senhores. Dever para o fim de semana: sessenta centímetros sobre a ética de se utilizar feitiços questionáveis. Para a aula de terça-feira. – os alunos começaram a guardar suas coisas nas mochilas e a sair da sala conversando e reclamando da quantidade de deveres de casa que tinham para fazer durante o final de semana. – Senhorita Weasley, pode ficar por um momento, por favor?
Ginny, que tinha começado a se levantar, voltou a se sentar.
- Guardo seu lugar no jantar. – Hermione murmurou, antes de sair de seu lugar e seguir Luna e Hannah para fora da sala.
Carter acenou com a varinha para a porta, fechando-a, mas quando estava se virando para Ginny acenou novamente a varinha, abrindo um pouco a porta.
- O que está acontecendo, Ginny? – ele perguntou.
- Nada. – Ginny respondeu inexpressivamente, brincando com uma pena.
- Boa tentativa. – Carter bufou. – Vamos tentar de novo, certo? O que está acontecendo? – repetiu pacientemente. – Você sempre participa, sempre tem algo relevante para adicionar à discussão em sala, e você tem bastante experiência prática com essas coisas, mas desde que as aulas começaram na segunda-feira, você está distraída e não está prestando atenção a nada ao seu redor. – se sentou na ponta da mesa em frente à Ginny, seus braços cruzados sobre o peito. – Eu sei que está planejando jogar Quadribol profissionalmente, mas e se algo te acontecer e você não puder mais jogar, hmmm? – esticou o braço e tirou a pena maltratada da mão de Ginny.
Ginny suspirou e espalmou as mãos sobre a superfície da mesa.
- É idiota. – murmurou.
- Não deve ser idiota se você está tão preocupada com isso.
- Você se lembra do Harry?
- Sim.
- Ele está fora... – Ginny gesticulou vagamente na direção da janela. – Não posso escrever para ele e ele não pode escrever para mim e toda manhã eu pego o jornal de Hermione para ver se há alguma notícia sobre a equipe dele em... – a boca de Ginny ficou tensa. – Eu nem sei onde ele está. – encolheu os ombros. – Ele disse que não era perigoso, mas ele tem uma noção engraçada do que a palavra 'perigo' quer dizer.
- Entendo. – Carter saiu da mesa e se sentou na cadeira, os braços sobre o encosto. – Eu desisti de ser Auror por que minha esposa se preocupava muito comigo.
Ginny olhou para a mão esquerda dele, mas não tinha uma aliança.
- É casado?
- Não. – Carter respondeu em voz baixa. – Mas isso está fora de questão. Eu sei que você é nova, mas se está nessa a longo prazo, quer se case com ele ou não, você não pode viver com tem feito por... Há quanto tempo ele está fora?
- Onze dias.
- Não estou te falando para não se preocupar. Deve se preocupar. Sempre há a chance de algo dar errado. Mas não pode deixar isso dominar sua vida. As pessoas vão pensar que você não se importa porque não está roendo as unhas, esperando sentada à janela até que ele volte para casa.
- Isso parece tão egoísta. – Ginny observou.
Carter sorriu, mas havia um tom de tristeza.
- "Tudo tem seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu"¹, senhorita Weasley. – citou. – E isso inclui um momento para se lamentar e um para rir. É tudo sobre equilíbrio, e se você não aprender a encontrá-lo, você irá ser muito infeliz. – se levantou e foi para frente da sala. – Tome seu tempo para se lamentar, senhorita Weasley, mas não negligencie seu tempo de rir. – folheou a prova que aplicara para ver o quanto tinha sido esquecido durante o feriado. A de Ginny estava em branco. A fez sumir com um gesto da varinha. – Eu tenho detenção essa noite com alguns alunos do quinto ano. Volte as sete e eu vou te dar outra prova.
- Obrigada, senhor. – Ginny falou, pendurando sua mochila no ombro.
- Mais uma coisa, senhorita Weasley... – Carter começou. – Além de sua família e amigos, não importa o que as pessoas querem pensar. Elas não estão dentro da sua cabeça. Ou do seu coração.
- Sim, senhor. – Ginny respondeu, uma expressão pensativa em seu rosto.
-x-
Harry caminhou pela calçada em direção a um dos bares na sua lista. Avery tinha uma lista separada para os bares ingleses, enquanto Harry, depois de conviver com Seamus por seis anos, conseguia fazer uma imitação aceitável do sotaque irlandês e se misturava melhor nos bares que os irlandeses frequentavam. Estava há um quarteirão quando um galo prateado apareceu aos seus pés.
- Mas que...?
- Harry, cai fora daí! – a voz de Avery sibilou. – Cai fora daí—
O resto da mensagem de Avery foi perdida na explosão que passou pela janela do bar. Instintivamente, Harry ergueu os braços na altura do rosto, enquanto era jogado vários metros longe, destroços caindo sobre seu corpo inconsciente.
Segundos mais tarde, em meio às sirenes, Emma e Peter aparataram em um beco perto do bar destruído.
- Você o vê? – Peter perguntou a Emma urgentemente.
- Não... Ainda não. Qual a cor do suéter que ele estava usando quando saiu do apartamento?
- Vermelho, eu acho.
- Isso vai ajudar a localizá-lo. – Emma comentou ironicamente.
- Isso é hora, Em? – Peter repreendeu.
- Acho que eu o vejo... – Emma correu para a rua, seguida por Peter. Ajoelhou-se ao lado de Harry, freneticamente procurando por pulso. – Ele está vivo... – murmurou, estudando o resto dos estragos. Os óculos estavam tortos, as lentes quebradas. Sangue saia de um ouvido e suas mãos estavam arranhadas e ensanguentadas por causa dos destroços.
- Como ele está?
Emma olhou rapidamente ao redor e pegou sua varinha, começando a murmurar feitiços.
- Precisamos levá-lo ao St. Mungus. Agora.
Peter assentiu e tirou um dos tênis de Harry. Apontou sua varinha para o tênis e murmurou:
- Portus. – pegou um punhado na manga do agasalho de Harry e colocou a mão dele no tênis. – Vá encontrar Avery e volte para o apartamento. – desapareceu e apareceu na entrada do hospital, segurando o corpo mole de Harry contra o seu para que ele não fosse ao chão. Peter apontou a varinha para Harry, prendendo-o firmemente a uma maca que conjurara antes de levitá-lo até a vitrine. – Peter Wilson. Eu tenho um Auror machucado. – o manequim foi para o lado e Peter atravessou a vitrine. Passou Harry para os Curandeiros que os cercaram.
- O que causou esse estrago? – um deles perguntou.
- Bomba trouxa. – Peter disse rapidamente.
- Tão incivilizado. – o Curandeiro murmurou.
- E enfeitiçar alguém até a inconsciência é? – o outro retorquiu.
Peter, satisfeito que Harry estava sendo tratado, rapidamente fez seu caminho até a única conexão com o flu do outro lado da recepção. Jogando o pó de flu no fogo, rosnou:
- Ministério da Magia.
-x-
Shacklebolt hesitou do lado de fora d'A Toca. Conseguia ouvir o rádio tocando uma música, enquanto Molly preparava o jantar, e ele odiava interromper a atmosfera alegre. Bateu na porta e Arthur a abriu, sorrindo.
- Kingsley! Quer ficar para o jantar?
- Arthur, eu preciso falar com você. Molly também.
- George e Ron não foram pegos importando Sementes de Tentáculos Venenosos, foram? – Arthur perguntou com um sorriso.
- Não. – Shacklebolt entrou na casa e fechou a porta. – Você sabia que Harry colocou você e Molly para serem notificados em caso de ferimento ou morte?
- N-n-n-não. – Arthur gaguejou. – Ele está...?
- Ferido. Bastante, de acordo com o supervisor dele. Ele está em St. Mungus nesse momento.
- Vou chamar Molly. – Arthur falou rapidamente.
-x-
Molly e Arthur estavam dentro do quarto de hospital de Harry, pálidos e ansiosos, escutando a Curandeira listar os ferimentos de Harry.
- Concussão, ruptura do TM...
- O que é isso? – Molly interrompeu.
- Tímpano. – a Curandeira respondeu pacientemente. – Lacerações nas mãos e rosto, três costelas quebradas e várias perfurações por causa dos destroços. Isso só com o exame inicial.
- Ele vai ficar bem? – Arthur perguntou nervosamente.
A Curandeira tentou sorrir de modo tranquilizador.
- Nós tratamos as lacerações e as perfurações e estamos tentando fazer algo sobre a ruptura do tímpano. Deve se curar sozinho, mas estamos tentando acelerar o processo. Mas pode ser que ele não consiga escutar muito bem por um tempo. As costelas são as próximas na lista e não parece haver algum ferimento interno, mas vamos fazer um exame mais detalhado logo. Ele teve sorte.
- E a concussão? – Arthur perguntou.
- Ele recobrou a consciência há meia hora, mas nós lhe demos algo para a dor e ele ficou bastante sonolento. Vai dormir por um tempo. – a Curandeira permitiu que um pequeno sorriso aparecesse em seu rosto. – Ele é um paciente difícil. Recusou-se a ficar na cama. Ele precisa descansar.
- Podemos ficar? – Molly perguntou.
A Curandeira olhou para o relógio na parede perto da porta.
- Até a hora da visita acabar. Vocês têm por volta de duas horas. – ela saiu do quarto e Molly manteve a porta aberta.
- Você pode entrar agora. – Molly disse tremulamente. George olhou para o corpo parado de Harry, antes de correr para a área de espera. – George! – Molly chamou. – George!
Ele a ignorou e desceu as escadas até o lado de fora de St. Mungus. Sua cabeça estava girando freneticamente, procurando por um beco escondido. Correu para uma rua escura e aparatou sob as sombras de uma lata de lixo enorme. Apareceu no caminho entre Hogwarts e Hogsmeade e foi até os enormes portões de aço que guardavam a escola. George se jogou contra eles e foi repelido, pousando de maneira desonrosa no traseiro e na sujeira. Jogou-se contra os portões enormes, tentando balançá-los. Não conseguia passar por entre as barras, porque o espaço entre elas encolhia sempre que tentava.
- Mande um Patrono, seu idiota. – murmurou para si mesmo. – Pense em algo feliz...
Era mais fácil falar do que fazer. Primeiro, George tentou usar o dia que ele e Fred abriram a loja, mas essa lembrança agora era acompanhada por uma pontada de dor. Considerou e descartou Katie. Não tinha uma memória feliz o bastante com ela e a rejeição dela ainda doía muito.
- Pense, seu maldito bundão! – George sibilou. Caiu de joelhos, procurando por algo que pudesse usar. Retornou à sua primeira ideia de usar o dia em que abriu a loja, sem ter nada melhor em mente. – Expecto... – engasgou. Uma fina névoa prateada saiu da ponta de sua varinha. – Abrir a loja, fazer o que quisermos. – se lembrou. – Nos nossos termos... – respirou fundo. Ginny precisa de você... – Expecto Patronum! – urrou, mas não adiantou. A névoa ficou grossa e tomou a vaga forma de uma raposa, antes de desaparecer na noite fria. Exausto do esforço, George se apoiou no portão. – Alguém, por favor... – falou roucamente.
- George?
A cabeça de George se ergueu e a forma de Flitwick entrou na luz.
- Professor. – resmungou. – Preciso ver Ginny.
Flitwick ficou na ponta dos pés para bater a ponta da varinha na tranca.
- É claro. Tudo o que tinha que fazer era tocar o sino. – ele falou severamente. – Os javalis contaram às gárgulas da sala dos funcionários que você estava fazendo uma algazarra.
- É uma emergência. – George disse apenas, tentando acompanhar Flitwick, mas visivelmente se tornando impaciente. – Desculpe, professor. – murmurou, antes de começar a correr. Escorregou para dentro do Salão Principal, vendo o cabelo vermelho de Ginny entre os Grifinórios. Ele a passou e foi direto até a mesa dos funcionários. – Professora McGonagall. – ofegou. – Eu preciso levar Ginny para casa. – estava ciente do súbito silêncio que caiu entre os alunos. George olhou por cima do ombro para a mesa de Grifinória. Ginny e Hermione estavam sentadas uma do lado da outra, os rostos contorcidos em choque, pálidos. – Hermione também.
- O que aconteceu, Weasley? – McGonagall perguntou.
George lançou outro olhar ansioso por sobre os ombros e murmurou para McGonagall:
- Harry está ferido.
Se ela se preocupou com Harry, McGonagall não demonstrou. Ao contrário, seus lábios se pressionaram em uma fina linha — mais fina do que George já tinha visto antes. Ela assentiu silenciosamente e saiu de sua cadeira, caminhando pelo Salão silencioso.
- Senhorita Granger, senhorita Weasley... Venham comigo, por favor.
Os olhos de Ginny se fecharam, mas ela se ergueu calmamente e pegou sua mochila, seguindo McGonagall para fora do Salão. Quando saíram do campo de audição, Ginny se virou para George.
- É a mamãe? O papai?
George não conseguiu se forçar a responder. Apenas balançou a cabeça e disse:
- É melhor irmos.
- George, o que está acontecendo? – Ginny exigiu. Medo apareceu em seu estômago em uma onda de náusea.
- Vocês podem usar a lareira do meu escritório. – McGonagall falou, guiando-os até a diretoria e murmurando a senha.
- George? – Ginny chamou, muito mais hesitantemente do que antes.
Hermione passou um braço ao redor da cintura de Ginny. Soubera pela maneira que George procurara por Ginny quando entrara pelas portas que isso não era sobre Molly ou Arthur.
- É o Harry. – murmurou.
George lhe deu um olhar agradecido, aliviado por não precisar ser ele a dizer.
Ginny sentiu o sangue correr por seus ouvidos em uma mistura de fúria e apreensão.
- Quão ruim é?
- Eu não sei. – George admitiu. – Mas ele parece péssimo.
As portas do escritório de McGonagall se abriram e ela foi até a lareira, pegando um vaso com pó de flu. George e Hermione pegaram um punhado, mas Ginny ficou teimosamente parada do lado.
- O que aconteceu? – perguntou, tensa.
A mão de George se apertou ao redor do pó de flu e ele se virou para Ginny.
- Eu não sei. – repetiu. – Papai foi buscar Ron e eu na loja... – olhou para seu relógio. Foi só há uma hora? – Quando estávamos fechando e nos disse para irmos ao St. Mungus. – pegou a mão de Ginny e abriu seu punho sobre o dela, deixando o pó de flu cair na palma de Ginny. – Quarto andar. Há uma passagem escondida no final da escada, atrás da tapeçaria de Janus Thickey. A senha é "Manto-Letal".
Os olhos de Ginny se cerraram, mas ela foi até a lareira e jogou o pó de flu, segurando sua mochila firmemente.
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¹ Carter está citando Eclesiastes 3:1-8.
