Marcado

Kaline Bogard

Capítulo 36 – Vitória

A Pantera se afastou do rapaz caído no chão e que já não oferecia mais perigo. Era o último em seu caminho até o Ômega. Lançou um olhar em direção à porta fechada. Sentia o medo fluindo dali em ondas. Um dos Betas rivais permanecia fechado naquela sala. Não se importou com ele. O único desejo agora era o de chegar ao companheiro.

Encerrou a última parte do corredor com passadas rápidas e saltou o curto lance de escada, sem sequer tocar nos degraus. O cheiro dali era praticamente insuportável para o felino negro, dor e aflição flutuavam pelo ar tornando-o denso, quase irrespirável. Medo. Raiva. Todos os principais elementos básicos para um vínculo negativo.

Seguiu o rastro pesado até o quartinho cuja porta permanecia entreaberta. Grunhiu baixo ao reconhecer seu companheiro deitado de lado sobre um colchão velho. A visão do Ômega tão judiado reviveu algo primitivo e selvagem na Pantera, mas o instinto de proteção falou muito mais alto.

Aproximou-se devagar. Tocou-lhe de leve o braço com o focinho, deixando uma pequena mancha de sangue inimigo. Repetiu o gesto, dessa vez encostando nos fios ruivos. Por fim, passou a língua áspera e quente pela Marca. Apesar das injurias físicas, pelo visto, obedecera o último comando do Alpha e recolheu-se para a Zona. O Tigre o manteria a salvo até ter a garantia de ser seguro.

Com essa certeza, a Pantera deitou-se no chão ao lado do colchão, atenta e vigilante. Sua prioridade era proteger o Ômega. Do resto seus Betas cuidariam.

R&B

Momoi estacionou a Sprinter ao mesmo tempo em que a Raposa de pêlo prateado diminuía o passo até parar ao lado do veiculo. O animal fizera o percurso todo a velocidade controlada, como modo de não deixar a garota sozinha. Eram um Pack, no fim das contas.

Acabaram de chegar a casa de campo, e tudo indicava que o fim se aproximava. O Lince e o Leopardo pareciam um tanto longe dali, perseguindo poucos garotos que ainda tentavam escapar. A presença do Alpha estava próxima à do Ômega, fato que aliviava a todos. O Leão também entrara na casa. Do lado de fora, aprumada no beiral do telhado, a Águia vigiava tudo com os olhos sagazes.

Momoi desceu do automóvel, trazendo consigo algumas peças de roupa. Colocou a calça de Kuroko ao lado da Raposa e a de Akashi no chão mais a frente. As camisas, nada mais que trapos inúteis, ficaram para trás. Não sentia medo de nenhum dos animais. Ela sabia que era parte do Pack, portanto reconhecida e tratada como tal. Ainda que se mantivesse na forma humana. Os vínculos profundos não se limitavam a partes, mas unia os shifters como criaturas completas, qualquer que fosse sua aparência.

Apesar do cuidado que Satsuki teve, os Betas só aceitaram voltar a forma humana quando restava um único Beta da Kirisaki Daichi ainda vivo. O rapaz permanecia dentro da casa, um tanto perto do Alpha. Não oferecia perigo, pelo jeito.

Nesse ponto, a fêmea avançou alguns passos e virou de costas para dar privacidade aos amigos. Pôde ouvir pelos sons guturais que voltar a forma humana era igualmente doloroso a trazer o animal da Zona.

— Obrigado, Momoi kun — a voz de Kuroko soou rouca. Ela se permitiu encará-los.

— Oh! Tudo bem, Tetsu?! — poucas vezes tinha visto Kuroko com uma expressão tão satisfeita antes, ainda que não sorrisse, o brilho nos olhos claros era notório. O próprio Akashi, geralmente mais comedido em suas reações, tinha um ar sonhador e olhava para as mãos como se as estranhasse.

Ambos passaram por uma experiência indescritível, inigualável. Mas a de Seijuro suplantava qualquer expectativa: a sensação de voar, planar, cortar o ar como uma flecha... Tudo isso era muito vivido na memória de Seijuro. Mal podia acreditar na proeza de que foram capazes! E graças a um Ômega!

Um rosnado alto, mas não agressivo, chamou atenção deles. O Lince voltava, com seus passos felinos quase sensuais. Manchas de sangue maculavam a perfeição do pêlo, misturando-se com os traços mais escuros. Não se preocuparam. Era sangue da Kirisaki Daichi.

Satsuki correu para pegar a calça de Kise, aproveitando para pegar a dos outros rapazes também. Tinha apenas essa, não lamentou as camisas, que no afã da transformação foram reduzidas a pedaços de pano rasgado, sem qualquer utilidade.

Enquanto o Lince retornava à Zona e cedia espaço para a parte humana, o Leopardo também regressou da investida, vitorioso. Sentimento similar a todos da Geração Milagrosa. O perigo parecia finalmente superado.

Dentro da casa, o Leão se comportava de um modo peculiar. Algo no ar o deixava inquieto, tomado por uma ansiedade incomum. Seguiu para o segundo andar quase como se fosse atraído. Reconhecimento, sim. Era isso que o guiava.

Galgou a escada com pressa, seu grande porte em nada atrapalhava a agilidade de seus passos. Ganhou um amplo corredor e nem precisou transpô-lo todo. Em uma das primeiras portas, ao lado direito, o cheiro tornou-se mais forte, impossível de ser ignorado.

O felino parou em frente a folha de madeira e farejou o ar através da greta debaixo. Viu sombra se movendo, como se a pessoa que estivesse ali dentro acabasse de encostar na porta para tentar ouvir e entender as coisas estranhas que ouvia. Principalmente os gritos.

Era cheiro de humano. E vinha misturado a medo, curiosidade e preocupação. E algo que mexeu com o animal selvagem. Aquela essência abalou o mais profundo da criatura. Mesmo que nunca houvesse experimentado antes, tornou-se claro: quem quer que estivesse ali atrás, era seu companheiro!

Rosnou alto, incapaz de se conter. Em resposta, ouviu o som de passos afastando-se desajeitados, seguido de uma queda e gemidos. Assustara a pessoa.

Com relutância, afastou-se dali. Não podia deixar que um humano visse sua forma completa. Antes de mais nada, o Leão precisava voltar para a Zona, e só então continuar investigando o que acontecia. Quando ia imaginar isso, conhecer seu companheiro no meio de uma batalha?

R&B

Tão logo os Betas se reuniram e voltaram todos para a forma humana, seguiram para o próximo passo. Murasakibara explicou sua descoberta e Akashi logo entendeu tudo. O humano devia ser o tal Himuro, irmão de Kagami e isca de toda a confusão. Se Murasakibara o reconhecera como companheiro, pisavam em um terreno perigoso. Era vital que ele não tivesse tido qualquer contato com o mundo shifter, caso contrário teria que morrer. A lei era muito clara.

Para evitar riscos desnecessários, o Capitão decretou que ele devia continuar preso no quarto para a própria segurança, até que resolvessem tudo por ali.

Então restava o Alpha e o Ômega. Momoi pegou o kit de primeiros socorros, uma manta e roupas limpas. E seguiram para a parte de baixo da casa, que servia como prisão. Antes de chega a eles, o instinto feminino a alertou para algo. Um cheiro leve e familiar a levou até a corrente de Taiga, jogada num canto da sala. A pegou com cuidado, usando um pedaço de gaze. Só então alcançou o piso inferior, seguida pelos machos do Pack.

— Esperem aqui — Satsuki pediu para os garotos tão logo chegaram ao fim do corredor que ligava os níveis. Como única fêmea, era mais sensível a determinadas nuances. Já não era segredo que Daiki e Taiga sofreram em cativeiro, mas o flagelo do Ômega impregnava a atmosfera de maneira gritante. O casal não precisa de platéia naquele momento, apenas de apoio do Pack. Podiam oferecer isso daquela distância. O conforto e preocupação os alcançaria.

Sozinha, transpôs os degraus e parou perto da porta aberta, respirando fundo e enchendo-se de coragem. Só então entrou no quartinho para cumprir o seu papel.

A primeira coisa que viu foi a Pantera. E tal criatura lhe tirou o fôlego. Todas as formas completas, até agora, eram lindas, fortes, selvagens... Verdadeiras figuras de impacto. Mas não existia uma palavra, em qualquer idioma, capaz de descrever a beleza daquela fera, com seu pêlo preto reluzente e os olhos argutos, azuis como safiras. Olhos que se fixaram em Momoi com interesse.

Apesar de ter a atenção da Pantera, ela não se assustou. Com movimentos lentos e a cabeça levemente inclinada, expondo o pescoço, a garota se abaixou em frente ao Alpha e colocou no chão um conjunto de roupas limpas que trouxera para o melhor amigo.

Só então virou-se para o Ômega e deu-lhe a devida atenção. O que viu lhe partiu o coração. A Kirisaki Daichi judiara bastante do garoto. Mal conseguiu acreditar no estado em que o deixaram, nos ferimentos em seu rosto. Nas costas.

Não era ingênua, conhecia a maldade. Todavia, experimentar aquela sensação na própria pele a abalava, vendo um companheiro, com quem tinha vínculos, tão machucado. Não estavam falando de um desconhecido qualquer, mera estatística mencionada em telejornais. Era Kagami Taiga, alguém que até poucos dias estava junto com eles, rindo, se divertindo, agindo impulsivo. Fazendo planos...

Ajoelhou-se no chão, passando as costas da mão pelo rosto para secar as lágrimas. Tinha um trabalho a fazer, limpar aquelas feridas, pelo menos superficialmente, ajudando o fator shifter sobrenatural de cura a agir adequadamente. Não tinha bandagens suficientes, mas daria um jeito com o que trouxera.

Pegou gaze e anticéptico, começando a trabalhar com mãos suaves e gentis. Sentiu-se grata e aliviada que Taiga estivesse na Zona. Assim não precisava mais sofrer.

R&B

O clima do lado de fora era de expectativa. O Pack reunira-se outra vez, os Betas sentiam a necessidade de comprovar que tudo estava bem com o Alpha e o Ômega. Confirmar visualmente. Só se conformaram em obedecer o pedido de Momoi porque o sentimento da fêmea os atingiu forte. Um desejo esmagador de proteger o sofrimento de Aomine e Kagami. Respeitavam a situação.

"Sente isso, Ryota?", a voz de Akashi soou direto na mente de Kise, mas foi ouvida pelos outros garotos também.

O loiro moveu-se desconfortável. Desde que saíra da forma completa, sua consciência pinicava o fato de que tirara a vida de outros seres. Tornara-se um animal de puro instinto, que reconhecera os inimigos e os caçara sem piedade. Por sua culpa, alguns desses inimigos, jovens da sua idade, jaziam mortos por toda a propriedade. Como conviver com isso?

A resposta veio através de Satsuki e do que ela emanava. Lembrou-se do porque foram àquela casa, de tudo o que tentaram tirar da Geração Milagrosa, mais do que o Alpha e o Ômega, tentaram tirar dois de seus amigos. Não conseguiram a intenção, mas pelo grau de sofrimento de Momoi, ficou óbvio que chegaram perto.

A Kirisaki Daichi usara meios sujos para concretizar seus planos. E isso cobrara um preço. Pago em moeda shifter. Não podia ser diferente. Matar alguém não era a resposta para o problema. Porém, quanto da atual decisão estava em seu controle? Precisaria aceitar e aprender a conviver com o que fizera. Com o que o Pack fizera.

"Eu vou ficar bem", respondeu. E foi sincero.

"Ótimo", Akashi continuou. Estavam em frente a uma porta, atrás do qual sabiam estar Hanamiya Makoto. Não queriam que ele ouvisse a conversa, a solução era recorrer ao elo mental. "Entrarei em contato com o Conselho, vamos entregar Hanamiya vivo. Ele servirá como exemplo para outros Packs. Quanto ao irmão de Kagami, Atsushi e eu cuidaremos disso. A história será: um ataque de animais selvagens. Por isso todos estão mortos."

"E o seqüestro, Akashi kun?", a pergunta partiu de Kuroko.

"Basquete. Diremos a ele que a Kirisaki Daichi o usou para obrigar Kagami a perder o jogo. Como não conseguiram, foram além". Ele decretou. E pensou só pra si que deveriam torcer para que Hanamiya não tivesse sido inconseqüente a ponto de falar algo comprometedor na frente de Himuro. Isso complicaria tudo. Olhou rápido na direção de Murasakibara, que apenas acompanhava a conversa sem parecer interessado. Uma postura que não enganou em momento algum. Nenhum shifter que encontrasse seu companheiro seria tão relapso. Nem mesmo Atsushi. O garoto provara ter um leão em sua alma. Quando (e se) fosse necessário, reagiria como tal.

Foi então que Satsuki passou pela porta. Tinha o rosto endurecido por uma expressão sombria. As mãos sujas de sangue traziam o que sobrara do kit de primeiros socorros. Fizera todo o possível com os parcos recursos.

Daiki vinha logo atrás, parecendo tão bem quanto sempre, apesar da face contraída. Trazia Kagami nos braços, segurando-o bem junto a si. Do Ômega pouco podia se ver, tão enrolado estava na manta.

E encerrava-se ali um capítulo negro na história da Geração Milagrosa. Finalmente o pesadelo chegara ao fim. Um episódio banhado em sangue, alcunhado na dor e desfechado por morte; cuja herança seriam máculas que talvez jamais cicatrizassem.

continua...