XXXV.

A barriga de Olivia estava enorme, o rosto ficara um pouco mais cheio, acentuando a semelhança com Rachel. Grace Higgins tinha certeza de que o bebê nasceria até o final da semana, pois a barriga estava baixa, sinal de que a criança estava por vir. Olivia evitava sair de casa.

A bolsa estourou na manhã de domingo. Ela só percebeu ao sentir os pés molhados. Peter entrou em pânico, não sabia ao certo o que fazer. Walter também parecia sem ação, nem parecia se lembrar de que ele próprio era médico. Quem tomou as rédeas da situação foi Grace. Colocou Astrid para dentro do quarto, expulsou os patrões e mandou Ned chamar o doutor Seymour.

O bebê nasceu no fim da tarde. Peter estava apavorado com a agitação e com os gritos de Olivia.

Walter só murmurava:

-É assim mesmo, filho.

De repente, ele sentiu que tudo ficara em silêncio. Teve medo. Mas durou pouco. Ouviu o choro da criança. O doutor Seymour abriu a porta e anunciou, ainda secando as mãos em uma toalha de linho:

-É um belo rapaz. A mãe está bem. Daqui a pouco vai poder entrar.

Peter caiu sentado numa cadeira. Ele era pai. Começou a chorar.


Olivia ainda estava se recuperando do parto. O pai e o avô estavam bobos com o bebê. Walter divagava: fazia planos para quando o garoto entrasse para a universidade, planejava viagens, tinha diálogos imaginários com o neto – com toda certeza um futuro cientista.

Peter estava impressionado com a semelhança entre ele e o filho. Nunca antes prestara muita atenção em bebês, sempre preferira lidar com crianças maiores. Mas agora era diferente: procurava observar os mínimos detalhes e reações do recém-nascido. Em resumo: queria pegar o filho no colo a cada cinco minutos. O resultado é que o pequeno, irritado, desatava a berrar, mostrando que tinha pulmões excelentes. Grace Higgins precisou intervir para que mãe e filho pudessem descansar. Já presenciara a mesma cena, anos antes. Enérgica, avisou ao jovem patrão:

-Se continuar desse jeito o bebê só vai querer ficar no colo. Foi assim mesmo que o doutor fez com o senhor quando era pequeno. Seu pai estragou o senhor com mimos. Desde cedo não aceitava ficar deitado e chorava para fazer manha. Quer que o pequeno fique igual?

Peter, resignado, recolocou o filho cuidadosamente no berço. Mas continuou a olhá-lo, orgulhoso.


Tia Missy estava encantada com o pequeno John. Uma beleza de criança. O menino era mesmo muito parecido com o pai, os mesmos cabelos escuros e olhos azuis. Apesar de não ser exatamente uma entusiasta de Peter Bishop, reconhecia que ele tinha boa aparência. Esperava, contudo, que o menino tivesse puxado ao temperamento materno, sério. Não queria que o pequeno John crescesse com o talento do pai para virar a cabeça das mulheres.

O que mais encantava a todos era a solidez da criança: além de graúdo, era esperto; tinha bochechas rosadas, mãos gordinhas e as pernas e os bracinhos roliços. A velha senhora não se cansava de elogiar:

-O menino é um primor, nem parece que nasceu de sete meses, não é Rachel?

Rachel olhou de relance para Olivia, que amamentava calmamente o bebê, antes de responder.

-Com certeza, tia. Ninguém diria que Johnny é prematuro.

Os pais, satisfeitos, nada diziam. O menino era realmente uma beleza.


Nina Sharp tomava chá com Virginia Cox. Era um hábito semanal. Costumavam colocar os assuntos em dia. A proximidade do casamento de Amy ficou momentâneamente eclipsada pelo nascimento do bebê de Peter e Olivia.

-Como? Já nasceu?

-Sim, há uma semana. É muito bonito, a cara do pai. Walter está muito orgulhoso do neto. Peter não cabe em si de felicidade.

O raciocínio de Virginia Cox ia em outra direção. Fazia contas de cabeça.

-Mas eles estão casados há pouco mais de sete meses!

Nina Sharp fingiu não perceber a insinuação, apesar de também ter feito a mesma conta.

-O bebê é prematuro. Parece que Olivia teve complicações.-falou secamente.

- Complicações... Entendo.-o tom de Virginia Cox era de descrença.

Os bandós postiços de Nina Sharp tremeram; achou melhor mudar de assunto.

-E o casamento do ano?

Virginia Cox se entusiasmou.

-Eu e James seremos padrinhos. O vestido dela é uma beleza, uma criação de Worth. O altar vai estar coberto de lírios. Ephraim não está poupando despesas.


Lincoln Lee foi interpelado por Charlie Francis.

-Já viu o bebê?

-Sim, ele é uma graça, Charlie.

-Parece um tourinho, não é?

Lee concordou, muito sem jeito.

-É um menino bem robusto. Mas como sabe? Você já foi visitá-lo?

-Não é preciso.

-Por favor, Charlie, seja discreto...

-Eu sou um túmulo ... que observa.


Peter e Olivia estavam deitados. O pequeno John estava acomodado sobre uma manta entre os pais. Eles observavam cada movimento do filho.

-Está feliz, Peter?

Ele olhou-a com ternura.

-Sim, e de um jeito que eu nunca imaginei ser possível.

Olivia não disse nada. O bebê apertava seu dedo indicador.

-Ele é lindo, não é?

-Segundo todas as visitas, ele é igualzinho a mim. Logo, eu também sou lindo...

-Claro que é. Por que acha que eu me apaixonei por você, Bishop?

-Achei que fosse pela minha seriedade, meu bom senso... E se eu ficar careca e usar cavanhaque como Augustus Wilkinson?

-Quem é?

-O coitado do noivo de Amy Jessup.

-Espero que sejam felizes. Quanto a você, não ouse ficar careca ou colocar cavanhaque.

-Está bem, mas tem que me prometer uma coisa.

-O quê?

-Ainda este ano, quero que me ajude a providenciar uma irmãzinha para o Johnny.

-Acho essa é uma coisa que posso prometer, Bishop.


Lincoln Lee se apresentou, muito formal, para falar com Tia Missy. Rachel disfarçava o contentamento, para que a tia não desconfiasse do namoro em curso. Foi recebido com toda a satisfação. A boa senhora sempre tivera uma grande admiração pelo jovem inspetor. Sabia que homens como ele eram raros. Era um rapaz muito fino.

-É uma honra para nós, caro inspetor. Em que posso servi-lo?

Rachel mandou um olhar sedutor que fez com que Lincoln lembrasse dos beijos ardentes trocados no roseiral da mansão Bishop na manhã daquele dia. Venceu a timidez e foi logo falando o motivo da visita.

-Bem, eu gostaria de sua permissão para visitar a senhorita Rachel. Minhas intenções são as mais sérias e nem poderia ser de outra maneira.

Tia Missy ficou rosada. Sonhara em vê-lo cortejando Olivia, mas infelizmente o tal Peter tomara a frente. O noivado tinha sido extremamente inadequado. Aquele não era um cavalheiro. Destruíra todos os seus planos para Olivia. De qualquer modo, agora, Lee seria parte da família. Finalmente um homem morigerado, respeitador.

-O senhor tem a minha permissão. Mas já falou com Rachel?

Os dois trocaram um olhar de entendimento. A própria respondeu:

-Já, tia. Lincoln e eu já acertamos tudo.

A tia mirou-a de soslaio. Suspirou, desanimada. Previa mais trabalho. Já chamava o pretendente pelo primeiro nome – cheia de intimidade, certamente estava com tudo engatilhado. Rachel nunca disfarçara: era doida para casar. A tia preferia acreditar que ela era movida pelo temor de ficar solteirona.

O noivado de Olivia a deixara de cabelos em pé. Preferia nem pensar naqueles dois juntos. Fizera vista grossa, pois nunca imaginara que Olivia, tão discreta e contida, perdesse a cabeça por aquele moço do jeito como fez. Esperava que agora, casados e pais de um bebê, eles se aquietassem.

Quanto ao inspetor Lee, era um homem confiável, mas Rachel... Fingia não ver, mas sabia que a sobrinha era uma namoradeira. Esperava que com um partido rico e bonito como o jovem Lee ela se comportasse. Tentou ser positiva.

-Que bom que, com vocês, tudo será feito com calma.

Lincoln e Rachel se entreolharam. Tia Missy percebeu que havia algo mais e entrou em pânico.

-O que foi? –perguntou a velha senhora alarmada.

O rapaz pigarreou, levemente embaraçado, mas acabou explicando:

-É possível que eu vá passar uma temporada em Londres, trabalhando numa espécie de intercâmbio com a Scotland Yard. Eu pretendia casar com Rachel antes disso, para que ela pudesse me acompanhar.

-Mas quando?

-Bem, em no máximo três meses. Meus pais virão aqui comigo, em breve, fazer o pedido oficial e trazer o anel.

-Mas vocês nem se conhecem direito!

-Como não, tia Missy? Lincoln vem aqui há mais de dois anos. Isso conta...

A velha senhora sentiu que necessitava de um copo d'água.

FIM