"O curioso caso de Benjamin Linus parte II"

Havia algo de sombrio naquela noite. O vento forte trazido pelo mar sacudia a copa das árvores da floresta, fazia voar pequenos objetos, apagava as tochas de iluminação ao redor do perímetro que cobria a praia e ameaçava acabar com a fogueira que aquecia as pessoas sentadas ao redor dela.

Desmond extinguiu com areia o fogo que tinha sido feito por Andrew e Luke para assar a carne de porco para o jantar mais cedo. Agora, o animal abatido pendurado em um galho que servira como grelha exibia partes de seus ossos, pois as pessoas famintas tinham cortado enormes pedaços da suculenta carne do porco para se alimentarem.

Sayid, sentado ao lado de Shannon em volta da fogueira olhava insistentemente para Jack enquanto terminava de comer. Ele estava ansioso para compreender o que acontecera na comunidade enquanto eles estiveram fora. Ficara extremamente intrigado com o que Shannon lhe dissera sobre estar grávida e Pedro saber disso porque era um espião. Além de tudo isso, o homem ainda tinha sido morto misteriosamente. Era coisa demais para a cabeça dele.

Jack notou a ansiedade de Sayid e resolveu que já era hora de iniciar seu discurso. Ele entregou Lilly para Kate e tomou um longo gole de água fresca de uma cumbuca para limpar a garganta. Observou os rostos aflitos das pessoas olhando para ele assim como Sayid, esperando por respostas. Ele gostaria de poder dar todas as respostas de que precisavam, mas as coisas não eram tão simples assim.

Já tinham se passado dois anos. Dois longos anos que eles viviam naquela ilha. O que antes tinha sido um acampamento de sobreviventes de um desastre de avião tornou-se uma comunidade estruturada com leis próprias. Crianças tinham nascido durante aquele período e famílias foram formadas. Mais crianças iriam nascer e o fato do grupo comandado por Jack Shephard continuar sobrevivendo mesmo diante de tantas adversidades não mudava o fato de que a ilha continuava sendo um ambiente hostil, e a morte de Pedro fazia com que as pessoas se lembrassem disso.

Um homem tinha sido assassinado. Embora ele fosse um espião, não deixava de ser um homem que convivera por muito tempo na comunidade com os demais. Mais uma vez os Outros representavam uma ameaça. A paz naquela ilha era ilusória. Os rostos amedrontados que Jack observava agora eram a prova de que seu rebanho estava confuso outra vez e quando isso acontecia ficava muito fácil que alguma de suas ovelhas se perdesse. Era preciso manter a ordem. Era preciso manter a fé. E aquela tarefa difícil era dele, a tarefa de ser capaz de manter as pessoas acreditando que tudo ficaria bem.

- Tem certeza de que está mesmo bem, Jack?- Kate perguntou com seus olhos verdes amorosos e compreensivos. Ele sorriu para ela e assentiu, pensando consigo sobre o que seria dele se não a tivesse conhecido? Ainda teria a mesma força para liderar se Kate não tivesse ficado o tempo todo ao lado dele?

Jack levantou-se do lado de Kate e foi para o meio do círculo formado pelas pessoas. Ana notou que Jack iria iniciar seu discurso e procurou por Sawyer com os olhos pelos arredores, mas não havia sinal dele. Ainda deveria estar na cabana deles, mas por que demorava tanto? O que Jack estava prestes a dizer devia ser muito importante e ele precisava ouvir. Mesmo inquieta com a demora dele, ela resolveu continuar esperando por Sawyer perto da fogueira e aconchegou James em seu colo com uma manta. A noite estava esfriando muito depressa.

- Eu pedi a todos que participassem da fogueira esta noite porque tenho coisas importantes a dizer.- começou Jack. – Mas sintam-se à vontade para falar se tiverem perguntas ou comentários relevantes para a situação que irei expor para vocês. – ele fez uma pausa, observando a aceitação das pessoas às suas palavras e então continuou: - Um homem foi morto noite passada enquanto estive ausente da comunidade. Pedro Brito. Acredito que todos aqui o conheciam e sabem muito bem como ele veio parar em nosso meio. Pedro conviveu muito bem com todos nós até que Eko e Juliet descobrissem que ele vinha passando informações para os Outros desde sua chegada aqui e que ele inclusive chegou ao extremo de retirar amostras de sangue não autorizadas de nossas mulheres para serem entregues a Eles.

- Com que propósito?- indagou Sayid fazendo com que todas as atenções se voltassem para ele.

- Para compreender porque as mulheres grávidas dessa comunidade não morrem.- foi Juliet quem respondeu fazendo com que um burburinho se iniciasse entre as pessoas.

- Gente, vamos deixá-la falar!- pediu Rose com exasperação fazendo com que as pessoas se calassem para que Juliet pudesse continuar.

Juliet olhou para Jack como que pedindo uma permissão silenciosa para continuar interrompendo o discurso dele. Ele assentiu e ela continuou:

- Há quase sete anos eu descobri que minha filha, na época com 12 anos tinha câncer terminal. Eu e o pai dela a levamos a muitos médicos e tentamos todos os tipos de tratamento, mas nada funcionava e eu não podia deixar a minha filha morrer. Foi então que um funcionário de uma empresa de pesquisas genética chamada Mittelos Biociência veio me ver e ofereceu a solução para o problema da minha filha. Faríamos um transplante de medula óssea do irmão de Alice, um filho que eu tive com o intuito de salvar a vida dela. As chances que ela tinha eram muito poucas, mas a Mittelos tinha um tratamento revolucionário para que o meu bebê fosse totalmente compatível com a irmã, o que realmente aconteceu. Em troca eu trabalharia para a Mittelos por seis meses, imediatamente após o transplante de Alice.- ela fez uma pausa e enxugou algumas pequenas lágrimas que lhe escorreram pelo rosto. – A cirurgia foi um sucesso e minha filha ficou curada, mas mal tive tempo para comemorar a melhora dela ou ficar com meu filho Julian. Eu tive que vir para esta ilha para ajudar mulheres que não conseguiam engravidar. Elas morriam no segundo trimestre. Todas elas! E não havia nada que eu pudesse fazer para ajudá-las. Eu quis voltar para os Estados Unidos, mas nunca me permitiram e eu fiquei presa nesta ilha!

Ana-Lucia apertou seus braços ao redor de James, se sensibilizando com a dor de Juliet. Ela sabia muito bem como era difícil ficar longe de um filho. Tinha sido terrível o período em que ela ficara longe de seu bebê, completamente no escuro, sem nem ao menos sabem quem ela era. Suas únicas lembranças resumiam-se à existência de seu filho.

- Mesmo com o meu fracasso... – Juliet dizia. – Benjamin Linus, o homem responsável por eu estar aqui até hoje, continuou com sua obsessão sobre as mulheres grávidas nesta ilha, e quando o voo de vocês caiu aqui, e nós descobrimos que havia uma sobrevivente grávida, Ethan e Ben não sossegaram até que eles a pegassem. Logo outras mulheres como Sun e Ana-Lucia engravidaram aqui na ilha. Ambas conseguiram levar a gravidez adiante e tiveram filhos saudáveis. Foi por isso que Ben ordenou que Pedro colhesse as amostras de sangue.

- Você sabia que Pedro era um espião?- Luke perguntou, seu cérebro de policial trabalhando depressa para compreender com que tipo de coisa estavam lidando dessa vez.

- Não, eu não fazia ideia.- respondeu Juliet. – Ben não me contava tudo o que planejava ou fazia.

- Nós desconfiávamos.- confessou Nikki, incluindo ela e Paulo. Todos olharam para eles – Eu vim parar nesta ilha por causa do Pedro e depois que viemos viver no acampamento com vocês, eu e Paulo descobrimos coisas estranhas sobre ele.

- Por que vocês nunca mencionaram nada disso para ninguém?- perguntou Sayid com desconfiança.

- Porque não tínhamos certeza absoluta do que ele estava fazendo e tentamos alertá-lo para que parasse. Eu não imaginava que o Pedro seria capaz de uma coisa dessas. Ele parecia muito diferente quando nos conhecemos em Fiji. Eu sou instrutora de mergulho e ele me procurou para mergulhar nos recifes de corais, apenas isso. Foi assim que essa confusão toda começou.

- Quem o matou?- perguntou Paulo.

- Nós não sabemos ainda.- disse Jack.

- O que eles querem fazer com as mulheres grávidas?- Shannon questionou, de repente não muito animada com sua gravidez. – Eles querem nos usar como cobaias? É isso?

Sayid colocou uma mão protetora no ombro dela como que para assegurar que ele a protegeria não importava o que acontecesse.

- Benjamin deseja descobrir o que permite que vocês todas estejam vivas e as mulheres do grupo dele estejam mortas.

- Tá, nós já entendemos isso.- falou Andrew. – O Pedro queria entregar as mulheres grávidas para os Outros, mas ele está morto agora e já não pode fazer muita coisa, né? O que eu quero saber agora é sobre a mulher que vocês encontraram na floresta. Quem é ela?

Um novo burburinho começou. Dessa vez foi Jack quem pediu silêncio para que ele pudesse continuar a falar. Quando todos se calaram, ele recomeçou seu discurso:

- Desmond, Hurley, Charlie e Craig encontraram uma mulher na floresta. Ela caiu de pára-quedas aqui na ilha. Ainda não sabemos quem ela é. Ela está muito ferida e estamos cuidando dela para que logo ela possa se comunicar conosco e dizer-nos de onde veio.

- Onde está o avião que a trouxe?- perguntou Steve. – Será que lá não tem um rádio que a gente possa se comunicar com o mundo lá fora e pedir ajuda?

- Isso!- disse Bernard. – Já estamos nesta ilha há muito tempo...e com a morte do Pedro está ficando mais perigoso...

As pessoas recomeçaram a falar ao mesmo tempo. Ana-Lucia levantou-se com James em seu colo e voltou a olhar na direção de sua cabana com Sawyer. Ele não parecia estar lá dentro. Ela começou a ficar preocupada.

- Pessoal! Silêncio!- pediu Kate. – Vamos ouvir o que o Jack ainda tem a dizer!

- Nós teremos nossas respostas logo assim que a mulher se recuperar. Por enquanto devemos esperar e redobrar o cuidado em nossa comunidade. Era isso o que eu queria dizer pra vocês. Mais um de nós foi morto, não importa se ele era um espião. Precisamos cuidar para que outra coisa dessas não aconteça. Quero que tomem conta uns dos outros, e que ninguém fique vagando pela floresta sozinho. Vamos retomar o sistema de vigilância que estabelecemos na época em que o Dylan morreu. Se fizermos isso, tudo vai ficar bem...

- Você viu o Sawyer?- Ana perguntou a Charlie que estava ao lado de Claire e Aaron.

O inglês balançou a cabeça negativamente.

- Eu o vi indo para a cabana de vocês, mas já faz algum tempo, irmã.- disse Desmond que ouvira a pergunta dela.

Ana assentiu e caminhou em direção à cabana. O vento tinha apagado todas as tochas do perímetro e o caminho estava escuro. A única iluminação provinha de uma tocha acesa ao longe.

- Mama...mama... – James acordou de repente, choramingando, mas estava sonolento demais para abrir os olhos.

- Shiii...shiii...- murmurou Ana melodicamente balançando o filho de maneira suave para que ele voltasse a dormir. – Sawyer!- ela o chamou quando chegou perto da porta. – Sawyer?

Ela entrou na cabana escura e chamou por ele mais uma vez:

- Baby, você está aí?

Um sapo pulou de cima da mesa para o chão de madeira e a assustou repentinamente.

- Droga!- Ana exclamou com o susto.

James sentiu o coração da mãe pular dentro do peito porque estava com a cabeça encostada ao seio dela. Ele começou a chorar sentido por ter sido acordado.

- Não chora, meu filho. Foi só um sapinho. A mamãe se assustou. Shiii...

Ela andou por toda a cabana e Sawyer não estava em lugar algum. O coração dela ficou apertado. Depois de ter vivido a experiência de ficar tanto tempo longe dele, Ana não queria nem pensar na possibilidade disso acontecer de novo.

- Oh, Dios!- ela exclamou. – Onde está seu papi, pequeno James?

Ana deixou a cabana e voltou para a praia. Aparentemente Jack já tinha terminado seu discurso e agora conversava com Kate e Michael perto da fogueira.

- Libby, você viu o Sawyer?- Ana perguntou ao ver a amiga caminhando a passos lentos em direção à cabana que ela dividia com Hurley. Ele estava na despensa preparando um lanchinho para a madrugada acompanhado por Zack e Emma.

- Ele não estava com você agora a pouco?- Libby retrucou, sua voz saindo um pouco sem fôlego.

- Não!- Ana respondeu. – Pouco antes do Jack começar a falar ele disse que ia à nossa cabana pegar mangas pra mim, mas não voltou!

- Ele deve estar por aqui em algum lugar!- disse ela, puxando uma respiração. Ana estava tão absorta em encontrar Sawyer que não percebeu que a amiga não estava muito bem. Libby começara a sentir umas pontadas esquisitas no ventre durante o discurso de Jack e disse a Hurley que iria para a cabana deles descansar.

- Eu não sei onde ele pode estar. Eu vou procurá-lo. Você pode tomar conta do James pra mim só um pouquinho?

- Eu... – Libby começou a dizer, mas Ana entregou o bebê a ela antes que ela terminasse. – Só tome cuidado para não acordá-lo, senão ele vai querer mamar.

- Ana, e se por acaso o Sawyer tiver ido pra selva?- :Libby perguntou. – Com todas essas coisas acontecendo, e depois de terem entrado na cabana de vocês ele pode ter ido dar uma olhada pelos arredores.

- Mas ele não faria isso sem me dizer nada.- disse Ana. – Se ele tiver ido pra selva eu vou encontrá-lo.

- Ana-Lucia, você não pode ir!

- E por que não? E se algo tiver acontecido com ele? Preciso achá-lo!

- Mas é perigoso e você está grávida!- Libby apelou.

Jack que vinha se aproximando delas para perguntar por Sawyer ouviu a última frase de Libby e ficou surpreso.

- Não tenho certeza se estou grávida.- insistiu Ana. – Vou procurar o Sawyer!

- Vai procurar o Sawyer aonde?- Jack indagou fingindo ter acabado de chegar e não ter escutado o que elas estavam conversando antes sobre Ana estar grávida.

- Ele desapareceu! Não o encontro em lugar algum. Vou pra selva procurá-lo!

- Sozinha?- Jack inquiriu. – De jeito nenhum!

- Jack, você sabe muito bem que eu sei me cuidar. Não sobrevivi 48 dias nesta maldita ilha antes de encontrar vocês porque sou uma mulher fraca!

- Estou vendo que a sua memória está ótima!- observou Jack. – Ana, o Sawyer deve estar na praia. Por que ele teria ido para a floresta?

- Eu não sei, Jack...só sei que vou encontrá-lo onde ele estiver.

- Não, Ana, você não vai!

- Não me diga o que eu não posso fazer!- Ana protestou e já ia dizer mais alguma coisa para Jack quando ambos ouviram o grito agudo de Libby atrás deles.

- Ahhhhhh!

- Libby, o que foi?- Ana perguntou tirando James dos braços dela. Ele acordara de novo e começara a chorar.

- O bebê...eu acho que o bebê...

Hurley escutou o grito de Libby e correu pela praia para junto dela o mais rápido que seu peso permitia.

- Libby!- ele gritou, preocupado.

- Hugo... – ela gemeu de dor segurando a mão dele quando ele chegou perto.

- O que houve, meu amor?- Hurley perguntou.

- O bebê...eu acho que vai nascer...

O rosto de Hurley ficou tenso.

- Dude!- ele exclamou olhando para Jack. – Precisamos fazer alguma coisa.

- Libby! Libby!- Zack e Emma gritaram, preocupados com ela. Rose se aproximou e puxou ambas as crianças pelas mãos ao notar o que estava acontecendo.

- Libby vai ficar bem, meninos, só precisamos dar um pouco de espaço para ela. Venham, vocês podem ficar na minha cabana hoje.

- Jack, o que houve?- Kate perguntou se aproximando.

- O bebê de Libby está vindo.- ele explicou colocando-se no modo médico. – Hurley, eu preciso que você fique calmo e não desmaie, aconteça o que acontecer, está bem?

Ele assentiu, mas seu rosto já estava assumindo um tom de palidez. Ana olhou para a floresta com olhos tristes. Ela queria ficar e ajudar a amiga, mas estava muito preocupada com Sawyer.

- Nem pense nisso, Ana!- advertiu Jack. – O Sawyer estará de volta logo, você vai ver! Ele não ia querer que você se arriscasse desse jeito, pense no seu filho.- ele lançou um olhar para o ventre dela. – Talvez devesse pensar nos dois agora.

A boca de Ana se abriu, mas não saiu som nenhum. Como Jack poderia saber sobre a probabilidade dela estar grávida? Ele deveria ter ouvido algo quando Libby falou há pouco. Só podia ter sido isso.

- Vamos levar a Libby pra cabana de vocês. Kate peça alguém para ficar com Craig na enfermaria e mande chamar a Juliet pra me ajudar!

- Ok.- Kate respondeu se afastando com Lilly em seu colo.

Ana olhou para a floresta mais uma vez e depois para o filho choroso em seu colo. Jack tinha razão. Era melhor que ela não fizesse nada estúpido por enquanto. Seu pequeno James precisava dela. Por que Sawyer tinha saído sozinho para a selva justo naquela noite? Não parecia uma escolha muito inteligente a se fazer depois que Pedro tinha sido assassinado.

- Ah, James, quando eu encontrar o seu pai irei matá-lo!- exclamou ela entre irritada e aflita observando Jack carregar Libby para a cabana dela com a ajuda de Sayid enquanto Kate conversava com Hurley tentando acalmá-lo. Juliet veio logo atrás dela para ajudar Jack. Ana procurou acalmar James. Assim que ele dormisse, ela pediria a Rose que ficasse com ele e partiria atrás de Sawyer.

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Sawyer estava cansado. Já tinha se arrependido amargamente por ter acompanhado Locke para dentro da floresta. Era para ele estar confortavelmente em sua cabana agora, dormindo abraçado com Ana-Lucia, sentindo o calor de seu corpo ao invés de estar ali lutando contra mosquitos e cansando seus pés ao seguir um homem que estava fora da comunidade há 3 meses e quem sabe o que John Locke andara fazendo pela selva durante todo esse tempo.

- Onde está me levando, Locke?- Sawyer perguntou de repente, interrompendo o silêncio desconfortável que Locke empreendera entre eles depois que o convidou a segui-lo para a floresta.

- Eu disse que tenho uma coisa que preciso te mostrar, James.

Sawyer ficou irritado e agarrou Locke pelo colarinho da camisa com força.

- Vamos parar com esse joguinho agora mesmo! Eu não te vejo há o que...uns três meses? Agora você aparece do nada e me diz que precisa me mostrar uma coisa? Você tem ideia do que está acontecendo na comunidade agora?

- James, acalme-se! –pediu Locke.

- Isso mesmo, James! Procure se acalmar porque nós temos uma longa conversa pela frente.- disse uma voz surgindo do meio das árvores. Benjamin Linus.

Os olhos de Sawyer se alargaram e uma fúria sem precedentes o dominou quando ele avançou para cima do homem que raptou sua mulher e filho e os escondeu dele por meses.

- Hey, James! Solte-o!- exigiu Locke. Mas Sawyer não o soltou. Socou o rosto de Linus repetidas vezes até que seu rosto ficasse ensangüentado. – James, eu disse para soltá-lo!

Locke gritou e Sawyer sentiu apenas o vento originado pelo movimento rápido de uma faca lançada por John que arranhou sua orelha e foi parar espetada em um tronco de árvore em frente a eles.

Sawyer então largou Ben e olhou com incredulidade para Locke, levando uma de suas mãos à orelha machucada, da onde pingaram algumas gotas de sangue.

- O que diabos está fazendo, Locke? Por que está ajudando esse crápula?

- Porque ele tem respostas, James. Respostas para nós dois se deixar ele falar.

Benjamin Linus passou a mão sobre o rosto ensangüentado e deu um sorriso cínico.

- Há muito tempo atrás um homem chamado Sawyer destruiu a sua família.- disse Linus. Eu quero te dar a oportunidade de se vingar dele!

(Flashback)

Todos podiam ouvir os gritos de sua mãe, mas ninguém parecia se importar com isso. Aquilo estava irritando Ben. A maneira como as pessoas se olhavam era como se já soubessem desde sempre o que iria acontecer. Mas Ben nunca tivera certeza de nada. Para ele, sua vida havia se transformado em um pesadelo desde que seu pai levara a ele e sua mãe anos antes para aquela ilha no meio de lugar nenhum. Ben queria ajudá-la, mas não sabia o que fazer.

Quando ela deu outro grito, seu corpo inteiro estremeceu e ele ergueu as pernas para cima, abraçando os próprios joelhos. Sua amiga Anne veio até ele e o olhou com pesar.

- Você está bem?- ela indagou com doçura e acariciou-lhe os cabelos negros.

- A minha mãe.- murmurou ele. – Me diga, Anne, o que está acontecendo com ela?

Anne deu de ombros.

- Sim, Anne, você sabe!- ele a acusou. – Todos aqui sabem o que está acontecendo com ela!- ele berrou. – Ela vai perder o bebê?

A mãe de Ben estava grávida de pouco mais de três meses, mas há algumas semanas ela não vinha se sentindo muito bem e naquela tarde Emily Linus havia piorado bastante. Algumas pessoas vieram vê-la na casa deles e saíram de lá com expressões bastante sombrias. Por isso Benjamin acreditava que já sabiam o que estava acontecendo com ela.

- Sei que estão escondendo coisas de nós desde que chegamos a esse lugar!- Ben gritou.

- Ninguém está escondendo nada, Ben!- Anne protestou. – Você precisa se acalmar!

Foi nesse momento que Emily deu o pior grito de todos e de repente tudo ficou no mais completo silêncio que só foi quebrado pelos gritos de Ben.

- Mãe? Mamãe!

Roger Linus, seu pai saiu de dentro do quarto onde Emily estava e sua expressão foi a mais sombria que um dia Benjamin já vira.

- A mamãe está bem?- o adolescente indagou, trêmulo e pálido.

Roger balançou a cabeça em negativo e respondeu:

- Não, porque seu irmão a matou.

- O quê?- a voz de Benjamin foi apenas um soluço. – Não, papai, isso não é verdade! Não é verdade!

O pai nada disse, apenas ficou ali parado como se toda sua vida tivesse sugada de dentro de seu peito. Benjamin não olhou para trás ao sair correndo, mas Anne o seguiu, gritando:

- Me desculpe, Ben, mas todas as mulheres grávidas nessa ilha morrem!

- Não!- Benjamin gritou.

- É verdade, Benjamin. Eu sinto muito.

Ele a olhou com expressão furiosa e então bradou:

- No dia em que eu for adulto, isso jamais vai acontecer outra vez! Esta ilha há de trazer uma mulher que não morrerá grávida, e quando essa mulher chegar, eu me casarei com ela e descobrirei o que aconteceu com a minha mãe.

- O que está dizendo, Ben?

- Você me ouviu, Anne! Eu terei essa mulher do meu lado e nunca a deixarei partir!

(Fim do flashback)

- De que diabos está falando?- indagou Sawyer tentando entender como Benjamin Linus tinha conseguido aquela informação.

- Não finja que não sabe do que estou falando.- retrucou Ben. – Eu sei de tudo! Você tinha apenas oito anos e viu seu pai e sua mãe serem mortos na sua frente. Tudo por culpa de um homem chamado Sawyer. Pois eu estou lhe oferecendo a oportunidade de se vingar.

Sawyer decidiu parar de fingir que desconhecia aquele assunto. Locke se mantinha calado assistindo ao diálogo dos dois.

- E como você faria isso? Não tenho ideia de onde conseguiu essas informações. – disse ele, olhando muito desconfiado para Benjamin. – Além disso, por que eu acreditaria em você? Colocou-nos em jaulas, me torturou, roubou a minha mulher e o meu filho e tentou nos matar em Outroslândia.

- Eu sei, James!- falou Ben. – Mas não sou eu quem está te dando essa oportunidade de se vingar. É a ilha! Estou apenas transmitindo uma mensagem dela.

- E você acha que eu acredito nisso?

- Bem, deveria ver por si mesmo.- insistiu Ben.

Sawyer olhou para Locke.

- Eu acho que devia ir com ele.- disse John. – E ver por si mesmo. Você está armado, não está?

Ele tocou a arma que estava enfiada no bolso de trás da calça tentando se sentir um pouco mais seguro. Não confiava mesmo em Benjamin Linus e estava achando muito estranho que John Locke, mesmo que indiretamente, estivesse pedindo para que ele confiasse. Mas resolveu arriscar. Estava curioso para saber se Linus estava lhe dizendo a verdade.

- Mostre-me o caminho.- disse Sawyer e Benjamin assentiu, dizendo a Locke:

- Você fica aqui, John. Voltaremos logo.

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Libby segurou forte na mão de Hurley quando mais uma contração veio. Tão forte que quase lhe estalou os dedos. Ele estremeceu em pânico, mas tinha prometido a Jack que não desmaiaria.

- Não vai demorar muito.- disse Juliet com uma das mãos sobre o ventre inchado de Libby e o relógio de Michael na outra, conferindo o tempo das contrações. Respire fundo...

Ela tentou respirar, porém mais uma contração terrível seguiu-se a primeira e Libby deixou escapar um grito de dor. Hurley mordeu o lábio inferior como se estivesse sentindo a intensidade da dor dela.

- O que você acha?- perguntou Jack que estava de pé diante deles dentro da cabana, preparado para qualquer eventualidade, afinal aquele não era o primeiro parto que fariam naquela ilha, outros quatro tinham se antecedido a este e dois deles de alto risco.

- Como eu disse, não vai demorar muito. A dilatação está boa e o bebê parece estar encaixado na posição certa.

Libby deu outro grito agudo e Hurley beijou-lhe a testa porejada de suor. Jack trocou um olhar com Juliet e saiu rapidamente da cabana para falar com Kate que estava lá fora com Ana-Lucia.

- Como ela está?- perguntou Ana. James tinha adormecido e ela pedira a Rose que tomasse conta dele. Não conseguiria sair à procura de Sawyer se não soubesse que sua amiga estava bem.

- Juliet disse que será rápido.- ele a informou. – Vai ficar tudo bem. – Jack olhou para Kate que trazia a filha deles ao colo envolta em um cobertor por causa do vento frio na praia trazido pelas ondas. – É melhor você ir pra casa.- ele pediu. – Com o que tem acontecido na comunidade é melhor que todos fiquem em suas cabanas, incluindo você Ana-Lucia.

- Como se nossas cabanas tivessem trancas, Jack.- disse Ana. – Acho que seria muito pior ser pega dormindo outra vez, além disso, o Sawyer não está aqui!

- Ele deve aparecer logo!- disse Jack. – Por favor, vão pra casa e se cuidem. Fica mais fácil para os vigilantes da praia cuidarem de todos se estiverem em suas casas.

- Você virá logo?- Kate perguntou.

- Assim que Libby der à luz.- ele prometeu.

Kate se aproximou e o beijou levemente nos lábios.

- Eu estarei te esperando.

Jack assentiu e voltou para dentro da cabana de Hurley e Libby. Kate olhou para Ana e disse:

- O Sawyer sabe se cuidar, Ana. Não precisa ficar tão preocupada. Ele é muito teimoso, provavelmente ainda deve estar procurando o homem que esteve na cabana de vocês.

- O homem que esteve em nossa cabana foi o Pedro!- falou Ana-Lucia. – Ele estava tentando conseguir mais uma amostra de sangue comigo. Eu tenho certeza!

- Bem, se é assim... – começou a dizer Kate, mas Ana-Lucia a interrompeu, dizendo:

- Kate, eu sei que o Sawyer é teimoso, eu o conheço muito bem apesar da minha memória falha e faço ideia de onde ele possa ter ido e o que está procurando.

Kate ergueu uma sobrancelha e esperou pelo restante das palavras de Ana.

- Ele foi procurar Benjamin Linus. Sawyer quer se vingar pelo que ele fez a mim e ao filho dele. E sabe como eu sei disso? Sou tão vingativa quanto ele e teria feito o mesmo, só não o fiz ainda porque estou esperando pela oportunidade perfeita.

- O que pretende fazer?- questionou Kate, mas antes que Ana-Lucia respondesse as duas escutaram Libby dando um grito muito alto de dor seguido do choro de um bebê recém-nascido.

As duas se entreolharam e sorriram.

- Nasceu... – murmurou Ana-Lucia.

Dentro da cabana de Hurley e Libby, ela acabara de dar à luz a uma linda e rechonchuda menina que deveria pesar quase quatro quilos. Juliet a segurava com orgulho enquanto Jack cuidava dos outros procedimentos do parto. Hurley como era de se esperar desmaiou no momento final e agora se encontrava desacordado ao lado de Libby, mas Jack o reanimaria logo para que pudesse ver sua filha.

Juliet examinou a menina, constatando nesse primeiro exame que ela parecia ser muito saudável, mas mesmo assim pretendia olhá-la com mais calma no dia seguinte quando tivessem claridade. Libby estava emocionada e com lágrimas nos olhos recebeu a filha nos braços das mãos de Juliet.

- Olha só pra você!- disse ela, envolvendo a pequena nos braços. A menina era muito branca, e seus cabelos eram de um tom de castanho claro, distribuído em rolinhos que indicavam que os fios seriam cacheados como os do pai dela. – Olá, boneca!- Libby falou ternamente com a filha.

Jack pediu a Juliet um copo de água após concluir a última etapa do parto e jogou o líquido sobre o rosto de Hurley dando tapinhas na face dele para fazê-lo acordar.

- Hey, Hurley, acorde! Está perdendo a chegada de sua filha.

Hurley falou algo desconexo e então voltou a si, abrindo os olhos e encarando Jack.

- O que...aconteceu?

- Sua filha acabou de nascer, Hugo!

- Minha filha?!- exclamou ele se sentando e olhando para Libby que agora exibia a garotinha, ainda suja por causa do parto, mas envolta em um cobertor. – Dude!

- Venha me conhecer, papai!- :Libby disse dando voz à nenê. Hurley foi sentar-se junto dela para admirar a menina.

- Libby, ela é perfeita!- disse ele com os olhos cheios de lágrimas. Jack e Juliet saíram um pouco para dar privacidade ao casal. Mas a médica logo voltaria para limpar o bebê. – Como vamos chamá-la?- Libby perguntou passando os dedos de leve pelo rostinho da criança.

- Que tal Dorothy?- Hurley sugeriu.

- É um lindo nome, mas por que Dorothy?

- Ah, eu e você estamos perdidos há tanto tempo nessa ilha, nossa filha só precisa encontrar a estrada de tijolos amarelos para que todos nós saiamos daqui.

Libby sorriu.

- Bem, talvez essa mulher que o Jack e os outros trouxeram da floresta possa nos indicar o caminho para encontrarmos essa estrada.

Hurley a beijou de novo e envolveu Libby e a pequena Dorothy com seu abraço de urso. Do lado de fora da cabana, Jack viu que Kate ainda estava lá. Foi até ela enquanto Juliet entrava outra vez.

- E então? Correu tudo bem?- ela perguntou.

- Sim.- ele respondeu. – Libby deu à luz a uma menina saudável. O Hurley está emocionado!

- Que bom!- exclamou Kate, feliz pelo casal.

- Mas o que vocês duas ainda estão fazendo aqui fora?- perguntou ele de cenho franzido. – Pensei que tivesse pedido para que você fosse para casa com a Lilly, aliás e a Ana-Lucia? Ela estava com você.

- Ela resolveu ir pra cabana dela.

Jack balançou a cabeça em aprovação.

- Melhor assim. Sei que ela queria muito ir atrás do Sawyer, mas não seria prudente fazer isso no meio da noite com tudo o que aconteceu. Se ele não aparecer, eu mesmo irei procurá-lo pela manhã.

Kate assentiu e perguntou:

- Libby ainda precisa de você?

- Não, Juliet está cuidando dela e da nenê agora.

- Vamos pra casa então.- disse ela e Jack assentiu segurando-lhe a mão e caminhando com ela para a cabana deles. Todo o perímetro ao redor da floresta e da praia estava sendo vigiado pelos homens da comunidade, em turnos definidos, comandados por Sayid. Jack estava exausto e resolveu que poderia se dar ao luxo de dormir um pouco para que estivesse descansado para lidar com mais problemas no dia seguinte.

No entanto, o que ele não sabia era que Kate lhe mentira. Ana-Lucia fora atrás de Sawyer no meio da noite e Kate prometeu não contar nada a Jack, embora soubesse que se algo acontecesse com ela, se sentiria muito culpada.

Mas Ana-Lucia lhe assegurou que ficaria bem e que só voltaria à comunidade depois que achasse Sawyer. Com uma mochila nas costas e uma faca escondida nas roupas ela adentrou a selva escura, atenta e pronta a enfrentar qualquer perigo que aparecesse. Um sorriso de contentamento iluminou-lhe a face. Era como nos velhos tempos.

Continua na próxima temporada.

LOST