História Trinta e Cinco: Aquele que interfere

Ele se lembra dos ensinamentos.

"Uma vez o meu mestre disse que a força do Cosmo vem de algo interior, de uma fonte infinita. Essa fonte, ao longo dos tempos, tomou diversas formas, mas no fim sempre foi a mesma e sempre tenderá para um único ponto. O Cosmo é o reflexo do universo no fundo de nossas almas. Todos os seres vivos o possuem e são capazes de, com o devido treinamento, manipulá-lo. Entretanto, somente aqueles que entendem o verdadeiro significado do Cosmo pode elevá-lo a níveis inimagináveis, infinitos. Níveis capazes de destronar até mesmo os deuses. Para se chegar lá é preciso apenas de uma coisa: amor. O amor é o fogo infinito que alimenta as maiores de nossas ações. É por isso que Atena é sublime. Seu amor é eterno e infinito. É do amor que devemos tirar a força para impedir o mal e as injustiças. É do amor que devemos extrair o poder necessário para destruirmos até mesmo estrelas. É do amor que devemos extrair a força para protegermos o próximo, e alimentarmos a esperança no coração dos que amamos. Será com o amor que possuo dentro de mim que extinguirei a existência daqueles que subjugam os corações inocentes que habitam o Santuário, e que ameaçam os meus amigos. Foi por esse motivo que Serafim se sacrificou. Ele abriu meus olhos ao poder que move o infinito, e que possuo para vencer tudo. Esse é o meu poder oculto, e que somente agora entendo".

- Liath. – Orrin falava calmamente – Você sempre me disse que tudo o que faz é por vingança. Quer tanto me destruir por ter tirado o seu amor e ferido seu coração com chamas, onde nada poderá curar sua cicatriz. Não é verdade?

O General baixou a cabeça. Uma lágrima solitária escoou por seu rosto emoldurado. Uma grande tristeza correu pelo seu corpo, logo acompanhada por uma fúria intensa. Segurava firmemente sua espada com a mão direita. A força era tanta que se ouviu alguns sons de rachaduras.

- Sim cavaleiro. Você foi aquele que arrancou o que tinha de mais sagrado e pacífico. O único responsável pela minha dor. Agora que não me resta mais nada, o ódio e o rancor me movem para as batalhas. Apenas o sofrimento vem sendo o meu companheiro nas horas solitárias. Por tudo isso, eu devo destruí-lo. Não existe outra escolha senão essa.

- Então essa luta já tem seu vencedor. – falou fechando os olhos.

- Como? – perguntou incrédulo – Como pode ter tanta certeza? Até agora a única coisa que fez foi cair e cair, e ainda sustenta a possibilidade de me vencer? Não me faça rir! Desta vez eu o destruirei por completo.

Toda fúria de Liath concentrou-se em sua espada. Correndo em direção a Orrin, apenas pensava em destruí-lo de uma vez por todas. Matá-lo-ia, e seria agora. Todo o seu Cosmo estava acumulado para esse ataque. Tal potência destruiria muito mais que o Cavaleiro, mas também sua Casa e armadura. Só sobrariam as cinzas. Ainda sim, Orrin estava calmo.

- Há algum tempo pensava que a única cura para as perdas era a vingança. Entretanto, quando me foi concedido o direito de usar esse traje dourado muita coisa me fez pensar. Eu tinha um potencial, e não o conhecia. A morte de Serafim representava mais um motivo para ter ódio, o que me cegava para a grandiosidade de seu ato. Foi então que percebi, ao sentir a fúria de seus golpes, o meu verdadeiro potencial. Liath, agora eu tenho como te derrotar.

Enquanto o General se aproximava, o Cavaleiro de Ouro acumulava suas energias. Estava pronto para o impacto. "Dessa vez não cairei, General!". Os dois sacrificariam uma última vez seus corpos para vencerem o duelo. Era o último ataque de ambos.

- Suas palavras tolas não me abalam. Pouco me importo com sua força. Ainda não passa de um reles Cavaleiro inferior. Morra de vez, FOBOS HURRICANE! – gritou Liath mais uma vez brandindo sua espada.

- Não deixarei que alguém com o coração tão poluído e cheio de ilusões vazias me derrote. Farei com que sua grandiosidade tombe diante de mim, mesmo que isso me represente fazer um milagre. Queime meu Cosmo com o ardor da chama infinita. FORBIDDEN HOWL!

Os Cosmos se chocaram provocando uma imensa explosão. A chama de Leão que ainda restava no Relógio Zodiacal se extinguiu. De todos os lugares entre o Santuário e Esparta ecoaram sons de angústia.

Escombros da Casa de Áries.

- Não! – gritava Deimos – Por favor, meu pai, proteja meu irmão. Não permita que ele deixe este mundo, assim como não deseja a minha partida.

Chorando muito, Remo caiu de joelhos. A dor que sentia em seu coração era intensa. Nem mesmo o mais forte dos homens a suportaria por muito tempo. Ainda a pouco sentiu a elevação máxima da essência de Liath, e agora, não se sentia mais nada. Apenas era audível e visível a destruição completa da Casa de Leão pelo encontro de dois Cosmos imensos. Tudo estava tendendo ao pó. O Cavaleiro de Áries encontrava-se de cabeça baixa. Uma lágrima surgiu em seu rosto sombrio. "Orrin…".

Nessa hora ouviram-se vários passos. Surpresos, ambos combatentes tornaram a ver quem se aproximava. Um cavaleiro mais à frente e uma amazona vinham correndo em direção aos escombros de Áries. Ignorando completamente a presença dos guerreiros, Geord apenas pensava em seguir adiante, até a morada de Leão. Lágrimas escorriam por seu rosto. Estava desesperado.

- Não Geord. Por favor, pare! – gritava inutilmente a amazona mais atrás.

- Mestre!

Quando chegou próximo a Timeus, esse lhe aplicou um golpe no abdômen, parando-o completamente. De joelhos no chão, quase sem fôlego, Geord gemia e chorava. Finalmente Alena o alcançou, segurando-o forte para que não mais levantasse. Não o deixaria ir até lá.

- Não, Geord. É inútil seguir até lá. Devemos pensar apenas em coisas boas nesse momento. Por favor, não fique desesperado. Temos que ter esperança.

- A mulher está certa, jovem cavaleiro – falou Timeus com toda a sua serenidade e sabedoria – Se quer ajudar o seu mestre nessa hora crítica deve apenas ter fé. Em nada ajudará indo até lá.

Virando-se para seu inimigo, ainda de joelhos mais à frente, o Cavaleiro de Ouro teve ainda mais certeza em suas palavras. Por mais entristecido que Geord estivesse, conteve suas lágrimas. Olhou firmemente para aquele que o impediu de prosseguir. Áries apenas completou:

- Devemos ter fé.

Escombros da Casa de Leão.

"Orrin! Por favor, esteja vivo. Orrin! Não morra agora. Por mim, por todos nós. Desperte!".

O Cavaleiro acordou. Sentia-se completamente destroçado. O impacto dos dois golpes foi avassalador. Sua armadura estava destruída em diversos pontos, havia incontáveis cadeias de rachaduras. Tinha certeza que muito de seu sangue havia escorrido, e estava muito fraco. Tontamente, levantou-se como pode. Aqui e ali se equilibrava em diversos escombros onde um dia erguia-se a Casa de Leão. Sua mente só focava uma coisa: "Liath". Tinha que achá-lo. Procurá-lo em meio aos escombros.

Mais distante, em outra direção, repousava o General. Seu corpo estava em pior estado que o de Orrin. Quase não tinha forças para erguer um braço. Agonizante, perdia muito sangue. Sua armadura azul-safira havia sido dizimada. Apenas alguns cacos restavam. O que mais lhe impressionava era sua arma ter sido quebrada. "O dom… de Heféstos… foi destruído". A espada havia sido quebrada em sua metade, na lâmina. Não havia mais nenhuma rachadura nela, apenas a lâmina havia sido transformada em duas.

Finalmente o encontrou. Correndo até lá como pôde, reencontraram-se. Caindo de joelhos ao lado do inimigo derrotado, Orrin tinha a certeza do que havia feito. Havia derrotado o mais poderoso dos guerreiros de Ares. Havia matado o filho de um Deus! Conhecia bem as lendas sobre a origem de Liath e Remo, e sabia muito bem que Ares convocou para o cargo de seus Generais seus filhos, Deimos e Fobos. Agora, ele sabia que havia despertado a Ira Divina. E estava certo.

Esparta, templo do Deus da Guerra.

- NÃO! – gritou em fúria o deus – Como pode o filho de um deus perecer para um mortal? Um mísero mortal ateniense.

Enchendo-se de fúria, o gigantesco Cosmo do deus da Guerra se elevou por toda a Esparta, despertando a todos que ainda restavam na cidade. O medo se instalou em todas as almas da cidade, temendo a destruição de tudo por causa do ódio do deus. Até mesmo o General Deacon de Kydoimos, que nunca havia sentido medo, tremeu diante da onipotência de seu amo. Todo o templo sacudia com intensa fúria.

- Não permitirei… que um mortal… seja quem for… vanglorie-se por ter… arrancado a vida de um filho meu. Siga você também para o inferno mortal atrevido que desafia a vontade dos Deuses!

Tomando sua lança inesperadamente, Ares concentrou uma imensurável quantidade de energia cósmica. Tomando forças, o deus arremessou sua arma na escuridão. Ela cruzou terras, vales, rios e oceanos rapidamente, cada vez mais ganhando velocidade e poder. Logo encontrou o Santuário.

Remo abriu seus olhos. O som das lutas morreu. Mergulhado em silêncio, o Santuário inteiro sentia a aproximação de algo terrível. Todos sentiram a pulsação da morte. Timeus começou a ficar apreensivo. Não fazia idéia do que seria, mas sentia o maior de todos os Cosmos já sentidos. Geord e Alena observavam o céu que ainda chovia.

- Isso é… a lança de Ares! – gritou Remo.

Os Cavaleiros de Ouro sentiam que haviam despertado de um sono profundo. Apenas agora toda aquela situação refletia como extremamente perigosa. "O quê?", pensou Áries. "Não pode ser?!", pensou Touro. "Sim, sinto a lendária força do deus da guerra se aproximando.", pensou Virgem. "É como se todas as coisas vivas morressem em apenas observar tal Cosmo.", pensou Escorpião. "Está cada vez mais próximo.", pensou Aquários. "Todo esse poder irá destruir o Santuário e a tudo que estiver nele.", pensou Capricórnio. "Não, tal energia não está focada no Santuário.", pensou Peixes. "A Ira Divina de Ares está focada em apenas um ser.", pensou Sagitário. No fim, todos sabiam a quem estava destinado tal poder. "ORRIN!".

- Não! – gritou Delia desesperada da varanda da morada de Sagitário.

Finalmente a energia cruzou a noite sob o Santuário. O imenso raio luminoso afastou todas as nuvens, parando de chover imediatamente. A apreensão foi substituída pelo desespero. "Com toda essa energia, nada poderá resistir. Será o fim de tudo", pensou Remo olhando a Ira de seu pai se dirigir até a morada de Leão.

Orrin apenas teve tempo de avistar a gigantesca energia que se aproximava. Imediatamente percebeu do que se tratava. Congelado de medo e sem forças por causa da luta, a energia tomou por completo a Casa de Leão. Uma explosão avassaladora cobriu todo o Santuário.

Uma lágrima restante demorou a cair no chão. Seu nome era… Orrin.