No último capítulo…

Os cavaleiros fazem sua última parada, em uma vila próxima ao chateau Romefeller. Akane encontra uma amiga que estava de passagem, viajando na direção oposta. Heero não gosta muito de ver Akane conversando com a moça sobre a missão deles e por isso, ele e Akane discutem. Os cavaleiros visitam a taverna e decidem se hospedar ali, montando uma espécie de quartel. Durante a refeição, montam seu plano de ataque e resolvem que alguém deve ir espionar o castelo antes da missão. Trowa é o indicado.

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Capítulo 36 – Uma longa noite

O Sol descia por trás das árvores que acompanhavam Trowa ao longo do caminho para o chateau. A estrada era solitária e aparentemente sem fim. Com o cair da tarde tudo ia tomando formas tristes e intimidadoras, as árvores pareciam mais altas e amplas, o ambiente ficando mais escuro e ainda mais silencioso. Trowa não se importava com o redor, entretanto. Heavyarms ia trotando num passo veloz e Missile sobrevoava.

Então, veio o som distante dos uivos. Os lobos choravam tão afinadamente a canção da noite. Aquela era a trilha sonora da viagem, enriquecida pelo som das patas de Heavyarms contra a terra e os piados metálicos do falcão ousado. A capa marrom-ferrugem de Trowa o cobria todo, ele parecia um cavaleiro fantasma vagando na estrada completamente vazia, sem uma aragem qualquer para mover as folhas das árvores que abriam os galhos como que prestes a agarrar os transeuntes.

_Que paisagem convidativa… –ele debochou, mas a voz saía como se ele falasse sério, sem se demorar muito ao observar as árvores. O lugar realmente não era nada agradável, os lobos uivavam ao fundo enquanto a Lua pálida mostrava sua face entre nuvens pretas. Pelo menos, a noite estava muito clara e não havia neblina, contudo a temperatura tinha caído muito. A solidão era ferrenha ali. Trowa mantinha a cabeça baixa enquanto Heavyarms caminhava. Tudo o que ele tinha era o cavalo, o falcão e as estrelas e embora estivesse acostumado com viagens solitárias, admitia não apreciá-las nem um pouco. Mas aquela aventura era para ser só dele…

Trowa se deparou então com uma bifurcação e freou Heavyarms. Uma floresta assustadora não é completa sem uma bifurcação, é como se a falta desse detalhe fizesse tudo muito sem graça. Uma coruja passou voando, piando soturna. Trowa sorriu olhando os dois caminhos e percebeu placas presas numa árvore. Mal enxergava as letrinhas no mapa, que nada falava da bifurcação, mas dava a entender que a direção a ser seguida era a direita. Ele tentou ler as placas e felizmente havia uma que mostrava o rumo para o chateau Romefeller, mas o intrigante era que tal placa mostrava a esquerda. Uma forte brisa incidiu subitamente contra Heavyarms, levando a crina dele, agitando a capa de Trowa. Missile pousou no ombro do dono e ficou agitando as asas, irritado.

Trowa se demorou muito, olhava o mapa e depois as placas. Aquilo devia ser algum artifício para despistar pessoas desconhecidas. Realmente, os Romefeller não eram sociáveis. O cavaleiro resolveu confiar em seu mapa e foi pela direita, fazendo o cavalo ir caminhando devagar. Heavyarms olhava a volta desconfiado, bufando, e Trowa acompanhava a insegurança dele. Missile não voava mais, e se tranquilizara, calado sobre o ombro do mestre.

A estrada permanecia do mesmo jeito, e alguns minutos depois, Trowa começou a ver um clarão e viu surgir num plano inferior ao dele torres e finalmente se revelou o grande chateau Romefeller iluminado por tochas, clareando os arredores. As árvores acabavam beirando a colina e depois da descida e de mais certa distância estava erguido o muro que cercava tudo, entretanto, não estava claro o suficiente para ele poder ver o abismo. Assim, parou e amarrou Heavyarms numa árvore e ficou observando de longe a construção. Pelo que podia perceber, Heero estava certo quanto às medidas da muralha.

Trowa colocou Missile preso sobre a sela de Heavyarms e depois se sentou na beirada da colina, encostado em uma das árvores do bosque, com o olho pregado no chateau.

_É um prédio bem imponente… –comentou consigo mesmo, observando tudo atentamente.

A colina era longe do castelo tornando difícil divisar alguma movimentação no escuro das guaritas. As luzes ajudavam um pouco, e Trowa manteve-se sempre atento e muito desperto, mas Heavyarms caiu no sono. Ele na verdade não precisava se preocupar. Por muito tempo, Trowa ficou imóvel onde sentara, apenas observando, medindo com os olhos larguras, distâncias, alturas. Contava as torres, as janelas, os postos de vigias. Já começava a ter ideias para a invasão. E então deu dez horas, e ele conseguiu ver que houve a troca de vigias.

_Muito interessante… –murmurou, sorrindo. Era como se já sentisse pena dos soldados alojados lá dentro, daqueles que ficavam de vigia.

Então Trowa ficou curioso e quis saber: era possível lançar uma flecha e acertar da distância em que ele se encontrava? A distância era longa, mas não ia refrear-se de experimentar. Apanhou uma flecha e armou o arco agilmente. Por algum tempo ficou mirando no posto de guarda perto do portão, até que se sentiu seguro para atirar. Trowa não conseguiu seguir a flecha muito bem, não poderia ter noção de quanto ela tinha percorrido, mas era certo que não alcançara o posto. Ia se aproximar mais. Desceu a colina esgueirando-se bem rente do chão, e foi se arrastando mais, até encurtar a distância pela metade. Levava o arco e pouquíssimas flechas, o que dificultava um pouco arrastar-se, e quase se deitando de costas no gramado, armou a flecha novamente mirando o posto de guarda e lançou. Desta vez pode acompanhar a flecha por mais tempo e ficou esperando o que ia seguir. Demorou alguns minutos e então no parapeito do posto de guarda apareceu um soldado com uma tocha na mão procurando algo no gramado e por isso Trowa soube que sua flecha tinha alcançado o alvo. Ficou imóvel, as lâminas estavam altas para sua sorte, e ali escondido, esperava o soldado desistir de procurar. Logo, o homem entrou no posto outra vez.

Contente com a resposta que tivera, Trowa resolveu voltar para perto de Heavyarms, pensando que no dia seguinte, se aventuraria aproximar-se mais um pouco para garantir mais sucesso. Ergueu-se, achando não mais necessário rastejar, e então ouviu o portão abrir-se ali ao lado. Olhando rapidamente os dois cavaleiros saindo, com certeza a procura do arqueiro que era ele, deitou-se no chão. Os vigias não estavam convencidos ainda. De fato, mesmo uma única flecha era digna de suspeita. Os cavaleiros se separaram e um deles tomou um curso que o levaria próximo de Trowa, escondido entre o gramado com a ajuda da sombra negra da noite.

Mas o animal enxergava muito melhor que o seu cavaleiro e começou a se agitar ao passo que chegava mais perto do local onde Trowa estava.

_O que é, colega? Você sabe onde ele está, hã? Você sabe? –Trowa ouviu o vigia perguntar para o cavalo cheio de alegria e cada vez mais perto dele. Assim, não havia nenhuma outra escolha além desta: Trowa armou o arco e, assim que o cavaleiro se mostrou próximo, segundo o que os seus instintos lhe indicavam, ergueu-se e o flechou mortalmente. O cavalo se desesperou ao sentir o peso morto em suas costas e, irritado, derrubou o homem falecido, o que obviamente chamou a atenção do outro cavaleiro.

_Droga. –reclamou, não estava contando com nada daquilo. Além do mais, aquele fato ia prejudicá-los no dia seguinte – os Romefellers iam redobrar a vigilância depois do decorrido. Mas no momento, Trowa se preocupava mesmo era em escapar para poder voltar no dia seguinte.

Trowa levantou-se velozmente e apressou-se para subir a colina. Sabia estar em desvantagem contra o cavaleiro, mas correu o máximo que pôde. Demorou um pouco para o vigia notá-lo, e nisto ele já estava alcançando a colina. O homem bradou, raivoso como um urso, e o cavalo começou a galopar vigorosamente para alcançar Trowa, que não olhava para trás. Das torres, toda a perseguição era assistida, e outros soldados correram apanhar seus cavalos para irem auxiliar na captura do invasor.

_Eu detesto ter de fazer isso… –ele murmurou, com um sorriso maligno, e com a flecha pronta no arco virou-se para o cavaleiro ao seu encalce e disparou, acertando em cheio o soldado-vigia, que caiu tão morto quanto o primeiro. O cavalo mudou de direção bruscamente por causa do susto, o corpo sobre ele dobrou-se para trás, hirto, e Trowa subiu a colina com esforço, o mais rápido que conseguia. Soltou velozmente Heavyarms da árvore, que despertou acelerado, e já havia dois cavaleiros aproximando-se da colina, um deles trazendo tocha, e viram Trowa lá entre as árvores.

Algumas flechas vieram se fincar em troncos próximos de Trowa, mas ele montou no corcel e saiu pelo meio das árvores, ansioso em despistar os soldados. Heavyarms corria rápido, sentindo a pressa de seu dono, e Trowa armava o arco, pronto para defender-se mais, olhando de vez em quando para trás, mas não via ninguém, nem ouvia outros cavalos. Parecia que tinha escapado, embora não fosse descuidar.

Prosseguiu fazendo Heavyarms correr e manteve o arco em mãos pronto para o tiro. Logo, ouviu um segundo trotar e não demorou nada para uma flecha zunir ao passar por ele e perder-se em algum lugar da floresta. Conseguiu divisar um cavaleiro vindo rápido com o arco em punho, mas sendo muito mais rápido, lançou outra flecha e outra vez acertou perfeitamente seu inimigo, que com um gemido, perdeu o controle do cavalo. Trowa apenas ouvia os relinchos agitados do animal que ele deixava para trás. E prosseguiu correndo por entre a floresta até sair pelo outro lado da encruzilhada e continuou correndo, se embrenhado no bosque outra vez. Heavyarms atravessou um riacho, sempre pressuroso, o falcão piava confuso bem preso no cavalo, batendo as asas, mas Trowa não tinha tempo para acudi-lo, apenas precisava se distanciar o mais depressa das imediações do chateau. Por fim encontrou uma clareira.

Tudo estava quieto em volta, Trowa parou Heavyarms e observou por um instante e, quando se sentiu seguro o suficiente, guardou as armas e olhou o mapa para procurar o caminho de volta. Ofegava, não havia como não se cansar com tanta exasperação, o coração batia forte. Trowa sentia algo o incomodando e não conseguia saber muito bem o que era e também não deu muita importância. Continuava examinando o mapa e, depois de muito custo, porque a escuridão dificultava a leitura, achou a direção a ser seguida. Demorou muito tempo até que se viram diante do corredor de terra entre as árvores, entretanto, Trowa agradecia por não ter se perdido. Havia se desviado do curso certo uma hora, o que o obrigou a vagar bastante até encontrar a estrada e agora tinha de viajar mais duas horas de volta a vila. Iria fazer isto pela floresta, ladeando o caminho.

_Que noite animada, não é mesmo, amigo? –comentou risonho com Heavyarms, que bufou concordando, e, enquanto isso, Trowa acalmava o falcão. –Há muito tempo não nos divertíamos tanto!

Tudo tinha dado certo, Trowa tinha escapado, e silenciosamente ia regressando, sentindo a solidão abraçá-lo junto do frio da noite enquanto cavalgava pela floresta deserta e escura.

Quando alcançou a vila, era quase quatro horas da manhã. Heavyarms estava pedindo descanso, Trowa tinha pena dele. O falcão pousou em seu ombro quando alcançaram a fonte onde Heavyarms bebeu desesperadamente e Trowa também tomou um gole. E lançando um fito para a taverna, o jovem cavaleiro conduziu o corcel para o estábulo e também guardou seu falcão lá.

A vila estava completamente silenciosa, com exceção da taverna, de onde vinha luz e som. Empurrou a larga porta sempre aberta do lugar e viu o interior muito cheio de clientes. Passou pelo salão, indo direto até o balcão, logo veio Tristin:

_Olá, amigo! Já de volta! Que bom que está são e salvo! –ele o recebeu bem e alegremente. Trowa lhe sorriu misterioso:

_Quase, quase são e salvo, senhor. –Trowa comentou com uma voz exasperada e Tristin riu depois da frase e saiu.

Trowa ficou observando a volta, encolhido no balcão. Havia música, casais que dançavam, muitos amigos reunidos e várias graciosas garçonetes, sempre sorridentes, que iam incessantemente levando canecões cheios. Trowa continuava olhando e viu Tristin se aproximar de uma garçonete que estava de costas para ele. Depois que o taberneiro lhe comunicou poucas palavras, ela voltou-se em direção de Trowa e, ao passo que se achegava mais, ele notou que a moça era na verdade Akane, sorrindo como uma criança olhando para ele. Assim, ele entendeu o porquê ela pedira que ele entrasse pela taverna ao chegar. Ela queria recebê-lo e certificar-se de que ele chegaria bem e, sem perceber, Trowa sentiu-se muito confortável, como se tivesse chegado em casa finalmente.

_Está tudo bem? Como foi lá? –ela perguntou interessada, mas tranquila, em tom discreto de voz.

_Foi mais fácil do que eu imaginei, mas mesmo assim poderia ter sido muito mais fácil. De qualquer modo, eu estou bem. –ele explicou, dando entender que tinha uma boa aventura a ser contada.

_Sim, você está. –ela concordou sorrindo suavemente e depois mudou a expressão para algo mais sério. –Amanhã, você deverá nos informar de tudo. –comentou, atinada, e ele assentiu.

_O que você está fazendo?

_Estava trabalhando enquanto te esperava e aproveitando para pagar parte da nossa conta da hospedagem. –ela explicou calmamente. Trowa sorriu diante da disposição. Ele não sabia, mas ela tinha calculadamente planejado tudo, até tinha dormido um pouco antes e pedido para alguém acordá-la a meia-noite de modo que fosse esperá-lo.

_Não se preocupe com isso, depois nós dividiremos a conta. –ele explicou, como que em reconhecimento do esforço dela. Ele prezava o que ela fazia por eles e discretamente demonstrou isso naquele momento.

Ela sorriu timidamente:

_Eu sei, mas é que gosto de trabalhar. –e apenas comentou, simplista, suspirando. –Agora é melhor que vá descansar para se recuperar, porque depois teremos de voltar lá e passar a noite acordados. –aconselhou, lembrando-se bem.

_E você? Também tem de ir dormir. –ele meio que a repreendeu, sagazmente com olhos sérios.

_Eu já irei. –deu uma resposta sintética e o tocou enquanto ele levantava da cadeira, e então ele murmurou baixo:

_Ai. –Trowa gemeu profundo, repentinamente sentindo uma dor incomodando-o muito. Antes sentia os incômodos misteriosos, mas a dor experimentada era nova e obrigatoriamente notável. Ele entrefechou os olhos por um instante se recuperando da sensação desagradável.

_O que foi? –ela se preocupou com ele, sempre falando suavemente, e a voz saiu com um timbre aflito. Ele lhe sorriu bondosamente, achando a preocupação dela bonita, e relevou o que sentiu, comentando displicente:

_Eu estou sentindo algo me incomodando aqui atrás, mas não deve ser nada. Eu irei dormir. Amanhã vai ser outro dia cansativo. –e era interessante o modo comum e leviano de ele dizer aquela última frase, sempre com sua voz impassível. E já foi se virando e dando os primeiros passos, pensando se havia algo que ele deveria fazer para agradecer pela disposição dela.

_Não, espere! Você não pode dormir assim! –Akane o deteve e então, cuidadosamente, puxou o braço dele –Veja só… Tem uma flecha presa em você! –ela exclamou com um ar sério, mas os olhos expressavam algo de surpresa. –Como não percebeu?

Ele arregalou os olhos e depois ru baixo, com alguma admiração, agora sentindo claramente a dor da flecha bem fincada em sua capa. Estava um pouco úmido em volta da ponta. Akane o olhava enquanto ele sorria para si mesmo, nada preocupado com o ferimento, lembrando-se de como ficou agitado na hora da fuga – nem mesmo percebeu que a flecha tinha acertado-o.

_Não está doendo? –ela perguntou impressionada, olhando-o com um misto de preocupação e assombro com um pouco de deboche.

_Não… só agora mesmo que eu senti… –respondeu calmamente, com tom de voz sério e inexpressivo. Ela sorriu, num deboche jovial e doce:

_Como pôde ser tão distraído, hã? –e pausou um instante, assumindo ares de preocupação e responsabilidade outra vez. –Vamos, temos de cuidar disso. –prontamente disse, numa ordem, olhando-o com firmeza. –Vá lá para os fundos me esperar. –e continuou, dando imediatamente as costas e indo procurar Tristin.

Trowa sorriu divertido diante do jeito dela. Sabia muito bem quem ela lembrou naquele instante, mas ainda assim, ela pareceu muito diferente dele – eram os motivos que diferiam. Quando Heero era autoritário, era porque ele tinha ardendo uma chama estranha e nata de liderança que o movia a agir assim, mas quando Akane era autoritária, apesar da liderança, algo mais ardia internamente: o amor. Este era o grande causador dos modos imperiosos dela, tal ela fosse uma mãe. Trowa caminhou até a entrada das dependências atrás do balcão e levantou a portinha neste.

O aposento onde estavam pousando ficava bem nos fundos da taverna. De fato, o interior da taverna se estendia bastante profundamente por causa dos estoques, dos aposentos de Tristin e sua família e da cozinha do lugar, que preparava refeições muito deliciosas apesar de pouco sofisticadas. Havia um longo corredor que levava até o quarto de hóspedes e havia um banco comprido encostado na parede lá, bem perto da porta do quarto, e assim, Trowa foi e sentou para esperar a moça. Enquanto isso, ele tirou a flecha do braço com um suspiro que mascarou a dor que sentiu, e engoliu seco. Felizmente, graças às roupas grossas, a ponta não tinha penetrado muito.

Quando Akane apareceu, veio com uma bacia de água, um candelabro, que era suficiente para iluminar o corredor, e um pano jogado no ombro. Colocou a bacia no banco, um pouco longe de Trowa, sem falar uma palavra, quase sem mirá-lo, e ele a assistia como um felino arisco e curioso. Deixando também o candelabro, Akane entrou no quarto como uma sombra esgueirando-se discreta e quietamente, logo voltando com uma caixa damasquinada nas mãos.

_Vamos lá, faça um strip tease para mim. –ela disse com uma voz provocante, olhando-o marota, e ele quase riu, porém apenas ficou fitando-a surpreso.

Os modos dela eram sempre imprevisíveis, e Trowa sentia uma onda que vinha dela mansamente para acertá-lo em cheio, vinha dos olhos, vinha da mera presença dela. Seria uma força? Ele ainda não tinha terminado de desvendar aquela pessoa. E depois de um rápido momento de reflexão para processar tudo que sentiu e ouviu nos últimos minutos, Trowa começou a tirar a capa e foi despindo as peças de roupa uma após a outra, sentindo o corte arder por causa dos movimentos. Ia tirando as roupas e as amontoando ao lado no banco com um pouco de arranjo e todas elas estavam marcadas pelo rasgo da flecha.

Ele não pareceu nada embaraçado diante dela e ela realmente não lhe dava razão para se sentir assim. De fato, talvez fosse difícil sentir-se mais à vontade naquela situação estranha. Akane olhava-o como se eles fossem exatamente iguais e ele não entendia aquilo nela, mas apreciava muito.

_Eu tenho uma ou duas más notícias para você. –ela disse então, descontraída, sentada ao lado dele, umedecendo o pano na água, e ele sentado encostado à parede, de lado para ela, com os olhos fechados, murmurou:

_Diga. –pediu monossilábico, sem se preocupar, a voz sempre inexpressiva.

_A primeira é que o ferimento vai precisar de sutura. E a segunda é que não vai dar para anestesiar.

_Só isso? –ele desencostou só a cabeça e olhou para ela displicente e ela assentiu agilmente. Ele assentiu também e voltou a encostar a cabeça e cerrar os olhos.

_Ok, eu vou começar. –ela disse então abrindo a caixinha, apanhando uma agulha que ela molhou na água. Depois introduziu um longo fio pelo olho da agulha e passou a ponta desta na chama para esterilizar.

_Você é do tipo que não dorme enquanto o filho não chega? –ele perguntou então, sentindo a agulha entrando na sua carne, e apesar da fraqueza, ele continuava articulando as palavras calma e normalmente. Ela olhou-o por um diminuto instante, sorriu por causa da pergunta.

_Eu simplesmente não poderia ir descansar sabendo que você podia chegar assim ou pior, ou mesmo nem voltar. –a voz dela saiu bonita e tocante ao dizer a última frase e Trowa não conseguiu evitar: simplesmente se comoveu impressionado. Mas nada demonstrou, apenas continuou ouvindo. –Eu queria ter certeza de sua segurança ou Lady Catherine iria me matar! –e ela conseguiu fazê-lo rir com essa frase.

Ele rolou os olhos para ela, suportando bem a dor, e ás vezes a ouvia sussurrar "calma, só mais um pouco" ao passo que rapidamente relanceava-lhe a face com os olhos verdes e vivos. Estava escrito ali naquele olhar: devoção. Ela se dedicava a cada um deles individualmente, com ternura especial, personalizada.

Cada um tinha uma função no grupo, uma missão, cada um tinha uma habilidade destacada, o que na verdade nada tinha a ver com as aptidões cavalheirescas de combate, justa e estratégia militar. Eram as habilidades emocionais, internas, coisas do coração. Silenciosas e quase imperceptíveis aos olhos, mas deliciosamente agradáveis e indispensáveis, tais habilidades eram uma suave rotina, que corria constantemente sem parar, de modo que não se pára para vê-la correr. Apesar dos modos de Akane, marotos e ousados, representarem um tipo de sedução, um tipo de discórdia, Trowa concluía que esta de algum modo não os separava, mas os unia. E enquanto ela terminava de suturar a ferida, Trowa fitou-lhe o rosto de traços ora delicados ora fortes, coberto das sardinhas como ferrugens e lhe abriu um sorriso grato e bondoso. Ela o olhou com um brilho infantil nos olhos e lhe sorriu de volta.

Aquela estava era a primeira vez que Trowa ficava sozinho com Akane e podia observá-la sem qualquer interferência. E ela era genuína, não mudava, não sabia ter vergonha de nada. E, por debaixo da superfície de sorrisos atraentes e jeito descontraído, ela guardava um oceano turbulento de segredos que contradiziam a imagem que ela passava – e isto de alguma forma era do mesmo jeito com Heero. Trowa percebia que Akane tinha um passado tão triste como o de Heero, mas o que diferia neles era a atitude. Ele a observava em silêncio contemplativo e ela não se importava, e arrematando a sutura soltando um suspiro profundo que Trowa não soube interpretar, limpou a ferida com o pano umedecido e depois a secou com o avental.

_Doeu muito? –e perguntou.

_Nada além do suportável. –ele respondeu luxento com sua voz de lorde, parecendo desdenhoso, olhando-a profundamente, porém. Ela assentiu imperceptivelmente:

_Você é forte. –comentou simplesmente conclusiva, levantou-se e anunciou: –Está pronto, Gatinho. Agora vai dormir, vai… –e falava maternal. Passou a mão pelos cabelos dele quando se levantou e apanhou a bacia e o candelabro.

_E você?

_Já vou indo também… –ela não se deteve para dizer mais que isso, e caminhava a passos lentos para a cozinha levando embora a bacia e o candelabro, mas deixando a caixinha damasquinada no banco com Trowa. –Eu vou me trocar antes. –de repente explicou, antes de sumir.

Ele ficou sentado na penumbra por algum tempo, ouvindo o silêncio e sentindo a solidão. E pensava. Estava sempre pensando, na verdade – ele era uma parte filósofo. A vida era muito interessante, ele concluía depois do que vivera. A diversidade de seres e momentos, mesmo que breves, coloriam a tela do viver sempre de um modo diferente, compondo um quadro onde era difícil escolher o que observar primeiro. Ele abriu um meio sorriso e levantou-se por fim. Apanhou a caixa dela e levou para o quarto onde deixou perto dos pertences da menina. E encaminhou-se para a cama levando as roupas no braço, ansioso para mergulhar naqueles lençóis. Finalmente chegava a hora de usufruir seu merecido descanso. Estava muito exausto, e com bons motivos para isto. Sentou-se na cama e deixou sua capa e as demais roupas no chão e tirou as botas. Agora sentia o braço latejar e doer um pouquinho mais, entretanto, sentia muito alívio por sua missão ter terminado bem, prometendo muito mais para o dia seguinte. E sentia satisfação de poder deitar ali e descansar sem nenhuma preocupação. E o cansaço, levando a melhor sobre a dor, o fez dormir logo, sua mão pendendo para fora da cama, e parecia que simplesmente nada poderia despertá-lo de novo de tão profundamente que adormeceu.

Enquanto tudo isso, de volta ao chateau Romefeller, Commodore estava em seu gabinete, ainda todo vestido de sua armadura negra, e não parecia em nada ansioso em ir dormir. Olhava pela janela observando os jardins e seu olhar distante era contemplativo, ele pensava em como caminhavam os planos de conquista. Sabia que os exércitos de Zechs jamais viriam, conhecia bem o príncipe, mas também sabia que ele jamais deixaria Relena cativa ali, e por isso se perguntava o que Zechs estava tramando. Com todo esse mistério e incerteza era impossível se preparar, e tudo o que ele sabia era que dentro em breve ia haver um bocado de agitação naquele castelo.

Um sorriso deliciado entreabriu seus lábios e ele voltou-se para o interior e sentou-se a mesa. Estalou os dedos e ficou refletindo na época em que viviam, em todas as conquistas dos Romefellers, na nobreza de Princesa Relena… Havia tantas coisas interessantes acontecendo, ele se agradava tanto de todas elas… Via grande necessidade de boicotar a execução da princesa, mesmo contra a vontade dela, porque era inconcebível permitir aquela morte. Relena era preciosa demais para se abrir mão dela. E dedicando-se a pensar sobre isto, Commodore mirava as estantes de seu gabinete todo escuro, com um olhar sério e perscrutador mesmo no vazio.

A porta foi abrindo-se devagar, deixando um facho externo de luz entrar, e Dorothy veio caminhando suavemente coberta por uma veste que se assemelhava a um peignoir, mas era feito de um tecido grosso vermelho-bordô e elegante. Ela sorriu observando-o ali e fechou a porta.

_Milorde não irá dormir esta noite?

Ele ergueu-lhe os olhos e apenas sorriu, sem resposta.

_Está pensando em algo?

_Sim… –mas não se deu o trabalho de explanar o que era. Dorothy assentiu, olhando baixo e sentou-se sobre a mesa. –O que veio fazer aqui? –ele então lhe perguntou astuciosamente e ela lhe abriu um sorriso.

_Não estou com sono… Eu o procurei em seu quarto e como não o encontrei, sabia que estaria aqui. Queria compartilhar algo com você, algo que eu acredito que seja a mesma coisa na qual está pensando. Eu não me conformei com a decisão de Relena e muito menos com a ordem de Decker… Talvez houvesse um modo de burlarmos ambas.

_Sim, me ocorria o mesmo agora. –e Commodore concordou, olhando para a prima soturnamente. –Entretanto, ainda não tive nenhuma ideia aproveitável.

_Eu só tenho uma única ideia que é com certeza aproveitável… –Dorothy sussurrou maligna e Commodore lhe sorriu, mas repreendeu:

_Não podemos ser drásticos.

_Oh, que pena… –e instantaneamente ela lamentou. –O senhor meu primo sabe que é a única forma…

_Não quero vê-la manchada de sangue, prima amada. –ele apenas censurou, firme e incontestável, e ela olhou outra direção, querendo evitar o olhar duro de Commodore. –Deve haver alguma outra maneira, não importa se ele desconfiará de nós ainda mais.

Dorothy olhou para o rosto de Commodore, pensativa. Será que realmente havia outro modo? Ela só pensava na total eliminação de seu primo, para ela não havia melhor forma de resolver a questão. Um sorriso abriu os lábios dela ao pensar em Decker sofrendo uma morte misteriosa, e Commodore a observando meneou a cabeça, já imaginando as maldades que a prima concebia, e então a porta se abriu outra vez.

Desta vez ela não se abriu delicadamente, mas se escancarou, e um soldado agitado adentrou o cômodo, falando pressuroso:

_Senhor! Houve uma tentativa de invasão! –era como eles conseguiram definir o acontecimento da noite.

Commodore se colocou em pé imediatamente, franzindo as sobrancelhas, e só por esta expressão exigiu os detalhes que o soldado deu, lacônico:

_Nós olhamos os arredores, mas não conseguimos encontrar ninguém, e perdemos três soldados hoje!

Commodore mantinha o silêncio mortal deixando o soldado apreensivo. Dorothy tudo assistia de cima da mesa, tranquila.

_É noite, não adianta procurar, por mais clara que esteja, e este agressor deve estar muito distante agora. Isto deve ser coisa de Zechs… –Commodore ia dizendo para si mesmo, num tom baixo, mas o soldado ia acompanhando os pensamentos de seu superior.

Então Zechs tinha chegado, Commodore pensou, mas jamais esperava encontrá-lo presente ali. Já tinha entendido: o príncipe devia ter mandado uma equipe para resgatar a princesa somente, porque Zechs jamais ia contribuir para que aquela ilógica batalha proposta por Decker acontecesse.

_Muito bem. Reforcem a segurança da muralha e recolha qualquer um que ainda esteja lá fora procurando antes que este seja atacado pelos ferozes lobos que perambulam nestas florestas!

_O senhor não acha que devemos fazer uma busca para ver se encontramos algum suspeito? –o soldado então indagou, fazendo uma sugestão.

_Eu não vejo o mínimo proveito nisto… Como é que poderemos saber quem foi o invasor e para onde ele foi? Amanhã ele já pode estar muito longe daqui… As minhas ordens são aquelas somente.

_Sim, senhor! –então o homem bateu uma continência determinada e saiu, fechando a porta, tão apressado quanto antes.

Com isso, Dorothy trocou olhares com Commodore, ela sorria deliciada como se tivesse ouvido palavras de regozijo e boas notícias. Levantou-se da mesa e caminhou para perto dele como uma felina manhosa:

_O que você acha, milorde? –indagou-lhe as impressões e Commodore virou-se outra vez para a janela.

_Os "Formidáveis" estão aqui. –ele apenas murmurou passivo e muito calmo. Dorothy alargou seu sorriso de deleite, em êxtase interno, apertando os olhos que brilhavam de satisfação. Ouvir aquilo era o mesmo que ser convidada para uma grandiosa festa.

_É bom estarmos prontos… –então ela disse sussurrando ao colocar as duas mãos sobre a ombreira de Commodore e ele sorriu, levando uma das mãos até o rosto dela.

_Sim, isto é muito bom. –ele disse enquanto ela se desencostava dele e lhe sorria amplamente. –Agora com licença, que eu devo avisar Decker sobre a tentativa de invasão… –e com certeza nada iria falar sobre sua teoria dos "Formidáveis". Dorothy assentiu, parecendo desagradada por ser deixada sozinha e ficou observando Commodore se afastar.

_Que época memorável! Tudo está ficando cada vez mais divertido… –e ela comentou consigo mesma, sorrindo, sorrindo sempre, maldosa e deliciada.

Relena estava sentada junto da janela, debruçada no peitoril, olhando a Lua. Noin estava dormindo pesadamente, e Relena curtia sua solidão com lágrimas nos olhos. Que época terrível estava vivendo! Parecia que nunca ia terminar. Precisava de consolo, mas não havia nenhum disponível, só a realidade.

_Quanto tempo mais vai demorar? –ela se indagou, olhando a Lua, a mesma que ela via antes, mas do seu quarto no Peacemillion. Quantas saudades! Ela secou uma lágrima. –Como é que você aguenta, hein, Akane? Ser meu próprio cavaleiro…isso não é para mim. –Relena bem se lembrou da frase da amiga, e depois sorriu, fazia tempo que não se lembrava dela. E pensar nela a fez se lembrar de Heero, ela não soube muito bem por que. De repente os achou parecidos. –Quanto tempo mais você vai demorar? Eu estou te esperando, Heero, nem que seja para você vir assistir a minha morte.

Mas de qualquer modo, ela precisava resistir. Nada alteraria sua decisão, ela não ia invalidar o motivo de estar ali por simplesmente ceder aos desejos daqueles loucos. Se ela estava presa, se ela ia morrer, ela ia fazer tudo isso sua própria vontade, porque tudo isso a levara ali e assim ela ia justificar bem sua presença. Não ia se entregar jamais.

Ela se levantou do peitoril e encolheu-se na cadeira enquanto as lágrimas silenciosas lhe desciam dos olhos. Ela engolia seco, abatida. Não ia temer, por mais assustador que parecesse, ia agir bravamente e enfrentar todos os desafios sem jamais trair a lealdade que rendia a si mesma, aos seus princípios nobres. E por mais que doesse, ela sobrepujaria aquela dor.

Pensar em tudo isso a deixou mais calma, a aliviou, até se esqueceu de seu futuro funesto. Sorriu, secou as derradeiras lágrimas e manteve os olhos no céu. Havia estrelas que cintilavam para ela timidamente. Silenciosamente ela orava para que ainda acontecesse um final feliz para toda aquela aventura infeliz, ela pedia forças para suportar a tristeza e a pressão e o terror com qual tentavam soterrá-la. Ela reconhecia a necessidade de ser forte e orava pedindo perseverança, sorrindo outra vez, os pensamentos concentrados. Antes de ela perceber, tinha adormecido, sentada encolhida na cadeira em frente da janela, suspirando mais leve. E não viu o Sol se levantando e lançando seus raios cálidos por sobre os jardins e pomares do chateau, anunciando o início do novo dia.


Boa-noite!

Aqui é a autora!

Este capítulo é bem mais animado do que eu me lembrava! No fim, me diverti bastante relendo ele. : )

Desculpem por ser meio maçante. Obrigada pela persistência!

Espero que estejam gostando, agradeço demais a atenção! Deixem reviews para eu saber a opinião de vocês! S2

Dedico esse capítulo a Suss! Obrigada demais pelo carinho!

Até logo!

29.04.2018