De morte, por piedade hoje te firo;
Vai pois, vai merecer na sepultura
A tua linda ingrata algum suspiro.
BocageCapítulo 37
Chang mal conseguia conter a própria hesitação quando olhou para os olhos cansados de Hanako.No fundo sabia que não tinha direito nenhum sobre aquela garota...Devia se afastar dela como ela própria demonstrava querer, mas o sentimento o forçava a seguir um caminho que não queria. Precisava escutar da boca dela de que não o queria por perto caso contrário enlouqueceria com tamanha incerteza.
-Não tenho nada para explicar ao senhor.-falou ela.
Chang andou pelo o quarto exasperado, pois não compreendia aquela atitude fria e sarcástica que Hanako o tratava. Não tinha feito nada contra ela...
-Deve sim, afinal fui eu que te salvei.
-Tenho uma eterna dívida com o senhor.-falou em um suspiro-Mas não vejo motivo para que vossa senhoria entre no meu quarto com tamanha propriedade, como se fosse dono dessa residência e venha me obrigar a falar coisas que quero esquecer.
-Não é dessa maneira que penso, Hanako.-sentou nervoso.-E, por favor, não me chame de senhor, pois devo ser no máximo alguns meses mais velho que você... e já nos conhecemos o suficiente para dispensar esse tipo de formalidade.
Hanako sentia a ira tomar conta de seu corpo.Ele agia como se tivesse algum direito sobre ela... Odiava agir daquela forma com ele, mas aquela era a única maneira que conhecia para afastá-lo definitivamente dela. Não queria ter que sofrer... Nenhuma pessoa iria ferir o seu coração novamente.
-E de que forma você pensa, Chang?-perguntou deslocando-se até a janela.
Era perfeito o reflexo dela sobre a luz da lua.Ela parecia mais uma ninfa do que um ser humano de verdade.Mais uma vez perdia completamente o fio de seu pensamento ao contemplar tamanha beleza. O desejo foi intenso que quase o fez perder o controle sobre seus atos.
-Acho que mereço um pouco mais de consideração de sua parte, Hanako.-disse limpando a garganta.-Não mereço ser tratado como um cachorro sem sequer ao menos saber o que fiz para você.
-E quem disse que você fez algo a minha pessoa?
-Não precisa ser um gênio para perceber que vem me ignorando desde que pus os pés nessa casa.
Com as mãos geladas, Hanako sentiu o peito comprimir em seu interior tamanho era seu nervosismo e preocupação, pois ainda não conseguia compreender os motivos que levava Chang pensar que podia cobrar dela alguma coisa sendo que mal se conheciam.
-De que forma quer que eu te trate, Chang?-perguntou virando-se para ele.-Quer que eu ajoelhe a seus pés e pague o que fez por mim com mil beijos nele? Já não seria desonra demais a minha pessoa ser vista como uma desvairada que pulou em seu caminho! Não sou ninguém Chang...e você já devia estar sabendo disso.
-O que leva você pensar que quero te humilhar, Hanako?-perguntou confuso.-Não é da minha índole maltratar ninguém muito mais uma garota bondosa que sei que você é.
-As suas palavras são bonitas, Chang, mas na prática você sabe muito bem que é isso que as pessoas esperam de você.
-Por que te humilharia?-perguntou mais uma vez mal contendo a vontade de sacudi-la.
Ele era cínico ou um idiota cego que não era capaz de interpretar nada. A humilhação que se referia era o fato de ser apontada como "concubina" por alguns pelo o simples fato de ter dormido na cama dele. Como se fosse um ato desonroso ter contado com a ajuda dele. Jamais deixaria que ninguém levantasse uma indagação contra sua índole com respeito a seu relacionamento com aquele homem, pois senão fugiria dali como escapara da própria mãe. Não queria que sua presença prejudicasse o relacionamento entre ele e Marta. Não suportaria vê-lo perder seu grande amor.
-Sou e sempre serei agradecida pelo o que fez por mim, Chang. Mas por favor, não cobre explicações sobre meu comportamento, pois ele só diz respeito a mim e a mais ninguém... Espero que compreenda meus motivos...
-Jamais irei compreender um motivo que nem eu mesmo sei.-falou se aproximando dela.-Preciso saber, Hanako, pois senão não dormirei a noite e nem serei capaz de trabalhar em paz.
-Não sou nada para você, Chang.-falou desesperada querendo que aquela conversa constrangedora terminasse logo.-Entenda isso...
-Jamais irei entender, Hanako. Por favor, não me faz perder o controle sobre meus atos.-pediu desesperadamente em busca de um alívio para sua consciência.-Você é mais para mim do que qualquer pessoa já foi... e não adianta fugir do que sinto, pois é impossível, por mais que nessas horas incontáveis tenha pensado, martirizado, me condoído por sentir algo que está fora do meu alcance é impossível... é impossível... você não sai da minha cabeça Hanako... entenda isso, por favor.
Chang estava trêmulo com a intensidade que descrevia os próprios sentimentos por aquela menina que estava estática a sua frente. À vontade de abraçá-la e beijá-la naquela hora foi intensa, afinal ela se encontrava a meio metro de distância de seus braços, mas se fizesse isso saberia que nunca mais poderia deixá-la... um ato que era impossível de não acontecer depois daquela conversa.
-Você...você não sabe o que fala.-falou ela balbuciando.
-Sei que sou impulsivo às vezes, Hanako, mas sei muito bem o meu sentimento... e jamais seria imbecil o suficiente a ponto de brincar com os seus sentimentos por mim.-apressou em falar.-Não vou falar que te amo, pois não acredito no amor, mas sei que sinto algo forte por você... algo que me fez seguir até o seu encalço a fim de perguntar o motivo para me tratar com tanta frieza.
-Isso é impossível Chang... Mal nos conhecemos... você não sabe nada sobre mim.-rebateu enfiando as unhas na palma da mão.
-Eu... Eu sei, mas sinto que não é uma má pessoa. Se fosse não teria ficado aqui.-disse se aproximando mais dela.-Não sei nada de você, e nem sou maluco em perguntar, mas com o tempo há de me falar o que te trouxe aqui.
A compreensão dele a deixava comovida. Mas não era só isso que a deixava armada contra seus sentimentos. Havia Marta ainda...
-E Marta? Como fica ela? Eu vi que você sente algo por ela também.-perguntou emocionada.
Chang apenas respirou fundo. Em seu caminho ainda havia Marta, que por sua estupidez e ignorância havia usado para distanciar Hanako. Como se isso apagasse o que sentia por ela. Como poderia contar para a ninfa que estava a sua frente que aquela mulher a qual julgava sua noiva era apenas um meio que arranjara para distanciá-la dele... Hanako jamais o compreenderia. Além do mais o julgaria como um bocel, algo que não queria ser aquilatado na frente dela jamais.
-Não posso falar nada sobre o meu relacionamento com Marta.-falou notando que a face da menina ficava negra como a noite.-É algo recente...
-Esse é mais um motivo para mantermos distância um do outro.-falou nervosa se distanciando dele.-Jamais serei apenas sua amante Chang. Você devia ter vergonha de me propor algo tão indecoroso.
-Por favor, Hanako, não me interprete mal.-falou a segurando pelo os braços em gesto nervoso que não passou despercebido por ela.-Sei do seu caráter e jamais a julgaria dessa maneira...
-Não foi isso que interpretei há minutos atrás.-disse tentando escapar dos braços dele.-Me largue, Chang...
Não iria largá-la jamais. Não sem antes explicar o sentido de sua palavra. Ela era a última pessoa que pensaria em cometer um ato desrespeitoso. Marta era uma página virada em sua vida... Ela fora apenas um brinquedo em suas mãos e nada mais. Sentira algo forte pela a portuguesa, mas não passara de uma atração física sem mais conseqüências. O que sentia por Hanako era mais forte do que sua razão, mais forte do que sua vontade. Sabia muito bem disso e por isso não a largaria jamais. Não enquanto não falasse a verdade para aquela maluca.
-Entenda Hanako. Nunca respeitei mais uma mulher na minha vida antes de você... nem mesmo minha mãe. Jamais entenda que proporia algo errado ou uma libertinagem dessa altura.-falou apertando mais os braços dela.
-Me largue, Chang... Senão gritarei.-ameaçou.
-Marta foi uma boa companheira, mas para minha desgraça ou sorte sei lá, você apareceu e revirou a minha vida. Será que não percebe que estou perdendo o controle por sua causa...
Hanako se deixou abraçar por Chang. Seu corpo correspondeu ao carinho enquanto sua mente a condenava por seu ato impensado. Jamais esqueceria daquele arrebatamento. Sentir o corpo dele junto ao seu foi a melhor sensação que acontecera em sua vida até aquele momento.
-Não sei... você deve ser uma feiticeira, uma fada ou até mesmo um anjo, pois não consigo resistir a seu encantamento.-falou tomando os lábios dela com paixão.
Hanako sentiu o toque nos lábios como uma dádiva dos deuses. Aquele era seu primeiro beijo e foi como sempre havia sonhado. Apaixonado, explosivo, arrebatador. Tudo o que sempre tivera desejo e nunca poderá ter, até aquele momento.
Shoran olhava confuso para cena que desenrolava. Se não fosse por respeito a Sakura que estava a sua frente na mesa, aquele teatro imbecil já teria terminado. Odiava ver Tao desempenhando o papel de rico, sendo que tinha uma segunda intenção por debaixo daquela encenação toda. Esperava pelo o momento que ficasse sozinho com aquele moleque para tirar às devidas satisfações que ele devia a sua pessoa.
-A comida estava muito boa, senhorita Li.-Yukito falou quebrando o silêncio que reinava na mesa.
Meiling que até então havia se mantido alegre e comunicativa corou. Desde o momento em que chegara e vira aquela "mulher" sentada como se fosse a dona daquela casa, coisa que jamais seria ou até poderia vir a ser...Já que sabia muito pouco do seu destino ou do futuro de Sakura. Mas não podia deixar de sentir um prazer imenso ao receber o elogio do marido dela... Mesmo sabendo que aquele homem não passava de um mero consorte nas mãos dela.
-Realmente está muito boa.-Yu falou congratulando mais ainda Meiling.
-Fico muito feliz que tenham gostado, mas infelizmente o mérito não é só meu.-disse em tom modesto.
-Mesmo que fosse só seu minha prima não tiraria em nada o seu dom de planejar bem tudo o que faz em sua vida.-Shoran falou em tom sarcástico.
Meiling compreendeu muito bem o que Shoran quis dizer a ela. Depois de todos aqueles anos de dedicação e luta ao lado daquele homem era isso que recebia... apenas o sarcasmo e o cinismo da parte dele. Sim, justo do homem a quem tanto amou e deu sua vida.
-Não sou digna de elogios. Fiz apenas o que sempre soube fazer e nada mais.-falou pretensiosa.-Isso é o máximo que uma dama deve fazer para recepcionar bem uma ilustre visita.
-Mesmo assim está de parabéns, senhorita...
-Pode me chamar de Meiling, senhor Hao.-falou ela cortando a frase do jovem.
-Está de parabéns se... quer dizer Meiling.-falou o moço escondendo o seu cinismo por debaixo de uma aparência tímida.
Sakura acompanhava os movimentos de forma quase coadjuvante. Desde que chegara, mal conseguira abrir a boca, pois se abrisse seria apenas para gritar e sair daquele ambiente cínico e falso. Odiava o jeito calmo e pacífico que Meiling a encarava. Era como se quisesse vingar naquele momento tudo o que estava passando. Jogar na cara dela que fora mais mulher para Shoran do que jamais, ela (Sakura), teria sido. Realmente reconhecia que Meiling havia feito excelente durante aqueles anos, mas pior do que já era não poderia ficar. Infelizmente a personalidade daquela mulher não deixava uma sombra de dúvida de que era má... muito má. O que era pior... era insana.
-Bem, vamos até o anfiteatro aonde poderemos ficar mais à vontade.-sugeriu Shoran ansioso por um minuto a sós com Hao... ou Tao como acreditava que era o verdadeiro nome daquele indivíduo.
-"tima idéia Shoran.-Yukito falou sorrindo sedutoramente para Yu.
-Bem, Meiling ira levá-los até a sala, enquanto eu tenho que resolver um assunto em particular.-falou sorrindo para os convidados quando já se retirava do recinto.
Sakura mal conseguira erguer o rosto, mas percebera que ele falava para ela. Ela era com quem ele queria falar. Seja o que for iria até ele, mesmo que isso atiçasse as suspeitas de Yukito. Coisa que não iria acontecer ainda mais agora que o otário do marido estava direcionando seu charme para aquela jovem menina que mal saíra do berço.
-Estou cansada, Yukito.-falou Sakura olhando para o esposo.-Estou me retirando e indo para os meus aposentos...claro que só irei se a minha presença não fizer falta ao senhor meu marido.
Tao e Meiling sorriram cinicamente. Ambos sabiam qual era o motivo do repentino cansaço de Sakura. E ele tinha nome e sobrenome e que era capaz de tudo por ela até mesmo matar o pobre Yukito. Seria engraçado fazer o marido traído saber naquela noite sobre as escapadas da então (quase) noiva há dezessete anos atrás. Mas ambos sabiam que aquele não era o momento para isso... embora Sakura e Shoran merecessem toda a desgraça do mundo.
-Pode ir Sakura, o que importa a minha pessoa é o seu bem-estar, fico muito feliz pela a sua delicadeza de recepcionar meus convidados mesmo sabendo que não estava se sentindo bem.-falou Yukito de forma amorosa beijando-a na cabeça.
Sakura se limitou apenas a subir a escada ansiosa. A fim de saber o que levava Shoran a falar com ela naquele momento no meio do jantar. Sabia do risco que estava passando naquela hora. O fato de Yukito ser bobo não queria dizer que ele fosse misericordioso. Se ele a pegasse com Shoran... temia muito esse encontro, pois não sabia o que acarretaria a ambos depois de tantos anos na obscuridade.
Marta olhava para a neblina que caia sobre a noite de Pequim. Era óbvio que aqueles eram seus últimos momentos naquela pensão como "quase" noiva de Chang. Sabia que naquele mesmo momento ele estava trancado com aquela estranha... talvez falando coisas que jamais falaria para ela.
Realmente era uma idiota em acreditar que um homem à altura de Chang, com o nome e o suporte dele iria se interessar por uma garota como ela. Pobre e subjugada por uma sociedade machista e dominadora. Era óbvio que ele preferia Hanako...Na certa o sangue novo era novidade para ele. Além do mais a jovem japonesa representava aventura e beleza. Não se considerava feia, longe disso, sabia que era bonita e tinha o corpo de dar inveja até mesmo na beleza gótica de Hanako. Mas o fato era que ela não era mais novidade...Ela queria algo maior do que beijinhos ou um prazer roubado em momentos perdidos.
-Pensativa Marta?-perguntou Marien sentando ao lado dela.-Posso saber o motivo que a leva sonhar?
-Não, é um devaneio que penso no momento, Marien.-disse notando o sorriso cínico da jovem.
-Então o que é? Nunca pensei que uma mulher dita resolvida como você que sempre quis frisar sua independência esteja agora jogada num canto pensando...apenas pensando.
-Às vezes tenho dúvidas sobre a sua idade, clara Marien.-falou de forma indolente.-Mas felizmente dessa vez você está certa menina... Estou pensando muito mesmo... muito, que chego até mesmo ter medo de mim mesma.
-Como assim?-perguntou temerosa.
Temia que aquele grande ressentimento que percebia nos olhos negros de Marta fosse direcionado a Hanako. Era mais do que óbvio que estava se contorcendo por dentro pelo o fato de Chang estar com a jovem e não com ela, como imaginava que estaria. Não podia falar ou sequer pensar no quanto estava surpresa com os rumos dos acontecimentos. E em pensar que aquela jovem japonesa tinha alguma ligação com o seu passado já a fazia criar um instinto protetor sobre ela.
-Você nunca amou na vida, Marien.-disse se levantando do lugar onde estava e indo à direção dos quartos.-Mas um dia creio que vai se apaixonar e daí ira entender o meu desespero.-concluiu ainda pensativa.-Sou capaz de tudo por Chang, Marien, mas se ele gosta mesmo dessa garota irei abrir mão dele, pois serei feliz se descobrir que como eu ele encontrou o amor de verdade.
Marien ficou encantada com a maturidade de Marta. Jamais pensaria que por debaixo daquela aparência fatal existia uma jovem delicada que queria apenas a felicidade do amado e nada mais. Não fora justa ao julgá-la antes mesmo de conhecê-la, mas jamais esperaria um ato tão nobre vindo daquela menina.
-É o melhor que você faz, Marta.-sussurrou vendo a moça entrar no quarto.-Estarei rezando para que reencontre o amor, e que desta vez ele a ame como mereça ser amada.
-Não podemos fazer isso, Chang.-falou ela afastando-se dos braços dele.-Somos pessoas diferentes, de mundos distintos...jamais daria certo,iríamos de várias maneiras nos machucar.
Chang estava encantado com o momento idílico que havia passado há momentos atrás. Nunca poderia imaginar que um beijo pudesse representar um ato de prazer em toda sua vida. Beijar sempre ficara em segundo plano. Dava para contar nos dedos as mulheres as quais se dignara a beijar... Sempre considerara o beijo como um ato sagrado, uma toa de amor. Por isso jamais tocara nos lábios de nenhuma mulher que merecesse seu respeito até então. Mas aquela fora à primeira vez que se sentira tão completo com um simples roçar de lábios.
-Não penso da mesma forma que você, Hanako.-falou sorrindo indo até a janela. Precisava dar um tempo a ela, já que duvidava muito que aquele anjo tivesse tido um relacionamento como aquele antes. Era normal que ela quisesse se preservar ao máximo. Só Buda sabia o quanto essa garota havia sofrido e ainda sofria.
-Você não entende Chang que isso... isso foi um erro.
-O nosso beijo, cujo você ainda o descreve como "isso" não foi e nunca será um erro.-falou debochando do nervosismo dela.-Aliás, foi como tocar o céu com um simples ato de amor.
-Como o senhor consegue ser tão depravado.-falou torcendo as mãos.-Aquilo nunca mais poderá voltar a acontecer...
-Aquilo é o que mais quero fazer agora, meu anjinho.-falou se aproximando dela.
Ela se encolhia como se fosse um Serafim desprotegido que havia acabado de perder o dom divino de ter asas, pois havia cometido um grande pecado. Sabia da pouca experiência de Hanako e não queria jamais assustá-la. Mas não beijá-la novamente seria como se mutilasse uma parte de seu próprio corpo.
-Não tenha medo de mim, Hanako.-falou ele afastando os cabelos rebeldes dela.-Eu sei que gostou mais do que eu de nosso beijo.
-Não... não, jamais poderia gostar.
-Sei que você mente, menina.-falou sorrindo prendendo ela pela a cintura.-Sei que deseja esse beijo mais do que eu... e que foi aos céus quando toquei em seus lábios.-concluiu beijando o pescoço dela.-Negue agora se for capaz...
-Não, não posso entregar minha alma a você.-falou em desespero ao sentir que correspondia aos beijos dele.-Eu sei que irei sofrer mais tarde...
Esse era o maior medo que podia sentir nela. Jamais a faria sofrer... nunca, não intencionalmente. Não queria jamais vê-la chorar, queria apenas que ela se entregasse a seus toques sem restrição alguma, pois a amava como jamais amara nenhuma mulher em toda sua vida.
-Se em algum momento a fazer chorar pode ter certeza que não foi essa minha intenção... Jamais seria capaz de machucá-la por prazer.-sussurrou erguendo a cabeça dela até poder contemplar aqueles lindos olhos verdes.-Faço o que você quiser...é só pedir.
Ligados por um sentimento que escapava do controle de ambos se beijaram com paixão explosiva.Uma paixão proibida...sem sentido, mas irresistível. Algo que não poderia fugir, pois os seus destinos já estavam entrelaçados para sempre...Nada seria mais forte do que o desejo de ambos de se apaixonarem.
-Por quê...Por quê isso foi acontecer comigo?-sussurrou sentindo os batimentos cardíacos dele.
-Não sei Hanako, mas não a deixarei fugir de mim.-falou sorrindo.-Senão seremos infelizes para o resto de nossos dias...
Shoran andava de um lado para outro nos aposentos de Sakura. Não gostava em nada daquela demora da mulher... Já não podia mais agüentar o cinismo que ela era tratada pelo marido e juntando mais com a presença de Tao naquela reunião. Precisava falar com ela antes que explodisse em mil partículas. Antes que cometesse um desatino qualquer... antes que se entregasse por completo. A única que poderia ajudá-lo era Sakura e ninguém mais. Já não confiava em nenhuma pessoa.
Naquela mesma noite conversaria com Tao. Tinha certeza que ele sabia muito bem aonde se encontrava Hanako. Percebia isso pela a forma cínica que ele o encarava e quando sequer olhava para Sakura seus olhos já diziam que sabia muito bem de toda aquela triste história. Não saberia do que seria capaz se caso negasse a ele o direito de saber onde e com quem Hanako estava. Talvez cometesse um ato impensado.
-Shoran?-a voz melodiosa de Sakura soou no ambiente escuro.
-Estou aqui, Sakura.-disse camuflado pela a escuridão.
Ela se limitou apenas a encostar a porta enquanto andava pelo o cômodo escuro. Não podia vê-lo, mas sentia seu aroma e sua quase violenta presença em seu quarto. Seu coração batia de forma descompassada tanto que parecia sair pela a boca tamanha era sua ansiedade. Shoran estava tão sério... parecia estar aflito por um motivo que era completamente desconhecido para ela.
-O que aconteceu, meu amor?-perguntou sentando na beirada da cama.-Estou aflita por não conhecer o motivo que está o deixando tão preocupado...
-Não posso mentir para você, não é mesmo Sakura!-disse sorrindo cinicamente para si mesmo, como se zombasse de sua fraqueza, pois nunca fora homem para consegui enganar aquela mulher. Tanto que precisara fugir para negar a si próprio que a amava. Coisa que jamais ela havia feito, aliás, Sakura sempre fora melhor que ele em tudo.-Você me conhece melhor do que eu mesmo.
-Como não poderia conhecê-lo, Shoran, se tudo na minha vida desde o momento que o vi pela a primeira vez naquele bendito cais foi amá-lo.
-Talvez o melhor fosse que jamais tenhamos nos conhecido.-sussurrou se levantando da onde estava indo se sentar ao lado dela.-Ao mesmo tempo em que louvo a Deus por ter tido a graça de um dia ter sido capaz de amar e ser amado.
-Não escolhemos o nosso futuro...-falou sorrindo segurando na mão dele.-Mas mesmo depois de anos de sofrimento e privações tenho a certeza de que faria tudo novamente sem mudar uma vírgula.-concluiu pensativa.-Talvez devesse ter sido mais forte e ter lutado por você e a felicidade de nossa filha, mas era muito jovem e estava assustada com tudo e todos... teria feito diferente se fosse mais madura...
-Shhh, tudo o que você fez foi pelo o bem de Hanako.-falou impendido-a de concluir seu pensamento.-Esse assunto é muito dolorido para voltar à tona. Tanto eu como você já pagamos a pena do diabo por causa de um maldito equívoco que está custando à felicidade de nossa filha.-segurando o queixo dela prosseguiu.-Mas tenho certeza de que toda essa tempestade irá passar e seremos felizes, não como um conto de fada, mas felizes como nunca pudemos ser.
Tanto ele como ela sabiam que as feridas ainda estavam abertas. Ela ainda estava presa ao paspalhão, e ele ainda tinha laços fortes com o passado. Além de sua obrigação com Meiling e Chang. Queria ter a fé que ele tinha no futuro, mas a única pessoa que ela confiava era nele e ninguém mais. E esperava ser retribuída a mesma altura, já que a expressão preocupada não abandonava aquela face enrugada de preocupação.
-Sei que seremos felizes, mas não é isso que te atormenta Shoran.-falou passando a mão pelo o rosto dele.-Confio em você e espero que me conte o que está acontecendo com sua pessoa...
Se levantando Shoran foi até a janela quando nervosamente olhou para o céu estrelado de Pequim. Como sempre naquela hora a neblina descia e cobria toda a cidade. Deixando Pequim com ar de cidade inglesa.
-Prometi a meu tio que cuidaria de Meiling quando ele falecesse.-começou ele puxando a fina linha do passado.-Ele não confiava em Chao... Segundo meu tio Futien, era de uma personalidade fraca, e que logo seria sucumbido pela a sua ânsia pelo o poder. Eu acreditava em tudo que meu tio falava, pois conhecia muito bem como oscilava a personalidade de meu primo.-limpou a garganta.-Isso ficou mais do que certo no momento em que a revolução começou, e no modo que prosseguiu até o último dia. Ele era um guerreiro notável, mas morreu como todos os guerreiros morrem... sem ser reconhecido.-era dolorido para ele relembrar o passado, que ela sabia muito bem que fazia parte.-Eu cuidei de Meiling e do pequeno Chang como se fosse o marido e o pai, mas nunca deixei que o relacionamento fosse longe, pois ainda te amava. E estar com Meiling era como se eu estivesse te traindo. Não fiz celibatário, mas também nunca amei ou senti prazer mais do que senti por você...
-Nunca pensei que tivesse tido.-cortou ela sentindo uma ponta de dor em seu âmago. Ela ao contrário dele jamais fora capaz de se entregar a nenhum outro homem.
-Não podia tê-la a meu lado, e nenhum dinheiro que ganhava tinha mais valor. A vingança que antes necessitava para sobreviver se esvaziou. E aquela maldita casa em que nos conhecemos virou um orfanato.-falou ignorando as palavras dela.-Afastei tudo que lembrava você e sua presença, mas assim que fui ver minhas irmãs percebi que a amava, mais do que tudo... e que a havia perdido. A parti daí fiz de tudo por Chang e consegui ser um bom tio até há dias atrás quando ele exigiu e teve sua liberdade.-fez uma pausa significativa.-Pensava que já sabia de todas as atrocidades de Meiling, mas a verdade era que não sabia nenhuma vírgula. Ela escondeu de mim que Chao tinha um filho e que esse filho estava em minha casa como empregado.-concluiu escondendo o rosto entre as mãos.-Ela foi capaz de negar ao filho de seu marido o direito que lhe era cabível. Agora fico pensando em quanto eu fui injusto por...
-Shhh... você não foi injusto, Shoran.-falou sentando ao lado dele.-Você nem ao menos sabia da existência desse garoto até esse momento.
Não era novidade alguma para ela saber que Meiling escondera de Shoran aquele fato. Vindo dela se podia esperar algo até mesmo pior... Mas não gostava em nada da forma que Shoran encarava aquela série de acontecimentos. Ele parecia tão aflito e ansioso... Como queria ter o poder de fazê-lo sorrir, mas infelizmente não tinha essa força. A única coisa que tinha a fazer era dar o apoio a ele... e nada mais.
-Fui injusto sim, Sakura. Não posso ter a culpa que Meiling tem...aliás, não a mais quero em minha casa. Já não confio mais em uma mulher que apenas me enganou durante anos.-falou amargurado.-Só espero que não seja tarde demais agora para procurar esse garoto.
-Olhe para mim Shoran.-disse erguendo o rosto dele entre as mãos. Só se deu por vencida quando ele a olhou nos seus olhos com ternura.-Estou aqui para apóiá-lo em todas as decisões de sua vida, pois o amo como jamais seria capaz de amar outro homem em minha vida.
Shoran se limitou a beijá-la com carinho e gratidão. Sakura era a mulher que sempre necessitara a seu lado, e fora a única que mandara embora infindáveis vezes. Mas agora ela estava junto de si para sempre e nada mais iria separá-los. Contaria com o apoio dela...
-Parabéns Titio, ou melhor, senhor Shoran Li.-a voz masculina chamou a atenção do casal.-Bela história, mas acredita que não confio em nenhuma palavra do senhor. Aliás, a sua ignorância não justifica seus atos...
