Capítulo 36 - As Palavras

Estava escuro no momento em que cheguei em casa; a casa lançada em um azul misterioso da luz da lua, com apenas um único respingo de luz branca sob o feixe dos meus faróis. À minha esquerda, o solitário e bem vindo carro prata. À minha frente eu podia ver uma única janela iluminada, como um quadrado de luz.

O resto da casa estava intacto, as salas negras e em silêncio e esperando por mim.

Elas não eram as únicas.

Eu sabia que ele estaria na casa antes de eu estacionar na entrada de automóveis.

Ainda assim, minhas mãos tremeram quando eu liberei o volante da caminhonete. Deixei cair minhas chaves quando eu estava saindo e me atrapalhei com elas brevemente na mão e joelho e no chão. Uma energia nervosa corria através de mim enquanto eu subia as escadas da varanda, tentando colocar cada passo na madeira o mais silenciosamente possível. Empurrei a porta da frente aberta e recuei para longe do rangido.

Então eu estava parada na porta da cozinha e eu não estava nervosa.

Edward estava no fogão, mangas enroladas até os cotovelos, o cabelo bagunçado e a testa suada, olhando fixamente para a panela que ele estava mexendo em um movimento lento e hipnótico. Ele não percebeu quando entrei na leve luz da sala, absorto e inacessível. Um cheiro exótico permeava o ar, um que eu reconheci, mas não consegui identificar.

Não quando eu estava olhando para ele.

Tão relaxado. Tão calmo.

Todo medo e insegurança, cada tremor e nó na garganta se foi no instante em que meus olhos caíram sobre ele. Havia um silêncio em torno dele, na maneira como ele tinha me segurado e às minhas lágrimas mais cedo, silenciosamente acariciando meu cabelo, que havia permanecido no caminho em que ele tinha conduzido até aqui, em como ele tinha feito uma refeição para nós, na forma como ele estava parado ao lado do fogão, não percebendo nada além do movimento das suas mãos.

"Você fez o jantar." As palavras saíram da minha boca antes que eu pudesse detê-las, antes que eu pudesse evitar que a minha voz quebrasse o silêncio. A frase não era incrédula ou acusadora ou questionadora. Parada do outro lado da cozinha, afirmando o fato de que poderíamos ouvir o peso das nossas palavras.

A cabeça de Edward se virou ao som da minha voz, seus olhos arregalando por um momento quando eles caíram sobre mim. Eu podia ver sua expressão, cautelosa e pensativa, tentando decifrar a minha própria. Como se ele tivesse assumido que ele poderia estar aqui - que ele deveria estar aqui - e agora, de frente com a realidade, ele foi forçado a questionar suas ações.

Agora eu estava relaxada. Agora eu estava calma.

Ele viu isso em um instante.

Eu o assisti relaxar somente uma fração, afastando-se de mim com relutância e olhando novamente para baixo na panela equilibrada sobre a chama.

Calmamente, ele respondeu. "Eu não sei qual é a sua refeição preferida".

"Você quis fazer a minha refeição preferida?"

Ele ficou em silêncio.

Eu sorri para ele – suave e reconfortante - e fui até o fogão.

Ele deu um pequeno passo para trás, dando-me espaço.

Eu olhei.

"Isso é adorável." Eu disse a ele, olhando para o cordeiro Korma* e o pequeno pote de arroz.

*Cordeiro cortado em cubos e feito com molho de creme de leite.

Olhei novamente para ele, encarando e olhando e forçando o contato. Edward piscou para mim por um momento, como se ele estivesse esperando uma reação muito diferente.

"Você sempre comia algo diferente quando saíamos." Ele disse finalmente, com um encolher de ombros. Eu podia vê-lo tentando um pequeno sorriso, esperando apreensivo. "Você era completamente imprevisível".

"Eu não tinha um favorito." Respondi, meus olhos se estreitando, fechando a expressão. Senti-me ficar rígida. "Ainda não tenho. Ainda estou procurando".

O sorriso de Edward cresceu um pouco e ele acenou com a cabeça, como se as minhas palavras tivessem mais importância do que eu percebi.

Ele pensou que eu não podia ver.

Eu arqueei uma sobrancelha para ele, dando um passo para trás e me encostando ao balcão. Meu quadril pressionado contra a pedra fria, aterrando em mim quando eu cruzei os braços sobre meu peito e o encarei. Meu queixo ligeiramente inclinado para cima. Desafiando-o a recuar.

"Obrigada por ter feito tudo isso, Edward." Eu disse cordialmente, apontando para o fogão. "Isso é..."

"De nada." Ele disse rapidamente, interrompendo e desviando o olhar.

Observei seu foco mudar rapidamente de volta para a refeição que ele estava fazendo, evitando meus olhos.

Meu peito agitou e cerrou com a diferença nele, não realmente entendendo isso. Ele havia sido cruel e calmo e distante, ele tinha sido hesitante e apologético e calmante, ele tinha sido gentil e útil e contemplativo. Ele tinha se tornado a encarnação de tudo o que era inesperado na minha vida nos últimos meses. Ele tinha sido uma fonte de medo e de conforto. Sempre na vanguarda em minha mente e reforçando em minha face. Raiva rápida e confiança fácil.

Tudo isso tinha ido embora quando eu o beijei.

E agora ele dançava em volta de mim, ainda mais evasivo, ainda mais fechado. Com medo do que eu poderia fazer ou dizer. E cada centímetro do seu corpo sugeria que ele estava aqui apenas porque ele tinha se obrigado a estar aqui, parado diante de mim. Assim como ele tinha quando nos conhecemos.

"Por que você está aqui?" Perguntei a ele, minha voz calma, pensando e desejando que ele se recusasse a olhar novamente para mim.

Edward hesitou por apenas um momento antes de chegar até o outro lado do fogão e puxar uma tigela vazia para ele. Ele começou a escavar o cordeiro lentamente, sem pressa, arrastando-o para fora. Ele tomou uma respiração profunda através do movimento constante. "Eu pensei que nós poderíamos conversar..." Ele disse suavemente, sua voz sumindo.

"Você quer conversar comigo?" Minhas sobrancelhas subiram incrédulas. Senti um aperto apreensivo no fundo do meu estômago, esperança e nervos torcendo juntos dentro de mim. "Sobre o quê?"

Edward passou a mão pelos cabelos, seu dedo apertando e pegando em torno dos fios bronzes, puxando e alisando enquanto ele considerava as palavras seguintes.

Elas não foram o que eu esperava.

"Os papéis do divórcio estavam na mesa da cozinha quando cheguei aqui." Ele disse-me logo. Meus olhos seguiram os seus quando eles correram para a mesa vazia por um instante, antes de voltarem para o fogão. Senti um choque de pânico, imaginando onde eles estavam, e depois o constrangimento de ele vê-los ali; uma evidência de noites sem dormir. Eu não consegui ficar constrangida por muito tempo, no entanto. Sua voz foi muito baixa, seus ombros apoiados.

Ele parecia tão, tão triste.

Minha boca estava seca de repente. "Oh".

"Eu odeio que isso a tenha machucado tanto." Ele exalou, cada palavra deliberada, soprosa. Precisando que eu o ouvisse. "Que eu tenha te machucado tanto".

Balancei minha cabeça, não querendo ouvi-lo pedir desculpas por mais uma coisa. Um milhão de vezes, mais e mais. Todos os dias e com toda expressão angustiada. "Não é culpa sua".

"Bella..."

"Não." Eu fui aquela a interromper desta vez, minha voz aguda e inflexível. "Eu entendo por que você os deu a mim; de onde eles vieram; o que... o que eles significam." Engoli em seco e respirei. "Eu apenas não estou pronta".

Eu vi Edward se mover para mais perto de mim. Ele não deu um passo - foi apenas um movimento - mas eu vi. Eu senti. Ele estava inclinado para mim, como se ele estivesse tentando me ouvir melhor. Como se ficar mais perto de mim lhe trouxesse mais perto da verdade.

"Não está pronta para quê?" Ele queria saber.

"Para nada disso." Respondi com um encolher de ombros, segurando meus braços para fora, impotente, rendida. "Para a independência e a auto-suficiência e a mudança e o trabalho e..." Eu parei, balançando a cabeça quando quebrei o meu olhar do dele, ignorando as picadas afiadas no fundo dos meus olhos.

Edward não disse nada por um longo momento.

Então eu o senti perto de mim, senti o leve calor da sua mão contra o meu braço. Não segurando, apenas pressionando. "Mas você está pronta." Sua voz estava mais forte agora, desafiando-me a ouvir. "Você já está fazendo essas coisas".

Olhei de volta para ele.

Ele queria ouvir, então eu diria a ele.

"Eu não estou pronta para perder você".

Edward piscou uma, duas, três vezes.

Então ele sorriu para mim suavemente. "Eu não vou magicamente desaparecer da face da terra se você assiná-los." Ele me disse, seu tom visivelmente relaxado.

"Então o que vai acontecer?" Eu queria saber.

"Eu gostaria de conhecê-la." Ele respondeu. "A verdadeira você".

Eu hesitei.

"Eu não tenho certeza se estou pronta para isso também".


"Você está acordada?"

"Eu estou agora. O que você está fazendo?"

"Apenas conversando com ela".

"É uma menina agora?"

"Sim. E ela é exatamente como você".

"Como você sabe como ela é?"

"Ela me disse. Ela é muito descritiva, ela tem um jeito com as palavras. Ela será uma poetisa um dia".

"Você é um idiota".

"Um idiota feliz".

"Você acha que pode se afastar um pouco do meu estômago? Está quente aqui".

"Você está bem?"

"Eu estou bem. Só estamos... em uma ilha tropical. Há muito calor humano nessa cama".

"Sinto muito. Eu estou apenas... é como se eu não conseguisse parar de tocar em você. E eu realmente não tenho mais que parar. Isso tudo parece tão surreal".

"Sim. Sim, certamente parece".

"Diga-me que você está tão feliz como eu estou agora".

"Eu vou tomar um banho".

"Bella, algo está errado?"

"O que poderia haver de errado?"


No fim de semana seguinte, Edward me ligou e, com a minha permissão, veio trabalhar na casa em um cinzento e nublado sábado. Quando ele estacionou na garagem, eu estava esperando por ele com a chuva; pequenas gotas caindo a cada minuto, ou algo assim, cuspindo em minha pele lenta e esporadicamente.

Nós mal nos cumprimentamos, sabendo que estávamos com pouco tempo com o clima que se aproximava. Trabalhamos de forma rápida e consciente, esperando a chuva bater e determinados a obter o máximo que pudéssemos fazer antes de sermos forçados a recuar. Nós pintamos o telhado e o piso da varanda, as grades e colunas com golpes de sorte. O silêncio era pesado no ar, espesso contra a umidade do dia.

Não havia tensão.

O dia terminou com o nosso cansaço no final da tarde, apenas uma palavra sendo falada entre nós, a chuva nunca caindo.

"Quer dar uma caminhada?" Edward perguntou-me de repente, quando eu estava recolhendo os pincéis na lona. Olhei para ele - tão suja e tão cansada como eu estava – e sorri.

"Claro".

Nós nos afastamos da casa, do nosso trabalho, para a noite cinzenta.

A grama estava molhada da umidade no ar, e ela ficou presa em nossos sapatos quando estávamos atravessando o campo, no lado oeste da casa. Minha camisa fina estava úmida de suor e não fez nada para me impedir de sentir cada rajada de vento quente que despertou a minha pele. Eu caminhava ao lado de Edward, deixando-o me levar por um caminho que eu nunca tinha feito antes. A terra não familiar ficou com a grama menos verde e mais cheia de pedras, enquanto continuamos a nos afastar da casa da fazenda.

"Você sabe." Edward disse abruptamente, sua voz calma e contemplativa, o silêncio quebrando o sentimento natural ao invés de forçá-lo. "Se nós realmente nos empenharmos, provavelmente poderíamos terminar a pintura da casa no fim de semana seguinte".

Mordi meu lábio. "Estou programada para trabalhar no próximo sábado".

Automaticamente, meus olhos procuraram os seus para uma reação, por algum sinal de aborrecimento que sempre parecia aparecer quando eu mencionava o meu trabalho.

Seu rosto estava impassível.

"Eu entendo." Ele disse com um aceno.

"Mas talvez no domingo?" Eu corrigi rapidamente.

Edward se virou para mim, um canto da boca curvando para cima minuciosamente. "Talvez".

Andamos mais um pouco, finalmente parando quando chegamos a um pequeno riacho cortando a terra como uma veia de sangue, a água negra contra as nuvens escuras do dia. Edward ficou na borda, olhando para baixo na água, pensativo e quieto mais uma vez. Debrucei-me contra uma rocha próxima, sentindo meus braços ainda formigando de dor.

"O que vai acontecer quando terminarmos?" Perguntei a Edward então, finalmente dando voz a uma pergunta que esteve me perturbando por dias.

Edward se virou para mim.

"O que você quer dizer?" Ele perguntou, parecendo curioso.

Dei de ombros e olhei para as minhas mãos, entrelaçando-as no meu colo em torções lentas e dobrando os dedos. Respirei fundo e disse baixinho, "Nós nunca mais vamos nos ver".

"Isso não é verdade." Edward disse imediatamente, tão rápido que meus olhos lançaram aos dele automaticamente. Ele virou todo o seu corpo ao redor para encarar-me agora, de costas para a água, a sua total atenção treinada quente e dura no meu rosto. Ele continuou com um aceno de mão, "Eu posso vir a qualquer hora. Você pode vir para a cidade".

"Eu sei." Garanti a ele, sentindo-me tola. "É só que..." Eu parei, não tendo certeza de como a frase seria, sem saber o que eu deveria ou não deveria dizer a ele.

Depois de uma pausa, Edward acenou com a compreensão. "Vai alterar o contexto." Ele terminou para mim.

Dei de ombros novamente. "Algo como isso".

De repente, Edward estava bem na minha frente, seu rosto a centímetros do meu, suas mãos planas contra a rocha de cada lado do meu quadril, e todo o seu corpo curvado sobre o meu, a respiração quente e mais úmida na minha pele, com cuidado para não fazer contato.

"Eu quero ver você." Edward disse lentamente, sua voz profunda e sincera. Implorando, incitando, obrigando-me a acreditar nele. "Eu quero falar com você. Eu quero passar mais tempo com você sem a casa como uma desculpa ou uma distração." Então ele estava recostado, de pé novamente e cruzando os braços na frente do peito, levantando uma sobrancelha para mim. "Como isso fica no contexto?"

Engoli, querendo que meu batimento cardíaco abrandasse, que meu coração não explodisse em meu peito. "Ok".

Edward sorriu um pouco com a minha resposta fraca.

"Bella, nós temos que começar a ser honestos um com o outro." Ele me disse, sua expressão perdendo sua diversão, de repente sério e implorando. "Se você quiser me ver, é só ligar".

Meu coração ainda estava batendo alto no peito enquanto eu imaginava: ser capaz de ligar para Edward no telefone, convidá-lo, passar tempo com ele, sem dúvidas ou inquietação. Eu poderia pegar o telefone como eu costumava fazer e exigir a sua presença e ele apareceria, o tempo todo. Seríamos casuais e amigáveis e falaríamos sobre nossas vidas e nossos pensamentos. Nós riríamos e nos aproximaríamos e às vezes ele beijaria a minha bochecha. Nada seria tão fácil.

Eu balancei minha cabeça. "Não é tão simples como você faz parecer".

"Por que não?" Edward perguntou, seus olhos fogosos e teimosos.

Olhei de volta para ele, impotente, assistindo a capacidade de otimismo que ele sempre teve - que eu tinha perdido tão rapidamente da minha vida, erradicada desde a infância. Inveja e medo. Nenhum de nós tinha esquecido como chegamos até aqui, não importava quantas vezes nós tentássemos. Desculpas atrás de desculpas, perdão atrás de perdão, e isso não poderia ser apagado.

Imaginar isso não o tornava real.

"Você diz que quer que eu seja honesta, mas há algumas coisas que eu simplesmente não sei se posso dizer a você." Eu disse a ele calmamente. "E há coisas que eu sei que você não quer ouvir".

"Eu quero ouvir tudo." Fiquei surpresa pela intensidade das suas palavras.

"Não, você não quer".

As imagens passaram diante dos meus olhos, batendo e queimando em minha mente até que eu queria gritar de frustração; de futilidade.

Seus olhos tristes e agoniados observando-me com Jacob.

Seus ombros caídos e com medo na viagem de avião para Nova York.

Sua cabeça balançando e girando com meu dedo apontando para o seu peito.

Sua voz forte e selvagem seguindo-me para fora na neve.

Suas mãos firmes e fortes me empurrando para longe.

A última imagem tão fresca que eu ainda podia sentir isso em meus lábios, recusando-me a esquecer; a colocá-la de lado.

"Diga-me por que você me beijou, Bella".

"Eu... você..." Eu balbuciei, choque e confusão, constrangimento e nervosismo, roubando a minha voz, acabando com a minha compostura. "O quê?"

Por um momento, eu pensei que tinha imaginado a sua voz, falando as últimas palavras que eu já esperava que ele dissesse para mim. As palavras que significavam que ele podia ler a minha mente, ver em meus pensamentos. As palavras que estavam profundas e atingindo em meu cérebro - saltos escavados na terra - que ele evitaria dizer a todo custo. Mas depois eu vi seus olhos, duros e firmes no meu rosto; esperando com uma paciência constante, como um homem prestes a ser executado - eu vi e eu sabia que eu não tinha imaginado nada.

"Diga-me." Ele disse novamente, uma ordem. "E diga-me honestamente".

Imediatamente, pensei em todas as razões que eu tinha conjurado assim que aquilo tinha acontecido, desde que eu o havia beijado. Todas as promessas de paixão e amor que eu sussurrei para mim mesma à noite, minhas mãos trêmulas em torno dos papéis do divórcio. Todas as maneiras que eu tinha mudado, que eu havia me tornado alguém digna do seu amor, e que ele sempre foi alguém digno do meu. Todas as diferenças que eu tinha visto nele, a força e compaixão que eu tinha ignorado; sendo cega demais e quebrada para ver.

Eu sonhei com esta oportunidade de dizer a ele, de explicar a ele, de fazê-lo ver o que ele significava para mim.

Diga-me honestamente.

"Eu queria".

No momento em que as palavras saíram da minha boca, eu sabia que elas eram verdadeiras.

Eu sabia que elas eram mais verdadeiras do que qualquer outra razão que eu tinha calculado e medido para dizer. Eu o tinha beijado naquela noite de tristeza e frustração e ciúmes e admiração, confusa e impulsiva contra seus lábios. Eu não tinha planejado isso, não tinha pensado nisso, ou sonhado com isso, naquele momento, foi o certo. Não planejado e espontâneo. E quando ele tinha me empurrado, tudo que eu tinha sentido foi a rejeição; amarga, queimando e instintiva. Foi familiar e assustadora. Eu não havia pensado nele, só em mim. Quando ele falou comigo depois, ainda havia aquela batida no meu cérebro, abafando suas palavras com um mantra: ele não quer você.

Eu tinha passado todo o meu tempo pensando sobre a reação ao invés da razão.

Eu não posso acreditar que estamos aqui novamente.

Ele não quer você.

Você estava presa a mim da maneira que eu costumava me sentir preso a você.

Ele não quer você.

Eu quero ver você feliz...

Ele não quer você.

Naquela noite, eu não tinha sido capaz de ouvi-lo.

Mas eu o ouvi agora.

Honesto comigo, e tudo que eu podia ouvir eram as suas palavras, girando e gritando na minha cabeça.

E eu entendi.

Senti uma pequena dor no meu peito quando percebi que - apesar de todos os nossos meses aqui, apesar de todas as maneiras que a minha opinião tinha mudado, apesar do fato de que ele tinha sido aquele a me afastar - aquele beijo tinha ainda significado mais para ele do que já tinha para mim.

Edward estava sorrindo.

"Viu? Isso não foi tão difícil, foi?"


"Pedi o café da manhã. Para três".

"Fofo, Edward".

"Seu banho foi refrescante?"

"Sim, foi".

"Então, o que você gostaria de fazer hoje?"

"Eu não sei. Talvez elevar meus tornozelos. Tirar uma soneca. Comer quantidades inadequadas de comida".

"Eu sou a favor de ficarmos grudadinhos. Temos bastante tempo para explorar a ilha mais tarde".

"Ei, saia. Eu não queria ficar aqui para... isso".

"É a nossa lua de mel, Bella".

"Sim, e eu estou uma baleia".

"Você está linda. Eu lhe disse ontem à noite e eu vou te dizer isso pelo resto das nossas vidas".

"Dê um tempo, Edward".

"Dar um tempo?"

"De todos esses elogios constantes. Você ganhou, ok? Você conseguiu a garota".

"Eu ganhei? Bella, eu não sabia que havia um concurso acontecendo".

"Oh, não finja ser tão ingênuo. Eu não sou. Não há necessidade de continuar com esses cortejos nauseantes".

"Isso... eu não estou cortejando você. Eu estou apaixonado por você. Você é a minha esposa. Você está carregando o nosso filho".

"Não é nosso filho".

"Bella..."

"Só... pare, ok?"

"Bella, eu te amo. Por favor, por que você não me deixa simplesmente entrar?"


"Eu quero apresentá-lo a alguém".

Eu podia sentir meu rosto inteiro se iluminando, subindo e puxando para o lado em um pequeno sorriso que era quase uma risada enquanto eu olhava para Edward do lado de fora da porta do celeiro. Ele estava olhando para mim, as sobrancelhas levantadas, os braços cruzados sobre o peito. Encostei-me ao lado da tenda, o forcado apoiado ao meu lado, descansando contra as minhas costelas. Eu tinha acabado de começar a limpar as barracas dos cavalos quando Edward me ligou, dizendo-me que estava a caminho de Hartsel para passar o dia.

Eu estava na metade do cálculo se eu podia ou não terminar todas as barracas, correr de volta para a casa, tomar banho e estar pronta para encontrá-lo quando tive uma ideia interrompendo meus pensamentos e diminuindo meus movimentos.

Eu disse a ele para me encontrar no celeiro.

"É mesmo?" Edward respondeu com uma curiosidade óbvia. "Quem?"

Meu sorriso se transformou quase imediatamente, um sorriso tão largo e genuíno que estava pressionando dolorosamente em meu rosto. Empurrei o forcado para longe de mim, inclinando-me contra a parede à minha esquerda, quando dei um passo para fora da barraca e para Edward.

"Venha comigo." Eu disse quando passei por ele, agarrando sua mão instintivamente e o puxando ao longo do caminho enquanto eu caminhava para fora da sombra do celeiro e para o sol brilhante do meio-dia.

Eu o senti atrás de mim, seguindo-me sem resistência ou hesitação. Seus dedos se enrolaram ao redor da minha mão calorosamente, a pressão agradável vibrando do seu pulso para o meu. Seus passos me acompanharam facilmente, sem esforço, deixando-me levá-lo ao redor do lado do celeiro para o campo grande e cercado. Tentei não pensar enquanto eu estava segurando a respiração, sentindo sua pele na minha pele. Em vez disso, eu o imaginava sorrindo para as minhas costas.

Quando chegamos ao campo cercado minha mão caiu de volta ao meu lado, sua mão caindo de volta para o seu lado. E então ele estava parado em meu ombro, olhando para mim, ainda curioso. Seu sorriso era torto.

Com apenas uma pausa momentânea e um olhar significativo, indicando que ele devia seguir, eu abaixei debaixo do trilho superior da cerca, deslizando entre as ripas de madeira com uma facilidade praticada.

Meu coração bateu um pouco mais forte contra a parede do meu peito e eu caminhei até o grande cavalo vermelho que pastava calmamente, ignorando todo o resto ao seu redor com os dentes arrancando gramas e trevos. Por alguma razão inexplicável, senti uma súbita apreensão, fria e assustadora, produzindo no meu estômago. Eu sabia que Edward tinha me seguido silenciosamente, e eu coloquei minha mão levemente sobre o pescoço cobre de Santana para me equilibrar. Era toda uma intensidade elétrica de pé entre os dois.

Com uma respiração profunda, eu me virei para o rosto do meu marido, que estava olhando para os meus pés, seus olhos treinados sobre a grande cabeça que estava lentamente enrolando ao redor dos meus tornozelos para pegar a grama do outro lado de mim.

Não importa onde eu estava, esse cavalo sempre precisava comer a grama próxima do meu pé. Agora.

Eu sorri, confortada pelo gesto familiar.

Então eu bati de leve contra o músculo do seu pescoço firme sob meus dedos. "Este é Santana".

Edward olhou para mim, nada além de diversão em seu rosto agora.

"Nós já nos encontramos antes." Ele lembrou-me antes de olhar de volta para o cavalo. "Olá, Santana." Ele o saudou, fazendo-me rir.

Santana, ao invés de olhar para cima, deu algo entre uma bufada e um espirro. Eu ri quando o ar quente inundou minhas pernas. Ele, então, se moveu, afastando-se de nós um pouco. Minha mão caiu para longe dele, relutantemente, permitindo a distância.

Edward encolheu os ombros, seu rosto apologético. "Eu não acho que ele goste muito de mim".

"Oh, ele gosta muito de você." Respondi, revirando os olhos. Fiz um gesto para Edward ir para a frente e agarrei sua mão mais uma vez, desta vez a colocando contra a pele morna das costas do Santana. "Você deveria ter visto os olhares sujos que ele costumava dar para mim".

Desta vez, o cavalo levantou a cabeça e a girou ao redor para olhar para nós, curioso agora que havia duas pessoas perto o suficiente para tocá-lo. Eu segurei minha mão para ele, sorrindo quando ele pressionou seu nariz na minha palma da mão e soltou ligeiramente a cabeça para que eu pudesse chegar a seus ouvidos.

"Parece que ele gosta de você agora." Edward comentou.

Quando eu virei para ele, ele estava olhando incisivamente entre Santana e minha própria mão estendida, arranhando suavemente nas orelhas macias e em seu topete de seda.

"Oh, ele apenas me tolera porque sabe que eu o adoro." Eu disse com um sorriso, em seguida acrescentando, "E que eu o alimento".

Edward riu um pouco com isso, seus olhos fixos em sua própria mão enquanto a arrastava suavemente ao longo do lado de Santana, com cuidado de mover-se com o padrão do cabelo.

Mordi o lábio enquanto observava sua mão, meu rosto ruborizando de uma violenta cor cereja enquanto eu me lembrava do mesmo movimento suave e lento contra o meu próprio corpo; contra a minha pele. A carícia de satisfazer uma curiosidade, de aprender e saber e contornar. Eu o observei - perturbado e envergonhado - enquanto ele tentava aprender sobre o corpo de Santana com toda a atenção dedicada de um cientista.

Da mesma forma que ele costumava tentar aprender sobre cada centímetro do meu.

"Então, você monta?"

Fui sacudida do meu devaneio pela sua voz e pelo medo de que ele fosse capaz de ler a expressão no meu rosto. Em vez disso, quando olhei para ele, vi que ele ainda não estava olhando para mim. Seu rosto estava calmo e suave, toda a atenção ainda sobre o cavalo ou sobre a questão e o medo sutil da minha resposta.

"Não nele." Eu disse a ele fracamente, ainda cativada enquanto eu observava a dança dos dedos de Edward do outro lado da linha suave da coluna de Santana, parando no lugar onde as pessoas se sentavam. Limpei minha garganta um pouco e continuei: "Eu monto o Dash. Ele é de Jasper, ali." Fiz um gesto para o campo. "E o Dollar. Ele era..."

Parei de repente, as minhas palavras sendo travadas, morrendo na minha garganta.

Edward se virou para mim, com os olhos presos nos meus, cheios de uma intensa pergunta; um jade exigente.

Ele inclinou a cabeça ligeiramente, arqueando uma sobrancelha.

"Ele era o quê?" Ele queria saber.

Engoli contra o meu medo, lembrando-me de que tudo era diferente.

Éramos honestos agora.

E então eu disse a ele, "Ele era de Carlisle".

A mão de Edward imediatamente caiu ao lado de Santana e ele virou o corpo inteiro para me encarar em um movimento tão suave e abrupto que eu mal vi. Seu rosto estava limpo de toda a expressão, mesmo que seus olhos não houvessem se movido dos meus e estivessem completamente ilegíveis agora.

Ele estava segurando tudo o que ele não queria liberar, tudo o que ele não queria me mostrar.

Ele estava segurando sua respiração.

Sem dizer uma palavra, eu me virei e caminhei lentamente através da grama, meus passos medidos e pesados, como uma procissão. Meus pés me levaram para o rápido cavalo preto, forte e ágil, apenas alguns centímetros mais baixo do que Santana. Músculos arredondados e poderosos nos ângulos e nas linhas de Santana.

Ouvi Edward me seguindo, compreendendo para onde eu o estava levando.

Parei na frente do cavalo, observando quando Edward passou por mim. Ele ficou imóvel por um longo tempo antes de erguer a mão, passá-la a centímetros acima do corpo forte e negro antes de se instalar em um ombro carvão, músculos tensos e tremendo debaixo de dedos muito leves.

"Como ele é?" Edward me perguntou, sua voz calma e muito diferente.

Eu dei um passo à frente para que estivéssemos ombro a ombro mais uma vez, sua pergunta foi um convite.

"Ele é muito esperto." Eu disse, minhas palavras um pouco mais que um sussurro, mas fortes, forçando Edward a ouvir, sabendo o que isso significava para ele. "Mais esperto do que eu sou." Adicionei com um pequeno sorriso. A cabeça de Edward se virou para mim um pouco, apenas se inclinando no menor dos movimentos, seus olhos ainda fixos na tinta preta na frente dele. Eu continuei, "Ele é tranquilo e tem um bom coração, mas ele me permite saber quando eu cometi um erro. E como eu sou inexperiente e desequilibrada, ele nunca me deixa cair".

Edward ficou em silêncio.

Então, "Ele parece com o meu pai".

Eu senti uma dor aguda, a dor de sentir a morte de Carlisle novamente através dos olhos do seu filho: através da sensação do seu cavalo debaixo de mim e do seu primogênito ao meu lado. Na casa que estávamos tão perto de terminar. O legado do homem que era tudo para esta terra, para estas pessoas. O arrependimento e a culpa e a angústia de nunca tê-lo conhecido, de sempre deixar tudo ficar no caminho, afastando-me dele.

"Alice diz que o cavalo é o espelho do seu dono." Sussurrei, mal capaz de fazer as palavras saírem estáveis.

Então os olhos de Edward estavam em mim, olhando para mim com uma emoção que eu não reconheci. Insegura, estendi a mão e toquei meus dedos levemente em seu ombro, arrastando-os para baixo ao longo do seu braço. Eu não sabia se era para confortá-lo, ou a mim, mas, por um momento, isso não importou muito. Senti o calor através do algodão e dos seus olhos infinitamente suaves.

"Você gostaria de cavalgar com a gente algum dia?" Perguntei a ele, minha mão contra as costas da sua mão.

Ele não se moveu para entrelaçar nossos dedos. Ele não se afastou.

"Isso seria bom".


"Eu não quero discutir com você, Edward".

"Discutir? Eu não estou discutindo. Eu só quis dizer..."

"Eu apenas não estou com vontade de falar sobre como eu sou bonita, ou o quanto você me ama agora, ok? Então, apenas se afaste".

"Afastar? Bella, o que está errado?"

"Nada está errado. Eu estou apenas... eu estou exausta".

"Sinto muito. Eu sei que a noite passada foi... nós provavelmente ficamos um pouco mais do que... na sua condição..."

"Eu não estou falando de sexo, Edward. Eu estou apenas... eu estou cansada de tudo isso".

"Tudo o que?"

"Eu me sinto como se eu estivesse sufocando".

"Bella, eu nunca quis..."

"Eu sei. Eu sei disso, Edward. Você nunca quer fazer nada".

"Por favor, Bella, me diga o que está errado".

"Nada. Provavelmente são só os hormônios".

"Eu nunca quero fazer nada para fazer você pensar que eu não te amo. Ou que você tem que... batalhar por esse amor; que você tem que merecê-lo de alguma forma. Eu sempre te amarei, com tudo de mim, incondicionalmente. Você não precisa ter medo de que eu vá deixar você. Eu não sou ele. Eu nunca vou parar de te amar. Nunca".

"Acredite em mim, eu sei exatamente o quanto eu estou presa a você".


"Essa comida está verdadeiramente repugnante." Meu rosto comprimiu em desgosto quando eu coloquei o hambúrguer de volta no prato, o pão encharcado e ketchup escorrendo. "Eu não sei por que eu concordei com isso".

Edward estava sorrindo para mim do outro lado da mesa. Eu não achava que, depois de tudo o que tínhamos passado no último ano, eu alguma vez não ficaria doente de vê-lo sorrir.

"Sinto muito." Ele disse, sem parecer muito arrependido. Ao contrário, ele parecia incrivelmente divertido. "Eu não fiz promessas sobre a qualidade da comida. Se você tivesse vindo para o hospital, a comida teria sido muito mais agradável".

"Comida de Hospital é mais agradável do que comida de clínica?" Perguntei com uma sobrancelha arqueada, mordiscando uma batata frita de maneira hesitante.

Edward acenou com a cabeça. "Sem dúvida".

"Bem, eu certamente me sinto enganada".

"Olhe pelo lado positivo, a clínica é muito mais interessante em outras áreas, fora a cafeteria".

Revirei os olhos. "Sim, mas eu não estou autorizada a ver essas áreas interessantes, estou?"

"Bem... não." A resposta de Edward foi rir e encolher os ombros. "Tem as questões de Confidencialidade e tudo mais".

Eu joguei uma batata frita nele.

Tinha passado mais de uma semana desde que tínhamos adicionado os toques finais ao exterior da casa, o clima quente e agradável fez meu sangue ferver no curso de uma única semana. A mudança em junho, e a fluência estável de julho nos deixou suando e gemendo e bebendo baldes de água, tentando desesperadamente terminar o que tínhamos começado no fim da primavera.

Dez dias depois de ter dirigido para longe de mim em Hartsel, e da casa branca e do seu novo brilho, sem qualquer garantia do seu retorno, liguei para ele e o convidei para me encontrar na cidade. Eu lhe disse que, já que eu tinha lhe apresentado os cavalos, o mínimo que ele poderia fazer era me apresentar aos seus colegas de trabalho. A verdade era que eu estava desesperadamente curiosa sobre o seu trabalho. E me encontrei honestamente admitindo que eu simplesmente sentia falta dele.

Minhas reflexões foram interrompidas por Edward pigarreando, olhando para mim com expectativa. A pequena sugestão de humor não tinha sido apagada do seu rosto completamente, ele parecia estar à beira de rir de mim.

"O quê?" Eu perguntei, quando percebi que ele tinha falado comigo.

"Perguntei-lhe como tem ido o trabalho." Edward repetiu lentamente, um sorriso seguindo seus olhos.

Eu hesitei, procurando algum tipo de hostilidade ou pauta, ou alguma resistência que eu costumava ver quando eu mencionava a loja... ou Mike.

Vi apenas algo como paciência.

"Tudo bem. Bom. Eu gosto." Eu gaguejei palavra após palavra, estranha e rápida. Depois de alguns segundos eu achei que eu não podia evitar explicar. "Há tanta coisa que eu não sei, sobre tudo. Eu não acho que isso é o que eu vou fazer para sempre, mas eu amo o trabalho. A aprendizagem é divertida."

Ao meu entusiasmo, o rosto de Edward perdeu a expressão.

"Estou feliz." Foi sua resposta curta. Ele parecia sincero, atencioso, mas de algum modo afetado.

"Por que você agiu de modo estranho quando você descobriu?" Perguntei a ele de repente, todo o meu corpo deslocando para a frente em atenção. Eu já não sentia medo de perguntar, e eu não consegui conter a curiosidade. "Sobre o trabalho." Esclareci com a sua confusão. "Foi apenas Mike, ou...?"

"Não foi Mike." Edward disse rapidamente, sua voz calma e eu não achei que ele estivesse mentindo. "Ele está... muito diferente de quando eu o conheci. Ele parece ter amadurecido muito. Ele se transformou em uma pessoa muito legal, eu acho".

Suas palavras foram um pouco hesitantes, como se ele não tivesse certeza, como se ele precisasse convencer a si mesmo enquanto ele as dizia.

Seu rosto estava contemplativo, porém, como alguém que vê uma verdade pela primeira vez.

"Então, o que era?" Eu queria saber.

"Não foi nada." Edward respondeu com um encolher de ombros. "Eu fiquei apenas... surpreso".

"E agora?"

"Agora?"

Cruzei os braços, não querendo deixar isso de lado. "Você ainda não quer falar sobre isso".

Edward olhou para mim, levemente chocado. Em seguida, ele tentou dar um pequeno sorriso que não atingiu seus olhos, balançando a cabeça e segurando as mãos em súplica. "Isso realmente não é nada".

"Eu pensei que seríamos honestos um com o outro".

"Sim, mas isto é..." Edward suspirou, correndo a mão pelos cabelos em frustração, obviamente perplexo com a minha persistência. "Você vai ficar irritada. Ou com raiva".

"Eu não vou." Eu disse rapidamente, balançando a cabeça. "Eu prometo".

"Você não pode prometer isso".

Eu não poderia imaginar que ele pudesse dizer qualquer coisa que me faria ficar zangada com ele.

"Eu não vou ficar irritada ou brava, Edward." Eu disse novamente. Quando ele olhou como se não acreditasse em mim, a resistência ainda aparente em seu rosto, eu continuei, minha voz implorando, "Eu me sinto tão tensa sempre que você ou eu tocamos nesse assunto, porque eu nunca sei como você reagirá." Olhei diretamente para ele, inflexível. "Eu só quero saber o que o meu trabalho significa para você".

Outro suspiro, desta vez mais alto, e então Edward estava segurando a cabeça entre as mãos, balançando a cabeça com um riso sem humor.

"Eu sou tão hipócrita." Ele zombou calmamente.

Eu o observei incrédula enquanto ele segurava sua cabeça: apoiada pelos braços e cotovelos, mesa.

"O que significa isso?" Eu queria saber.

"Esse trabalho..." Ele disse lentamente, levantando o rosto das garras dos seus dedos para olhar para mim. "É um pedido de divórcio. Seu, para mim".

Engasguei com a minha própria respiração.

"Do que você está falando?" Eu tossi, falando apressadamente. "Edward, eu nunca pediria..." Então eu parei, começando novamente com as palavras inaladas e lentas. "O que você está dizendo? Você não quer o divórcio? Porque nós poderíamos apenas..."

"Não." Edward me cortou rapidamente, sua voz alta, eu sabia que ele estava tentando erradicar a esperança que ele podia ver em meu rosto. "Eu não estou... Porra." Ele estava murmurando e gaguejando, exatamente como eu tinha feito. Sua respiração longa e baixa e pesada, tentando recuperar o controle. Então, ele estava olhando para mim - encarando - e ele estava me fazendo ouvir. "Você me disse que estava diferente, que você tinha mudado, que você estava mais forte e melhor e..." Ele parou.

Eu terminei para ele. "Você não acreditou em mim".

"Não é isso." Ele balançou a cabeça, sua voz suave novamente. "Eu não estava mentindo. Eu realmente fiquei apenas... surpreso".

"Sobre o quê?"

"Sobre a rapidez com que isso aconteceu. Sobre o quanto isso está mudando você." Edward estava encolhendo os ombros de novo, seu rosto ruborizando ligeiramente. "Sobre... como isso me fez sentir".

Eu estava balançando a cabeça, confusa, sem fazer a pergunta que meus lábios não podiam formar.

Diga-me como você se sente.

E, dessa vez, ele disse.

"Lembra quando você disse que pensava que este divórcio era o fim? Que você não queria me perder da sua vida?" Edward perguntou delicadamente. Então ele sorriu suavemente. "Bem, eu não quero perder você também".

Eu podia sentir o rubor irracional, correndo do meu peito para as pontas dos meus dedos, o calor batendo fora do meu rosto e das pontas das minhas orelhas.

Emoção e agonia torcidas juntas, como sempre era quando eu estava com ele.

"Como está o trabalho por aqui?" Perguntei com uma clareada da minha garganta, rapidamente mudando o foco; envergonhada e incapaz de responder, evitando seus olhos e o peso pesado das suas palavras no meu peito, sufocando minha respiração.

Edward se inclinou para trás em sua cadeira quando ouviu a pergunta, seus ombros relaxando um pouco e seus olhos ficando distantes.

"A vida mudando." Ele disse isso em um sussurro; reverência.

Fiquei surpresa com a sua voz, com a profundidade e o alcance da mesma, já que essas palavras eram familiares.

Eu sabia que ele amava o seu trabalho, eu sabia que o que ele fazia agora tinha sido parte da mudança que eu tinha visto nele, que ele tinha se sentindo finalmente livre para seguir a única coisa que poderia torná-lo verdadeiramente feliz: o seu coração. Ainda assim, senti uma pontada agridoce, da saudade que veio com olhar para alguém que conhecia o seu propósito em absoluto, quando eu ainda estava lutando com o meu. A dor que acompanhava o saber que seu propósito na vida já não me envolvia.

"Trabalhar com essas pessoas, falar com elas, cuidar delas, suas famílias..." Edward me disse lentamente, ainda não realmente olhando para mim. "Há tanto luto e felicidade, tanta vida".

"Estou feliz que você esteja feliz aqui." Minha voz era triste, mas as minhas palavras não eram uma mentira.

Edward estava olhando para mim, tão diretamente para mim, não vendo nada mais.

"Obrigado".


"Por favor, pare de tentar me beijar".

"O que está acontecendo, Bella?"

"Eu já te disse: nada".

"Você vai, por favor, me dizer o que ele disse para você? O que ele queria?"

"Por que isso importa?"

"Por favor".

"Ele só queria felicitar-me. A nós dois".

"Você ficou falando com ele por um longo tempo".

"Eu fiquei?"

"Sim, você ficou. Eu quero saber o que ele disse a você, se ele aborreceu você. Se você está... tendo dúvidas".

"Por que você acha isso?"

"Você está sufocada?"

"Olha, ele é meu melhor amigo, Edward. Nós conversamos. Não foi grande coisa".

"Seu melhor amigo? Mesmo depois de tudo que ele fez para você?"

"Não é tão simples".

"Não é?"

"Eu não posso cortá-lo da vida do filho dele".

"Da vida do filho dele... ou da sua?"

"Oh, não fique assim, Edward. Você é meu marido, ele é meu amigo. Não seja tão melodramático".

"O seu marido não pode ser o seu melhor amigo?"

"Como eu posso saber? Você é o único homem com quem eu já casei e você certamente não está agindo como meu amigo agora".

"Eu... Jesus, Bella... Eu sinto muito".

"Está tudo bem, Edward. Vamos apenas esquecer isso, ok?"

"Sim. Ok. Eu te amo, Bella"

"Este é o seu primeiro dia como um homem casado, Edward. Você devia sorrir mais".


"Você sabe, eu não tinha certeza sobre esse verde quando você o escolheu na loja. Mas ele realmente ficou maravilhoso." Edward disse, olhando em volta para o quarto ao nosso redor. "Você tem um olho para este tipo de coisa".

"Que tipo de coisa?" Eu perguntei, inclinando minha cabeça.

"Eu não sei. Cores? Decoração?" Ele deu de ombros, sacudindo a mão em volta, gesticulando enfaticamente. "Você viu como ficaria nas paredes antes de você pintar a primeira pincelada".

"Eu não vi nada. Eu apenas tive sorte." Eu disse, abaixando minha cabeça sem graça. Então, olhando para minha mão e meu rubor se desbotou em um sorriso perverso. "E eu estou a ponto de ter sorte de novo".

Coloquei uma carta na minha frente, a outra face para baixo na pilha no meio da cama antes de levantar os braços em triunfo.

"Maldição!" Edward amaldiçoou com veemência, batendo suas próprias cartas contra a coxa em frustração.

Ele pegou sua taça de vinho da mesa de cabeceira e tomou um longo gole, sua expressão era a imagem da irritação.

Lembrando sua insistência entusiasmada para jogar Rummy 500* depois do jantar, eu realmente não podia me sentir nem um pouco culpada. Eu tinha certeza que ele esperava ganhar com facilidade, eu não poderia fazer nada se ele não tinha me considerado uma adversária especialmente competente.

*Rummy 500 é uma das variações de um popular jogo de cartas chamado Remik. O jogo é para duas pessoas e um baralho inteiro, com 52 cartas, é usado para jogar. Rummy500 é sobre marcar pontos, o mais rápido possível, ao baixar sequências de cartas na mesa, assim como completar as combinações que já foram baixadas anteriormente. Um jogador pontua positivamente para cada combinação baixada e recebe pontos negativos pelas cartas que ainda possuir na mão, depois que seu oponente já baixou todas as suas cartas.

Tínhamos nos arrastado de barriga cheia e com nossos copos de vinho até o quarto frio, onde nos instalamos de pernas cruzadas, de frente para o outro na cama de casal e começamos o jogo com risadas e piadas enquanto a violenta tempestade de verão caía em torno de nós, bem do lado de fora dos vidros da janela.

"Eu acho que isso me coloca no topo." Eu disse a ele, somando meus pontos e sabendo antes de eu terminar que eu acabaria com mais de 500.

"Sim, sim." Edward resmungou, não discutindo ou querendo saber a minha pontuação atual.

Eu só podia imaginar que ele esteve contando também.

Juntei as cartas quando Edward virou seu corpo para que suas costas ficassem contra a parede, com as pernas esticadas na cama e penduradas de lado. Quando eu tinha recolhido todas as cartas e as colocado de volta, peguei minha taça de vinho e imitei sua posição, os nossos ombros apenas a alguns centímetros de distância.

Sentamos em um silêncio sociável por algum tempo. Eu podia sentir a veia competitiva de Edward lentamente relaxando na névoa de pinot noir* e no ritmo sedutor da chuva e dos estrondos do trovão. Nossas respirações estavam calmas e combinadas, sincronizadas no silêncio sem nos darmos conta.

*Tipo de vinho.

"Eu venho aqui em cima o tempo todo." Eu disse a ele sem avisar, a minha voz lenta e relaxada.

Uma conversa agradável, mais simples e confortável do que jamais tinha sido.

Sem intensidade, sem pauta.

Eu simplesmente queria que ele soubesse.

"É?" Ele não olhou para mim - os olhos dele estavam viajando nas paredes, móveis, teto do quarto - mas ele parecia interessado; calmamente fascinado.

"Sim." Eu confirmei com um aceno.

De repente, eu estava olhando para ele e eu queria contar-lhe tudo.

Eu queria que ele me conhecesse do jeito que ele queria me conhecer. Eu me sentia segura neste lugar, neste momento. Era o álcool e a umidade e a hora tardia da noite. Era semanas de conversas e de fácil convívio com ele, com a sua presença ao meu lado e a constante, constantemente em minha mente. Eu queria dizer a ele tudo o que ele sempre quis saber em apenas um momento - olhando para o quarto que fizemos, bêbado e louco por ter perdido no Rummy.

Ainda assim, eu sabia que não poderia dizer tudo a ele; nada.

Não ainda.

Então, eu só lhe disse uma coisa.

Estendi a mão para a mesa de cabeceira, onde as taças de vinho estavam e eu abri a unica e pequena gaveta com a alça de bronze. Com uma respiração profunda, retirei o pequeno livro encadernado em couro que tinha sido meu companheiro por meses e meses; sua voz, sua mão, o seu amor quando eu precisava mais dele.

"Descobri isso quando o telhado começou a vazar. Estava em uma das caixas que eu puxei para fora do armário." Eu disse baixinho e o estendi para ele. Seus olhos piscaram para baixo imediatamente, sua expressão permanecendo calma e inalterada, como se ele não o tivesse visto. "Eu venho aqui às vezes e apenas o leio".

Lentamente, com uma quantidade ímpar de hesitação, Edward pegou o livro das minhas mãos levemente.

Ele abriu o livro sem uma palavra, seus olhos não se levantando para encontrar os meus.

Eu não tinha ideia do que ele estava pensando.

"Eu tinha me esquecido dele, até que eu o vi na mesa da cozinha naquele dia." Ele disse baixinho, sua voz quase um sussurro, ainda olhando para baixo, lendo trechos de poemas aqui e ali antes de folhear as páginas de novo e parar em outro lugar. Então, ele esclareceu, "O dia em que você quebrou a lâmpada".

Eu me lembrava.

O que você fez?

Lembrei-me do seu rosto naquele dia, irritado e assustado e horrorizado e chocado.

Lembrei-me de estar com tanto medo dele naquele momento.

Tanto medo.

O que você estava tentando fazer, Isabella?

"Você pensou que eu estava tentando me matar." Eu disse antes que eu pudesse parar a minha voz, mantendo meus olhos fixos em seu rosto abatido, ainda lendo.

Ele ainda não olhou para cima.

Suas mãos pararam em minhas palavras, no entanto, e eu o observei engolir.

Ele continuou como se não tivesse me ouvido, mesmo que ele tivesse. "Eu o tirei da mesa e o coloquei em uma caixa com meus velhos diários".

Eu podia ouvir a pergunta em sua voz.

"Eu não os li." Eu disse a ele rapidamente, garantindo. Então eu respirei fundo e falei forte, "Mas isso era para mim. Você escreveu isso para mim".

Para você e nenhuma outra.

Edward acenou com acordo, ainda impassível. "Sim, eu escrevi".

Eu podia ver a página onde suas mãos tinham falhado e se estabelecido, seus olhos parecendo presos nas palavras, lendo-as uma e outra vez.

Eu estreitei minha visão, espiando para me forçar a enxergar enquanto ele o segurava longe de mim em seu colo.

Luz, tão baixa sobre a terra / Você envia um flash para o sol / Aqui é o ouro próximo do amor / Todos os meus cortejos acabaram / Oh, as florestas e os prados / Madeiras, onde nos escondemos da chuva / Escadarias onde ficamos para conversar / Campinas em que nos encontramos!

Eu reconheci o poema, era um chamado Manhã do Casamento.

Eu vi a data na parte inferior e sorri através da minha garganta seca.

"Você escreveu isso na nossa lua de mel." Eu disse baixinho, com reverência.

Houve um sorriso em sua voz quando ele citou suavemente, "'Porque esta é a manhã dourada de amor'".

"Edward..."

"Eu escrevi isso antes de você acordar. Você ainda estava dormindo e você me disse uma vez que você gostava de Tennyson*".

*Alfred Tennyson, 1º Barão de Tennyson (Somersby, 06/08/1809 – 06/10/1892), foi um poeta inglês. Estudou no Trinity College, em Cambridge. Viveu longos anos com sua esposa na ilha de Wight por seu amor à vida sossegada do campo.

Minha voz era muito baixa quando eu respondi trêmula, "Eu ainda gosto".

Eu sabia o que ele estava pensando, eu sabia exatamente quais eram os pensamentos em sua cabeça. Que se ele tivesse esperado até que eu tivesse acordado, ele nunca teria escrito isso. Se ele soubesse as palavras que eu falaria para ele naquela manhã, ele teria se sentido de forma diferente. Ele sempre tinha de escrever em segredo, quando eu estava dormindo, ou fora, para que eu não pudesse arruinar a beleza do que ele sentia.

Fiquei enjoada.

Eu vi um pequeno sorriso rastejando no rosto de Edward, mesmo que sua cabeça permanecesse abaixada. Eu podia ver a miséria da sua memória, eu pude ver a maneira que ela espelhava a minha a cada vez que eu revivia o que nossas vidas costumavam ser. Como ela era agora. O que poderia ter sido, antes.

Coração está grande o suficiente / por um amor que não se cansa / Oh, o coração está grande o suficiente para o amor?

"Edward, por que você não o deu para mim?" Perguntei a ele finalmente, com medo de ouvir sua resposta.

Tanto medo.

Ele deu de ombros, fechando o livro lentamente e o descansando contra a sua coxa, seu dedo fechando ao redor dele completamente, como se ele estivesse tentando queimá-lo com apenas a pele da palma da sua mão.

"Eu estava esperando o momento certo".

"Você não achou que o dia do nosso casamento era o momento certo?" Eu perguntei, tentando soar leve.

Edward ficou quieto por um longo momento.

Então, "Se você não o tivesse encontrado, eu o daria para você agora mesmo. Esta noite".

Eu pisquei, inesperada, o meu corpo inteiro assustado em surpresa.

"Por quê?"

Finalmente, finalmente, Edward olhou para mim.

Ele olhou para mim e de repente eu soube que eu estava errada sobre ele.

Tão errada. Todo esse tempo.

Tão errada quando eu o tinha visto fazer-me o jantar e pensado que ele poderia ser o homem com quem eu tinha me casado, o rapaz fraco e inalterado que me deixava andar em cima dele, que tinha deixado todos dizerem como sua vida deveria ser. Tão errada, tão inútil, tão insultante por pensar que a vida dele estava ligada aos meus caprichos.

Seria preciso mais do que um beijo, mais do que qualquer palavra ou gesto meu, para quebrá-lo agora.

Ele olhou para mim e olhos esmeralda estavam fortes e confiantes, ombros puxados para cima e para trás contra a parede, pescoço longo e queixo inclinado para cima, cativante.

Lindo.

"Eu acho que eu simplesmente quero que você saiba." Ele disse simplesmente.

Sua voz ficou no ar, eu prendi minha respiração.

As palavras mais amáveis que ele já me disse.

Mais do que todos os eu te amo e eu quero você e eu preciso de você.

Além de todas as promessas de amizade e honestidade e de reconciliação.

Este era ele, deixando-me entrar.

Meus olhos estavam em seus dedos agarrando o couro - dedos que pintaram esta casa e curavam os enfermos e escreveram cada linha de cada poeta que eu já tinha amado – e, sem uma palavra, sem um som, inclinei-me e pressionei meus lábios nas costas da sua mão.


Nota da Irene: Bela maneira de se conhecerem e se amar novamente não é?

Eu amei esse capítulo do começo ao fim, menos os flash backs... a Bella era insuportável! Fala sério, como o Ed ainda a amava? E ele era meio grudento tbm, ainda bem que eles mudaram. Está tão lindo a união deles, estou louca pra eles

se agarrarem e ficar juntos novamente. Lindo demais.

O próximo é TÃO MAIS lindo... eu babei traduzindo. Espero que vcs gostem.

Fiquei emocionada na parte que ele fala que ele achava que o emprego dela era um pedido de divorcio, eu sempre pensei que era por ciumes do Mike, ainda bem que não.

Reviews?

Ah, amanHã teremos um extra em FaN. Pois o capítulo tem um POV Ed extra. Espero que gostem.

Beijos e beijos.

Obrigado Juliana por seu esforço em nos deixar reviews. Elas são sempre apreciadas. Muito obrigada mesmo. Amo tanto essa fic, estou tão feliz de ela estar com tantas reviews...