CAPITULO 36 – Me Envie Um Anjo (EdD 83)

O clarinete enchia a noite de Ouro Preto com uma musica triste. Harry recebeu o estandarte e o olhou: era uma imagem da face de Cristo ferido, sangrando, completamente entregue à dor. Não se sentiu confortável com a situação, mesmo sendo "de mentirinha". Tinha de subir e exibir o estandarte aos outros, como um prêmio, anunciando a captura de Jesus. Harry suspirou e subiu o primeiro degrau, mas olhou pro céu, e sentiu a espinha gelar.

O circulo de luz azul que girava veloz se abriu, deixando um rastro de estrelas, fechando todos que ali estavam numa redoma mágica. Ao tocar o solo, a luz passou por todos na multidão. Inúmeros participantes desapareceram. Outros se tornaram estátuas de pedra-sabão, com suas tochas e matracas ainda nas mãos. Harry caiu de joelhos na escada do altar, sentindo a cabeça e a cicatriz explodir de dor durante a ativação do Chaos.


- Alguém ativou um Chaos. - sussurrou Tio Gon.

- Meu Deus... Chaos? - murmurou Hermione. Em seguida, disparou morro acima, correndo. - Vamos logo!

Tio Gon saltou no ar e se transformou numa coruja cor de terra. Com a Espada dos Deuses firme em suas patas, o velho voou subindo a rua. Fernanda acabou ficando para trás:

- Gente! Não me deixem, por favor! - pediu, gritando, agoniada.

Tio Gon olhou para trás, piando rouco. Hermione freou e deu meia volta:

- Já andou em um cavalo sem arreio? - perguntou, descendo na direção da amiga.

-... Já. Por que? AAAH!

Hermione saltou, transformando-se em Amicitae. Fernanda agarrou em seu pescoço e as duas subiram correndo. O limite do Chaos descia veloz pelo ar, engolindo as casas já pela metade da altura. As duas correram e saltaram para dentro do limite mágico a menos de dois metros de ele tocar o chão.

Tio Gon voou rasante e entrou também. No segundo seguinte, a barreira do Chaos tocava o chão, trancando todos dentro de seus limites.


Harry ergueu-se, zonzo. Demorou para sua vista voltar ao normal. Engatinhou e levantou no alto do altar, olhando à sua frente.

A multidão havia diminuído, mas ainda era numerosa, a perder de vista na Praça Tiradentes. Todos congelados, olhando para ele. Seu instinto mandou que ficasse de capuz. Dois homens no chão, próximos de Harry, tiraram os seus ao se verem livres do feitiço que os paralisava.

- Ei. - perguntou um negro. - O que é isso?

- Sei lá, mas parece um daqueles feitiços de arruaceiros e bandidos. – respondeu o outro.

No mesmo instante, dois raios verdes atingiram os homens que tombaram, mortos. Harry identificou a gargalhada de Bellatrix na multidão e sentiu a nuca se arrepiar.

- Bella... - ressoou a voz de Voldemort, também na multidão. - Não desperdice nosso tempo. O Chaos não durará para sempre.

Várias pessoas começaram a correr entre as estátuas vivas, todas elas bruxos que se viam livres do feitiço e queriam sair dali. Bellatrix arrancou seu capuz e pôs-se a atirar em quem corria, enquanto outros comparsas de Voldemort também agarravam quem tentava correr, tirando-lhes os capuzes. Harry, ainda seguindo sua intuição, saltou para a multidão, tentando não andar muito depressa e muito menos tirando seu capuz.

Bellatrix parecia se divertir loucamente. Corria e saltava entre as pessoas petrificadas, derrubando vítima por vítima, gargalhando. Bastava os corpos caírem no chão de paralelepípedo que ela logo apontava a varinha para a próxima. Ao matar mais uma, a décima primeira pessoa, ela saltou entre dois homens grandes, paralisados, e ao erguer o rosto, deu de cara com o punho direito de Hermione.

A bruxa caiu de costas entre a multidão. Hermione, com o traje negro de Cavaleiro do Apocalipse, recolhendo o punho e se colocando em guarda, sacando a varinha, disse:

- Pare de matar pessoas, sua louca maquiavélica!

Bellatrix ergueu-se, também apontando a varinha enquanto ria. Um homem agarrou Hermione pelas costas.

- Avada Kedavra!

Em um milésimo de segundo, Hermione desapareceu e apareceu atrás do homem, que foi imediatamente morto pelo feitiço. Ela, então, puxou o corpo do homem pela gola para cima do próprio corpo, protegendo-se, e esticou a varinha na mão direita, gritando:

- Expelliarmus!

Bellatrix foi jogada de costas e sua varinha voou longe. Ao tentar se mexer, sentiu a pesada bota de Hermione a pressionar-lhe contra o chão. Olhou para ela, vendo que a jovem lhe apontava a avarinha.

- Como ousa, maldita sangue-ruim? Tire essa pata imunda de cima de mim ou eu...

- Você não está em condições de reclamar de nada. - disse Hermione em tom firme, séria, apertando o pé nas costelas da bruxa.

- Acha que me põe medo com essa ridícula varinha apontada pra minha cara?

Bellatrix gargalhou. Hermione cerrou as sobrancelhas. Sacou a grande e pesada espada que carregava na cintura, e apontou a afiada e translúcida lâmina da Espada dos Deuses para o pescoço da comensal.

- E assim, está melhor pra você? - perguntou, desdenhosa.

Bellatrix se calou. Um homem parou metros a frente delas, batendo os dedos das mãos uns nos outros, pensativo:

- Olha só o que eu achei... - sibilou Voldemort, em tom prazeroso. - Tanta beleza que nem sei qual das três donzelas poderia escolher. - sorriu, referindo-se, claro, a Hermione, Bellatrix, e a Espada.

Hermione recuou, guardando a Espada dos Deuses. Bellatrix se ergueu, enquanto Hermione se afastava, rápido.

- Volte aqui, sangue-ruim!

A menina virou-se, apontando a varinha para a mão de Bellatrix, que tocava o cabo de sua espada do vento, para sacá-la:

- Diffindo!

A espada de Bellatrix escapou de sua mão, lacrando-se na bainha de novo, com violência. O impacto do feitiço empurrou a bruxa contra seu mestre, desequilibrando os dois, enquanto a jovem transformava-se em Amicitae e sumia na multidão, veloz.


Harry corria na multidão, retirando os capuzes de alguns dos mortos. O desespero tomava conta dele: e se uma das vitimas fosse mais um amigo seu? Cada capuz retirado era uma descarga de adrenalina. De repente, ele sentiu alguém lhe puxar com força. Harry agarrou o capuz da pessoa, mas imediatamente ela também agarrou o seu, e conjurou na frente do rosto de Harry um par de garras mágicas e brilhantes:

- Se você tirar meu capuz, seu mané, eu enterro essas garras no teu rabo. - avisou André. - E enfie esse capuz com força nesse cabeção, que é mais seguro!

Harry respirou, aliviado, apoiando-se nos braços de André:

- Ah, cara... Como é bom te ver! - suspirou, aliviado.

- Sai fora. - reclamou o brasileiro, empurrando o amigo. - A situação não tá tão preta a ponto de você ter que se agarrar em mim e se declarar. Credo.

- Onde estão os outros?

-... Por aí.

Um bolinho muito gorduroso, feito com um recheio cremoso, acertou a lateral do capuz de André, que avançou no homem que chegava ao seu lado, rindo bastante:

- Adoooooro conjurar acarajés para jogar na cabeça de idiotas. - deliciou-se Mário, também debaixo de sua túnica e capuz.

- Enfia essa bosta de acarajé no cú, seu viadinho! - xingou André, agarrado à gola da roupa do amigo.

-... Carlão achou Fernanda e Hermione, estão juntas. - disse Mário, fazendo Harry sentir alívio. - Sandrinha foi procurar Leah, ela estava aqui, mas não sabemos se foi aprisionada também, já que não tem poderes. Sirius estava muito longe daqui, não está dentro do território do Chaos.

- Temos de tomar muito cuidado. - disse Harry. - São os mesmos bruxos comensais que estavam no Templo.

- Eu vi aquela doida, a Bellatrix, matando vários bruxos. Ela é mesmo insana.

- Enquanto estamos assim, temos uma chance. Os comensais de Voldemort também estão assim, e só os que se movimentam com muito desespero, chamando atenção, ou sem capuz, são atacados. - disse Harry. - Mas precisamos nos marcar. Estiquem suas mãos.

Os garotos esticaram, e Harry jogou um feitiço que fez as mangas das túnicas ficarem vermelhas.

- Pronto! - disse, aproximando seu braço do dos meninos, afastando-o em seguida. - Quando aproximarmos as mangas, elas coram. Se nos afastarmos, elas somem. Assim saberemos nos identificar.

- Simples e eficaz. - concordou André. - Agora vamos.


Voldemort, sem preocupação, subiu para o altar e ficou olhando a confusão.

- Onde estão...? Onde estão? - procurava. Pôs as mãos na cintura e suspirou. - Tudo bem, cansei. Se eu não os acho nessa multidão, meus filhotes acharão.

O bruxo tirou um saquinho de couro da túnica, encheu a palma da mão de um pó branco brilhante e soprou. O pó se tornou uma mágica névoa que tombou sobre a multidão e desapareceu. Voldemort sorriu e ergueu as mãos, no alto, batendo palmas:

- Levantem-se, meus filhos! - ordenou. Imediatamente os homens mortos se levantaram, mas, ao se levantarem, transformaram-se. Os cabelos arrepiaram-se, a pele se encheu de manchas de feridas marrons, os olhos ficaram amarelos e as unhas e dentes se afiaram. Todos viraram escravos do Chaos, os shikis. Um dos shikis se ergueu no centro da multidão, maior que os outros. A magia negra fez quatro corpos se unirem às pedras do chão da praça e um monstro de mais de dois metros de altura se ergueu, mas sua mutação era lenta e ele permaneceu sentado. Ainda assim, ele era visível por cima de todos, do peito para cima.

Os shikis começaram a se movimentar. Só o maior deles que permaneceu aguardando sua transformação, apenas observando.

André se esgueirava entre as estátuas quando um shiki o puxou pela túnica.

- Ei, coisa horrorosa, me larga! Sai pra lá!

O bruxo, sem dó, cortou o braço do shiki com suas garras, mas logo em seguida outros já o agarravam, puxando suas vestes.

- Me larga, seu... Ah, DROGA!

Os shikis agarraram seu capuz. Metros à frente, Mário, também agarrado pelas criaturas, perdia seu capuz.

Harry, do outro lado da multidão, percebeu a aglomeração de monstros ao redor dos garotos. Pensou em atacar, mas Voldemort estava muito próximo, atrás dele, no altar. "Correndo por fora", literalmente falando, estavam Sandrinha, Carlão e Fernanda, virando-se como podiam num dos cantos extremos da Praça Tiradentes, atacando outros shikis. Haviam se encontrado há pouco tempo, na confusão. Dentre todos ali no Chaos, eram os mais seguros, longe dos comensais, de Bellatrix, e de Voldemort, ocupando-se apenas em atingir os shikis que se aproximavam.

Voldemort ergueu os braços novamente, olhando o maior dos shikis:

- Minha criação, levante-se! - gritou, orgulhoso. - Traga para mim meu tesouro, perdido em algum canto dessa praça!

O shiki monstruoso piscou e se ergueu, jogando pedras no chão, grunhindo.

Harry deu dois passos na direção do monstro, mas parou. Não só ele, mas todos que estava prestando atenção no grande shiki olharam para trás, na direção das costas do monstro, que também rosnou e olhou para trás.

Era Hermione, até então incógnita na multidão, que resolvia agir de novo. Surgiu correndo detrás das estátuas humanas que restavam. Saltou nas costas de um shiki que andava curvado, pulou com um passo para os ombros de uma estátua alta mais á frente e tomou impulso.

Lançou-se no ar, com extrema leveza. Tinha a mão esquerda esticada à frente do corpo, e a mão direita em riste, com a Espada dos Deuses, segurando-a como se fosse uma lança, os olhos fixos no pescoço do shiki.

Harry prendeu a respiração, enquanto André e Mário a seguiram com o olhar, espantados. Voldemort calou-se, baixando os braços. Hermione fincou a Espada dos Deuses no pescoço do shiki, na diagonal, enterrando a arma no interior do tórax do monstro, mirando o coração, e agarrou-se ao cabo da espada com as duas mãos, apoiando os pés nas costas do monstro. Ele urrou e tombou de frente. Ela novamente saltou no ar, retirando a espada com extrema facilidade. O monstruoso shiki bateu no chão e se dissolveu em fumaça negra, pedras e terra. Ainda no ar, em queda livre, Hermione novamente segurou a espada com as duas mãos, erguendo-a, e pousou no chão, enterrando a lâmina com violência nas pedras da rua. O impacto explodiu pelo chão uma magia de luz rosa-claro, como chamas vivas, que percorreram o Chaos, varrendo a praça toda com uma rajada de vento. As pessoas se encolheram, quando foram atingidas pela magia quente, mas os shikis foram todos incinerados por ela. Em seguida, o silêncio tomou conta da Praça.

Hermione respirou fundo, ajoelhada, apoiada na Espada dos Deuses, ainda agarrada a ela com as duas mãos. A espada ressoava como um diapasão. Ela se ergueu, retirando a arma do chão e gritando ofegante enquanto olhava Voldemort, no altar:

- Vocês não são capazes de respeitar nem mesmo os mortos?!

A resposta foi dada com um largo sorriso de satisfação. Voldemort parecia tão satisfeito com aquilo que viu que nem pareceu "se tocar" que aquela sangue-ruim tinha feito seu pequeno exército virar pó.

- Ora... Está gostando mesmo desse brinquedinho, não está, senhorita Granger?

Hermione piscou. Ele sabia o nome dela? Desde quando? Bem, ela não devia se mostrar abalada. Ao contrário, deveria ser uma honra. Não?

-... Você não me respondeu. Seu nome é esse, não é? - voltou a perguntar o bruxo. - Hermione Jane Granger. Filha de trouxas. Sangue-ruim. Melhor aluna de Hogwarts. Melhor amiga de Harry Potter. Melhor amiga? - sorriu, estalando os dedos. - Bem, se você preferir, posso lhe chamar só de Hermione. Ora... Mas eu não sou tão informal assim. Gosto de tratar todas as damas com cavalheirismo. Enfim, aposto que está incomodada com seu brinquedinho, não está? Ela não parece estar tão boa quanto deveria estar, não? Parece que tem alguma coisa... segurando seu poder. Não é?

Voldemort a olhava nos olhos: ele no centro do altar, ela no centro da multidão, no espaço vazio onde estava o shiki. Continuava a segurar a Espada dos Deuses na mão direita, repousada mas firme. De fato, sua mão e se pulso parecia estremecer, latejar. A espada parecia mesmo um diapasão, que quando batido de leve continua a vibrar. Tinha mesmo alguma coisa errada. Mas, ora essa, o quê? Ela tinha pulverizado um exército de criaturas mágicas com um só movimento. Como alguma cosia ainda poderia estar estranha no sentido pejorativo da coisa?

- Se você me emprestar, eu prometo descobrir o problema dela. - sorriu Voldemort, descendo do altar e caminhando na direção de Hermione. - Aposto que sou mais experiente que você.

Ela deu um passo para trás, mas estava num lugar muito aberto para tentar correr.

- Estou sendo impertinente, não estou? – o Lorde das Trevas comentou, sorridente. - Não sou um homem de falar muito, mas veja só como fico sem controle diante de certas coisas. Sabe, muitos me julgam sem conhecer, mas sou apenas um bruxo que se sente extremamente entorpecido e sem jeito diante de donzelas tão belas e poderosas, ainda que sejam de origem duvidosa. Você não se incomoda com isso, se incomoda? Estou apenas lhe elogiando, e olha, isso é uma grande honra, porque eu não saio por aí tecendo elogios para qualquer coisa. Pouquíssimas coisas realmente me encantam, e o que eu posso fazer?

Hermione simplesmente não tinha saída, ele não parava de falar e ela sabia que era proposital.

De um dos cantos opostos da multidão, Leah finalmente apareceu, observando tudo de longe. Não podia fazer nada. Tinha que acreditar nos meninos. Mas gelou ao ver Harry correndo na muldidão, na direção de Hermione e Voldemort.

- Ah, não, moleque tonto! - xingou.

A professora correu entre as pessoas petrificadas. Sabia que estava se expondo, mas tinha de correr o risco.

- Voldemort! - chamou Harry, que acabava de subir ao altar, às costas do bruxo das trevas, tirando o capuz. - Não venha achando que está em vantagem nesse lugar!

Voldemort parou e olhou para trás. Hermione recuou mais alguns passos, colocando a espada na bainha e voltando a segurar a varinha.

- Sabe de uma coisa? - disse Voldemort, passando as unhas no rosto e olhando Harry com desprezo. - No momento, você não me interessa mais. - e voltou a olhar Hermione. Ele fez um movimento no ar e sua espada Elemental dourada apareceu. Ele apontou para Hermione. - Você já batizou seu brinquedinho? É tradição da elite dar um nome às suas armas, Leah não lhe contou? A minha menina eu chamo de serrote. Apesar dela, à primeira vista, não parecer com um. Bom, vamos ver se a minha é tão boa quanto a sua?

- Voldemort, eu estou aqui! Venha! - chamou Harry, instigando-o.

- Eu sei. - sorriu Voldemort, caminhando, apontando a espada para Hermione. - E pode continuar aí, senão vai atrapalhar.

Leah corria, descendo na direção deles, tentando se fazer ouvir:

- Harry! Não! Saia daí, isso é uma...

Com um forte solavanco, Leah foi jogada de cara no chão. Sobre ela, Bellatrix, que saltara da multidão e vinha pousar violentamente em suas costas, prendendo-a no chão.

- Aonde vai com tanta pressa, querida? - sorriu Bellatrix, com a espada mágica presa às costas, na diagonal.

Leah a olhou por cima do ombro, apavorada. Bellatrix riu, fininho:

- Você até que ficou bem assim, ruivinha, sabe? Combinou com seus olhinhos azuis. Mas você precisa retocar a tintura, meu bem. Tantos problemas fizeram você ficar descuidada da vaidade... Que peninha...

-... Saia de cima de mim, vaca. - gemeu Leah, entre os dentes. - Aliás, vaca não. Vacas são legais.

- Ah, não seja rude! – ela sorriu, puxando Leah pelos cabelos, erguendo o rosto dela do chão. Em seguida, colocou a lâmina da espada em seu pescoço. - Eu estou no comando, querida. E, que divertido, se quisesse, poderia abrir o seu pescoço agora, como se fosse uma galinha sendo abatida.

Leah tremia, com os dentes cerrados. Se ela odiava estar indefesa diante de qualquer criatura, ver-se indefesa e dominada por Bellatrix era definitivamente humilhante.

- Fique quietinha agora e assista. - sorriu a bruxa. - O show vai começar.


Voldemort deu mais dois passos. Harry pôs os pés no chão de paralelepípedo da praça, já no nível da multidão, e gritou:

- Venha me enfrentar!

O bruxo parou. Ainda sorria, olhando Hermione, e disse, sereno:

- Enfrentar? Eu não vim enfrentar você.

- Eu não vou permitir que você sequer toque em Hermione! - ameaçou Harry, já na metade do caminho entre o altar e Voldemort.

-... E quem foi que disse que vim atrás dela?

Harry se calou. Voldemort virou-se e sorriu, tão largamente que quase desfigurou seu rosto de tanta satisfação. Foi quando Harry olhou os próprios pés. Estava sobre o centro de um grande desenho, um círculo arcano de magia, com um pentagrama no centro e cheio de inscrições. As linhas do desenho brilhavam, de leve, como pequenos néons. Harry tentou se mover, mas seus pés estavam colados no chão.

Voldemort respirou fundo e disse, em voz alta, sem sequer olhar para trás:

- Se você der mais um passo em minha direção, senhorita Granger, Leah morre.

Hermione parou e tirou a mão do cabo da Espada, abaixando a varinha. Olhou sobre os ombros e viu, ao fundo do lugar, Leah, prestes a ser degolada por Bellatrix.

- O que você quer? - perguntou Harry.

- O que eu quero? - riu Voldemort. - Eu quero... Você. Seu poder. Sua energia. Sua magia. Sua juventude. Sua vida.

Voldemort esticou a mão na direção de Harry, e, com um poderoso ataque mágico, jogou o rapaz de costas no altar, quebrando as pedras da escada, batendo por fim na pesada cruz de madeira. O garoto arfou, perdendo o ar, caindo sentado. Olhou para a multidão e não viu mais Hermione.

"Ainda bem que ela correu", pensou ele, sem sequer se preocupar em ter descoberto que ali ele era o alvo, não a amiga. Ele ergueu-se, observando Voldemort. Nuvens pesadas de chuva se aproximavam da praça, encobrindo-a. Voldemort ergueu a varinha e conjurou um livro grosso, de capa de couro marrom e título com letras douradas.

-... Você não tem cara de alguém que lê a Bíblia. - murmurou Harry, desdenhoso.

Voldemort abriu o livro com a mão esquerda e o folheou com magia, como se fosse um sopro virando as páginas, despreocupado. E com a mão direita, ergueu Harry no ar, contra a cruz de madeira, comentando sereno:

- Conhecer diversas culturas e adquirir sabedoria é essencial par se tornar poderoso. Sabe o que festeja a Semana Santa Cristã, não sabe? A Paixão de Cristo. Quando Jesus é capturado, condenado, crucificado, morto, sepultado, e, no final de três dias após sua morte, ele ressuscita e sobe ao reino dos céus.

Harry sentiu um assombro de pavor.

- Sabe, deve ser divertido crucificar alguém. - sorriu Voldemort, fechando a Bíblia e novamente erguendo a outra mão, apontando para Harry. Este se esforçou mas não conseguiu se livrar o feitiço. Seus braços se abriram, e bateram com força na grossa madeira da cruz. Harry gemeu: uma pressão enorme o prendia, no ar.

- As pessoas descrevem a crucificação de Cristo de forma errônea. - disse Voldemort, movendo as mãos no ar e fazer três esferas amarelas surgirem, girando, se esticando e tornando afiados e grossos cravos. Harry sentiu o estômago embrulhar. Voldemort concluiu: - Não pregaram Jesus pela palma das mãos. O peso do corpo rasgaria os ossos e tendões e a pessoa cairia. Eles o pregaram... pelo pulso. Assim.

E, como projéteis velozes e certeiros, os cravos furaram os pulsos de Harry, atravessando os ossos e a carne, pregando-o de braços abertos na cruz. Os cravos deixaram de ser uma luz amarela e viraram ferro. O grito de dor de Harry encheu o ar da praça.

- É. Foi pelos pulsos. - sorriu Voldemort. - Exatamente assim, sem correr o risco de cair.

Harry debateu-se de dor. Seus dedos e suas mãos pararam de responder: o prego tinha rasgado seus músculos e seus nervos. Ele mexia o corpo, as pernas, mas ainda estava preso pelo feitiço, e, agora, pregado na cruz.

- Pare de se debater! - reclamou Voldemort, movendo as mãos e fazendo as pernas de Harry se juntarem, com os pés um sobre o outro. - Jesus não fez esse alarde.

E o terceiro cravo, o maior deles, atravessou os pés de Harry, crucificando-o de vez. Harry serrou o dentes, sentindo ânsia. Levou mais de três minutos para parar de lutar e gemer, enlouquecido de dor.

Voldemort parou debaixo do altar, com as mãos para trás:

- É... É uma bela vista, aqui debaixo.

Harry, de cabeça baixa, suava e arfava. Abriu os olhos, olhando Voldemort. Depois olhou seus pulsos. O sangue escorria e pingava sem parar.

- Não morra com a perda de sangue. - pediu Voldemort, dando as costas. - Preciso me divertir mais um pouco. Não vá perder o clímax da festa. Ora essa, onde foi parar a senhorita Granger?

Harry cerrou os dentes, tentando se mover. Ainda que estivesse numa péssima situação, ele pensava apenas "Não, Hermione não...". Era a única coisa que estava em sua mente. Ele já estava capturado mesmo... Sua mente só se preocupava com ela, que estaria em algum lugar, longe da vista e da proteção de Harry.

Uma forte trovoada ensurdeceu as pessoas, e o raio clareou tudo. As nuvens tomaram conta da praça.

Leah se apavorou mais ainda. Bellatrix riu, ainda sobre ela:

- Ora, tem medo de trovões?

- Vocês vão matar todo mundo! - urrou Leah. - Até vocês mesmos!

- Ah, não se preocupe. Eu e meu mestre temos isso. - e ergueu a Espada do Vento. - Você sabe, fui eu quem chamou todas essas nuvens para lorde Voldemort.

Leah se debateu e Bellatrix novamente pôs a espada no pescoço dela:

- Você é surda? Quer morrer?

- Não façam isso! - urrava, sem parar. - Todos vão morrer! Todos! Todos, sem exceção! Tirem Harry de lá! Alguém! Alguém me escute!

Bellatrix pareceu se enfurecer e puxou os cabelos de Leah com força:

- Certo, agora chega! - e passou a espada em seu pescoço.

O bico da bota de Hermione atingiu o nariz de Bellatrix em cheio. A menina pousou levemente no chão enquanto a bruxa era lançada metros para trás, dando cambalhotas e parando ao bater de costas na parede de uma casa. Hermione respirou fundo e se ergueu, olhando para Leah. A professora estava no chão, deitada, e o sangue dela começava a pintar os paralelepípedos de vermelho. Hermione se apavorou:

- Leah! Ah, meu Deus! - gemeu, agachando-se ao lado dela e virando seu corpo. A espada de Bellatrix fez um corte de apenas cinco centímetros, mas o sangue dela brotava, sujando sua roupa e o chão. Hermione pôs os dedos no pescoço dela, tentando parar o sangramento. - Leah, por favor, não perca a consciência! - implorou, olhando a bruxa que estava com os olhos e a boca entreabertos.

A ponta da bengala de Tio Gon lhe pressionou o pescoço, brilhou, e o ferimento de Leah desapareceu. Hermione ergueu o olhar:- Senhor Gon!

-... Por pouco. - olhou, sereno.

Leah piscou, recobrando a consciência.

-... Estou zonza. - murmurou, saindo dos braços de Hermione.

- Levante-se. - disse o velho, ríspido. - A situação é muito mais grave do que poderíamos sonhar.

- O que está havendo? - perguntou Hermione.

- Um antigo feitiço. - gemeu Leah, olhando para trás. - Merda de Bellatrix, fugiu!

Bellatrix havia sumido, mas na atual circunstância, não era importante.

- Precisamos ficar o mais longe possível. Mas não acho que vá adiantar. - murmurou Tio Gon.

- Estamos presos no Chaos. - lamentou Leah. - Não temos como sair.

- vamos chamar os garotos - disse, saindo, apoiando-se na bengala. - Podemos tentar montar um escudo mágico no limite norte da barreira, o mais longe possível do centro da magia.

- Afinal, o que está havendo?! - perguntou Hermione, exasperada. - Que magia é essa?

Os professores a olharam. Leah suspirou.

- Estamos debaixo de uma das maiores e mais devastadoras magias de área que possa existir. Isso se não for a maior delas.

- Magia de área? – estranhou. - Você diz aquelas antigas magias, que atingem um espaço físico por completo, pré-determinado, utilizando o poder da própria natureza?

- Sim. Que bom que estudou direitinho e já sabe. - disse Tio Gon, apontando o céu. - Aquelas nuvens estão carregadas de raios e trovões, que estão se acumulando, loucos para explodirem. Quando Voldemort quiser, ele irá juntar toda a carga das nuvens e vai jogar aqui, de uma só vez.

-... E?

-... E seremos cozidos, fritos, queimados, em menos de um centésimo de segundo. Aliás, em menos tempo.

- Não temos tempo pra isso, vamos achar os outros. - chamou Leah.


Harry lentamente perdia os sentidos enquanto Voldemort olhou para o céu:

- Mudança de planos, a hora está chegando!

Um forte vento tomou conta da praça. As nuvens clareavam sem parar com flashes de luz. Pareciam empanturradas de eletricidade. Amontoavam-se calmamente umas sobre as outras, e todas sobre o centro da praça. Harry baixou os olhos para o chão claro de pedra sabão, onde seu sangue chegava, escorrendo por um fino filete vermelho. Sua vontade parecia escorrer para longe, junto com seu sangue quente.


No canto oposto da praça, Leah, Hermione e Tio Gon encontravam os outros meninos.

- Precisamos tirar Harry de lá! - dizia Hermione a intervalos de trinta segundos.

- Todos pro fundo da praça! - avisou o velho bruxo. O grupo se reuniu no canto extremo da praça, encostados num muro, bem no limite da parede do Chaos. - Vamos, me ajudem a levantar uma barreira.

Os alunos imediatamente seguiram as ordens: ergueram uma barreira translúcida entre eles, fechando-os todos dentro daquela redoma, que começava no chão e se fechava no alto da parede. Tio Gon pegou as varinhas de cada um dele e as fincou nas gretas dos paralelepípedos, deixando-as firmes, como sustentação.

- ...Que tipo de barreira é essa? - perguntou André, vendo os fios de luz que saiam das varinhas, contornando a película da barreira, como raios que se desmembravam.

- As varinhas reforçam e são o alicerce dessa barreira. - explicou Leah. - Se tivermos sorte, elas torrarão e virarão carvão no nosso lugar.

- Certo. E Harry?! - perguntou Hermione, gritando, brava. Todos a olharam. - Vamos lá buscá-lo!

- Não podemos. - falou Leah, suspirando.

Hermione a olhou, chocada.

- Harry é o centro dessa magia, Hermione. É o gatilho dela.

- O QUÊ?

- Harry é como Lílian. - disse Leah, exasperada. - Ambos são bruxos extremamente fortes, capazes de fazer até mesmo a própria natureza os obedecer. Essa lendária magia direciona toda a carga elétrica do céu para cá. Por Harry.

Hermione gelou.

- O urro de Deus. - pigarreou Tio Gon.

- Esse nome é retardado. - reclamou Leah. - Essa magia nem nome tem.

- Bom... quem sobreviveu à ela disse que era Deus urrando. Eu não duvidaria disso. Na história da bruxaria apenas um velho louco da idade média sobreviveu a ela. Inclusive sua origem é de quando o próprio Jesus Cristo morre na cruz. Os céus desabam. Mas ele pede para que Deus não desintegre os homens, então, apenas a terra sofre.

- Não comece a...

Hermione agarrou os dois bruxos pelos ombros, com força:

- Estão dizendo que Harry é o gatilho? Ele está pregado naquela cruz! Essa magia vai passar por ele pra chegar do céu até aqui? - e em seguida ela os empurrou, furiosa. - E vocês querem que eu fique aqui, enquanto ele morre naquela merda daquela cruz?!

- Não podemos fazer nada! - murmurou Leah. - Ele é o fio condutor dos raios.

-... Fio Condutor? - de repente, ela parou. - Harry vai conduzir os trovões pra cá mesmo...?

Outro clarão cegou as pessoas.

- Hermione! - chamou Leah - Não!

Mas era tarde, a jovem já corria para a multidão, saindo da barreira mágica, na direção do centro da praça.


Voldemort deu as costas para a cruz, com os braços abertos, gargalhando, olhando o céu. As nuvens começavam a se mover em círculos lentamente, pesadas.

- Veja, Potter! Eu estou reescrevendo uma das mais famosas histórias de todos os tempos! Cristo morreu para dar uma nova vida a todos os homens pecadores. Agora, nessa nova história, você é o bode expiatório, e irá morrer para deixar todos os seus poderes para aquele que realmente merece: eu! E depois de ter sua vida, eu recomeçarei a minha, e ninguém mais poderá me deter! Eu serei Deus! Vamos, orgulhe-se disso! Essa é uma nova versão para a paixão de Cristo! A maior história de todos os Tempos está sendo reescrita! E agora!

- Interessante. Mas...

Voldemort parou, olhando para a cruz. Hermione estava sobre ela, agachada, com a Espada dos Deuses sobre os ombros. A jovem estava sobre o topo da cruz, pousada como um pássaro ficaria, com extrema leveza. Ela sorriu, com ar cínico e desafiador:

- Você se esqueceu de um detalhe muito importante sobre a Paixão de Cristo que deve ser acrescentado. Se você realmente quer recontar a história, com as pessoas que estão aqui, hoje, Lorde Voldemort, deve saber que a Maria Madalena jamais aceitaria ficar quieta chorando, enquanto crucificam e matam o homem que ela ama.

Voldemort perdeu o sorriso:

- Não se atreva!

Hermione fincou a Espada dos Deuses na junção da cruz, e ela se partiu como se fosse manteiga. Imediatamente a mão dela brilhou, esticando-a na direção do corpo de Harry, que foi cuidadosamente colocado no chão do altar, ainda preso à parte horizontal da cruz. Em seguida ela se ergueu, guardou a espada, saltou longe, tal como Amicitae faria, e caiu na rua, erguendo-se diante de Voldemort.

- Eu não serei derrotado por vocês de novo. - sibilou Voldemort, entre os dentes, tremendo de fúria.

- Você foi. - retrucou Hermione, com todas as letras.

Voldemort ergueu a espada, apontando o céu e iniciando um grande vendaval:

- Não adianta mais nada, garota! Em menos de dois minutos, vocês estarão todos mortos! EU VENCI!

Hermione avançou, usando o battoujutsu, sacando a espada. A Espada dos Deuses bateu de encontro com a espada dourada do bruxo. O deslocamento de energia que surgiu do choque das duas lâminas derrubou inúmeras estátuas ao redor deles. As espadas escorregaram pelas lâminas e eles se desequilibraram.

- Mestre! - gritou Bellatrix, antes de outro grande trovão. - Vamos embora!

- Não sem a minha Espada dos Deuses! - urrou, jogando o corpo contra o de Hermione. Ela dentou desviar, mas o bruxo agarrou a base da espada dela, e a puxou. A jovem tentou segurar a espada, mas os dedos, sujos do sangue de Leah, escorregaram.

- Não! - antes que a espada saísse do contato dos seus dedos, Hermione encostou a ponta de sua varinha no começo da transparente lâmina da espada - Expeliarmus!

Uma explosão jogou Hermione de costas no chão, a dois metros. Na mão esquerda, que tremia, a Espada dos Deuses. Ela se olhou, vendo que estava salpicada de um sangue muito escuro, quase negro. Ergueu os olhos, ao escutar Voldemort cair de joelhos, urrando de dor. Ele não tinha mais nem o braço nem o ombro direito. O Expelliarmus usado na Espada dos Deuses havia literalmente explodido seu membro, tamanha a violência da magia. Ele agarrou-se aos fiapos de sua carne, ensangüentado, gemendo de dor. Seu sangue era mesmo tão escuro que era quase negro.

- Eu não ficarei sem a espada! - gritou, cuspindo sangue de joelhos.

Hermione recuou, arrastando-se no chão, assustada com o que tinha feito. Bellatrix se jogou sobre seu mestre, abraçando-o:

- Mestre, não! Vamos embora! - gritou, apavorada.

- Não! Não!

Mas Bellatrix retirou um pingente do pescoço, e o apertou, fazendo os dois desaparecerem num portal. Hermione ofegou, ergueu-se, guardou a espada e correu de volta pro altar.

- Harry! – gritou. - Harry!

Harry estava recostado na base da cruz, agora só um tronco na vertical. Seus braços continuavam presos no tronco e jorravam sangue. Muito sangue.

- Harry! - chamou Hermione, trêmula. Olhou os pés de Harry, seus tênis encharcado de sangue, rasgados pelo prego, e depois olhou seus pulsos, ainda firmemente presos ao tronco.ela passou a mão sobre o cabelo do rapaz e sussurrou. - Harry, não se preocupe, eu estou aqui.

Harry abriu os olhos, sem forças. Seus olhos estavam escuros, sua pele, pálida, a boca arroxeada. Havia perdido muito sangue. Acima deles, as nuvens ainda se moviam. Hermione olhou em volta, em meio à ventania, e retirou o casaco do uniforme de cavaleiro e as botas.

- ...Vá embora. - sussurrou Harry, choroso. - Vá embora, Hermione...

- Não. Não vou. - disse, com os olhos brilhando, segurando o rosto dele com as mãos, retirando a franja dele do rosto.

- Por favor... Vá. – sussurrou. - Você tem que fugir, você tem que escapar, por favor...

- Já disse que não vou.

- Se ficar vai morrer, Hermione! - gritou, num último esforço, com as lágrimas escapando dos seus olhos, entorpecido pela dor. - Me deixe aqui! Não quero que você morra no meu lugar! Jamais... perdoaria que você...

- Mas eu não vim morrer no seu lugar, Harry. - sussurrou, em resposta.

Harry se calou. Olhou Hermione, fixamente. Os dois choravam. Porque ela fazia aquilo? Pior: ela sorria pra ele. Com medo, chorando, mas sorria.

-... Eu não vim aqui pra morrer no seu lugar, Harry. - repetiu.

É claro que ela não tinha ido morrer no lugar dele. Tinha ido morrer com ele. Era impossível que sobrevivessem àquele ataque. Harry pareceu recobrar a consciência, piscando.

- Não veio...? Você veio... - ele não terminou de dizer "veio morrer comigo". Não teve coragem. Hermione sorriu, balançando a cabeça, chorando, tentando limpar as lágrimas dele:

- Eu jamais abandonaria você, Harry. Muito menos nos momentos mais difíceis.

-... Você tem noção da escolha que acabou de fazer?

- Nunca tive tanta certeza.

-... Por que você faz isso...? - sussurrou.

- Não é hora de perguntar. - respondeu, também num sussurro. - É hora de responder.

Harry sentiu o corpo estremecer, chorando. Respirou fundo, dizendo:

- Você está mesmo comigo, Hermione?

Hermione silenciou. As nuvens e a ventania pararam, de repente. Ela o olhou nos olhos, segurando o rosto dele com as mãos, e completou:

-... Até a morte.

Os dois prenderam a respiração. Hermione abraçou Harry com força, puxando-o para seu peito, e afundando o rosto no pescoço do amigo.

Um gigantesco trovão, na forma de uma coluna de luz, acompanhada de outros milhares de trovões, desceu do céu, atingindo o altar, estilhaçando-o. A eletricidade explodiu no Chaos, engolindo e queimando tudo. um clarão que cegou todos, um barulho ensurdecedor, um terremoto sem proporções. E, cinco segundos depois, a escuridão e o mais absoluto silêncio tomaram conta do território do Chaos, agora um enorme e carbonizado cemitério a céu aberto.


N.A 1: Eis um capítulo de ação pura. :) Sabe que gosto dele? Mesmo sento meio maluca essa coisa de crucificar alguém (argh!), eu gostei do resultado final. Espero que vocês também tenham curtido!

N.A 2: Creio que esse seja o maior capítulo do shipper H² da série EdD. Obviamente por causa da cena final, onde Hermione sabe que não tem escolha e que não pode salvar Harry, e decide ir ficar com ele para morrer junto. Isso é exatamente o que eu quero deixar bem claro como sendo o sentimento que é realmente a base do Harry e Hermione, AO MENOS na MINHA idéia e na Espada dos Deuses: lealdade. Não é só amor de homem e mulher, isso vem até por último. Antes disse há o amor da amizade, da fraternidade, da lealdade e da companhia. Porque dizer "se eles se amam como irmão não se amam de verdade" pra mim é ladainha. Quantos irmãos de verdade se odeiam? Não se dão bem? Você pode amar alguém como homem e mulher, amar seu jeito, seu corpo, seu sexo. Mas você pode amar alguém pela companhia, pela lealdade, pela amizade. É muito mais fácil uma amizade que se torna amor do que um amor que se torna amizade. (me referindo a amor sexual, de homem e mulher como CASAL de relação) Deixemos de finalizar. Entendam isso: Harry e Hermione, na EdD continuam sendo amigos. Jamais deixarão de serem amigos, nem deixarão os outros amigos para ficarem se agarrando. Eles sabem dosar a relação, sabem que não dá pra sair dando chave de coxa um no outro. Eles têm plena consciência da fase pela qual passam, dos riscos, da cautela que precisam, e nunca, jamais iriam na hora mais crucial da historia CHAPAR um beijo na boca um do outro. Porque, afinal de contas, Harry e Hermione pra mim é algo Sagrado. E não uma ceninha de piadinha de novela infanto-juvenil. :)

N.A 3 : Falando em chapar (hahahahahha dá-lhe Lia) reza a lenda que a tradutora de HP no Brasil trocou uma hora o nome da Molly Weasley pra MÔNICA Weasley. AH! Então tá explicado pq justamente a Molly foi derrotar uma bruxa tão foda quanto a Bellatrix: ela se enfureceu, tirou o sansão do bolso, e PIMBA! Já era a Bella. xD

N.A 4: E falando em chapar e Mônica, tb reza a Lenda que o 'par' do Dumbledore (whahahhaha), aquele poderooooso bruxo das trevas, virou... Gerardo. É, Gerardo. Ou seja, como se não bastasse Dumbledore ser gay, ele ainda teve q fazer par com o Jeca Gay, HAHAHAHHAHAHAHAHHA xD

N.A 5: Agora pelo jeito HP acabou de vez. E é impressão minha ou todo mundo tava desanimado? Não teve evento, nem histeria, nem nada? Que coisa. Será q no fim das contas o final de novela da Globo não agradou o povo? Eu, heim, gente estranha! Porque foram me perseguir durante 7 anos por ser Harry e Hermione, se não gostaram do próprio Cannon? Gente estranha!

N.A 6: Como sou cuzão, fiz uma tatuagem na nuca, do símbolo tribal da Espada dos Deuses (tem no website) e duas letras Hs atrás. Ficou legaaaaal. Mas tá coçando pra diabo:P

N.A 7: Eis a música do capítulo (Send Me An Angel, dos Scorpions com a filarmônica de Berlin):

The wise man said just walk this way

O Sábio me disse para andar só neste caminho)

To the dawn of the light

(Para o amanhecer da luz)

The wind will blow into your face

(O vento irá soprar no seu rosto)

As the years pass you by

Como os anos que se passaram)

Hear this voice from deep inside

Ouça a voz que vem de dentro)

It's the call of your heart

O chamado do seu coração)

Close your eyes and you will find

(Feche seus olhos e você irá encontrar)

The way out of the dark

O caminho para fora das trevas

Here I am

Aqui estou

Will you send me an angel

Você me enviará um anjo?

Here I am

Aqui estou

In the land of the morning star

Na terra da estrela da manha

The wise man said just find your place

O Sábio disse para achar seu lugar)

In the eye of the storm

No olho da tempestade)

Seek the roses along the way

Procure as rosas pelo caminho

Just beware of the thorns

Só tome cuidado com os espinhos)

Here I am

Aqui estou

Will you send me an angel

Você me enviará um anjo?

Here I am

Aqui estou

In the land of the morning star

Na terra da estrela da manha

The wise man said just raise your hand

(O Sábio disse apenas para levantar suas mãos)

And reach out for the spell

(E esticá-las para o feitiço)

Find the door to the promised land

(Encontre a porta da terra prometida)

Just believe in yourself

(Só acredite em si mesmo)

Hear this voice from deep inside

(Ouça a voz que vem de dentro)

It's the call of your heart

É o chamado de seu coração)

Close your eyes and you will find

Feche seus olhos e você irá encontrar)

The way out of the dark

(O caminho para fora das trevas)

Here I am

(Aqui estou)

Will you send me an angel

Você me enviará um anjo?

Here I am

Aqui estou

In the land of the morning star

Na terra da estrela da manha

N.A 8: Até o próximo capítulo!!!!!!!!!!!!!!!!!!