Pois as distâncias não existem para a recordação; e somente o esquecimento é um abismo que nem a voz nem o olho podem atravessar.
- Gibran Khalil Gibran
Ele sabia o que esperar quando a cela foi aberta e ao prisioneiro em solitária, a quem não deveriam ser permitidas visitas, foi feita uma exceção. Quando entrou na sala limpa, para os parâmetros de Azkaban ao menos, a primeira imagem que prendeu seus olhos fazendo o sangue em suas veias circular de maneira vivaz como há muito não circulava, foi Valkiria sentada em uma cadeira de frente à mesa, encolhida, o nariz arrebitado ligeiramente franzido como se algo ali cheirasse muito mal. Talvez cheirasse, Augustus não possuía mais habilidade alguma para distinguir os odores agradáveis dos desagradáveis. Sabia apenas sobre visões, e aquela, verdadeira, palpável, era o símbolo maior do paraíso que ficava além das paredes de pedra e do mar revoltoso.
O que não esperava era ver Rufus Scrimgeour atrás da cadeira, com as mãos pousadas nos ombros da mulher, como se a estivesse mantendo ereta enquanto sentada. Os olhos azuis dela marejaram no mesmo momento em que miraram os castanhos, e sua pequena mão buscou a do auror no próprio ombro. Havia nela um anel que Augustus conhecia, e então ele soube exatamente porque aquele homem estava ali de maneira tão possessiva sobre ela e porque a angústia que habitava seu rosto apolíneo, então sulcado, parecia tão verdadeira. Ela era.
- Ora, ora... que belo casal... - ironizou ao sentar-se do outro lado da mesa. Deveria interpretar mais uma vez. - A que devo a honra?
Um leão prateado rondava os dois enquanto Dementadores rondavam Augustus. O olhar de Valkiria baixou, talvez vergonha por toda a situação, talvez receio pelas criaturas que a fizeram perder a consciência no pior momento possível.
- A Sra. Valkiria Hella von Adler veio até aqui para concretizar o processo de separação. - Respondeu Scrimgeour, a voz alta demais para se pretender indiferente.
- Ah, é mesmo. Nós somos casados ainda. Eu sabia que você não ia resistir muito tempo sem ter direito a visitas íntimas... - ele riu, como se demência o atingisse já. - Não que eu fosse ficar muito feliz com você me visitando intimamente, uma prostituta é sempre mais agradável.
- Como você tem coragem? - Ela vociferou, visivelmente abalada enquanto o irlandês recostava-se na cadeira, relaxado. - Depois de tudo o que você me fez, me ultrajar desta maneira quando você mesmo já não possui dignidade alguma...
- Está vendo, Scrimgeour? Prepare-se, vai ser sempre assim. Bem, é claro que exceto a parte da dignidade, obviamente o senhor a tem para dar e vender...
- Pare com essa ladainha, seu desgraçado! - O loiro murmurou entre os dentes, retirando de dentro da capa um pergaminho e jogando-o sobre a mesa. - Assine isto e faremos a separação.
- E o que eu ganho com isso? - O moreno deu de ombros, a expressão cínica fixada no olhar.
- O que você ganha? Oras, seu... - Valkiria de repente se levantou irada, apoiando-se sobre a mesa e se inclinando até ele. - Já é privilégio demais olhar nos meus olhos, se quiser saber!
Naquele momento Augustus entendeu o propósito dela com aquela encenação; lutou para fixar os olhos nos azuis sem desmanchar a expressão odiosa e a tempo, antes que ela fosse afastada dele pelo auror. Não foi difícil, mesmo sem a varinha e sem murmurar nenhum feitiço, ela estava completamente aberta a ele e os anos trabalhando com pensamentos o permitiram entrar na mente de Valkiria sem muita dificuldade.
Em um flash rápido ele pôde entender algo do período em que ela passou em St. Mungus, Scrimgeour aparecendo como uma excelente oportunidade de poupá-la e manter as crianças a salvo. As mentiras que, assim como ele, ela também contava aos montes, lançando-as como âncoras para manter-se estável. Todas as dúvidas e inseguranças que a cercavam se mostraram para ele como um quadro, porque não importava mais coisa alguma, ela não possuía mais aquela necessidade doentia de não ser humana, não perante ele, e todas as suas fraquezas eram compartilhadas. Ele também não tinha certeza de mais nada para se pretender algo.
Então viu o julgamento, a liberdade conquistada contra três votos, e o que veio a seguir o fez quase fraquejar em sua máscara. Dois bebês ainda pequenos e frágeis, com enormes olhos castanhos mirando-o enquanto invadia a lembrança de quando Valkiria segurou as gêmeas pela primeira vez. Foi como se ele próprio as tivesse tomado nos braços, mas Augustus sabia que não era real, sabia que a possibilidade ia contra ele ter a chance de qualquer dia fazer aquilo. Não embalaria as filhas e não poderia cantar para elas canções de ninar. Hannelore e Lieselotte... Scrimgeour. O maldito as adotou antes mesmo de desposar a alemã e os nomes que receberam, foi como que para lembrar sempre do peso das circunstâncias de suas origens.
Caesar estava acuado, desconfiado quando reencontrou a mãe. Não se podia dizer que não fora bem-tratado, no entanto não era fácil fazê-lo entender o motivo de ter ficado tantos meses afastado da mãe, porque não veria mais o pai e o que aquele loiro manco estava fazendo entre eles. Augustus não sabia explicar aquilo para si mesmo, também. Ainda assim era tocante ver como o garoto cresceu em tão pouco tempo, estava com seis anos de idade, e olhar muito mais sóbrio do que o de muitas crianças mais velhas.
Doía.
Mas doeu mais quando o contato foi rompido e o que ele viu foi Rufus a puxar a alemã para longe e abraçá-la, confortá-la. Ela manteve os olhos abertos por trás do braço dele, lacrimosos, terríveis de serem vistos. O sofrimento verdadeiro passava longe do que o auror julgava, e do que eles deveriam prosseguir interpretando. O sofrimento era não estar nos braços do marido legítimo naquela hora, não estar levando-o para casa, não estar prosseguindo com suas vidas e seus planos. Para o inferno com a paz, as crias de Prometeus não importavam a eles, mas somente a si próprios.
- Rookwood... - a voz do auror soou mais grave e séria do que o normal, quando se voltou para ele lentamente, deixando Valkiria virar-se de costas como se não suportasse mais a situação. - Se você fizer o que eu te falei, ela se tornará sua ex-mulher. Se você não fizer, ela será sua viúva. É isso que você ganha.
- Eu nunca imaginei que essa loira azeda fosse se tornar tão importante para alguém. - Bufou exasperado, dando de ombros e puxando o pergaminho para si. - Dê-me uma maldita pena e case-se logo com a pedra de gelo, se é isso que você quer. Quando o Lorde retornar, eu estarei mais bem-servido nos bordéis de qualquer maneira.
Scrimgeour cerrou os olhos, porém segurou-se para não perder mais dos próprios limites do que já havia perdido. Com frieza tirou uma pena da capa e pousou-a sobre a mesa, e impassível viu o pergaminho ser assinado. A pior parte seria a seguinte.
- Valkiria, por favor... - o loiro chamou-a, e ela se aproximou relutante, estendendo o braço esquerdo por cima da mesa e aguardando, sem olhá-lo, Augustus tomar sua mão.
Ele o fez, e foi torturante não entrelaçarem os dedos, puxarem-se um ao outro, tocarem-se além do formal e incômodo gesto. Rufus tocou-os com a varinha e proferiu palavras que fizeram um ponto de luz entre eles se materializar e se dissipar, retornando para cada um, dividido em dois, como que guiados por uma artéria dentro de ambos os corpos para onde suas vestes encobriam. Valkiria respirou fundo, como se machucasse, no entanto o auror permaneceu atando-a pelas mãos com Augustus. Um tremor violento agitou seu peito e as lágrimas, então esparsas, inundaram seu rosto.
Fitou o, agora, ex-marido pelo canto do olho e encontrou-o inexpressivo, de longe mais forte do que ela era no momento, e então Valkiria percebeu que para aquele tipo de dor, a resistência dele era maior do que a dela. Ainda assim eles permaneceram longos momentos olhando-se de esguelha, enquanto as mãos permaneceram unidas, sendo necessário Rufus segurá-la novamente ao ombro para que ela voltasse a si e deslizasse os dedos para longe da pele maltratada e áspera de Augustus.
- Se o seu Lorde retornar, Rookwood, nós daremos um jeito nele antes sequer que você saiba.
As últimas palavras de Scrimgeour foram ignoradas, não importavam mais do que a visão real e palpável da alemã a atravessar a porta hesitante, e sumir de vista.
.
Valkiria estava sentada na poltrona com a velha postura de princesa reconquistada, os tornozelos cruzados elegantemente e uma das gêmeas nos braços, recebendo seu olhar compenetrado enquanto se alimentava no peito. Era a mais velha, a maior, Lieselotte. Hannelore, já pronta para retornar ao berço e dormir, estava sendo embalada por Seffora, uma jovem órfã de guerra contratada por Scrimgeour para ajudar a esposa a cuidar das crianças. Sobre a cama, olhando o teto ociosamente, Caesar prosseguia com sua postura melancólica e apegada à mãe. Mesmo que fosse para ficar distante, como era o caso, ele ainda preferia estar em qualquer cômodo onde ela estivesse do que estar com outra pessoa ou criatura. Na hora de dormir, quando não podia estar com Valkiria, conjurava sempre um sem número de insetos voadores, tornando insuportável entrar em seu quarto.
A loira percebeu antes de qualquer um a presença do marido, parado junto ao batente da porta, observando a cena. Sorriu para ele com tranquilidade. Casaram-se poucos dias depois da visita à Azkaban, em uma cerimônia onde somente as testemunhas se apresentaram, algo muito parecido com o primeiro casamento dela se não fosse pelo vestido branco, a farda e, acima de tudo, a constante sensação de falta. O auror partilhava daquilo. Por mais cálidos que fossem os sorrisos, mais atenciosa que fosse em suas ações, e ainda que gemesse extasiada sob suas mãos durante a noite, Rufus era capaz de perceber nela uma distância estranha. Não sabia se era devido a todo o período difícil que enfrentaram, ao cuidado das crianças ou a alguma ligação passada que lhe fazia falta - o que não era a melhor das possibilidades.
- Seffora, ela já está dormindo? - Ele anunciou sua presença, fazendo a jovem olhá-lo com seus olhos azuis assustados antes de inclinar-se ao berço e aconchegar devidamente a bebê.
- Si... sim, senhor Scrimgeour. - Respondeu baixinho, incerta.
- Ótimo, então leve Caesar para tomar um suco de abóbora, por favor.
- Não quero... - interpôs azedo o garotinho, imediatamente após a proposta do padrasto.
- Por favor, meu bem, logo eu me juntarei a vocês, sim? - Valkiria murmurou pacientemente, despertando um olhar antipático do filho.
Sempre que ela demonstrava doçura ele a olhava daquele jeito, como se fosse capaz de repreendê-la por estar agindo daquela forma; sua mãe não era assim antes.
- Vamos, a gente pode fazer bolo de caldeirão também, o que acha? - Seffora tentou animá-lo, mas só conseguiu que o olhar revoltado se dirigisse a ela.
- Nós temos elfos domésticos para isso.
- Caesar! Por favor... - a mãe voltou a murmurar, com menos paciência e fazendo-o entender pelo olhar que o pedido era sério.
Ele bufou e levantou-se em um pulo, saindo correndo do quarto, no mesmo momento em que Lieselotte largou o seio e resmungou, demandando a atenção de Valkiria. Seffora hesitou, mas desaparatou para tentar chegar ao pé da escada antes do garoto e acompanhá-lo aonde quer que se metesse a ir.
Rufus aproximou-se da esposa quando ela já se levantava com a pequena apoiada ao ombro, sacudindo-a de leve e dando batidinhas fracas em suas costas. Sem querer atrapalhá-la, apenas beijou-a na fronte e deixou-a prosseguir cuidando da filha enquanto se acomodava na poltrona onde ela estava anteriormente.
- Como foi o dia? - A loira perguntou baixinho, já começando a embalar a neném.
- As coisas estão melhorando aos poucos, Val, o pior agora é lidar com Azkaban, apesar de tudo, ninguém esperava tantas prisões em tão pouco tempo, e é preciso estômago para lidar com Dementadores.
- Eles querem mais execuções. - Ela concluiu, de pronto. - São criaturas que precisam de almas para viver, de sofrimento. Nem todos os Comensais conseguem sofrer muito por suas ações, convenhamos...
- Valkiria. - Ele interrompeu, resoluto, mesmo que mantivesse a voz baixa. Não lhe agradava ouvir a esposa falando sobre aquilo. - Como foi o seu dia?
Ela deu de ombros levemente, baixando o olhar para a filha, que já pegava no sono. Poderia dizer o quanto Caesar teimou em não se alimentar, em quantas vezes tivera que trocar as fraldas das gêmeas, no quanto apenas suportava a presença de Seffora por saber que era necessária e em como se sentia pressionada por ter ou ela, ou um elfo doméstico, ou até o próprio filho atrás de si o dia inteiro. No entanto, apenas levantou o olhar novamente, dócil.
- Foi tudo bem.
Eles ficaram em um silêncio incômodo até que ela aninhasse Liese ao lado da irmã cuidadosamente, observando-as tão perfeitas, vivendo em paz sem ter a menor ideia do quanto viver doía, apesar de já terem passado pela dor tão heroicamente justamente para viver. Rufus a chamou com um gesto silencioso, e Valkiria se aproximou dele, sentindo suas mãos a puxá-la pelos quadris tão logo os alcançaram. O marido a beijou e a envolveu quando sentiu a mulher sentada sobre sua coxa sã, sendo devidamente correspondido, como se a saudade fosse mútua, as vontades iguais. O contato era quente, apesar de tudo existia um conforto verdadeiro ali, e era o máximo que a alemã conseguia admitir.
- Valkiria... - ele sussurrou sôfrego ao separar os lábios dos dela. - Você de fato quer se esquecer de seu passado?
- A única coisa boa do meu passado são meus filhos. O resto... – ela respondeu pesarosa, e sentiu a mão do auror a lhe envolver o pescoço com leveza.
Ele puxou um fino cordão de ouro que agora habitava o colo dela, apesar de estar sempre por baixo da capa, a opala azul em forma de ovo emitia sempre seu brilho misterioso.
- Mesmo seu irmão? – Ele perguntou, atribuindo aquele significado ao uso constante da joia.
- A forma como ele se foi, não é sequer digna de ser mencionada.
A forma embargada como ela falou suscitou mais uma carícia compadecida do marido. O que ele considerava não era a coisa mais correta a ser feita, no entanto garantiria tanta paz para a mente de Valkiria – e para a dele próprio – que sem qualquer outra pergunta, pedido de licença ou de desculpas, ele encarou fundo nos olhos dela antes de levar a mão até a varinha e apertá-la com força entre os dedos.
- Obliviate! – Disse com firmeza, antes de ver os olhos azuis perderem o foco.
