Olá. Espero que todos estejam bem.

Agora posto a atualização de O DESTINO DE MUITOS, já pedindo desculpas pela ausência de respostas às reviews. Estou longe do computador toda a semana, só nos finais de semana consigo roubar tempo para digitar o que escrevi e resolver problemas. Entretanto creio que essa seja uma situação passageira. Gosto de pensar que é.

Com capítulotermina a primeira fase de Destino. Acho que é um de meus capítulos mais angst. Peço desculpas aos que não apreciam.

Além disso, tive que me obrigar a encarar as cenas que mais temo escrever, espero que tenha conseguido criar um cenário verossímil aos que vão se arriscar a ler.

Só um detalhe: para quem não se lembra, Sudhir era o antigo dono da mecânica na qual Elrohir trabalhava.

Estou ansiosa pela opinião de vocês. Agradeço a Myri, Soi, Nininha, Aine, Layla, Isa, Larwen, Nimrodel, Thaissi, Giby, Lele, Gaby, Kiannah, Denise, Lene, Prique gentilmente deixaram um comentário para o capítulo 36. A história retomou seu rumo e começa uma nova fase, fico feliz que não tenham desistido dela.

Beijos

Sadie

Gostaria de dedicar esse capítulo a nossa mestra Myri. Que está de mudanças em sua vida, mas mesmo assim passou para dar uma olhadinha no Destino de Muitos. Lamento Myri, mas o que você gostou no último capítulo talvez se desfaça neste.


Pois se há uma faculdade humana que merece atenção e assemelha-se ao prodígio é realmente essa aptidão, particular ao homem, de resistir a toda informação exterior quando esta não concorda com a ordem da expectativa e do desejo, de ignorá-la se for preciso e a seu bel-prazer; admitindo a possibilidade de opor a ela, se a realidade insiste, uma recusa de percepção que interrompe toda controvérsia e encerra o debate, naturalmente às custas do real.

Clément Rosset (O princípio de crueldade)


37 - HOSTILIDADE

& Fugir &

Quando o tiro desfez em pedaços o espelho retrovisor da moto, Elrohir encolheu-se mais, ainda sentindo dificuldades em crer na situação na qual se envolvera.

"Dan!" Ele gritou, tentando assegurar-se que o aperto do irmão em sua cintura, fora apenas um reflexo de surpresa e não algo pior.

"Mais rápido, Ro." Veio a resposta que lhe garantiu o que precisava confirmar, antes que sua moto quase tombasse na arriscada curva da próxima esquina. O gêmeo sentiu o joelho passar a centímetros do chão, enquanto sua mente ainda insistia-lhe em conjeturar se aquele cavalo metálico não poderia ir um pouco mais rápido.

Sim. Ele podia.

Seguindo a pé em uma direção contrária, Estel segurava firmemente a mão de Legolas, enquanto ambos desciam apressados por uma estreita alameda, que cruzava todas as enormes e movimentadas avenidas centrais. O chão brilhava de umidade e algumas luzes já se acendiam automaticamente com o fim de tarde. Não chegara o anoitecer, mas o dia cinza e triste escurecia a paisagem.

Legolas deu uma rápida olhada para trás e a imagem que teve não foi muito animadora. Um grupo de quatro homens já apontava no começo da longa e estreita rua. O da dianteira ergueu um dos braços apontando para os dois fugitivos. Apesar do grupo optar pela perseguição também a pé, encurtavam a distância até suas vítimas com preocupante rapidez.

Estavam cada vez mais próximos.

"Estel... Precisamos... nos separar." Legolas disse, nos poucos intervalos que sua respiração forçada lhe oferecia.

O guerrilheiro sequer o olhou, sacudindo apenas a cabeça como resposta, enquanto os dois atravessavam mais uma movimentada rua, ouvindo as buzinas dos insatisfeitos motoristas, que se viam obrigados a reduzir sua marcha ou desviar-se da irresponsável dupla.

"Na faixa de pedestres, idiotas!" Um deles ainda teve disposição de gritar-lhes pela janela.

Viraram a próxima esquina e encostaram-se em uma parede de tijolos expostos de um prédio abandonado. Buscavam algum descanso ou quem sabe, por sorte, um esconderijo. Legolas apoiou a mão no peito. Por Ilúvatar, ele não conseguia respirar, por mais que tentasse buscar um fôlego que fosse. Não tivera tempo de vestir novamente os agasalhos que tirara e a simples malha que usava não o estava aquecendo tanto quanto ele gostaria.

O peito chiava como uma chaleira fervente e Legolas forçou irritado a mão sobre ele, passando a esfregá-lo com o vigor de quem tenta fazer um mecanismo velho funcionar. Em instantes a mão pesada e firme de Estel estava sobre a sua, segurando-a gentilmente.

"Acalme-se, Azrael. Vai dar tudo certo."

Legolas reabriu os olhos e encontrou aquele em cuja existência, apesar de todo o tempo de convívio, ele ainda custava a crer. Estel olhava-o com o mesmo afeto dos dias antigos, das vésperas das grandes batalhas, dos infindáveis conflitos, afagando-lhe a mão com o polegar e oferecendo-lhe um sorriso assegurador.

O elfo esvaziou os pulmões cansados. Sentindo-se mais uma vez inconformado com a injustiça dos fatos. Por que o perseguiam? Por que não permitiam que alguém, que só busca justiça para um povo que sofre, faça algo a respeito de sua nação?

Eram questionamentos vãos. Legolas bem o sabia. Questionamentos que não o ajudariam a fazer algo pelo amigo em um momento como aquele. A presença daquelas pessoas simbolizava uma total guinada nos fatos. Tudo parecia indicar que Drago ou perdera de vez a paciência ou a sanidade. Ele parecia disposto a um tudo ou nada de proporções incalculáveis.

"Pre... Precisamos nos... nos separar... Estel..." Legolas apressou-se em repetir o conselho, esfregando os braços e envolvendo o próprio corpo. Estava com frio, estava exausto, mal podia ficar em pé, sequer conseguia respirar normalmente. Dessa vez não poderia fazer o papel ao qual sempre se propusera. Não podia garantir proteção ou ao menos apoio de luta ao bom Eleazar. Muito pelo contrário, se ficasse ao lado do amigo, poderia ser sua perdição. "Você deve... deve tomar outra... outra direção..."

Estel, apesar de olhar o amigo com atenção agora, não parecia dar ouvidos às palavras que esse proferia. Quando Legolas deu por si, o guerrilheiro tirava a grossa jaqueta que usava.

"Não... Não... Estel...", Pediu o príncipe, tentando esquivar-se quando este se pôs a vesti-lo com o agasalho.

"Sabe que não sinto frio quando estou nervoso." O outro forçou um sorriso ao ver o elfo desistir de sua defesa e aceitar a oferta, mas o príncipe não se sentiu capaz de retribuir a gentileza.

Legolas sentia o perigo cantar-lhe em todos os cantos da mente. A pele arrepiava-se com a perspectiva que suas visões lhe desenhavam e ele não conseguia mais diferir o que era fruto de sua aflição, do que o destino estava realmente lhe mostrando.

"Elbereth... Por favor... Por favor... Precisa ir agora..." Ele ainda conseguiu dizer, enquanto o guerrilheiro subia até o topo o zíper da jaqueta que o ajudara a vestir, ajeitando-lhe a gola forrada para proteger-lhe o pescoço.

"Vai dar tudo certo." Reforçou Estel, sacudindo negativamente a cabeça em resposta e olhando em seguida a sua volta, enquanto procurava pensar o mais rápido que podia.

Legolas recostou a cabeça na parede fria que tinha atrás de si e procurou respirar mais devagar, mas seu peito doía e sua respiração continuava ruidosa. Ele voltou a curvar-se e enfim passou a tossir. Estel continuou a olhar preocupado as redondezas, apoiando agora a mão nas costas curvadas do amigo e massageando-as devagar.

"Vai dar tudo certo." Ele voltou a garantir, mas dessa vez foi Legolas quem sacudiu a cabeça.

"Precisamos... nos... separar..."

Estel bufou enfim, lançando um olhar decisivo ao amigo, um olhar que pedia mais do que silêncio, pedia confiança.

"Não vou te deixar, Azrael." Ele foi categórico. "E não me faça repetir isso, pois se necessário o farei, quantas vezes você precisar ouvir e estaremos perdendo um tempo precioso."

Legolas fechou os olhos, mas antes que pudesse objetar, voltou a tossir. Lamentava a falta de tempo que não os favorecia. Aliás, o tempo não os favorecera desde que ele descera daquela árvore e mal pudera informar aos amigos o que havia visto.

Na verdade, o que ele de fato havia visto não simbolizava nem a metade dos problemas que tinham. Drago excedera-se em seus requintes de planejamento e crueldade. Deixando o parque cercado por homens com olhos atentos em lugares estratégicos. Aqueles que ele vira eram, na verdade, os últimos a chegar.

Nem em seus piores pesadelos, qualquer pessoa daquela família julgava que o mercenário ruivo pudesse ir tão longe.

Mas ele pôde. E pelo visto pretendia ir ainda além.

Não houvera de fato tempo. Legolas apenas se lembrava dos olhares que os gêmeos e Elrond trocaram e das centenas de informações que pareceram compor aquela troca de impressões. Elrond segurou a mão de Celebrian e chamou por Danika, afastando-se com as crianças e não olhando para trás. Certamente, o sábio curador fizera a opção mais sensata. Ele e a esposa ainda eram os menos conhecidos ou, quem sabe, por sorte, até totalmente desconhecidos. Além de tudo, ainda havia elementos que não podiam de forma alguma fazer parte daquele conflito. Elementos que o casal elfo protegia, mesmo sem saber de seu exato valor.

Os netos.

Era o momento dos sacrifícios. E os ombros do curador jamais pesaram tanto.

Aquela atitude deixava a encargo dos gêmeos a proteção dos dois irmãos de coração que o destino lhes dera. No entanto, Elladan e Elrohir, mesmo dispostos a lutarem o conflito de suas vidas, não puderam cumprir a promessa silenciosa que fizeram ao pai, pois Estel e Legolas tinham outros planos, planos estes compostos por idéias com as quais o guerrilheiro e o elfo louro pareciam concordar. Eles sabiam a quem os homens de Drago procuravam e não estavam mais dispostos a arriscar outros que amavam.

Elladan e Elrohir não puderam opinar a respeito, de fato o fariam, se o rápido desaparecimento da dupla de amigos não os tivesse impedido.

O que a Estel não ocorrera fora que seus irmãos idênticos pudessem também compor o objetivo de busca daquele grupo hostil.

Agora os gêmeos deslizavam pelas encharcadas alamedas do centro da cidade, desviando-se como podiam da investida dura e impiedosa de uma outra dupla em outra moto; uma moto, infelizmente, bem mais potente que a do gêmeo mais novo.

"Morgul e todos os seres das sombras." Elrohir blasfemou, agarrado ao guidão e encolhendo-se para passar por um intervalo impossível entre dois caminhões. Ele ainda sentiu o gêmeo atrás dele fazer o mesmo e a respiração de Elladan alterou-se ainda mais.

"Estão se aproximando, Ro." Ele lhe disse ao ouvido. Os capacetes, deixados no carro do pai, eram elementos que lhes fariam uma grande falta. Mas não havia tempo para mais esse lamento.

Ruas eram deixadas para trás. O caminho ao centro velho parecia se fazer o mais sensato, mesmo conjeturando todos os poréns. Na parte antiga da cidade, o lugar onde outrora tudo fora movimento e agora se resumia apenas em decadência, os espaços transitáveis ainda adormeciam, preparando-se para a vida noturna, cuja agitação só encheria suas ruas e becos a altas horas da noite.

Sim. Talvez fosse a melhor opção.

A moto de Elrohir venceu uma rua esburacada e vazia, mesmo o gêmeo tendo trabalho para manter a velocidade. Depois ganharam a antiga marginal, passando a sentir o cheiro forte do rio escuro que corria para leste. Símbolo da civilidade deixada para trás.

A estrada estava vazia, como era o esperado. Entretanto, a disponibilidade de espaço e oportunidade pareceu oferecer, à dupla de perseguidores, incentivo para voltar a atirar nos irmãos. Elrohir encolheu-se novamente quando uma bala atingiu a ponta de seu guidão.

"Mandos." O elfo moreno estremeceu e o irmão atrás dele apertou-lhe o corpo.

"Acertaram em você?" Elladan indagou preocupado.

"Não. Só estou chamando pelo Vala para pedir-lhe que reserve um lugar para mim diante de sua lareira." Elrohir buscou espírito para brincar, enquanto punha-se a ziguezaguear a moto e saboreava uma ponta de satisfação com o bufar indignado do irmão atrás dele.

"Ro."

"Que é?"

"Cala a boca."

Elrohir sorriu, mesmo julgando aquele o momento mais inapropriado, mas, quando outra bala estourou o espelho que restava, seus traços readquiriram a seriedade do guerreiro de sempre e ele decidiu que, se o motor de sua moto não fundisse naquela noite, ele nunca mais iria querer outra na vida que não aquela.

Valia a pena tentar?

Sem dúvida.

Alguns flocos brancos quase invisíveis passaram a fazer seu caminho ao chão, tornando qualquer escapada ainda mais arriscada e trabalhosa. Principalmente aquela que se faz a pé, por trajetos repletos dos carros, cujas marchas se reduziam automaticamente, devido ao chão escorregadio.

Estel continuava a puxar o arqueiro, que corria com menos rapidez que o guerrilheiro gostaria. Pelos céus, seu pai não havia dito que elfos não adoeciam? Por que, por todos os santos Legolas estava naquele estado? Por que seu corpo não se recuperava dos efeitos da fumaça? Por que ele enfraquecia visivelmente dia a dia?

O guerrilheiro encostou-se novamente em outro beco e dessa vez puxou o amigo para mais junto de si. Legolas baixou o rosto, apoiando a testa instintivamente no ombro de Estel e voltando a tossir.

"Vamos conseguir, Azrael." Estel garantiu, envolvendo o elfo pela cintura ao sentir-lhe os joelhos fraquejarem.

"Não..." Legolas respondeu entre seus acessos. "Estou atrasando você, Estel... Sabe... que... não... que não pode... ser capturado... É impor... importante..."

"Todos somos importantes..." O guerrilheiro respondeu, afagando carinhosamente as costas do amigo quando este recomeçou seu suplício.

"Ninguém... Ninguém é mais... mais... importante que... você..." O outro retrucou, o rosto ainda baixo, a cabeça apoiada no ombro do amigo. "Tem que... que me deixar... me deixar para trás."

As mãos do príncipe então se apoiaram no peito do amigo humano e Estel estremeceu ao sentir que Legolas queria afastar-se dele. Um frio tenebroso traçou a espinha do guerrilheiro, cujo instinto sempre clamava mais forte. Ele segurou-o então pelos ombros, mas não recebeu seu olhar. Legolas parecia buscar no chão alternativas que inexistiam naquele asfalto rústico.

"Azrael." Estel o chamou então, e só aquele nome soou-lhes triste como um infortúnio. "Azrael, olhe para mim. Vamos."

Legolas suspirou e fechou as pálpebras, como se visse o destino todo em um quadro perfeito a sua frente. Um quadro de tristes cores. Depois de alguns instantes realmente muito breves ele ergueu obediente a cabeça. Seus olhos estavam avermelhados e seu rosto empalidecera de uma forma preocupante.

Estel empalideceu também.

Por todos os anjos e seus cânticos de salvação. Ele sentiu seu coração clamar, fechando também momentaneamente os olhos. Azrael não podia perecer. Ele era sua luz, sua fonte de energia e disposição. Sua certeza de que o que era certo e justo ainda tinha chances de triunfar.

"Azrael, quero que me prometa uma coisa." Ele disse com firmeza, prendendo os olhos cansados do amigo nos seus para crê-lo realmente atento ao que iria ouvir. Mas Legolas virou o rosto no mesmo instante, desvencilhando-se do apoio que o guerrilheiro ainda lhe oferecia, mesmo sem o querer.

"Não me... não me peça... o que não posso... cumprir..." Ele pediu em tom de súplica e o rosto do amigo a sua frente contorceu-se.

"Pois tem que prometer." Estel segurou-o com mais força. "Tem que me prometer que vai agüentar..."

"Não... por favor... por favor, Estel..."

"Tem que prometer, Azrael." O guerrilheiro ergueu seu tom. "Prometa. Prometa-me que, seja qual for nosso trajeto daqui até que consigamos a liberdade, você vai dar o que tem de si e o que te falta para ficar em pé e alcançá-la comigo, compreende, Azrael?"

"Precisamos nos... nos separar... Estel..." Legolas apenas repetiu a idéia que vinha proclamando, os olhos assustados giravam agora sem direção certa, parecendo concentrados em algum som distante. "Eles estão se apro... aproximando."

"Então prometa." Estel lhe deu uma leve sacudida, ignorando o receio que aquela informação lhe despertava, e Legolas soltou o pouco ar que ainda tinha guardado no peito.

"Já não... não aprendeu que... não sou de confiança..." Ele tentou desconversar, tentou adicionar a sua voz seriedade, conformismo. "Não sabe que... que minhas promessas..."

"Não as que me faz. Nunca as que me fez." Estel cortou-lhe a sentença categórico. "Sempre cumpre as promessas que me faz. Sempre. Não vai falhar comigo dessa vez, vai, Azrael?"

E havia tempos que o príncipe não ouvia tão significativas palavras. Seus olhos ainda ficaram presos nas azuladas janelas da alma do guardião e ele voltou a sentir a teimosa esperança que o conduzia.

"De todos... todos os nomes... que lhe deram... mellon..." Disse o príncipe, sua voz desaparecendo devagar. "Nunca um lhe foi retrato... mais fiel... do que... do que Estel..."

E ele sorriu, mesmo sentindo os olhos intrigados do amigo. Ele sorriu e seu sorriso trouxe ao coração de Estel o que o guerrilheiro a certeza que lhe faltava, a de que tudo ainda poderia caminhar para o trajeto ao qual ele se dispusera. A certeza de que no final, o sonho não se resumiria em cinzas.

"Eu prometo." Estel ainda pôde ouvir, antes de um som estridente estalar próximo a sua cabeça. Os dois amigos, nem tiveram tempo de se olhar em busca de qualquer outra resposta, passando a correr novamente o quanto podiam.

Atravessaram, quase sem olhar, uma movimentada avenida, parando alguns instantes no canteiro central. Os quatro perseguidores chegaram até o outro lado e Estel pôde vê-los perfeitamente. Ele não conhecia dois deles, mas os outros eram mais do que seus conhecidos. Haviam feito parte de seu grupo no passado.

Quando seus antigos irmãos de armas e ideais o viram, o guerrilheiro percebeu que um deles pareceu vacilar, enquanto o outro também mal pôde manter seus olhos nos dele.

Estel ainda teve espírito para tentar digerir mais aquela cena, antes de surpreender-se em ver que o quarto oponente, que agora iniciava a travessia da arriscada pista, mantinha a arma em punho e não parecia sentir qualquer receio de usá-la ali mesmo.

"Está armado!" Um rapaz gritou, apontando para a mesma cena que Estel vira e pondo-se a correr em seguida, empurrando os que estavam a sua frente.

E ninguém soube ao certo se foi ali que o caos começou.

Agora uma verdadeira multidão corria, os carros, que se aglomeravam naquela pista, tentavam ao máximo acelerar para sair do fogo cruzado.

Era tudo o que Estel não queria, ser obrigado a sacar sua arma e disparar no passeio público, a arriscar outras vidas.

Mas estava ali, no último lugar que desejava estar, escondido com Legolas atrás de uma cabine telefônica e disparando sua arma na direção dos perseguidores que ainda não haviam conseguido atravessar a segunda pista.

Caos.

O guerrilheiro concentrava-se, buscando acertar apenas o asfalto diante dos mercenários para impedir que avançassem em seu trajeto, antes que eles pudessem escapar. Contudo, a cada instante, percebia o quão impossível era tentar conter aquele inferno. A poucos passos dele um homem caiu segurando a perna atingida e urrando de dor.

"Não!" Ele sentiu Legolas segurá-lo pelos ombros, quando teve o instinto de erguer-se de onde estava para tentar oferecer alguma ajuda.

O elfo tinha razão.

Aquilo era um campo de guerra, no qual, infelizmente, estavam todos diante e a mercê de sua própria sorte.

Tiros intermináveis atingiam a cabine, quebrando os vidros e fazendo chover estilhaços por sobre os dois amigos. Legolas passou os braços protetoramente em volta de Estel, deixando o corpo cobrir as costas do amigo, enquanto este continuava a atirar, agora sem o mesmo cuidado de não acertar os antigos companheiros.

"Droga!" Lamentou-se o guerrilheiro, vendo-se obrigado a recarregar a arma que usara ao se ver sem munição. Entretanto, o tempo, mesmo mínimo, que o guerrilheiro gastou no trabalho, foi suficiente para que um dos opressores conseguisse vencer os carros e chegar à calçada na qual a dupla estava.

Estel ergueu os olhos surpreso e tudo o que viu foi o mercenário avançando em sua direção, arma em punho, olhos flamejantes. O guerrilheiro ergueu a arma, mas seu coração vacilou diante da possibilidade de roubar a primeira vida em anos de guerrilha. Ele não queria atirar, pois sabia que tudo seria diferente depois disso, tudo seria diferente depois que tivesse se igualado aos outros, tivesse perdido mais esse elo de humanidade.

Depois daquele dia, decerto, Estel ainda não compreenderia como tantos pensamentos puderam cruzar sua mente em um instante de tão irrisória extensão. Outra sensação da qual com certeza ele não se esqueceria seria a da mão de Legolas envolvendo a sua, e do dedo do arqueiro cobrindo o seu no gatilho, disparando sem qualquer hesitação.

E daquele corpo caindo, com um tiro certeiro no coração.

"Azrael é o anjo da morte." Ele ouviu a voz embargada do amigo a seu ouvido e teve a impressão de que havia lágrimas em seus olhos. "Mas eu sou apenas Legolas."

Mesmo que houvesse tempo, a Estel jamais ocorreria uma observação qualquer que retirasse a sombra daquele instante.

Mas não havia tempo para a busca de qualquer porquê.

Foi então que o motorista de um carro da pista contrária, aquela cujo caos atingia por completo, pareceu nitidamente desesperar-se e decidiu que sairia daquele conflito custasse o quanto fosse. Ele subiu na ilha central e passou para a contra-mão, transformando o que já parecia um caos, em uma perfeita cena de guerra.

Um grande caminhão que vinha em velocidade razoável, no sentido contrário, não teve tempo para entender o que tomava estranhamente sua frente.

Quando o barulho da lataria colidindo e vidros se estilhaçando somou-se aos demais sons de desespero, Estel julgou que o que era infortúnio para uns poderia lhes ser salvação. Era chegado o momento deles retomarem sua fuga, aproveitando que o enorme veículo ironicamente havia tampado o campo de visão de seus opressores, oferecendo-lhes chances de uma possível escapada.

"Venha, Azrael." Ele tomou novamente a mão do amigo, apertando-a de forma a não deixar qualquer dúvida ao abatido príncipe. Eles se olharam por um milésimo de segundo, mas foi o suficiente para provar a Legolas que, o que ele havia feito, não despertara no guerrilheiro a sensação de decepção ou desprezo que ele julgava que despertaria.

A dupla pôs-se em pé então, passando a correr pela calçada, enquanto ao longe já podia ouvir o som das esperadas sirenes.

Posição difícil aquela em que estavam, na qual quaisquer que fossem os novos elementos a chegar, não trariam a ajuda que eles precisavam.

Estel puxou Legolas por uma estreita esquina,

"Não, Estel..." O elfo relutou em acompanhá-lo, lembrava-se bem de sua antiga fuga e do quão inconveniente fora se afastar das grandes avenidas.

"Não podemos arriscar a vida de outros, Azrael." O guerrilheiro respondeu, acelerando mais o passo e praticamente arrastando o companheiro louro. "Aqui somos os únicos alvos. Nosso medo não justifica usarmos inocentes como escudos."

Legolas silenciou-se, não se sentia capaz de responder, de explicar ao amigo qual era seu temor. Ruas estreitas, becos escuros. Isso tudo o fazia lembrar-se de que às vezes as oportunidades...

Faltam...

E os dois estagnaram-se diante de um inconveniente muro de quase três metros. Legolas sentiu o aperto da mão do amigo na sua enfraquecer. Entretanto, o momento foi muito breve, pois logo o Aragorn de sempre ressurgiu no guerrilheiro, que correu em direção a mais aquele obstáculo, parando diante do muro e oferecendo as palmas sobrepostas como apoio ao elfo.

"Vá."

Legolas olhou para trás mais uma vez, depois achou por bem não discutir. Ele fixou o pé direito nas mãos de Estel, que o ergueu até que conseguiu alcançar o topo, agarrar-se como podia e subir, esticando-se na extremidade, e estendendo a mão para puxar o amigo. Estel segurou-a e começou sua investida de fuga.

No fim daquela ruela sombria, num entardecer que já parecia infinito, houve enfim o momento do inesperado. O grito de dor de Estel trouxe ao amigo príncipe o que lhe reservavam as últimas forças. Legolas nem sequer olhou como vinham os opressores que corriam agora na direção deles, ele puxou o amigo com toda a força e ambos caíram do outro lado. Ele de costas no chão frio e o guerrilheiro por sobre seu corpo.

Mais um momento de dor a ser superada e como estavam cada vez mais freqüentes e cada vez mais difíceis.

Legolas abriu os olhos, tentando ignorar suas costas, o pesado corpo do amigo por sobre ele, tirando-lhe quase o pouco ar que lhe restava, o som dos passos apressados dos inimigos do outro lado. Ele ergueu-se como pôde, afastando um pouco Estel, que gemeu, e só então teve coragem de ver onde o guerrilheiro havia sido atingido.

"Tem... tem que ir..." O conselho o despertou da visão aterradora que tinha. A de um tiro que havia acertado a perna do guerrilheiro, fazendo brotar muito, mas muito sangue mesmo, inundando-a. Legolas retirou o cinto do amigo e improvisou um torniquete. Depois se ergueu, puxando Estel para que se fizesse o mesmo.

"Azrael... Não... Azrael fuja..." A voz do ferido soou sem que este abrisse os olhos.

"Não." Legolas respondeu enfático, colocando-o em pé e forçando-o a apoiar-se em seu ombro. Voltaram a correr pela escurecida rua como podiam.

Aquela era uma luta perdida. Tanto Legolas quando Estel ouviam essa desagradável verdade a lhes gritar. Legolas mal conseguia correr por conta própria e Estel, endurecido de dor, não era um fardo com o qual o príncipe conseguisse atingir uma velocidade de fuga, que mantivesse a pouca vantagem conseguida.

Não havia saída.

Atrás deles, já se ouviam os baques de pés decididos atingindo o chão.

Seriam capturados. E aquela era uma desesperadora conclusão.

"Azrael... Azrael..." Estel começou a endurecer mais o corpo, contendo os passos como se quisesse parar, quando eles entraram em outra pequena travessa. "Tem que me... deixar para trás." Ele pediu e o príncipe enfim concluiu que de fato não havia outra saída.

Teria que ser feita a vontade do amigo.

Entretanto, não exatamente como Estel queria.

Tudo tinha que ser rápido, rápido demais. Tão rápido quando o pensamento que veio ao príncipe. A distância já era percorrida por aqueles que os perseguiam e logo eles teriam companhia. Ao elfo louro sobrou uma alternativa que lhe doía o peito, que lhe inundava de incertezas. Mas mesmo assim, mesmo com o que poderia ser certo, somado a todos os prováveis enganos, ele ergueu o corpo do amigo como pôde, apoiando-o por sobre o ombro e ignorando-lhe os últimos gemidos de dor e dúvida.

Uma caçamba de lixo, o mais inapropriado dos lugares, foi o último esconderijo que se ofereceu como abrigo e para o qual o príncipe não pôde dar as costas. O guerrilheiro foi jogado ali, e Legolas sentiu o espírito da despedida que sempre o assombrara abraçá-lo com suas ignóbeis garras mais uma dolorosa vez.

"Azrael..." Ele ouviu o amigo chamá-lo.

"Fique... não... não faça barulho algum..." Preveniu o príncipe, apoiando com tristeza a mão na caçamba fria. Depois ele baixou os olhos por um breve instante e sussurrou quase para si mesmo. "Adeus, mellon... gwador-nín."

Foi o que o tempo lhe disponibilizou fazer, antes que o som estivesse assustadoramente próximo. Legolas colocou-se a correr em seguida e sentiu uma amarga satisfação ao ver que os quatro homens passaram pela caçamba sem parar, ao verem seu vulto descendo pela estreita viela.

Estel estava a salvo.

Ao menos por enquanto.

Seu objetivo agora era afastar o perigo o quanto podia do amigo ferido.

E conseguiu.

Legolas agora descia a rua com os quatro homens atrás de si. Uma travessia quase suicida de outra movimentada avenida garantiu-lhe alguma vantagem. Vantagem esta que o elfo usou para apalpar um dos bolsos e sentir uma ponta de alegria.

O celular de Estel estava na jaqueta que lhe emprestara.

Teria fôlego para o que precisava?

Uma voz do outro lado da linha quase lhe tirou todo o sentido de ser, quase o fez esquecer do que deveria dizer.

"Estel?"

"Mes... Mestre..."

"Legolas!" O tom do lorde elfo transformando-se, o bom curador sentiu, mesmo à distância, todos os males que se faziam presentes naquele fatídico momento. "Onde você está, criança?"

"Mestre... Estel... Ele... Ele está... em uma... caçamba de... de lixo... ferido..."

Elrond silenciou-se mesmo sem intenção.

"Onde, onde ion-nin?" Ele forçou-se a dizer.

"Numas das... das vielas... da quarenta... quarenta e três..." O príncipe ainda disse e, ao perceber que, do outro lado da linha Elrond compreendera a informação, ele sentiu um peso menor em seu coração. Sabia do que seu mestre era capaz. Confiava nele completamente e no que somente ele conseguia fazer despertar. O leve toque de bondade que lhe era oferecida como alguns bálsamos.

"Meu mestre... meu afeto é... é seu... " Ele ainda pôde dizer. Mas, mesmo ansiando desesperadamente ouvir a resposta, mesmo sentindo que talvez aquela pudesse ser a última oportunidade que teria, de ouvir a voz daquele elfo a quem queria bem como a um pai, Legolas forçou-se a desligar e atirar o celular na primeira lixeira pela qual passou, antes de atingir a próxima larga avenida e tomar a direita, um rumo mais distante do que o levaria para casa.

E enquanto tudo era pesadelo nos caminhos do centro da cidade, a distantes quarteirões dali, uma dupla de irmãos ainda tentava despistar outros iguais perseguidores. Elrohir estava impregnado de seu espírito de guerra, indignado com o fato de ter que dar as costas e fugir.

"Revide, Dan!" Ele gritou pela décima vez e Elladan, assim como fizera nas outras nove, ignorou. Ele não ergueria sua arma e atiraria em ruas abertas, nos cantos das quais dormiam indigentes, caminhavam prostitutas. Estavam em um lugar obscuro da cidade, onde o que era mais obscuro ainda rasteja como se fingisse levar algo próximo de uma vida.

"Estão atirando em nós, Dan!" O gêmeo gritou, vendo-se obrigado a apertar o freio para que houvesse oportunidade de desviar de um bêbado que cruzava inconscientemente a rua. Na verdade, parecia mais inconsciente do que qualquer desavisado em sua posição. O homem sequer notou o quão perto esteve de ser atropelado, tanto pela moto do gêmeo quanto pela de seu perseguidor.

"Alguns têm mais sorte do que merecem." Bufou o elfo moreno, olhando rapidamente para trás.

"Concentre-se!" Elladan lhe deu um leve aperto na cintura e a moto voltou a reclinar-se na próxima esquina, o chão úmido a centímetros de distância.

"Não reconheço essa região." Elrohir comentou preocupado e mais preocupado ficou ao perceber que seu perseguidor não parecia tê-lo acompanhado na opção pela direita.

"Então porque nos trouxe para cá?" O irmão indagou contrafeito. A sensação de perigo, que apenas ele sentia nas grandes guerras, estava fazendo sua visita desagradável e pouco bem vinda.

"Porque não há movimento." Respondeu o outro, igualmente irritado. "É a Boca".

"Boca?" Elladan repetiu, franzindo intrigado a testa, olhando ao seu redor. Elrohir diminui a velocidade, enquanto a moto passava por uma rua comercial. As entradas abriam-se como que despertadas pelo término do dia. Já era noite e por trás das rangentes portas surgiam balcões velhos e rostos desconfiados.

"Boca..." Elrohir repetiu, buscando dar a seu rosto um ar igualmente desconfiado, tentando vestir uma máscara que se adaptasse ao que via a sua volta.

"É o subúrbio." Elladan comentou. "A área da decadência."

"A Boca." O irmão voltou a repetir, apertando os lábios preocupado e sentindo que todo aquele silêncio era mais negativo do que parecia ser. "Onde estão os desgraçados?"

"Talvez os tenhamos despistado." Sugeriu o irmão.

"Talvez eu seja um Vala." Ironizou o outro e Elladan sacudiu a cabeça irritado. Não estava disposto às ironias do irmão. Queria sair daquele enlace, ir procurar Legolas e Estel. Tentar saber do pai. Ele puxou então o celular.

"O que vai fazer?" Elrohir indagou.

"Tentar falar com o ada."

"Não vai conseguir. Nossa porcaria de celular não pega aqui."

"Como sabe? Conhece essa região, Ro?"

Elrohir suspirou, reduzindo ainda mais a marcha.

"Sudhir tinha uns amigos aqui." Ele enfim afirmou. "Gente que vive escondida... que vive na clandestinidade. Certos aparelhos não alcançam, mas outros servem bem ao tráfico e outras negociações ilícitas."

Elladan franziu o cenho e Elrohir bufou forçadamente com o significado daquele silêncio.

"Não me pergunte mais nada." Ele adiantou a resposta. "Assunto morto com Sudhir. Da conta dele resolver com quem quer que seja."

"Assunto seu." Elladan esticou o queixo por sobre o ombro do irmão. "Ou então não conheceria esse lugar."

"Assunto morto, Dan." Elrohir irritou-se. "Morto com Sudhir e do qual eu nunca fiz parte."

Elladan envergou as sobrancelhas, insatisfeitíssimo. Aquela era uma novidade que se apresentava em um momento muito impróprio, mas para a qual ele não podia dar as costas.

"Para que ele te trouxe aqui, Ro?"

"Ele nunca me trouxe. Eu vim sozinho."

"E para quê?"

"Para buscar algumas coisas que ele precisava."

O irmão intrigou-se.

"Que coisas?" Ele enfim perguntou.

"Coisas." O outro respondeu mais irritado.

"Que coisas, Elrohir?"

"Merda, Dan!" O mais novo explodiu enfim. "Esse povo vive fugindo. Vive escondido. Não vive! Eles têm que enganar a tristeza com alguma porcaria qualquer."

Elladan baixou então a cabeça, apoiando a testa com força nas costas do gêmeo.

"Não acredito que você vinha comprar essa porcaria qualquer para ele aqui, Ro."

O irmão deu de ombros, soltando um suspiro impaciente e Elladan mostrou-se igualmente irritado.

"Você tem idéia do que isso faz, Elrohir? Você..." Ele parou então, uma idéia mórbida lhe ocorreu. "Elrohir, você não..."

"Nunca usei porcaria alguma." O outro se antecipou. "Não preciso dessas merdas para me iludir de que a vida é boa. Acho que lixo algum pode fazer isso por mim. Infelizmente."

Elladan soltou os lábios surpreso. Sabia o quão descontente Elrohir sempre esteve. Nem mesmo atracando em Valinor, sentindo a felicidade de rever a mãe, ele sentia que o irmão conseguira deixar certas amarguras para trás. Entretanto, de volta a Terra Média renovada, os sentimentos de contrariedade de Elrohir pareceram dominá-lo mais do que qualquer um poderia ser capaz de impedir.

"Você voltou aqui depois que ele morreu?" Sondou então, enquanto o irmão cruzava um beco com ares de quem parece reconhecer o lugar.

"Não." Elrohir respondeu insatisfeito. "Já tem gente infeliz demais a minha volta para eu ter que buscar a convivência de outros."

O primogênito silenciou-se, seu coração apertado pela dor do irmão a qual ele nunca conseguira de fato aplacar. A mão de Elrohir cobriu a sua então, a que ele mantinha enlaçando-o na moto.

"Você se preocupa demais comigo, Dan." Ele disse. "Não devia. Sabe que eu sou tal qual cão que ladra, preso nas correntes. Posso latir o quanto meus pulmões me permitirem, mas nunca irei a lugar algum ou farei o que quer que seja."

O triste comentário arrancou um suspirou igualmente triste do outro elfo, que apoiou o queixo no ombro do irmão.

"E se soltarem as correntes?"

"Não podem. Nem quero."

"Por quê?"

"Porque as correntes são tudo o que eu tenho... Elas são... são vocês..."

Elladan emudeceu e o significado daquela confissão ficou ambíguo demais, paradoxal a extremos para que ele pudesse decifrá-lo.

"Solte um cão que viveu a vida preso." Elrohir comentou pensativo. "E vai acabar encontrando-o embaixo da roda de algum caminhão qualquer." Ele voltou a apertar a mão do irmão. "O que é prisão para uns, é salvação para outros." Completou então, voltando a segurar firmemente o guidão para fazer a próxima curva. Parecia finalmente ter reconhecido o lugar.

O gêmeo mais velho aquietou-se, sentindo sinceridade nas palavras do irmão, por mais tristes que fossem. Em seu coração ainda guardava a esperança de que Elrohir voltasse a ser feliz, como quando eles eram mercadores, antes do ataque da mãe, quando havia um pouco de paz naquele pedaço de chão.

"Que ótimo!" O tom irônico do gêmeo caçula despertou-o de seus devaneios e ele se preocupou.

"O que foi?"

Elrohir ergueu o queixo, apontando discretamente para um homem parcialmente escondido atrás de uma janela velha, e que os olhava de forma suspeita, enquanto falava em um celular.

"É como eu digo. Algumas merdas de celulares funcionam bem demais aqui."

"Essa não..." Elladan leu as informações daquela cena melhor do que gostaria e o aumento da velocidade da moto, mostrou-lhe que o irmão compartilhara da mesma leitura.

Logo o que era hipótese tornou-se intragável certeza. E a mesma moto surgiu de uma esquina como se se materializasse em pleno ar. Elrohir dobrou a esquina oposta em um reflexo, a tempo de escapar de uma rajada de balas.

Voltavam a participar da indigesta sessão cão e gato.

Desceram alamedas, desviaram-se de mendigos, inválidos, bêbados, entorpecidos, desvalidos. Subiram becos, contornaram praças e aquele lugar degradante parecia ser maior do que eles julgavam possível. O gêmeo mais novo começou a arrepender-se da infeliz decisão que tomara.

Mesmo levemente conhecido no lugar, ele não era parte dele e isso se tornou mais claro quando os tiros recomeçaram e as portas e janelas passaram a se fechar por onde quer que a moto passasse.

Estavam absolutamente sós. Entregues ao que o destino reservava para aquele começo de madrugada.

Manter a velocidade naquelas travessas escuras e molhadas estava transformando a moto em algo quase incontrolável, mas Elrohir a dominava como podia, ultrapassando os últimos obstáculos, desviando-se das poças molhadas que a neve fina criava, buscando aderência e estabilidade onde tudo era caos e desordem. Ele de fato aprendera bem a dominar aquele cavalo sem espírito. Aprendera a dominar muita coisa no mundo moderno.

Só não aprendera a dominar.

Certos imprevistos.

Última travessa, escolha difícil entre uma direta e esquerda completamente desconhecidas. Elrohir sentiu uma incômoda sensação de que qualquer que fosse sua decisão ela estaria errada. Seria possível? Uma questão não possuir resposta correta?

Naquele caso.

Sim.

Fora um som estranho, o estampido. Os irmãos não souberam ao certo se o que desgovernara a moto fora uma das balas, que tomavam o caminho e encontraram enfim destino certo, ou qualquer um dos inúmeros obstáculos de lixo e outros objetos que estavam pelo chão.

Elrohir nem teve muito tempo para pensar, no que poderia ter feito com que o cavalo bravo que ele guiava se tornasse indomável. A moto fez um rumo estranho, como se subisse uma montanha imaginária e fosse incapaz de completar o trajeto. Ela empinou, fez uma meia volta no ar para enfim tombar brutalmente para a direita, ainda escorregando e girando deitada pelo calçamento frio e molhado. Inundou-se assim o silêncio daquela pequena rua, com o som da lataria cedendo ao asfalto.

Elrohir agora estava estirado no chão, tentando erguer-se. A moto que o perseguia já aumentava suas luzes. A quase imperceptível silhueta de seus opressores e suas armas aproximando-se por trás daquela claridade.

O gêmeo tentou mover o braço para pegar sua arma, mas uma dor aguda lhe impediu o movimento. Ele girou os olhos em busca da única e imprescindível informação da qual precisava, e sua resposta foi pior do que esperava encontrar. A alguns passos, estirado entre o meio fio e a calçada, estava o irmão mais velho, Elladan tinha a cabeça virada para longe dele, mas o irmão pôde ver um líquido viscoso escorrer por ela, um liquido vermelho e assustador.

"Dan..." Ele disse então e a dor simplesmente perdeu o significado. O gêmeo ergueu-se por sobre o braço quebrado, buscando encontrar a defesa que precisava, mas era tarde. Uma figura robusta já estava diante do irmão, arma em punho apontada diretamente para a cabeça dele. A outra batia nervosamente um dos pés a dois passos do gêmeo mais novo.

"Vamos, tente fazer algo, seu desgraçado." O homem em roupas de couro quase gritou, aplicando um chute certeiro que fez com que Elrohir rolasse onde estava e ficasse de costas para o asfalto. A arma agora apontada em sua direção.

"Acabe logo com ele." A outra voz pediu impaciente. "Não temos propósito para esses dois. Drago só disse para tirarmos essas figuras do caminho."

"Será um prazer." Disse o outro e seu sorriso brilhou naquela pouca luz. "Eu não gosto de gêmeos. Semelhança desagradável. Erro estúpido da natureza."

Elrohir apertou o maxilar e o homem em pé pareceu deliciar-se ao perceber o quanto suas palavras faziam um bom efeito.

"Você me deu um trabalho desgraçado, seu canalha. Já vi loucos idiotas guiando uma moto, mas você deixa todos para trás." Ele comentou, envergando o corpo para aproximar mais o revolver da cabeça do gêmeo. "Deve mesmo fazer parte do grupo do Escolhido. Aquele bando de fanáticos que só aterrizam quando receberem um tiro nos miolos."

"Anda logo com isso, Günter." O outro se aborreceu. "Que mania estúpida a sua de ficar conversando com esses infelizes. O que quer? Dar-lhes a extremunção?"

O outro riu sarcasticamente.

"Pra quê? Vão todos pro inferno do mesmo jeito." Ele riu muito mais. "Vamos nos encontrar lá com certeza."

Elrohir fechou os olhos, administrando a dor como podia. A voz do mercenário ecoava ora próxima ora distante em sua mente. O que aquele desgraçado estava esperando?

Ele reabriu os olhos e encontrou o opressor olhando-o com atenção, como se quisesse sentir todo o prazer possível com o sofrimento que causava. Elrohir resolveu que não lhe daria tal oportunidade, escondendo qualquer traço de dor do rosto, convertendo a face na da mais perfeita estátua.

O resultado foi o esperado, pois não custou para que o gêmeo recebesse, como retribuição a seu empenho, mais um chute nas costelas. Sua reação, entretanto, surpreendeu mais o opressor.

"Não grita é, miserável?" Ele repetiu o ato cruel mais duas vezes. "Ou é mudo?"

O gêmeo rolou novamente, voltando a ficar de costas para o asfalto, os olhos trancados, o rosto endurecido pela dor.

Mas nem um som.

Günter era um mercenário de carreira, não do tipo que se sensibiliza ou admira a devoção, coragem ou qualquer outra dita qualidade alheia, mas a disposição daquela figura o estava intrigando.

"Não fala é? Quem sabe se eu der alguns pontapés bem dados na cabeça daquele outro ali você encontre sua língua?"

Os olhos reabertos da vítima fez o sorriso de Günter alargar-se. Havia várias maneiras de se quebrar um dito bom soldado. Aquela perseverança o estava irritando e ele sentiu um incontrolável desejo de provar sua boa tese. A de que todo herói tem seu preço certo.

"Estou atrás de algumas informações Quem sabe se você me ajudar eu posso retribuir o favor." Ele mudou seu tom e sorriu ao receber o olhar de Elrohir novamente. "Me interessa muito saber sobre um tal Ami."

"Não perca seu tempo, Günter." O outro aconselhou. "Sabe que os homens de Ami não o denunciam. Nem os que são desertores."

"Mas esses dois sim... Não é, meu caro delator." Ele sorriu ainda mais, percebendo a cor fugir devagar do rosto de sua vítima. Elrohir afastou o olhar então e Günter irritou-se. "Estou com uma outra dúvida também... Será que seu irmão conseguiria gritar se eu administrasse nele o mesmo bom tratamento que estou dando a você?"

A pele do gêmeo avermelhou-se. Por que, por todos os Valar aquele infeliz não dava logo um tiro em sua cabeça e na Elladan e acabava de uma vez com aquilo?

"Então delator? Conhece Ami?"

Aquilo era tortura. Ouvir aquela voz chegava a ser pior do que receber seus golpes.

Elrohir trancou os lábios e a mente, a figura do irmão ferido ocupava-lhe todo o pensamento. Ele então assentiu com a cabeça, em uma atitude que intrigou seu oponente.

"Ah" Satisfez-se o outro. "Um delator de fato. Não disse, Frostky? E sabe onde eu posso encontrá-lo? Hein? Se me passar essa informação eu posso, quem sabe, fazer algo por vocês."

Elrohir fechou os olhos para reabri-los em seguida. Depois os voltou para o oponente, que se surpreendeu ao vê-los ainda mais escuros.

"Mais... mais perto." Sussurrou enfim o gêmeo, em uma voz de dor.

Günter franziu insatisfeito a testa.

"Truques?" Ele supôs desconfiado, encurvando-se ainda mais. "Acha que está em situação para fazer algum truque, hein? Saiba que não sou idiota, se tentar algo vou te ver implorar pela vida daquela sua cara metade" Ele riu dando uma rápida olhada na direção de Elladan. "Se bem que, pelo andar da carruagem, aquele seu espelho deve estar já nos quintos dos infernos, preparando um lugar bem quente para você. O que acha hein? Vai me ajudar ou fazer companhia para ele?"

Elrohir desprendeu os lábios, a dor escapando devagar pelos contornos da face, dores que emergiam mais de seu coração preocupado do que do estado de seu corpo. Elladan não estava morto, ele podia sentir, mas tinha a sensação de que isso agora não custaria a acontecer. Durante séculos de batalhas aquilo sempre fora algo a se esperar. Havia até um quê de felicidade em partirem assim, ambos, quase ao mesmo tempo, exatamente como chegaram.

O gêmeo fechou os olhos, saboreando aquele pensamento que o confortava.

Tudo era muito estranho.

Mas era um passado agora.

O hoje se resumia a seus últimos momentos. Momentos estes que ele podia passar como bem o desejava.

Quando sentiu que o homem se aproximava mais, intrigado com o silêncio da vítima, ele apenas esperou, esperou com sua frieza de guerreiro até que a distância fosse suficiente. Então, conseguiu fazer a única coisa que suas forças lhe permitiram. Ele cuspiu diretamente no rosto do opressor e deliciou-se por alguns rápidos instantes em ver aquele rosto avermelhar-se de forma inacreditável.

Seriam segundos de prazer. Ele bem sabia.

Mas valiam muito a pena.

"Desgraçado imundo." O outro gritou, apontando prontamente a arma na direção do gêmeo, que nem sequer cerrou seus olhos, embora lamentasse que sua última imagem fosse ser aquela. A daquela criatura, daquela mão em grossa luva de couro movendo devagar o dedo para o gatilho. Resumindo os segundos a uma espera por um tiro.

E o tiro surgiu. Soltou-se de um cano firme, fez uma trajetória precisa.

Mas não atingiu o alvo.

Por quê?

Foi o último pensamento que o gêmeo mais novo julgava que fosse ter, até perceber o corpo diante dele cair para o lado, e de sua cabeça escorrer um fio grosso de sangue. Sua mente ainda sentiu-se atordoada, revivendo o momento sem compreender. Quantos tiros mesmo ouvira?

Ele ergueu a cabeça com dificuldades e surpreendeu-se ao avistar outro corpo caído ao lado de Elladan.

O que tinha acontecido?

O som de passos leves pareceu compor a resposta que o gêmeo buscava. Elrohir voltou a cabeça em direção a eles, tentando erguer-se por sobre o cotovelo bom. Só então pôde confirmar que ele e o irmão não estavam sós naquele beco.

Do final da rua caminhava agora em sua direção uma silhueta, ele forçou-se como podia para reconhecê-la, mas a luz contrária a si não o permitia. Era um homem alto, que andava com a arma ainda em punho, o rosto voltando-se em diversas direções, cauteloso, em vigília.

Um guerreiro. Não havia dúvida.

Elrohir contraiu as sobrancelhas, desenhando aquele vulto e tentando usar seu talento de criação para preencher o que não podia ver. Era um caminhar, um gingar de ombros, uma sensação que ele conhecia. Já se sentira vulnerável algumas vezes, umas mais do que outras, mas nunca daquela forma, devedor de algo além dos valores, a uma sombra que desconhecia.

Ele até pensou em buscar por sua arma, em preparar alguma defesa. E se não fosse com intenções positivas que aquele alguém os defendera tão radicalmente? Entretanto, algo o deixava hipnotizado por aquele caminhar, como se ele soasse irreal, indescritível. Quando a figura aproximou-se mais, Elrohir viu que ela desviou seu caminho, agachando-se rapidamente ao lado de Elladan.

"Não faça mal a ele." O gêmeo se viu pedindo e sentiu-se subitamente disposto a implorar pela vida do irmão.

O rosto se voltou para ele, a luz desenhando-lhe o perfil, as formas, o cabelo rebelde preso em um único laço.

"Não farei mal a ele. Fique tranqüilo, Elrohir."

E o que parecia ser indescritível tornou-se inconcebível e o jovem gêmeo julgou-se tomado a tal ponto pela dor, que se esvaia em dolorosos delírios. A figura ergueu-se então, depois de ter apoiado a cabeça de Elladan na jaqueta que tirara e tomado outros cuidados que o gêmeo, de onde estava, não conseguiu ver.

Veio a proximidade enfim e a figura estava ali, ajoelhando-se diante do dele, fazendo-o deitar-se novamente e tomando-lhe uma das mãos.

"Não... Não é possível..." O gêmeo balbuciou, apertando involuntariamente a mão que segurava. "Estou... Estou nos halls dos que se foram? Estou... Estou nos salões de Mandos, Glorfindel?" Ele indagou trêmulo e surpreendeu-se ao ver dos olhos do poderoso mentor as lágrimas surgirem inegáveis.

Um quase imperceptível aceno de negação foi a única resposta que Elrohir recebeu do antigo senhor da Casa da Flor Dourada, quando este apoiou a mão na testa do seu mais amado pupilo. Provavelmente, não havia palavras, na infinidade de discursos retóricos do lorde elfo, para uma ocasião como aquela. Para uma ocasião na qual alguém se vê tentando entender, como uma sensação de alegria ainda pode elevar-se aos temores e dúvidas, principalmente em tempos de hostilidade como aqueles nos quais viviam todos.

Outra dúvida que ficaria no ar.

Mas pelo menos havia um amanhã para se pensar nela.