Capítulo XXXVII
~No curso de arquitetura~
"Era mais um dia comum do curso de arquitetura de Tomoyo Daidouji… e ela mal sabe o impacto que tinha sobre aquele povo mais velho de seu curso…"
Era a aula de mecânica dos sólidos do terceiro período do curso de arquitetura. Era a última disciplina daquele dia recheado de matérias densas do curso de arquitetura, como Materiais e técnicas de construção, Teoria estética da arquitetura II, História da arte, arquitetura e cidades III, Conforto ambiental e projeto de arquitetura III.
Na sala de cor amadeirada, repleta de cortinas persianas e piso de madeira, o professor escrevia naquela lousa verde uma complexa equação matemática do modelo de viga de Euler-Bernoulli. Entender a distorção de uma viga era essencial para os demais projetos de arquitetura, se queriam virar arquitetos:
– Bem gente, aqui está a equação! – O professor bateu o giz na lousa, quebrando-o. – Alguém sabe me dizer como eu cheguei até ela? Ela vem de duas equações simples que são essenciais em física…
Nenhum aluno respondeu. Até que o professor apontou para uma garotinha de luvas brancas na última carteira do lado da janela. Ela havia se sentado lá justamente para não chamar tanta atenção, mas o professor adorava ela, todos os mestres adoravam aquela garota:
– Tomoyo, você pode vir aqui e explicar para a gente?
Ela se levantou da carteira, ajeitou o vestido e pegou o giz, sob os olhares de admiração e inveja de alguns dos alunos.
– Temos que pensar no peso por unidade de distância na viga, as forças verticais, as forças dissipativas e a força líquida devido a tensão por cisalhamento… então… colocamos a terceira lei de Newton em cada ponto da equação da derivada e temos… o modelo de viga de Euler-Bernoulli!
Em instantes a equação ficou pronta. Alguns aplaudiram, outros ficaram mudos e alguns simplesmente desviaram o olhar da garotinha perfeita e superdotada que era amada pelos professores.
Tomoyo voltou ao seu lugar, indiferente aos olhares da turma, sejam de odiadores ou apoiadores. Já estava acostumada com aquilo.
Muitos daqueles alunos eram dez, quinze anos mais velhos que Tomoyo e ralaram muito para entrar na Universidade de Tóquio. Ela passou de primeira e se destacava nas matérias. Até mesmo Tomoyo se assustou com o seu maravilhoso desempenho naquelas disciplinas e perguntou-se até onde o efeito da marca do Sakurazuka havia interferido na sua inteligência:
Andando pelos corredores vazios da Todai depois da aula, estava ela conversando com o senhor Seishiro sobre isso:
– Seishiro-san, até que ponto essa marca pode interferir no meu desempenho na aula?
– Em todos os sentidos.
– Então… nada do que eu faço é fruto do meu esforço?
– Até agora tudo foi fruto do seu esforço, mas bem que você pode romper esse equilíbrio… se você evocar a marca, é claro!
Tomoyo suspirou de alívio.
– Sinto um pouco aliviada agora. Pois nem mesmo nos meus sonhos eu me via usando a marca…
– Mas bem que você poderia usar pra se livrar dos seus inimigos… ou você não percebeu?
– Eu posso não ser uma usuária de magia padrão, mas eu sei que as minhas ações vão ter uma consequência… não tem?
– Tem exceções… como quando se está com a vida em risco…
Seishiro se teleportou e deixou seu habitual rastro de poeira vermelha.
Tomoyo continuou a caminhar até o refeitório. Seu estômago roncava. Estava com fome.
S&T:FJ
O fruto do sucesso de Tomoyo nos estudos era uma receita simples: foco e administração do tempo. Ela não fazia muitos amigos na universidade, usava os domingos para ter uma vida social e passava o resto do tempo depois da aula com a cara enfiada nos livros, dentro da biblioteca, fazendo a lição de casa e os projetos do curso, antecipando algumas matérias.
Para aliviar a tensão e o cansaço dos estudos, ela desenhava diversos modelitos de roupa que eram levados para a confecção para serem costurados e vendidos no seu Ateliê da Daidouji (construído com o dinheiro emprestado da mãe que ela estava pagando a prestações) em Tomoeda, com a ajuda de seus colaboradores (e funcionários): Daiki, Mei e Hoshi. Aquecia a voz, no banho, vez ou outra, para o trabalho de fim de semana que era gravar e dublar comerciais na TV nos estúdios da Sony, renda essa que também a ajudava a financiar o Ateliê.
Muitos alunos a odiavam.
A filha da presidente das indústrias Daidouji, a jovem empreendedora, a perfeitinha, a sabe tudo, a CDF, a famosinha, a dubladora. Tomoyo era odiada por tudo, era odiada mais ainda por usar aquelas luvas brancas que cobriam até mesmos os cotovelos e muitos a apelidavam 'carinhosamente' de 'princesa Peach'. Era um bullying aquilo e Tomoyo buscava ignorá-los ao máximo. Até que teve um momento que a tensão e ódio dos alunos explodiu de vez.
Caminhando para o refeitório, alguns alunos de uma cadeira próxima cochichavam:
– Lá vem a princesa!
– Ela sabe de tudo, não é? Não tem uma fraqueza sequer, um ponto fraco!
– Até de bronzear os braços ela tem medo!
– Pois bem. Vamos dar a ela uma coisa que ela não vai se esquecer tão cedo…
Segurando o tubo de arquitetura, um dos alunos naquela mesa maquinava um plano maléfico. A intenção era humilhar Tomoyo até que ela saísse da Todai.
Tomoyo entrou no refeitório e o celular tocou. Era o Daiki:
– Alô, Daiki. Sim, pode falar, não estou ocupada…
Enquanto conversava no telefone, Tomoyo colocava a comida na bandeja com uma mão e os alunos observavam atentamente o conteúdo daquela conversa. Ela conversava com o seu parceiro do Ateliê da Daidouji sobre o novo desenho que Tomoyo estava fazendo e as encomendas de peças de roupa para a confecção:
– Domingo você me encontra aqui, na Todai, então. Até lá já vou ter terminado os desenhos. Daí você manda pra confecção e me passa a nota fiscal semana que vem pra eu ver como ficou, tá certo? Beijo, Daiki, manda um alô meu pra Mei e pro Hoshi. Tchau.
Tomoyo desligou o celular, pegou a bandeja e se dirigiu até uma das mesas.
– Agora é com você Misaki!
Os alunos conspiradores da outra mesa, percebendo o movimento, fizeram um sinal de confirmação entre eles com a cabeça e Misaki, uma garota de cabelos compridos e pontudos pegou o tubo de arquitetura, colocou debaixo dos pés e chutou nos pés de Tomoyo no exato instante que ela passava.
Tomoyo pisou naquilo e foi impossível não tropeçar.
A bandeja escapou de suas mãos antes de parar no chão. Sua cara caiu na bandeja com tudo e sujou todo o seu vestido.
Todo mundo naquele refeitório riu.
Os alunos na mesa dos conspiradores a cercaram e Misaki se agachou, erguendo a cabeça dela, puxando sua franja para trás:
– Ora, ora, ora! Alguém vai ter que limpar isso aqui!
Os alunos que rodeavam Misaki gargalharam. Raiva se desenhou no rosto de Tomoyo, mas não ia chorar. Também não respondeu nada. Agiu. Levantou-se como podia, pegou a bandeja e devolveu até o refeitório. Pediu pras cozinheiras um carrinho de limpeza com balde, esfregão e outros produtos de limpeza. Passou um pano no seu rosto e no seu colo e começou a limpar, passando o esfregão na água do carrinho e limpando o chão, comprimindo-o depois no compressor do balde de água suja. Fez aquilo até limpar toda a sujeira que tinha feito e devolveu o tubo de arquitetura para Misaki, com toda a dignidade do mundo.
Se uma coisa que tinha orgulho e realmente empinava o nariz para algo naquela situação era o trabalho. Seu trabalho.
Até mesmo os alunos do refeitório viram aquilo e não tiveram coragem de gargalhar. Nem mesmo os que estavam com Misaki. Ela se revoltava ainda com Tomoyo:
– Agora você vai humilhar a gente de novo, hein, Tomoyo? – Misaki segurou em seus cabelos e gritou no seu ouvido. Tomoyo não reagiu e continuou limpando. – Vai me dizer que você se acha a Cinderela fazendo isso, hein? Tá a espera do príncipe encantado ainda pra te trazer os sapatinhos de cristal, é?
Tomoyo levantou a cara e a encarou:
– E se for uma princesa de cabelos castanhos curtos e olhos verdes usando um vestido feito por mim cheio de lacinhos e babados me trazendo os sapatinhos de cristal, hein? Ela com certeza teria menos paciência do que eu estou tendo com você agora!
Misaki olhou para Tomoyo de um jeito que parecia que teve um nó cerebral. Muitos alunos antecipavam uma briga próxima, mas uma aluna com franjas, cabelos e olhos azuis da cor do mar, mais longos e mais lisos que Tomoyo se aproximou das duas:
– O que está acontecendo aqui? Tá aprontando de novo, Nakashima?
– Foi ela quem começou, Ryuuzaki!
– Sei que foi ela! Porque ela entregou o tubo pra você, hein?
– Oras, ele escorregou da minha mão; se ela não presta atenção por onde anda a culpa não é minha! E outra: essa garota metida merecia uma lição das boas faz tempo! Quem manda ser sabichona!
Umi fechou os olhos, respirou fundo antes de responder. Tomoyo continuou a limpar a sujeira que ficou no seu material, no seu vestido, nas suas luvas, alheia àquilo tudo:
– Nakashima, lembre-se que eu sou a presidente do clube de esgrima da universidade e você é a minha subordinada! Esse seu gesto merecia uma suspensão!
– Uma suspensão injusta que eu recorreria à reitoria, Ryuuzaki! Você não tem provas! – Misaki voltou a se cercar de amigos e se sentiu mais corajosa. – Porque você não chama essa aí pro seu clube das princesas, porque vocês não me desafiam para um duelo de esgrima então? Eu posso provar que eu sou melhor que vocês duas!
A provocação de Misaki fez uma lâmpada se acender na cabeça de Umi.
– Se você tem complexo de inferioridade, o problema é seu! Se tem orgulho de onde nasceu, então eu aceito o seu desafio! Vou defender a minha 'quebrada' e você defende a sua; o que me diz? Se eu ganhar, você deixa essa menina em paz, está bem?
Todos os alunos do refeitório pararam para prestar atenção ao duelo de palavras daquelas três mulheres. Vendo-se encurralada por Umi, Misaki não teve outra opção:
– Eu aceito o seu desafio! Mas tem uma condição!
As duas mulheres se cumprimentaram sem soltarem as mãos, olhando fixamente uma para a outra. Só então Tomoyo compreendeu a gravidade daquele ato:
– Esperem um pouco! Eu não conheço nada de esgrima, como eu posso fazer um duelo desses?
– Te dou três meses, Daidouji. Se eu ganhar, eu juro que quero me tornar a presidente do clube de esgrima, está bem? Eu tou me arriscando, arrisque-se também Umi!
– Está certo! Meu cargo em troca da paz dessa menina!
O aperto de mão se tornou mais forte até que seus rostos se contorceram com a dor daquele ato e então soltaram as mãos. Tomoyo, percebendo que não poderia recuar àquele ato, tomou toda a coragem que tinha no peito e ofereceu-se para apertar a mão de Misaki, mas ela recuou:
– Tira a luva, Daidouji! Eu não vou apertar uma mão mascarada como a sua!
"E agora? Eu não posso mostrar a cicatriz da marca do Sakurazuka! Eu não posso mostrar a cicatriz, eu não posso mostrar a cicatriz!", Pensou Tomoyo, suando frio naquele instante, até que uma voz imperativa que não soube de onde vinha apareceu na sua mente:
"Tire a luva!"
"Mas…"
"TIRE A LUVA! AGORA!", disse a voz com mais força em sua mente.
Tomoyo respirou fundo, hesitou um pouco e, lentamente, retirou pela primeira vez aquela luva que cobria a pele da sua mão, incluso os cotovelos.
Uma expressão de nojo, horror e pavor apareceu na face daqueles estudantes. Muitos tapavam a boca enquanto outros vomitavam. Tudo o que aquele pessoal viu foi uma mão queimada, atrofiada, magra. Tomoyo estendeu aquela mão em carne viva para sua oponente e a única opção que ela teve foi cumprimentá-la com uma profunda hesitação estampada na face.
Continua…
Notas finais: No próximo cap eu explico como a Tomoyo conseguiu esconder a marca do Sakurazuka e a voz que falava com ela; eu pensei em colocar uma mão necrosada, mas necrose é uma coisa pesada, pesada mesmo e resolvi colocar uma coisa tipo queimadura grau 3 ou dois que é horroroso de ver! Horroroso mesmo! (mas não tão triste como necrose). Imagine cumprimentar alguém com a mão em pele e osso! Pois é! Já comecei a "maltratar" a Tomoyo um pouquinho e aviso que a coisa só vai piorar daqui pra frente! Me corta o coração fazer isso com minha princesa, minha personagem preferida do seriado, mas… quando a vida está numa mare de azar, mas Deus está do nosso lado, é só festa! Hehehe!
Desculpem, estudantes de arquitetura, se eu errei algum termo, mas tentei transmitir ao máximo o que se passa em uma sala assim! Hehehe! Muita matemática!
