************************ Cap. 38 ...Vai reduzir as ilusões a pó.. ************************
Dimitri inspirou rápido e profundo, em sobressalto, e quando virou a cabeça para o lado, para ver quem segurava seu punho com extraordinária força, prendeu a respiração devido o espanto, abrindo a boca em choque.
— VOCÊ!
O Vor exclamou em sua língua materna, absorto, incrédulo, mortificado ao ver ali diante de seus olhos Afrodite, que lhe encarava com a face pálida e os olhos injetados em fúria.
— Não pode ser! Era para você estar MORTO! — rosnou o russo entre perdigotos, dando um solavanco com o braço para tentar se libertar, mas Afrodite o segurou com ainda mais força.
— Dimitri. — disse o pisciano rangendo os dentes. Sangue escorria do canto direito de sua boca, e seu corpo todo parecia arder em brasas, mas ali o ódio se sobressaia à dor, e ele puxou Dimitri para mais perto, o afastando de Geisty que jazia no chão — Você não vai matá-la... seu desgraçado!
— Você... você é o culpado de tudo isso, SEU ANORMAL! — gritou Dimitri, e seu rosto agora era uma perfeita máscara de fúria e ódio latentes — VIADO DE MERDA. BICHA NOJENTA! ME SOLTE! —debateu-se ainda tentando se livrar da mão do pisciano — Eu mobilizei todo o poderio mais competente da família para estar aqui hoje e te mandar para o inferno e você ainda está vivo! DESGRAÇADO! Eu mesmo vou fazer o serviço e expurgar de uma vez essa doença que você carrega. Não vou deixa-lo contaminar Camus com sua sujeira homossexual!
Por um momento Afrodite prendeu a respiração e o encarou impassível, já pronto para calar a voz do chefe da máfia russa o enviando direto para o colo do Hades no Tártaro, mas dentre as tantas palavras das quais não entendia o significado uma o fez conter o golpe já preparado de imediato.
Camus.
Afrodite não falava russo, mas reconheceu claramente o nome de Camus e espantosamente rápido deduziu o óbvio.
Aquele ataque não era apenas uma retaliação a Saga e ao Santuário, mas também a algo que envolvia Camus diretamente.
Peixes engoliu em seco, seu peito congelou em terror e medo diante da possibilidade de tudo aquilo, o horror, a chacina, Geisty, ser uma retaliação em resposta a seu relacionamento secreto com o Santo de Aquário.
— Camus? — Afrodite sussurrou absorto, de olhos arregalados, enquanto encarava a face contorcida em fúria de Dimitri imaginando se ele os tinha descoberto — O que Camus tem... a ver com... Aaargh. — gemeu de dor ao esticar o outro braço para agarrar no ombro do Vor a fim de puxá-lo para mais longe de Geisty que se contorcia no chão entre choro e gemidos — SEU MALDITO! O QUE CAMUS TEM A VER COM ISSO? — gritou sentindo a visão ficar turva.
— NÃO FALE O NOME DELE SUA ABERRAÇÃO! — Dimitri bradou com a boca murcha a salivar, tamanho o ódio e asco que sentia pelo pisciano — Você é o responsável por isso... VOCÊ! Você infectou Camus com sua doença... Você e toda essa corja... viados, pederastas, prostitutas... São como uma peste, um vírus, e eu vou erradica-los como tal. — lutou mais um pouco para se livrar e não conseguindo gritou ainda mais alto, em fúria — EU VOU TE MATAR SEU SUECO NOJENTO DE MERDA! SUA ORIGEM PODRE CONDIZ PERFEITAMENTE COM QUEM VOCÊ É! NÃO VOU PERMITIR QUE CONTAMINE CAMUS COM SUA IMUNDICE GAY... EU VOU ACABAR COM TUA RAÇA, E NO FUTURO CAMUS VAI ME AGRADECER DE JOELHOS POR TÊ-LO SALVO DA DECADÊNCIA E DA...
Um golpe seco, e a voz odiosa do líder da máfia russa se calou.
Sem entender absolutamente nada do que Dimitri dizia, e sem mais forças para segurá-lo nem paciência para ouvi-lo destilar suas injúrias, com a cabeça, mais precisamente a testa, Afrodite golpeou o nariz do Vor com tanta força que o fez contrair olhos, boca e nariz e na mesma hora perder as forças. Quando Dimitri cambaleou para o lado, com o cotovelo o Cavaleiro de Peixes lhe deu um golpe na têmpora que o fez cair desacordado no chão.
— Cala a boca, rei do chiqueiro... — disse enfático — Só não te mato porque você vai... valer mais vivo que morto para o Camus... Tenho certeza! — murmurou dando uma cusparada sanguinolenta no russo estirado no carpete, depois sem perder tempo ajoelhou-se ao lado de Geisty para socorre-la — Mosca, Moscaaa, onde está ferida? Onde te acertaram? — perguntava ofegante enquanto em completo desespero tateava o corpo da amazona a procura de possíveis ferimentos, ao passo que lhe dava a mão para ajudá-la a se sentar.
— Não... não me acertaram... — Geisty respondeu sôfrega, sem deixar de sustentar a barriga com a outra mão.
— E esse sangue? — se referia ao sangue que manchava a barra da blusa dela e também as pernas.
Nessa hora Geisty ergueu a cabeça e olhou para Afrodite, vendo que ele também estava ferido. Pior, o rosto do pisciano estava muito pálido, os lábios de uma coloração azulada, cianótica, e as íris dos olhos de um tom dourado fantasmagórica.
— Afro... Afrodite! ... Você foi ferido! Pela deusa! — ela murmurou com os olhos arregalados, perplexos, apontando para a barriga do pisciano.
— Você quer disputar para ver... qual de nós está mais fodido, quer? — disse Peixes passando um braço pelos ombros dela.
— Meus... meus bebês, Afrodite... meus bebês precisam de ajuda! — ela disse segurando firme no braço do pisciano, tentando se pôr de pé, mas a cada segundo sentia suas forças a deixando.
— E nós vamos ajuda-los. Vem, eu te ajudo... vou te levar para... o hospital... Vou usar meu Cosmo para... AAAAAAAAAAAAAAAAAAHG ATENAAAAA! — Peixes gritou ao sentir uma dor excruciante lhe tomar todo o corpo quando mais uma vez ativou seu Cosmo — MAS QUE MERDA ESTÁ ACONTECENDO AAAAAAAH.
Um novo espasmo ainda mais forte fez Afrodite curvar-se para frente levando ambas as mãos à ferida aberta no abdômen, que agora sangrava em assustadora abundância. Sentindo vertigens, espasmos musculares e muita falta de ar não viu outra alternativa senão desativar novamente o Cosmo.
— Afrodite... — Geisty sussurrou preocupada, mas ela mesmo agora nada podia fazer, nem pelo amigo, nem por si mesma, pois sofrendo fortes contrações também perdia muito sangue e já tinha ambas as pernas lavadas pelo líquido vermelho — Peça socorro... rápido! Precisamos de ajuda...
Vendo a situação da amazona e sem saber o que se dava com seu Cosmo que em vez de ajuda-lo só agredia seu corpo, o Cavaleiro de Peixes não viu alternativa senão tentar buscar ajuda de Aldebaran ou Máscara da Morte. Sendo assim, com muito custo levantou-se e com ambas as mãos sobre o abdome caminhou trôpego e o mais rápido que pôde para fora do quarto.
Estava cada vez mais difícil para ele orientar-se, já que seus sentidos não respondiam mais de maneira eficaz, mas mesmo assim, quando chegou ao corredor foi capaz de ouvir três disparos de arma de fogo que vieram do quarto ao lado.
Imediatamente Afrodite virou a cabeça para aquela direção, e então, quando pensou se devia verificar ou descer as escadas atrás de Touro ou Câncer, um estrondo foi ouvido e na mesma hora a porta veio abaixo, derrubada por um homem que fora lançado contra ela de dentro para fora.
Era Hans Hadrien, que apesar do forte impacto e da pancada no instante seguinte já se punha de pé, ainda que capenga, e de arma em punho já desferia outra saraivada de balas contra o interior do aposento do qual havia sido lançado, e o qual Afrodite se deu conta imediatamente de se tratar do quarto de Misty.
— Mas que merda. — rosnou o Santo de Peixes, que sem pensar nem por um segundo correu até o atirador e da maneira como conseguiu atirou-se sobre ele com um salto desajeitado, porém preciso, usando os ombros e a força do impacto para derruba-lo.
Ambos caíram no chão e de imediato uma luta ferrenha se deu início com clara vantagem para Afrodite, que mesmo perdendo muito sangue rapidamente conseguiu desarmar o russo e lhe dar um golpe fatal quebrando seu pescoço.
Quando o corpo de Hans Hadrian tombou inerte no chão, Peixes rolou para o lado sobre os destroços de madeira da porta, ofegante e em agonia. A dor do ferimento na barriga agora parecia mais branda, porém era devido à perda progressiva dos sentidos. Seu raciocínio e força física se esvaiam rapidamente e não respondiam mais a seus comandos, mas mesmo mergulhado naquele torpor agonizante Afrodite não conseguia deixar de pensar que era o responsável por tudo ali na ausência de Saga e que, portanto, tinha que fazer algo para salvar a todos.
Com muito custo apoiou um dos cotovelos no chão e tentou erguer o tronco, sempre mantendo a outra mão firme a comprimir com força o rasgo aberto em seu abdome. Se ao menos pudesse usar seu Cosmo para estancar o sangramento... Porém, toda vez que o ativava era como se tomasse um choque de muitos milhares volts. Sendo assim, apenas rastejou até a entrada do quarto e olhou lá para dentro.
— Lagartixa... Ei... Aaaaaagh... Não me diga que você... morreu, sua... malassombrada do Tejo... — disse com a voz trêmula enquanto corria os olhos de um dourado reluzente pelo aposento todo destruído.
Havia sinais de luta por praticamente todo lugar, móveis quebrados, muito vidro no chão...
De repente, detrás de uma poltrona toda alvejada de balas um braço se esticou para fora.
Era Misty, que aos poucos se revelava também se arrastando pelo carpete.
— Eu... estou aqui. — disse Lagarto, que estava todo descabelado e com um ferimento no braço, provavelmente um tiro — Estou vivo... eu acho... Minha cabeça está girando... Aquele filho da puta gostoso colocou alguma coisa no meu Martini...
Misty apertou forte as pálpebras quando conseguiu, cambaleante, sentar-se no chão, então esfregou o rosto tentado orientar-se. De fato Hans havia colocado uma quantidade generosa de drogas na bebida do Lagarto, o suficiente para matar um civil, mas como o francesinho não apagou totalmente houve a luta e os tiros.
Afrodite não pode deixar de sentir uma estranha sensação de alívio ao ouvir a voz de Misty. Ao menos ele estava vivo.
— Depressa... a... Geisty... — Peixes sussurrou. Sua voz agora quase não podia ser ouvida de tão fraca, além disso, do andar de baixo um barulho caótico de tiros, pancadas, gritos e coisas se quebrando chegava até ali — Tem que... ajudar... a...
Quando ouviu a voz fraca do pisciano Misty abriu os olhos, piscando várias vezes para orientar-se, e então se deparou com Afrodite caído no chão, na porta de seu quarto, com as roupas encharcadas de sangue. Os braços agora estavam estendidos sobre o carpete vermelho, as pernas levemente dobradas, e a cabeça caída para um dos lados. Alguns fios de seu cabelo azul grudavam em seu rosto incrivelmente pálido e suado, e sangue que lhe vertia dos lábios cianóticos.
— AFRODITE! — Misty berrou feito uma criança assustada, em surpresa e pânico, os olhos azuis saltando das órbitas.
Imediatamente engatinhou ligeiro até o pisciano, ainda tonto, porém sentindo o peito congelado devido ao medo.
Aquilo não podia estar acontecendo.
Não com ele, não com Afrodite...
Então, ao alcançar o pisciano analisou rapidamente sua figura olhando para ele paralisado. Só foi capaz de sair do transe quando Peixes novamente gemeu fraco e balbuciou num fio de voz.
— Geisty... no quarto... a... ajuda...
Agindo por impulso, e ignorando o que o sueco dizia, Misty se arrastou até os ombros de Afrodite e os suspendeu do chão apoiando as costas do pisciano em suas pernas. Este gemeu apenas, pois não tinha mais forças nem para se mexer.
— Afrodite!... Não!... Por Atena! AFRODITEEE! — gritou angustiado — Calma! Calma eu vou... eu vou salvar você... eu vou tirar você daqui!
Quando desesperadamente Lagarto tentou se levantar eis que outra das portas do corredor se abriu com uma pancada seca, chamando sua atenção de imediato.
Misty interrompeu o que fazia, até porque estava ainda drogado e não conseguia orientar-se para levantar, e olhou para a figura que agora tomava o corredor saltando para fora do quarto.
Era Shina, que usava apenas lingerie e tinha o corpo coberto de sangue.
— SHINA! — o cavaleiro de Prata gritou, de susto e apreensão, ao olhar para a amazona — Por Atena!
Shina correu até ele surpreendendo-se assim que viu Afrodite, que parecia desacordado.
— Que merda é essa? — ela disse arregalando os olhos verdes e já se agachando ao lado deles para tomar o pulso do pisciano — Como conseguiram fazer isso com ele?
Incrédulo, Misty a encarou no rosto tinto de vermelho.
— Shina você está ferida? — o francês perguntou assustado.
— Não. — ela respondeu friamente — Esse sangue não é meu. É do filho da puta da Vory...
— Então foi mesmo uma emboscada! — disse Misty em sobressalto — Te drogaram também?
— Não. — ela respondeu, agora segurando no rosto de Afrodite com ambas as mãos, e pousando os polegares sobre as pálpebras inferiores dele as puxou para baixo para examinar seus olhos — Veneno. O desgraçado tentou me envenenar, como todo russo sujo que se preze... A Vory pode conhecer bem nossos pontos fracos, mas há peculiaridades no nosso Cosmo que somente cavaleiros seriam capazes de entender... O desgraçado me envenenou, mas ao em vez de me matar logo em seguida ele quis "brincar" um pouco... Homens... Sempre se ferrando por sexo.
— O filho da puta de estuprou? — Misty perguntou apreensivo.
— Não... eu metabolizei o veneno antes. Essa é uma das peculiaridades do meu Cosmo. Ofiúco tem alto poder de regeneração. Peguei o maldito com as calças arriadas já... Desgraçado. — rosnou, depois voltou sua atenção para Misty — Afrodite foi envenenado. Temos que tira-lo daqui imediatamente.
— O QUÊ? — Misty deu um soluço em sobressalto — IMPOSSÍVEL! Ele... ele é imune a qualquer tipo de substância tóxica dessa porra de mundo! A... A todo tipo de veneno!
— Pode não ter sido uma substância tóxica ou veneno, mas seja lá o que for o está matando rapidamente. Além disso, ele está perdendo muito sangue e vai entrar em choque hipovolêmico a qualquer momento. — disse Shina já se posicionando para pegar o pisciano no colo — Anda, me ajuda aqui. Ele está inconsciente e se não morrer pelo veneno vai morrer pela hemorragia. Pressione o ferimento assim... — orientava o francês quando foi interrompida.
— Shina, ele estava sussurrando o nome da Geisty antes de perder a consciência. — Misty disse, ainda que vacilante.
— O QUÊ? GEISTY ESTÁ AQUI? — a amazona de Ofiúco disse em assombro, o coração chegou a pular dentro de seu peito — POR TODOS OS DEUSES DA MERDA DO OLIMPO! Eu achei que ela tivesse ido para Gêmeos quando a vi deixar o bar. Eu não senti o Cosmo dela! — sem pensar nem por um instante Shina abandou o que fazia e se colocou de pé, pronta para correr até o quarto de Geisty — Procure alguém, Lagarto! Aldebaran, Máscara da Morte... Precisa levar Afrodite imediatamente ao hospital! — disse já tomando o corredor.
NO MOMENTO EM QUE O QUARTO DE GEISTY ERA INVADIDO E NO SALÃO SE DAVA INÍCIO AO CAOS, no subsolo do Templo de Baco onde se localizava um depósito de bebidas Aldebaran ouviu os primeiros tiros.
Sem pensar duas vezes Touro lançou ao chão as tantas cadernetas com notas fiscais que segurava nas mãos e partiu em disparada de volta para o salão derrubando quem, e o que, estivesse em seu caminho, desde caixas de vinhos que tinham sido colocadas na entrada da adega propositalmente para impedir sua passagem, até os supostos entregadores que mal tiveram tempo de sacar as armas. Com o impacto do imenso e poderoso corpo do Cavaleiro de Touro foram lançados contra as paredes de pedra com tanta força que perderam imediatamente a consciência.
Ao subir as escadas da entrada do bordel estranhou não ver ali Máscara da Morte, mas logo a balburdia que vinha de dentro o fez deixar para depois esse detalhe.
Assim que adentrou o salão o barulho ensurdecedor dos tiros, gritos e objetos sendo destruídos o tomou a atenção. Por outro lado, mesmo ao aparecer ali de forma silenciosa sua presença, impossível de ser ignorada, fora detectada de imediato e ele então se tornou o principal alvo dos capangas da Vory.
Cada homem ali que empunhava uma, ou mais, armas agora as tinham apontadas diretamente para o Santo de Touro e o alvejavam sem dó nem piedade, mas este já havia invocado sua armadura, e agora com seu gigantesco corpo revestido por ela, e com seu Cosmo já ativo, repelia cada projétil ao mesmo tempo em que usava seu tamanho avantajado para servir de escudo ao maior número de pessoas que conseguisse proteger, entre clientes, funcionários e bacantes, enquanto outros se abrigavam em barricadas feitas por mesas tombadas.
No momento em que Aldebaran desarmava três homens apenas chocando-se com eles os arremessando para longe, Martelo, o feroz capanga russo conhecido pela crueldade de seus atos, surgia pela sua direita saltando por sobre uma mesa já com sua peculiar arma de abate em punho, uma pesada marreta de aço, pronta para atingir em cheio o queixo do brasileiro, já que julgava ser o rosto a única parte desprotegida pela armadura dourada.
— AAAAAAAAAAAAAAAAAH. — Martelo urrou feito um animal, com a bocarra escancarada e os olhos medonhos saltados das órbitas, sedento para tombar o enorme Cavaleiro, mas quem acabou caindo foi ele, ao levar um único, forte e fatal tapa de mão aberta no pé do ouvido.
O golpe arremessou o russo corpulento há alguns metros de distância, lhe rendeu todos os ossos da face e crânio fraturados e colocou por terra sua reputação, afinal, o martelo de carne e osso de Aldebaran era infinitamente mais eficiente que o seu.
— Aaah é o caralho, rapá! Vai gritar no ouvido da tua mãe, seu russo de merda! — praguejou o taurino, que não esperou para correr na direção dos outros dois homens vestidos de garçom que portavam armamento pesado, rifles de assalto Dragunov que tinham sido escondidos debaixo dos palcos de pole dance, e que atiravam contra si tresloucadamente.
Rômulo, um excelente atirador, ainda conseguiu abater alguns clientes, o que causou ainda mais histeria, mas logo Aldebaran avançou sobre ele rápido feito um relâmpago, e como quem levanta uma pena do chão o agarrou pelo pescoço o lançando para longe, sobre o palco principal, com força colossal.
Igor, que estava ao lado atirando contra Touro, desviou por um segundo os olhos para o companheiro, e nessa hora também fez uma viagem só de ida para o outro mundo depois de ser acertado por um único soco potente do brasileiro que afundou seu rosto. Caiu no chão feito uma tora de madeira, com o dedo ainda no gatilho do rifle.
Tendo se livrado dos três garçons infiltrados, Aldebaran seguiu avançando pelo salão a passos duros e ligeiros, visivelmente alterado. Em um raro momento de fúria apontava para os capangas da Vory que ainda se mantinham de pé atirando sem trégua contra si e logo em seguida os derrubava com simples socos, chutes ou mesmo arremessando mesas contra eles.
— Seu bando de traíra cuzão, eu vou virar vocês tudo do avesso pelo cu! — gritava ensandecido.
Touro estava prestes a mandar todos os russos que estavam ali no salão para o inferno na base do murro, porém seu intento foi frustrado por Máscara da Morte, que de repente adentrou o local soltando fogo pelas ventas.
O Cavaleiro de Câncer havia sido atraído até o estacionamento pelos mesmos dois russos que bateram boca com ele na porta de entrada logo no começo do expediente. Um deles tinha-lhe jogado as chaves do carro e lhe mandado estacionar, e esse mesmo, poucos minutos antes de se dar início à chacina, levantou da mesa acompanhado pelo colega, foi até o estacionamento e furou os pneus do carro que haviam usado para chegar ali.
Com a desculpa de ter tido o veículo lesado, e depois de um novo bate-boca em frente à entrada do Templo de Baco, os dois russos e Máscara da Morte desceram para o estacionamento, onde mais onze capangas da Vory v Zakone aguardavam de tocaia o Cavaleiro.
A turbulência começou assim que o italiano chegou ao carro com pneus avariados, então os russos ergueram-se de seus esconderijos e dispararam todos ao mesmo tempo contra o alvo, porém, bem diante de seus olhos estupefatos, viram os projéteis congelarem-se no ar a poucos centímetros de tocar o corpo do canceriano. Câncer os controlava com telecinese.
Calmamente Máscara da Morte fechou os olhos e deu uma última tragada em seu cigarro antes de apagar a brasa na própria língua e jogá-lo no chão, então ao abri-los novamente um sorriso sarcástico se desenhou em seu rosto enquanto a armadura de Ouro de Câncer vinha cobrir seu corpo.
— Ma io devia ter desconfiado que oggi non seria um dia normal... — coçou a sobrancelha com a pontinha da unha do dedo mindinho — Quando me levantei da cama o mio dedão do pé esquerdo doeu... E quando o mio dedão do pé esquerdo dói é sinal de encrenca, fatto! — curvou os lábios para baixo em arco e ergueu as sobrancelhas — Va benne! Da próxima vez io vou ficar mais atento!
— Que merda ele está dizendo? ATIREM NESSE MISERÁVEL! ATIREM! — gritou o russo que havia furado os pneus do carro e que foi o primeiro a novamente atirar contra o canceriano, mas, antes mesmo dos outros apertarem seus dedos contra os gatilhos de suas armas eis que essas despencaram no chão, uma a uma, pois as mãos que as sustentavam não mais obedeciam aos comandos de seus donos, pairando inertes e vazias no ar. Vazios também eram os olhos dos russos, que arregalados divisavam o nada.
— Mais tarde io irei pessoalmente ao Yomotsu dar as boas-vindas a todos vocês. Io faço questão! — disse Máscara da Morte, que ainda tinha o braço erguido e o dedo indicador apontado para o céu onde todo seu Cosmo estava concentrado — Mas, agora eu tenho algo mais urgente para fazer, já que io imagino que nãoestão aqui por minha causa, non è vero?
Quando abaixou o braço o Cavaleiro de Câncer imediatamente deu meia volta e disparou ligeiro em direção ao salão, deixando para trás as balas que despencaram no chão e treze corpos separados de suas almas que agora pertenciam a ele e estavam condenadas a vagar pelo Mundo dos Mortos por toda a eternidade.
Ao adentrar o salão, Máscara da Morte imediatamente se deparou com o caos.
Sem perder tempo saltou por sobre os corpos no chão, mesas e cadeiras tombadas e foi direto para a escadaria que dava acesso ao segundo piso, onde Aldebaran também avançava contra um grupo de russos que a bloqueavam atirando com submetralhadoras.
Com o dedo indicador erguido em riste, e com extrema habilidade e zero de sujeira, o Cavaleiro de Câncer usou novamente as Ondas do Inferno e mandou para o Yomotsu as almas de todos dos atiradores que ainda estavam vivos ali no salão.
— Porra, Máscara! — Aldebaran exclamou aliviado ao ver o italiano ali — Vacilo! Eu ia amassar a cara de cada um desses pau no cu.
— Não dá tempo, Aldebaran. Deve ter gente lá em cima! Eles queriam só distrair a noi due. — disse o canceriano já saltando para as escadas e subindo os degraus de dois em dois, apressado e apreensivo. Era acompanhado pelo brasileiro que vinha logo atrás.
Ao alcançarem o corredor do segundo piso o horror os tomou de assalto.
Notaram de pronto a porta do quarto de Geisty escancarada e a do quarto de Misty reduzida a escombros no chão, onde um corpo jazia sem vida.
Na entrada do quarto de Lagarto este estava de joelhos enquanto amparava alguém estendido sobre o tapete vermelho que tinha a cabeça sobre suas coxas.
Máscara da Morte imediatamente reconheceu os cabelos azuis de Afrodite, e foi como se tivesse tomado um choque.
— Caspita! Ma che cazzo! — disse o canceriano já correndo até eles — TOURO, VEJA COMO ESTÁ A GEISTY! — gritou para o taurino, que já se dirigia para o quarto da amazona antes mesmo do pedido do canceriano, então praticamente atirou-se de joelhos no chão ao lado de Misty e do amigo pisciano — AFRODITE! — bradou alucinado ao olhar para o sueco banhado em sangue, inerte, e tão pálido que mais parecia um espectro do que um dia fora — O que aqueles infelizes desgraçados fizeram com você, seu stronzo?
— Máscara da Morte, depressa. Ele está morrendo. — disse Misty ainda um tanto desorientado.
O Cavaleiro de Câncer então passou os braços por debaixo das pernas e costas de Afrodite e se levantou do chão o trazendo consigo em seu colo.
— Não consigo imaginar o que aqueles figlio di una puttana fizeram com ele para deixa-lo assim, sem conseguir reagir ou ao menos usar o Cosmo para estancar o sangramento, mas coisa pouca non foi. Non foi mesmo!... Lagarto, acione a equipe do Doutor Hermes, diga que é um Código 5*. Vou leva-lo para o hospital do centro de Atenas.
Máscara da Morte não esperou resposta de Misty. Deu-lhe as costas e já partiu em disparada levando Afrodite consigo.
Ao passar pelo quarto de Geisty deu uma espiada rápida e viu Touro já lá dentro. Ficou mais aliviado.
Ao mesmo tempo, assim que adentrou o cômodo com o coração aos pulos Aldebaran se deparou com Geisty ajoelhada no chão e com Shina, coberta em sangue, que com muito cuidado tentava ajudar a amiga a se levantar. Notou que Serpente também sangrava muito.
— Por todas as aparições Marianas, o que que tá acontecendo aqui? — perguntou Touro com os olhos a lhe saltarem das órbitas, tamanho seu assombro — Shina, tu tá...
— Eu tô bem! — Ofiúco rapidamente assegurou — Graças aos deuses você está aqui, Aldebaran! Ajuda, rápido! Ela está passando muito mal. Não consigo levanta-la sem que ela grite de dor. — disse enquanto sustentava a amiga ofegante e trêmula pelos braços — Temos que leva-la ao hospital o mais rápido possível.
— Meus... bebês... — Geisty disse sôfrega — Estão sofrendo... eu sei... eu sinto!
— Minha Nossa Senhora do Bom Parto, num fala isso não, dona patroa! Fica calma. — Touro disse nervoso já erguendo a amazona do chão para pegá-la em seu colo.
— Aaaargh... Atena! — Geisty gemeu com o movimento.
— Fica calma, eu vou te levar pro hospital. Guenta firme! — assegurou o brasileiro, e depois olhou para o estado deplorável de Shina — E você vem junto, né? Tá toda arrebentada... Que caralho aconteceu aqui, cara? — olhou para a figura caída no chão desacordada mais ao lado. Um homem de idade já avançada — E aquele sujeito ali, quem é?
— Eu não estou certa, mas se for quem imagino... — fez uma pausa enquanto olhava para Dimitri no chão, depois voltou-se para Touro e o encarou nos olhos — Eu estou bem. Esse sangue não é meu. Eu vou ficar aqui, mas você precisa correr. Anda, vai! Ela precisa ir para o hospital.
— Shina! — disse Geisty entre soluços quando Aldebaran já corria para fora do quarto, então o brasileiro parou para que ela pudesse estender a mão trêmula tingida com seu próprio sangue e pegar a da amiga — Avisa o Saga...
— Aviso... aviso, claro! — Shina respondeu — Eu vou falar para ele ir direto para o hospital. Fica calma, vai dar tudo certo. — apertou a mão da amiga soltando logo em seguida para que Aldebaran pudesse seguir.
Shina ficou olhando para eles até que sumissem quando Touro desceu as escadas, então, nervosa e aflita, engoliu em seco.
— Vocês vão sair dessa. — murmurou, querendo convencer a si mesma daquilo.
Sozinha ali Shina suspirou profundamente fechando os olhos. Em sua cabeça em fração de segundos se desenhava tudo que havia ocorrido ali, e também suas consequências. Pelo barulho que ouvira a situação no salão era grave, ainda que baixo escutava gemidos, gritos e pedidos de socorro, mas o que mais lhe afligia era mesmo o estado de Afrodite e de Geisty, e de como Saga encararia tudo aquilo.
— Madonna mia! — exclamou esfregando o rosto, então, depois de algum momento, abriu os olhos e voltou o rosto para Dimitri, que seguia desacordado estirado no chão do quarto da amazona de Serpente.
Shina franziu o cenho, assumindo um semblante sério e circunspecto. Fixou febrilmente o olhar naquele homem. Não sabia que aquele era o chefe máximo da máfia russa, mas deduzia que por sua aparência e idade era seguramente algum figurão dela, e não estava ali pessoalmente à toa. Só podia ter sido a gravidez de Geisty e seu envolvimento com Saga que havia provocado toda aquela tragédia.
Sentiu raiva, ódio, revolta, e com os olhos raiados de vermelho caminhou até ele. Ficou um momento apenas o olhando com desprezo, acompanhando a respiração silenciosa fraca e o peito que mal se mexia. Ergueu a vista e divisou o quarto. O rastro de sangue sobre o carpete marfim, as paredes todas perfuradas por balas, um corpo com a garganta dilacerada caído no fim do pequeno corredor que levava ao banheiro... Mordeu o lábio inferior para lutar contra a vontade de gritar e chorar que lhe subia da garganta, então, num rompante de raiva pura armou seu golpe contra Dimitri distendendo as garras da mão direita.
Estava prestes a dar cabo do líder da Vory v Zakone quando foi interrompida por alguém que chegara ali no quarto.
— Não faça isso.
Com o susto Shina congelou seu golpe no ar e olhou para trás.
— Misty!... Me assustou. — ela disse soltando o ar dos pulmões.
— Todos estamos assustados, Ofiúco... — Lagarto respondeu enquanto se aproximava dela tateando as paredes e se escorando nos móveis que sobraram de pé. Quando chegou perto esticou os olhos e analisou Dimitri no chão.
Misty não conhecia Dimitri, mas era inteligente e astuto o suficiente para deduzir que aquele homem desacordado sobre o luxuoso e destruído carpete marfim do quarto da amazona de Serpente era uma peça chave para a elucidação daquele quebra cabeças funesto, afinal de contas, se a Vory v Zakone havia engendrado um ataque direto ao Templo das Bacantes e portanto, ao Santuário, e Camus não estava presente, talvez o aquariano não estivesse a par dele. E se Camus foi deixado de fora de uma operação tão arriscada, e com consequências perigosíssimas para ele inclusive, era porque a inteligência da Vory havia descoberto algo que comprometesse sua lealdade para com eles, talvez até mesmo seu relacionamento velado com Afrodite. Somado a isso, talvez a única maneira de descobrir a verdade e saber de fato se Camus estava ou não envolvido com aquela chacina era manter um de seus realizadores vivo. Aquele homem desacordado no chão.
Mesmo diante de tanta desgraça a mente perspicaz do Cavaleiro de Prata sempre trabalhava de modo a tirar algum proveito da situação para si, e por isso Misty viu naquela tragédia a oportunidade perfeita para ganhar de vez a confiança do Santo de Aquário, pois somente se Camus estivesse ao seu lado é que tinha uma chance de separa-lo de Afrodite.
— Deixe ele vivo. — disse o Cavaleiro de Prata ao parar ao lado de Shina.
— Para quê? Não conhece esses filhos da puta? Acha que ele vai falar algo, vai entregar alguém? Eles morrem, mas não entregam os seus. Desgraçados. — rosnou a amazona.
— Eu sei, mas então deixe que Saga constate isso por si mesmo. — respondeu Lagarto — Ou acha que o Grande Mestre vai simplesmente acreditar em nós quando souber que a mulher dele saiu daqui carregada pelo Aldebaran e sabe-se lá se volta.
— Claro que ela volta... Não fale assim.
— Esse velho é a única garantia que temos de que Saga não vai chegar e terminar o serviço que eles começaram... Olha à sua volta. — Misty esticou os braços apontando para o corpo no pequeno corredor — A gente está acabado. Sabe quando o Templo das Bacantes vai abrir as portas de novo depois dessa?... A Vory nos declarou guerra!
Shina bufou raivosa.
— E onde está o cretino do Camus? Aquele desgraçado está do lado deles ou do nosso? — vociferou a amazona encarando Misty.
— É certamente o que Saga vai querer saber... e é esse desgraçado aí no chão que vai dizer. — disse Misty.
Shina suspirou profundamente.
— Está certo... Mas, não podemos deixar ele aqui. Anda, vem. — ela disse já se curvando para levantar Dimitri do chão — Vamos leva-lo para o porão. A gente amarra o filho da puta lá e então ele é todo do Saga.
— Perfeito! — Misty concordou e mesmo cambaleante e tonto, seguiu a amazona.
Depois de terem despachado Dimitri para o porão do Templo de Baco e devidamente o amarrado à uma cadeira simples de madeira, Shina delegou uma última tarefa a Lagarto.
— Você fica de olho vivo nesse porco. Vou dar uma assistência aos feridos lá no salão. Eu senti há pouco Shura emitir um alerta de invasão e os Cavaleiros de Ouro que estão fora a essa hora já devem estar a caminho do Santuário, mas acredito que sem saber que foi um ataque civil... — suspirou irritada — Ainda não posso acreditar na audácia desses filhos da puta.
— Pode deixar. Daqui ele não sai. — respondeu Misty enquanto cobria com uma atadura o ferimento leve que sofrera no braço.
— Estou sentindo o Cosmo de Marin e dos Cavaleiros de Prata se aproximar... Atena!... Tudo aconteceu tão rápido que tudo que eles vão poder fazer agora é apenas ajudar a recolher os corpos e socorrer os feridos... — lamentou a amazona de cabelos esverdeados — Que a deusa me dê sabedoria para encarar esse cazzo de noite e tudo o que vem pela frente... Principalmente a ira do Grande Mestre!
Misty apenas lançou um olhar apreensivo para Shina. Era a reação de Saga também o que mais temia.
Ofiúco então, mantendo o semblante sério caminhou para a porta de saída do porão, o mesmo local que também servia de depósito de bebidas. No caminho olhou para os homens abatidos por Aldebaran que ainda jaziam inconscientes no chão.
— Vou mandar Babel, Algol e Asterion para virem recolher esses miseráveis. — chutou a perna de um deles que estava bloqueando seu cominho, depois virou-se novamente para Misty e encarou seus olhos — Mais uma coisa... Se Camus der as caras por aqui avise a todos imediatamente. Entendido, Misty?
Lagarto fingiu desdém jogando os cabelos para trás dos ombros.
— Pode deixar. — respondeu.
— Não sabemos se Camus virou a casaca então toda garantia ainda é pouco. — disse Ofiúco incisiva — Ou a sua cabeça, e de quem mais estiver junto, pode rolar quando Saga ficar sabendo dessa merda. E particularmente eu não quero estar aqui quando ele chegar.
— Eu entendi, Shina. — Misty respondeu com relativa indiferença na voz, enquanto via a amazona deixar o local.
Assim que se viu sozinho Lagarto fez uma careta ainda encarando a porta por onde Shina saíra, depois voltou seus olhos para o velho amarrado à cadeira.
— Mas que bela noite de bosta! — suspirou apoiando a cabeça latejante na parede e começando um monólogo — Mas vai dar tudo certo Misty, vai dar tudo certo... A Peixuda vai sair dessa... Vai sim!... Vaso ruim não quebra fácil. E esse velho aí... — olhou de canto de olho para Dimitri — Se eu tiver sorte esse matusalém ainda vai ser minha garantia com o ruivo!
Negrito – traduzido do russo.
Código 5* — alerta de cavaleiro ou amazona feridos em estado grave, o que se faz necessário atendimento realizado por uma equipe médica especializada e muito bem treinada.
