Um pequeno disco prateado saiu da ponta da varinha de Sirius enquanto o Dama Furada passava por entre as nuvens. O disco saiu voando e desapareceu depressa à distância, dirigindo-se à Hogwarts, o destino deles. No estágio de planejamento da batida em Azkaban, muito se pensou sobre onde exatamente o Dama Furada poderia pousar sem atrair atenção dos trouxas, mas a escolha final fora feita com base na segurança. Apesar da escola ser a uma distância considerável do St. Mungo's e do Ministério, poderia servir como ponto de encontro para todos os prisioneiros e suas famílias. Alguns membros do Ministério tentaram insistir sobre longos check-ups em cada prisioneiro para determinar se algum deles estava sob a Maldição Imperius, mas o próprio Dumbledore os dissuadira, comentando que tais coisas podiam esperar. A liberdade era mais importante.
Vozes alegres chegaram até a popa deserta onde Sirius e Arthur estavam sozinhos. Lá embaixo, os Aurores usavam feitiços de cura nos prisioneiros -- todos os Aurores aprendiam cura de emergência durante do treinamento básico. As feridas maiores, como as de Frank Longbottom, teriam que esperar pelo St. Mungo's ou a Ala Hospitalar de Hogwarts, mas dariam um jeito no que podiam. A viagem até Londres, afinal, ainda levaria uma hora, a despeito da velocidade com que o Dama Furada estava voando.
Passos fizeram com que ele olhasse sobre o ombro, e Sirius sorriu. Arthur ou não ouvira ou simplesmente não se virou; Sirius foi até ele, dizendo baixinho. "Eu cuido dela por alguns minutos."
"Como?" a atenção de Arthur estava tão concentrada no controle do Dama Furada que era óbvio que ele não prestara atenção.
"Vire-se," ele sorriu, gentilmente afastando Arthur.
Bill estava esperando.
sirius virou-se para permitir que o homem e seu filho se reunissem em particular, e com muita educação fingiu não ter notado as lágrimas nos rostos de ambos. Escutando as vozes baixas e alegres atrás dele, Sirius distraidamente esticou a mão e desfez o rabo de cavalo. Normalmente, ele não teria se incomodado em prendê-lo, mas tinha hora que sabia que não podia se dar ao luxo de ter a distração do cabelo caindo no rosto, e algo lhe dissera que hoje era um desses dias.
Ele balançou a cabeça. Cedo ou tarde, ele teria que pensar sobre o que fizera, mas agora não era a hora. Não estava pronto ainda.
Por um longo momento, ficou parado quieto, permitindo que o vento chicoteasse suas vestes e cabelo enquanto ele fitava a escuridão da madrugada. A aurora surgiria quando estivessem chegando em Hogwarts, o que ele achava que combinava, mas no momento, Sirius existia num pequeno instante de paz e liberdade. Sabia que não duraria, mas naquele momento, podia simplesmente relaxar. Podia ser livre -- talvez pela última vez.
Arthur falou bem a tempo de libertar Sirius de seus pensamentos sombrios. "Obrigado," ele disse bem baixinho.
O Auror sorriu. "Vou deixar vocês conversarem."
"Não precisa--" Bill começou, mas Sirius balançou a cabeça.
"Está tudo bem," ele respondeu e saiu da popa. Passando pela escada que levava para o andar de baixo, pedaços de conversa alegre chegavam até ele, mas Sirius resistiu ao impulso de ir até lá embaixo e comemorar a vitória. Apesar de saber que os outros o receberiam bem, não queria ter que lidar com as reações inevitáveis. Não queria ter que enfrentar as perguntas inevitáveis. Não até que ele soubesse as respostas.
Sirius suspirou e dirigiu-se aos fundos. Seus passos soavam baixinho n deque de madeira e quando alcançou a ponta do Dama Furada, apoiou-se na murada e inclinou-se sobre ela ligeiramente, saboreando a sensação do vento soprando. O vento não fazia perguntas. Não exigia respostas. Silencioso e forte, ele lhe dava outro momento de paz. Mas a calma não podia durar.
Ele enfrentara Voldemort.
O pensamento ainda era suficiente para fazer um arrepio percorrer sua espinha, mas ainda assim Sirius estava estranhamente em paz com o que tinha feito. Em Azkaban, ele fizera uma escolha consciente -- ah, ele não pensara nas possibilidades ou conseqüências na hora, mas sabia de todas elas mesmo assim, quando escolhera. Escolhera virar aquele corredor e enfrentar o bruxo das trevas mais perigoso da história. Esperara morrer? Mesmo agora, não sabia. Na hora, só soubera que alguém tinha de fazê-lo. Alguém tinha que fazer a escolha. E ele a fizera.
E o fato de que ele sobrevivera ainda o espantava. Sirius fechou os olhos, lembrando-se. Quase sentira os movimentos de Voldemort, quase fora capaz de prever -- não, ele fora capaz de prever. Quase como se visse através dos olhos de Voldemort tempo o bastante para saber que magia ele lançaria em seguida. Um parte profunda e instintiva dele soubera.
Então ele lutara diretamente com a vontade do Lorde das Trevas e sobrevivera também. O que teria acontecido se Kingsley e os outros não tivessem estuporado a ambos, Sirius não sabia, mas o que sabia era que tinha ficado cara a cara com o horror que vivia em seus pesadelos e não se acorvadara. Não cedera nem hesitara. De algum modo, descobrira uma força e poder profundos que nunca usara antes e eles o tinham salvo. Em retrospecto, Sirius achava que a força que usara tinha sido a mesma que o permitara sobreviver à Azkaban, mas ainda sentia a diferença.
Algo mudara. Não tinha certeza do quê, mas algo nele mudara.
Era aterrorizantes pensar nisso, quase irreal para se considerar. Mas enfrentara Voldemort e sobrevivera, e algo dentro dele dizia a Sirius que teria de fazê-lo de novo.
Havia uma multidão esperando quando o Dama Furada tocou suavemente a superfície do lago de Hogwarts. Enquato ele parava lentamente no pier, os bruxos e bruxas reunidos soltaram um grito alegre. Faíscas de boas vindas saíram de inúmeras varinhas e uma inspiração coletiva surgiu quando a prancha do navio foi baixada. Na popa, Arthur e Bill Weasley sorriam como loucos; ao vê-los o bando ruivo à frente da multidão caiu em gritos ainda mais altos de contentamento. A multidão imediatamente respondeu e ficou ainda mais alta, alheia completamente ao espectador solitário que permanecia escondido ao leme do Dama Furada.
Sirius assistiu em silêncio enquanto a multidão continuava a torcer e gritar. Reconheceu muitos rostos entre eles; os principais entre eles eram Albus Dumbledore e sua nova Vice Ministra da Magia, Arabella Figg. À sua direita estavam os três Potter, Remus Lupin e Peter Pettigrew. Também presentes estavam as famílias dos prisioneiros resgatados e vários funcionários e alunos de Hogwarts. Dumbledore fizera um trabalho rápido para reuni-los nas primeiras horas da manhã, mas havia poucos que perderiam a chance de ver seus familiares voltarem para casa depois de tanto tempo. Pelo menos metade dos Aurores presentes tinha provavelmente se apresentado voluntariamente, Sirius sabia, pois isso era uma ocasião histórica -- e uma das poucas vitórias definitivas que o lado deles já alcançara.
O Profeta Diário estava lá também, é claro; não havia como Dumbledore excluir a imprensa de uma ocasião maravilhosa como aquela e Sirius contou pelo menos sete repórteres diferentes na multidão, tirando fotos à distância, mas ainda assim graciosamente ficando longe das famílias ansiosas. Aquilo sem dúvida explicava a presença dos Aurores; isso era um momento familiar e não de manchetes. Os repórteres teriam tempo para isso depois.
Um grito de alegria ainda maior surgiu quando Frank e Alice Longbottom lideraram os prisioneiros pela prancha. Um garoto de cabelos castanhos saiu correndo imediatamente para encontrar-se com o pai que ele não via há seis meses com uma alegria visível no rosto e Sirius sorriu quando Frank passou o braço bom em torno do ombro de Neville, ainda apoiado por Alice do outro lado. Reuniões similares ocorriam enquanto cada prisioneiro chegava à sua família; quando Bill Weasley finalmente surgiu ao lado de seu pai, sua família imensa o rodeou. A visão das lágrimas correndo pelo rosto de Molly Weasley -- apesar dela ser uma prima distante a quem ele nem mesmo conhecia -- de repente ajudaram a tirar o peso no coração de Sirius. Tinham saído para fazer o impossível -- e tinha conseguido.
"Você vem, Sirius?" Oscar Whitenacl perguntou, aproximando-se por baixo.
"Num instante," ele respondeu baixinho. "Vá em frente."
"Tem certeza?"
Ele não estava olhando para Oscar, mas Sirius podia sentir os olhos dele queimando na suas costas com algo que parecia espanto. O jovem Auror tentava corajosamente manter a voz casual, mas Sirius ouvia a diferença no tom.
"Tenho. Preciso de um momento para pensar."
"Tudo bem." Oscar hesitou por um momento, então Sirius escutou seus passos se afastarem lentamente. Menos de dois minutos depois, os Aurores vitoriosos marcharam pela rampa e a multidão soltou outro grito ensurdecedor. Eles imediatamente se tornaram o centro das atenções enquanto bruxas e bruxos reunidos os rodeavam, dando tapas nas costas entusiasmados e expressando uma gratidão eterna. Eram os heróis do momento, os poucos e orgulhosos e os Aurores aceitaram os agradecimentos com sorrisos exaustos, mas felizes. Lentamente, porém, eles se afastaram, dispersando-se entre a multidão, sem dúvida contando histórias da proeza e revendo as próprias famílias.
Ainda assim Sirius ficou parado em silêncio no Dama Furada. O sol subia depressa às suas costas, banhando Sirius nas sombras, mas ele continuou parado, observando Hestia Jones se aproximar dos Potter e falar baixinho com James. Ele sorriu ligeiramente com um respeito recém-descoberto por sua 'instrutora'; por mais que as personalidades deles discordassem, ela provara ser poderosa e profissional em Azkaban, e Sirius definitivamente apreciava isso.
Enquanto Jones falava, Sirius viu os olhos de James voarem para o Dama Furada, procurando-o, mas Sirius ficou nas sombras. Sentia-se estranhamente separado das comemorações que aconteciam no terreno. Apesar de estar contente com a vitória -- como não poderia, quando foi seu plano que tivera sucesso? -- ainda não queria lidar com as perguntas inevitáveis, nem com as respostas que eles forçariam para que ele criasse. Sirius meio que desejava simplesmente desaparatar, mas mesmo que pudesse fazê-lo nos terrenos de Hogwarts, isso não teria resolvido seus problemas. Ainda teria que lidar com isso mais cedo ou mais tarde.
Sirius suspirou. Supôs que estava na hora de parar de se esconder -- algo que ele nunca fizera bem -- e enfrentar o mundo, mesmo que não quisesse. Aprumando os ombros, o Auror se adiantou e seguiu para o único caminho para a saída.
Quando Sirius apareceu na margem superior da prancha, um murmúrio percorreu a multidão. Sua chegada não criou nenhum grito de comemoração, mas ele ouviu os sussurros começarem assim que ele pôs o pé na prancha. A cada passo que dava, os sussurros ficavam mais altos e mais insistentes; todos os olhos estavam concentrados nele. Vozes flutuavam até seus ouvidos.
"Sirius Black..."
"... Você-Sabe-Quem..."
"Enfrentou sozinho..."
Eletricidade correu pela multidão, mas Sirius não parou. As pessoas fitavam-no e apontavam, mas ele não parou. Se parasse, Sirius não tinha certeza de que não iria simplesmente virar-se e fugir. Agora, fazer isso seria muito mais fácil do que lidar com a súbita pressão que ele não pedira para acontecer. Um pé diante do outro, ele disse consigo mesmo. Nunca hesite. Mas por trás de um rosto sem expressão, ainda sentia frio por dentro. Tudo que ele queria agora era ser deixado em paz.
"... duelou com ele..."
"O primeiro desde Dumbledore a..."
"... ainda vivo..."
Seus pés tocaram o chão firme e flashes surgiram no seu rosto. Sirius imediatamente dirigiu-se à direita, piscando no brilho repentino, na direção dos amigos. De todos eles, porém, só Remus e Dumbledore pareciam não estar surpresos. James escondia o choque bem, mas os olhos cor de mel estavam mais arregalados do que o normal e suas feições estavam quase brancas. Quando Sirius chegou até eles, a conversa em torno surgiu novamente.
"Bem vindo de volta, Sirius," Dumbledore disse calmamente. "Muita coisa aconteceu enquanto esteve fora."
Sirius olhou para ele com curiosidade, mas James não lhe deu a chance de falar, oferecendo uma mão que rapidamente se transformou num abraço de urso. "Só estou contente por você estar vivo, amigo."
"Obrigado."
Os olhos de Peter o seguiram quando os dois se separaram. "Sempre soube que você era doido, Almofadinhas, mas puxa..." Sua voz tremeu ligeiramente. "Nunca teria coragem de fazer aquilo."
"Você enfrentou mesmo Voldemort?" Harry de repente perguntou, ao lado de sua mãe.
"Harry--" Lily começou a avisar, mas Sirius interrompeu-a.
"Está tudo bem," ele disse suavemente, olhando para o afilhado.
"Por que?" Harry perguntou, sem saber que estava fazendo a pergunta que estava nos olhos dos mais velhos. Sirius hesitou por um momento, e sentiu seus olhos concentrarem-se no horizonte distante. O sol se levantava com força e seria um belo dia.
"Porque alguém precisava fazê-lo."
Horas depois, depois de todas as reuniões e descrições do que ocorreu, cinco homens se reuniram na sala de conferência fechada além do escritório do Ministro da Magia. Os quatro mais jovens sentaram em silêncio, resistindo ao impulso de trocarem olhares curiosos e esperando que Dumbledore falasse. Finalmente, após avaliar os quatro cuidadosamente sobre seus óculos de meia-lua, o velho bruxo começou a falar.
"Tenho certeza de que vocês todos estão se perguntando por que eu pedi aos quatro para virem aqui esta tarde," ele começou. "De fato, duvido que quaisquer um de vocês reconheça que sua presença aqui tem algo a ver com os eventos extraordinários das últimas doze horas. Mas na verdade, sua presença aqui tem tudo a ver com o que aconteceu. E ainda mais no futuro."
Sirius sentava-se em silêncio ao lado dos três melhores amigos, sabendo que pelo menos algumas daquelas palavras eram direcionadas a ele. Como elas se aplicariam a Peter ou Remus, porém, não conseguia entender ainda. Dumbledore continuou:
"Noite passada, três coisas muito inesperadas ocorreram. Primeiro, como vocês todos sabem, Sirius enfrentou Lord Voldemort e sobreviveu. Não preciso enfatizar o queão importante isso é."
"Segundo, e quase ao mesmo tempo, Sibyll Trelawney fez sua segunda profecia verdadeira, prevendo a derrota eventual do Lorde das Trevas." Olhos azuis miraram nele sem aviso. "Acredito, Sirius, que essa profecia se relacionada a você diretamente. Remus a testemunhou tarde da noite de ontem e foi gentil o bastante para registrar a lembrança na penseira. Antes de passar para a próxima questão, gostaria que todos vocês a ouvissem."
Sem dizer palavra, Remus esticou a mão e mexeu o líquido prateado da penseira com sua varinha. Após um momento, uma figura familiar e olhos arregalados emergiu de suas profundezas, rodando lentamente e falando numa voz rouca estranha.
"A escolha foi feita. O terror do Lorde das Trevas o encarará, possuindo um poder que as trevas não consegue compreender... Mas ele escolheu, e compreendeu, e assim terminará... Assim modelado pela dor, pelo sangue e pelo destino, somente ele escolherá ficar... Ma abandonado ele perecerá e as trevas continuarão... O mundo mudou e esta noite marca a escolha do terror do Lorde das Trevas... A escolha foi feita..."
Sirius sentiu sua respiração acelerar enquanto Remus removia a varinha e Trelawney desaparecia na penseira. Piscando, ele tentou clarear a mente, mas as palavras continuavam fugindo, mesmo quando todo mundo na mesa ficou quieto e tentavam desesperadamente mostrar que não estavam olhando para ele. Em Azkaban, Sirius tinha agido com o conhecimento de que alguém tinha que fazer algo -- fizera uma escolha, mas não pretendia que fosse assim... Ou pretendera? As palavras de Dumbledore de mais de dois meses voltaram a mente imediatamente. Apenas um deles tinha direta e abertamente confrontado Lord Voldemort e sobrevivido.
E agora ele o fizera duas vezes.
O silêncio estava ficando insurportável, mas sabia que pelo menos James e Remus pensavam na mesma coisa. Enfim, Remus esticou a mão e apertou o ombro dele num gesto carinhoso de apoio, e Sirius conseguiu sorrir para os amigos. No que eu me meti? perguntou-se desesperado ao mesmo tempo. Isso não pode estar acontecendo. Mesmo assim, a vozinha de sua consciência falou na sua cabeça, soando gentil, considerando as circunstâncias. Você escolheu, ele se lembrou. E pode mentir como quiser para si mesmo, mas você sabia. Finalmente, Dumbledore resgatou Sirius de seu monólogo interno.
"Por fim, e o motivo de vocês quatro estarem aqui, é uma visão que tive noite passada. Como Remus sabe, um acidente na minha juventude me impôs certos... poderes incomuns. minhas visões raramente são tão claras como essa foi, contudo, e é por isso que escolhi dividir ela com vocês."
"Minha visão mostrou vocês quatro, lado a lado contra um cenário com o céu de tempestade. Vocês estavam sozinhos, mas o mais importante é que estavam juntos. Não sei o quê ou quem vocês enfrentavam, mas o que eu sei, naquele momento, é que tudo dependia de vocês quatro -- da sua força e de sua fraqueza, mas o mais importante, da sua amizade. Naquele momento, vocês eram a nossa última linha de defesa."
Título Original: Promisses Unbroken -
Chapter 37: Spiral Of Change
Autora:
Robin
Tradução: Rebeka
