Capítulo 35

"Pai... Eu...?"

"Eu estou esperando um filho seu. É isso. Eu estou grávida... Você vai ser pai."

Ainda estava difícil digerir tudo aquilo que havia escutado, e isso já fazia dois meses. Estava com uma enorme dificuldade de acreditar que aquilo era mesmo verdade. Nunca, durante a sua vida, havia imaginado que chegaria a isso.

Nunca havia imaginado que seria pai.

"Pai... Eu...?", Vegeta pensou, enquanto flutuava sobre um descampado. "Sou um guerreiro saiyajin. Por que iria me preocupar em ser pai?"

Aterrissou e começou um rápido exercício de aquecimento. Já fazia alguns dias que treinava ali. Enquanto estava ali, a nave estava passando por uma grande série de consertos e reajustes, além de uma senhora reforma nos dispositivos do computador central, principalmente naqueles que eram para regular a gravidade.

No entanto, não conseguia se concentrar direito.

Após o aquecimento, começou sua sessão de treinamento, desferindo golpes velozes contra o ar. Saltou, treinando socos e chutes contra algum adversário imaginário. Fez isso, até perder a noção do tempo.

Sentou-se numa das pedras daquela paisagem árida e começou a refletir sobre tudo o que estava acontecendo com ele, desde que resolveu ficar na Terra.

A sua vida tinha dado mais voltas do que um planeta em sua órbita em torno de uma estrela qualquer. Primeiro, havia aterrissado ali pra encontrar seu rival, mas a partir daí tudo começava a ter uma reviravolta. Principalmente, após a aparição daquele garoto do futuro, que fez aparecer o poder de Super Saiyajin sabe-se-lá-de-onde.

Depois disso, passou a ficar hospedado numa casa que tinha uma família de malucos. Quando a nave explodiu, lá estava aquela mulher neurótica e irritante, tentando tirá-lo dos escombros.

Após esse acontecimento, algo começava a surgir dentro de si. Descobriu o que era, após aquela festa dos pais dela. Era a atração que surgia ali.

Depois, com o passar dos dias, desencadeava-se uma série de coisas que até então ele não sabia que existia em si. Até chegar onde estava agora.

Seria pai. E isso não entrava na sua mente de jeito nenhum.

Na verdade, qualquer um se empolgaria com isso. O fato de ser pai poderia significar várias coisas, como por exemplo, dar continuidade ao sangue da família.

Mas, para Vegeta, isso não significava nada. Principalmente porque seu filho seria mestiço. Onde já se viu alguém, da família real, da nobreza, ter um filho mestiço? E, pra completar, mestiço de uma raça tão inferior e desprezível como a fraca raça humana?

Onde havia chegado...

Cerrou os punhos, já bastante enraivecido. Aquilo havia sido a gota d'água para começar a ter raiva de si mesmo. Como pôde deixar-se envolver por uma terráquea insignificante e mandona, a ponto de querer até mesmo dar-lhe o universo inteiro?

"Tolo!", pensou. "Você é um grande tolo!"

Reprovava-se sem parar por tudo isso. Não conseguia entender de onde havia tirado todos aqueles sentimentos idiotas que estava tendo ultimamente. E não conseguia entender também a razão de ter se deixado levar por tudo isso.

Mas, naquele momento, simplesmente se odiava. Sentia nojo de si mesmo por ter chegado – segundo ele – ao fundo do poço, agora que poderia vir um filho mestiço. Queria desaparecer daquele planeta o mais rápido possível, ou seria igual ao patético do Kakarotto.

No entanto, queria antes realizar suas três maiores ambições: a de alcançar a transformação em Super Saiyajin, a de derrotar os tais androides e a de acabar com Goku.

Depois disso, cogitava ir embora do planeta, sem a menor possibilidade de retornar.

Dizia isto a si mesmo, no entanto, sem tanta firmeza assim.

- Ufa...! Que trabalheira...! – Bulma suspirou após instalar mais uma peça no computador da nave. – Isto estava mesmo pedindo por socorro...

Recorreu mais uma vez ao projeto e percorreu os olhos azuis sobre os desenhos que havia feito para orientar-se naquela reforma. Após analisá-los, procurou por algumas ferramentas, até encontrá-las.

Passou a mão na testa que começava a suar. O calor estava forte.

Olhou para o relógio de pulso, que confirmou suas suspeitas: já passava do meio-dia e já estava mais do que na hora de almoçar. Sua mãe poderia chamá-la a qualquer momento.

Dito e certo...

- Bulma, filhinha... Já está na hora do almoço!

- Já tô indo!

Entrou na cozinha e se sentou à mesa, em frente à cadeira que seria ocupada por Vegeta. No entanto, há dias que ela permanecia vazia nesse horário. E há dias que Bulma se sentia culpada por isso.

Há dias que ele a evitava. Era um afastamento, a princípio sutil, mas que agora estava mais do que evidente. Desde que soubera da gravidez de Bulma, Vegeta a evitava.

Quando se pensava que as barreiras entre ela e o guerreiro haviam se acabado, surgiam novas barreiras que, aos poucos, obrigavam-na a começar de novo, da estaca zero.

Ao terminar a refeição, suspirou. Doía saber que ele estava como era antes: indiferente, frio e insensível. Estava quase que literalmente dando-lhe um "gelo", tamanha a frieza que estava tendo.

Em pensar que sabia que ele possuía outro lado... Nada muito romântico, verdade, mas... Ele sabia como agradá-la com pequenos gestos, até mesmo cumprindo seu papel de "amante", mas...

Esse "outro lado" do príncipe saiyajin havia desaparecido desde aquele momento. Tanto que voltara a ter um quarto separado só para ele.

Só para não ter contato com ela, além do "estritamente necessário", relacionado aos seus treinos.

Vegeta realmente estava ignorando ela. Isso era fato. Mas Bulma preferia mil vezes que ele tivesse surtado ou tivesse tido qualquer outra reação... A indiferença, no início, não era tão ruim, mas...

Aquilo doía como a dor que se sente quando se segura um cubo de gelo nas mãos, por muito tempo. Era uma "dor gelada", daquelas que faziam com que ela não tivesse como reagir.

E tudo aquilo estava preso dentro de Bulma. Não conseguia encontrar alguém para se abrir sobre isso. E o que ela mais precisava agora era se abrir para alguém, desabafar sobre o que estava sentindo.

E precisava fazer isso o mais rápido possível.

À noite, após mais um dia cansativo de manutenções, Bulma saía de seu banho e se dirigia mais uma vez ao espelho, que refletia sua imagem de corpo inteiro.

Já começava a perceber algumas alterações no seu corpo. Ainda eram pequenas, mas já mexia com a cientista, que antes não conseguia se imaginar grávida. Mas agora conseguia se enxergar assim, e começava a imaginar como seria seu corpo dentro de cinco ou seis meses, já com aquele "barrigão" que iria aparecer inevitavelmente.

"Aiaiai... Será que vou engordar muito...?", pensou, olhando para a "barriguinha" que começava a ficar evidente. "E como vai ser esse bebê? Será que vai ser um menino, ou uma menina?", perguntou-se, com um sorriso divertido. "Mal posso esperar pra saber!"

Logo, uma luz iluminou sua mente, fazendo-a ir até uma gaveta de sua cômoda. Abriu-a e dela tirou um caderno de capa dura vermelha, com uma caneta junto.

Era o seu diário, que estava abandonado há muito tempo na gaveta.

Era hora de colocar as confissões em dia... E desabafar, que era o que mais necessitava naquela hora.