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FEITICEIROS

Por Kath Klein

Colaboração: Yoruki Hiiragizawa

Revisão: Rô Marques & Yoruki Hiiragizawa

Capítulo 35

Predestinação

Syaoran abriu os olhos assim que sentiu a luminosidade da brecha diminuir. Sentiu o ar pesado e denso do Mundo das Trevas novamente. Realmente não tinha saudades daquele lugar. O calor infernal. A atmosfera com aquele cheiro horrível. Balançou a cabeça de leve, pensando que poucos segundos atrás ainda podia sentir o perfume suave de cerejeiras dos cabelos de Sakura.

Que merda! Agora estava ele naquele lugar, novamente, e o pior era que não sabia como conseguiria sair dali, nem quanto tempo levaria. Passou a mão no rosto, tentando controlar a vontade que tinha de simplesmente dar meia volta e retornar para o seu mundo. Voltar para Sakura.

Fechou os olhos, pensando que agora não havia mais necessidade de manter a compostura para tentar passar confiança à namorada. Inferno! Por que tinha que parar naquele lugar novamente? Por que teve que se separar dela mais uma vez? Sentia tanta raiva dentro de si por tudo sempre dar errado na sua vida. Tudo! Tudo sempre fora difícil! Toda vez que encontrava a felicidade com a jovem feiticeira, era sempre obrigado a se separar dela e ir para uma merda de lugar. Uma droga de treinamento e agora, literalmente, um inferno de lugar.

Caiu de joelhos no chão e sentiu a areia quente daquele solo árido entre os dedos, fechou as mãos e socou o chão. Uma, duas, três, quatro… Sentiu a aura explodindo e agora não se preocupava mais em tentar se controlar, na verdade queria, se pudesse, explodir tudo!

Ergueu-se devagar, olhando para o horizonte vazio daquele lugar onde não tinha absolutamente nada. Franziu a testa. Quanto antes terminasse com aquilo, mais rápido voltaria para casa. Levantou a cabeça, fitando o céu em chamas e pensando que, se não conseguisse voltar, faria o possível para destruir tudo.

Respirou fundo. Tinha que manter a cabeça fria agora. Não podia pensar daquela forma. Tinha prometido para Sakura que voltaria e, custe o que custar, iria cumprir sua promessa dessa vez. Olhou para o lado e reconheceu Arthas parado ao lado de um outro demônio. O grandalhão se aproximou dele devagar, Li podia jurar que conseguia ver um sorriso na cara feia dele. Não teve vontade nenhuma de retribuir.

'Bem vindo ao lar, Garoto.' Ele falou. É, ele estava certo, aquele inferno seria o lar dele por um bom tempo. Acenou com a cabeça sem falar nada. 'Pode não acreditar, mas senti a sua falta.'

Li franziu a testa. 'Deu para ficar sentimental agora?'

Arthas gargalhou. 'Voltou mais mau humorado.'

'Fui obrigado a voltar.' Olhou para o outro demônio que se mantinha ainda afastado. Fez um gesto indicando-o com a cabeça. 'E o outro ali?'

'O nome dele é Tadmoth.' Arthas respondeu. 'Ele vai nos levar às outras brechas.'

'Humph…' Li murmurou. 'Vamos ver…' Olhou em volta, pensando que poderiam, pelo menos, ter algum meio de transporte naquele lugar. Perderia mais tempo caminhando do que realmente combatendo algum demônio.

'Estou pensando, vai demorar séculos para se chegar em todas as brechas.'

'E você tem pressa.' O grandalhão completou. 'Como da outra vez.'

'Exatamente.'

'Acho que todos nós temos pressa.' Ouviram uma voz feminina atrás da dupla.

Eles se viraram e encararam a mulher. Tinha os cabelos longos lisos, corpo bem formado coberto por uma roupa negra. Os olhos eram negros como ônix.

'Midoriko.' Arthas apresentou a Li.

Ele franziu a testa novamente. Não gostou dela. Tinha alguma coisa naquela mulher que lhe dava arrepios. E, principalmente, não gostou nada da encarada que ela deu em Sakura. Midoriko caminhou devagar, parando em frente a ele.

'Você parece realmente um garoto.' Ela comentou, encarando-o nos olhos. Sentia uma poderosa presença vindo do rapaz e sabia que ele poderia expandi-la muito mais. Seria interessante ver até onde ele seria capaz de ir. 'Você tem ideia do que vai enfrentar, Garoto?' Ela perguntou, apenas recebendo um aceno de leve. Ela soltou um longo suspiro e se afastou. 'Não quero ficar cuidando de ninguém. Aqui, é cada um por si.'

"Como se eu não soubesse", Li pensou.

Tadmoth se aproximou devagar. Tinha os olhos também em Li. 'Então este é o novo Guardião.' Li ergueu uma sobrancelha.

'Do que está falando?'

Tadmoth sorriu de lado. 'Acho que você agora é a bola da vez, não?'

Os dois se encararam. Tadmoth tinha forma humana. Bem mais alto e musculoso que Li e, aparentemente, muito mais forte. Vestia uma armadura de couro e metal bem gasta e tinha uma espada presa às costas. Portava-se como um guerreiro.

'Apesar de que a história, que contam por aí, é que você já esteve aqui e conseguiu sair.' Tadmoth continuou encarando Li.

No fundo, não acreditava que aquele garoto realmente tivesse algum poder. Parecia fraco demais. Ele inclinou o corpo, podendo assim ficar com o rosto a altura de Li.

'Vamos ver do que você é capaz, Garotão.'

Arthas olhou de um para outro e resolveu intervir. 'Hum-hum…' Pigarreou, chamando a atenção dos dois que se afastaram. 'Melhor a gente destruir logo a brecha antes que apareça alguém querendo passar.' Os dois concordaram.

'Sabe, garoto…' Arthas começou a falar, pegando uma esfera vermelha de dentro da roupa. Mostrou para Li com orgulho. 'Enma Daiyoh mandou me entregar. Uma para cada brecha. Sou agora um demônio importante. Poderoso. Superior.' Completou, mal conseguindo controlar a presunção.

Li concordou com a cabeça para que ele fizesse logo o que tinha que ser feito.

Arthas se afastou dele e se aproximou da brecha. Syaoran observou a luz multicolorida que tanto lembrava a aura de Sakura, cerrou os punhos, controlando a vontade de sair correndo e voltar a atravessá-lla. Observou Arthas estender o braço com a esfera vermelha em direção ao portal. O objeto levitou na mão do demônio, indo em direção à luz, passou por ela e, em poucos segundos, sentiram a energia implodir, sugando os raios luminosos até que desaparecessem por completo. Li fechou os olhos e abaixou o rosto, agora era para valer.

'Onde fica a brecha mais próxima?' Li perguntou.

Tadmoth soltou um riso irônico. 'Você tem pressa demais, Garoto.'

'Li.' Syaoran falou. 'Meu nome é Li.'

'Certo… Li.' Ele repetiu devagar. 'A brecha mais próxima é depois do Vale da Garganta.' Ele indicou, estendendo o braço e mostrando a direção. 'Será que você sobreviverá durante a travessia?' Perguntou em tom irônico.

Li não respondeu. Olhou pra Arthas que estufou o peito.

'Vamos!' O grandalhão tomou a liderança. 'Acho que já chega de tanta embromação.' Falou, caminhando e sendo seguido pelo grupo.


Eriol estava sentado na sala de sua casa em Tomoeda. Passara o dia inteiro preocupado. Hoje era a primeira noite de lua nova e sabia que Syaoran teria que atravessar a brecha para voltar para o mundo das trevas.

Nas últimas duas semanas, estivera procurando um meio de Sakura sobreviver lá a pedido dela. Não queria realmente que ela fosse, mas tinha que ajudá-la. Era o mínimo que poderia fazer por ela depois de tudo.

Kaho aproximou-se dele com o rosto tenso. Estava tão apreensiva quanto o marido. Tinham sentido há pouco tempo uma energia estupenda vindo da direção do parque do Rei Pinguim, provavelmente um portal. Também sentiram a presença de Gabriel e de um outro ser. Era justamente este que a estava preocupando, foi por pouco tempo e perceberam que Sakura logo invocou Trovão, provavelmente para se proteger. Logo depois, tudo desapareceu, inclusive a presença de Syaoran.

'Ele já foi.' Kaho falou, suspirando com o olhar triste. 'Sakura está sofrendo muito.' Disse, olhando pela janela a chuva que caía em Tomoeda.

Eriol se levantou e caminhou até a esposa, olhando a garoa que caía do céu. 'É Chuva.' Ele explicou para a esposa que se tratava de uma carta. 'Ainda sinto a presença de Trovão também.'

'O que será que aconteceu?'

Eriol suspirou fundo ajeitando os óculos do rosto. 'Sakura está sofrendo muito e as cartas também. Li, de alguma maneira, também era considerado um dos mestres delas.'

Kaho assentiu com a cabeça. 'Você vai até ela?'

O rapaz balançou a cabeça de leve, negando. 'Ela quer e precisa ficar sozinha agora. Ela e as cartas.'

'Acho… Acho que você tem razão.' Kaho falou, voltando a olhar através da janela a chuva que caía como lágrimas do céu.


Sakura caminhava a esmo pela cidade. Trovão seguia ao lado dela. Ela percebeu que Chuva se manifestou, mas não estava com a menor vontade de pedir que se recolhesse. Na verdade, sentia-se até melhor caminhando sob a chuva fina. As ruas de Tomoeda estavam praticamente vazias e, sinceramente, ela não estava se importando com mais nada naquele momento.

Parou em frente ao sobrado branco e ficou observando a construção. Não queria entrar. Fechou os olhos, pensando que não suportaria dormir na cama deles sozinha. Sentiu Trovão se aproximar dela e sorriu de leve. Lembrava-se do dia que a capturou com Syaoran e como ele tinha sido bem rude com ela na ocasião.

'Ele disse que eu era tonta e que tinha poucos poderes.' Ela falou para a fera que a olhava. Agora ela não era tão assustadora quanto no dia em que a aprisionou com a carta Sombra. Sakura voltou a olhar a casa. 'Acho que ele tinha razão. Se eu tivesse poderes suficientes, ele não precisaria ter ido para lá pela primeira vez e nem ter retornado agora, não é?'

O lobo ganiu chamando a atenção novamente da jovem. 'Vamos.' Ela chamou, voltando a caminhar e afastando-se do sobrado. Não conseguiria entrar em casa sem Syaoran.


Tomoyo corria pelo campus da universidade ao lado de Kurogane. Os dois foram pegos de surpresa pela chuva fina, como todos que acreditaram na previsão de céu aberto, sem nuvens, para aquela noite. A jovem tinha sobre a cabeça, para tentar se proteger, o casaco do rapaz enquanto ele corria ao lado dela.

Entraram na irmandade dele que era a mais próxima de onde estavam. Assim como eles, outros estudantes estavam molhados no grande saguão, reclamando da chuva e xingando os meteorologistas.

'Esta chuva pegou um monte de gente de surpresa.' Kurogane comentou observando o saguão.

'Verdade.' A morena falou se abraçando para tentar se aquecer, tremia de frio.

Kurogane se aproximou dela. 'Melhor a gente tentar se secar, você pode ficar doente.' Ele falou e começou a caminhar em direção ao seu dormitório. Tomoyo foi logo atrás, esfregando os braços para espantar o frio. Observou o rapaz de costas tentando escorrer a água das roupas e do cabelo.

Ele pegou a chave e abriu a porta do apartamento, acendendo a luz. Deu um passo para o lado, segurando a porta. A morena olhou para o Baguá pendurado na porta e ergueu uma sobrancelha.

'Foi o Li quem colocou. Para dar sorte.' Ele explicou. 'Afastar energias ruins… Estas coisas.'

Ela tirou os olhos do amuleto e sorriu para ele. Kurogane tinha ficado sem graça, talvez por tentar ser sempre tão cético com tudo. Ele fez um gesto com a cabeça para que ela entrasse. Ela respirou fundo e passou, seguida pelo rapaz que fechou a porta.

'Vou pegar uma toalha para você se secar.' Falou, já caminhando em direção ao banheiro e retornando em seguida. Estendeu para a namorada que a pegou agradecendo. 'Dá aqui este casaco, vou pendurar.' Ele pediu e ela lhe entregou, enrolando-se na toalha para se esquentar.

Ela o observou pendurar a jaqueta em um cabide. 'Esta chuva…' A morena mencionou, olhando, através da janela, a chuva caindo sobre cidade. 'Acho… Acho que não é normal.'

Kurogane franziu a testa, observando a namorada. 'Do que está falando? É apenas chuva.' Ele comentou, mas depois entendeu o que a jovem deveria estar pensando. 'Acha que é algum lance de magia dos dois?'

Tomoyo acenou que sim com a cabeça, aproximando-se mais da janela. 'Eu não tenho certeza… Mas sinto alguma coisa estranha aqui dentro.' Ela falou, apontando para o peito.

Kurogane sorriu de leve e foi até ela, parando ao seu lado. 'Você está preocupada com Kinomoto, não é?' Ele a viu concordar com a cabeça.

Sakura tinha contado para Tomoyo o que estava acontecendo, quase duas semanas atrás, quando a morena foi procurá-la. Ela não tinha a menor ideia de como ajudar a Feiticeira. Tomoyo contou tudo para Kurogane que nem tentou confirmar a história com Li, preferindo distraí-lo puxando conversa de assuntos aleatórios nas vezes em que encontrara o rapaz ao longo da semana. Tinha até lhe emprestado alguns mangás pelos quais o rapaz se mostrou subitamente interessado.

Ele passou a mão pelos cabelos molhados da namorada e sorriu de leve. Tomoyo era uma pessoa incrível. A morena voltou-se para ele e tentou sorrir. 'Acho que hoje era o dia em que Syaoran teria que partir.' Ela comentou.

Kurogane suspirou pesadamente pensando na má sorte do amigo. Custava ainda a acreditar em algumas coisas, mesmo já tendo provas de que tudo era verdade. Pensou que, no final, tinha sorte de ser um cara "normal" com uma namorada "normal". Tirou os olhos da janela e voltou-se para Tomoyo, reparando que a jovem tremia de frio enrolada na toalha.

'Você precisa se secar! Pode ficar resfriada.' Falou, puxando a toalha para cima, cobrindo a cabeça dela como se fosse um capuz. Ele caminhou até o armário onde pegou roupas secas. 'Melhor você também trocar de roupa.' Declarou e a viu inclinar a cabeça. 'Vou lhe emprestar uma. Vai ficar largo e não é muito elegante, mas pelo menos não pegará um resfriado.' Disse, estendendo-lhe uma camisa. Ela levantou os olhos para ele ainda em dúvida. 'Pode se trocar no banheiro.' Indicou com um gesto.

Tomoyo concordou, pegando a roupa e caminhando devagar até o banheiro. Fechou a porta e se fitou no espelho, viu que estava com o rosto corado de vergonha por estar no dormitório do rapaz. Balançou a cabeça de leve, pensando que não era nenhuma menina boba. Era melhor realmente se trocar ou poderia ficar resfriada.

Tirou a roupa e se secou com a toalha, vestindo em seguida a camisa que, além de larga, ficou bem comprida também, era quase um vestido. Sorriu pensando que, talvez, com alguns detalhes até poderia transformar aquela peça numa roupa interessante. Talvez com um cinto, dobrando as mangas, com alguns detalhes em brilho… Balançou a cabeça novamente, sorrindo.

Estava realmente gostando de cursar algumas matérias de moda. Era bem divertido, mas não tinha muita vontade de ir para aquela área. Na verdade, pensou que um dia voltaria a fazer roupas especiais para sua amiga de infância.

Lembrou-se do dia que conversou com Sakura sobre isso e de como a jovem reclamara, de forma divertida, que sentia falta dos trajes de batalha. Lembrava-se claramente do rosto vermelho da amiga quando ela insinuou que Sakura estava era querendo roupas especiais para sair com Syaoran e não para lutar contra os seres das trevas. Foi antes daquele mago maluco aparecer, pensou, estremecendo com as memórias.

Ela tinha quase morrido por causa daquele maluco. Olhou para os pulsos onde podia ver as linhas finas das cicatrizes. Syaoran tinha morrido. Sakura tinha ficado em coma por mais de um mês. Sacudiu a cabeça para dissipar aqueles pensamentos. Não valia a pena lembrar.

Respirou fundo, soltando o ar devagar. Pegou suas roupas molhadas e as estendeu para que secassem. Abriu a porta e viu que Kurogane também havia se trocado.

Ele virou-se para ela e sorriu de leve. Parecia uma menina com a roupa do pai, a camisa parecia mais um vestido nela, batendo quase nos joelhos. Tomoyo corou e desviou os olhos dele.

'Será que a chuva vai demorar para passar?' Ela perguntou.

Ele deu de ombros. 'Não sei.' Depois franziu a testa, observando a namorada. 'Isso tudo é pressa de ir embora?'

'Não… É que…. Hum…' Tomoyo tentou falar, é claro que estava constrangida de estar com ele no dormitório.

'Já sei!' Ele falou, de repente, chamando a atenção dela. 'Vou fazer a janta para você hoje.'

Ela ergueu uma sobrancelha. 'Você sabe cozinhar ou fazer uma coisa qualquer?'

'Claro que sei cozinhar!' Ele falou, caminhando até a cozinha do apartamento estudantil. 'Sei fazer um ótimo risoto de…' Ele reteve-se pensando no que tinha na despensa, abriu a geladeira em busca do que poderia fazer. Voltou-se para Tomoyo. 'Risoto de alho poró! Você gosta?'

Ela sorriu para ele. 'Você realmente sabe cozinhar?' Ainda perguntou desconfiada.

'Princesa, eu sei fazer de tudo.' Ele respondeu, já pegando as coisas que precisaria para fazer o prato.

'Você é bem pretensioso, não?' Comentou, meneando a cabeça. 'Será que precisa de ajuda ou o chef prefere trabalhar sozinho?'

'Normalmente não gosto de ajuda, mas vou abrir uma exceção no seu caso.'

Ela riu e se aproximou dele.

'Mas já vou avisando que sou um chef muito exigente.' Comentou, entregando para ela o creme de leite e a manteiga que tirava da geladeira.

'Hum… Não me diga.' Falou, pegando as coisas das mãos dele e colocando na bancada da cozinha.

'Você corta as cebolas.' Ele já foi delegando tarefas.

Ela fez uma careta. 'Por que eu?'

'Porque se eu cortar e você me ver chorando vai acabar com a minha fama de mau. Então, esta tarefa fica com você. O resto, pode deixar comigo.'

'Fama de mau?' Ela falou, semicerrando os olhos nele.

'Claro! Imagina eu, um homem deste tamanho, chorando como um bebê por causa das cebolas? Nem pensar…. Isso fica com você.'

Ela riu. 'Está bem… Não quero destruir sua reputação.' Falou, pegando as cebolas para cortá-las. 'Já vou avisando que também não suporto isso, então nada de ser exigente com relação ao tamanho delas.'

'Pode deixar, apenas preciso que elas fiquem em tamanho uniforme. Isto é, em cubos iguais. Exatamente iguais. Senão vai estragar toda a harmonia do risoto.'

'Vou ignorar este seu comentário.' Ela avisou, já descascando as cebolas enquanto ele começava a cortar o alho poró ao lado dela. Ela tirou os olhos da sua tarefa e o observou cortando de qualquer maneira o vegetal. 'Isso aí não está em tamanhos regulares.'

'Ah, mas é que o charme está justamente nisto, Princesa. Você faz tudo perfeito e eu tudo imperfeito.'

Ela riu. 'Desculpa esfarrapada.' Retrucou enquanto cortava as cebolas e, inevitavelmente, começava a lacrimejar. 'Você bem que poderia comprar uma centrífuga.'

'É uma boa ideia. Da próxima vez que vier jantar aqui, já terei uma.'

Ela sorriu, observando-o colocar a manteiga na panela e depois jogar, de qualquer maneira, a cebola picada na gordura aquecida. Riu quando ele deu um salto para trás com medo de se queimar. Dava para ver que a cozinha e ele não tinham muita intimidade. O rapaz tentou se recompor e ficar novamente com o rosto de que estava tudo, exatamente tudo, sob controle na sua cozinha.

'Acho que agora tem que colocar o arroz…' Ele murmurou pensando alto. Não lembrava muito bem a receita.

'Eu acho que seria melhor refogar um pouco o alho poró antes de colocar o arroz, Chef.' Ela comentou com ar zombeteiro.

'Ah, sim! Muito bem… Você é uma excelente assistente.' Ele falou, colocando o alho poró e refogando-o. Logo depois acrescentou o arroz e ela lhe alcançou o caldo de legumes.

'Se parar de mexer vai ficar ruim.' Tomoyo comentou.

Ele franziu a testa e olhou de esguelha para ela. 'Acho que o chef aqui sou eu ainda, não?'

'Ah, sim… Claro. Desculpa, chef.' Falou, mas ainda ficou de olho no que o rapaz estava fazendo só para garantir que ficaria pelo menos comestível.

'Acho que esta receita levava vinho…' Ele comentou pensativo.

'Fica bom se colocar um pouco de vinho branco...'. Tomoyo mencionou. 'Você tem vinho aqui?'

'Acho que deve ter no armário debaixo da pia.'

Tomoyo se abaixou e abriu o armário procurando a garrafa. Riu com gosto. 'Só tem vinho tinto.' Ela informou.

'E não serve? Pois saiba que este é da melhor safra. Custou uma fortuna.'

'Neste risoto só poderia acrescentar vinho branco, Yuo.'

'Humph…' Ele murmurou. 'Isso é detalhe.' Comentou, continuando a mexer na panela.

Ela pegou a garrafa e reparou no rótulo. 'Hum… Realmente é um excelente vinho.' Comentou.

'Podemos beber com o risoto, então, ou também só poderia ser vinho branco?' Falou com a voz levemente irritada.

'Na verdade seria melhor se…' reteve-se ao observar o olhar dele. Sorriu. 'Este vinho está perfeito.'

Tomoyo esticou o pescoço, observando a panela. 'Está quase bom, chef. Só mais alguns minutinhos. Mas não pode parar de mexer.'

'Não me diga, assistente.' Retrucou fingindo irritação. 'Os pratos e taças estão no armário ali em cima.' Indicou para ela.

Ela abriu o armário e ficou na ponta dos pés, levantou os braços para alcançar os pratos, fazendo a camisa dele subir e revelando parte de suas coxas. Kurogane arregalou os olhos de leve, ela tinha pernas muito bonitas, pensou para si. Tomoyo virou-se para ele, de repente, e franziu a testa. 'Se parar de mexer vai queimar, Yuo' Repetiu, vendo que o rapaz tinha parado.

'Ah, sim.' Ele falou, sem graça, voltando a observar a panela e mexendo o risoto.

Tomoyo pegou o que precisava e começou a montar a mesa para os dois.

'Acho que já está bom.' Kurogane comentou. 'Pelo que me lembrava isso aqui era mais rápido.'

Ela se aproximou dele e espiou novamente. 'Agora só falta o creme de leite e voilà! Estará perfeito.'

'Verdade! O creme de leite.' Ele já pegaria, mas a morena já estava lhe estendo o produto. Pegou e despejou na panela.

'Continua mexendo.' Ela falou novamente.

'Eu sei… Eu sei…' Ele resmungou com a voz contrariada.

Tomoyo riu, sentindo o cheiro e pensou que não parecia estar ruim.

'Acho que está bom, né?' Ele perguntou.

'Acho que sim.'

'Ótimo… Este negócio de não parar de mexer é chato demais.' Comentou, desligando o fogo.

'Pensei que já estivesse acostumado a fazer isso.'

'O Li é que cozinhava mais.' Comentou, tirando a panela do fogo. 'Ele era mais disciplinado em horários do que eu. Apesar de que ele cozinhava uma droga.' Fez uma careta.

Tomoyo ergueu uma sobrancelha. 'Pelo que eu me lembro o Syaoran cozinhava muito bem.'

Kurogane franziu a testa. 'Ah! E como é que a senhorita sabe disto?'

Tomoyo se sentou na cadeira e cruzou as pernas de forma elegante. 'Ele estava sempre no nosso grupo nas aulas de culinária.' Ela esclareceu. 'Estudamos juntos, lembra-se?' Perguntou só para deixá-lo sem graça por ter sido pego na mentira.

Ele sentou na outra cadeira. 'Ele pode cozinhar bem para o gosto de vocês, mas não para o meu paladar refinado.' Não daria o braço a torcer.

'Ah! Evidente…' Ela falou, observando o risoto à frente deles. 'Seu gosto realmente é refinadíssimo.'

'Claro! Por isso me apaixonei por você, Princesa.' Falou se servindo.

Tomoyo arregalou os olhos de leve e sentiu as faces novamente esquentarem. Abaixou os olhos fitando o prato. Nunca tinha sido cortejada de forma tão aberta e descarada, como era pelo rapaz.

'Você prefere se servir ou quer que eu a sirva?' Ele perguntou, fazendo-a levantar os olhos. 'Acredito que esteja comestível. Mas se você quiser eu experimento primeiro.'

Ela riu e se levantou para se servir. 'Com certeza estará. Eu fiquei de olho.'

'Humph…' Ele murmurou. 'Quem está sendo presunçosa agora?'

'Apenas precavida.' Ela rebateu. Observou-o abrir a garrafa de vinho e servindo nas duas taças.

Ele experimentou primeiro e franziu a testa de leve. 'Até que eu realmente cozinho bem.' Olhou para a morena na sua frente. 'Nós cozinhamos bem.' Corrigiu e a viu abrindo um enorme sorriso.

'Podemos fazer isso mais vezes.' Ela falou depois da primeira garfada. 'Mas por Deus! Compre uma centrífuga. Detesto picar cebolas.'

Ele pegou a taça. 'Vamos fazer um brinde então ao nosso primeiro sucesso culinário.'

Tomoyo pegou a taça e tocou de leve na dele. 'Espero não passar mal amanhã.'

'Eu também.' Replicou rindo. 'Bem… Então um brinde a nós.' Falou, tocando novamente a taça na dela e finalmente tomando um gole da bebida.

A morena observou-o, realmente era muito fácil rir quando estava com ele. Tudo parecia mais leve, menos sério. Apesar de saber que Kurogane podia ser bem sério quando era necessário. Tinha o apresentado para a mãe na semana anterior.

Sonomi fora bem dura inicialmente com o rapaz. Ele era o primeiro rapaz que a filha apresentava como namorado. Tomoyo até pensou por um instante que a mãe tivera um ataque de nervos quando ela comunicou isso. Sonomi trabalhava muito nas empresas Daidouji, era uma mulher muito forte, assertiva demais. Mas fora uma mãe maravilhosa, em todas as vezes que Tomoyo precisou dela.

Kurogane soube se esquivar muito bem das perguntas do tipo: "Quais são suas intenções com minha filha?" e "Quando vocês pretendem se casar?" que deixaram Tomoyo em um estado tal de constrangimento que pensou várias vezes em se esconder debaixo da mesa. No final do jantar, ele já tinha literalmente feito a mãe adorá-lo.

Kurogane reparou que a jovem o estava fitando tempo por demais com a taça na mão. 'O que foi?' Perguntou franzindo a testa.

'Nada, não.' Respondeu, levando a taça a boca e provando o vinho. 'Hum… Realmente é um excelente vinho.'

'Já falei que tenho muito bom gosto, não?'

'Já sim.' Ela comentou. 'Muitas vezes.'

'É só para você ter certeza absoluta disso.' Falou, encarando-a.

Ela desviou os olhos dele, sentindo novamente as faces esquentarem. Ela entendeu o duplo sentido da resposta. Ele era realmente muito pretensioso, mas era justamente isso que ela gostava nele. A autoconfiança que ele tinha era simplesmente fascinante.

O rapaz tinha ficado tanto no pé dela, por tanto tempo, que várias vezes se pegou perguntando o porquê dele ser tão insistente. É que além de presunçoso, ele era bem cabeça dura. No final, tinha conseguido, aos poucos, derrubar todas as barreiras que Tomoyo tinha colocado em torno do seu coração. Derrubou uma a uma de forma sistemática e estratégica. Agora, simplesmente, não conseguia mais pensar em não o ter na sua vida.

Ela tinha ficado irada com a jogada dele e o blefe de que aceitaria um estágio em Tókio. Conhecia Yuo. Sabia que ele estava jogando com ela e isso a irritou bastante na hora, mas não pôde negar que tinha realmente sido uma cartada de mestre. Um xeque-mate para que decidisse o que queria.

A vida inteira de Tomoyo havia sido marcada por seu amor platônico por Sakura, de tal forma que havia se acostumado a ser feliz com a felicidade da amiga. Havia se acostumado a não desejá-la para si, nem a esperar ter seus sentimentos retribuídos algum dia.

Mas aí surgiu Yuo Kurogane, a quem conheceu, justamente, quando foi, mais uma vez, colocar Li contra a parede depois que o rapaz voltara para o Japão.

Surpreendeu-se com o próprio egoísmo ao querer a atenção exclusiva de Kurogane. Definitivamente, o amor platônico já não lhe era suficiente. Ela queria algo real e, agora que começava a experimentar aquele tipo de sentimento, não se permitiria voltar para a situação que antes era tão confortável, mas imutável e solitária.

Sorriu apenas admirando-o comer o risoto e falar sobre as possibilidades que estava analisando para quando terminasse a faculdade no próximo semestre.

'E você?' Ele perguntou, de repente, fazendo-a se assustar.

'Eu?'

'Sim… Sei que ainda falta mais tempo para finalizar a faculdade, mas você já tem planos?' Ele explicou.

'Ah… Não sei…' Ela respondeu. Soltou um suspiro. 'Você conheceu minha mãe, ela no fundo ainda acredita que, um dia, vou assumir as empresas como ela.'

Ele franziu a testa. 'Se não é o que você quer, não tem porque ela pensar assim. Você está na faculdade de música. Acho que isso já deveria deixar bem claro para ela o que você quer.'

Tomoyo sorriu de leve. 'Acho que sim. Mas…' Ela reteve-se não sabia como falar que a mãe, às vezes, era bem impositiva. Além disso, as empresas eram mais da metade da vida da mãe. Era seu legado.

Ele ficou em silêncio, observando-a e aguardando que completasse a resposta. Tomoyo muitas vezes parecia uma caixinha de surpresa, nunca sabia exatamente o que ela estava pensando.

'Você tem que parar de viver para os outros, Princesa.' Ele falou fazendo-a levantar os olhos para ele. 'Não pode viver achando que, só porque os outros são felizes, você também é. Sua mãe vai entender que sua felicidade não é fazê-la feliz.'

'Acho que sim.' Respondeu sorrindo para ele.

'Você precisa ter certeza, e não simplesmente achar.' Retrucou mais uma vez.

Tomoyo franziu a testa. 'Você é bem incisivo, não?'

'É que eu sei o que eu quero. Não consigo entender como as pessoas podem viver na dúvida.'

Ele tinha razão. Ela olhou para baixo, sentindo-se constrangida. Kurogane percebeu que a atingiu. Levantou-se e ajoelhou ao lado dela, fazendo-a encará-lo.

'Independente do que você decida, pode contar comigo sempre, Princesa.' Falou e a viu abrindo um sorriso. Levantou o braço, passando de leve o polegar no rosto dela. 'Você é linda.' Ele falou mais uma vez, vendo-a sorrir docemente e fechar os olhos aproveitando a carícia.

Inclinou-se e tocou de leve seus lábios nos dela, que logo os entreabriu permitindo que ele aprofundasse o beijo. Ele se levantou, puxando-a para que pudesse abraçá-la enquanto se beijavam. Tomoyo enlaçou o pescoço dele enquanto ele passava as mãos pelas costas dela, apertando-a contra seu corpo.

Tomoyo voltou a sentir como se mil borboletas batessem asas no seu estômago. O coração acelerava, parecendo que estava numa maratona. Não podia negar que eram bons demais os beijos que eles andavam trocando, mas, desde que Sakura e Syaoran, com aquela brincadeira idiota no hospital, tinham lhe falado aquelas coisas, ela vinha se perguntando como deveria ser a sensação de algo mais que apenas aqueles beijos. Ela percebia que Yuo sempre era comedido com ela.

Sentia-se feliz por ele se controlar tanto para não ultrapassar os limites; para avançar a um passo mais moderado e no ritmo dela, mas também não podia negar que começava a esperar, de forma ansiosa, que ele avançasse. Não era questão apenas de curiosidade agora; começava a entender o que realmente desejava e era inútil ela negar a si mesma que o desejava demais.

Ele deslizou os lábios pelo rosto dela, sentindo a pele aveludada, alcançando o pescoço para beijá-lo. Ouviu-a soltar um gemido e quando deu por si estava tocando as pernas que, há pouco tempo, tinham lhe chamando a atenção. Ela era linda demais. Nunca havia sentido algo tão intenso por uma garota como por aquela morena de olhos violeta. Havia pensado, inúmeras vezes, em desistir dela, mas simplesmente não conseguia. Quando dava por si, estava novamente pensando na bela princesa. E na vontade enorme de sentir os lábios dela e a pele sedosa dela. No perfume de magnólias que emanava dos cabelos negros.

Sem pensar, subiu a mão, levantando a camisa que cobria o pequeno corpo da jovem. Sentiu Tomoyo tremer e, ao ouvi-la gemer mais alto, abriu os olhos. Reteve-se. Tinha prometido a si mesmo que seguraria a onda com ela. Que, por mais difícil que fosse, seguiria num ritmo que fosse confortável para ela. Mesmo sentindo todo o corpo discordar, explodindo de vontade de tê-la, afastou as mãos dela e deu um passo para trás.

Tomoyo sentiu o afastamento e abriu os olhos devagar, perguntando-se o que tinha acontecido. Sentia-se desapontada. Fitou Kurogane que olhava para o chão com os punhos cerrados. A respiração dele também estava alterada, mostrando que ele estava tão ou mais excitado que ela. Sorriu, imaginando o quanto ele deveria estar se esforçando para se controlar daquela maneira. Ele tinha dito há pouco tempo que sabia exatamente o que queria. Ele tinha parado para não assustá-la, não forçá-la. Ela fechou os olhos entendendo que ele queria seguir o ritmo dela e por isso não impôs o dele.

Engoliu em seco, pensando que precisavam encontrar um meio-termo. Talvez o que ela precisava, naquele momento, fosse de uma poção desinibidora como a que Sakura tinha tomado e que acabara levando a amiga a procurar Syaoran de forma insinuante, simplesmente desconsiderando toda a mágoa e vergonha.

Abriu os olhos e franziu a testa. Sakura era a tonta. Ela não precisava disso. Sentiu o rosto vermelho de timidez, mas tinha que vencer aquilo por conta própria. Ela também sabia exatamente o que queria. E queria Yuo, tinha absoluta certeza disso.

Deu um passo à frente e pegou o rosto do rapaz entre suas mãos para que ele a fitasse novamente. Engoliu toda a vergonha que sentia naquele momento. 'Eu também sei o que eu quero, Yuo.' Ela tinha a voz falhada. Viu o rapaz franzir a testa, provavelmente, perguntando-se o que aquelas palavras significavam. 'Eu quero ser sua princesa.' Falou, sabendo que ele entenderia.

Kurogane semicerrou os olhos, encarando-a. Tomoyo tinha os olhos cravados nele como duas belas ametistas brilhantes. Não precisava ser um gênio para saber que ela era virgem. Por isso mesmo nunca tentou avançar o sinal. Reparou que ela se mostrava apreensiva, esperando pela reação dele, depois do que tinha dito. As bochechas estavam rubras, informando-o que ela estava envergonhada e não pôde deixar de pensar em como era linda. Sentiu a pressão da mão dela, que envolvia seu rosto, começar a diminuir diante da demora dele em responder.

Envolveu a cintura dela com força com um de seus braços, puxando o corpo esbelto para mais perto do seu, e abaixou o rosto, novamente, tomando os lábios pequenos nos seus e beijando-a com toda a paixão e desejo que ele tinha reprimido durante todo aquele tempo que passara esperando por ela.

Segurou o rosto amado com a outra mão, passando os dedos pelos cabelos sedosos dela. Sentiu-a agarrando sua camisa, segurando-o para que não se afastasse dela novamente e retribuindo ao beijo com a mesma voracidade que ele. Pegou-a no colo e caminhou em direção a cama. Ele a faria sua rainha.


Syaoran observava a caverna a sua frente. Ele estava sob a impressão de ter caminhado por aquele maldito deserto durante semanas. Estava irritado com a demora em chegar à primeira brecha. Durante a travessia tiveram alguns obstáculos que os atrasaram mais ainda. Arthas parou ao lado do rapaz.

'Garoto, você tem certeza disto, não é?'

Li voltou-se para ele e sorriu de lado. 'Eu vou entrar sozinho, então?'

Arthas colocou o único braço na cintura. 'Meu dever é apenas liderar vocês e fechar as brechas.'

'Claro.' Ele falou e começou a caminhar caverna adentro.

Tadmoth trincou os dentes. 'Você é mesmo muito arrogante, não é? Acha que vai dar conta sozinho?'

Li virou-se para ele. 'Se quiser pode entrar também. Não o estou impedindo. Apenas não me atrapalhe.' Estava com aquele cara já entalado na garganta, ficou enchendo o saco durante toda a travessia pelo deserto. E Li não era burro, quando eles foram atacados por demônios inferiores, percebeu que Tadmoth não ajudou em nada, muito pelo contrário. Não sabia qual era a do cara, mas sabia que não podia confiar nele.

Tadmoth caminhou até ele, parando a sua frente, voltaram a se encarar. 'Você é quem não deve me atrapalhar.' Falou antes de caminhar em direção a entrada da caverna.

Syaoran rodou os olhos impaciente. O cara adorava mesmo fazer teatro. Porque simplesmente não foi atrás dele e pronto? Tinha sempre que querer discutir, para quê?

'Machos…' Midoriko soltou irritada, caminhando em direção a entrada da caverna. Passou por Li sem nem ao menos olhá-lo. 'Vamos ver então como se sai agora, Garotão.' Falou sem parar de andar.

Li observou os dois demônios à sua frente e foi atrás. Pelo visto gostavam de ter a última palavra. Deu de ombros. Não conseguia entender muito bem como este lance de hierarquia funcionava naquele lugar. Pensou que, para seu infortúnio, precisava, pelo menos, garantir que o tal Tadmoth continuasse vivo para levá-los até as próximas brechas. Quanto à outra… Como ela mesma havia colocado, ali era cada um por si.

Respirou fundo e voltou a caminhar em direção a caverna, sentiu a presença da brecha, informando que estavam no lugar certo. Chegou até uma câmara enorme e ali, ao centro dela, estava a bela luz multicolorida. Não teve como não sorrir, sentindo como era parecida com a aura de Sakura. Estava com saudades demais da feiticeira.

If you're not the one,
(Se você não é a pessoa certa,)

Then why does my soul feel glad today?
(Então por que minha alma está agradecida hoje?)

'Se continuar rindo como idiota, vai morrer em dois tempos.' Tadmoth comentou.

Li o olhou de esguelha. Estava pronto para falar um palavrão quando uma criatura pulou à frente deles, colocando-se entre o grupo e a brecha. Era um ser horrendo com a aparência metade de homem, metade de escorpião.

'O que fazem aqui?' A criatura perguntou, já se colocando em posição de ataque com as pinças afiadas para frente. A longa cauda com o ferrão estava apontada para eles, pronta para ser usada contra o grupo de invasores.

'Olhe e aprenda, Garoto.' Tadmoth falou, tirando a espada das costas e correndo em direção à criatura, tentando atacá-la ao mesmo tempo que se esquivava das investidas do monstro.

Realmente trabalho em equipe não era o forte deles. Midoriko tinha, inclusive, encostado-se a uma das pedras apenas observando os dois duelarem. Estava ali só para assistir.

Li observou Tadmoth lutando, pensou em ajudá-lo, mas ponderou que era capaz de irritar mais ainda o grandão. Pegou a esfera negra e a apertou na mão enquanto tinha os olhos na luta. Não podia deixar o idiota morrer, apesar de ser esta a sua vontade. Observou a batalha com atenção. O companheiro de viagem não era de todo ruim, mas era imprudente. Até parecia se considerar invulnerável. Acabaria sendo atingido.

Prestou atenção no monstro, notando que os ataques das pinças eram potentes e certeiros, mas lentos, enquanto a calda era rápida, mas tremendamente imprecisa. O bichão também parecia favorecer o lado esquerdo.

Como Syaoran havia imaginado, Tadmoth foi atingido por uma das garras, perdendo a espada que estava em sua mão. A outra garra pegou o braço esquerdo do demônio de armadura, fazendo-o gritar de dor enquanto se debatia para que o monstro o soltasse.

O guerreiro olhou com desespero para o animal que estava pronto para lhe dar o golpe fatal com o ferrão venenoso.

'Idiota.' Li murmurou, materializando a espada e correndo na direção deles.

Flexionou os joelhos e saltou, pulando sobre os dois e golpeando com força a garra do animal que prendia Tadmoth, cortando-a. O demônio caiu no chão com o braço ainda preso à gigante pinça amputada pela espada de Li, enquanto o chinês já começava a golpear a criatura, defendendo-se de forma tranquila do animal enfurecido por ter sido mutilado.

Syaoran quase foi atingido pela cauda do escorpião gigante que tentava sucessivamente acertá-lo de forma mortal, mas o rapaz se esquivou dos golpes, já tinha percebido que o demônio não era tão preciso com aquele golpe. Franziu a testa, pensando que não tinha tempo a perder. Precisava terminar logo. Tinha muita pressa. Parou em frente à criatura e se concentrou, logo a mandala mágica púrpura em forma de octógono baguá com o símbolo do Yin-Yang ao centro surgiu aos seus pés.

'Eu invoco o Deus Trovão, com a máxima urgência, de acordo com o pacto estabelecido. Ataque relâmpago!'

A fera foi atingida em cheio pela magia do feiticeiro que flexionou os joelhos para pegar impulso e pular na direção da criatura que estava se contorcendo envolta na magia do rapaz. Com um só golpe, cortou o animal ao meio, fazendo-o virar pó antes mesmo de pousar no chão.

Ergueu o corpo, observando a brecha a sua frente. Involuntariamente, estendeu o braço em direção à luz tentando controlar a vontade de atravessá-la e estar com Sakura novamente.

If you're not the one
(Se você não é a pessoa certa,)

Then why does my hand fit yours this way?
(Então por que a minha mão encaixa na sua assim?)

If you are not mine,
(Se você não é minha,)

Then why does your heart return my call?
(Então por que seu coração responde ao meu chamado?)

'Garoto!' Ouviu Arthas, chamando-o e abaixou o braço, soltando um suspiro desanimado. Não podia ainda voltar para casa. Virou-se e viu o grandalhão caminhando na direção dele com o rosto sério.

'Melhor destruí-la logo, Arthas.' Ele murmurou, abaixando o rosto e afastando-se da brecha, mas sem deixar de observar a bela luz multicolorida.

If you were not mine,
(Se você não fosse minha,)

Would I have the strength to stand at all?
(Teria eu forças para sequer levantar?)

Arthas tirou mais uma esfera vermelha de sua vestimenta e estendeu o braço em direção à luz. Em poucos segundos, como Li já tinha visto acontecer anteriormente, houve a implosão e a brecha foi destruída.

Li passou a mão pelo cabelo, olhando para o espaço agora vazio. Respirou fundo, pensando que ainda faltavam doze. Olhou para Tadmoth que se livrou da pinça quando ela se transformara em pó junto com o resto do monstro e, agora, tinha um enorme ferimento no braço, mas tentava se manter indiferente a ele.

'Onde fica a próxima?' Perguntou, encarando-o.

Tadmoth arregalou os olhos, observando o garoto. Ele nem tinha suado na luta contra a criatura. 'Acho melhor você descansar, não?'

'Eu tenho pressa.' Respondeu, caminhando em direção à saída da caverna. Midoriko postou-se à sua frente, bloqueando o caminho. Li a encarou e franziu a testa.

'Até que você não é nada mal.' Ela falou, passando os olhos pelo seu corpo de alto a baixo. 'E nem usou todo o seu potencial, não é?'

Ele não respondeu, deu um passo para o lado, desviando-se dela e voltando a caminhar para a saída. Queria destruir a próxima brecha. Queria voltar logo para casa.

I never know what the future brings
(Eu nunca sei o que traz o futuro)

But I know you are here with me now
(Mas eu sei que você está aqui comigo agora)

We'll make it through
(Nós vamos superar)

And I hope you are the one
(E eu espero que seja com você)

I share my life with
(Que eu divida a minha vida.)


Sakura estava sentada no chão do escritório de Eriol. Nas mãos estava um dos vários cadernos de anotação de Clow e Shyrai. Eriol explicara que aqueles eram os mesmo documentos em posse da família Li para que treinassem o Guardião. Clow tinha usado a carta Gêmeos tempos atrás, duplicando todas as suas anotações e guardado-as para o uso de sua próxima encarnação.

Respirou fundo e encostou-se à parede, folheando o caderno sujo e velho. Estava com o dicionário de mandarim ao seu lado. Syaoran tinha realmente lhe dado algumas aulas. Poucas, mas, pelo menos, ajudavam-na a tentar entender o que estava escrito. Fechou os olhos e inclinou o corpo até encostar num dos móveis do cômodo. Suspirou. Estava com saudades demais dele.

No dia anterior, depois que haviam se despedido, simplesmente ficou caminhando a esmo pela cidade. Quando finalmente cansou de tanto chorar pela partida dele foi para a casa de Eriol. Recusava-se a entrar na casa deles sozinha. Ponderou que, estando com o amigo, teria mais tempo para procurar alguma maneira de conseguir sobreviver no mundo das trevas.

Eriol estava sentado à mesa e ouviu o suspiro da amiga. Tirou os olhos do livro que lia e a observou. Sorriu de forma triste. Ela tinha chegado ontem à noite na sua casa, toda molhada por causa de Chuva. Devia ter andado pela cidade por horas antes de, finalmente, decidir pedir-lhe abrigo. Não pôde deixar de sentir o peito se acalentar ao saber que ela tinha, no final, procurado-o para ajudá-la.

Ele não precisava nem perguntar no que ela estava pensando. Era óbvio demais. Franziu a testa, lembrando-se novamente de como a aura da jovem se misturava à de Syaoran, mesmo ele sendo um ser das trevas, ao invés de procurar a do outro guardião. Os dois eram almas gêmeas. Mas por quê? Por que o Guardião e o Pilar tinham vindo como almas gêmeas? Isso não fazia sentido.

'Sabe, Eriol…' Ele a ouviu chamá-lo. Sakura abriu os olhos devagar e o fitou. 'Estava pensando que deve ter uma explicação para este sofrimento todo.'

I don't want to run away,
(Eu não quero fugir,)

But I can't take it, I don't understand
(Mas eu não aguento, eu não entendo)

Ele arregalou os olhos de leve. 'Do que está falando, Sakura?'

A ruiva suspirou e desviou os olhos dele. 'Não é possível o que acontece entre eu e Syaoran. Desde crianças.' Ela falou. 'Primeiro nós éramos rivais para capturar as Cartas, depois ele me ajudou a transformá-las. Mais tarde, quando eu perderia meus sentimentos por ele, aconteceu algo que impediu…' Ela falou, não querendo entrar em detalhes. 'Mantendo-nos ainda apaixonados um pelo outro. Então ele foi embora para China e nos separamos. Ele voltou ao mesmo tempo em que as brechas começaram a aparecer. Eu juro que queria odiá-lo, mas bastava que ele olhasse para mim e a única coisa que eu tinha vontade de fazer era de abraçá-lo. Quando eu pensei que o tivesse perdido para sempre, ele voltou. Diferente, mas voltou, e o meu amor por ele não mudou em nada… Apenas se tornou mais forte. E agora… Agora que ele está novamente longe de mim, a única coisa em que eu penso é em reencontrá-lo.' Ela falou, olhando um ponto qualquer do escritório. 'Por que duas pessoas se amariam tanto desta maneira desde crianças, sendo que são sempre separadas?'

If I'm not made for you,
(Se eu não fui feito para você,)

Then why does my heart tell me that I am?
(Então por que meu coração me diz que eu sou?)

Is there any way that I could stay in your arms?
(Tem algum jeito para que eu possa permanecer em seus braços?)

'O que você sentiu quando o viu pela primeira vez?' Eriol perguntou.

'Eu tinha sonhado com ele antes.' Ela respondeu, deixando a cabeça novamente bater de leve no móvel e fechando os olhos. 'Quando ele entrou na sala de aula e me olhou diretamente, eu senti meu corpo todo paralisado. Como se o olhar dele pudesse enxergar a minha alma.' Ela falou e sorriu de leve. 'Confesso que eu morri de medo.'

'Medo?'

'Sim… De que ele conseguisse ler a minha mente.'

Eriol riu. 'Acho que ele não tem este poder, não é?'

'Eu acho que ele tem, sim… De ler, pelo menos, a minha.' Ela retrucou e voltou a fitá-lo. 'Isso não é normal, é?'

Eriol ajeitou os óculos no rosto. 'Bem… Se a faz se sentir melhor, realmente, nenhuma profecia determinava que você e ele seriam ligados desta maneira. O Guardião protege o Pilar e o universo ao qual pertence contra as trevas, mas o Pilar não é ligado ao guardião. Muitas vezes, o Pilar nem mesmo está vivo. O que vocês sentem é algo independente. Você, como mulher, poderia escolher qualquer homem para amar.' Ele pigarreou. 'Eu não me sinto confortável, mas tenho que admitir que Clow realmente fez de tudo para você se apaixonar pela forma falsa de Yue.'

'É… Eu sei.' Ela falou. 'E porque não deu certo? Porque, quando eu conheci Syaoran, tudo ficou ao mesmo tempo mais fácil e mais intenso na minha vida?'

If I don't need you,
(Se eu não preciso de você,)

Then why am I crying on my bed?
(Então por que estou chorando na minha cama?)

'Como assim?'

'Você sabe que foi ele quem me ajudou a capturar várias cartas. Ele tinha mais conhecimento sobre elas do que eu. E, se ele já era considerado o Guardião, porque ele tentou capturar as cartas comigo? Ele já tinha magia desenvolvida o suficiente e nós dois sabemos que, entre a luta e magia, ele sempre preferiu a luta.'

'Você tem razão.' Ele comentou.

'Então por que ele veio atrás das cartas realmente?'

'Talvez destino.' Eriol arriscou.

Ela franziu a testa. 'Não foi indicação de Clow para o clã?'

Eriol meneou negativamente a cabeça. 'Existem outros detentores de magia no clã Li. Realmente não sei porque Syaoran foi o escolhido para vir até o Japão capturá-las.' Ele suspirou, franzindo a testa. 'Na verdade, considerando o quanto os anciões queriam as Cartas, faria mais sentido terem enviado alguém já totalmente desenvolvido para fazê-lo.'

'Yelan?' Ela perguntou.

Sabia que a mãe dele era uma vidente poderosa. Não podia negar que estaria eternamente magoada com ela, depois que soube pelo que Syaoran passou ao voltar para a China sem as cartas e pelo que os anciões fizeram com ele. Não tinha como perdoá-la, mas tinha que dar o braço a torcer com relação ao poder mágico da senhora Li.

'Talvez…' Ele não sabia direito o que responder.

'Quando estive em Hong Kong pela primeira vez, lembro de tê-la ouvido ordenar que Syaoran me acompanhasse. Na época, ele queria ficar bem longe de mim.'

'Você acha que ela sabia da ligação que existe entre vocês?'

'Eu não sei.' Sakura soltou outro suspiro cansada. 'Eu só não consigo entender o porquê é tudo tão difícil para nós dois se estamos tão ligados um ao outro.'

If I don't need you,
(Se eu não preciso de você,)

Then why does your name resound in my head?
(Então por que seu nome ressoa na minha cabeça?)

If you're not for me,
(Se você não é para mim)

Then why does this distance maim my life?
(Então por que esta distância deixa a minha vida em pedaços?)

Eriol ficou um tempo em silêncio, observando-a. Ela tinha razão. Era um sentimento forte demais que existia entre eles, como se realmente fosse proposital para que, apesar de todas as dificuldades, eles estivessem sempre ligados. Ponderou se tinha direito de revelar sua suspeita sobre ela e Syaoran serem almas gêmeas. Mas nem mesmo ele saberia explicar o porquê daquilo. Sakura tinha razão… Realmente poderia ser algo proposital, mas por quê? Por quê?

If you're not for me,
(Se você não é para mim,)

Then why do I dream of becoming your wife*?
(Então por que eu sonho em me tornar sua esposa?)

'Não existem coincidências…' Uma voz doce chamou a atenção dos dois. 'Apenas o inevitável.' Kaho entrou no escritório, fitando Sakura com ternura.

'É… Foi inevitável eu me apaixonar por ele.' A ruiva concordou com a voz carregada.

I don't know why you're so far away
(Eu não sei por que você está tão longe)

But I know that this much is true
(Mas eu sei que isto é verdade)

We'll make it through
(Nós superaremos isso)

And I hope you are the one I share my life with
(E eu espero dividir minha vida com você)

And I wish that you could be the one I die with
(E eu espero poder morrer ao seu lado)

And I pray in you're the one I build my home with
(E eu rezo para que seja com você que eu construa meu lar)

Kaho e Eriol se entreolharam.

'Sabe…' Sakura continuou. 'Quando ele está ao meu lado… Eu pareço completa e quando ele está longe é como se uma parte de mim não estivesse mais comigo. É como se realmente fosse algo físico.'

Kaho se aproximou dela e abaixou ficando com o rosto na altura da jovem que a fitou intensamente.

'No xintoísmo, assim como em várias outras religiões, existe a dualidade da criação do mundo. O bem e o mal, o céu e a terra, o belo e o repulsivo, o fraco e o forte. Isso faz parte de tudo que existe. Nada é unilateral. São como duas partes formando um só. Como o Yin-Yang.' Ela falou, colocando as duas mãos a frente em posição de oração. 'Quando rezamos e pedimos algo, colocamos nossas mãos desta maneira, em respeito. Juntamos nossas duas mãos, a direita e a esquerda na frente do rosto ou na altura do peito.'

Kaho continuou. 'Em algumas religiões e crenças, o lado esquerdo é o lado sombrio e o lado direito é o lado correto. Por isso alguns canhotos foram tão perseguidos por ignorância. Mas a questão é que isso representa a dualidade pela qual todos nós somos formados.'

Sakura franziu a testa. 'Onde está querendo chegar, Kaho?'

'Que, como seres humanos comuns, você e Syaoran possuem esta dualidade, como todos nós. No entanto, com o poder que tanto você quanto ele possuem, seria perigoso demais manterem esta dualidade sozinhos. Quando estão juntos, vocês dois se equilibram. Sempre que um trilha um caminho mais sombrio, o outro surge para trazer a luz. Harmonizando justamente essa dualidade.'

I hope I love you all my life
(Eu espero te amar por toda minha vida)

'Como se Syaoran fosse o meu prumo…' Ela falou sorrindo.

Kaho sorriu docemente, concordando com a cabeça. 'Então já percebeu isso, não?' Viu Sakura concordar com um gesto. 'Assim como você também deve ter percebido que é o prumo dele.'

A jovem feiticeira desviou os olhos de Kaho. 'Então por que nos separamos tantas vezes?'

I don't want to run away,
(Eu não quero fugir,)

But I can't take it, I don't understand
(Mas eu não aguento, eu não entendo)

If I'm not made for you,
(Se eu não fui feito para você,)

Then why does my heart tell me that I am?
(Então por que meu coração me diz que eu sou?)

Is there any way that I could stay in your arms?
(Tem algum jeito para que eu possa permanecer em seus braços?)

Kaho suspirou. 'Não importa se vocês se separarem infinitas vezes, vocês sempre se reencontrarão estas mesmas infinitas vezes. Você e ele são almas gêmeas que precisam uma da outra para se equilibrarem.' Sakura voltou a fitá-la com os olhos brilhando. 'Como magnetismo. Como o positivo e o negativo, vocês dois vão eternamente se procurarem. Não se aflija. Logo ele estará aqui ou você conseguirá ir até ele.'

Sakura finalmente conseguiu esboçar um sorriso. Kaho se inclinou e abraçou a jovem, tentando lhe passar toda força que poderia. 'Você e ele são especiais, e nada que os deuses mandam para este plano é aleatório. Não se torture mais. Logo vocês estarão juntos novamente. Eu tenho certeza.'

'Cause I miss you,
(Porque eu sinto sua falta,)

Body and soul, so strong
(De corpo e alma, tão fortemente)

That it takes my breath away
(Que tira meu fôlego.)

And I breath you into my heart
(E eu trago você no meu coração)

And pray for the strength to stand today
(E rezo por força para aguentar o dia)

'Cause I love you,
(Por que eu te amo)

Whether it's wrong or right
(seja certo ou errado)

And though I can't be with you tonight
(E apesar de não poder estar com você esta noite)

You know my heart is by your side
(Saiba que meu coração está ao seu lado)

Eriol observou as duas abraçadas e sorriu. Ele estava, justamente, perguntando-se ainda há pouco se seria benéfico ou não contar a Sakura sobre ela ser alma gêmea de Li. Kaho transmitia tanta paz, tanta sabedoria e, com doçura. Sua esposa era muito especial e conseguira devolver à jovem feiticeira a confiança de que voltaria a encontrar Syaoran. O amigo só precisava resolver os problemas que, aparentemente, foram causados por sua primeira incursão ao Mundo das Trevas. Arregalou os olhos, de repente, pensando em uma das passagens que tinha visto nas anotações de Clow.

O rapaz se levantou e foi até o meio do escritório onde havia espalhado parte das anotações de Clow. Estava nervoso, o que logo foi percebido por Kaho, que se afastou de Sakura, observando o marido.

'O que foi?' Ela perguntou preocupada.

Ele não respondeu, continuou a folhear de forma frenética um dos diários de capa de couro e folhas amareladas. Kaho olhou para Sakura que deu de ombros também não entendendo o que acontecia com o rapaz.

'Droga! Onde está? Onde está?' Ele soltou, ignorando a pergunta da esposa. Pegando outro caderno, voltando a folheá-lo rapidamente.

'Eriol…' Sakura o chamou, mas Kaho pediu para que ela não o distraísse. Sabia que ele estava procurando algo em especial. As duas se levantaram do chão, observando o rapaz.

Eriol desviou rapidamente o olhar, vendo-as se aproximarem enquanto começava a folhear um outro caderno. 'Quando aquele que foi banido se revelar, um duelo mortal e a queda do Guardião virão pelas mãos de um homem corrompido.'

Kaho franziu a testa, confusa. 'A Profecia?'

Sakura olhou para a esposa do amigo. 'Aquela profecia do Caos?' Viu Kaho respondendo que sim com um gesto. 'O que tem ela?'

O rapaz ajeitou os óculos que escorregavam pelo nariz fino e fechou os olhos, lembrando-se do que a amiga lhe dissera um tempo atrás.

'Sabe, Eriol, você tem uma visão muito distorcida do que é o amor. Não sei se isso é reflexo das suas lembranças como o Mago Clow, mas você deveria rever isso.'

E se, realmente, ela estivesse certa? Se Clow realmente não soubesse o que era amor? Sua mente voltou para o que Yelan comentara quando estivera na China.

'Talvez, a tentativa de Clow de proteger a todos dos ideais de Muy Shyrai tenha criado a situação que geraria o Caos dos universos.'

Eriol franziu a testa, sussurrando a frase novamente. 'Quando aquele que foi banido se revelar, um duelo mortal e a queda do Guardião virão pelas mãos de um homem corrompido… Homem corrompido…'

E se o homem corrompido, na verdade, não fosse Shyrai, como sua encarnação passada pensara, mas o próprio Clow?

'Você, novamente, está acreditando que tem o poder de tudo, rapaz.' A voz de Yelan voltou a ecoar em sua mente.

'Você está me dizendo que manipulou tanto assim a minha vida a ponto de tentar fazer com que eu me apaixonasse por uma pessoa, só para que ela me protegesse? Você se acha tão poderoso assim, Eriol?!' Lembrou-se novamente das palavras de Sakura quando havia descoberto o quanto ele tinha interferido na sua vida.

Eriol abriu os olhos e encarou as duas mulheres a sua frente, finalmente entendendo a verdade por trás daquela frase..

'Era Clow.' Ele falou, simplesmente fazendo as duas olharem para ele de forma interrogativa. 'O homem corrompido… Era Clow.'

Kaho aproximou-se dele. 'Por favor, Eriol… Explique.'

Ele respirou fundo e voltou a folhear o livro que segurava. 'Quando aquele que foi banido se revelar… Este é Shyrai…' Ele explicou, terminando de examinar o caderno que manuseava e pegando outro. '...Um duelo mortal… Clow interpretou como se fosse o Caos.' Ele esclarecia aos poucos. '...E a queda do Guardião... Nós interpretamos que fosse a morte do Guardião, mas e se "a queda" tivesse o sentido de ele ir para o plano inferior?' Ele perguntou e reparou no rosto assustado da esposa. Continuou. '...Virão pelas mãos de um homem corrompido… um homem corrompido não pelo ódio, como Shyrai, mas pela arrogância: Clow.' Concluiu finalmente.

Kaho observava o marido que tinha o rosto sério.

'Estava tudo aqui, Kaho. A interpretação é que foi errada.'

Kaho franziu a testa novamente. 'Mas por que você acha que a queda do Guardião seria a ida dele para o mundo inferior?'

Eriol respirou fundo. 'Por causa da segunda profecia.' Ele respondeu.

'Segunda?' Ela perguntou. 'Que segunda profecia?'

O rapaz abaixou os olhos e voltou a procurar por alguma coisa no caderno que tinha em mãos. 'Eu tenho certeza que está num destes de capa de veludo…' Comentou. 'Clow viveu 500 anos antes destes eventos e teve uma vida bem longa... Ele teve muito tempo para prever diversas coisas…' Eriol falava enquanto folheava os cadernos. 'Algumas que ele não conseguiu nem determinar a que se referiam.'

Kaho sorriu ao reparar que Eriol finalmente começava a falar de Clow como uma pessoa independente. Estava defendendo o ponto de vista do mago, mas conseguia finalmente começar a desconectar sua existência da dele.

Ele abriu um sorriso de lado. 'Acho que foi neste…' Sussurrou, levantando-se enquanto seus olhos estavam fixos nas páginas pelas quais passava. 'Achei!' Ele exclamou entusiasmado.

Eriol leu em voz alta uma frase em uma língua que lembrava mandarim. Ele releu a escritura algumas vezes, com o cenho franzido. Quando ele as fitou, as duas o encaravam de forma interrogativa por não terem entendido o que aquilo significava. Respirou fundo antes de traduzir.

'Assim que a Escuridão se alastrar no coração daquele que possui o Verdadeiro Poder, o recém-chegado será o marco de uma Era de anarquia e mudanças no alicerce da criação.'

'Não me lembrava desta profecia.' Kaho falou, olhando de forma interrogativa para o marido.

'Ela nunca chegou a ser considerada como parte das profecias do Caos, mas complementa e explica a primeira.'

'Como assim?'

Eriol tirou os olhos da esposa e fitou a jovem feiticeira que estava atrás dela em silêncio. Os dois se fitaram de forma intensa até que ele desviou os olhos dela.

O mago respirou fundo e começou. 'Assim que a Escuridão se alastrar no coração daquele que possui o Verdadeiro Poder… Quer dizer…'

'Sou eu.' Sakura falou de repente.

Kaho se virou para ela assustada, mas Eriol apenas voltou a fitá-la, esperando que a jovem continuasse.

'É o tal poder do Pilar, não é?' Perguntou, vendo Eriol concordar. 'Eu estava enlouquecendo e foi por isso que Syaoran foi para o Mundo das Trevas. Para voltar para mim.' Sakura explicou com um sorriso triste nos lábios. 'Só que ele não contava com o que o tal anjo nos falou.'

'O recém-chegado será o marco de uma Era de anarquia e mudanças no alicerce da criação.' Eriol repetiu. 'Já estava definido que ele iria para lá e causaria a anarquia e a mudança.' Ele falou com a voz suave. 'Não foi culpa sua, era necessária a ida dele para lá.'

'Você foi apenas o estímulo que ele precisava.' Kaho completou, fitando a jovem.

Sakura trincou os dentes. 'Isso não tira a minha parcela de culpa.'

'Se não fosse isso, seria por outro motivo.' Kaho rebateu. 'Ele precisava ir para lá.'

'Por que ele?' Sakura perguntou, encarando os dois que se entreolharam.

Eriol caminhou até ela parando a sua frente. 'Não se sinta culpada, Sakura, porque você não é. Na verdade, você foi justamente a salvação dele.'

A jovem franziu a testa. 'Sem enigmas, Eriol! Por Deus!'

'Como acha que uma alma fica ao passar tanto tempo num lugar como o Mundo das Trevas, Sakura?' Ele perguntou com a voz doce.

'Deve… Deve ser horrível. Syaoran tinha pesadelos frequentes.' Ela falou, aflita.

'Exatamente… E por que você acha que ele não se corrompeu vivendo lá? Por que você acha que ele conseguia, mesmo com a natureza de um ser das trevas, controlar-se ao ponto de não ser necessário prendê-lo, como Clow teve que fazer com os demônios que ficaram presos no nosso Universo?'

Sakura tinha os olhos aflitos esperando pelo final da explicação de Eriol. 'Isso só aconteceu, minha cara Sakura, porque você e ele são almas gêmeas. Como Kaho explicou, você é o prumo dele. Você evitou que ele se corrompesse no Mundo das Trevas onde, inevitavelmente, ele teria que ir. E é, possivelmente, por esta firmeza de caráter que ele é o único capaz de resolver a situação que se instaurou por lá. Ele poderia passar a eternidade lá que não se corromperá, porque precisa voltar para você. Voltar para sua alma gêmea.'

'Eternidade?' Ela falou com a voz falhada.

Eriol balançou a cabeça se arrependendo da palavra. 'Isso é maneira de falar. Ele vai voltar. E mais cedo do que a gente espera.'

Kaho suspirou. 'Não existem coincidências… Apenas o inevitável.' Concluiu.

I don't want to run away,
(Eu não quero fugir)

But I can't take it, I don't understand
(Mas eu não agüento, eu não entendo)

If I'm not made for you
(Se eu não fui feito para você)

Then why does my heart tell me that I am?
(Então por que meu coração me diz que eu sou?)

Is there any way that I could stay in your arms?

(Tem algum jeito para que eu possa permanecer em seus braços?)

Continua.


Música: If You're Not The One (Se Você Não É a Pessoa Certa) - Daniel Bedingfield

Observação: *Verso modificado para se encaixar melhor à Sakura.

No original: If you're not for me, then why do I dream of you as my wife? (Se você não é para mim então por que eu sonho com você como minha esposa?)

Notas da Autora:

Bem… está aí explicação mais detalhada porque Sakura e Syaoran são tão ligados nesta trama. Como eu expliquei, tantas vezes, para quem entrou em contato comigo, havia sim uma explicação para o que os dois sentiam um pelo outro. Qualquer dúvida, review ou entre em contato! :-)

Obrigada a todos que estão acompanhando esta história.

Beijos

Notas da Colaboradora:

Agora as coisas começam a fazer mais sentido. O relacionamento deles é algo que está além da razão e, pelo que Kaho explicou, por um bom motivo. Já foi comentado anteriormente que o poder do Pilar é algo tremendo, faz sentido que o controle desse poder seja equilibrado pela presença de outra pessoa. É bem mais difícil que o Pilar seja corrompido dessa forma, não?

Não é surpresa que Clow não tenha acertado na interpretação da profecia, mas que é problemático o fato de haver mais previsões de Clow que dizem respeito a Sakura e Syaoran… isso é… Pelo menos a profecia não diz respeito ao relacionamento deles, apenas a certos eventos pelos quais eles irão passar.

Até o próximo.

Notas da Revisora:

Eu adorei a parte romântica da Tomoyo, foi bem sutil, suave... E ela merece. Só espero que ela tenha certeza de seus sentimentos.
O Syao tá bem decidido a acabar tudo rápido e voltar logo para casa. Apoiado.
Sabem que eu não sou fã de carteirinha da Kaho, mas foi bem doce as palavras e o jeitinho dela para a Sak.
Mais um capítulo. Achei q esse não conseguiria.
Bjs