DOIS MESES DEPOIS - LOS ANGELES, CA
- Que tal a gente reservar um quarto em algum hotel bacana? - Sugeri à minha amiga e colega de trabalho no outro lado da linha, despejando um pouco de café em uma caneca.
- Acho que qualquer lugar tá ótimo contanto que Taylor relaxe e se divirta porque, vamos ser honestas, ela tá desesperadamente precisando. - Um burburinho junto a uma sirene de ambulância soava ao fundo.
- Concordo. - Beberiquei um gole do líquido quente erguendo o olhar de encontro a adolescente que se aproximava da cozinha com um ar amuado. - Sra. Adams tá deixando ela maluca.
A menina largou a mochila no chão e ocupou uma banqueta, se debruçando sobre o balcão com um suspiro dramático. Sorvi mais um gole do café e descansei a caneca em cima da pia ao ouvir as torradas soltarem na torradeira.
- Não sei como ela ainda não explodiu. Aquela senhora é o diabo.
- Ah... não acho ela tão ruim assim. - Depositei as torradas em um prato de porcelana e o pousei no balcão.
- Você diz isso porque ela gosta de você e- Cabello? - O chamado longínquo ressoou urgente.
Uni as sobrancelhas ao checar brevemente a tela do telefone.
- Demi, preciso desligar. Falaremos sobre a despedida de solteira mais tarde!
- Okay. Até mais então.
- Até.
Guardei o celular após a ligação ser encerrada, vendo Liz arrastar o prato de torradas para perto de si.
- Bom dia. - Saudei com um leve sorriso.
- Só se for pra você. - Resmungou abrindo o pote de nutella. - Meu laptop morreu noite passada e eu não consegui terminar meu trabalho de espanhol. E para melhorar ainda mais o dia, eu tenho prova de biologia hoje. Yay! - Falou sarcástica.
- Você estudou? - Perguntei indo até a geladeira. - Suco?
- Uh... mhmm. Você fez compras?
- Sim. - Peguei a caixa de suco de maçã. - Sobre o laptop, pode pegar o meu emprestado. - Entreguei o suco à Liz.
- Valeu.
- Queria ter te ajudado a estudar ontem, mas teve esse acidente grave com um ônibus na estrada e... - Me calei por um momento, ainda consternada com a lembrança da paciente que não resistiu aos ferimentos, do apavoramento no rosto ferido da mulher jovem me implorando para ajudar seu filho. Suspirei pesarosa. - A emergência ficou lotada.
- Tudo bem. Eu estudei.
- Então vai dar tudo certo. - Sorri, mirando o colar de grande valor sentimental que pendia em seu pescoço. - Já te contei que uma vez sua irmã foi flagrada colando na prova de matemática?
- Já. - Riu com a boca cheia de torrada, colocando suco em um copo.
- Ela ficou de castigo mas sempre fugia pra me ver. - Um riso saudoso escapou pelo meu nariz.
Levou um longo tempo para eu aceitar a realidade sem Miley e entender que eu não estava a abandonando só porque estava apaixonada. Quando ela e nosso futuro bebê partiram, vi minha vida explodir bem na minha frente e os milhões de pedacinhos voarem para todos os lados. Eu realmente achei que estava tudo acabado e que nunca seria feliz de novo. Tranquei meu coração, recusei qualquer ajuda e me afundei no trabalho, tentando salvar o máximo de vidas possível. Mas estava vivendo no automático, sob uma nuvem escura, apegada ao passado e me agarrando com toda força em algo que se foi.
Sabia que Miley nunca ia querer me ver assim, ela gostaria que eu fosse feliz. Então depois de me dar conta do caos em que vivia e afastar a pessoa que significava o mundo para mim, eu decidi procurar ajuda profissional. Aos poucos, fui me reconectando completamente comigo mesma. Fiz uma viagem sozinha, escrevi uma carta de adeus para Miley e deixei a água do mar levar embora. Agora ao refletir sobre os momentos bons que tivemos, eu apenas sorria com saudade.
Eu estava finalmente e genuinamente começando a pensar no amanhã, no meu futuro...
Porém, era tarde demais para vivê-lo com a pessoa que eu amava.
Peguei minha caneca de café na pia, terminando de tomá-lo enquanto Liz devorava as torradas.
- Não precisa me levar pra escola hoje. - Falou bebendo do suco. - Peter vai me dar carona.
- Hmm. - Prendi um sorriso e ela revirou os olhos.
Peter era um garoto educado de dezesseis anos que morava no prédio. Liz tinha uma quedinha por ele.
- Cala a boca.
- Eu não disse nada! - Me fingi de ofendida.
- Você pensou.
- O que tá rolando entre vocês, afinal? Estão namorando? - Eu quis saber a fazendo enrubescer.
- Nope.
- Hey... - Inclinei o corpo no balcão chegando mais perto dela. - Você sabe que pode me contar qualquer coisa, não sabe?
- Sim, eu sei, é que... - Suspirou. - Podemos mudar de assunto? - Perguntou meio acanhada esboçando uma careta.
- Tudo bem... - Anui mas antes que pudéssemos falar de qualquer outra coisa, um ronco alto vindo da sala se alastrou pelo apartamento.
Liz e eu nos entreolhamos e caímos no riso.
- Cadê o chantilly? - Saltou da banqueta com um sorriso arteiro.
- Liz...
- Aposta quantos que ele cai nessa de novo?
Apenas a observei pegar o spray de chantilly e o espanador de pó antes de rumar maquiavelicamente para a sala. Cruzei os braços no peito, meneando a cabeça em negativo e falhando na tentativa de conter um sorriso ao seguir a adolescente para assistir a cena.
Nick dormia serenamente no sofá com metade do cobertor caído no chão. Fazia quase uma semana que ele havia terminado um relacionamento de dois anos por motivo de incompatibilidade e desde então era na minha casa que ele estava ficando enquanto eu o ajudava a encontrar um loft. Era triste, mas ele parecia estar lidando bem com isso.
Com cuidado para não acordá-lo, Liz se inclinou para perto de Jonas, sacudiu o frasco e esguichou uma boa quantidade do creme branco na palma da mão exposta. Seguidamente, ela passou com leveza as penas do espanador no nariz da bela adormecida.
Tapei a boca abafando um riso quando Nick esfregou o rosto com a mão coberta de chantilly. Liz gargalhou descontroladamente. Aquela pegadinha nunca perdia a graça.
- Do que vocês estão rindo?
Transferi a atenção para a autora da pergunta se aproximando enquanto prendia os cabelos dourados no alto da cabeça. Os olhos avelã se alternando com curiosidade e divertimento entre mim e Liz, até que ela avistou Nick levantando do sofá com a face toda suja. Um riso saiu de sua garganta.
- Podem rir a vontade. Mas fiquem espertas! - Nick gesticulou. - Principalmente você, mocinha. - Apontou para Liz que ainda ria da própria travessura.
- Ui, que medo! - Ela zombou.
- Ah, é? - Nick ameaçou correr até ela a fazendo fugir gritando para a cozinha.
- Estou rodeada de crianças. - Comentou a loira ao me saudar com um selinho.
- Preciso de um banhozinho. - Murmurou Jonas ao passar por nós.
- Até quando ele vai morar no nosso sofá? - Ela questionou. - Nosso sofá... - Sorriu ao me puxar com delicadeza pela cintura. - É bom finalmente poder dizer isso. - Com a mão livre, ela colocou uma mecha do meu cabelo curto atrás da minha orelha. - Vou aproveitar meu dia de folga e trazer o resto das minhas coisas pra cá.
Forcei um sorriso deslocando os olhos para o suéter bege que a mulher usava.
- Amber..
- Peter tá me esperando lá embaixo. - Liz atraiu nossa atenção, digitando no celular.
- Tudo bem. Diga a ele para dirigir com cuidado. - Falei a vendo pegar a mochila e pendurar no ombro. - Ouviu?
- Tá, tá. Tchau! - Se despediu rapidamente indo até a porta.
- E boa sorte na prova! - Falei antes de ela sair com pressa.
- Então, o que ia dizer? - Amber perguntou rumando para a cozinha.
- Uh... esqueci. - Menti disfarçando com um riso curto. - Enfim, eu e as garotas queremos dar uma festa de despedida de solteira para Taylor hoje. Nada demais, sabe? Só a gente... - Falei me aproximando do balcão. - Só não sabemos aonde ainda. A casa dela está em reforma, Nick está aqui... - A observei colocar café em uma xícara.
- E a casa da Cara?
Cara era uma das pessoas mais extrovertidas que eu conhecia. Ela e Taylor já eram boas amigas quando a conheci em uma reunião de amigos onde descobri que a ortopedista britânica começaria a trabalhar conosco. Nos dávamos muito bem, embora ela seja muito mais próxima de Amber.
- Seria uma boa... - Ponderei. - Você acha que ela topa?
- Meu bem, é a Cara. É lógico que ela topa. - Levou a xícara aos lábios.
- Tem razão. Vou falar com ela depois. - Chequei as horas no meu relógio de pulso percebendo Nick aparecer na sala com apenas uma toalha pequena enrolada no corpo. Franzi o rosto em uma careta. - Pelo amor de Deus, Nicholas! Veste uma roupa! - Exclamei o assustando.
- Foi mal, já vou. - Pegou sua mala voltando para o outro cômodo.
- E ANDA LOGO! - Berrei.
- Sério, quanto tempo ele vai ficar aqui? - Amber tornou a perguntar.
- Estou o ajudando a encontrar um lugar legal, mas ele é mais detalhista do que eu pensava.
- Você é uma ótima amiga, sabia? - Sorriu.
- É, eu sei. - Dei de ombros.
- Eu estava pensando... - Mordeu o canto do lábio ao repousar a xícara no balcão. - Que tal a gente ir para o meu loft hoje? Passar a noite lá...- Sugeriu. - Quero me despedir de lá com estilo, sabe?
- Hey, Dem... - A voz de Nick nos interrompendo fez Amber bufar. - Podemos parar em um endereço? - Ele se aproximou todo vestido e exageradamente perfumado, olhando algo no celular. - É perto do hospital. Parece perfeito. - Falou ao pegar uma pera na fruteira seguindo até a porta.
- Claro... - Peguei minha bolsa na sala e me despedi de Amber com um breve beijo na bochecha.
- Hey, você tem Tinder? - Nick perguntou assim que entramos no elevador.
- O que? - O fitei franzindo a testa.
Era sério aquela pergunta?
- Você tem Tinder? - Repetiu como se eu não tivesse entendido da primeira vez. - Estou pensando em criar um perfil, conhecer alguém com uma profissão diferente da minha, sabe?
- Nick, eu namoro. Por que eu teria Tinder?
- Ah, é... - Falou sem graça mordendo um pedaço da fruta. - Às vezes esqueço que você e Amber namoram sério, você age tão diferente com ela comparado à S.. - Pigarreou. - Às outras pessoas que vi você namorar.
Engoli em seco e fiquei calada, encarando a porta metálica e pensando nas palavras de meu amigo. Logo o elevador abriu no térreo e Nick deu início a um novo assunto.
(...)
- Então tá combinado? - Perguntei à Cara no telefone a caminho da sala de MRI.
- Uh, sim, sim. E pode deixar as bebidas comigo. Eu vou ter que desligar agora, Taylor está aqui. Oh e espero que goste de strippers. Tchau! - Falou rápido antes de desligar.
- Maravilha. - Murmurei irônica ao guardar o celular.
Cheguei na sala encontrando Nick concentrado no monitor.
- Hey, mandou Horan me chamar? - Adentrei o local com as mãos nos bolsos do jaleco.
Nick virou a cadeira direcionando a atenção para mim.
- Hey, sim, senta aí.
Ocupei a cadeira ao seu lado analisando a imagem na tela.
- Quero falar com você mas não é nada relacionado ao meu paciente...
Eu o olhei desconfiada.
- Okay... - Encostei as costas na cadeira.
- Eu... - Coçou a cabeça raspada. - Eu não pude deixar de notar como você ficou toda estranha e pensativa depois do que eu disse hoje mais cedo sobre você e Amber. Eu sei que o que acontece entre vocês ou o modo como se tratam não me diz respeito, então desculpa se..
- Não, não... - O interrompi com calma. - Não precisa se desculpar por isso, está tudo bem e uh... você está certo sobre eu agir diferente... - Abaixei os olhos para o teclado. Eu ia mesmo falar sobre isso com ele? - É que... - Estalei a língua. - Eu sinto que... o que a gente tem é mais amizade do que qualquer outra coisa, sabe? E... - Fiz uma pausa mordendo o lábio, porém, duas batidas na porta me impediu de continuar.
- Desculpa interromper, mas... - Olivia, anestesiologista e ex namorada de Nick estava parada na porta. - Posso dar uma palavrinha com você? - Perguntou a ele parecendo apressada.
- Eu vou indo, a gente conversa depois. - Falei ao me levantar. Nick assentiu.
Me apressei para fora da sala soltando uma lufada de ar. Quase falei sobre algo com Nick que eu não tinha conversado com ninguém. Precisava urgentemente desabafar ou explodiria. Verifiquei as horas no meu relógio, ainda tinha alguns minutos antes de uma laparoscopia, então apertei os passos até o elevador. No entanto, ao parar diante a porta da sala familiar, senti uma certa hesitação. Fazia um tempo que eu não aparecia por ali.
A primeira vez que falei com a mulher, não tinha ideia de quem ela era. Foi em uma manhã, uma manhã horrível devo dizer. O dia estava apenas começando e eu estava literalmente no chão, chorando sozinha, completamente devastada e desesperançada quando ela entrou por engano na sala onde eu me encontrava, pedindo desculpas e dizendo que era nova ali. Eu fui muito rude e me envergonho disso, mas ela não se importou com minha rudeza e ao mirar meu celular jogado no chão, ela disse: "Claramente você... está passando por um momento difícil, sinto muito mas... se precisar conversar com alguém profissional e confiável... eu estou no sétimo andar. É só perguntar por Lauren Jauregui." Eu neguei asperamente e acabei terminando o dia em um bar.
Fiquei tão mal naquela época que cheguei a me trancar em meu apartamento por dias e só saí quando minha chefe bateu na minha porta. Depois de quase ser despedida, eu procurei por Lauren.
No começo eu falava pouco, demorou muito para eu me sentir confortável com ela, mas quando consegui, ela se tornou a única pessoa com quem eu realmente conseguia conversar.
Estava quase batendo na porta quando ouvi sua voz chamar meu nome.
- Demi!
Escondi a mão no bolso e virei nos calcanhares vendo Lauren se aproximar carregando um copo térmico.
- Hey. - Falei um pouco sem jeito.
- Que bom te ver. - Sorriu breve. - Vai entrar? - Perguntou ao abrir a porta.
Crispei os lábios por um instante, mas assenti entrando na sala quieta.
Sentei no sofá marrom apoiando os cotovelos nos joelhos. Entrelacei meus próprios dedos e permaneci em silêncio, encarando o quadro abstrato pendurado na parede. Podia sentir os olhos verdes da mulher em mim, me examinando com atenção. Respirei profundamente e desloquei o olhar das formas geométricas para o pequeno vaso de cacto no meio da mesa de centro, umedecendo os lábios antes de começar a falar.
- Estamos morando juntas. - Eu disse. - Amber e eu.
- Você não... parece animada com isso.
- Eu queria estar... - Fui sincera e olhei brevemente para a mulher na poltrona. - Mas... não consigo parar de pensar que estou cometendo um grande erro. - Soltei um suspiro pesado. - Amber é... incrível, eu a amo, mas não é um amor que... você sabe, é mais... amizade pra mim. E... toda vez que cogito em conversar com ela, quando penso em terminar nosso namoro, eu desisto porque... não quero machucá-la nem perder sua amizade. E agora ela está tão feliz... - Suspirei novamente. - Sei que é injusto com ela...
- É... nesse caso, é injusto com vocês duas.
Olhei para Lauren encontrando simpatia em seu olhar.
- Ela certamente está mais envolvida no relacionamento de vocês... - Prosseguiu suavemente. - E você não sente o mesmo mas não quer magoá-la.
- Eu só queria poder amá-la do jeito que ela merece. - Confessei quase sussurrando. - Mas... meu coração... - Minha voz saiu falhada e meus olhos caíram para as minhas mãos, um sorriso amargurado aparecendo em meus lábios.
O rosto delicado de traços angelicais, os olhos cativantes e o sorriso encantador se apoderavam de minha mente...
Selena estava sempre em meus pensamentos. Não importava quanto tempo passasse, havia sempre algo que me lembrava ela; uma música que dançamos juntas, um filme que assistimos sob as cobertas, alguma arte que eu via na cidade, sua cor favorita...
Ela cruzou meu caminho em uma época obscura e me conquistou com seu jeito doce, apaixonante e sua alma bonita. E mesmo passando por um momento difícil e doloroso, ela não desistiu de mim e me deu todo seu amor. Porém eu não estava pronta, tinha medo de seguir em frente e por conta disso a deixei escapar por entre os dedos.
Era inegável que ainda a amava e sua ausência ainda me doía o peito. Eu costumava a imaginar sua vida longe de mim em NY. Sua casa, seus novos amigos, seus lugares prediletos. E me perguntava se eu fazia falta para ela tanto quanto ela fazia para mim. O que me acalmava de certa forma, era o fato de ter uma pessoa que eu conhecia e confiava ao seu lado. Eu era secretamente grata por Taylor ter mantido contato com ela. Entretanto, quase surtava de inveja quando Swift viajava para visitá-la e eu não podia acompanhá-la pois Selena estava seguindo a vida com outro alguém, pude ver com meus próprios olhos. Eu tentei fazer o mesmo, mas ainda havia um vazio dentro de mim, como se estivesse faltando algo.
Faltava ela.
- Você não fala mais sobre ela... - Às vezes eu desconfiava que Lauren conseguia ler minha mente.
Me mexi inquieta no sofá.
- Não há mais nada para falar. - Fui evasiva.
- Então... não a viu mais desde Washington?
Engoli em seco.
Washington...
Dois anos atrás...
A lembrança desse dia ainda me afligia demasiadamente. E o pior era que eu ainda me recordava de cada detalhe...
O outono parecia mais bonito em Washington, DC. A folhagem colorida enfeitava a cidade enquanto o sol brilhava no céu azul. Amber e eu tínhamos acabado de sair de uma conferência e estávamos em um táxi a caminho do hotel. Stevie Wonder tocava no rádio enquanto Amber, sentada ao meu lado no banco traseiro, conversava distraidamente sobre música com o motorista gentil. Eu apenas escutava o bate-papo sem prestar atenção, contemplando a cidade pela janela do carro e sentindo o vento leve em meu rosto.
Já estava acostumada com o jeito de Amber de ser; extrovertida, atenciosa, sempre querendo conhecer as pessoas e ouvir suas histórias por mais tediosas que algumas sejam. Eu a admirava muito. Trabalhávamos sublimemente bem juntas e nos divertíamos fora do hospital também. Nossa amizade era ótima, mas eu sabia que ela queria mais e já havia deixado isso claro meses atrás quando me surpreendeu com um beijo na boca após uma longa e bem-sucedida cirurgia. Eu no entanto, estava emocionalmente indisponível, apesar de estar fodidamente carente e solitária.
- Lovato! - Um estalar de dedos soou perto do meu ouvido me fazendo piscar e olhar para Amber. - Está com fome? Marcus acabou de me indicar um ótimo restaurante aqui perto.
A encarei por um segundo me perguntando quem diabos era Marcus.
- Cinco minutos daqui. - Falou o taxista.
Ah, é claro. Marcus, o motorista.
- Pode ser. - Falei voltando a olhar pela janela.
Estávamos parados no semáforo. Na esquina havia um café com mesas ao ar livre, algumas pessoas conversando e rindo, outras compenetradas em seus celulares, cuidando de suas vidas. Quando o sinal abriu e o táxi virou a esquerda, meu corpo inteiro tencionou e minha respiração ficou presa na garganta. Segurei na porta do carro ao mesmo tempo que meus olhos atônitos focalizavam a morena com um cachecol escuro em volta do pescoço, parada em frente ao que parecia ser uma galeria de arte, alheia ao mundo ao seu redor enquanto olhava o celular. O momento durou menos de cinco segundos até eu a perder de vista quando o táxi virou outra esquina.
Recostei as costas no banco e levei a mão ao peito, meu coração estava acelerado. Inalei o ar profundamente, tentando ordenar minha mente. Não foi uma alucinação. Era ela, eu tinha certeza, a reconheceria de qualquer jeito. Mas o que fazia em DC? Engoli em seco, agoniada. Precisava fazer alguma coisa, quanto mais o táxi prosseguia, mais eu me distanciava dela. E eu não suportava mais não tê-la em minha vida.
- Pare o carro. - Minha voz soou fraca a princípio, praticamente inaudível. Inspirei fundo. - Pare o carro. - Repeti firme dessa vez, em alto e bom som. - Eu preciso sair!
Amber me olhava com uma expressão confusa me encarando como se eu fosse louca. Bom, eu estava agindo loucamente naquele momento, mas não ligava. Só pensava em sair daquele táxi e correr até Selena.
- Demi, você está bem? - Amber perguntou tocando meu braço, mas a ignorei e me inclinei até a abertura entre os bancos.
- Pare o carro, por favor. - Pedi aflita e com urgência ao taxista, e quando ele encostou o automóvel, eu sai com toda pressa esquecendo a porta aberta.
Eu corria tanto, o mais rápido que conseguia, chegando a esbarrar em algumas pessoas pelo caminho. Um sorriso esperançoso teimava em invadir meu rosto conforme eu me aproximava da esquina. Eu tinha tanto a dizer à ela e já tinha perdido muito tempo. Aquela era claramente a minha chance de acertar as coisas. Só esperava que ela me perdoasse e que não fosse tarde demais...
Mas infelizmente era.
Parei abruptamente, ofegante e com a boca seca, o sorriso pouco a pouco desvanecendo-se de meu rosto...
Selena ainda estava lá. Mas não estava mais sozinha. Senti meu mundo ruindo ao assistir com o peito apertado, aquela mulher a abraçar pela cintura e o sorriso que tanto sentia falta surgir no rosto de Selena antes de seus lábios tocarem outros.
Engoli com força me sentindo enjoada e prestes a desabar em lágrimas. Dei alguns passos para trás trombando em alguém e comecei a me afastar destruída.
- Demi! - A voz de Amber chamou. - O que aconteceu? Você está bem? Por que saiu correndo? - Me encheu de perguntas vindo em minha direção visivelmente preocupada.
- Não aconteceu nada. - Falei de forma ríspida apressando os passos ao me esquivar de seu toque atencioso.
- Espera..
- SÓ ME DEIXA EM PAZ, PORRA! - Vociferei com o choro entalado na garganta.
Não consegui pregar os olhos aquela noite. Me sentia patética e além de incapaz de expulsar os pensamentos de Selena com aquela pessoa, minha consciência pesou por ter gritado com Amber daquela forma tão rude. Nada que havia acontecido era culpa dela. Eu obviamente me desculpei na manhã seguinte antes de sairmos para o aeroporto.
No entanto, após aceitar meu pedido de desculpas, Amber passou a me evitar e apenas me dirigia a palavra no hospital. Isso me aborreceu mais do que deveria, sentia falta dela e de nossas conversas descontraídas. Por isso, depois de uma longa conversa com Lauren, eu procurei Amber em seu loft e nós nos entendemos. Porém, algumas semanas passaram e ela acabou se declarando...
"Estou apaixonada por você", ela disse, nervosa mas com um sorriso.
Eu deveria ter ido embora, ao invés disso, a beijei.
Começamos a sair mais tarde naquele mês. Eu estava disposta a fazer dar certo. Estava tentando seguir em frente...
Mas então, dias depois de aceitar seu pedido de namoro, o universo resolveu brincar comigo de novo...
- Que tal o vermelho? Você gosta de vermelho. Acho que combina com a cor que escolheu para a parede... - Amber falou me mostrando a imagem de outro sofá em seu celular enquanto andávamos lado a lado pelo hospital.
Fazia menos de uma hora que eu havia comentado sobre redecorar meu apartamento que estava precisando de um pouco de cor. Amber prontamente se ofereceu para me ajudar e desde então não saía mais daquele aplicativo de móveis e decoração.
- Melhor que o rosa cintilante com certeza. - Levei o copo de café aos lábios.
- Para, aquele ficaria deslumbrante na sua sala! - Debochou.
- Yep, literalmente.
- E as cortinas? Você precisa de novas cortinas. - Falou animada voltando a navegar pelo aplicativo. Balancei a cabeça achando graça de seu entusiasmo.
- Acho que vou aproveitar meu dia de folga amanhã e cortar o cabelo. - Comentei quando nos aproximamos do elevador.
Amber me olhou surpresa.
- O que há com você e essa necessidade repentina de mudança? Primeiro seu carro, depois seu apartamento e agora seu visual?
Dei de ombros vendo as portas metálicas se abrirem.
- Mudar é bom.
- Concordo plenamente e super apoio! - Sorriu entrando no elevador.
Estava prestes a acompanhá-la quando uma voz familiar fez com que eu parasse e olhasse para o lado.
- Você vem? - Amber perguntou.
- Uh, sim. Vai na frente, eu te encontro lá. - Falei antes das portas fecharem, retornando o olhar para a moça conhecida que falava ao celular, notoriamente enraivecida.
- Você ouviu o que eu disse? Nossa filha está no hospital! - Enfatizou passando a mão nos cabelos castanhos. - Okay, quer saber?! Volta pra sua maldita reunião, mas não tente falar comigo mais tarde, não quero olhar pra sua cara hoje! - Encerrou a ligação respirando fundo antes de entrar no quarto.
Não consegui resistir e me aproximei devagar. Através do vidro da janela, era possível enxergar uma menininha de cabelos claros, no máximo três anos de idade, sendo examinada pela nova cirurgiã pediátrica, Dra. Cabello. E ao seu lado estava o interno loiro cujo o nome não me lembrava.
- Hey, Demi..
Me sobressaltei com a voz de Cara subitamente perto do meu ouvido.
- Porra, que susto! - Me queixei irritada, estava tão focada no que se passava dentro do quarto que nem notei ela perto de mim.
- Cruzes, foi mal. - Falou rindo. - O que faz parada aqui, afinal?
- Uh... - Pigarreei desviando os olhos dos verdes em minha frente ao beber o último gole do meu café. - Eu estou esperando para... falar com Cabello. - Menti.
- Hum. Então, você viu a Taylor? - Perguntou olhando o celular. - Ela não responde minhas mensagens.
- Na cafeteria com Matt.
- Ah, eles não se desgrudam, né? Vão acabar se casando...
- Pois é, bom pra eles. - Falei desinteressada, avistando Cabello dizendo algo para o interno na porta do quarto.
- Bem, vou lá. - Cara falou e eu acenei a cabeça a vendo ir até o elevador.
Ao notar o interno sair na direção oposta de Cabello, eu agi impulsivamente.
- Hey, você. - O chamei.
O rapaz jovem me olhou confuso e surpreso, apontando para o próprio peito após olhar para trás de si, conferindo se era ele mesmo quem eu chamava.
- Sim, você. - Falei sem muita paciência. - Vem aqui. - Fiz um gesto para ele se aproximar.
- A senhora está precisando de mim, Dra. Lovato? - Perguntou assim que parou em minha frente.
- O que houve com a criança? - Fui logo ao assunto.
- Uh, que.. ah, por que? - Questionou com curiosidade e eu revirei os olhos.
- Não responda minhas perguntas com outra pergunta. - Ralhei.
- D-Desculpa. É que.. não é nada demais, a menina só engoliu uma moeda tentando fazer um truque de mágica. Crianças, né? Tão estúpidas. - Riu, mas engoliu em seco quando o encarei séria. - Uh, Dra. Cabello pediu um raio-x, logo veremos onde exatamente está o corpo estranho. - Falou tenso.
- Certo... qual é o seu nome mesmo? - Franzi as sobrancelhas.
- Uh, Horan. Niall Horan.
- Hum. Bom, é só isso. Pode ir. - Falei. - Oh, e jogue isso na lixeira pra mim. - Entreguei o copo vazio para ele. - Obrigada. - E saí em direção ao quarto aonde estavam a pequena paciente e sua mãe.
Pensei seriamente em desistir quando cheguei perto da porta, mas era tarde demais. A garotinha segurando um bichinho de pelúcia já havia me visto pelo vidro, e quando ela sorriu, os olhos da mulher pousaram em mim. Desviei o olhar, mas fui em frente, me aproximando da porta com hesitação.
O que estava fazendo? Por que simplesmente não a ignorei e entrei no elevador com Amber?
- Você. - A expressão em seu rosto demonstrava certa perplexidade.
- Oi.. - Falei com as mãos enterradas nos bolsos do jaleco.
- Oi. - A criança foi quem respondeu, com a voz fraquinha. Sorri para ela, focando na mulher novamente.
- Caramba... eu tinha esquecido que você trabalha aqui.. espera, está tudo bem com a Sam, certo? Ela só engoliu uma moeda... - Ela começou a se desesperar então a tranquilizei.
- Sim, eu soube. E sua filha está em ótimas mãos, eu garanto. - Assegurei a vendo respirar aliviada. - Eu só... reconheci você e... - Hesitei com o que ia dizer, olhando brevemente para a menina quietinha na cama hospitalar. - Podemos conversar um minuto? - Perguntei e ela pareceu ponderar. - Por favor, Hayley. - Supliquei diante de seu silêncio.
- Tudo bem... - Falou calmamente após um suspiro, virando-se para sua filha. - Sam, a mamãe vai ali falar com a médica, está bem? - A garotinha assentiu, em seguida Hayley me acompanhou para fora do quarto.
- Você tem uma filha linda. - Dei um sorriso terno observando a menina pelo vidro.
- Obrigada. Uh... - Cruzou os braços no peito. - Sobre o quê exatamente quer falar comigo? - Soou intrigada e eu abaixei o olhar soltando um leve suspiro. - Você quer saber sobre a Selena, não quer? - Indagou quando demorei para responder.
A menção do nome fez meu estômago revirar. Comprimi os lábios em linha reta e assenti sutilmente com a cabeça, vendo a amiga de minha ex olhar para sua filha a admirando.
- Sam é afilhada dela...
Sorri levemente.
- Aposto que ela a mima bastante. - Comentei enternecida ao me lembrar o quão incrível e amorosa Selena era com Liz, tanto que às vezes Liz ainda me perguntava sobre ela. Eu nunca sabia exatamente o que dizer.
- Oh, e como! Todo mês chega um presente lá em casa. E até está ensinando ela a desenhar. - Fixou o olhar em mim, sua fisionomia se tornando séria. - Mas o que quer saber?
- Eu... uh... - Quebrei o contato visual pigarreando antes de continuar, me sentindo tensa. - Como... como ela está?
Isso era tudo o que eu precisava saber. Uma simples pergunta que eu poderia ter feito à Taylor a qualquer momento já que elas haviam se tornado amigas. Mas eu nunca conseguia. As imagens de Selena nos braços de outra mulher sempre me faziam desistir.
- Bem. - Respondeu Hayley. - Ela conseguiu o emprego que ela queria recentemente e está animada.
Foi impossível conter o sorriso que tomou conta do meu rosto. Selena estava bem e fazendo o que amava. Eu não podia ter ficado mais contente e orgulhosa ao saber disso.
- Eu fico muito feliz de ouvir isso, sabe? Ela.. - Parei o que dizia quando a mulher em minha frente soltou um riso seco e indignado, meneando a cabeça em negativa.
- Me desculpe, mas... - Um vinco se formou em sua testa. - Você tem noção do quanto a machucou? - Me fitou brava e eu engoli em seco. - O quanto ela sofreu com o fim do relacionamento de vocês? Eu sei que não tenho ideia do seu lado da história, mas ela é minha amiga e eu não estou conseguindo olhar pra você agora sem me lembrar da Sel chorando no meu colo por sua causa!
- E-Eu... eu nunca quis machucá-la... - Minha voz saiu baixa e quebrada, meu coração pesava no peito. - Eu só.. só.. quero o melhor pra ela. Sempre. - Balbuciei me esforçando para segurar as lágrimas. - Ainda penso nela. Muito. - Confessei.
- Deus... não sei porquê mas... acredito em você... - Suspirou, levando a mão ao bolso da calça quando seu celular começou a tocar.
Aproveitei para secar rapidamente uma lágrima que havia escapado.
- É ela. - Falou. - Deve estar preocupada com Sam. Com licença. - Voltou para dentro do quarto.
E eu fiquei ali, imóvel, olhando para o vazio com o peito apertado de angustia.
- Hey, Sel...
Fechei os olhos e respirei fundo, os abrindo em seguida pronta para sair dali, mas no instante em que a ouvi, paralisei de novo.
- Hey, acabei de ver sua mensagem. Sam está bem?
- Sim, ela está aqui.
- Oi, princesa. Tudo bem?
Encostei as costas na parede ao lado da porta, o som doce e atencioso de Selena me desestruturando completamente.
- Eu trouxe a Dory comigo!
- Oh, oi Dory!
Seu timbre risonho penetrou meus ouvidos e um sorriso saudoso brotou em meus lábios enquanto as lágrimas embaçavam minha visão.
Permaneci lá por mais alguns minutos apenas escutando sua voz e sentindo a saudade corroer meu peito.
- Demi? - A voz suave de Lauren me fez piscar e erguer o rosto. - Seu celular está vibrando.
Apanhei o aparelho no bolso e o atendi imediatamente ao levantar do sofá.
- Fala, Horan.
- Desculpa ligar, mas você não está respondendo as mensagens. A paciente quer falar com você.
- Okay, estou indo. - Desliguei e virei para Lauren. - Preciso ir. Volto quando tiver mais tempo.
Ela assentiu em entendimento e eu me dirigi até a porta.
- Demi. - Chamou quando minha mão tocou a maçaneta. A olhei. - Por mais difícil que seja a situação... não ignore seus sentimentos. - Aconselhou.
Respondi com um aceno de cabeça e deixei a sala.
(...)
Era cerca de oito da noite quando cheguei ao meu apartamento após um plantão relativamente tranquilo. Uma melodia agradável preenchia o ambiente mal iluminado. Acendi as luzes da sala e corri os olhos pelo espaço amplo, largando a bolsa na poltrona e me deparando com duas caixas de papelão perto do sofá; uma repleta de discos de vinil e outra abarrotada de livros. Afastei o olhar dos pertences de Amber passando a mão por meus cabelos, um suspiro pesaroso escapando por entre meus lábios...
Pensei e repensei por um minuto. Sabia o que precisava fazer e não havia mais hora certa para isso. Soltei a respiração pesada quando o sonido da campainha em meio ao jazz interrompeu minha linha de raciocínio. Ao atender a porta, encontrei minha vizinha de idade com um sorriso no rosto e uma bandeja de torta nas mãos.
- Olá, Sra. Wright. - Sorri. - Tudo bem?
- Tudo ótimo, querida. Olha, aqui está a torta de maçã que prometi em agradecimento! - Falou bondosa ao me entregar a bandeja redonda.
- Wow... - Inspirei o cheiro apetitoso. - Parece deliciosa.
- É a favorita das minhas filhas e netos. Espero que goste! E mais uma vez, muito obrigada por ter socorrido meu John.
John era seu esposo, um senhor muito gentil. Eles eram casados há mais de cinquenta anos. Eu estava saindo para o trabalho alguns dias atrás quando o vi passando mal na garagem, se queixando de dor torácica. Imediatamente o socorri e o acompanhei até o hospital. O casal morava no prédio que ficava perto da casa da filha deles há uns quatro anos desde que se recusaram a mudar para uma casa de repouso. Eles eram adoráveis e apesar da idade, tinham a mente muito aberta, o que lamentavelmente era raro.
- Fico feliz de ter ajudado. - Falei com um sorriso. - Qualquer coisa vocês tem o meu número.
- Você é uma menina de ouro! - Afagou meu rosto. - Bom, agora é melhor eu voltar, John está me esperando para assistirmos nosso programa favorito!
- Aww, tenham uma ótima noite. E muito obrigada pela torta!
- Depois me diga se gostou!
Esperei a Sra. Wright sair rumo ao seu apartamento e logo depois fechei a porta me locomovendo até a cozinha para guardar a torta. Decidindo não me martirizar mais com meus pensamentos, segui direto para o quarto.
O cômodo estava aceso, mas não havia sinal da mulher que eu esperava encontrar. Porém, em cima da cama havia uma mala grande e aberta recheada de roupas.
Suspirei.
- Amber? - Andei alguns passos até o closet onde me defrontei com a loira ajoelhada, uma folha de papel em cada mão...
Enrijeci com a imagem em minha frente. Ao seu redor, fotografias de um passado, de um amor tão intenso que não conseguia esquecer, cartões, presentes, aliança... tudo espalhado no chão.
- Sua ex é talentosa. - Amber comentou séria ao me notar ali sem fala. - Você está linda nestes desenhos... - Seus olhos deixaram os papéis e miraram em mim. - Neste em especial. - Virou o papel, era minha própria figura nua em preto e branco.
Esquivei o olhar para longe cerrando o maxilar.
- O que... o que está fazendo? - Perguntei. - Estava mexendo nas minhas coisas? - Inquiri.
- O quê? - Falou ofendida. - É claro que não! Não foi minha intenção ver nada disso, eu só... - Largou os desenhos e se pôs de pé. - Eu só estava checando se tinha espaço suficiente para todas as minhas roupas no seu armário quando derrubei essa caixa sem querer... - Gesticulou para a caixa caída ao seu lado. - Aí eu fui pegar e... - Andou para perto de mim e eu fiquei calada. - O que significa tudo isso, Demi? Por que ainda guarda essas coisas?
- Eu... - Pendi a cabeça suspirando.
- Você... - Sua voz era baixa. - Meu Deus... - E então ela entendeu tudo. - Você ainda a ama.
- Sinto muito... - Sussurrei com pesar e ela se afastou devagar. - Amber..
- Isso é... demais pra mim. Eu preciso... de ar. - Saiu atordoada.
Bufei enraivecida comigo mesma, esfregando a testa nervosamente e sem saber o que fazer. Queria conversar com ela mas era evidente que precisava de um tempo. Grunhi me odiando. Amber não merecia isso, ela merecia todo o amor do mundo; todo o amor que eu não era capaz de dar.
Pressionei os lábios ao observar todas aquelas coisas que eu tinha guardado há anos, continha muito valor sentimental para mim, não consegui me livrar de nada. Fazia parte de nossa história.
Adentrei o closet e agachei no chão, pegando um dos papéis. Fitei o desenho caprichoso com os olhos marejados e fui me afogando em um oceano de recordações...
- Só abaixe a cabeça um pouquinho. - Selena pediu docemente rouca.
- Assim? - Perguntei ao acatar seu pedido olhando direto para ela.
Um sorriso cheio de ternura preencheu o rosto angelical de minha namorada.
- Perfeito.
Eu estava deitada de bruços no sofá pequeno que havia em seu quarto, com os cotovelos sustentando meu peso, os joelhos dobrados e os tornozelos cruzados. Completamente nua.
Coldplay tocava no laptop sobre a escrivaninha enquanto eu observava a garota na poltrona há uns dois passos de mim; os cabelos presos em um coque alto, o jeito envolvente como ela umedecia os lábios carnudos enquanto os olhos castanhos se alternavam com concentração entre mim e o sketchbook onde ela deslizava o lápis com uma destreza admirável. Tão linda e hipnotizante...
- Pode respirar, amor. - Brincou arregaçando mais as mangas da minha camisa preta que ela usava.
Ri baixinho puxando o ar profundamente enquanto ela prosseguia com sua arte. Adorava vê-la fazendo o que gostava, era cativante. Selena era tão incrivelmente talentosa, a paixão em seu olhar era arrebatadora.
Foi folheando seu caderno com admiração naquela noite de verão, que tive a ideia de posar para ela inteiramente despida. Ela só se deu conta do que eu queria quando saiu do banheiro e se deparou comigo a esperando sem roupas. O jeito como sorriu coçando a nuca foi adorável.
- Você fica tão sexy toda concentrada que mal posso esperar você terminar. - Mordi o canto do lábio.
Selena cessou o movimento do lápis sustentando meu olhar com um sorriso de lado.
- Vai me desconcentrar assim.
- Ops. - Sorri com a língua entre os dentes.
Estava me sentindo como Rose de Titanic, exceto... eu não tinha um calor de diamante e Selena era muito mais bonita e atraente que Jack.
Após um tempo me desenhando, Selena fez uma pausa mordendo a ponta do lápis enquanto revezava o olhar atento entre mim e o papel. Houve mais alguns traços e então um sorriso enfeitou seu rosto.
- Que foi? - Perguntei balançando as pernas.
- Terminei... - Falou parecendo satisfeita.
Sorri empolgada me apoiando em um cotovelo só.
- Deixa eu ver!
- Okay... - Selena se aproximou adoravelmente hesitante e me entregou seu caderno ao se juntar a mim no sofá.
- Wow... - Exclamei ao ver o desenho, totalmente maravilhada com cada detalhe. - Sel... você é brilhante. - A olhei deslumbrada, ela estava corando. - Está lindo.
- Você é linda. - Sorriu com doçura. - Minha musa...
Um arrepio percorreu meu corpo despido e meus olhos se fecharam quando seu polegar acariciou suavemente minha bochecha, lábios e queixo...
Em seguida os lábios macios capturaram os meus lentamente e eu os suguei com desejo ao senti-la embrenhar os dedos em meus cabelos, tomando controle e me beijando avidamente. Soltei um gemido fraco ao puxá-la pela camisa para se colocar sobre mim, deixando o caderno cair no chão.
- Amo quando me beija assim... - Sussurrei contra os lábios úmidos quando ela partiu o beijo.
- Ama? - Sussurrou roçando o nariz no meu. - E o que mais você ama?
Afastei um pouco o rosto para contemplá-la, seu olhar ávido e intenso sustentou o meu enquanto ela começava a desabotoar a camisa. Segurei as mãos bonitas a interrompendo e ela me olhou com um ar de curiosidade.
- Você. - Falei. - Eu te amo, Sel. Nunca se esqueça disso.
Selena piscou duas vezes absorvendo minhas palavras antes de sorrir com os olhos pequenos e radiantes.
- Também te amo... - Falou ternamente. - Tipo... você é o amor da minha vida...
Bati deliberadamente a cabeça contra a gaveta do closet onde acabei me encostando. Fechei os olhos, o nó na garganta mal me deixava respirar. Soltei um suspiro entrecortado, trincando a mandíbula ao olhar no verso da folha onde sabia que encontraria sua caligrafia.
Você sempre terá meu coração
(...)
- Hey... sou eu. De novo. - Suspirei segurando o celular na orelha. - Entendo que não quer me atender, mas... só quero que saiba que eu me importo muito com você. Eu... quero você na minha vida, embora eu não mereça... então, uh... se quiser conversar... eu estou na casa de Cara. - Pausei fitando o volante do carro. - Me desculpe por tudo.
Soltei o ar pesadamente ao deixar a mensagem, saindo da BMW em seguida.
Pretendia ficar na festa por uns quarenta minutos no máximo e depois ir para minha casa, mais especificamente, para minha cama. O pouco de ânimo para festejar que eu estava mais cedo foi evaporando ao longo do dia e sumiu de vez após o infeliz ocorrido com Amber há menos de duas horas. Mas como se tratava da despedida de solteira de Taylor e eu era uma das madrinhas, não podia ficar de fora. Não queria. Um pouco de diversão na companhia de suas amigas era o que ela precisava no momento, então eu tentaria ser o mais agradável possível.
Estranhei um pouco assim que entrei na casa de Cara e não vi ninguém. Pensava que já estivessem lá.
- Cara? - Chamei olhando em direção ao corredor que dava acesso ao quarto, avistando seu cachorrinho Leo se aproximar de mim abanando rabo. - Oi, garoto. Cadê sua mãe? - O afaguei.
Retirei o celular do bolso da calça andando devagar por trás do sofá enquanto digitava uma mensagem para a dona da casa perguntando onde estavam. Cara respondeu em menos de dez segundos.
Cara: Ocupada.
Bufei de leve, notando o silêncio que preencheu o lugar quando a música lenta que tocava chegou ao fim e outra começou...
- Parece que chegamos cedo.
Meu corpo ficou rígido e minha respiração travou ao ouvir aquela voz atrás de mim. Sua voz.
Passos lentos soaram indistintos em meus ouvidos enquanto minha mente girava. Pisquei sem conseguir raciocinar direito. Eu não sabia o que estava acontecendo. Ela estava mesmo ali?
Com o coração desvairadamente disparado e com as pernas bambas, eu me virei lentamente.
Não existia palavras certas para descrever o que senti naquele momento. Foi uma mistura louca de emoções.
O mundo parecia em câmera lenta enquanto meus olhos atordoados e surpresos subiam com lentidão pela perna bronzeada exposta pela fenda da saia preta que a mulher usava, percorrendo a região do estômago também a mostra graças ao cropped da mesma cor...
Conforme ela se aproximava o perfume adocicado me inebriava, e ao parar a menos de três metros de mim, meu olhar subiu para o seu rosto; seu lindo e delicado rosto.
Meus joelhos fraquejaram e eu quase esqueci como respirar ao encontrar os olhos castanhos brilhantes e afetuosos me fitando intensamente.
Ela estava tão bonita.
Graciosa. Elegante. Perfeita.
Os cabelos mais claros e longos do que me lembrava...
Não consegui articular uma palavra além de seu nome que deixou meus lábios em um sussurro fraco...
- Selena.
