Boot camp
Por: Snowdragonct
Tradução: Aryam
N/T: Muitos e muitos beijos para a Litha-chan (quando estou desanimada, eu venho ler os seus comentários XD), para a querida Lis Martin (ainda não superei que você se mudou pra tão longe daqui T_T) e pra ny-chan (pode me atazanar sempre! E se prepare, porque essa fic ainda vai ter muito mais tretas! ^.~)
Campo de Treinamento
Capítulo trinta e seis: De volta nos trilhos
Os quatro rapazes do time Wing não chegaram na calistenia despercebidos. Assim que Duo foi avistado, Ben, Adam e Troy lhe deram as boas vindas entusiasmados, dizendo o quanto haviam sentido sua falta. Até mesmo outros recrutas que o recruta de L2 mal conhecia o cumprimentaram no caminho.
Os olhos negros do Capitão se semicerraram e ele foi de encontro a Duo antes dos exercícios matinais começarem. "Você prometeu que pegaria leve, Maxwell, e não que voltaria com força total de uma vez," lembrou ao rapaz em um tom baixo.
"Vou pegar leve, senhor," respondeu calmo. "Achei que um pouco de calistenia me ajudaria a exercitar sem me matar."
Wufei considerou por um segundo. "Eu esperava te dar licença por uns dois dias, mas se me prometer que vai parar quando cansar, acredito que posso confiar no seu julgamento." Encarou o rapaz com severidade. "Mas de jeito nenhum você vai voltar para o treino de luta essa semana."
Duo abriu um sorriso sem humor. "Não precisa falar duas vezes, senhor!" Não tinha a menor vontade de levar socos ou ser chutado, mesmo que fraco, até que suas dores passassem.
Ele perseverou durante a calistenia e a corrida de quatro quilômetros e meio, mas no horário de almoço, sua aparência era abatida. O quatro foram acompanhados pelo time Clip na fila para pegar comida.
"Você tá meio acabado, Duo," Ben notou, passando-lhe uma bandeja.
"Ficar tanto tempo de bobeira na solitária me deixou preguiçoso," Duo brincou forçadamente, olhando torto para Quatre quando ele colocou uma cumbuca de sopa em sua bandeja. "Eu pego meu próprio almoço, Winner," grunhiu irritado.
"Desculpa. Ordens do líder."
O rapaz de trança se virou para Heero com uma expressão não muito amigável. "Yuy, explique-se."
"Andei pesquisando online enquanto você estava na enfermaria," o líder explicou inalterado. "Sopa é de fácil digestão, e exige menos do seu corpo, mas com valor nutricional. Aqui, leite é melhor pra você do que refrigerante." Ele colocou uma caixinha de leite ao lado da cumbuca.
Duo não sabia se ficava emocionado por Heero se importar tanto com ele a ponto de fazer tal pesquisa ou insultado por ser tratado como bebê. Enquanto se decidia de boca aberta por qual reação escolher, Trowa pousou um copo de gelatina e outro de salada de fruta em sua bandeja.
"Até tu, Barton?"
Trowa o analisou com um olhar impenetrável e jogou dois pedaços de pão com manteiga ao lado dos copinhos.
Ben riu. "Vocês de L2 são todos parecidos, Maxwell. Jason não gostava quando ficávamos esperando por ele depois que machucou o joelho."
O recruta de cabelos compridos parou antes de começar a passar um sermão em Heero, tendo desviado sua atenção. "Ei, a doutora me falou que ele vai ficar bem, o Jase."
"É. Ela passou no nosso quarto," Ben comentou.
"E Quatre me falou da caneta especial que você emprestou pra ele," lembrou e balançou a cabeça. "Estou em dívida com tanta gente por ter me ajudado a não ir para a prisão... não sei como vou retribuir todos vocês."
"Idiota," Heero murmurou, pegando a bandeja do companheiro de L2 e indo se sentar à mesa.
"Ah não, aí já é demais!" Duo reclamou, seguindo-o apressando tentando pegar sua bandeja de volta. "Eu mesmo carrego!"
Sem palavra, Heero a devolveu, mas ambos já estavam na mesa.
Descontente, Duo deixou-se cair na cadeira com um bico. "Nossa, vocês são piores do que a doutora." Entretanto, apesar de aparentar emburrado, não se importava nem um pouco em estar rodeado por amigos que queriam cuidar do seu bem estar.
Após alguns minutos de refeição,o Tenente Mikan apareceu para a entrega da correspondência. A costumeira pilha de cartas apareceu na frente de Duo e ele mal olhou até um chamativo envelope rosa captar sua atenção.
"Heh, endereço errado, Tenente," brincou, devolvendo o envelope.
"Não cometo erros, Maxwell."
"Rosa é do Heero," o recruta insistiu, balançando o envelope na frente do rosto do líder que a tomou e fulminou com o olhar o papel, mas então seus olhos se arregalaram.
"Está endereçada a você, Maxwell."
"Quê...?" ele o pegou de volta, incrédulo. "Duo Maxwell, Acampamento Peacecraft. Isso tem que ser um erro."
Mikan deu de ombros. "Pelo jeito, não, Maxwell. A senhorita Peacecraft escreveu a carta para você."
Duo ficou apreensivo. "Por que diabos ela escreveria para mim?"
Heero suspirou. "Provavelmente ela quer te convencer a parar de me "perseguir"," deduziu desanimado.
Duo bufou. "Até pare... Uh, hum."Seu rosto corou quando Quatre riu. Seria mais discreto pregar uma faixa daqui até marte: "Duo ama Heero".
"Por que não lê?" o loiro sugeriu.
O recruta observou indeciso o envelope em suas mãos e depois para Heero. "Será?"
Os olhos azuis do líder o encararam. "Contanto que não deixe ela te influenciar, vá em frente."
O jovem de L2 ficou desconfiado. "Quer dizer que você quer que eu, ah, te "persiga"?"
Heero se levantou, inclinando-se para falar bem ao pé do ouvido de Duo. "Perseguir não," ele sussurrou. "Pegar." Ele se foi rapidamente, levando sua bandeja deixando o rapaz de trança boquiaberto imaginando como seria 'pegar' Heero Yuy.
"Meu," murmurou para si mesmo. "Todo meu." Ele dobrou a carta e a enfiou no bolso, sorrindo abobalhadamente enquanto comia uma colherada de sua gelatina.
"Quer dizer que não vai ler?" Quatre suspirou decepcionado.
"Talvez mais tarde."
"Ah, fala sério!" o loiro não se deu por vencido. "Por que não agora? É entretenimento para o jantar."
"Estamos almoçando."
"Que seja. Entretenimento para o almoço. Vamos, Duo!" implorou com um olhar de cachorro pidão.
"Mas que saco... tá bom!" exclamou exasperado. Pegou o envelope do bolso e o abriu, estremecendo ao sentir a fragância de perfume exalando das folhas. "Puta merda... é tudo rosa. Eca."
Quatre riu. "Vai ler em voz alta?"
"De jeito nenhum. Não até saber o que está escrito." Alisou as páginas na mesa e começou a ler.
"Querido Sr. Maxwell:
Após nossa apresentação repentina há algumas semanas, andei pensando bastante.
Primeiramente, acredito que você precise saber: não tenho nada contra sua personalidade. Entendo perfeitamente sua afeição por Heero, uma vez que eu estou apaixonada por ele há anos. Ele é realmente muito charmoso." É mesmo? Eu nem tinha percebido...
"Mas você também deve saber que eu o amo de verdade. Estou certa de que, você sendo de L2," Como ela sabe disso? "você não conhece essa emoção e que seus 'sentimentos' por ele se baseam meramente em desejo." Uau... que vaca. "Não te culpo. Você não teve escolha em ter nascido em tal lugar e Heero é mesmo extremamente atraente.
E sobre os 'sentimentos' dele por você, posso também entender. Ele está preso, longe de mim, londe de qualquer companhia feminina. E sendo um jovem viril, é normal ele ter necessidades."
Necessidades? Duo quase cuspiu o leite que tomava. Quem me dera!
"Reconheço que você deve ser o indivíduo mais efeminado que ele conseguiu encontrar em um lugar assim." Ei! Eu não sou efeminado, sua escrota! "Então ele obviamente está te usando como substituto para o que ele realmente quer... eu."
Quatre bateu nas costas do amigo quando ele engasgou com o leite, tossindo por alguns segundos. "Caralho, Quat! Ela está tentando me matar!" falou ofegante, antes de continuar.
"Escrevo esta carta pelo seu próprio bem. Não quero que se iluda mais do que necessário. Saber da verdade agora te poupará de muita mágoa depois. Heero não te ama, nunca te amará. Ele pode te usar para sexo e companhia nessa terrível prisão," Não vejo problema nenhum nisso. "mas assim que ele for solto, não terá mais utilidade para você. Espero que possa aceitar isso e sinto muito se essa verdade te causar alguma dor.
Mas você deve entender, você é apenas conveniente para Heero. Não podem ter um futuro juntos. Você é um menino de rua de L2," Como ela está descobrindo essas coisas? "e ele merece mais do que isso. Por que ele se conformaria em ficar com você quando pode ter uma mulher com dinheiro, poder e sangue nobre? Certamente você vê a lógica. Tão logo o tempo dele encarcerado terminar, ele voltará para o meu lado.
Att, Relena Peacecraft.
P.S.: Se você se importar com ele, verá o quanto eu posso lhe dar uma vida boa e, graciosamente, sairá de sua vida para o bem de todos os envolvidos."
Duo caiu na risada, jogando a carta para Quatre.
O loiro leu, suas sombrancelhas se erguendo a cada frase. "Viril?" deu uma risadinha. "Necessidades? Efeminado?" Logo, estava no mesmo estado que o amigo, passando as folhas para Trowa.
Pouco depois, o acrobata se juntava aos dois companheiros nas risadas.
A essa altura, Heero voltou e tomou a carta das mãos sem força de Trowa. "Já chega, Maxwell."
Duo tentava respirar entre as gargalhadas, lágrimas nos olhos e o rosto vermelho. "L-leia!"
Heero passou os olhos pelas folhas, seu rosto se avermelhando. "Puta que pariu!" ele explodiu, irritado. "Ela não se manca?" amassou a carta nas mãos e a jogou no lixo.
"Ah, tudo bem." Duo tentou se controlar. "Eu serei gracioso e sairei da sua vida se quiser."
"Faça isso e eu te mato!" Heero resmungou. Pegou Duo pelo pulso e o puxou. "Vem comigo." Com o rapaz de trança em seu encalço, levou-o para fora do refeitório.
Uma vez a sós, o líder se virou e empurrou o outro contra a parede. "Eu não quero a Relena," afirmou resoluto.
Olhos índigo encararam de volta desafiadoramente. "Quem você quer?"
"Você." Heero se inclinou, aproximando seus lábios dos que estavam na sua frente, mas o som de alguém pigarreando atrás deles o parou. "Chang." Suspirou assim que viu quem era.
"Não é um lugar muito discreto para isso," o Capitão comentou. "E provavelmente não é o melhor momento," complementou, virando-se para Duo com preocupação.
O jovem de L2 não gostou. "Sou bem grandinho, Chang. Acho que conheço meus próprios limites."
Heero estremeceu. "Não, Chang está certo," admitiu. "Não é hora para apressar as coisas."
"Mas que merda!" Duo rosnou, afastando-se. "Sempre que eu acho que estou chegando a algum lugar com você, alguma coisa assim acontece, Yuy! Ou você fica todo focado na missão. Sempre tem uma desculpa!"Ele lançou um olhar ameaçador para o líder do time. "Vou terminar minha sobremesa." Virou-se e entrou no refeitório, deixando Heero e Wufei desconfortáveis.
"É cedo demais," Chang comentou gentilmente. "Você precisa dar espaço e tempo para ele se recuperar do que aconteceu na solitária."
"Eu sei," Heero concordou, sentando-se no degrau de entrada. "Ele recebeu uma carta da Relena hoje."
Wufei sorriu, sentando-se ao lado dele. "Não me surpreende," notou. "Ela pode ser muito presunçosa."
"Eu só queria mostrar pra ele que as bobeiras escritas por ela não são verdade... que não é nela que estou interessado."
"Acho que ele sabe disso," o Capitão afirmou.
"Eu tenho dito pra ele esperar até o fim do acampamento para resolvermos nosso... relacionamento, e ela está falando que quando acabar, eu vou voltar pra ela." Ele riu irônico. "Voltar? Eu nunca estive com ela pra começar... aquela..." Deu de ombros. "Duo gosta de flertar e provocar, e era só o que eu queria fazer. Só mostrar que ainda estou interessado."
"Acha que teria parado no flerte?"
Heero assentiu com a cabeça. "Olha, Fei, se eu consegui dormir na cama dele sem fazer nada, acho que consigo me segurar em atacar o Duo na frente do refeitório."
"Dormiu na cama dele?" perguntou atônito.
"Ele estava tendo pesadelos. Conversamos. Dormimos."
"Pesadelos," suspirou Wufei. "Viu por que ele precisa de tempo?"
"Eu sei. E, sinceramente, estou tentando apoiá-lo sem passar dos limites. Mas ele..." Olhou por cima do ombro para a porta do refeitório e abaixou a voz. "Nossa, Fei, ele é lindo!"
"Acho que sim," o Capitão deu de ombros, com um tom brincalhão. "Se você gosta do tipo esbelto, atlético, esperto, charmoso..."
"Para!" Heero já tinha problemas o suficiente para controlar sua libido sem ter Wufei o lembrando das características que o faziam achar Duo tão atraente.
O chinês riu discretamente. "Você está perdido, Yuy." Balançou a cabeça. "Mas já te aviso. Acabei me apegando por aquele moleque teimoso. Se magoá-lo, vou te cortar em pedacinhos e dar de comer para os cachorros."
Heero parecia cético. "Você e que exército?"
Os olhos negros se semicerraram. "Oh, Yuy, não preciso de um exército." Abriu um sorriso feral. "Talvez eu deva demonstrar no treino hoje."
"Combinado."
"E qual será minha recompensa se eu ganhar?"
"Qualquer coisa menos o Duo."
O sorriso aumentou. "Boa resposta." Wufei se levantou, pousando uma mão reconfortante no ombro do líder. "Acho melhor você entrar para ficar com o seu time. E lembre-se de ir com calma até Maxwell superar seus traumas."
"É uma ordem?"
"Um conselho amigo."
Heero sorriu. "Não se preocupe, Wufei. Ele é mais importante pra mim do que você pensa." E mais importante para mim do que eu mesmo pensava...
Duo não ergueu o rosto quando Heero e Wufei entraram. Terminara sua sobremesa e estava recostado em Quatre lendo suas cartas enviadas por Howard e Hilde.
Capitão Chang se aproximou e ficou ao lado do recruta de L2. "Cansado, Maxwell?"
Duo lhe respondeu com um sorriso fraco. "Um pouco abatido," admitiu. "Acho que vou tirar um cochilo antes dos obstáculos."
"Boa ideia," Chang aprovou. "Vou informar o oficial responsável para não te penalizar se chegar alguns minutos atrasado."
"Obrigado," falou genuinamente agradecido. Por mais orgulhoso que fosse, percebeu que estava desgastado pelos acontecimentos dos últimos dias somado ao exercício matinal. Precisava de descanso, e já que prometera não se esforçar demais, faria exatamente isso.
Duo cochilou enquanto seus companheiros de time planejavam para o exercício de captura de bandeira, o qual estava marcado para acontecer nas duas semanas seguintes.
A primeira semana foi reservada para pesquisa e planejamento. Será providenciado para os times os parâmetros da missão; a linha de partida e de chegada. Resumindo, todas as informações necessárias estarão à disposição.
A segunda semana consistirá em uma corrida. Cada time poderá escolher o próprio caminho, mas o trajeto precisa ter uma travessia de rio, escalada e árdua caminhada. Quanto mais próximos do objetivo, mais guardas, armadilhas e obstáculos para superar.
O exercício foi criado para ser o mais próximo de uma infiltração real que os instrutores conseguiram sem colocar os recrutas em risco. E a pontuação pesará muito na classificação final.
Quando chegou a hora das atividades vespertinas, Heero relutantemente foi acordar Duo. "Vamos, Maxwell. Depois dos obstáculos, pode assistir Chang me dar uma sova."
Duo piscou preguiçosamente. "Por que o Wuffers vai te dar uma sova?" murmurou entre um bocejo.
"Wuffers?"
Os lábios do rapaz de trança se curvaram num pequeno sorriso. "É, Wuffers."
"Quando começou a chamá-lo assim?" Heero perguntou. "E, mais importante, como ainda está vivo? Ele odeia apelidos."
"Ele não pareceu se importar quando o chamei assim na enfermaria," o rapaz de trança deu de ombros, rolando para fora da cama e se alongando.
Heero tentou não olhar para o estômago revelado quando a camisa subiu acompanhando os braços estirados para cima de Duo, mas foi difícil. Foi ainda mais difícil resistir de tocar. "Faz isso de propósito?" perguntou abruptamente.
Duo piscou confuso, abaixando os braços. "Isso o quê?"
"Deixa pra lá," suspirou. "Vamos logo. Temos dez minutos."
Sabendo que Duo participaria, o Capitão instruira os tenentes a manter os obstáculos relativamente fáceis para que o recruta pudesse acompanhar os outros.
Embora suspeitasse estar sendo paparicado, o rapaz de L2 estava cansado demais para reclamar. Se alguém lhe perguntasse, seria obrigado a admitir que ainda não estava completamente recuperado... nem perto disso.
Após a pista de obstáculos, foram direto para o treino de luta. E mesmo sem poder participar, Duo estava empolgado em assistir. Não esperava realmente que Chang fosse para o tatame, mas adorava ver Heero suado e ofegante. Mmmm, seria legal ajudar Heero a ficar suado e ofegante...
Chegaram ao ginásio com tempo de sobra e Duo abriu um grande sorriso ao ver o Capitão Chang vestido para o treino. "Você não estava brincando, Yuy! Chang vai mesmo lutar!"
"Acho que ele planeja me usar para demonstração," o líder suspirou.
Duo se aproximou dele falando baixo. "Não é por conta do que houve mais cedo, é?" soou um pouco preocupado.
Heero o olhou friamente, escondendo um sorriso malicioso. "Se manca, Maxwell. Não estamos duelando por você."
"Que pena," Duo murmudou. "Eu ia presentear o vencedor com um beijo." Deu uma olhadela furtiva para o outro.
"E se Wufei ganhasse?"
"Era para quem eu estava torcendo," deu de ombros, desviando o rosto para o líder não poder ver que estava prestes a cair na risada.
Heero ficou boquiaberto, depois decidiu que preferia Duo confiante e divertido assim e não queria estragar a brincadeira. "Se é assim... eu posso deixar ele ganhar."
"Até parece!" zombou, virando-se para o líder. "Você não consegue perder de propósito, Yuy. Você morreria se tentasse."
Heero se permitiu um sorriso. "Você me conhece bem demais, Maxwell." Aproximou-se e baixou a voz num sussurro rouco. "Mas não tanto quanto eu gostaria."
Duo lhe lançou um olhar sério. "Da próxima vez que me encostar na parede, é melhor estar pronto pra cumprir o que prometeu. E ai de quem interromper."
Heero quase grunhiu quando imaginou a cena. Ondes tem um quarto de dispensa quando se precisa de um?
No fim das contas, o Capitão venceu a luta contra Heero, mas por pouco. E Duo provocativamente lamentou por não poder recompensar o vencedor no caminho para o refeitório.
Após comerem, os rapazes do time Wing voltaram para o alojamento. De lá, Quatre e Trowa foram para o vestiário enquanto Duo se rendia à cama, exausto, e Heero ficou com ele, com a desculpa de mexer no laptop.
Quando Quatre e Trowa chegaram ao vestiário, um guarda se aproximou. "Barton?"
O acrobata se virou para ele friamente. "O que foi?"
"Mensagem para você." Passou para o rapaz um pedaço de papel e rapidamente se afastou.
Trowa franziu o cenho, perguntando-se o que Kushrenada queria dessa vez. A nota apenas dizia: Messagem urgente. Vá ao escritório do Diretor o mais rápido possível.
"O que diz?" Quatre perguntou.
"Nada." O moreno alto enfiou o papel no bolso. "Kushrenada quer me ver, mas eu não quero saber daquele cara."
O loiro pareceu pensativo, caminhando até os chuveiros. "Não vai ter problemas se ignorar a mensagem?"
"Não estou nem aí."
"Trowa, dá para perceber que aconteceu algo entre você e o Diretor."
Os olhos verdes do acrobata se arregalaram. "Quat-"
"Quero dizer, você gostava dele até alguns dias antes da adoção." Mostrou-se preocupado. "Ele te ameaçou? Ou ameaçou recusar a adoção ou algo assim?"
"Algo assim," admitiu, tentado a contar toda a verdade. "Olha, Quatre, você sabe o quanto o Nanashi significa pra mim, não é?"
"Sei, você me contou de todos os animais que cuidou e treinou no circo. Eu sei o quanto você ama animais."
Trowa assentiu com a cabeça, sentindo um nó no estômago. "Eu... eu precisava salvar o Nanashi."
Quatre tomou sua mão, sorrindo gentilmente. "E você salvou, Trowa. É só o que importa." Analisou o amigo e sua expressão preocupada retornou. "Mas você não parece feliz como achei que ficaria."
"Porque Kushrenada fez tudo ser tão... difícil. Tudo saiu errado," falou vagamente, suas barreiras desaparecendo ao olhar para suas mãos juntas. Se contasse o que ele havia feito com Duo — o melhor amigo do loiro — Quatre o odiaria. "Aw, merda. Anda Quatre, os outros estão nos esperando. Vamos tomar banho."
Suspirando por perceber que o moreno ainda escondia alguma coisa, o loiro apenas concordou.
O vestiário estava cheio, então Trowa foi primeiro e o outro esperou uma vaga. Quando chegou a vez de Quatre, o acrobata resolveu obedecer ao Diretor e ver o que era de tão urgente. Não contou para o companheiro de time, mas certificou-se de que alguns oficiais estavam por perto e saiu de fininho.
O secretário o esperava e gesticulou para que ele entrasse. Foi o que fez, jogando a nota na mesa e encarando o carcereiro com cara de poucos amigos. "Por que está me enchendo o saco?"
"Barton," o homem cantarolou com um sorriso predador. "Que bom te ver."
"Corta o papo furado, K. Não temos mais nada o que conversar."
"Ah, mas temos sim," insistiu. "Maxwell ainda está aqui."
"Não é problema meu," Trowa falou sem pestanejar. "O acordo era para eu cortar a corda e cumpri minha parte. Fim de papo."
"Nada disso." Kushrenada andou pelo escritório com as mãos nas costas. "Agora você precisa se livrar do Maxwell tanto quanto eu," afirmou.
Trowa bufou, sem acreditar. "Por que demônios eu preciso fazer isso? Ele é do meu time."
"Ele é mais do que isso," o homem falou, irritado. "Ele é um assassino e um ladrão. E agora caiu nas graças do Chang, o que deixa mais difícil de fazer justiça."
"Justiça? Você chama deixar um guarda estuprar Maxwell de justiça?" questionou atônito.
"Não, chamo mandá-lo para a cadeia de L2 de justiça. E para você, seria autopreservação. Ele matou antes, Barton. Acha que vai hesitar em te matar se descobrir que foi por sua culpa que ele acabou na solitária? Aquele que armou contra ele e o fez ser espancado e estuprado?"
O corpo todo de Trowa ficou tenso. "Acho que eu mereceria se ele resolvesse me matar," falou baixo.
"Besteira!" Kushrenada rosnou. "Quero ver se vai continuar achando a mesma coisa quando ele souber o que você fez."
"E como vai fazer isso?" Trowa escarneou. "Ele não acreditaria em você."
"Eu não vou contar. Vou dar um jeito de ele ficar sabendo," deu de ombros.
"Vá em frente," o acrobata desafiou. "Quer sabe? Eu te poupo o trabalho e contro pra ele eu mesmo. Ele vai acreditar em mim." E sabia que era verdade, Duo acreditaria nele. Porque Duo confiava nele. Pobre e tolo Duo confiava no colega que o sacaneara pelo bem de um cachorro. Trowa sentiu seu estômago revirar.
Os olhos de Kushrenada se estreitaram. "Você não tem medo dele. Você é um idiota, Barton. Com doze anos, ele esfaqueou um homem até amorte. Dê motivos e ele não vai hesitar em fazer o mesmo com você." Seus olhos fulvos faíscaram. "Talvez eu deva providenciar para ele a arma além da informação. Se ele te matasse, ficaria livre de vocês dois, porque daí ele iria para L2 de qualquer jeito."
Trowa sentiu um mal-estar pensando nos vários modos que o carcereiro poderia se livrar dele e culpar o Maxwell. "Se tentar armar pra cima dele de novo," avisou, "é melhor que seja perfeito, porque o Chang não vai se deixar enganar pelo trabalho desleixado como o da corda."
O Diretor soltou uma risada malévola. "É tentador, Barton. Mas seria em último caso." Deu de ombros exageradamente. "Tenho outros métodos de te fazer trabalhar pra mim." Virou-se encarando o rapaz. "O que acha do seu suprimento de analgésicos acabar?"
Os olhos verdes arregalados o denunciaram.
"Isso mesmo, Barton, eu sei. Quem você pensa que fornece o seu fornecedor?" sorriu lentamente. "Falando nisso, você deve estar ficando sem a essa altura."
"Você...?"
"Eu." O Diretor erroneamente leu a expressão de Trowa como medo e desespero. "A proposta é a seguinte: você me ajuda a armar para o Maxwell ou eu corto os seus medicamentos e terá o prazer da abstinência."
"Seu desgraçado!" Trowa xingou seriamente. "Posso muito bem contar para o Chang que você está traficando drogas e acabar logo com essa história."
"Ah, sim, e você seria enviado para L3 por posse de drogas, enquanto eu alego completa ignorância. Não tenha dúvidas, Barton, de que cobri muito bem meu rastro."
O acrobata hesitou, sabendo que não teria a menor chance contra o carcereiro.
"Vejo que estou te convencendo," Kushrenada observou. Aproximou-se e entregou ao rapaz um envelope. "Volte para o seu alojamento. Manterei contato quando estiver pronto para te usar. Entendido?"
Trowa se esforçou para pensar em uma saída, sua mão apertando o envelope cheio de pílulas. Se recusasse, ele estaria acabado. Mas se concordasse, poderia pelo menos ganhar tempo. E, quem sabe dessa vez, conseguiria desviar da bagunça para a qual estava se dirigindo. Assentiu lentamente com a cabeça.
"E Barton? Nem pense em voltar atrás com a sua palavra. Posso ordenar uma revista aleatória dos quartos a qualquer momento e te dar uma passagem para a cadeia de brinde." Kushrenada comentou convencido, acreditando ter o jovem encurralado mais uma vez.
Trowa saiu do escritório o mais rápido que conseguiu, correndo de volta para o vestiário antes que Quatre percebesse sua ausência.
Pouco depois de Quatre e Trowa saírem, Duo começou a se aprontar para ir dormir, mais exausto do que inicialmente percebera.
Decidindo que a noite poderia ser longa caso o pesadelo do rapaz de trança voltasse, Heero foi ao banheiro se aprontar também. Ao sair, viu o outro sentado na cama debaixo segurando uma escova e a meio caminho de destrançar o cabelo. O recruta de L2 bocejava longamente, com os dedos preguiçosamente desfiando a trança.
Com um pequeno sorriso, o líder se aproximou do companheiro e tomou a escova da mão fraca. Sentou-se ao lado de Duo, que o observava confuso com olhos sonolentos e reprimiu outro bocejo.
Heero desembaraçou os dedos de Duo dos fios e segurou a cabeleira. "Posso?"
Um sorriso apareceu nos lábios do rapaz cansado. "Quer seu privilégio de escovador de volta?"
O líder assentiu com a cabeça. "Por favor." Seus olhos azuis cheios de vontade.
O sorriso de Duo cresceu, mesmo que um leve avermelhado tomasse seu rosto. "Já que pediu tão educadamente..." murmurou, dando permissão. Manteve-se observando o rosto de Heero enquanto ele cuidadosamente soltava o resto de sua trança e penteava gentilmente. E, cansado como estava, Duo quase acariciou o cabelo curto bagunçado no topo da cabeça de quem estava tão concentrado em sua tarefa.
Ao invés disso, cruzou as mãos no colo e apenas assistiu o líder do time habilmente fazer seu caminho de baixo para cima. Quando chegou aos ombos, cuidadosamente o virou para poder alcançar o resto das madeixas.
Duo suspirou contente sentindo as mãos deslizarem pelos seus cabelos seguidos da escova. Então Heero o puxou contra o peito, virando-o o suficiente para continuar sua tarefa.
Quando Quatre e Trowa chegaram, encontraram Duo aninhado no peito de Heero e este acariciando os fios sedosos e macios com a expressão mais calma que os dois já haviam visto. Na verdade, o líder parecia prestes a cair no sono, os olhos semicerrados e a expressão de puro deleite.
Heero se mexeu quando os dois colegas de time chegaram e seu movimento incomodou Duo, fazendo-o grunhir e pressionar o rosto ainda mais contra o ombro no qual estava deitado.
"Ei, você precisa ir para a sua cama," Heero falou baixinho.
Duo sorriu, adorando como a voz a voz do líder vibrava contra o seu corpo. "Não quero," murmurou, aninhando-se ainda mais.
Quatre apenas observou achando engraçado. "Deixa, Heero. Ele parece exausto." O loiro puxou uma coberta da cama de cima e cobriu os dois que estavam deitados. "Não tenha vergonha. Ele precisa de você," falou gentilmente.
Heero deixou-se relaxar no travesseiro, mantendo um braço ao redor de Duo enquanto se ajeitava debaixo da coberta. Olhou para Quatre, o loiro ostentando um sorriso contido e um polegar para cima. "Não quero ouvir gracinhas de vocês dois amanhã," sussurrou.
"Até parece," Trowa murmurou em resposta, balançando a cabeça. Seus olhos se suavizaram quando encontram o rapaz descansando pacificamente ao lado do líder. Nesse momento, soube exatamente o que fazer. Foi até o banheiro, tirou um pequeno envelope do bolso e o jogou na privada. Deu descarga duas vezes para ter certeza que se descera pelo cano e depois se encarou no espelho. "É isso aí, cara," sussurrou para si mesmo. "Agora aquele maldito do Kushrenada não tem provas contra você, somente a palavra dele. E assim que eu criar vergonha na cara para confessar, nem isso ele vai ter."
Passou a mão pelo cabelo, suspirando pesadamente. Voltou para o quarto e deitou na sua cama para tentar ter uma noite decente de sono.
Continua...
