Capítulo 37

Ajuda (Não) Desejada

Dezembro 1981

Masmorras de Hogwarts

Snape corrigia redações que pareciam não ter fim, enquanto, sobre a bancada, uma poção para reposição de sangue... peraí, eu disse uma? Não, na verdade eram 4 caldeirões de poções que estavam há poucas horas de ficarem prontas.

"Maldição!"

Pensou ele, escrevendo um T bem grande na redação de um aluno e pegando outro pergaminho da pilha que se acumulara sobre sua mesa nas últimas três semanas.

"Bando de cabeças–ocas, ignorantes."

Rabiscou outro T, atirando o pergaminho na pilha de corrigidos. Pegou outro, foi escrever, mas a tinta da ponta da pena acabara. Ao invés de molhá-la novamente no tinteiro, resolveu jogar a porcaria na lareira.

"Maldição!"

Respirou fundo, observando as chamas da lareira. Se encostou para trás na cadeira, tentando relaxar o pescoço. Estava tenso e irritado; ao menos nesse ponto ele era obrigado a dar razão a Dumbledore, se não se controlasse acabaria matando alguém, ou a si próprio.

Mas o diretor querer obrigá-lo a ter um ajudante era um grande absurdo! Imagine um estranho bagunceiro mexendo em seus estoques milimetricamente organizados; algum imbecil ignorante invadindo o laboratório dele!

"Nunca!"

Obviamente que ele não concordara com mais aquela maluquice do velho senil. Mas Dumbledore fora inflexível. Portanto, querendo ou não, logo Snape teria um ajudante.


No dia anterior, na sala do diretor:

– Eu não quero um ajudante. – disse Snape, sentado em frente à mesa de Dumbledore.

– Meu filho, se você não aceitar, serei obrigado a afastá-lo de suas obrigações como professor. – ameaçou Dumbledore. – Por Merlin, Severus! Semana passada você colocou vinte e oito alunos de uma mesma turma do segundo ano em detenção! Inclusive sonserinos! – ele pausou e observou o homem que espumava de raiva e estresse em sua frente – Eu chamei você aqui não para perguntar qual sua opinião sobre o assunto, mas sim para te dar a chance de escolher seu assistente. Você tem alguém em mente, Severus?

– Não. Não me recordo de ninguém na Ordem que seja minimamentecapaz para sequer corrigir pergaminhos dos primeiro e segundo anos, o que dizer de alguém que não destrua meu laboratório com uma simples poção anticoagulante! – rosnou Snape.

– Realmente... na Ordem não temos ninguém capacitado em Poções e, mesmo que tivéssemos, essa caça aos seguidores remanescentes de Voldemort está nos tomando todos os membros que sobreviveram... Mas, eu sei de alguém que é capaz o suficiente em Poções para lhe ajudar! Ela até mesmo foi convidada a dar aulas de Venenos em Durmstrang, posição que ela recusou por razões pessoais. Vou escrever à ela agora mesmo!

– Ela? Uma... mulher? – desdenhou Snape.

– Sim. Tem algum problema com isso, Severus?

– Sim. Eu não quero um ajudante.

– Eu confio nela. – disse o Diretor. – Você pode ir agora. Eu vou escrever à ela.

– Certo! Tá bom, então. Eu aceito um ajudante! – concedeu Snape. – Mas apenas por um mês, Dumbledore, é a minha condição! Assim que tudo se acalmar ela vai embora!

– Ok. Logo que tudo se acalmar ela vai embora e você voltará a ter suas masmorras e seu adorado laboratório apenas pra você. – Dumbledore pousou os olhos sobre Snape, paternalmente. – Quando, meu filho, você perceberá que não pode e não deve viver tão solitário?

Snape se levantou da cadeira, dizendo, seco:

– Acho que já está na minha hora de ir, com licença, diretor.

E saiu, deixando para trás um sorridente Dumbledore.


Enquanto isso, num parque, na Rua dos Alfeneiros

– Fiquem longe do laguinho e não se transformem nem façam nada que atraia a atenção dos trouxas. – sussurrou Florence para os filhos. Os meninos concordaram com a cabeça e saíram correndo na direção dos balanços.

Florence e Remus estavam sentaram em um banco sob uma árvore, de onde podiam observar as crianças brincando e também ficar de olho em uma mulher alta que empurrava um carrinho duplo de bebês há poucos metros dali. Petunia Dursley trazia o filho dela e Harry todas as tardes para o parque. Florence vinha ao menos duas vezes por semana até ali para verificar se Harry estava bem.

– Eu odeio isso... – disse Florence. – Eu queria poder ir lá e tirar Harry dela!

Eles ficaram olhando Petúnia Dursley.

– Ela é tão asquerosa. – murmurou Florence, brava.

– Você chegou a conhecê-la? – pergunto Remus.

– Não. Mas Severus me falava dela. Ele a conheceu antes de ir pra Hogwarts, quando ele conheceu Lily...

Remus ficou um tempo em silêncio, até que largou a pergunta que o perturbava:

– Por que, agora que a guerra acabou, você não conta a verdade pra ele?

Florence olhou pro amigo, procurando no rosto dele algum traço de brincadeira. Ela não achou.

– Porque você perguntou isso? – exclamou Florence, indignada.

– Porque você deveria falar com ele, contar a verdade sobre os meninos.

– E, por que, exatamente, eu deveria fazer isso? – desdenhou Florence, como se aquilo soasse um grande absurdo.

– Não fique brava, Flor... mas é que eu, que sou o padrinho substituto de James, sinto muito orgulho desses meninos. Eu imagino como me sentiria se fosse o pai deles! Eles são precoces e inteligentes demais pra apenas três aninhos!

– Onde você pretende chegar com isso? – perguntou ela, brava.

– Em lugar nenhum... só não acho justo nem para o Severus nem para os meninos.

– Chega, Remus! Pare agora antes que você e eu briguemos!

– Certo. – Remus concordou, erguendo os braços em derrota.


Mais tarde, naquele mesmo dia, na casa de Florence, em Hogsmead...

– Remus! Pegue James! – gritou Florence.

E ele viu um pequeno urso preto sair correndo de dentro do banheiro.

– James! Pare já com isso! – gritou Remus correndo mais rápido e logo alcançando o menino. – Te peguei! – disse ele com o pequeno nos braços. James se transformou novamente em menino, a cara emburrada. Remus entrou no banheiro, passando ele para Florence. – Onde está Nicholas?

– Já de banho tomado, alimentado e dormindo. – disse Florence, começando a lavar o filho que seguia emburrado. – Pare com essa manha, Jamie.

O menino não disse nada, mas descruzou os bracinhos do peito.

– Onde foi que eu já vi uma pessoa de cabelos pretos tão mal-humorada? – brincou Remus.

– Eu sei... – disse Florence suspirando.

Depois que ela terminou de banhar o menino e o alimentou, ela o colocou no quarto para dormir e fechou a porta. Remus esperava por ela no corredor.

– James é muito igual ao pai dele, não é? – perguntou Remus.

– Sim. – foi tudo o que Florence respondeu.

– Já Nick é um anjo, se levarmos em consideração os pais dele... – provocou Remus.

Florence socou o braço do amigo em brincadeira.

– Para com isso! – ela riu. – Agora eu é que vou pro banho. – ela foi para o quarto dela.

– Eu vou pedir uma pizzas, pode ser?

– Com certeza!


Depois de jantarem, Florence e Remus estavam sentados na sala de estar, em frente à lareira. Tomavam um chá e liam, ela um livro, ele o jornal.

– Flor? – chamou Remus, quebrando o silêncio que já durava quase uma hora.

– Fale.

– Do que você tem medo? Por que não o procura?

– Remus, pára com isso... eu não quero ficar brava com você.

– Eu só quero entender. Você ama ele; ele obviamente ainda te ama. A guerra já acabou. Vocês tem dois filhos juntos. Vocês são abençoado pelo Encantando, por amor de Merlin! Me ajude a entender, por que vocês não estão juntos?

– E por que é que ele não pode me procurar? Por que tem que ser eu quem tem que ir atrás dele? – exclamou Florence.

– Talvez porque ele pense que você está sofrendo a prisão de Sirius. Que você o culpa por ter perdido o bebê...

– Mas isso é abs...!

– Isso é bem provável, Florence, em se tratando do Severus! – Remus a interrompeu. – E ele acha que os meninos são filhos do Sirius, você disse isso pra ele!

Ela não respondeu, ficou encarando as chamas.

– Ele já viu os meninos? – perguntou Remus.

– Já. Duas vezes, na casa da mãe dele.

– E ele não desconfiou de nada? – estranhou ele.

– Não...

– Nossa, Severus é muito cego. James é igual ao que ele deve ter sido quando pequeno!

– Eileen diz que ele é idêntico. – disse Florence. – Eu nunca entendi também, como pode ele não perceber...?

De repente uma carta apareceu por debaixo da porta. Remus levantou e foi pegá-la, passando-a para Florence.

– Obrigada, Remus. É do Dumbledore. – disse ela, abrindo a carta.

Querida Florence,

Como estão seus anjinhos? Fazendo muita bagunça? Só posso imaginar...

E com você, tudo bem?

Eu te escrevo na esperança de que você virá em meu auxílio. Vou ir direto ao ponto: você aceitaria passar um tempo em Hogwarts ajudando um pobre, sobrecarregado e carrancudo Mestre de Poções que eu tenho morando aqui nas masmorras? Ele não está conseguindo conciliar o preparo das poções para Ordem com as obrigações docentes. Tivemos vinte e oito alunos em detenção em um mesmo dia (até sonserinos foram parar em detenção). Se ele não tiver um ajudante, temo que os alunos vão passar a dormir na enfermaria fazendo tratamento pós–traumático.

Espero que concorde em vir salvar a nós todos.

De acordo com Prof. Snape, será por apenas um mês, mas eu realmente espero que vocês fiquem quanto tempo quiserem.

Beijos,

Albus Dumbledore.

Ao terminar de ler, Florence se deu conta de que havia parado de respirar pela metade da carta. Remus pegou o papel da mão dela e leu.

– Você vai ir, certo? – perguntou Remus, a expressão séria.

– O que? Não! Eu... eu não sei, Remus! Eu não sei...

– Mas eu sei. – ele respirou fundo, sabendo que a estava jogando de volta aos braços de Snape. – Você vai responder agora, dizendo que aceita! – ele pegou um pergaminho e uma caneta e os deu para ela.

– Por que você está fazendo isso?

Ele sentou do lado dela no sofá.

– Flor. Você sabe que eu amo você. E eu estou quase me apaixonando por você. – Florence fez uma cara e ia dizer algo, mas ele continuou: – Como eu não poderia? Você é maravilhosa, Florence. Mas eu sei que o seu coração pertence ao Severus. Eu sei que você jamais conseguirá ser completamente feliz se não ao lado dele. Por mais estranho que isso soe para mim. Eu não sou o Sirius, eu sei que eu não vou conseguir te fazer tão feliz quanto você merece.

– Mas eu não posso ir pro castelo, Remus! E os meninos? Severus não pode vê-los! – Florence estava nervosa.

– Ele tem que ver os meninos e ele irá vê-los. E quem sabe ele venha lhe confrontar e vocês conversem e então tudo ficará certo. – Escreva de volta ao Dumbledore e diga que você irá. Eu irei com você nos começo para te ajudar com os meninos.

Florence suspirou e começou a escrever:

"Albus,

Não tenho absoluta certeza do que eu estou fazendo, talvez, ou quase com certeza, eu me arrependa dentro de poucos minutos. Mas eu aceito ajudar o irritante e teimoso professor de poções que você tem aí em Hogwarts. Apesar de estar certa de que essa ajuda é totalmente contra a vontade dele e de que você não disse a ele que eu seria a tal ajudante.

Peço apenas um dia para que eu possa organizar tudo e estaremos aí.

E Remus irá comigo para me ajudar nos primeiros dias, tem algum problema?

Beijos,

Florence


2:30 am

Masmorras de Hogwarts

Alguém estava batendo na porta. Snape levantou da cadeira e foi abrir a porta, já sabendo quem poderia ser.

– Entre, Diretor. – rosnou Snape, voltando para a mesa dele.

– Não tive dúvidas de que ainda lhe encontraria de pé, Severus. Vim apenas avisá-lo que pode ir se deitar, depois de amanhã você terá sua ajudante.

– Que maravilha. – disse ele irônico, sem olhar para o Diretor, apenas escrevendo no pergaminho que corrigia.

– E não é mesmo? – concordou o Diretor, ignorando a ironia. – Florence acabou de me responder.

Snape se levantou rapidamente, encarando o diretor com a pena-tinteiro na mão, incrédulo.

– Algum problema, Severus? – perguntou o Diretor.

– Seu...!

– Ah! – cortou-lhe um sorridente Dumbledore – Não diga nada de que se arrependerá depois, meu filho!

– Absolutamente nada do que eu tenho em mente pra lhe dizer me trará arrependimentos futuros... – sibilou Snape, furioso. – Como você pôde convidar... ela para ser minha ajudante!

– Não vejo nada de errado. – o arremedou, sorrindo. – Vocês sempre foram ótimos alunos em poções, eram a melhor dupla, em tudo devo dizer. Sempre fizeram tudo com perfeição. – Dumbledore encarou Snape que largou a pena violentamente sobre a mesa. – Bem, eu vim apenas para lhe avisar que pode deixar essas redações para outro dia e focar em terminar as poções. E descanse, meu filho. Afinal, não queremos receber de volta uma de nossas alunas mais brilhantes apresentando-lhe um professor moribundo, queremos?

Onde ela ficará hospedada? – Snape rosnou.

– Por causa dos gêmeos, ela...

– Ela trará os filhos pra cá? – ele interrompeu o diretor.

– Sim, eles tem apenas três anos, não podem ficar sem a mãe. Como eu dizia, por causa dos meninos, ela não quer ficar nas masmorras, são frias demais, por isso ela ficará no terceiro andar, no quarto que deveria ser ocupado pelo diretor da Sonserina, mas que você não aceitou por ser confortável demais, eu presumo.

Snape apenas acenou com a cabeça e foi para a bancada de poções

– Se isso era tudo, Diretor, eu tenho coisas a fazer.

E o diretor saiu da sala com um enorme sorriso no rosto, deixando um Snape furioso para trás.


4:00 am

Snape rolava na cama; depois de ter cochilado por quatro vezes e se perdido em memórias, ele acordara com o pau dolorosamente duro, o coração acelerado, os pensamentos disformes.

"Eu vou vê-la em menos de dois dias... nós estaremos trabalhando juntos, sozinhos."

Ele fechou os olhos.

"Eu não sei se eu posso encará-la. Não depois do bebê... e ela trará os gêmeos para cá! Os filhos de Sirius. Se eu não pude me perdoar por ter matado nosso filhos não nascido, como poderia ela me perdoar?"

E antes que as lágrimas começassem a rolar, ele caiu no sono. Apenas para sonhar com ela novamente; sobre um aniversário dele, em torno de quatro anos atrás, numa noite em que ele chegara em casa e ela estava lá, adormecida na cama dele...