A lei do amor

Kaline Bogard

Capítulo 35

Janeiro foi um mês monocromático. Branco era a cor que recobria os telhados e chão, presenteando a todos com um frio excruciante. Também foi o mês em que a economia tomou forma e missões de maior recompensa surgiram. Rankings mais altos pontuavam missões perigosas, embora provassem que a devastação da guerra diminuía cada vez mais.

Foi um mês tranquilo para o jovem casal de Alpha e Ômega, salvo pequenos transtornos que exigiam certo nível de adaptação e paciência. Por exemplo, o aumento de peso tornava os movimentos de Kiba mais lentos. O crescimento do bebê causava um deslocamento interno que não era doloroso, embora mostrasse seus efeitos: ele precisava ir ao banheiro com uma frequência irritante, porque a bexiga comprimida não armazenava quase nada de liquido antes de sinalizar estar cheia. E baixar as calças naquele frio (além das mãos geladas...) dava vontade de chorar!

Janeiro foi um teste de paciência para Shino. Porque Kiba estava ansioso ao extremo, com o sentimento fluindo pelo vinculo, sem que ele tivesse a menor pista do que causava tamanha inquietação! E não era algo ruim, porque o garoto parecia animadíssimo. De vez em quando resmungava sozinho pelos cantos e tentava ler uns papeis escondido de Shino, quando achava que o Alpha estava distraído.

A verdade só veio a tona no dia vinte e três de janeiro. Kiba escapuliu da cama muito cedo, fugindo do calor das cobertas como... um ninja ostentando uma barriga de seis meses de gestação: ofegante e meio sem jeito. Tentou não despertar o Alpha, mas falhou miseravelmente. Era impossível que Shino não acordasse em tais condições. Apesar disso, o rapaz respeitou a tentativa e ficou quieto na cama, apenas esperando o que quer que Kiba planejava fazer em segredo naquela madrugada, naquele frio.

Pois enquanto permanecia deitado, Shino captou uma infinidade de sensações através do vínculo. A ansiedade e animação transformaram-se em dúvida, preocupação, receio, raiva, expectativa... uma miríade que encantou Shino. Como aquele garoto era incrível, uma obra de arte colorida, calorosa, cheia de vida. O oposto exato de Shino, sempre tão estoico, comedido, cinza... que nunca ou raramente se deixava levar pelas emoções, mantendo o controle sobre si próprio de um modo quase ferrenho. Experimentava um rodamoinho sedutor que o cativava, ainda que às vezes fosse previsível.

Continuou deitado apenas saboreando todas aquelas coisas. Até que decepção e tristeza o atingiram. O plano-secreto-nada-secreto de Kiba parecia ter dado errado. Com um suspiro, aceitou sair da cama. Aquele cheiro de queimado não podia ser um bom sinal.

Saltou da cama e foi conferir o que estava acontecendo. Flagrou Kiba sentado à mesa, com uma forma a frente dele cheio de... uma massa preta. Com certeza o que deveria ser um bolo.

— Ohayou — foi dizendo para anunciar sua chegada.

— 'Hayou — Kiba respondeu cabisbaixo.

— Tudo bem aí...?

— Não — o garoto soou mal-humorado. Apontou a forma — Olha o que aconteceu com o seu bolo.

— Meu bolo?

— Caralho, Shino. Hoje é dia vinte e três. Seu aniversário, esqueceu?

O Alpha ergueu as sobrancelhas.

— Não tive tempo de pensar nisso. Não são nem seis da manhã ainda...

— Era pra ser surpresa.

Finalmente Shino entendeu toda a empolgação de Kiba até então. Ele vinha planejando um bolo surpresa para comemorar seu aniversário?! Não esperava por essa.

— E foi — ele garantiu.

— Foi o quê? Um fracasso?

— Uma surpresa — Shino garantiu sem sombra de mentira em suas palavras.

— Mas não deu certo! — ele continuou a lamentar — Está surpreso por eu estragar isso também?

Shino sentou-se a frente dele, observando o resultado. A massa se assemelhava mais a um carvão do que a um bolo.

— Não. É a primeira vez que alguém faz um bolo pra mim. Obrigado.

Kiba ergueu a cabeça e encarou seu companheiro.

— Sério? — soou incrédulo — Nunca te fizeram um bolo?

— Você imagina a família Aburame preparando bolos de aniversário? Talvez minha mãe sim, mas ela morreu quando eu era muito novo, mal me recordo de seu rosto. Meu pai não tinha o perfil.

— Sinto muito, Shino. Era pra ser um bolo delicioso, até memorizei umas receitas. E tava vigiando muito bem. Pena que cochilei no finalzinho.

— Cochilou sentado...?

— Que foi? — Kiba torceu o nariz — Tenho sentido um sono que não é normal. Não! É normal sim, a Sakura disse que sente também. Eu quero dizer que não é normal tipo antes, quando eu tinha mais energia e... esquece, meu cérebro tá travado de sono.

Shino puxou a forma para mais perto.

— Vamos fazer outro juntos? Eu te ajudo.

Kiba refletiu na oferta por alguns segundos. Seu plano de fazer surpresa estava arruinado, podia salvar um pouquinho daquele dia? Era aniversário do Shino, o cara que conquistou seu coração! Não conseguia nem fazer algo especial com as próprias mãos para agradá-lo?

— Desculpa... — suspirou.

— Estou muito feliz pelo seu gesto, pode perceber pelo vínculo. Se faz tanta questão, posso comer o bolo assim mesmo como está.

— Não! — Kiba ficou horrorizado — Se comer isso você vai morrer de indigestão. Nosso filhote tem que conhecer o pai! Tudo bem, marido. Me ajuda a fazer o seu novo bolo de aniversário então.

Shino concordou com um aceno de cabeça. Se levantou para jogar a massa queimada fora, enquanto Kiba se erguia com um suspiro para lavar toda a louça suja. E não era pouca!

O Alpha acabou por bater o novo bolo sozinho, jogando chocolate na massa para dar o sabor diferente. Ao terminar de lavar e secar as vasilhas, Kiba ajeitou-se na cadeira e ficou esperando para rapar o pote. Acabou cochilando sentado, com um cotovelo descansando sobre o tampo de madeira e o rosto apoiado na mão espalmada, ressonando de leve.

Shino teve pena de acordá-lo apenas para lamber a massa crua, e isso lhe valeu algum tempo de reclamação quando Kiba despertou e notou o pote limpinho.

O bolo cresceu que foi uma maravilha. E ficou tão fofo que encheu Kiba de gula. Ele resistiu bravamente a roubar um pedaço (e estragar o trabalho), pegou uma lata de Chantilly do armário e morangos suculentos escondidos na gaveta da geladeira. Confeitaram o bolo com os ingredientes favoritos do Ômega, dando uma aparência agradável. No fim, Kiba acabou comendo mais da metade dos morangos, o que diminuiu um pouquinho o efeito fantástico que ele queria dar ao bolo. Enfim...

— Que trabalho em equipe! — o garoto sorriu ao admirar o resultado final.

— Muito bom.

Era por volta de oito horas da manhã, cedo demais para preparar o almoço. Frio demais para sair de casa. Largaram o bolo sobre a mesa e foram para o sofá assistir televisão. Shino pegou um cobertor e trouxe para envolvê-los, não passavam frio com a lareira acesa. Levou menos de cinco minutos para Kiba apagar.

Shino suspirou. Toda aquela ansiedade era por causa de um bolo? O bolo para comemorar seus dezenove anos? Pensamento surpreendente, pois as vezes ele se sentia muito mais velho do que aquilo. Afinal, já sobrevivera a uma guerra, já constituía família e seria pai. E não era maior de idade...

Mas não podia reclamar. Seu companheiro nem dezoito tinha ainda. Só completaria em julho. Hum, ótima oportunidade para retribuir o gesto gentil. Era época de verão, Shino poderia inovar o bolo com sorvete para comemorar. Kiba ficaria feliz com certeza.

Por volta das onze horas teve que acordá-lo, antes de ir preparar o almoço. Recebeu ajuda para descascar e cortar os legumes do oden. Prato de inverno muito bem-vindo. Os legumes não ficaram tão mal cortados, nem tão desproporcionais. Prova de que Kiba começava a pegar prática em rotinas domésticas. Ele era um desastre, mas esforçado. Shino reconhecia isso, que ele não tinha medo de tentar. Não desistia até conseguir.

— C-caralho, Shino! Vem aqui! — a voz alarmada de Kiba tirou Shino de suas reflexões. Ele largou a colher que usava para misturar o caldo e foi ajoelhar-se a frente do Ômega sentado à mesa, meio tonto com a sensação de deslumbramento que o atingiu.

— O que foi?

Kiba riu e segurou-lhe a mão.

— Sente só — guiou-lhe a mão até que os dedos longos tocassem a pele nua de sua barriga por baixo da blusa grossa. Shino notou o momento em que ele se arrepiou todinho — Porra, marido! Que mão gelada do inferno. Tá morto ou o quê?!

— Eu estava mexendo com água, esqueceu?

— Ah, é. Espera, só sente.

Shino obedeceu. Ambos caiam em um silêncio expectante até que...

— O que foi isso? — o Alpha perguntou um tanto chocado. E não era fácil surpreender Aburame Shino.

— O bebê chutou, besta! — Kiba riu — Hinata me disse que acontece bastante, no começo a gente não percebe, porque é bem sutil. Mas depois o filhote vai crescendo e dá pra notar.

—... — Shino ficou sem palavras. Esperou mais alguns segundos, em uma expectativa de comover quem assistisse. Então sentiu de novo, um pequeno movimento sob a palma de sua mão.

— Fale alguma coisa, homem! Sua filha apareceu para te dar os parabéns! Você devia... — a frase não terminou de ser dita. Kiba surpreendeu-se um pouco pela reação de Shino, alguém de gestos comedidos: ele passou os braços pela cintura larga e abraçou o Ômega. Emoção fluiu através do laço que os unia. Da posição em que estava, Kiba não podia ver direito, embora tivesse certeza do fato. Shino estava chorando. Emprestando a blusa de Kiba para depositar as suas lágrimas de alegria. O melhor e maior presente que poderia querer naquela data.

Inuzuka Kiba não disse mais nada. Acertou tapinhas gentis nas costas do rapaz, aceitando sua emoção com um silêncio cheio de respeito.

O almoço atrasou um pouco. Shino não queria se afastar do companheiro, pois os "chutinhos" do bebê eram o polo oposto de um imã a atrai-lo. Não queria perder nenhum.

Por sorte colocara muito caldo para o oden, isso evitou que o almoço queimasse. Apenas boa parte da água evaporou e os legumes cozinharam demais. Ossos do ofício.

Como sobremesa, o bolo de aniversário, de onde Kiba roubou todos os morangos restantes. Ele até sugeriu cantar os parabéns, ideia afastada com um olhar de Shino. Tem limites que não devem ser transpostos de jeito algum. O garoto esbarrou em um.

— Ne, Shino... eu comprei um presente pra você. Tá atrás da televisão, foi o melhor esconderijo que eu achei. Pode pegar por favor? To meio entupido de comida e sem forças — pediu dramático.

Shino saiu da cozinha e voltou alguns segundos depois, com uma caixa embalada em papel estampado colorido. Sentou-se a mesa e abriu o pequeno pacote, onde havia um novo par de óculos de sol.

— Obrigado! — adorou o presente. Precisava trocar os antigos, no entanto nunca se lembrava de fazer isso.

— Feliz aniversário! Prometo que ano que vem consigo preparar um bolo digno! Vou treinar muito e te fazer a melhor surpresa do mundo!

Antes de responder, Shino esticou um pouco o braço e segurou o queixo de Kiba com cuidado, de modo a poder limpar um tracinho de chantilly do canto dos lábios daquele Ômega guloso.

— Você já me fez a melhor surpresa do mundo.

— B-besta — Kiba resmungou. O rosto esquentou dando a impressão de estar em brasas, enquanto ele erguia a própria mão para colocar sobre a de Shino — Eu amo você.

A declaração saiu natural e verdadeira. Tanto quanto os sentimentos que a acompanharam. Shino não disse nada. Àquela altura recebia a confirmação de algo que desconfiava. Não existem segredos quando o vínculo se tornava tão profundo. Kiba não se declarara antes, mas seu coração transmitia tudo na voz do silêncio.

Assim como o de Shino também fazia.