SAVE ME
Capítulo 38. Descoberta
Para Miyavi eram dias realmente estranhos. Tudo parecia de pernas para o ar. Quem diria que uma coisa daquelas poderia acontecer?
Perder Kai, aliar-se a um criminoso para vingar sua morte e ter o apoio para toda essa loucura de um novato que inicialmente rejeitara para ser seu parceiro.
O mundo dava mesmo muitas voltas, mas não julgava que estivesse errado. Não enxergava aquilo como loucura. Loucura mesmo era ter de esperar enquanto não surgia nenhum fato novo, tudo porque não poderia se expor. Ishihara Takamasa não era do tipo que ficava sentado, esperando as coisas acontecerem. Ter de contrariar sua própria natureza era a pior parte, mas o faria. Não queria estragar tudo.
O som da campainha ecoou pelo apartamento e obviamente já sabia quem era. Como sempre, era Naoyuki, o bochechudo estava se saindo um ótimo guarda-costas. Mesmo Miyavi sendo costumeiramente frio e calculista, nos últimos tempos, Nao era a voz da sanidade.
Riu-se ao ver pelo olho-mágico a imagem de seu parceiro e abriu a porta de posse do sorriso mais sarcástico que pôde.
– O que houve, bochechudo? Por acaso perdeu o emprego? Deveria estar na delegacia agora.
– Tem mais gente disposta ao trabalho burocrático. E na verdade os superiores meio que me dispensaram.
– Como assim?
– Algo sobre ser um desperdício me deixarem fazer burocracia, mas ao mesmo tempo inexperiente para estar em campo sozinho.
– Poderiam ter te posto para trabalhar com qualquer um.
– Não me querem com outro. Querem que você seja o meu parceiro. Como vê, não poderei sair do seu pé tão cedo.
– Que merda, não?
– Com certeza. Como vão as coisas?
– Paradas. – respondeu o mais alto, desanimado.
– Nenhuma notícia então.
– Nenhuma.
– Parece calmo demais para quem não tem notícia nenhuma.
– Isso é bom ou ruim?
– Depende.
– Não adianta ficar nervoso, adianta?
– Puxa, que avanço!
– Eu não vou estragar minha melhor chance por tão pouco.
– Me assusta te ver tão paciente.
Miyavi riu sarcástico. Era bom ser irônico, aquilo lhe dava algum ânimo em plena tempestade. Pena que fosse Murai quem estivesse pagando por sua pequena forma de terapia. Era reconfortante saber que ele conseguia ser tão tolerante, pois caso contrário já estaria perdido.
Estranho perceber que, apesar de tudo não queria afastá-lo. Sem Kai tinha perdido toda e qualquer razão para seguir adiante e estar feliz. Porém, mesmo sem saber o que ia acontecer depois daquela vingança gostaria de manter aquela relação de amizade com o novato.
Bem que Kai lhe dizia sobre ter amigos era verdade. Ter alguém que lhe compreendesse e quisesse bem era bom e reconfortante. Significava não estar sozinho. Claro, não era algo que pudesse ser comparado ao que o namorado lhe causara, mas ainda sim saber que não estava só era bom.
Seria isso que Yukkun fazia por Reita? Por isso Suzuki Akira queria tanto vinga-lo? Ele era tão importante assim?
Sabia que as pessoas podiam chegar muito longe por causa do amor, porém por amizade era algo que antes lhe parecia improvável. Agora, diante de tudo não seria nada absurdo.
– Como é, Ishihara? Está pensando em ficar trancado nesse apartamento o dia todo?
– Preciso estar à disposição.
– A disposição você já está. Só não precisa ficar aqui. Há quantos dias não sai?
– Alguns. – disse sério, descobrindo não saber há quanto tempo estava ali, a espera.
– Sério, Miyavi. Levante e vamos beber alguma coisa.
– Não posso tomar nada alcoólico. Sabe o que aconteceu da última vez em que bebi.
– Sei: uma crise nervosa, algumas horas de cadeia, férias sem prazo e a ajuda de um criminoso que até um dia antes julgava ser o culpado. Com certeza o álcool é maléfico. – relatou, tão irônico quanto e fez uma pausa, como se procurasse uma alternativa – E café? Cafeína vai te deixar em um surto hiperativo?
– Não enche, Murai. Você venceu.
ooOOoo
Miyavi nunca admitiria, mas sair realmente fora uma boa idéia. Não aguentava mais ficar olhando as paredes do seu apartamento. E não teria nenhuma serventia esgotar o que restava de sanidade trancado lá.
Já cansara daquilo, precisava esfriar a cabeça. Como não tinha mais direito a embriaguez como forma de alívio, entupir-se de café seria suficiente mesmo cafeína durante a noite ser causador de estragos.
Era engraçado ver como seus passos o levavam naturalmente para a cafeteria onde vendiam os biscoitos que Kai gostava, mas de qualquer forma o café dali era muito bom. Mesmo Yutaka não estando mais ali, a presença era justificada. Não que se importasse com justificativas, porém as vezes eram necessárias.
Estranhou que as ruas não estivessem tão cheias quanto o normal. Talvez por ser dia de semana, mas mesmo assim aquela noite seria boa para dar umas voltas e arejar a cabeça caso quisesse.
Estavam ali, indo em direção da cafeteria em passos tranquilos. Ao contrário de todos os outros, não pareciam ter a menor pressa, e realmente não havia razão para tanto até algo parecido com um grito soar baixo aos ouvidos de Miyavi e Naoyuki, que pararam de forma automática.
Olharam-se atentamente sem que precisassem perguntar um ao outro se tinham ouvido alguma coisa. E quando finalmente aquilo se repetiu apenas correram, percorrendo um verdadeiro labirinto naquelas ruas.
Voltas e mais voltas. Quanto mais corriam, mais nítido o grito se tornava. E também o choro, além das vozes...
"Cale-se" era o que diziam.
"Cale-se", e o grito ecoava cada vez mais aterrorizado.
A ordem era clara, mas a voz não deixava de ecoar assim como as outras vozes não cessavam, pelo contrário. Romperam em risadas.
A risada de uma multidão contra o grito e o choro desesperado agora soava abafado.
Correram a ponto de sequer sentirem as próprias pernas, e o que viram foi aterrorizante.
Um rapaz nu e dominado por seis homens, debatendo-se desesperado e gritando de dor enquanto lhe violavam. Cada grito ou gesto inútil de fuga eram motivos de deboche e diversão para aqueles homens enquanto o provocavam para que sentisse mais dor e fizesse aquilo de novo. E os gritos morriam na garganta do garoto em gemidos altos enquanto violavam sua boca.
Aquilo foi um deja vu para o tatuado. Aquele poderia ser Kai. Yutaka sofrera aquilo e foi como se pudesse presenciar todo o pesadelo do seu namorado. Não podia deixar que acontecesse, não podia...
A ordem para que parassem saiu de seus lábios antes que Naoyuki tivesse a chance de reagir de forma racional em bolar algo, afinal aqueles sujeitos eram maioria. Parecia ser apenas um mero detalhe para Miyavi e diante disso tudo restou apenas segui-lo.
O gesto do tatuado resultou em deboche e certamente a ousadia teria um preço. Eram policiais, sabiam bater e se defender, porém ainda eram minoria. O fim poderia ser previsível ou quem sabe até acontecesse o improvável? No fim, apenas possibilidades inúteis de desfecho.
Miyavi jamais duvidaria do tamanho do poder de Suzuki Akira.
– Nem pensem nisso. – a voz baixa e grave tomou a dimensão de um grito ecoando naquele labirinto. Poucos passos a frente e ele se permitiu ser visto sob um facho de luz fraco de um dos postes, assim como seu pessoal. – Soltem o garoto e se afastem.
Obedeceram, e aos poucos os homens soltaram o rapaz, afastando-se dele submissos, sem tentar nenhuma espécie de reação contrária. E bastou apenas um gesto discreto para o guarda-costas ao seu lado para que a escolta agisse, imobilizando-os.
Miyavi e Nao olharam para o garoto jogado no chão, totalmente encolhido e semiconsciente, mas antes que pudessem agir Reita foi até ele, tirando o próprio sobretudo e usando-o para cobri-lo e proteger sua nudez, colocando-o em seus braços para tirá-lo dali, sem nenhuma palavra.
– Venham – disse o guarda-costas em um tom seco. Apenas uma palavra, mas que o tatuado não contestou, apenas o seguiu assim como Naoyuki, sem sequer dar um pio.
ooOOoo
Aquilo pareceu durar horas, mas na verdade foram apenas poucos minutos. O tatuado não fez nenhuma pergunta sobre para onde aquele carro estava indo. Sabia que não teria resposta, ou caso ouvisse algo, seria algo parecido com "você já vai saber".
Olhou para o parceiro. Murai parecia calmo, mas sabia que ele estava apenas sendo observador, cogitando milhares de coisas. Agradeceu mentalmente por ele não ser do tipo medroso, pois isso não ajudaria em nada. Lamentava por tê-lo envolvido naquela história: agora pelo jeito seria mais do que simplesmente saber.
Quando o carro finalmente parou o guarda-costas lhe entregou máscaras, dizendo que as pusessem "apenas por precaução". Não houve contestação, apenas obedeceram. Sentiu alguém puxando-lhe o braço. Não era um toque bruto, não estavam tentando agredi-los, apenas auxiliavam a sair do veículo enquanto estivessem com olhos vendados. Preocupado com o parceiro chamou-o pelo nome e ficou mais calmo ao ouvi-lo responder, parecendo estar apenas um pouco atrás de si.
Depois de vários passos, ouviu o som de uma porta se abrir e sentiu quem o guiava parar. Seria o fim do caminho?
Tiraram-lhe a máscara, deparando-se com Reita um pouco mais a frente, com o corpo displicentemente encostado em uma mesa. Olhou ao seu redor e descobriu que Naoyuki não estava ali.
– Relaxe, ele está em outra sala aqui perto. Quem é o garoto?
– Meu parceiro.
– Até onde ele sabe?
– Ele é de confiança, não se preocupe.
– Não estou preocupado, mas gosto de saber com quem estamos lidando. Quer que eu mande trazê-lo até aqui?
– Seria bom.
– Hai.
Apenas um toque no botão do telefone com viva-voz, e poucas palavras. Logo o trouxeram, também com a máscara. Não parecia assustado por estar frente a Reita e em um lugar desconhecido. Apenas cauteloso.
– Qual o seu nome, garoto?
– Murai Naoyuki.
– Se sabe o quanto julgo, imagino que também saiba que precisa ser discreto. – disse o loiro em uma insinuação bastante clara. Estava testando seu parceiro e diante disso Miyavi permaneceu calado, também aguardando uma resposta.
– Hai, eu sei.
– Ótimo, espero que justifique a confiança que seu parceiro tem em você.
– E então, Reita? – interrompeu o mais alto, ansioso e irritado com a demora – Por que nos trouxe pra cá?
– Você estaria aqui mais cedo ou mais tarde. Está agora porque foi apressado demais para esperar alguns minutos até eu mesmo chamá-lo.
– Isso quer dizer...
– O jogo de gato e rato acabou. Nós os pegamos.
Um sorriso perverso se formou no rosto de Miyavi ao ouvir essas palavras, mais perverso ainda que o do homem a sua frente.
Os assassinos de Kai, finalmente em suas mãos.
ooOOoo
Os passos nas escadas ecoavam pelo corredor. Eram rápidos e firmes, como se tivesse pressa embora não houvesse necessidade disso. Eles não fugiriam.
Miyavi mal conseguia acreditar que os assassinos de Kai estavam no meio daquele grupo, que outra coisa se não a sua vingança acabaria os colocando de volta em seu caminho. Aquilo parecia ser destino, mas francamente não estava interessado. Milhares de coisas pendentes teriam uma conclusão e simplesmente mal poderia esperar para colocar as mãos nos dois.
Reita parecia atento, trocava algumas palavras com seu guarda-costas tomando informações sobre os sujeitos. O tatuado prestava atenção tentando saber qualquer coisa a mais sobre os alvos de sua vingança.
– E então, Tora? Fez o que eu lhe disse?
– Hai, eles estão separados dos outros.
– Ótimo, e como está o garoto?
– O doutor Iwamura disse que ele está muito machucado, mas não corre riscos imediatos. Estão cuidando dos ferimentos agora.
– Está acordado?
– Ie, ainda não. O doutor disse que talvez só acorde amanhã.
– Ok. – a concordância soou forçada aos ouvidos de Miyavi, como quem somente aceita. Reita parecia preocupado, mas mantinha o jeito frio como já parecia acostumado a fazer. – Os outros já foram tratados?
– Ainda não, Suzuki-san. Estive aguardando suas ordens.
– Ótimo. Dê-lhes o tratamento comum, no entanto não os estrague... ainda.
– Hai, assim será feito.
Um corredor, várias portas. O guarda-costas abriu uma delas e dentro do pequeno cômodo estavam os dois homens, amarrados em uma cadeira e com olhos vendados. Pareciam atentos, assustados e se manifestando ao menor som.
O tatuado sorriu novamente sem se dar conta. Satisfação: era bom vê-los assustados. Será que sabiam pelo que iam pagar o preço?
Ainda se lembravam de Kai e de tudo que tinham feito?
Se fossem incógnitas teria o maior prazer em lhes tirar quaisquer dúvidas.
Reita tomou a frente, indo até eles bem devagar, fazendo questão de que o som dos seus passos ecoassem pelo cômodo em meio ao silêncio. Viu-o sério, observando-os e sem parecer chegar a alguma conclusão.
– É, finalmente nos reencontramos. Eu disse que ia encontrá-los, não disse? Agora vai ser pior pra vocês, aliás, trouxe uma visita.
Miyavi viu os dois tremerem ao escutar a voz do loiro. Medo. Não se impressionou com aquilo, não deveria ser nem mesmo uma fração do medo que tinham feito Kai passar.
– Quer dizer algumas palavras aos nossos amigos? – perguntou Akira, muito próximo deles, mas sem tocá-los.
– Hum... quero sim. Quero dizer tantas coisas que nem sei por onde começar.
– Comece por onde quiser. Temos muito tempo. Para falar a verdade, temos todo o tempo do mundo.
Miyavi se aproximou deles, olhando bem para seus rostos. Não podia ver os olhos dos assassinos de seu namorado, mas faria isso em breve. Abaixou-se, ficando ao lado de um deles, respirando bem perto de seu pescoço, apreciando a reação que seu ato despertava: o homem tremeu, assim como os seus lábios, engolindo saliva freneticamente.
O que lhes perguntar? O que lhes dizer? Havia muito a ser dito e feito, mas todos aqueles meses pensando em vingança não o fizeram chegar a um plano exato. Sabia apenas qual seria o desfecho, e no mais tudo era apenas uma lacuna a ser preenchida.
– Vocês sabem por que estão aqui? – perguntou-lhes – Sabem por que estão aqui desse jeito?
Não houve resposta e de qualquer modo duvidava que ambos tivessem uma percepção. Quantos crimes como aquele não deveriam ter cometido? Quantas outras vítimas não tinham sido deixadas para trás?
– Vocês dois mataram a única pessoa que eu tinha na vida. Vocês o trucidaram. Acho que temos algumas contas para acertar, não é mesmo? Espero que tenham uma boa memória e lembrem, porque vou querer saber de tudo que fizeram a ele.
A noite seria muito longa.
ooOOoo
Várias horas tinham se passado. Longas para todos.
Miyavi olhou para o rosto dos dois: marcas roxas, sangue... pouco, mas suficiente para que tremessem.
Olhou para a calça de um deles e sorriu cinicamente com o que viu. Estava molhada: o homem urinara de medo, contaminando o ar com o cheiro característico.
De Reita tinha o olhar cúmplice e permissivo. Estava ali presente como se sua parte na vingança pudesse ser deixá-lo fazer tudo que quisesse com aqueles homens. Sabia que teria seu apoio para tudo aquilo.
Já Naoyuki... nem estava prestando atenção em seu parceiro, nem havia com o que se preocupar. Suzuki já havia garantido a segurança dele ali então não precisava se distrair naquele acerto de contas. Sabia que Murai estava incomodado com a violência, mas não se importou. Era apenas um novato, não tinha visto muita coisa na vida. De qualquer modo, Nao não dera as costas ou saído de lá uma vez sequer. Uma prova de apoio.
Tinha tudo que precisava.
– Então vamos recapitular: um rapaz moreno, de rosto redondo e cabelos repicados. Realmente não se lembram dele? A consideração de vocês por suas vítimas realmente me comove. Ele não foi nem um pouco especial a ponto de terem alguma lembrança?
– Terão de se esforçar mais um pouco, ou isso não vai acabar. A escolha é de vocês. – disse Reita, parecendo sereno.
– A gente não lembra. Onegai!
– Onegai? Está mesmo pedindo "por favor"? Por que eu ouviria isso? Quantas vezes as suas vítimas não pediram a mesma coisa? Por acaso vocês pararam?
Certamente a resposta não foi a esperada, mas a voz de um deles se ergueu, desafiante.
– Quer saber? Eu não faço a mínima ideia de quem está falando, mas com certeza deve ter sido um garoto muito bom de pegar. Deve ter sido delicioso ouvir os gritos dele e ter feito tudo o que você certamente não fez, seu cretino!
As palavras foram cuspidas. O tom de voz do homem era quase um rosnado, mas nada que pudesse salvá-lo de coisa alguma.
Sentindo o sangue ferver diante da afronta o tatuado agiu, tirando-o da cadeira e jogando o corpo de bruços na mesa de madeira que havia ali. O outro ainda tentou se debater e escapar, mas pouco adiantaria, pois ainda tinha os pulsos amarrados e olhos vendados. Miyavi não aparentou grande esforço para mantê-lo ali e começou a tirar a calça do homem, deixando-a cair aos pés do sujeito. O mesmo com a cueca.
– Ei cara! O que está fazendo?!
– Ah, você logo vai ficar sabendo, não precisa ficar tão ansioso...
O tatuado colocou uma perna entre as do homem, forçando-o a abri-las e ficar exposto.
– Dê-me isso, Reita – pediu Miyavi, usando um tom estranhamente calmo, mas que o loiro não questionou, fazendo apenas o que lhe foi pedido: um revolver.
Um gemido alto e assustado ecoou no cômodo, e como em um passe de mágica aquele homem que lhe desafiara transformou-se no que pareceu ser uma criança assustada. O mais alto se divertiu ao vê-lo tremer por aquele ato.
Aquilo era realmente irônico.
– Hnnn! – o homem se contorceu e Miyavi o segurou com mais força, sem lhe dar oportunidade para fugas.
– Ah, como a gratidão é uma coisa boa, não concorda? Sabe o que estou fazendo? Retribuindo a gentileza que teve com meu namorado já que você teve a bondade de fazer o que certamente não fiz. E tenho mais uma coisinha... não se mexa, ok? Nem tente ou vai ser pior pra você.
O mais alto tirou a carteira do bolso, abrindo-a com apenas um movimento e colocou-a sobre a mesa, em frente ao homem que ameaçava. Bruscamente, tirou-lhe a venda dos olhos dele e o puxou pelos cabelos obrigando-o a olhar para o objeto: uma foto de Kai.
– Olha bem pra essa foto. Esse é o garoto que vocês mataram. Vai me dizer que não se lembra dele?
Sentiu-o mais uma vez tremer sob seu jugo então mexeu o revólver dentro do sujeito, fazendo-o encolher-se, submisso.
– ... NÃO! NÓS NÃO MATAMOS ESSE GAROTO! NÃO ERA ELE! – o grito deixou os lábios do agressor, desesperado com aquela situação, tentando a todo custo provar algo. Gritos quase sempre eram o último recurso.
– Tem certeza? – perguntou, irônico – Ele foi violentado por você e seus amigos no dia 20 de agosto, vocês o mataram e deixaram o corpo em um beco. Tem certeza de que não se lembra? Talvez seu amiguinho se lembre.
Reita mandou seu guarda-costas até lá. Miyavi assistiu Tora ir até o homem sentado na cadeira e arrancar a venda que lhe cobria a visão, pegando o retrato e mostrando a ele.
– Vai dizer que também não lembra? - perguntou o moreno, com a voz rascante.
– Nós não o matamos.
– Ie? Certo, última oportunidade para refrescar a memória dos dois. Uke Yutaka, 26 anos, garçom do bar 5th Hell, magro, rosto redondo e cabelo bem repicado. Foi estuprado por seis homens e morto no dia 20 de agosto e jogado em um beco. O que mais precisa saber?
– IE! Nós não o matamos!
– Certeza? O corpo encontrado tinha os documentos dele.
– IE! Nós matamos um garoto de programa chamado Yoruu.
– O que?! – perguntou o tatuado, confuso e zangado com aquilo. – Explique.
– N-nós pe-pegamos um garoto. Um ho-homem nos pagou, dizendo que o nome do cara era esse aí que você disse, o nome estava nos documentos da carteira, mas não é esse da foto. Nós pegamos um garoto de programa parecido com ele.
Estranhou ouvir aquilo. Não se encaixava. Não conhecia ninguém que se parecesse com Kai, e se fosse um garoto de programa provavelmente já o teria visto na delegacia. Alguns causavam muita confusão.
– Qual é mesmo o nome desse garoto? Repete. – ordenou Reita, parecendo muito atento.
– Yoruu. O homem disse que o nome dele era Kai, mas todo mundo já conhecia ele como Yoruu. Nós não matamos esse garoto da foto... nós não matamos... e-eu não sei o que aconteceu, mas não matamos...
Miyavi olhou para Reita e Naoyuki e nos olhos deles encontrou a mesma dúvida. O que significava aquilo afinal?
