Capítulo 35- 3,2 milhões de dólares
A equipe de policiais da Swat foi dividida em duas partes para transportar o perigoso detento Benjamin Linus para outro presídio. Três policiais do lado esquerdo e três do lado direito. Ana-Lucia ia do lado direito empunhando sua arma com firmeza, mas por dentro estava com uma sensação estranha.
Cinco anos desde a ùltima vez em que vira Benjamin Linus e ele conseguia parecer ainda mais sombrio. Ele não dissera nada desde que dois carcereiros o trouxeram de sua cela para que ele fosse levado pela equipe da Swat. Mas ela sabia que ele diria, principalmente pela expressão dele quando a viu. Era só uma questão de tempo.
Street ia à frente dela quando eles começaram a caminhar pelo corredor do presídio levando Ben Linus algemado e ele pareceu notar uma certa apreensão em Ana-Lucia novamente. Vinha notando isso desde a reunião com o sargento Hondo e lançou um pequeno olhar a ela que indagava "Você está bem?", ao qual Ana respondeu silenciosamente com os olhos dizendo que sim.
Os policiais seguiram em silêncio até a saída do presídio. Colocaram o detento em um carro blindado e seguiram para o Forte Miles. Dentro do carro, Ana-Lucia acabou no banco de frente para Linus que a encarou mais uma vez e como ela previa, falou com ela no mesmo tom petulante que costumava fazer na ilha:
- Quanto tempo não nos vemos, Ana-Lucia.
O rosto dela assumiu uma expressão incomodada e Street interviu:
- Quieto aí, cara!
- Da onde você conhece a Cortez, Linus?- indagou TJ Maccabe, o mais encrenqueiro do grupo.
Ana-Lucia olhou para Maccabe. Benjamin ignorou Street e TJ e continuou se dirigindo à Ana-Lucia:
- Como vai sua criança? È uma menininha não é? Idêntica ao pai, a mesma risada, as mesmas covinhas no rosto...
O coração disparou. Como ele poderia saber sobre isso?
- Cala a boca!- dessa vez foi ela quem disse.
- O que foi Ana? Por que está tão zangada? A ilha realizou o seu sonho de conceber uma criança, o que mais você poderia querer? Por acaso ainda não contou ao Sawyer que tem uma filha dele?
- Do que esse cara tá falando?- indagou Boxer, alisando o bigode quase ruivo.
O restante da equipe olhava para Ana-Lucia sem entender nada e ela não se preocupou em explicar, principalmente quando Linus disse:
- Será que ele vai perdoar você quando descobrir que escondeu isso dele? Não sei não Ana, meio arriscado para quem está começando um relacionamento, especialmente se tratando de um homem que ainda está emocionalmente atrelado a outra mulher, ainda por cima grávida dele!
Ela não ouviu mais nada porque antes que pudesse se controlar, seu punho atingiu certeiro o rosto de Ben, tão forte que ele quase desmaiou com a pancada.
- Hey, Cortez, se controla!- disse Deaq, outro dos agentes da equipe, tirando-a de cima de Benjamin Linus com a ajuda de Street, enquanto TJ Maccabe achava graça da situação.
- Esse cara te conhece mesmo?- Boxer perguntou, curioso com toda aquela situação.
Ana-Lucia não disse nada, apenas voltou a sentar-se em seu lugar enquanto Street verificava se Linus estava bem. O carro parou de repente e a agente que estava acompanhando o motorista no banco da frente abriu as portas detrás do furgão e indagou:
- O que está acontecendo?- ela tinha visto o que Ana-Lucia fizera através da câmera de segurança no compartimento da frente do carro.
- Nada demais, senhorita.- disse Benjamin Linus com um sorriso, recompondo-se e agindo como se nada tivesse acontecido.
A agente balançou a cabeça negativamente e disse para Ana-Lucia:
- O sargento Hondo não ia gostar nada de saber desse tipo de coisa, agente Cortez! Seja lá o que o prisioneiro tenha dito, ignore! Levar pro lado pessoal é contra as regras da Swat.
Ana assentiu, mas continuou em silêncio. O carro seguiu seu caminho e Street perguntou baixinho à ela, não deixando de ficar atento à Benjamin Linus:
- Tem alguma verdade no que ele disse?
Ela apenas o encarou e Jim Street soube a resposta.
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Kate observou o quanto Jack estava tenso e cansado enquanto cuidava dos preparativos para o velório de Sarah e seu sepultamento no fim da tarde. Ele havia avisado o pai dela que acabara de chegar à capela onde estava o corpo.
Ficou emocionada quando o viu debruçar-se sobre o caixão da filha e chorar convulsivamente. Jack ficou ao lado dele, consolando-o com vigorosos tapinhas nas costas.
- Ah minha filha, Jack, nem pude me despedir dela...- dizia o velho homem.
- Sinto muito, Sr. Spencer.- disse Jack com os olhos marejados. – Mas ela lhe deixou uma neta, linda, que o senhor poderá ver sempre...
Kate limpou as lágrimas dos cantos dos olhos e não percebeu quem estava ao lado dela na capela.
- Uma cena muito triste não acha? È sempre terrível quando perco uma paciente!- comentou Juliet com sincero pesar.
Kate voltou-se para ela e assentiu, acariciando por instinto sua pequena barriga.
- E então? Por que está aqui?- Juliet indagou.
- Como é?- retrucou Kate.
- Que eu me lembre você ainda é a mulher do Sawyer. Onde ele está agora? Você passa muito mais tempo aqui no hospital do que com ele.
- Você sabe que minha mãe está internada aqui, além disso, não é da sua conta onde eu costumo passar o tempo.
- Não, com certeza não, mas certamente é da conta do Sawyer. Quando vai parar de agir assim, Kate?
- Do que está falando?- Kate estava evitando erguer o tom de voz porque estavam em um velório.
- Quando vai parar de fingir que não sabe o que você quer? Ou melhor, quem você quer?
- Olha aqui, sua abusada...- Kate começou a dizer de forma agressiva, mas Juliet a cortou.
- Se lembra daquela nossa conversa depois que eu operei o Jack de apendicite lá na ilha?
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(Flashback)
- Como ele está?- Kate indagou quando viu Juliet sair da tenda onde estava operando Jack, as mãos sujas de sangue.
- Finalmente o calmante fez efeito e ele está dormindo.- Juliet respondeu pacientemente, lavando as mãos com um pouco de água que havia em uma tina improvisada à entrada da tenda.
- Eu tive tanto medo...- Kate admitiu. – Medo de que ele não sobrevivesse, o Jack é tão forte e está sempre cuidando de todos.
- Ele não é o super-homem!- disse Juliet, encarando Kate com seriedade. – E mesmo se fosse, até o super-homem tem uma fraqueza: kriptonita. Você Kate é a kriptonita do Jack.
Kate alargou os olhos, parecendo não entender. Juliet continuou:
- Toda vez que você está em perigo ou precisa de alguma coisa, eu vejo os poderes do Jack se enfraquecerem de preocupação por você. Se ele soubesse o que o Ben me obrigou a fazer com você, certamente me odiaria.
Kate abraçou o próprio corpo e sentiu um frio na espinha, lembrando-se dos dias de horror que passara quando foi capturada pelos Outros.
- Ele me beijou naquela tarde em que fomos à estação de gás achando que o Faraday e a Charlotte estavam indo explodir de tudo. Ele me beijou e disse que ia ficar tudo bem, mas ele não fez isso porque me quer de verdade, como mulher.
Kate a ouvia atentamente.
- Ele fez isso porque queria provar a si mesmo que não amava você.
Ela ficou muda diante daquela revelação. Muda e confusa. Tão confusa quanto se sentia nas últimas semanas, muita coisa acontecera. Mesmo amando Jack, ela se entregara a Sawyer com medo de que ele morresse e isso não aconteceu. Eles continuaram juntos, mas o enlace não estava dando certo. Que fazer agora? Ela sentia que Jack ainda a queria, mas estava muito magoado com o que presenciara na outra ilha, ela nua nos braços de Sawyer depois de fazer amor.
- Eu sei que não está dando certo entre o Sawyer e você, por isso está de volta ao acampamento ao invés de ter ficado no acampamento do Locke.
- O Locke está louco! Me baniu do acampamento dele.- justificou Kate.
- Você diz isso, mas ambas sabemos que se você realmente quisesse ficar com o Sawyer teria dado um jeito.
Kate deu uma risada irônica:
- Você é muito cínica, Juliet. Sabe muito bem porque não estou com Jack, porque não posso estar com Jack...
- Eu sei sim.- respondeu Juliet. – E lamento muito por isso, não fui eu quem criou essas regras, mas você poderia tentar mudá-las Kate, só depende de você. Parar de correr atrás dos dois ajudaria se você se concentrasse em apenas um deles.
(Fim do flashback)
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- Você não seguiu meu conselho.- disse Juliet quando Kate recorreu ás suas lembranças na ilha.
- Você não sabe de nada!- retorquiu Kate. – Está noiva do diretor do hospital, mas eu sei que esteve com Jack mesmo assim...
- É, Kate, você tem razão, eu estive com o Jack, mas ao contrário de você eu sei muito bem qual é o meu lugar. Lamento apenas que o Jack ainda não tenha compreendido o tipo de pessoa que você é. Você sempre pensou que não o merecia, não é Kate? Pois você está certa.
Juliet se afastou dela indo falar com Jack e o pai de Sarah. Kate sentiu vontade de espancá-la, mas também sentiu vontade de bater em si mesma porque sabia que o que Juliet dissera tinha um fundo de verdade.
O padre que celebraria uma missa em homenagem à Sara assim que todos os poucos convidados chegassem para se despedir dela entrou acompanhado por um homem alto de cabelos castanhos e olhos azuis, com o rosto coberto de lágrimas que fez a maior cena assim que viu o corpo de Sarah na capela.
- Oh Sarah, oh baby...
Ao ver o homem se aproximar do caixão, Jack reagiu como um animal enfurecido e surpreendeu todos os presentes empurrando o homem para fora da capela.
- O que você está fazendo aqui?- Jack gritou.
- Como o que eu estou fazendo aqui?- retrucou Kevin, o marido de Sarah. – Minha esposa acabou de falecer...
- Ela estava se separando de você porque batia nela!- Jack gritou outra vez, chamando mais atenção. – Estão vendo esse homem aqui? Ele batia na Sarah, uma mulher grávida, fisicamente menor do que ele, indefesa...
As pessoas começaram a se entreolha e a comentar entre si o fato. O pai de Sarah olhava para Kevin com ódio.
- Seu desgraçado!- disse o velho. – Vou processá-lo no tribunal. Minha filha está morta por sua culpa. Nunca vai chegar perto da minha neta, ela ficará com o Jack. Tirem esse homem daqui!
- Nunca!- bradou Kevin e tentou se aproximar do caixão novamente, mas foi barrado por dois seguranças do hospital.
Claire chegou à capela com Charlie na hora do caos.
- Meu Deus, o que está acontecendo aqui?- indagou a Kate.
- O marido da Sarah apareceu exigindo seus direitos de vê-la, mas o Jack não vai permitir, nunca o vi tão nervoso.
- Eu consultei um advogado sobre a guarda da criança que ele quer assumir e sinceramente meninas, Jack terá muito o que lutar na justiça se quiser mesmo ficar com a menina!- comentou Charlie.
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Clementine caminhou até o túmulo da mãe segurando um ramo de pequenas margaridas e o vento do fim de tarde esvoaçou o laço de fita verde preso aos longos cabelos loiros da menina.
James ficou observando de perto, segurando Èrica pela mão. Tinha ficado um tanto hesitante quando na hora do almoço Clementine pedira a ele que a levasse para ver a mãe. Havia sido um pedido espontâneo que o surpreendeu. Não gostava de cemitérios e tampouco achava que fosse um lugar adequado para uma criança, mas desde que assumira a guarda da filha, ela quase nunca falava da mãe, parecia presa em seu mundo infantil, mas a verdade é que a menina sofria em silêncio e naquela tarde na casa de Ana-Lucia ela se sentiu à vontade para fazer esse pedido ao pai.
Com uma atitude mais madura do que condizia sua idade, Clementine abaixou-se diante do túmulo da mãe e pousou o ramo de margaridas junto à lápide que dizia: "Cassidy Ann Philips, mãe amada".
- Oi mamãe. Me perdoe por não ter vindo te ver antes, mas eu estava com medo.- Clementine discursava com sua voz infantil. – Mas agora, eu não tenho mais medo porque o papai está cuidando de mim, não fique preocupada comigo. Eu tenho o meu pai, tenho a Èrica, tenho a Ana e a Kate também...o papai está zangado com a Kate, mas eu gosto dela.- ela ficou um tempo em silêncio como se estivesse pensando no que dizer e completou: - Te amo mamãe.
James sentiu a garganta embargada, uma culpa enorme por não ter estado com sua filha desde sempre o tomou, mas apesar disso ele faria de tudo para compensá-la pelos anos em que esteve distante, acreditando que a generosa ajuda financeira que dava a ela era o suficiente.
Quando Clemen se ajoelhou para fazer uma oração por sua mãe, como ela mesma a tinha ensinado, Èrica puxou a mão de James:
- Vem James, vamos rezar pela mamãe da Clemen.
Ele assentiu e se juntou às filhas, mentalmente pedindo perdão a Cassidy por tudo que havia lhe feito.
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Quase quatro horas de viagem depois, o carro blindado da Swat que transportava Benjamin Linus ao Forte Miles chegou ao seu destino. Não houve mais incidentes durante o percurso depois da confusão com Ana-Lucia.
A equipe pensou que tudo ficaria bem agora. Entregariam o prisioneiro e a missão estaria cumprida, mas o que não esperavam é encontrar um monte de repórteres em frente ao presídio esperando por eles.
- Mas o que é tudo isso?- indagou Boxer.
- Quem deixou a informação de que ele seria transferido vazar?- questionou Ana-Lucia.
- Eu não sei.- respondeu Street. – Mas o fato é que agora temos de lidar com isso da melhor que maneira que pudermos.
Os jornalistas se agitaram quando o carro se aproximou do portão do presídio para entregar o prisioneiro.
- Nossa! Esse cara é mesmo popular!- comentou Maccabe.
Os policiais desceram do carro quando o furgão atravessou o portão deixando os jornalistas afoitos que se acotovelavam para tentar falar com Benjamin fazendo perguntas sobre qual era a relação dele com Widmore, qual a localização exata da ilha e se alguma das experiências feitas pela Dharma na ilha com os sobreviventes do vôo 815 tinha dado certo?
Ben não respondeu à nenhuma pergunta dos jornalistas, ficou em silêncio até que os carcereiros da prisão viessem pegá-lo para levá-lo. Quando eles se aproximaram, ele gritou para os jornalistas, surpreendendo a todos:
- Dou 3,2 milhões de dólares para quem me tirar da cadeia!
Os jornalistas começaram a usar um monte de fotos e Linus repetiu:
- 3,2 milhões de dólares se eu ficar livre!
- Mas o que ele tá dizendo?- indagou Street franzindo a testa quando Benjamin foi levado para dentro do presídio ainda repetindo sua oferta.
Ana-Lucia balançou a cabeça negativamente.
- Nossa missão acabou! Vamos embora!
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Shannon olhou a cena na televisão e balançou a cabeça, incrédula. Benjamin Linus oferecendo 3,2 milhões de dólares para ser tirado da cadeia, era inacreditável.
- Benjamin Linus sempre gostou de atenção!- ela comentou com Sayid que estava na cama brincando com as crianças. – Eu já tinha até esquecido da existência desse homem odioso!
- Esse homem é um louco!- disse Sayid, abraçando e beijando a pequena Jade que bagunçava-lhe os cabelos cacheados. – Por mim, ele pode mofar na cadeia!
Ela desligou a televisão e sentou-se na cama. Jasper correu para os braços dela.
- Mamãe!
Shannon abraçou o filho e Sayid beijou a esposa, antes de dizer:
- Baby, eu tenho que ir para uma reunião agora.
Os olhos de Shannon se alargaram:
- O quê? Habib, você disse que depois do seu aniversário tiraria uns dias de folga para ficarmos juntos e procurarmos uma casa aqui em Los Angeles. Eu não quero ficar morando num hotel pra sempre!
- Eu sei, baby, mas essa reunião é muito importante e foi marcada de última hora. Mas eu prometo que estarei de volta para jantarmos juntos e falarmos sobre a casa que você quiser comprar, o que for melhor para minha família.
Shannon não disse mais nada e Sayid entendeu isso como um consentimento. Abraçou e beijou-a e em seguida despediu-se dos filhos dizendo que voltaria logo. Depois que ele saiu, Shannon sentou-se na cama e ficou pensando. Tinha certeza que Sayid estava escondendo alguma coisa dela. Boone fora um incompetente seguindo seu marido. Mas dessa vez resolveu que faria do jeito dela. Seguiria Sayid ela mesma e descobriria de uma vez por todas o que ele andava escondendo.
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Ana-Lucia chegou em casa tarde da noite, exausta. Tudo o que queria era tomar um banho e se jogar na cama, mas aí lembrou-se de que Sawyer agora estava em sua casa. Tinha sido um dia tão difícil para ela, dentro de um carro por horas com Benjamin Linus contando seus segredos para seus colegas da Swat. Como ele poderia saber sobre a existência de Èrica? Sobre quem era o pai dela? E quanto àquela proposta ridícula de pagar 3,2 milhões de dólares para que o tirassem da cadeia? Ana-Lucia queria mais era que ele apodrecesse atrás das grades.
Girou a chave na fechadura e entrou na casa. Arregalou os olhos quando viu o estado em que se encontrava sua sala de visitas. Brinquedos espalhados por todos os lugares, as almofadas atiradas ao chão, a TV ligada sem ninguém assistindo. Poderia ter ficado uma fera com aquela cena, mas ver Sawyer deitado no sofá, dormindo profundamente com as duas meninas aninhadas em seu peito era uma cena linda e comovente que apaziguou seu coração e a fez esquecer por alguns segundos do dia de trabalho difícil que tinha tido.
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(Flashback)
Juliet abriu as portas de metal de par em par e Ana-Lucia e Libby a seguiram para dentro de um corredor escuro. Mais uma daquelas estranhas estações de pesquisa Dharma.
- O que tem nesse lugar?- Ana indagou.
- Algo que vai nos ajudar a ter certeza se você está grávida ou não.- Juliet respondeu com tranqüilidade.
Ana-Lucia resolveu não fazer mais perguntas por enquanto, já tinha sido difícil chegar até Juliet e pedir sua ajuda, tendo que revelar a ela parte de sua intimidade, coisa que detestava.
Elas chegaram até uma sala que lembrava mais um consultório médico. Juliet começou a arredar um armário de ferro da parede e Ana a ajudou. Uma porta escondida apareceu e Juliet as conduziu à outra sala onde havia uma cama e um antigo aparelho de ultra-som.
- Isso ainda funciona?- Libby perguntou.
- Eu espero que sim.- respondeu Juliet. – Ana, antes que comecemos o exame preciso que você me responda à algumas perguntas.
Ana assentiu.
- Quando foi sua última relação sexual?
Ela mordeu os lábios, um pouco embaraçada, mas respondeu:
- Quase sete semanas.
- Certo.- disse Juliet. – Quando começou a dar por falta da menstruação?
- A última vez que menstruei foi antes de vocês nos capturarem.- Ana respondeu com sarcasmo.
Juliet ignorou o sarcasmo dela.
- Bem, isso já faz um bom tempo. Você acabou de me dizer que sua última relação foi há sete semanas, mas a ausência de menstruação é mais antiga, então suponho houve outra ou outras relações antes disso?
- Sim.- Ana admitiu. – Apenas uma, no dia em que fui baleada.
- Se importaria de me dizer quem é o pai s você estiver grávida?
- Eu não acho que isso tenha relevância...- começou a dizer, mas Libby a interrompeu.
- È o Sawyer!
- Oh!- exclamou Juliet.
- Libby!- Ana-Lucia reclamou.
- Desculpe, amiga, mas eu acho que você deve ser bastante sincera com a Juliet para que ela possa te ajudar.
Juliet começou a mexer no aparelho de ultra-som e o dispositivo funcionou. Ela sorriu e disse a Ana:
- Por favor Ana, deite aí nessa cama e levante a blusa um pouco.
Ana-Lucia o fez, mas foi logo dizendo:
- Resolvi pedir sua ajuda porque a Libby sugeriu, mas não creio que eu possa estar grávida. Eu sou estéril. Levei quatro tiros em serviço e meu útero foi perfurado, tive um aborto...
- Eu sei de tudo isso!- disse Juliet besuntando a barriga de Ana com gel que encontrou em uma prateleira.
- Mas então...
- Ok, vamos nos concentrar no exame!- disse Juliet. Ela começou a passar o aparelho de ultra-som pela barriga de Ana-Lucia.
Uma imagem distorcida e esverdeada apareceu na tela. Aos poucos essa imagem foi ganhando nitidez e forma. Um sorriso brincou nos lábios de Juliet e ela pressionou um botão no aparelho de ultra-som. O barulho inconfundível de um coração batendo bem depressa encheu o ambiente. Libby olhou para Ana-Lucia com uma expressão de alegria e ela quase caiu da cama onde estava deitada. Instintivamente a mão dela foi parar na barrica e suas mãos ficaram meladas de gel.
- Você está grávida!- anunciou Juliet como se não fosse óbvio o som de um coração batendo dentro da barriga dela.
- Dios mio!- exclamou Ana-Lucia sorrindo, mas os olhos estavam cheios de lágrimas. – Como isso foi possível? Eu...
- Você era estéril sim, mas tem algo nessa ilha que pode curar as pessoas.- disse Juliet.
- Você vai contar pro Sawyer?- perguntou Libby.
- Eu não sei Libby...eu...- Ana estava tão emocionada com a notícia que não conseguia nem pensar no que fazer.
Juliet pediu mais algumas informações a Ana e conseguiu descobrir a data da concepção, 14 semanas atrás.
- Estou grávida de 14 semanas?- indagou Ana, chocada. Isso significava que ela havia engravidado exatamente no dia em que roubara a arma de Sawyer na floresta. O tiro que levara de Michael não a fizera abortar, isso era um milagre. – Mas isso não é possível! Eu nem tenho barriga ainda...
- Sim Ana, é possível. Algumas mulheres demoram para desenvolver a barriga e talvez a sua não vá crescer muito.
Depois que voltou para o acampamento, Ana-Lucia sentia-se sem chão. Estava muito feliz porque conseguira engravidar mesmo depois de um diagnóstico de esterelidade, mas ao mesmo tempo estava com medo de ter um filho naquela ilha. Passou pelo menos cinco dias pensando se contaria ou não para Sawyer sobre o bebê, no entanto, no dia em que se decidiu uma mulher ferida apareceu no acampamento. Tinha sido trazida por Desmond e Charlie e ela dizia ter sido enviada por Penélope Widmore para resgatá-los.
Ana adiou mais um pouco dar a notícia a Sawyer, mesmo tendo que vê-lo com Kate. Na verdade, ela nem conseguia entender com quem Kate estava de verdade. Às vezes parecia que ela e Jack estavam juntos, noutras vezes ela a via beijando Sawyer. Foi então que o resgate realmente chegou. Eles foram transferidos para um navio e levados até Fiji. Depois disso, tudo aconteceu muito rápido e ela quase não viu mais Sawyer até que sua mãe foi buscá-la no aeroporto em Fiji. Eles sequer se despediram e Ana-Lucia resolveu ter seu bebê sozinha, deixando tudo para trás.
(Fim do flashback)
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Ana desligou a TV e se aproximou do sofá. Èrica dormia com a cabeça recostada ao rosto de Sawyer, seu pai. A semelhança entre eles naquele momento era tão absurda que deixou Ana-Lucia sem ar. Ela sentou-se no outro sofá e começou a tirar as botas que apertavam seus pés, fazendo o mínimo de barulho possível para não acordá-los, mas Sawyer tinha o sono leve, conseqüência de muito tempo dormindo em uma ilha com medo de ser atacado no meio da noite.
- Hey!- ele disse sonolento quando a viu diante de si, terminando de descalçar as botas.
- Hey!- ela respondeu.
Sawyer fez um esforço para se levantar sem acordar as meninas e Ana-Lucia o ajudou. Quando ele conseguiu se livrar do abraço das pequenas, ele abraçou Ana-Lucia trazendo-a para junto de seu corpo. Ela descansou a cabeça no peito dele, mais uma vez surpresa com o gesto de carinho. Ainda não tinha se acostumado com esse novo Sawyer.
- Como foi seu dia, lábios quentes?
- Pèssimo!- ela respondeu com sinceridade e Sawyer franziu o cenho.
- O que aconteceu?
- O sargento nos deu uma missão horrível hoje, pelo menos pra mim. Transferir Benjamin Linus de presídio.
- Você viu o esbugalhado?
- Infelizmente. E ele veio querer me manipular como tentava fazer com todos nós...
- O que ele te disse?
- Nada de importante...- ela desconversou.
Mas James notou que havia algo errado.
- Lu, tem alguma coisa que você queira me dizer?
Ana-Lucia olhou para ele e por um momento pensou se não contava toda a verdade a ele agora mesmo. Mas faltou coragem para fazer isso, e ela manteve a mentira:
- Não cowboy, eu estou muito cansada.- ela abaixou a cabeça.
- Oh, tadinha dela...- disse ele, carinhosa. – Vou te levar pra cama.- ele a pegou nos braços, surpreendendo-a.
- Mas precisamos botar as meninas na cama...
- Já estou fazendo isso, baby, pondo minhas meninas na cama, começando por você.
Ana riu e recostou a cabeça no peito dele, permitindo-se ser levada para a cama enquanto Èrica e Clementine dormiam no sofá, alheias ao que estava acontecendo.
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Sarah foi enterrada no final da tarde, mesmo com toda aquela confusão que Kevin armou no velório, Jack conseguiu fazer uma bonita cerimônia para a ex-esposa. No final da noite, ele estava exausto, mas ainda foi ao hospital dar mais uma olhada em Lara, sempre acompanhado por Kate que esteve com ele o dia inteiro.
A menina tinha sido tirada da encubadora naquela tarde mesmo. Não tinha nenhum tipo de problema respiratório ou outras complicações, era uma criança saudável. Por causa disso, Jack pôde segurá-la e isso foi a melhor coisa do dia depois de tanta agonia e sofrimento.
Kate sentou-se ao lado dele quando a enfermeira entregou Lara a Jack, envolta em uma manta cor-de-rosa, como um pequeno pacote de presente.
- Ela é linda...- ele elogiou vendo a pequena dormir, chupando o dedinho.
Kate acariciou a cabecinha branca da menina, com alguns fiapos de cabelos loiros.
- Ela se parece com a Sarah...
- Se parece sim...- Jack concordou.- eles ficaram em silêncio por alguns momentos admirando aquela pequena nova vida quando de repente, Jack indagou: Kate, fico feliz porque ficou comigo o dia inteiro, mas e quanto ao Sawyer? Ele ligou pra você?
Ela hesitou responder à pergunta dele, mas por fim, disse:
- O Sawyer me deixou!
Continua...
