Sacrifícios por amor

— Solta-me!

Remus apertou as pálpebras como se dessa forma pudesse deixar de escutar a ordem de Lucius, não pensava o soltar nem ainda que ambos terminassem perdidos no nada. De repente, quando achou que suas forças lhe traíam e finalmente tudo acabaria, algo se cercou em sua mão com firmeza.

Abriu os olhos e viu a Sirius esforçando-se por sacar do perigo, ainda quando ele também estava em uma situação nada invejável. Sirius já era o único dos três que podia pôr os pés no chão, mas este se escorregavam inclusive no áspero da pedra, nem sequer se apoiando no trilho pensava que o conseguiria, e aunado agora o peso dos dois homens que sustentava, lhe era tremendamente difícil não terminar sendo sugado.

— Dá-me tua outra mão, Moony! —pediu Sirius compreendendo que não poderia os salvar a ambos.

— Não! —gritou Remus desesperado e apertando mais forte a Lucius.

— Não poderá me sustentar mais tempo, Remus, me solta já! —interveio Lucius.

— Que não!

Remus sentia vontade de chorar, era-lhe impossível soltar a Lucius e abandonar lhe, mas se não o fazia, a quem abandonaria era a Sirius… Ter que eleger entre um dos dois era questão de vida ou morte e devia lhe fazer rápido. Uma de suas mãos por fim começou a afrouxa-se, mas de repente sentiu outra apreensão na mão que tinha Sirius em seu poder. Abriu os olhos que tinha fechado e viu a Harry se unindo a seu padrinho para lhe ajudar.

Harry tinha podido libertar-se finalmente de seus agressores e agora era momento de ajudar a seus amigos, sua mão direita ajudava a que Remus continuasse com possibilidades de viver, e pela primeira vez teve que fazer uso de sua varinha com a outra mão, tinha temor de que não funcionasse e fizesse mau o feitiço, mas finalmente conseguiu que o raio não fosse desviado pela atração magnética do buraco e colasse justo onde se uniam as mãos de Remus e Lucius, isso impediria que se soltassem enquanto conseguiam tirar do redemoinho.

— Vamos, Harry, um último puxão! —propôs Sirius, e Harry assentiu, já ele também estava sentindo que seus talones escorregavam. — Um… dois… três!

Tanto Harry como Sirius usaram todo seu esforço para puxar a Remus e com ele a Lucius. A sorte esteve de seu lado, pois ao cabo de uns segundos, os quatro arquejavam cansados sobre o chão. Remus tinha a Sirius abraçando-lhe com toda a angústia que tinha tido ao estar tão cerca do perder. Lucius observava-os em silêncio junto a Harry… talvez tivesse sido preferível cair no buraco antes de ver como o licantropo lhe correspondia ao abraço.

O que lhe fez mudar de opinião foi quando Remus lhe buscou com a mirada. Até esse momento notaram que suas mãos seguiam unidas pelo feitiço de Harry, e o castanho lhe acariciava suavemente.

— Devo ir-me. —disse Harry pondo-se de pé de repente.

— Aonde vai? —perguntou Sirius sem soltar a Remus e penteava docemente seu cabelo.

— Vocês sigam salvando o castelo… tenho que ajudar a Ron.

Harry correu para a porta por onde tinham desaparecido seus amigos. Antes de ir-se desfez o feitiço sobre as mãos, mas ninguém notou nenhuma diferença, Remus e Lucius continuavam com seus dedos enlaçados e ambas miradas fixas a uma na outra.

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Draco mal sentiu quando Voldemort lhe sujeitou do braço puxando para o extremo oposto do corredor, seus olhos lagrimosos não se decolavam do corpo ensanguentado de Ronald. Pensou em morrer, queria morrer também, e fez o que seguramente lhe cumpriria seu desejo… esbofeteou ao mesmíssimo Senhor Tenebroso.

— Asqueroso bastardo, não me toques! —gritou-lhe enrouquecido.

Voldemort por um momento ficou impávido, sem poder achar que esse ardor em sua bochecha era devido ao atrevimento desse fedelho convencido… mas que no entanto, desejava a morrer.

— Odeio-te! —vociferou Draco lutando por soltar-se com unhas e dentes.

— Não tem ideia do que acaba de fazer! —ameaçou Voldemort, reagindo ao fim depois de receber uma mordida na mão que sujeitava ao loiro. — Nem sequer você pode comportar dessa maneira sem receber teu merecido!

Draco não lhe fez caso, aproveitando que as pernas se lhe desentumeciam e que o malévolo homem descuidou seu aferre conseguiu se libertar, correu para onde estava Ron, se ajoelhou a seu lado sujeitando seu corpo entre seus braços, sem lhe importar que todo o sangue que seguia brotando lhe manchasse a roupa e as mãos.

— Ron… —sussurrou afundando seu rosto no pescoço do ruivo. —… amo-te, Ron.

— Muito comovedor. —debochou-se Voldemort tentando não sentir mais que raiva, ainda que ele sabia que podia sentir algo mais, por muito difícil que pudesse ser, parecia que não tinha conseguido de todo conter seus sentimentos pelo loiro.

— Mata-me já, engendro podre!

— Acha que te matarei?... É um iluso, querido menino!

A Draco não se importava o que fizesse com ele, nem sequer levantou o rosto e continuou aferrado a Ron. Escutou como o diabólico ser pronunciava um cruciatus e pôde sentir o chicote de um feitiço, no entanto, não tinha dor… não tinha nada.

Atreveu-se a levantar a mirada e viu a Harry apontando a Voldemort, um raio morado escuro saía de sua varinha e com ele sustentava ao poderoso mago no ar, inconsciente. Draco engoliu saliva, jamais se imaginou ver esse poderio refletido nos olhos verdes, seu caminhar forte e imponente, sentiu inclusive medo do que podia chegar a fazer se lhe propunha.

Ao ver a seu amigo em um lago vermelho, Harry soltou a Voldemort empurrando-lhe para um extremo onde não pudesse ser um estorvo.

— Está morto. —gemeu Draco abraçando mais ao ruivo.

— Não o está. —assegurou Harry permitindo-se sorrir um pouco. — O sangue não brota dos cadáveres, Draco… faz a um lado, acho que posso o ajudar.

Draco obedeceu de imediato, faria qualquer coisa com tal de ter uma esperança. Harry acomodou a Ron no chão e ajoelhando a seu lado colocou seu varinha em perpendicular, sustentando-a com a palma de suas duas mãos. A Draco pareceu-lhe que se não fosse uma varinha o que tinha, dava a impressão de que estava a ponto de cometer um sacrifício como oferenda a Deuses antigos.

Harry suspirou fundo esperando que tudo saísse bem, recordava perfeitamente uma maldição como aquela como parte do processo de adestramento dos comensais. Muitas vezes viu a Severus praticando o contra-feitiço, algo que não faziam seus demais parceiros, para eles era mais importante matar sem importar solucionar um possível erro.

Recitou umas palavras que a ouvido de Draco soavam como grego ou quiçá era uma linguagem desconhecida, não pôde identificar bem. Mas isso não era demasiado importante, conforme avançava o contra feitiço, o sangue deixou de brotar, ainda que isso lhe doeu ainda mais, pôde notar com clareza a horrível ferida que Ron tinha, era como se uma bomba tivesse explodido desde seu interior, a pele se abria como se fossem os pétalas de uma flor. Achou que se desmaiaria, no entanto permaneceu com a vista fixa em seu companheiro.

Pouco a pouco Harry ia conseguindo que os órgãos regressassem à normalidade e a ferida se terminou de fechar, ainda que o ruivo continuava sem recuperar o conhecimento apesar de que já era visível sua débil respiração.

— Como vejo que já podes falar… —disse Harry ao terminar. —… preciso que leves a Ron à enfermaria, Poppy saberá que fazer para concluir a cura, talvez seja necessário que o levem a St. Mungo.

— Se salvará?

— Claro, Ron é um osso duro de roer. —assegurou tentando não dar a notar seu temor a não ter feito bem o feitiço.

Draco assentiu, usando sua varinha pôde levitar a Ron para levar para a enfermaria. Antes de que se fossem, Harry usou um feitiço desilusionador para que ninguém lhes atalhasse, era realmente importante que chegassem sãos e salvo até onde Poppy. Ao ficar só se girou para Voldemort, lhe viu se recuperar e respirou resignado de ter desaproveitado uma oportunidade para o vencer finalmente… no entanto tinha prioridades e a vida de seu amigo era bem mais importante.

Pôs-se de pé colocando-se em posição de ataque, inclusive surpreendeu-se de já não ter tanto medo por Voldemort, talvez era a segurança de que nessa ocasião já não teria uma segunda oportunidade… era ou um ou o outro.

Estreitou os olhos intrigado quando viu que o mutante lhe sorria como se tivesse um grande as baixo a manga.

— Tens muita pressa em bater-te a duelo, Potter. —comentou Voldemort ao vê-lo apontando-lhe com a varinha. — Mas muito temo-me que antes terá que passar acima de alguém mais.

Voldemort fez um movimento com sua varinha e ao instante apareceram quatro comensais em frente a ele, formando uma barreira defensiva e todos apontando firmemente para Harry. O garoto respirou fundo, ia ter que brigar duro com eles ou caso contrário não teria oportunidade.

Não era hora de compaixão, recordou os ensinos de Severus… Não ia poder enfrentar poderosas maldições com simples feitiços de proteção, devia atacar com toda sua força.

Ia lançar um Cruciatus para um deles quando a luz de uma tocha alumiou tenuemente seu peito. O coração deu-lhe um brinco ao descobrir um par de sapatinhos azuis.

Não se deteve a nada, girou a varinha para outro esquecendo da tortura, pôde esquivar os feitiços que lhe enviavam e se surpreendendo de si mesmo, conseguiu que três deles ficassem rapidamente fora de combate… Conteve um sorriso pois estava quase seguro que um dos raios que iam para ele, tinham caído erroneamente em seus oponentes.

Voldemort grunhiu quando viu que somente ficava em pé um de seus comensais, mas não demonstrou seu desgosto e fez um sinal para que este se enfrentasse a Harry… Depois de ver quanto tinha madurado sua magia, precisava comprovar até onde podia chegar. Não se importava sacrificar quanta vida fosse necessária, mas terminaria com esse menino de uma vez por todas.

O comensal caminhou para onde estava Harry, não baixou sua varinha em nenhum momento… Harry também não o fazia e devolvia magnificamente uma imensa mirada desafiante.

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Hermione retorcia-se tentando libertar-se de seu captor, mas este era extremamente forte e nem ideia tinha de onde podia se encontrar, mal podia ver ante a escassa visibilidade, era uma passagem muita escura e estreita.

— Deixe-me, maldito, quero regressar com Blaise!

— Tranquila, não pode o fazer, é demasiado perigoso.

— Não me importo! Quero voltar com ele!... Blaise!

Hermione chorava desesperada, por mais que lutava o homem não lhe soltava, estava disposto a lhe suportar golpes e esquivar-lhe as mordidas que a garota tentava lhe dar, mas não a regressaria ao perigo.

— Deixe-me já! —suplicou Hermione cansada.

— Não… até que me prometa que ficará quieta, Hermione.

A castanha abriu os olhos surpreendida, não podia achar que um comensal soubesse seu nome. Aquilo lhe inquietava ainda mais.

— Quem é? –perguntou titubeante.

Suavemente sentiu-se libertada e nesse momento o comensal levou sua mão para a máscara para retirá-la lentamente. Hermione conteve um gemido ao identificar de quem tratava-se.

— Nott?

— Assim é… sou eu.

— É um comensal! —exclamou empurrando-lhe furiosa. — É um dos que feriram a Blaise!

— Quis ajudá-lo, mas não pude! —respondeu com os olhos chorosos. — Não pude o evitar, Hermione, eu sinto muito!

— Ele está…

Theodore assentiu compreendendo que a garota ainda precisava de uma confirmação do sucedido. Abraçaram-se e choraram pela perda irremediável. No entanto, pese a que Nott ainda tinha muitos sentimentos encontrados em sua alma, sabia que não podia perder mais tempo, se retirou e secou suas lágrimas e as de Hermione.

— Devemos tirar aos garotos do salão.

— Mas… eles estão seguros aí. —protestou debilmente.

— Não é assim, acho que é o pior lugar, o senhor Escuro o sabe e por isso fez formar os redemoinhos… com eles poderá terminar com todos sem se agitar demasiado.

— Que quer dizer?

— Agora não é momento de explicar, temos que os tirar.

— Porque devo confiar em ti? —perguntou entrecerrando os olhos.

— Não há um porque, mas te asseguro que estou do seu lado, Hermione.

— E onde estamos agora?

— É uma passagem, pela esquerda chegaremos a uma porta escondida na habitação contigua ao salão, e pela direita chegaremos diretamente à sala comum de Slytherin. O senhor Tenebroso não atacaria a sua própria casa.

— Como é que ninguém sabe deste lugar?

— Os Gryffindor's não são os únicos que têm secretos, Hermione… Vamos, já não temos tempo que perder.

Hermione assentiu, passou saliva tentando amortecer um pouco a dor que ainda sentia, mas ainda era impossível, no entanto, aceitou a mão de Nott e lhe seguiu enquanto ela continuava enxugando-se suas lágrimas ao recordar a Blaise.

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Severus caminhou para Harry, seus olhos através da máscara permaneciam inexpressivos, e ao chocar com os de Harry não mostraram nenhum sentimento. Mas para Harry aquilo já não era novo, e tinha aprendido a olhar por trás do bloco de gelo… Seu coração retumbava com só sentir sua mirada.

— De modo que agora não te atreve a lutar pessoalmente, Voldemort. —disse Harry sem decolar a mirada dos olhos negros.

— Só pretendo me divertir um momento, ademais, lhe devo um favor a este comensal… tão só por isso lhe darei o prazer de desquitar-se um pouco. Suponho que não tens ideia de quem se trata, Potter.

— Creio, Voldemort… que sim o sei.

Harry sorriu, Severus tinha chegado até ele e ao mesmo tempo ambos baixaram suas varinhas ante a surpresa de Voldemort. Seus olhos vermelhos observaram com curioso interesse que era o que passava, jamais antes tinha visto isso que brilhava nos olhos de seu eterno inimigo. A seu comensal não podia o ver claramente pois lhe dava as costas, de modo que não tinha ideia do que planejava.

As pupilas se lhe dilataram quando Harry tirou a máscara de quem tinha enfrente, só ele podia ver o que realmente refletiam as irises escuras.

— Prepara-te para o que verá.

Voldemort amaldiçoou sua curiosidade, era um bom momento para atacar, mas queria saber o que estava sucedendo em seus curtos narizes. Harry colocou-se um pouco de pontas do pé e rodeando a Severus pelo pescoço, lhe beijou. Mas isso não era o pior que podia suceder ao mago tenebroso, não, o pior foi ver a seu suposto leal comensal se inclinar para sujeitar delicadamente a Harry pela cintura enquanto lhe correspondia a essa caricia.

— Malditos! —grunhiu Voldemort apontando-lhes disposto a matá-los juntos.

— Agora, Harry!

Severus tinha-se separado do menor e este lançou o feitiço que tantas vezes tinha praticado, um raio índigo interceptou o verde que Voldemort lançasse sobre eles. Harry respirava agitado esperando ser mais forte agora, que não voltasse a suceder que suas varinhas se resistissem a lutar. O maisvelho rodeou-lhe colocando-se atrás dele, e pôs ambas mãos sobre os ombros de Harry.

— Não solte, Harry. —lhe sussurrou ao ouvido. — É mais forte que ele… pode conseguir eu sei que pode.

Harry assentiu sem responder-lhe para não desconcentrar-se, uniu suas duas mãos para não soltar e satisfeito viu como nesta ocasião sua varinha estava de seu lado, talvez compreendendo que não estava tentando ferir senão salvar. Foi questão de segundos para que ganhasse terreno e ante a mirada aterrorizada de Voldemort o raio índigo se impôs e fez estalar sua varinha.

Já não teve tempo de realizar outra maldição, todo seu corpo se viu envolvido nessa cor para em seguida cair ao chão. Harry sentiu então como a alma se desprendia, a escuridão que a rodeava era a mais tenebrosa que tinha visto, mais mil vezes intensa que a de qualquer de seus serventes.

— Não temas. —voltou a falar-lhe Severus ao senti-lo estremecer-se. — Sua maldade é proporcional a sua força e coração… é o único que pode o conseguir, Harry. Você pode nos salvar e o salvar a ele também.

— É… muito forte. —gemeu Harry.

— Por isso é o eleito, porque você também é.

Harry não queria duvidar, mas até náuseas sentia ao perceber tanta podridão, era pior que se pôr a limpar inodoros de throlls. Apertou os lábios e continuou até que finalmente todas aquelas impurezas foram desprendendo da alma e viajaram pelo raio índigo. Seguindo as instruções de Severus, dirigiu-as para o corpo que jazia no chão.

Era algo horrível o que sentia, já queria que isso terminasse e não compreendia como Severus tinha podido fazer isso tantas vezes, a ele o único que o mantinha de pé era o sentir atrás dele, e o fôlego de sua respiração golpeando suavemente a pele de seu pescoço.

Finalmente, a essência escura foi clarificando-se até adquirir uma tonalidade perlada e o corpo sem vida ficou feito cinzas. Os joelhos de Harry tremeram e se não fosse pelos braços de Severus lhe sustentando agora por sua cintura teria caído, no entanto, sua respiração era tão agitada e trémula como se tivesse corrido uma maratona.

— Conseguiste-o, amor. —exclamou Severus estreitando seu abraço.

— Devo buscar a Hermione. —disse depois de sorrir-lhe suavemente. — Um comensal levou-lhe.

— Está demasiado débil, eu a irei buscar.

— Não, preciso que vá à enfermaria. Ron foi vítima de um maleficio de Voldemort, consegui detê-lo mas não sei que tão bem está… Faz favor, sei que você poderá o ajudar.

— De acordo, cuida-te muito.

— Amo-te.

Severus soltou-o verificando que realmente pudesse se manter em pé com a força necessária para continuar lutando, e quando o comprovou ia girar para dirigir à enfermaria, mas Harry lhe deteve sujeitando da teia de sua túnica e lhe beijou.

O professor manteve-se um instante paralisado pela surpresa, jamais tinha recebido um beijo tão demandante como esse, Harry sugava lhe roubando todo o fôlego e podia sentir sua língua se impondo voluntariosa para lhe explorar e lhe acariciar. Uma mão pequena, mas imensamente imperial retendo pela nuca. Recordou seu primeiro beijo, aquele que lhe desse no bosque, mas nesse então não tinham vivido o que agora, não sabiam de seu amor tão intenso, e não estava a alegria de saber que tinham triunfado, de modo que nada podia superar ao que agora lhe dava.

Quando Harry finalmente lhe libertou, Severus o olhou admirado por seu poderio, ficou totalmente sem fala. O garoto tinha as bochechas coradas ante sua audácia, mas não se arrependia, acabava de desfrutar de um grande beijo.

— Céus… —exclamou Severus com o escasso ar que lhe ficava. —… não se supunha que estava débil?

— Você é minha força. —disse a cada vez mais corado. — Mas anda, já à enfermaria.

Severus assentiu e marchou-se enquanto Harry tentava pensar por onde seria bom começar a buscar a Hermione. Nesse momento no lobby, Remus, Sirius e Lucius tinham voltado a incorporar à luta e pouco a pouco iam obtendo vantagem.

Ninguém se dava conta que os dois redemoinhos começavam a se mover se acercando o um ao outro perigosamente. Foi até que o cruze dos ventos fez que se desatassem verdadeiros tornados que compreenderam o perigo, e inclusive comensais saíam correndo longe do choque das duas forças. Alguns o conseguiram, outros não, e aterrorizados olhavam desaparecer tanto a Aurores como comensais, ninguém podia fazer nada para ajudar.

Dumbledore entrou no momento em que Remus, sustentado pela cintura por Lucius se acercava aos redemoinhos para ajudar a um par de alunos de quinto ano que já estavam a ponto de ser sugados para seu interior. Lançou-lhe um feitiço parecido ao de Harry, mas este se mantinha unido a sua varinha como se uma soga de vaqueiro se tratava.

Ia puxando-os para eles quando o halo do feitiço se rompeu ao ser sugado. Remus caiu para trás sobre Lucius e ambos viram horrorizados como os dois jovens gritaram antes de desaparecer. De imediato Lucius abraçou a Remus ao senti-lo estremecer-se de horror, e sem perder tempo, o puxou para afastar-se.

Dumbledore estava totalmente pálido. Nesse momento os dois redemoinhos chocaram, era justo em frente ao grande salão, a fusão aumentou a velocidade dos ventos, era como se se encontrassem dentro de um tornado. Não teve quem não se sustentasse do mais próximo a seu alcance. Foi um instinto o que fez a Dumbledore fechar os olhos, a terra lhe caindo dentro deles lhe impedia poder ver, e quando finalmente o fez sentiu a alma abandonando seu corpo, as portas do grande comedor tinham sido arrancadas de seus pinos, e as mesas e cadeiras eram engolidas sem resistência alguma.

A fúria lhe embargou, não podia achar que seus alunos tivessem tão trágico final. Os olhos azuis tornaram-se intensamente poderosos, sua magia podia sentir-se como o rugido de um leão. Lançou um feitiço em onde pôs tudo de si, e de sua varinha emergiu um laço de fogo que saiu disparado para os redemoinhos conseguindo os consumir até que finalmente só ficou a ruína e destruição rodeados por um pesado silêncio.

Ninguém se atrevia a se mover, olhavam o oco que conduzia para um salão assustadoramente vazio. Foram os passos de Dumbledore os que romperam o silêncio, um par de lágrimas rodavam por suas bochechas pensando que de nada teria servido a vitória nos pátios se perdia o mais valioso de Hogwarts.

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Severus tinha chegado até a enfermaria, aí estava Draco esperando chateado a que Poppy terminasse de revisar a seu companheiro. Outros alunos mais encontravam-se nas camas e inclusive um par de Aurores tiveram que esperar seu turno em improvisadas colchonetes no chão.

— Como está? —perguntou Severus chegando junto à enfermeira.

— Parece-me que bem, não conheço o feitiço.

— Deixa-me ver. —pediu Severus e Poppy fez-se a um lado. Ao cabo de uns minutos não pôde evitar um brilho de orgulho ao comprovar o bem que tinha sabido atuar Harry. — Não terá sequelas, mas de qualquer maneira será melhor o transladar a St. Mungo.

— Eu não posso ir, ainda tenho muitos por quem cuidar.

— Eu o levarei. —interveio Draco surpreendendo a Severus ao escutá-lo falar.

— De acordo, tem muito cuidado.

Draco assentiu e pouco depois tomava um tijolo rompido que lhe serviria de translador e desapareceram com rumo ao hospital. Severus inclinou-se então a revisar a um dos Aurores, este tinha um corte no rosto que dava a impressão de ter sido provocado por fogo. Estava terminando de pronunciar o contra-feitiço quando escutou a voz de alarme de Poppy.

— Cuidado, Professor Snape!

Severus girou-se sobre seus talones atingindo a ver um destelo verde. O coração quase deteve-lhe ao saber do que se tratava.

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Harry decidiu que não tinha tempo que perder, com um Accio invocou o mapa do maroto para buscar a Hermione. Em um par de minutos viu intrigado que se encontrava junto a Nott na área do salão e para lá correu.

Chegou justo no momento em que Dumbledore chegava à destruída porta. Ia lançar um feitiço para assentar o pó levantado, mas uns ruídos no interior fizeram-lhe adiantar. Suas pupilas se dilataram ao ver aparecer a Hermione sustentada pelo Slytherin.

— Hermione! —exclamou Harry aliviado correndo para ela. A garota deixou-se abraçar já sem forças nem para chorar. — Está bem?

A castanha assentiu e seu amigo manteve-a colada a seu corpo acariciando seu alborotada cabelereira, comovido de senti-la estremecer-se de tristeza. Harry tinha um forte nodo na garganta ao imaginar-se a dor que devia estar sofrendo, ele simplesmente deixaria de respirar se Severus desaparecesse de sua vida.

— É um alívio ver que estejam bem, meus rapazes. —comentou Dumbledore com a voz avariada, quis abraçar a Nott, mas este retrocedeu baixando a cabeça. — Passa-te algo?

— Professor Dumbledore, eu…

Ao ver que o Slytherin ia falar em frente a todos, Hermione sacou seu rosto do peito de Harry para olhar ao Diretor.

— Nott sacou a todos os alunos por uma passagem, agora estão a salvo na sala comum de Slytherin.

Um suspiro de alívio invadiu a alma de todos quem atingiram a escutar as débeis palavras de Hermione. Rapidamente Dumbledore enviou a Remus para que se fosse assegurar de que não tinha nenhum perigo nas masmorras. Enquanto, o idoso organizava a captura dos comensais que já se dispunham a escapar.

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O rosto de Severus se tensou enquanto sustentava em seus braços em corpo sem vida de Poppy. Na porta jazia o cadáver do comensal que tinha conseguido escapulir-se até a enfermaria, não duvidou em enviar esse Avada depois de sentir como a mulher caía sobre ele após ter interceptado a maldição assassina com sua pessoa.

Suavemente Severus colocava à enfermeira sobre a cama onde antes estivesse Ron. Olhava-a ainda sem entender o porque tinha dado sua vida por ele.

— Não devia fazer o que fez, Poppy… você é muito necessária.

Olhou a seu ao redor, ele não tinha muitos conhecimentos para atender feridos, a não ser que se tratassem de maldições, no entanto agora teria que tomar seu lugar enquanto chegava a ajuda. Cobriu o corpo com uma imaculada coberta branca.

Harry chegou nesse momento, levava a Hermione para que Poppy a revisasse. A uma distância prudente ia Nott, temeroso de acercar-se, como se não se sentisse com direito de irromper, mas também não queria se ir sem saber como estava a garota que amava. Ao ver ao comensal morto na porta e a Severus junto a um corpo ao que não podiam lhe ver o rosto, Harry sentiu como sua amiga voltava a mostrasse afetada pela morte de Blaise.

— Quem é? —perguntou Harry olhando a cama enquanto sustentava a Hermione com mais força.

— Poppy. —disse sombrio. — Que tem passado lá afora?

— Já tudo tem acabado, Dumbledore tem tomado o controle, em pouco tempo teremos Hogwarts limpo de comensais. —respondeu Harry depois de superar à notícia da morte da enfermeira. — Trouxe a Hermione para que a revisassem.

— Será melhor que a leve a St. Mungo, Harry, eu revisarei aos feridos, verei a quem mais é necessário transladar para o hospital.

— Ficarei a ajudar-te. —afirmou Harry para depois girar-se a olhar a Nott. — Poderia levar a Hermione, faz favor? Não te separe dela até que eu vá.

Nott assentiu e sujeitando à garota tomou o translador que Severus lhe desse. Depois de que desaparecessem, Harry se abraçou de seu companheiro, a um lado podia ver o corpo envolvido sobre a cama. Ia jogar muito de menos a essa mulher que sempre lhe atendeu eficientemente ao longo de seus múltiplos incidentes… Jamais se imaginou que sua morte tinha sido pelo mais puro amor.

Continua no próximo capitulo...