CAPITULO 37 – Páscoa (EdD 84)

Leah sentia o corpo todo queimar de calor. Abriu os olhos e estava deitada no chão. Os garotos já tinham levantado, e Tio Gon estava de costas, olhando a praça. Ela se levantou, e viu os meninos batendo os pés no chão, apagando alguns pequenos focos de fogo no chão, nas barras das túnicas e nas varinhas, que, como haviam previsto, torraram. Estavam até meio sujos de fuligem, e suados. A praça estava negra e silenciosa. Um pó preto de fuligem cobria tudo. Os corpos que haviam sido os shikis, e as estátuas, estavam todos carbonizados, aos pedaços, no chão. Os paralelepípedos do chão estavam fora dos lugares, os postes eram ferros derretidos, e o altar era apenas um grande amontoado de destroços.

-... Meu Deus. - sussurrou Leah, olhando aquilo.

-... Vamos andando. - chamou Tio Gon.

Mas, ao darem os primeiros passos, o barulho de helicópteros encheu o ar da madrugada. Em pleno ar, inúmeros helicópteros, que mais pareciam bichos cascudos "parentes" dos Minhotros surgiram no ar, materializando-se. Canhões de luz varreram o chão, e vários homens de cinza desceram por cordas, enquanto alguns helicópteros aterrissavam nos cantos menos destruídos. Era a Guarda Nacional, a elite mágica que atuava nos Chaos.

- Chegaram um pouco tarde, não acham? - xingou Tio Gon.

- Não conseguíamos atravessar o Chaos. Estava muito sólido, e o interior, instável. - disse um homem com voz de robô, igual aos que ajudaram os ingleses no Rio de Janeiro - Eu sou o comandante Heleno, Senhor Gon.

- Não conseguiram? Estava sólido demais? - gritou Leah, avançando - Quantas pessoas morreram aqui, agora!?

- As estátuas são ocas. - disse o homem - Os mortos que viraram shikis são perdas reais.

- Eu tinha alunos nesse meio! - vociferou, desesperada.

- Exaltar-se não irá adiantar de nada, senhora. - retrucou - Sabe melhor do que ninguém que se os bruxos que aqui agiram foram capazes de lacrar seu poder mágico, poderiam muito bem ter nos impedido de entrar. Não?

Leah se calou. De fato, foi algo realmente muito bem planejado.

Um dos grandes helicópteros "cascudos" pousou, e os garotos se aproximaram, para serem examinados pelos médicos. Carlão havia queimado o braço, porque ficou próximo demais da barreira. Os outros apenas lavaram o rosto, e tomaram água, sentando-se nuns sofás que o bicho "cuspiu" ao abrir a carapaça.

Um grupo de bruxos de branco e luvas saiu andando pela multidão com alguns bruxos da Guarda, e andavam com sacos pretos, e às vezes jogavam uma ou outra coisa dentro deles. Três deles subiram no altar, com dificuldade, escalando as enormes pedras, e, lá de cima, olharam ao redor.

- Brincadeira. - murmurou um deles - Que coisa horrível. Olha o que deveria ser a cruz. Virou um toco gigante de carvão.

- mas ainda assim está visível, heim. - comentou outro, mais pra baixo - Essa madeira de aroeira é mesmo forte. Sem contar que esse altar virou do avesso, na boa. Olha só as pedras da base, o concreto, a pedra sabão, a terra, tudo virou pra cima.

- Com certeza. Aqui foi mesmo o centro da explosão, o chão literalmente virou do avesso.

O homem olhou ao redor dos pés, pelo chão, e viu em meio aos destroços algo que lhe chamou a atenção. Parecia o cabo de uma espada. Estava gasta, queimada, imunda, mas ele percebeu claramente os brilhantes olhos de rubis dela. E, debaixo das rochas moídas, percebeu que alguns dedos carbonizados estavam pousados sobre ela.

-... Temos corpos aqui debaixo. - gemeu ele, pondo o lenço no rosto e se agachando, chamando o amigo - Ei, venha aqui.

Os garotos, Leah e Tio Gon perceberam o movimento na direção do altar. Tio Gon pousou as mãos sobre a bengala, com pesar:

-... Acharam os corpos. - murmurou.

O legista, com o pano no rosto, esticou a mão, mas, ao tocar a espada dos deuses, a mão do corpo que a segurava pela bainha se apertou, como se prendesse a espada.

- AAAH! CRISTO! - gritou o homem, caindo sentado.

-... Que foi? - perguntou o companheiro, que chegava ao seu lado.

Os dois médicos fizeram um sinal apressado para o resto da equipe, mas, dessa fez, apontavam os paramédicos, nos helicópteros, enquanto os soldados da Guarda começaram a retirar os destroços do altar.

- Temos dois sobreviventes! - gritou um dos médicos, com as mãos na boca - Rápido!

O corações de todos saltou para a boca, de alegria e espanto. Fernanda encheu os olhos de água, enquanto Leah largou todos para trás e correu para junto dos médicos.

Os homens removeram os destroços e encontraram um casal: Harry e Hermione. O rapaz estava deitado, os braços abertos, presos à cruz, negra, queimada. O ferro dos cravos havia derretido. A garota estava sobre ele, abraçando-o com força. Tinha o braço direito agarrado ao seu pescoço, e a outra mão segurava firme a espada. Estavam imundos, com muitas partes do corpo queimadas. Estavam também cortados, feridos, chamuscados e inconscientes. Estavam, de fato, completamente detonados. Mas... estavam vivos.

Com extremo cuidado, retiraram os braços de Harry da cruz - e dava para ver o outro lado pelo buraco nos pulsos dele. Colocaram os dois numa maca, imobilizados, e correram para os helicópteros.

Leah se aproximou, e percebeu que Hermione ainda estava agarrada com forca à Espada dos Deuses. Antes que o helicóptero se fechasse e subisse, a professora colocou as mãos sobre as de Hermione, e lhe sussurrou, baixinho:

-... Acabou. Pode soltar. Eu irei guardá-la em segurança. Descansem, agora.

Como mágica, Hermione afrouxou os dedos, soltando a espada. Leah se afastou, e Tio Gon se aproximou, enquanto os médicos subiam ao helicóptero e partiam:

- Esses meninos são... COF... não tenho palavras. COF. Ninguém sobreviveria a isso. Você sabe que não, Leah.

Leah olhava o helicóptero desaparecendo no ar. Ela e Tio Gon pareciam realmente entorpecidos com o que acabavam de ver.

-... O que acha, Tio Gon? – perguntou Leah, ainda olhando o céu.

- COF. – foi a "reposta".

-... Acha que aqui se repetiu o que houve no dia da morte de Lílian e Tiago?

-... O sacrifício de Hermione salvar Harry? ...Não sei.

- Será q o Amor os salvou?

Tio Gon apoiou o queixo na bengala, e disse:

- Os sentimentos são importantes para a magia. Muitas vezes, fazem a diferença. E o Amor sem dúvida é um sentimento, um comportamento um tanto atípico, em relação à sua interação com a magia. Não importa se o amor que os une é o amor de amigos, de amantes, de parentes. Antes de qualquer coisa, os princípios do amor incondicional estão presentes na amizade desses dois. E esses princípios estavam na ligação mãe e filho de Lílian e Harry. E estavam também na relação de sua mãe com você. São eventos que não podemos ignorar.

-... Algumas coisas fogem ao nosso controle, não acha? – suspirou Leah.

-... Eu prefiro pensar que eles contaram também com uma ajuda extremamente importante. Afinal, o Urro de Deus está muito acima do ritual macabro que matou sua mãe, e até mesmo de um Avada Kedavra. E por isso eu digo: a Espada dos Deuses sentiu o que unia os dois naquele momento... e os protegeu.

Leah mordeu os lábios, respirando fundo. Em seguida ela suspirou, olhando o que restara da Espada dos Deuses:

- Não sei se fico feliz e aliviada por ter tido a certeza do quão poderosos eles são e se tornaram... ou se fico triste e apavorada pelo mesmo motivo.

- É... bom. Não há nada mais pra se fazer aqui. Vamos embora. A vida continua.


Kojiro parou na frente da porta do apartamento no Rio de janeiro. Pôs a mão na maçaneta e suspirou. Ainda sentia no pescoço a sensação das mordidas da secretária. Quase todos os dias ela o encurralava, literalmente falando. E por mais linda e envolvente que ela fosse, e por mais à vontade que ela parecesse estar... era tão estranho. Não era a sensação de algo proibido, ou de traição. Era só... errado, sem graça. Sem sentido. Talvez fosse a falta de memória, ele pensava. Ou será que ele não se excitar pra valer com a secretária era indício de que ele era boiola? Vai saber, né? Mas boiola? Não. Ele entrou na sala, pôs a pasta do notebook no sofá de palha e almofadas e olhou para a cozinha, vendo o motivo que o levava a duvidar da própria boiolice: sua ex-esposa estava de pé num dos bancos, procurando alguma cosia na prateleira mais alta dos armários. Estava descalça, usava um pequeno, velho e surrado short, uma camiseta que tinha alguns furos na costura, e tinha o cabelo preso de qualquer jeito por duas canetas. Mesmo alta, ela tinha que ficar quase na ponta dos pés para enfiar a mão no fundo do armário. Isso acabava mostrando uma parte da tatuagem tribal que ela tinha na cintura, na altura do baixo ventre. No pé, mas essa bem à mostra, tinha um escorpião, também tribal e negro. Quantas outras tatuagens ela ainda esconderia debaixo daquela pequena e horrível roupa velha?

-... Oi. Cheguei. – avisou, meio tímido.

Leah o olhou, e saltou do banco para o chão:

- Boa tarde. – cumprimentou. Percebeu a cara dele, e se olhou – Ah, desculpe a roupa, não repare. Eu resolvi dar uma faxina nos meus armários de velharias, e tinha muita coisa mofada, por isso me vesti assim, pra não sair ferrando roupa boa. Agora mesmo tava procurando uma vasilha de vidro que a gente tinha, ótima pra misturar coisas. Queria arrumar uma salada de frutas. – e coçou a cabeça – Mas não acho de jeito nenhum. Devo ter quebrado ela em algum dos meus ataques histéricos, e não lembro. – riu.

Como ela podia ser capaz de arrepiar suas costas, tão sem sal e mal vestida daquele jeito? Era isso que Kojiro pensava. Maria era uma mulher perfeita, maravilhosa. Mas se ele lhe tirasse a maquiagem, o silicone e o terno engomado, o que sobraria? Não que a mulher na sua frente fosse linda por natureza, mas...

- Amanhã vou embora, já fiquei longe demais de lá. – disse Leah, referindo-se aos dias que ela estava passando ali no Rio de Janeiro, depois do incidente do Chaos – E você já está se virando bem.

- Ir e voltar deve ser cansativo para você. Seus alunos precisam de cuidados... não precisa se preocupar comigo. – disse Kojiro, tirando o blazer, a gravata e dobrando as mangas da camisa.

- Ah, agora estou tranqüila. Meus alunos já estão bem, e eu estou à toa. Não é nada. Acho que vou é ter uma sessão de mulherzinha em algum bom lugar aqui do Rio antes de voltar. – riu - Quer jantar o quê?

- Sei lá, qualquer coisa.

- Qualquer coisa Não tem. – murmurou, seguindo Kojiro com o olhar, que ia até a geladeira procurar algum suco.

- Ah... tá. Hum... podíamos pedir comida chinesa. Economiza louça pra gente, comer nas caixinhas. – sorriu.

- Boa idéia.

Uma hora depois, os dois se sentaram na cozinha, para comerem. Kojiro já havia tomado banho, Leah, não. Ficou vigiando a comida chegar, por pura ansiedade. Adorava comida chinesa e japonesa. Mas, no fim, acabaram jantando em silêncio, comendo com os hashis. Kojiro tinha muita vontade de perguntar sobre Maria, mas não tinha coragem. Leah percebeu que ele parecia incomodado:

- Que cara é essa?

- Bom... – pensou, antes de responder – Ando pensando muito... por que nosso casamento acabou?

Leah o olhou longamente, sem responder. Talvez pensasse num bom motivo.

- Foi culpa de quem...? Minha? – perguntou Kojiro, acanhado.

- Está se sentindo culpado só porque agora está com a sua secretária boazuda?

Kojiro gelou, com os pauzinhos na boca. Leah o olhava, com olhar estreito. Como diabos ela sabia?...

- Eu sinto o perfume dela em você. – falou, visivelmente amarga, voltando a atenção pro seu yakisoba.

- Eu não... – gaguejou – Eu fiz alguma coisa de...

- Não. – suspirou Leah, sem olhá-lo – Você foi fiel até o fim. Começou a ficar com ela... ahm... depois.

Depois disso, Kojiro se calou, voltando a comer. Mas a comida parecia ter se tornado difícil de comer. Leah levantou pouco tempo depois. Sozinho, Kojiro ainda pensou que nada daquilo fazia sentido. Mas se não tinha lembranças, como iria discutir? Quando já tinha limpado a mesa e subia as escadas, cruzou com Leah, descendo.

- Vai sair a essa hora? – perguntou, vendo que já era bem de noite.

- Dar uma volta. – disse, sem olhá-lo, parecendo rouca.

Kojiro sentiu o peito apertar, olhando as costas dela, até ela sair do apartamento. Não sabia o porquê, mas tinha vontade de ir atrás dela. Mas não foi. Inconscientemente, ele sabia SIM porque queria ir: Leah era forte, uma fortaleza. Um titã inabalável. Mas, uma hora... ela desabava. E quando ela desabava, era pra valer, e era Kojiro quem deveria estar lá para segurá-la nos braços, como sempre tinha que ser. Ela desabava feio, e sempre precisava de alguém forte o suficiente para ser capaz de reerguê-la: Kojiro, Lílian.

Mas, dessa vez, Kojiro não foi. E leah, longe de casa, teve de desabar sozinha, porque na hora em que chutou o fato de Maria estar com Kojiro, ela recebeu a confirmação. E teve certeza de que tinha perdido ele para sempre.


No dia seguinte, na parte da manhã, estava toda a cúpula da empresa em reunião. Passariam para Kojiro o último projeto da empresa, que Leah havia fechado na ausência dele. Por isso, ela também estava junto.

- Então essa é a minha última participação oficial na empresa antes das férias premio. – riu Leah, satisfeita.

- Que folga, heim? – riu Esteban.

- Não posso reclamar, mundo engravatado não é minha praia.

- Imagina, você fica muito gostosa de executiva. Mas, pensando bem, você fica melhor mesmo de jaleco branco. Uma delícia.

- Arrume um câncer de próstata que eu te dou um jeito. – sorriu, simpática.

- Ai, aí também não. – gargalhou.

Kojiro, com as mãos na boca, olhou para os dois, levemente descontente. Ainda não havia começado a reunião, e era normal ficarem se distraindo antes. Era a primeira vez que desde a noite anterior que Leah parecia feliz, descontraída. Mas rir logo da gracinha de Esteban fez Kojiro sentir uma ponta de mau humor nascer nele. Depois, olhou Maria, e percebeu que ela o olhava. Também correu do olhar dela. Não estava a fim de trocar olhares com ela, muito menos com Leah por perto, ainda que a ex-esposa nem parecesse o estar notando.

No coffee-break da reunião, Maria laçou Kojiro na saída do banheiro.

- Não! ...Aqui não! – reclamou, livrando-se dos abraços e beijos dela.

- Toda hora é hora, todo lugar é lugar. – riu, com a boca em sua orelha.

- Maria, não. – disse, grosso, mal humorado.

- Nossa. – reclamou, se afastando – Não precisa ser grosso.

- Quando eu digo não, é não. – repetiu – Se você está há tanto tempo comigo, deveria saber, não?

- Não. – disse, mentindo na cara dura – Você não era assim. Era bem diferente.

- Então fiquei assim depois do acidente.

Se tinha uma coisa que deveria ser respeitada em Kojiro era o seu mau humor, que era coisa rara. Se ele dizia não, era não. Ele até seria educado para dar um "não", exceto se você fosse alguém muito chato, especialmente em dias de mau humor pra ele.

- Deve ser a idade chegando. – alfinetou Maria – Chegando aos quarenta, não agüenta o tranco.

Maria queria, obviamente, atingir a sexualidade e virilidade dele, os grandes pontos fracos dos homens. Ela não tinha nem trinta anos ainda, ele, quase quarenta, apesar da invejável forma física. Kojiro parou, e virou-se para ela. Pensou, e disse:

- É. Deve ser coisa de velho, mesmo. Ainda bem que você reconhece. – e saiu, indo para a segunda parte da reunião, deixando Maria de pé no corredor, muito decepcionada por não ter conseguido ofendê-lo. No caminho, Kojiro acabou encontrando Leah, indo embora.

- Ah, te achei. – disse a inglesa – Estou indo para Ouro Preto. Estou de carro, não quero chegar lá de noite.

-... Mas já?

- Sim. – riu Leah, lembrando-se que aquela frase era muito usada por ele durante os anos de casamento, toda vez em que tinham de se separar – Tenho que ir. Fim de semana que vem eu apareço. Ou você aparece por lá. Seria ótimo.

Kojiro ficou particularmente feliz com o convite, apesar da simplicidade e da inocência dele.

- Certo. Então... boa viagem. – sorriu. E, um pouco sem jeito, abraçou Leah – Tome cuidado. Vá com Deus.

- Amém, fique com Ele. – sorriu em resposta, retribuindo o abraço – Passo em casa, depois saio de vez. Tchau. Boa sorte.

Leah saiu, e Kojiro ficou olhando-a. Depois, ele levou o pulso direito ao nariz, e sentiu o perfume que ela tinha "deixado" depois do abraço. Como um menino bobo, respirou profundamente, pondo as mãos no bolso, todo bobão. Seu corpo e seus braços ainda pareciam sentir a pressão de abraçá-la. E era tão bom. Se pudesse faria de novo. Se pudesse, ele faria todo dia, toda hora. A vida toda. Mesmo que ela não desse o menor valor a isso.


Levou algumas horas até Hermione realmente acordar e ter consciência de onde estava. Viu-se deitada numa cama de hospital, respirava por um aparelho colocado no nariz, e tinha inúmeros eletrodos pelo peito, e nas laterais da cabeça. Pelo corpo, vários curativos que ela percebeu ser na maioria um gel gelado para queimaduras. Olhou para cima e viu um bichinho redondo, como um pomo grande, batendo asas freneticamente. Tinha um grande olho azul e era cinza-claro. Piscou para ela e voou pela porta, atravessando-a como um fantasma.

-... O que era aquilo? – perguntou. Mas ainda sentia-se sonolenta. Percebeu que, de fato, estava em segurança, e adormeceu. Acordou minutos depois, e olhou para o lado. Sorriu para a pessoa sentada ao seu lado, dizendo – Oi... tá morena de novo.

Leah sorriu largamente, passando a mão na cabeça:

- É... de repente, eu já não em sentia eu. – riu – Então, já tenho que aturar esses olhos azuis, achei que era hora de voltar a ser morena. Morenas de olhos claros sempre são mais raras e bonitas. Mas, quem se importa, raios, como é que você está?

- Estou boazinha. – sussurrou.

-... Bellatrix me mandar pintar o cabelo também pesou na decisão. Filha da puta do inferno. – murmurou, parecendo ignorar a aluna, ferida – Mocréia arrombada.

- Nossa! – riu Hermione, com dor.

- Bom, em uns dois ou três dias você tem alta. Sabe, você foi incrível. Na verdade... ninguém achava que vocês fossem sobreviver. No duro.

- É.

Leah a olhou. Hermione silenciou. A professora estranhou:

-... Não vai perguntar de Harry?

- Eu sei que ele está bem. – disse, calma.

- Confiante, você.

- Não é isso... não sei. Apenas sei que ele está bem. Não está?

A professora ficou quieta, tentando fazer cara de velório. Mas baixou a cabeça, sorrindo:

- Ok, não vou conseguir tirar uma com sua cara. Harry está em casa. Muito melhor que você, aliás. Muito, muito mesmo.

- Não falei? – riu – Que bom.

- Estranho sua reação. Não acha que está meio detonada?

-... Estou bem na medida em que posso estar. Fico feliz por isso.

Leah a olhou longamente. E disse, levemente nervosa:

- Hermione... você e Harry ainda não entenderam a gravidade do coisa. O tamanho do problema.

- Como assim?

-... Vocês sobreviveram ao impossível, Hermione. Ninguém... nenhum ser vivo sobrevive àquele ataque. Alguns antigos até chamaram o feitiço de Urro de Deus! Na boa, eu achava um nome imbecil, mas depois de ver e viver o que vi e vivi, ele é um nome bastante justo. Ninguém, eu digo ninguém poderia sobreviver àquilo, mas vocês sobreviveram, mesmo sendo o CENTRO do negócio!

-... E é tão ruim assim ver nós dois vivos? – perguntou, em tom baixo, juntando as sobrancelhas.

Leah se engasgou:

- Não! Claro que não... só que é... assustador. Improvável.

- Eu sempre acreditei em lógica, racionalidade, números, regras e estatísticas... – disse Hermione – Mas depois de ter me tornado esse tipo de bruxo que vocês chamam de bruxo espadachim, cavaleiro do apocalipse, enfim... sei lá... essas coisas... começaram a perder um pouco do seu sentido pra mim. Fazemos coisas tão...

- De fato, fazemos coisas muito mais legais que bruxos comuns – sorriu Leah – Modelamos e usamos nossa magia da forma que bem entendemos, ao nosso bel prazer. Ainda usamos varinhas, mas é quando deixamos elas de lado que tudo fica legal.

- Ao abandonarmos a varinha... abandonamos nossas tradições... e junto com ela, a diplomacia e as limitações... e é isso que excita. – sussurrou. Depois, puniu-se em pensamento – Meu Deus, o que estou dizendo?

- Você é uma boa bruxa espadachim. – riu Leah – Bom... vou deixar você descansar. Pelo que vejo, está boa mesmo. Voltará logo para casa. Ah, Harry está sem os movimentos das mãos até os próximos dias, e tem muita dificuldade de andar. Até os tendões e músculos se reconstruírem, ele depende da gente de novo, e não sai da cama. Você vai ter que voltar a paparicar ele de novo.

- Puxa... ele deve estar arrasado. – lamentou.

- Arrasado? Arrasado o cacete, aquele sem vergonha não vê a hora de você voltar para mimar ele! Está escrito na testa dele!

Hermione riu. Leah se levantou, despediu-se, e foi pra casa.


Tio Gon trabalhava numa velha choupana de pau a pique, no alto de uma serra úmida e enevoada, cercado de mata atlântica verde. O chão era de terra escura e pedras redondinhas. Um pequeno riacho transparente cheio de pedras corria ao lado, e inúmeras moitas de maria-sem-vergonha cercavam a casa, o terreno, e o riacho. Hermione se aproximou, e vou que o velho trabalhava numa mesa grande e grossa de madeira de aroeira, no centro do casebre. Atrás dele, um grande forno a lenha aceso, sem o tampo de metal. A luz das brasas e chamas avermelhava era luz do lugar.

- O senhor está forjando? Desculpe vir sem avisar, mas disseram que o senhor estava usando a Espada dos Deuses... – disse, educada, mas parecendo interessada.

- Se aproxime, garota. COF. – disse, afastando-se da mesa e indo para outro lugar. Parecia um mecânico, estava imundo de um pó preto e suava – Se recuperou bem, heim?

-... É. Saí hoje de manhã do hospital. – disse, olhando ao redor. Parecia mais um casebre de tortura -... Forjando o quê?

- Agora, nada. Estava cortando couro de dragão.

- Pra que? – perguntou, olhando para a mesa, onde tinham várias tiras do escamoso couro negro.

- Para consertar a menina que salvou vocês.

- Menina que nos salvou...? – riu – Bondade sua.

Tio Gon pegou algo grande e comprido, na mesa do canto, apoiada num grosso pano encardido e esticou para Hermione. Ela viu-se de frente para o cabo da Espada dos Deuses, ainda completamente chamuscada. Diferente da bela arma de sempre, estava suja, apagada e gasta. E sua empunhadura não tinha mais o trançado de couro: era apenas o metal forjado encaixado no começo da lâmina.

- Mexa o cabo. – disse o velho.

Hermione pôs os dedos na extremidade do cabo da espada, e sentiu que ele estava visivelmente frouxo. Não prendia a lâmina direito, como se tivesse uma folga.

- Está vendo? É por isso que tanto você quanto Voldemort perceberam ter algo de errado com ela, apesar de já demonstrar ser muito forte. E é por isso que você e Harry se salvaram. A empunhadura está frouxa. Não se prende direito ao corpo da lâmina. Essa folga mínima faz uma grande diferença para uma arma de tal perfeição. Parte do poder se dispersa antes mesmo de chegar à lâmina. Por isso seu braço doía, por isso a espada ressoava como um diapasão. E... por isso você e Harry não morreram.

-... Por causa da Espada dos Deuses?

- Sim. Você tocou Harry descalça, serviu de pára raio. As espadas mágicas são parte dos bruxos espadachins que as usam. Você estava disposta a morrer com Harry. Seu sentimento de sacrifício, no fim, era um sentimento de alguém que preferiu morrer com uma pessoa, a viver sem ela. Era um sentimento de desejo de morte, e desejo de vida ao mesmo tempo. Por isso o pára raio tornou-se a espada. Ela sugou a força do trovão e o dispersou. E se destruiu por completo.

Hermione ficou quieta. Olhou a espada, sentindo certa compaixão dela, apesar de saber que, no fim, era só uma arma mágica.

-... Ela tem conserto?

- Ninguém conserta a Espada dos Deuses. – disse, óbvio.

- Quer dizer que então... ela "morreu"?

- Claro que não. ELA SE conserta.

-... Isso quer dizer o que, então? Que a minha espada é auto-limpante? – perguntou, cruzando os braços.

- Mais ou menos. – disse, sossegado. Ela colocou a lâmina na mesa e desmontou a empunhadura, levando para o outro lado da cabana. Ele usava um avental grosso, e luvas de dragão, também grossas, e, ainda assim, estupidamente pretos de tão chamuscados. Hermione se aproximou da mesa, e esticou os dedos para a lâmina da Espada dos Deuses, mas o velho gritou – Não toque! Tocar uma lâmina dessas com as mãos nuas é pedir pra ter o corpo implodido.

Hermione se assustou. Ela se aproximou de novo, apenas esticando os olhos, olhando início da lâmina, que ficava escondida dentro da cabeça do dragão, na empunhadura.

- É que tem alguma coisa escrita aqui. "Onde houver trevas, que eu leve a luz". – Hermione pensou – Estranho isso estar escrito numa espada condicionada à maldição e ao mal.

- É uma parte da Oração de São Francisco de Assis. – disse Tio Gon, também parando pra pensar - ...Gosto dele. Muito sábio. Dizia que "Não adianta ouvir o canto dos pássaros. Tem que se entender a letra".

Hermione riu, concordando. Tio Gon se aproximou com alguns utensílios.

-... Vamos concertar a bicinha. – murmurou, pigarreando.

- Posso ajudar? – perguntou, tímida.

- É perigoso. – resmungou.

-...Por favor.

Tio Gon a olhou. E concordou, mas mandando-a pegar pendurado num canto da cabana um par das luvas que ele usava. Hermione e o velho ferreiro novamente uniram as partes da espada. Eram três furinhos onde se encaixavam os pinos. Tio Gon usou para essa trava caninhos transparentes muito brilhantes, que pareciam vidro. Ele não parecia muito feliz de ter de usar aquilo, porque achou que poderia colocar algo melhor, mas que, de fato, o metal que tinham usado como prego era de baixa qualidade e provavelmente auxiliou em cair a qualidade dela. Hermione perguntou do que se tratava, e ele disse simplório que o metal antigo era prata pura, e que era um pecado colocar aquilo na espada, então, por isso, ele pegou os pinos de diamante e os colocou, porque "daria uma liga e estabilidade" muito maiores.

O velho martelou os pinos na espada, pregando-os com firmeza. Para isso ele usou um martelo incandescente, mágico. A cada pancada, estrelas e pequenos raios saltavam e percorriam o corpo da espada, e os olhos de rubi da espada, que estavam vermelho-escuro, faiscavam vivos novamente, a cada pancada. Hermione pressionava a lâmina na mesa, usando as luvas e um pano de tecido de couro de dragão. Tio Gon parou de martelar, e suava. Hermione também ofegava, tirou as mãos da espada e soprou-as, sentindo as palmas queimarem. Então ela entendeu porque todos os utensílios de forja mágica eram tão queimados, sempre.

-... Isso queima, heim? – gemeu.

- Queria o quê? – suspirou – Bem, estamos acabando.

Tio Gon pegou a espada, colocou-a na bainha, e pegou as tiras de couro de dragão. Deixou as luvas na mesa e foi parar fora da cabana. Sentou-se num banquinho, de frente para a pequena cachoeira do fundo do terreno, e pôs-se a caprichosamente trancar o couro no cabo da arma, tampando os pinos novamente, com firmeza. Hermione foi até o riacho, agachou-se, lavando as mãos e o rosto na água gelada, e voltou.

- Senhor Gon... – perguntou, tímida – Acha que eu deveria dar um nome pra Espada dos Deuses?

O velho riu. Ela coçou a cabeça, sem graça:

- Bom... é que, se de repente, eu ficasse com ela, eu poderia dar um nome pra ela, não é a tradição?

- ...Essa espada já está corrompendo até mesmo você, garota. – riu o velho.

- Na... não! Eu só... bem... ah, certo. Desculpe.

- Não. Sei. – suspirou – Acho perigoso alguém usar essa arma. Mas você, apesar de jovem e inexperiente, se mostrou alguém muito competente.

-... É que talvez... se eu desse um outro nome pra ela... eu me sentiria menos insegura se tivesse que usá-la de novo.

- Você não tem espada mágica. – comentou – Não acho que permitiriam que você 'ficasse' com a Espada dos Deuses. Mas, se quiser, coloque o nome que quiser.

-... Então não é besteira? Ouvi Voldemort me dizer que batizou a espada dourada dele de Serrote.

- COF. É normal. Os bruxos espadachins são considerados uma seita mágica extremamente fechada. Eles têm seus costumes. Talvez tenham começado a dar nomes as suas armas como uma forma de fazer seu destino e sua rotina perigosa parecerem menos rígidas. Voldemort batizar sua espada serrada de Serrote não só é bem sádico como mostra que a casta de bruxos espadachins está mesmo de volta. A Elemental que Kojiro trouxe para Leah, que está em poder de Voldemort, é chamada de Um. Porque ela foi a primeira espada de forja errada que deu certo, se você se lembra da divisão das espadas. A espada que Lílian Evans, mãe de Harry usava, é chamada de Matadora de Dragão. Lílian a apelidou de Matadragão.

- Matadragão? – riu Hermione – Fica meio que trava língua.

- De propósito. COF. Na verdade, esse nome a Lílian deu por pura arrogância. Ela dizia que sua espada era a única capaz de bater de frente com a Espada dos Deuses. Daí, como o símbolo dela é a grande cabeça de dragão da base... Enfim... quase todo bruxo espadachim dá um nome particular à espada que usa. Leah, na juventude, usava duas espadas mágicas gêmeas, de qualidade mais baixa, que ela chamou de Lalá e Lelé.

Hermione riu. Era a cara de Leah batizar coisas com esses nomes.

-... Dumbledore durante muitos anos tinha uma, que ele chamava de Zuzubinha, ou de Zuzu.

-... Nossa. – espantou-se a menina. Alguém era pior que Leah. Dumbledore! Que mundo perdido!

Tio Gon terminou de trançar o cabo da espada com extrema firmeza e capricho. Levantou-se, e entregou a arma para a menina:

- Pronto. Está feito.

-... Obrigada. – agradeceu. Hermione olhou a espada, mas não se animou. Ainda parecia velha e gasta – Mas ela vai ficar assim, feia?

- Você tem que fazer ela ficar boa de novo. Encher ela de energia. Só aí ela voltará a ser o que era.

- E como faço isso?

- É só usá-la.

Hermione o olhou, em silencio:

- Mas... e a maldição? – perguntou.

-... Depois de tudo isso, e depois de querer até dar apelido pra ela... você ainda acredita em maldição? – perguntou, francamente.

- Mas são tantas histórias, que... – a inglesa se calou, olhando a espada.

- É bom usar um pó de pedras mágicas nela, para poli-la. Vou ver se ainda tenho lá dentro. Se não tiver, você pode comprar.

-... É. Acho que o senhor tem razão, senhor Gon. – disse a garota, olhando a espada – Ela é boazinha.

- Boazinha! – exclamou o velho, de dentro da cabana – Que humilhante pra ela!


Harry estava recostado na cama de casal, em seu quarto. Olhava a TV, sem prestar muita atenção no que passava. Seus punhos e mãos estavam enfaixados, esticados ao longo do corpo, imóveis. Ele não mexia os braços, pois ainda estavam em recuperação. Era um tratamento bem doloroso: Tio Gon enchia os furos do pulso e dos pés de pomada, e à medida que ia regenerando, coçava horrores.

- A sorte minha é que não preciso te ajudar no banheiro. – riu Hermione, entrando no quarto com uma bandeja, servindo de enfermeira de novo.

- Sorte sua, azar o meu. – sorriu Harry, em resposta.

- Você se vira com magia? – perguntou, pondo a bandeja na mesa de cabeceira e sentando-se ao seu lado, na cama – Como você faz? Levita o cocô?

- Não. Sublimo ele. Assim, passa do estado sólido pro gasoso.

-... Credo.

Um instante de silencio, e os dois começaram a rir.

- Que falta de assunto, heim? – riu Hermione, passando as costas da mão nos olhos.

- Total. Mas sabe, eu gosto de não usar as mãos para tomar banho, e usar mágica pra fazer as buchas, sabonetes e toalhas se mexerem sozinhos. Eu em sinto naquele castelo da Bela e a Fera, onde tudo tinha vida.

- Imagino. E se você consegue fazer tudo isso, é porque pelo jeito tem pleno controle da vontade, não? Bom... está frio o tempo lá fora. – comentou, mostrando a bandeja – Fizemos sopa de fubá com couve e ovo. Está uma delícia.

- É... esse cheiro estava me torturando!

Hermione encheu a colher e esfriou, soprando. Mas, ao esticá-la para Harry, ele disse:

- Sem querer ser chato, mas... Eu também consigo comer sozinho.

- Ah, desculpe. – riu, sem graça, devolvendo a colher pro prato – Esqueci disso. Acho que ter que ficar por aqui cuidando de você me fez lembrar o quanto ficou debilitado quando ficou cego. – ela suspirou, meio penosa – Desculpe, não estava achando que você...

Mas Harry a cortou, sorrindo:

- Mas se você quiser lembrar-se dos velhos tempos, eu juro que não vou reclamar.

Hermione o olhou, sem graça.

-... Só que ninguém pode ficar sabendo. – riu Harry.

E, assim, ele se deu ao luxo de, mais uma vez, ter Hermione de cobaia. Mas ela volta e meia parava de servi-lo, para rir.

- Se você ficar avacalhando, morro de fome! Me trate logo e decentemente. Ser continuar assim eu te demito e arrumo um canudinho. – reclamou Harry.

-... Tonto.

Depois, Hermione tirou do bolso uma garrafinha de chocolate recheada com licor, e esticou-a na mão:

-... Quero ver você comer isso sem as mãos, e sem enfiar tudo na boca.

Harry sorriu, superior:

- Ah, ta duvidando?

O doce voou da mão de Hermione, e pairou na frente de Harry. Ele se desembrulhou, e o rapaz abriu a boca, e ergueu o rosto. No alto, a garrafinha se partiu, e o licor escorreu, pingando na boca de Harry. Quando estava quase acabando, Hermione cutucou Harry com o dedo, na altura das costelas, e ele de desconcentrou. Por sorte, conseguiu pegar os pedaços da garrafinha, que despencaram, mas sua boca e seu queixo se melaram de licor.

- Ah, droga! – reclamou, mastigando o chocolate e tentando passar a língua no queixo para limpar, já que não conseguia usar as mãos – Olha o que você fez! Não vale! Me fez errar.

- Incompetente, heim? – gargalhou Hermione.

- Nossa, me melei inteiro. – reclamou, se esforçando para tentar limpar a boca.

- Deixa que eu limpo.

Ela passou a língua na no dedão, e o esfregou no queixo de Harry, limpando.

- Pronto, limpo. – sorriu, chupando o próprio dedo – É bom, né?

- É, gostoso mesmo. Valeu. Eu já tinha comido uma dessas, vende no Castelo, né? Puxa vida... não vejo a hora dos punhos sararem. Mesmo porque se Leah visse você me dando comida na boca, mermione de Hermione

mataria nós dois. – Harry pensou alguns instante e disse – Sabe... tive uma conversa com Leah que me preocupou.

- Sobre o quê? – perguntou Hermione.

- Estávamos conversando logo que acordei... ainda estava muito debilitado, mas lembro dele do que ela disse. Eu estava aqui deitado, e escutei Sirius me elogiar, dizendo que eu era um bruxo muito mais poderoso do que tinham imaginado que eu seria. Ele saiu e perguntei pra Leah se algum dia eu seria capaz de ser um Auror Supremo tão bom quanto minha mãe foi. E ela respondeu que eu conseguiria ser melhor que ela. Eu só teria que ter coragem para matá-la quando chegasse a hora. Disse que foi a única cosia que minha mãe não teve coragem de fazer na vida.

- ...Entõa Leah disse que você se tornaria mais forte que Lilian se matasse ela, a Leah, na hora certa? Que hora seria essa?

- não sei. Mas me deixou preocupado.

- Ah. Acho que deve ser só peso de consciência... você sabe... o passado dela, e tudo mais.

Harry suspirou penosamente:

- A gente tem uma tutora meio atrapalhada das idéias, não?

Hermione riu, olhando as cobertas xadrez que Harry usava. Ela sentou-se mais para cima, próximo dele, e apoiou as mãos aos lados Harry, tombando o rosto, olhando-o de frente. O olhou, meio séria, e disse, depois de alguns instantes:

-... A propósito, já falaram pra você sobre o que houve na praça?

- Já.

Os dois silenciaram de novo. Hermione apoiou-se nos joelhos, virando-se de lado. Harry suspirou, recostando a cabeça na parede, jogando o peso do corpo nos travesseiros:

- Trocando em miúdos, sobrevivemos a alguma coisa da qual não deveríamos ter sobrevivido.

- Sim. Mas o que deveria ter sido motivo de felicidade, eu acho, só gerou medo, desgosto e incerteza. – murmurou, voltando a olhar as cobertas de Harry – Como se não tivessem gostado de ver a gente sair vivo daquele tal Urro de Deus.

- Talvez estejam assustados com a possibilidade de sermos... sei lá... como monstros.

-... Talvez tenha sido mesmo a Espada dos Deuses que ajudou.

- Talvez sejamos mesmo monstros.

Hermione olhou Harry, chocada. Ele sorriu, sossegado:

- Não importa. Aconteceu. Estamos de volta. Devemos seguir em frente. Não era isso que você deveria dizer?

- Eu sei, mas ainda me preocupo. Não me lembro de muita coisa, então, não ajuda.

- A última coisa de que me lembro... – pensou Harry – foi de você me abraçando, e de ver minha vista ficar branca de repente. Mais nada. Preso naquela cruz, a falta de sangue acabou me deixando meio zonzo...

- A última coisa que me lembro também foi na hora em que a ventania parou, e me abracei a você. Fechei os olhos, e senti o corpo estremecer, e a Espada dos Deuses também tremer como nunca, a ponto de quase escapar da minha mão.

-... Eu não vou me esquecer tão cedo do que você me disse naquele altar. – sussurrou Harry.

-... Não me arrependo daquilo. – disse Hermione, segura – De verdade. Não me arrependo. Eu faria tudo de novo, se tivesse de fazer.

- Obrigada. – sorriu Harry, satisfeito – Você é a melhor e mais fiel amiga que alguém poderia desejar ter. Na verdade... não só amiga. – suspirou – Se eu for parar pra pensar, Hermione, você representa pra mim praticamente tudo o que eu tenho de bom e de mais precioso.

Hermione sorriu, olhando para baixo. Suspirou e olhou para ele:

- Que grande responsabilidade a minha, heim?...

- Você não vai ter problemas em lidar com isso. – riu - Eu te conheço.

Em seguida, silenciaram, se olhando. Instantes depois, Hermione inclinou o rosto jogando o corpo contra Harry, na cama, e o beijou. Ah, como era bom e horrível. Era horrível pelo fato de Harry não poder erguer os braços e abraçá-la com toda a força que poderia abraçar. Malditos pulsos. Mas era bom por todo o resto. Ele suspirou profundamente, fechando os olhos. Seu corpo se amolecia e se arrepiava cada vez que a língua dela silenciosamente procurava a sua, pressionando-o contra o encosto de travesseiro. Ali ele era um completo refém dela, sem poder se mover, e como Harry estava amando isso. Mesmo sem poder tocá-la, ele sentia aquele beijo de forma extremamente mágica e intensa. O único toque que ele sentia era o do rosto de Hermione, sua boca, sua respiração. E, mesmo assim, aquilo mexia com todos os seus sentidos e todo o seu corpo, como ninguém tinha conseguido mexer antes.

Ela respirou profundamente, afastando o rosto. Mas ainda lhe beijou mais algumas vezes, apenas lhe tocando com os lábios, de leve, como se quisesse procurar por mais algum sabor de licor ou chocolate.

-... Sabe... – sussurrou Hermione, ainda com o rosto inclinado, próximo o suficiente de Harry a ponto de sentir a respiração dele, olhando-o – Eu realmente acreditei que iríamos morrer naquela hora. – e lhe beijou de novo.

- Quer saber...? Eu também achei. – disse Harry, em tom baixo, também olhando para ela, sem se afastar – Achei que fosse o fim da linha. De verdade. – e também lhe deu outro beijo.

-... Eu estou muito, muito feliz de ver que saímos vivos daquilo. Na verdade, também estou um pouco assustada. Porque se sobrevivemos àquela coisa, o que poderia vir daqui pra frente?

- Acredite, estou sentindo o mesmo que você, Mione. – concordou Harry, sussurrando, ainda com o nariz quase colado ao dela – Mas, sabe... apesar de todo mundo olhar nós dois como se fôssemos dois ETs, ou duas entidades de alta periculosidade... isso não é tão ruim assim. Eu estou vivo, e você também. Não posso querer mais nada.

-... Nem eu. - suspirou, satisfeita, mais uma vez pressionando o rosto contra o dele, lhe beijando, como se fazer aquilo jamais fosse cansá-los. E, quando finalmente se separou, sorriu do olhar mole de Harry.

- Quer ir passar o dia comigo em São Tomé? – perguntou Hermione.

-... Onde? – também perguntou, se ajeitando na cama, respirando fundo.

- São Tomé das Letras – repetiu – fica no sul de Minas. É um lugar no alto de uma montanha, cheio de hippies, gnomos, duendes, cristais, bruxos, ETs e outras coisas estranhas. – riu – Tenho que ir lá comprar um pó de cristal mágico. Tio Gon disse que são excelentes para poder limpar espadas mágicas, e a Espada dos Deuses está destruída, coitada. Eu vou de manhã, compro, e volto de tarde ou de noite, porque no dia seguinte tenho uma aula de botânica muito importante na Selva Amazônica.

- Ah, eu iria, mas não posso, com esses braços fodidos.

- Não, sem problema, Harry, eu só vou daqui uma semana e pouco, nas vésperas da Lua Cheia. É quando os tais hippies da cidade esfarelam o cristal.

- Ah, ótimo. Combinado, então. Até lá to bom.

- Certo. Vou indo levar essas louças. Depois volto. – sorriu, pegando a bandeja e espremendo Harry contra a parede, lhe dando outro apertado beijo antes de sair – Até.

-... Até.


Leah se sentou na frente de uma moça jovem, numa casa de classe média, no subúrbio de São Paulo. O assunto: o acidente que matou Vitória. A moça era viúva do motorista. E vinha conversando com as famílias da vítima. Leah jamais se sujeitaria a tocar no assunto, mas era Kojiro quem havia prometido conversar. Agora, depois do acidente, cabia a Leah.

Sem a mínima compostura ou intenção de ser gentil ou simpática, Leah permanecia seria e de óculos escuros.

Roseane, a viúva, notou a atitude de Leah, e não se abalou. Ao contrário, sentou-se na frente dela, e disparou:

- Senhora Leah... imagino o quanto deva ser ruim vir tratar deste assunto. Mas é algo que não posso ignorar. Eu e meu irmão viemos, já há alguns meses, procurando mais detalhes e fatos do acidente com o ônibus que matou sua filha e meu marido.

-... E porque tocarem num assunto já resolvido, trágico e desagradável? – perguntou Leah, seca.

- É porque... acredite ou não... – disse Roseane, respirando fundo – Temos a suspeita de que aquele acidente... não foi um acidente.

Leah sentiu o corpo gelar.

-... Como?

- Isso mesmo, Leah. Achamos que aquele acidente... foi premeditado.


N.A 1: Quase vocês ficam sem EdD hoje. Ontem fui parar no hospital, comi alguma coisa que me deu uma puta reação alérgica, tive de tomar sedativo e antialérgico na veia. Tô um bagaço. Se por acaso vocês encontrarem a fic atrasada, já sabem o motivo. Forças maiores.

N.A 2: Alguma coisa de muito importante no capítulo? Acho que não. Gosto da cena do Kojiro olhando Leah desarrumada. É tão... doce. Hehehehe. Também gosto da cena da Hermione com o Tio Gon, arrumando a espada. Curiosamente, a primeira cena de beijo HH da EdD que veio à minha mente, foi a cena desse capítulo, com Harry sem poder mexer os braços, à mercê de Hermione. Se vocês procurarem nas fanarts da EdD, vão achar o desenho.

N.A 3: Aceito sugestões de nomes para as espadas mágicas! Acho que ou fazer um concurso cultural, hahahahahha. XD

N.A 4: Maria Sem Vergonha é uma moita de planta com florzinhas rosas, roxas ou brancas, que dá muito em serras e lugares úmidos. Procurem no Google por fotos de Maria sem vergonha, ou Beijo. Apesar de que a Maria Sem vergonha é mais nativa e selvagem que o Beijo, ela tem a florzinha menor, as folhas verde escuro, o caule verde claro, e suas sementes são baguinhas verdes que a gente aperta e ela explode.

N.A 5: A EdD está sendo publicada na Floreios e Borrões (socorro) Vocês podem reler a Azkaban lá, semanalmente. Ou não. xD

N.A 6: Até o próximo capítulo! Os próximos capítulos estão mais voltados para os segredos em torno do acidente que matou Vitória, filha da Leah.