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Era tarde demais quando percebeu os giroflexes a sua frente, lançando sua luz colorida e, para ele, agourenta. Preso por toda sua agitação, também acabou preso na fila de carros que agora ia lenta, se preparando para passar pelos oficiais tais quais bois a caminho do abate, encurralados e confusos. Devia ter decidido melhor o que fazer. Contudo, quando seu primeiro plano se desfez, perdeu qualquer frieza que o revestia e recorreu ao impulso para resolver tudo. Indisposto em ir a Casa Vessalius e lidar tão cedo com Dorothy, Decker começou a fazer o caminho que o trouxera ali.
Agora, era barrado por uma blitz. Não tinha medo nem preocupação com as consequências daquele encontro porque de qualquer modo já fora condenado a conviver com a pior das penas – sua derrota.
Por isso que ficar em Nova York não lhe era mais atrativo. Como é que viveria em uma cidade aonde não poderia ser rei? Tudo lhe era negado ali e ofertado a seu rival… Decker não queria mais estar em um lugar que contava com Heero como habitante… em Bruxelas ele podia ter o que queria e ser quem era. Lá, era ele quem comandava. Nunca devia ter voltado.
Abandonaria tudo. Nada lhe pertencia ali, de qualquer modo. Nem se importava de abrir mão de sua disputa profissional com Heero. Perdera completo interesse, ferido demais, inconscientemente vexado e traumatizado demais para expor-se ao fracasso outra vez. Não guardaria nem as lembranças daquele momento de sua vida.
O policial, estranhamente, fez sinal para ele encostar.
_Algum problema nos faróis?
Decker encarou o policial de expressão rígida e face ironicamente enrugada, ultrajado, contudo, ao consultar o painel, finalmente notou que viera dirigindo desde The Wing com os faróis apagados. Estalou os lábios e assentiu, a fúria crescendo por dentro.
_Documento.
Procurou pela carteira por quase um minuto, fazendo um péssimo papel, e assim que o policial recebeu sua habilitação, comandou:
_Desça do carro.
Decker bufou e obedeceu, revirando os olhos.
_Então, senhor Evangeline… o que houve com você? –e o homem olhava intrigado para os machucados e manchas de sangue que Decker trazia. Só então o rapaz deu-se conta de quão dolorida estava a bochecha que Relena ferira com o anel.
_Não foi nada, senhor. –rouco e contrariado, apresentou, meneando a cabeça.
_Se não se importa, vamos fazer o teste do bafômetro agora. –e com pouca polidez na voz, dissonando da escolha de palavras feitas, o policial informou.
Decker empertigou-se, mas sabia que quanto mais resistência oferecesse, mais culpado ficaria.
_Não vejo por que. Estou em perfeitas condições… –e ousou retrucar, embora tenha fabricado um timbre brando para isso.
_Sei… –e o policial murmurou, contemplativo. –Brigou com a namorada? –mas retornou aos ferimentos no rosto angelical do rapaz.
_Sim, foi isso… ela jogou um vaso em mim.
_Essa menina tem uma pontaria, não?
_Policial, por favor, deixe-me ir… tenho assuntos urgentes em Nova York.
_Depois de soprar aqui, você vai… Agora, fique à vontade. –e sem nunca expressar nada com a voz, o policial ofereceu o canudo do equipamento para Decker.
Que humilhante…
Entretanto, ele obedeceu.
_Olha, rapaz, sabemos que está tendo essa grande festa lá em The Wing e por isso viemos aqui ver se pegávamos algum riquinho espertalhão tentando voltar para casa meio alterado, sabe?
Decker recebeu o comentário com nojo e indignação… rangia os dentes tentando controlar a ira que queimava dentro de si, os impulsos de espancar aquele velho policial e desaparecer dali, ir direto para o JFK e entrar em qualquer avião em rumo da Europa. Porém, não podia piorar sua situação ali por coisa tão pequena.
_Como você… –e depois de estudar o mostrador do bafômetro, o policial resmungou. Decker, que havia se fechado em seu descontentamento ferrenho subitamente despertou. –Acho que isso fica comigo agora. –e o policial prendeu a carteira de habilitação de Decker em sua prancheta e deu sinal para seu colega na viatura, que desceu com as algemas.
_O quê?
_0,09. Acima do permitido.
_O senhor não pode tomar minha habilitação assim. Minha ficha é limpa e tampouco estou bêbado.
_Não só posso como vou apreender sua carteira e o seu carro. Chegando à delegacia você conversa os detalhes com o doutor e decidem o que é ou não certo nesse caso. –e finalmente, algo jocoso rachou a dureza constante de sua fala.
_Eu sou advogado! –Decker acreditava que essa palavra eliminaria seu problema.
_Melhor ainda! –e o policial fez um segundo sinal com a mão ao passo que o segundo homem prendeu os braços de Decker atrás de seu corpo e, algemando-o, levou-o para a viatura.
_Não acredito! –manifestou-se.
-8-8-8-8-
Sara sempre se desanimava ao ver que desperdiçara energias. Havia se empenhado tanto para localizar Colette, tão preocupada com a menina, e depois de ter percorrido todo o espaço do evento, até perguntado pela amiga, só conseguiu concluir que Colette não queria ser encontrada. Do jeito que a menina era instável, além de desanimada, Sara ficou preocupada. A probabilidade de a amiga ter assumido alguma atitude desnecessária e exagerada era grande demais para que simplesmente retornasse para o lado de Lya e da irmã e seguisse com sua festa. Mas se Colette não estava se embebedando, conforme preferia sempre que se sentia desiludida, aonde havia se recolhido? Tomara que não tivesse acompanhado nenhum rapaz… tomara que não estivesse arrumando mais problemas!
Quando os convidados terminaram de fazer o intervalo e retornaram ao auditório para ver a apresentação da peça de teatro, a feira ficou mais vazia e começou a fechar. Sara insistiu em caminhar por ali por desencargo de consciência. Sua busca inútil não a deixava em paz, mas por sua inutilidade, não devia mais ser conduzida, então retornou para o salão. As últimas danças haviam sido anunciadas. Dali quarenta minutos, os garçons trariam as mesas para o café colonial que encerraria o baile.
_O que foi, gatinha? –Lori se aproximou da irmãzinha jovialmente, sentindo-a um tanto ansiosa apenas pelo modo em que ela estacara e olhava os lados, torcendo um pouco as mãos.
Sara franziu o rosto sem saber o que fazer. Envolver Lori poderia ser arriscado.
_Você viu a Lette?
_Faz muito tempo já… Por quê? Algum problema?
Sara deu de ombros.
_Você saiu correndo àquela hora… se tem alguma coisa acontecendo, pode me contar.
Sara riu, apertando os dentes, mordendo o lábio depois.
_A Colette estava com o Decker. –e aproximando-se da irmã, revelou. –Acho que foi ela que o ajudou a entrar na festa.
_Não quero nem ver quando ela souber do estrago! –Lori manifestou-se, quase irritada.
_Não acho ela, Lori. Estou preocupada. –Sara seguia suas confissões discretas.
_Ah! Se ela teve a capacidade de ir atrás do Decker e cair na dele, ela pode muito bem sair dessa sozinha! –e no mesmo tom sóbrio e reservado de voz, apresentou sua opinião. Estava cansada de ficar cuidando de Colette, ainda mais quando esta procurava as próprias confusões.
_Ai, não sei…
_Vem, você está perdendo o baile! Por que não procura um par? –Lori gesticulou grande e depois colocou as mãos na cintura, correndo a vista pelos rapazes mascarados, escolhendo um, o melhor.
_A festa não para, não é? –ela murmurou, contrariada, embora entendesse porque Lori a incentivava assim e por isso não a condenou por assentir veementemente a sua colocação de propósito irônico. Suspirou e seguiu imóvel.
_Eu vou resolver isso. –de repente Lori avisou, e só com essa frase, deixou Sara para trás, impedindo-a de avisar quão impossível era encontrar Colette.
Contudo, Lori era seguida por uma estrela diferente da de Sara, que a favorecia mais e a levava a destinos às vezes indevidos. Ou, se desejar, chame de simples acaso o que a brindava. De qualquer modo, essa força operava ali e um relancear rápido de seus olhos aquamarine capturaram uma massa de camadas de vaporoso tecido fumê ombré, tão elegante que aprazia Lori quão apropriada havia sido a escolha de Colette. Meditou que a menina tinha vindo à festa como um espírito novo, de chamas reacendias por uma verdade que só ela admitia, e agora, o ego em cinzas, só se apoiava na beleza de seus trajes para prosseguir. E fazia isso muito mal, porque antes de Lori alcançá-la, Colette se sentara no mais inferior dos quatro degraus que separavam a varanda do gramado, obrigando as pessoas a passarem a desviar dela.
_Estão tocando sua música.
Colette escutou a voz manhosa que menos desejava.
_O quê? –virou-se para trás. –Lori, do que está falando?
Lori desceu o último degrau:
_Vai, sai daí, Lette.–e estendeu uma mão para ela, sem explicar mais nada. Sua voz manhosa evaporou, revelando aridez.
Colette meneou a cabeça e se levantou sozinha.
_Já sabe o que aconteceu? –e suas palavras secas eram sem pena.
Abaixando a cabeça, Colette viu as lágrimas destacarem-se de seus olhos e se perderem entre as camadas de vestido.
Havia desistido de preocupar-se com o que pensariam dela, ignorando quão desgastada aparentava, e tendo abandonado o uso da máscara, esquecida em algum lugar, só mostrava olhos borrados e semblante descaído para quem se desse o trabalho de encará-la. Sempre pensavam mal e pouco dela de qualquer modo, fosse verdade ou não. Estava arrasada demais para dar importância ao que não era sua dor.
Coletara pedacinhos de boato que só vieram a confirmar sua epifania inoportuna. Seu senso de percepção era simples e por isso só captava o explícito, o que explica porque entender os motivos de Decker se aproximar dela tivera valor de epifania quando o assistiu se esgueirar para longe, mesmo depois de notar que ela o tinha localizado. Ele olhou para trás, olhou para ela diretamente, Colette tinha certeza de que ele sorriu, e por mais esforço que fizera, nunca teve tempo de alcançá-lo.
_O que vai ser de mim? –soluçou.
_Aprenda a lição de uma vez por todas. –Lori atirou nela sem passar sua voz no filtro da compaixão.
Os lábios de Colette tremeram fora de seu controle ao escutar o comando.
_Mas o que vai ser de mim? Todos vão me odiar agora… –choramingou na voz de passarinho ferido.
_Pare com isso. Cabeça erguida. –naquela madrugada, Lori decidiu oferecer somente um tratamento cru às feridas de amor da amiga, mesmo que dessa vez elas fossem as mais sérias que já ganhara.
Lori não sabia o quão sinceramente apaixonada Decker fez Colette se sentir. Lori não queria saber quão feliz Colette se sentiu ao lado do rapaz… Desse modo, ela também nem desconfiava de quão miserável a moça se flagrava por ele e quanto odiava essa ciranda cruel e dolorosa que a levava por dentro.
Obedecendo, Colette içou a cabeça de volta, porém seus olhos vazios não apresentavam a determinação necessária para seguir em frente.
_Eu não tenho para onde ir. –e respirando fundo para limpar a voz, explicou. Sem seu acompanhante, estava presa em The Wing, deixada a própria sorte.
_Não se preocupe com isso. Venha. –e puxou-a pela mão tão apertada que fez seu comando mais firme pelo gesto do que pela imperatividade das palavras.
Cabeça erguida. Colete sabia que aquele era o único incentivo que Lori podia lhe dar depois de vê-la falhar tanto.
A banda estava tocando a última parte de "Wicked Game" e Colette amaldiçoou aqueles acordes macios e ardentes que transportavam a mente dela até ele, a seu novo coração partido. Então era aquela a sua canção? Não contrariaria essa eleição.
Pediu um minuto e foi ao banheiro limpar o rosto do rímel escorrido enquanto Lori seguiu em sua cruzada contrariada a favor da menina.
_Dorothy, querida, por acaso temos um quarto vago na Casa Vessalius? –segurando Dorothy pelo braço, combinando polidez e firmeza, Lori ganhou a atenção da amiga que antes conversava com outras moças, e ganhou um felino fito inquiridor junto da resposta:
_Temos sim.
_Será que podemos receber a Colette? –e o tom de voz de Lori desceu a níveis temperantes.
Diante de tamanha modulação, Dorothy só assentiu, arqueando uma sobrancelha. Ficou a deriva na conversa retomada segundos depois até achar próprio pedir licença e ir ter com Lori e descobrir quantos nós mais Decker deixara para que ela desatasse.
Lori preferiu revelar só o que sabia e ainda não pressionar Colette por detalhes. A noite já estava farta de espetáculos.
Quando as danças se encerraram e repentinamente o salão se encheu de mesas com toalhas brancas e de gradualmente aumentada luz, Dorothy e seus hóspedes se sentaram para aproveitar da refeição de despedida.
Chá, café e alguns pães e pequenos bolos confeitados foram servidos em carrinhos por garçons de blazers brancos.
Lori e Dorothy conversavam com eloquência, enquanto Sylvia e Kyria ofereciam comentários pontuais e apropriados, mas Sara só conseguia prestar silenciosa atenção em Colette e em quanto ela surgia angustiada.
Colete admitia que errara e que quem perdera fora ela e só ela e precisava ficar calada e aguentar a maré, porque era uma Andrômeda que havia desejado ser acorrentada na rocha.
E comportou-se como um autômato, recebendo ordens em silêncio pelo resto da noite, até conseguir entrar no seu aposento na Casa Vessalius e terminar de chorar.
Sylvia e Dorothy reuniram-se com Lori e Sara na biblioteca para especular os modos em que Colette estava envolvida com Decker. Decidiram que seria mais proveitoso permitir à menina a reclusão e o descanso para apenas mais tarde ouvi-la. De qualquer modo, estavam convencidas de que não importava a conclusão que obtivessem ali, já que esta seria sempre bem perto da correta, pois Colette era fácil de iludir e conduzir e seu uso fora só um: levar Decker para dentro da festa, para perto de Relena.
Sylvia meneou a cabeça:
_Por que não deserdam Decker logo? Não aguento mais nem pensar que ele é da mesma família que eu! –estava exausta da noite, das emoções e do modo torto e imprudente de o primo se comportar de modo que não se preocupou em ser polida e assisada.
Dorothy assentiu, contristada, mas sem exibir expressão facial revelando seu sentimento.
O dia estava por nascer, o melhor proceder para elas não era aquele de ficar discutindo o comportamento e as escolhas de terceiros.
Sara estava com isso em mente quando murmurou:
_Vou para meu quarto, se não se importarem. –estava esmorecida também.
_Boa ideia. –Sylvia se levantou e saiu antes mesmo de Sara.
Lori sorriu só com um lado dos lábios e suspirou.
_Minha pele vai estar um caco amanhã… –comentou, levando as duas mãos ao rosto, pensando no efeito da falta de repouso e nas olheiras que ganhava a cada minuto de alerta. E ainda precisava remover toda a maquilagem…
Ela e Sara deixaram o cômodo juntas, desejando boa noite a sua anfitriã e depois conversando em um tom cúmplice que as irmãs sempre usam.
Dorothy foi até a janela para esticar-se um pouco e espairecer. Havia sido uma noite bastante conturbada, tanto que até ela agira com imprudência. Matar Decker parecia mais proveitoso e simples, mesmo que condenável. Ela deveria manter as mãos mais limpas o possível dele, e não mergulhar mais nos ardis do primo, embora não houvesse apagado de suas intenções encontrar uma punição a ele.
Sua preocupação sempre fora seu avô e o desgosto intenso que ele era forçado a provar e aturar com Decker. Seria doloroso demais para ela ver o avô exposto a tanta decepção e desonra arrastada para o nome da família, sem contar o escândalo insuportável que nasceria em breve, pois ela não contava que os boatos da noite perderiam sua força, embora ela estivesse decidida a empenhar-se por isso.
Por bem, era melhor informar ela mesma a Dermail o que passara na festa e consultá-lo sobre uma ação benéfica a toda a família. Queria também discutir o assunto com seu primo em Bruxelas e consultou o relógio na parede para calcular o fuso horário. Seis horas à frente, na Bélgica já eram quase dez horas da manhã e ela sentiu-se motivada a telefonar para Commodore. Ouvir a voz dele traria alguma propriedade para sua mente, por mais cansada que de repente se encontrasse.
Levantou-se, sustentando e arrastando seu vestido ainda como se fosse o início da festa, pompa de princesa, procurando o celular. Coincidentemente, outra ligação foi trazida a sua atenção:
_Senhorita Dorothy, o senhor Evangeline. –o mordomo surgiu trazendo o telefone sem fio para ela, interceptando-a na porta da biblioteca.
Ela apanhou o aparelho em silêncio sobrecarregado e retornou ao cômodo ao passo que o mordomo cerrava a porta para conferir privacidade à patroa.
_Finalmente! –e ao colocar o aparelho junto ao ouvido, disse alô e foi a surpreendida por tal exclamação impaciente.
_Quem fala? –indagou em face da petulância dele, pagando-o com mais altivez.
_Decker, oras. –porém, ele sempre conseguia ser mais presunçoso. Por pior que fosse a situação em que se encontrasse, não a tomava como desencorajamento, e se mantinha imperioso, feito seu manto não estivesse roído de traças, feito não trajasse as roupas inexistentes do imperador que seu ego criava.
_Onde você está? –desdenhosa, Dorothy pediu, apenas porque precisava entender a razão do incômodo do telefonema. E já presumia que não era boa.
_Na delegacia. –foi duro e demorado para ele admitir a prima. –Não sabe como foi difícil conseguir um segundo telefonema! Chegou agora?
_O que está fazendo aí? Por acaso se entregou? –ela deu importância somente à primeira sentença dele e, com um pouco mais de emoção, replicou.
_Me entregar? Não compreendo. –ele soava como quem ria, incrédulo por tanto absurdo.
_Não? Que interessante… Jamais desconfiei que você sofresse de perda de memória recente.
_Brincando a essa hora, Dorothy? –ele impacientou-se, reagindo com sarcasmo. –Não faço ideia do que você está falando. –e depois de defender-se, pausou, frustrado pela próxima informação a dar. –Olhe, eu fui pego pelo bafômetro…
Dorothy não comentou nada, mas confessava que era risível ele ter escapado de um delito tão grande para ser apanhado por uma falta considerada desimportante em comparação a todo o mal que ele fazia. A punição dele havia começado.
_Você tem de me tirar daqui. –exigiu, luxento e enfático.
_De repente, você precisa de mim, Decker? –ela empertigou-se, ultrajada com razão.
_Show agora não, Dorothy. –reclamou, impaciente, tomando-a como excessivamente dramática. Por que as mulheres complicavam tanto as coisas? Era cansativo…
Para ela, a situação do moço se tornava mais insuportável. Ele pensava que ela era o quê? Os limites de Decker tinham desaparecido! Chegara o momento de ela corrigir isso.
_Alguns dias na delegacia irão lhe fazer bem. Não me importune mais. –ela apresentou, sem dar muita importância ao que sugeria, fazendo óbvio pelo tom da voz sua intenção de terminar a ligação.
_Não desligue, Dorothy. –rosnou.
_Você não pode me impedir. –rebateu naturalmente, mas soberba.
_O delegado permitiu-me sair apenas com a fiança de contravenção. –e quase comemorava falando isso, porque sabia que assim estaria livre mais rápido.
_Tenho confiança de que você está em condições de cuidar de seu problema sozinho, meu primo.
O policial que o havia prendido estava assistindo ao telefonema conturbado:
_Depois de ter jogado um vaso em você, não acho que ela vá pagar sua fiança…
Decker foi movido a deixar de prestar atenção em Dorothy para se justificar contra tal julgamento infundado:
_Quieto! Estou falando com minha prima! –soou exaltado.
O policial se riu, muito divertido, assentindo como se tivesse tomado a informação como muito relevante. Nada como um riquinho para alegrar a madrugada de serviço…
_Dorothy… não desligue. –retornou ao telefone, repetindo, e tinha perdido um pouco do que ela falara anteriormente. –Eu não quero passar mais nenhum segundo naquela cela!
_Típico. –ela suspirou, cansada de tanta birra. –Sinceramente, meu caro primo, isso é o mínimo que podemos oferecer a você. E não se esqueça, por favor, de que não sou sua mãe. E nem gostaria de ser. –e ali ela descobriu o momento climático para desligar.
Decker bateu o telefone no gancho.
_Pelo visto, sem fiança para você esta noite… –e o policial o conduziu de volta para a cela.
Decker mordeu o lábio enquanto se sentava no banco baixo que acompanhava a parede e era dividido com mais três detentos. Alisou a testa, correndo a mão pela cabeça, borbulhando de ódio. Não conseguia se lembrar de noite pior em sua vida.
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Heero dormira pouco, mas bem mais do que se acreditou capaz. Jogado de bruços na cama, esvaziava a mente por meio da sonda da apatia. Tentava se acalmar, silenciar o tumulto que rugia internamente. Ouviu batidas em sua porta e depois a voz de Akane pedindo para entrar.
_O que você quer? –ele respondeu, virando-se e sentando-se, mas não houve necessidade de abrir a porta.
Akane sorriu com leveza quando entrou. Enfiou as mãos nos bolsinhos dos shorts e suspirou:
_Tudo bem? –ela perguntava isso muitas vezes.
Ele assentiu, desanimado.
_Vamos jantar em The Elysium hoje, ok? Até lá, a mesa na sala de jantar está posta com as coisinhas que servimos no café colonial dessa madrugada… desde que horas você não come?
Heero só oferecia respostas monossilábicas às várias sentenças que a menina emendava. Queria que ela fosse embora logo, tentava por sua falta de reação desinteressá-la dele e de conversar, por mais que soubesse que ela não iria sair dali, a não se por vontade própria.
Akane olhou o redor e calmamente foi se sentar no tampo da escrivaninha.
_Guardei a faca do Decker enrolada em outro lenço e dentro de um saco plástico etiquetado com a data lá no cofre. –achou importante informar. Nenhuma atitude seria tomada, contudo, estavam garantidos com aquela prova.
_Está certo. –aprovou e olhou outra direção, pensativo.
_O que pretende fazer agora?
_Chega dessas perguntas. Você sabe que não há nada excepcional a ser feito. Só seguir em frente.
_É… –ela concordou, porém sem empolgação. –Vai levar a Lena para casa amanhã? Eu não vou voltar para Nova York até quarta-feira.
_Ela não pode continuar com você aqui?
_Não sei… pergunte para ela se ela quer. –e os olhos dela se acenderam de um jeito perigoso. –Hey, porque não pede a papai uma semana de folga? Você poderia ficar aqui também.
_O juiz jamais aceitaria isso.
_Que drama… Papai não tem muitas opções, ele só pode responder sim ou não… E a gente nunca sabe se não perguntar…
Heero apenas deu de ombros, criando um pouco de espaço para a ideia crescer dentro dele.
_E você vai contar para ele? –Akane seguiu, indagando baixo por algum motivo que ele não conhecia. O fez lembrar-se de quando eles planejavam alguma travessura, uns quinze anos atrás.
_Vai ser trabalhoso demais fazê-lo entender o que aconteceu.
_Mas uma hora ou outra, papai pode descobrir… –seguia, felina e destemida, sabendo dos riscos da insistência.
_Então vai depender dele me procurar. –mas Heero não estava tão interessado em discussões naquele minuto.
Akane assentiu, descontente, cruzando os braços.
_Vocês dois nunca vão ter uma conversa desse jeito, sempre empurrando a iniciativa um no outro.
_E eu te perguntei, por acaso? –ele rebateu, provocando-a, grosseiro.
_Ah vá!
Heero quase sorriu ao ver a careta de Akane. Mas a indisposição dela durou pouco. Esticou-se toda, saltou da escrivaninha e suspirou. Lançou um olhar para ele, bem comprido e persistente.
_Relena precisa de companhia.
Heero meneou a cabeça.
_Eu sei. –resmungou de volta. Enfrentou o fito dela por um minuto e depois o ignorou, deitando-se novamente. –Feche a porta quando sair. –e avisou, dispensando-a.
Akane riu maliciosa e não se importou em obedecê-lo porque sabia que não o deixava sozinho.
Tudo o que Heero havia se esforçado em esquecer lhe fora trazido propositalmente à tona. Ele ficou estático, escolhendo seus próximos movimentos. Havia muitos lugares para ir, seu tabuleiro estava transbordando em jogadas, mas ele sentia-se limitado feito o rei, dependendo dos outros para compensar suas fraquezas e protegê-lo. Aquela posição era extremamente desconfortável porque não tinha hábito de ser dependente.
Com o final das férias, Relena perdia as amigas e a companhia que lhe restava era a dele. Até aquele dia, ele sabia que não poderia chamar sua presença de companhia, não se envergonhava da verdade, apesar de repentinamente passar a considerar o quanto queria mudá-la. Que o querer existia era inegável, só precisava ter a intensidade certa para mover a ação.
Será que aceitar uma sugestão quer logo dizer que se é influenciável?
Porém, ele já fora levado por impulsos piores…
Mesmo os grandes atores já interpretaram papéis medíocres.
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Relena espreguiçara entre os macios lençóis então amarrotados e foi molhar o rosto.
Depois, não se deu o trabalho de sair da camisola, foi ocupar a poltrona voltada para a janela, munida de um caderninho e uma caneta. Por vinte minutos, estivera apontando alguns pensamentos, removendo-os como que por pinças de sua atenção, prendendo-os no papel como uma lepidopteróloga meticulosa.
_Lena, posso entrar? –e de repente, escutou Akane do outro lado da porta.
_Sim!
Com dificuldades, a menina apareceu, visto que trazia uma bandejinha com duas xícaras.
Sorrindo, Relena interrompeu sua atividade e foi fechar a porta.
_Bom dia… –Akane cumprimentou, mas já eram três horas. Riu, tolinha. –Como se sente? –e colocou a bandeja na cama, sentando-se ao lado.
_Bem… –Relena se aproximou.
_Gosta de chá de pêssego? –e estendeu uma xícara para a cunhada.
_Sim. Que perfume bom… –Relena sorria initerruptamente, agora aspirando o cheiro do vapor. –Não precisava se incomodar.
_Incômodo nenhum. O que estava fazendo?
Relena sentou-se do outro lado da bandeja:
_Escrevendo.
Akane bebeu e assentiu.
_Nós vamos jantar em The Elysium, está bem?
_The Elysium?
_Nossa vizinha, a casa de praia do Duo. Os rapazes estão lá…
_Vai ser divertido.
Ouvindo isso, Akane concordou com um gesto de cabeça e entrou em um silêncio perscrutador.
Relena aproveitou para perder-se em pensamentos ao passo que acompanhava as voltinhas da fumaça ao subir da porcelana.
O sol enchia o quarto e não houve brisa por alguns instantes, só depois de Relena retornar a falar:
_Obrigada por tudo, Ane.
Devolvendo a xícara vazia para a bandeja, Ane meneou a cabeça:
_Se precisar de qualquer coisa, é só dizer.
_Está certo.
Relena também retornou a xícara vazia para a bandeja.
_Lena, depois, você me deixa ler aquela história que escreveu?
_Hã? Claro, sem problemas… mas por quê?
_Fiquei curiosa e o que peguei de relance pareceu tão legal…
Relena riu de tanta simplicidade.
Começaram a conversar sobre escritores e livros. Relena tinha muito a falar desse assunto e o apreciava o suficiente para delongá-lo da forma mais agradável possível.
_Sabe qual o livro favorito do Heero?
_Eu não… nem sabia que ele gostava de ler…
_Até gosta… apesar de que deve estar ocupado demais com os livros de direito agora para pensar em ler, que nem eu. –e ela surgiu cansada, mas riu, sempre ria. –Na época da escola, eu lembro, ele gostava de todos estes clássicos, sabe, mas "O Chamado Selvagem" é o que ele mais gosta e já leu várias vezes.
_Jack London? Eu devia ter imaginado. –riu-se, surpresa sem admitir.
_É a cara dele, não é?
Relena teve vergonha em concordar, mas não pôde evitar, assentindo e rindo, divertida.
_Você não deve ter um livro favorito, não é, Lena?
_Eu li tantos que já nem sei dizer…
_Ah, mas escolher um livro só é covardia!
_Nem fale!
E passaram os próximos trinta minutos listando títulos que mais gostavam e justificando seus motivos.
Por fim, da mesma maneira abrupta, mas nada incômoda, com que Akane viera, ela partiu. Tinha seus propósitos.
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A mesa era tão grande que parecia só poder ser usada para um banquete de gala, mas estava despretensiosamente posta e decorada para a companhia de amigos que se reuniria em seu redor.
Heero deixou as garotas para trás e foi para The Elysium quase uma hora antes da refeição. Apostava todas suas fichas que elas iriam atrasar e preferiu controlar o estresse por frivolidades. Ficou bebendo um pouco de vinho com os amigos na sala de estar, ouvindo-os conversar e adicionando uma palavra eventual no assunto, apesar de não surgir cercado da cerração tensa que normalmente o acompanhava quando estava aborrecido ou atormentado.
Entretanto, aquela ausência de desordem na aura dele mistificava os demais tanto quanto sua presença. Talvez ele só estivesse apático outra vez, talvez ele só tivesse morrido completamente por dentro.
Relena e as outras garotas chegaram quinze minutos antes do jantar ser servido, trazendo uma nuvem de perfume de grife e luminosidade.
Assim, houve tempo para que cumprimentos fossem trocados e os casais se formassem antes de sentarem-se a mesa.
Por qualquer razão instintiva, todos estavam preocupados sobre como se comportariam em relação à Relena, determinados a criar um clima aprazível para mantê-la a salvo de qualquer lembrança ou sensação negativa da madrugada recente. De qualquer modo, eles não precisavam se forçar a ficarem alegres.
Quando Astuce percebeu-se sozinha entre todos porque Dolf não compunha o grupo, anunciou que ia grudar em Quatre e recebeu uma chuva de comentários maliciosos e reprimendas escandalosas, ambos sem qualquer fundo de verdade, que apenas serviram para divertir a todos e embaraçar aos dois, embora não os magoasse.
Depois, foi necessário que Duo provocasse Wu Fei mais uma vez pelo fato de Jade estar sentada ao lado do amigo, e ela, por sua vez, colaborava para tornar as provocações mais difíceis de serem rebatidas. E Duo fez questão de trazer a atenção de que logo ela voltaria para a costa oeste e Wu Fei teria de passar pelo suplício no qual ele já era expert. Por mais que Wu Fei disfarçasse, resmungando qualquer coisa, enfadado, acabava relanceando Jade consigo e encontrando-se frustrado por dentro. As circunstâncias mudam todo o dia.
_Calma, nosso relacionamento não é tão sério assim. –e maliciosa, ela anunciou, posando a esnobe, só para deixar Wu Fei em uma situação mais desagradável. Dos outros, ela só arrancou risadas bem humoradas.
_Ah, mulher, você me paga! –ele rosnou, arramando a cara. Ele nunca tinha muitos argumentos nessas horas.
Claro que isso acabava devolvendo a atenção ao fato de Quatre ser o último solteiro no grupo. Contudo, naquela noite, Astuce o defendeu com sua leal companhia, mesmo que fosse uma forjada por amor amistoso.
O resto da refeição foi povoado pelos comentários cuidadosos e policiados a respeito da festa, do show de mágica de Cathrine, confusões de bastidores e planos para o próximo ano, até que as conversas começaram a se dividir e tratar de temas mais corriqueiros.
Depois da sobremesa, o grande grupo reuniu-se na sala de estar para louvar a refeição lauta e apetitosa e prosseguir com sua associação.
O importante é que sempre que olhassem para Relena ela estava rindo e falando. O ambiente ficava de fato muito mais leve quando a risada angelical dela estava ressoando através dele. Mesmo que ela estivesse fingindo, era melhor vê-la forte o suficiente para aproveitar o momento descontraído.
Heero não era do hábito de mostrar contentamento, por outro lado, sabia desmanchar o siso quando necessário.
Enquanto Akane explicava e recebia as provocações correspondentes a sua programação de ir a sua última balada para menores ainda naquela semana, ele exibia uma expressão maldosamente divertida em razão da infindável discussão que sua irmã e Wu Fei começaram e cobria Relena esporadicamente com uma atenção escrutinadora, conferindo o sorriso dela e quão distraído e relaxado ele aparentava e soava.
Principiara a compreendê-la e com isso, sem saber, a admirá-la.
A felicidade estava com os inocentes – aquele era o segredo dela.
Heero concentrava-se mais quando percebia que ela estava conduzindo o assunto, tentava roubar as palavras que ela produzia, mas só podia contentar-se em ler seus lábios ternos, porque sua voz era abafada pelas outras conversas.
E, sem saber, era estudado também.
Quando se retraía para suas próprias meditações ou se envolvia na discussão dos amigos ali por perto, ela relanceava em sua direção, procurando conhecê-lo à distância, recordando-se de quão enigmático ele lhe parecera na primeira vez que se encontraram e considerando o retorno a resolução daquele mistério.
E o que sempre a fisgava era o fato de nunca ter observado alguém como ele, tão altivo que não se dava ao trabalho a sorrir, mesmo quando parecia querer, e que não baixava a guarda, exibindo uma nobreza fria mesmo em um momento de descontração.
Após minutos sentado encostado no sofá, apoiando a cabeça em uma mão, Heero pôs a xicara de café na mesinha de centro e, sem pedir licença, saiu pela porta balcão na lateral do cômodo. Ao passo que estava convencido de que ninguém dera atenção a sua atitude, não escapou de Relena.
Ela estivera empenhada em comentar com Cathrine as vantagens de certa marca de maquiagem sobre outra e quando Jade se interessou pela discussão, encontrou a brecha perfeita para afastar-se também. Primeiro, silenciou-se, atenta ao que as amigas pontuavam. Em questão de segundos, ela flagrou-se analisando a atitude de Heero sem ambição de chegar a qualquer conclusão, apenas repetindo-a mentalmente para que fosse mais cativada por ela.
Ele havia se retirado, não precisava enviar mensagem mais clara de que preferia ficar sozinho, e ir procurá-lo sempre era arriscado, e apesar de todos os contras, Relena ainda se aventuraria a aproximar-se e abordá-lo, nem que fosse para ser repelida. E simplesmente iria, precisava ir.
Por que o humano pequenino insiste na obsessão e ergue os olhos para as estrelas? Elas não falham em impressionar. Talvez, seu caráter misterioso alivie o homem da carga de ser mais importante do universo, ajudando-o a lembrar-se de que existe algo maior e mais insondável que ele.
Calmantes, as estrelas são sempre exatamente o que precisamos – conselheiras, ouvintes, torcedoras, testemunhas. O cintilar mágico delas – mesmo que elas sejam facilmente definidas por ciência pura – inspira seu observador, distrai e consola.
O céu noturno abraça a dor dos amantes antes de abrigar sua paixão, trazem o repouso ou a ilusão da eternidade da juventude. Nada como a noite, este cortinado de veludo escuro e bordado com brilhantes nascido no tear esmerado de Deus.
Heero também se incluía na vasta classe de astrônomos ordinários, que só observam o firmamento a olho nu e se preocupam pouco com o nome das constelações, mas cuja vista se deleita na beleza fria, triste e muda do espaço. Praticando sua reverência a grandiosa criação, ele debruçou na sacada de grades geladas, farfalhando os ramos de hera.
Seus sentidos, entretanto, não estavam descansando. Olhou sobre o ombro e assistiu Relena aproximar-se cadente e cautelosamente, os olhos aprisionados nele.
Os momentos se repetiam. Heero regressou a sua observação do céu, confundido com o que acabava de perceber.
Não era o destino, mas sentia-se preso em um ciclo de acontecimentos seguindo sequências rigorosas, mesmo que sofressem atualizações. Estava preso naquela engrenagem e só precisava de um passo para fazê-la parar de rolar. Esse passo só ele poderia dar e mudar o funcionamento da máquina. Enquanto ele não escolhesse tomar a atitude, estaria vivendo aqueles instantes repetidos.
Relena tinha ideias concorrentes em mente. Sorria, ela tinha um sorriso permanente que também podia expressar tristeza.
_O que veio fazer aqui? –ela pediu para saber, sem repreensão.
_É só a noite. –a resposta não fora nada lógica, porém, ela a aceitou como perfeita.
_O mar nunca descansa. –e jogou seu fito nas ondas feito lançasse um anzol de vara de pescar.
Heero não havia notado o rumor das ondas. Entendeu o que ela quis dizer. O mar nunca parava de se mover, não se acomodava.
_Já fez um ano que ficamos noivos. Foi em uma noite parecida com essa, não foi? –ela irresistivelmente mencionou, hipnotizada pelas vagas.
Apesar de tantos dias terem corrido, a única coisa que mudara fora o balcão e as roupas que trajavam. Eles bem podiam estar ali diante daquela caixinha de pandora, realizando tudo outra vez, enroscados naquele episódio passado.
_Você fala como se fosse algo importante de verdade.
_Pode ser que não tenha nenhum significado, mas aconteceu. –e contemplou seu anel, ergueu a mão de modo que a pedra parecesse a lua equilibrando-se na linha do horizonte. E ao procurar as mãos de Heero, as viu vazias. Assentiu, mergulhando no mar distante com seu fito e coração. –Fui sereia nos meus sonhos de menina muitas vezes… antes de saber como são cruéis. –e se riu do disparate que confessava logo para ele, de ternuras tão estéreis. –O mar fala comigo. É o que sinto.
_Por isso gosta tanto daqui?
Limitou-se a sacudir a cabeça afirmativamente. Estava enfeitiçada pela luz da lua que brincava na água distante.
_Quer continuar aqui essa semana?
_Não posso. Já me afastei demais da vida em Nova York. Irei voltar com você?
Ele deu de ombros.
Relena debruçou-se ainda mais nas grades.
_Liguei para casa hoje à tarde e o juiz me concedeu essa semana de folga para me organizar para o início do semestre.
Tal anúncio era inesperado para ela:
_Pretende ficar aqui?
_Não. Partiremos amanhã depois do almoço.
Ela encolheu-se um pouco, de repente sentiu a brisa terrestre embrulhar seus braços desnudos com seu agasalho enregelante.
Falseou as expressões faciais, em dúvida de como reagir.
_Como será que Manon está? –e perguntou à toa enquanto procurava algo mais coerente a dizer. –Há algo que preciso lhe dizer sobre o novo semestre…
_O que é?
_Vou começar a dar algumas aulas em Nova Jersey, na escola em que estudei… Preciso ocupar melhor meu tempo. –e sentiu-se como que dando explicações excessivas, encolhendo-se mais.
_Foi para isso que você estudou, não foi? Faça como julgar melhor. –Heero não encontrou razão qualquer para preocupar-se ou importar-se com a decisão que ela tomou. Percebia que Relena gostava de estar ocupada e não poderia se opor a isso.
E até então não haviam se encarado.
Heero deitou nela sua atenção e viu os olhos cristalinos da moça repletos do mar volumoso e inquieto, mas não selvagem demais a ponto de ser inavegável.
Relena ergueu o olhar e sentiu-se absorvida pela profundeza espacial e seus brilhos estelares que preenchiam as íris infinitas dele que nem mesmo todas as águas do planeta poderiam preencher.
O coração dela assumiu um ritmo veloz, um alerta de perigo talvez, movido por adrenalina para que se protegesse, e mesmo assim, permaneceu parada, sentindo o músculo pulsar e bombear calor para toda sua pele. Não iria perguntar-se sobre essa reação, apenas cederia. Estava admirando estrelas, era natural que se emocionasse, porque nunca vira astros mais fascinantes.
Heero ouvia então as ondas como se cercado delas. Essas produziam uma canção que sincronizava com o tumulto antes controlado em seu âmago. As duas sinfonias carregavam a mesma mensagem, mas unidas, tornaram-se indecifráveis. E devia ter sido aquela súbita conexão que o fez adivinhar as declarações que brotavam nos lábios dela depois que ela pronunciou seu nome.
_Esqueça tudo isso, Relena. Não me agradeça mais e nem peça perdão. Não peça perdão. Entendeu?
_Hã? –foi espantoso sentir-se transparente daquela maneira. –Entendi.
_O passado tem de permanecer em seu lugar. –e falava assim, mas não era como agia e acabava aconselhando mais a si próprio que qualquer outro.
_Entendi. –repetiu, mas não concordou. Mesmo assim, não tirava a razão dele. Pensava demais, porém o passado era feito os mortos e precisava ser deixado em paz. –Você tem razão. Vamos começar de novo, está bem?
_Como quiser. –não compreendeu a proposta dela apesar de não oferecer oposição.
_Vamos voltar. –tocou-o no ombro.
_Vai você. –e debruçou-se na grade espanhola pela terceira vez aquela noite.
_Você está ouvindo o chamado?
_O quê? –intrigado, reagiu prontamente, encarando-a firmemente.
Rindo, ela acenou com a mão:
_Deixe para lá. –e sentiu-se um pouco idiota. Entrou na sala de estar, reunindo-se aos amigos que tiravam fotos e mantinham as conversas em progresso.
A noite deles não acabou cedo, como se era de esperar. Para quê contar o tempo? Segunda-feira ou sábado, não havia diferença. A madrugada anterior fora há tanto tempo! O próximo dia estava tão longe!
A verdade era que os Verões passavam e não poderiam ser recuperados.
Cada segundo existia para ser aproveitado. Precisava ser assim.
-8-8-8-8-
Athina despertou no horário habitual. Uma nova semana começava cheia de seus usuais afazeres e compromissos. Nenhuma novidade e, por isso, sua programação não a afobava. Ela saía da cama com a tranquilidade e a leveza da manhã de domingo. Por mais ocupada que fosse, nunca via necessidade de pressa. Era ela quem controlava sua rotina.
Tomou o café da manhã com Dante. Ele lia o jornal e ela fingia-se sozinha. Às vezes ela sentia vontades de rir. No momento em que se casara, não lhe passava pela cabeça a menor possibilidade de que iria encontrar-se naquela situação. E a ironia que mais a divertia era a natureza do estopim: outro casamento.
O casamento de Heero deixou evidente como Dante e Athina pensavam diferente e perderam-se um do outro pelo caminho dos recém-completados trinta anos de vida conjugal.
Desde a última discussão que tiveram, tinham se bastado com conversas simplesmente mecânicas.
É claro que Dante não se incomodava, afundado demais nos problemas do trabalho, nas questões vitais com que se deparava todos os dias, muito maiores que as pessoas que formavam seu mundo e as relações que estabelecia com elas.
Se ele sentia falta da voz terna da esposa, do olhar amável e do toque gentil era um mistério. Entretanto, seguia considerando-a sua ainda, mesmo que não demonstrasse isso, e não visualizava sua vida sem ela. Athina sempre estivera ali, sentada naquela mesma cadeira, e certamente não iria a lugar nenhum, jamais.
E depois de dobrar as folhas do jornal que não interessava mais, ergueu os olhos verdes escuros para ela e se lembrou. Talvez a senhora Yuy se interessasse em saber do telefonema incomum do dia anterior…
_Heero telefonou-me ontem. –sua voz se propagava com muita facilidade no ambiente, sempre imperiosa.
Athina criara a situação e só ela sentia o peso. Detestava ter de ignorá-lo e ao mesmo tempo não conseguia encontrar nenhum outro curso. Gostaria de resolver seus problemas, recuperar uma parte dos sentimentos que nutrira um dia, embora fosse desnecessário recuperar o que só necessitava ser despertado novamente, entretanto, faltavam-lhe forças para insistir em abrir uma passagem nova na parede de rocha que murava o marido.
Viviam um Inverno, longo demais para ser suportado e ao mesmo tempo imprevisível demais para ser proclamado eterno.
Ao ouvi-lo falar do filho, informá-la de algo aparentemente corriqueiro, acabou ficando intrigada e não pode simplesmente ignorar:
_O quê ele disse? –e prontamente indagou, parando de comer, fitando o marido com o mínimo de expressões possíveis.
_Pediu-me uma semana de folga do trabalho de última hora. Alegou precisar preparar-se para voltar às aulas. –sem dar muita importância, informou, remexendo-se na cadeira para finalmente começar sua refeição.
_E o que você respondeu? –Athina tomou os talheres outra vez, baixando os olhos para o waffle.
_Concedi. –declarou, monótono.
_Que inesperado de você. –observou, cada vez mais surpresa. Será que existia algo para se desconfiar?
_Já faz um ano… uma semana de férias não é nenhuma extravagância. –Dante sabia ser razoável quando julgava necessário.
_De fato. –e não encontrou alternativa além de concordar.
E a sensação que Athina experimentou foi de que a conversa havia sido encerrada. Os dois prosseguiram com o desjejum por alguns instantes em completo silêncio outra vez.
_Ele… mencionou algo sobre Relena também. Está a par deste assunto, Athina? –e Dante retornou a expor, sua voz crespa com suspeita.
Sim, havia algo para se desconfiar.
_Não. –foi fora do comum, mas ela ofereceu uma resposta limitada.
Dante respirou fundo, meditativo.
_Não irá me contar o que Heero disse? –descontente com a atitude dele, ela polidamente exigiu, manipulando a voz para que esta não revelasse sua exasperação.
_Foi um comentário rápido… Heero disse que precisavam resolver algumas coisas… –empertigado, ele puxou na memória uma versão aproximada das falas do rapaz.
Athina não soube o que pensar. Guardou silêncio pelo resto do café, resolvendo se procuraria ou não mais informações. Até onde poderia se intrometer na vida do casal?
Ela estava em crise também. Teria de aceitar caso eles se fechassem a qualquer pergunta bem-intencionada da parte dela, porque era simplesmente difícil demais ter de discutir certos assuntos mesmo com a pessoa mais achegada. Considerava que havia questões em um casamento que parecem apenas piorar quando discutidas com terceiros…
As horas passaram rápido enquanto ela revolvia suas preocupações na mente.
Tinha terminado de almoçar quando recebeu um telefonema de Akane.
_Minha querida filha, como estão as coisas? Como foi a festa?
_Mamãe, saudades! Foi maravilhosa! Um grande sucesso! Espere só para ver as fotos!
_Que bom! Fico contente!
A seguir, trataram de algumas outras questões cotidianas.
_Mamãe, preciso contar uma coisa para você. É algo muito sério, mas, por favor, não fala nada para ninguém, principalmente para papai, a não ser que ele te procure com esse assunto. –e depois de conversarem sobre tantas coisas agradáveis e amenas, o tom de voz da menina tornou-se grave.
_O que houve, Ane? Não me assuste assim… –sensível à mudança, Athina reforçou mais seus motivos para desconfiança de problemas.
_Não precisa se preocupar mais porque já passou. –e dali ela deslanchou no relato mais detalhado que podia oferecer sobre o que Decker fizera e o que Heero e Relena decidiram, dedicando-se especialmente em assegurar a mãe de que estava tudo bem então.
_Ane, querida, esconder isso do senhor Yuy é errado.
_Eu sei, mas é Heero quem quer assim. Acredito que ele sabe o que está fazendo, não se preocupe, mamãe. Deixe ele decidir como lidar com a situação. –sabia que a mãe estava abalada e mantinha a voz suave para não incomodá-la mais.
_E porque não denunciar este rapaz depravado? –e seu coração batia severamente agitado com as notícias, doendo por Relena, ainda mais ansioso em revê-la. Se antes já estava desejosa da companhia da nora, quanto mais então depois de saber pelo que Relena passara. Queria abraçá-la e cuidar dela, orientá-la…
_Como foi uma tentativa de estupro impedida a tempo, eu não me oponho a essa decisão. –a voz de Akane veio lamentosa, mas estável e conformada.
_Que frieza, meu Deus. –Athina meneava a cabeça. –Como vocês podem ser assim?
Akane aceitou a repreensão da mãe com respeito.
_Mamãe, por favor, prometa que não vai dizer nada para o papai. –insistiu, contudo.
_Ane…
_Por Heero, mamãe… por ele… –suplicou, e embora sua voz tivesse a mesma textura imperiosa do juiz, era muito mais polida e agradável, colorida com preocupação.
_Estranho, muito estranho. –Athina expressou sua inconformidade.
Houve silêncio outra vez da parte da moça. Resignava-se ao fato da mãe estar no direito de ter a reação que desejasse. Só não se contentaria se Athina decidisse não cooperar.
_Confie em mim, mamãe. –Akane não se dava ao luxo de fazer pedidos assim todos os dias, sua mãe sabia.
_Está falando sério, não é, querida? Se for pelo bem de Heero e de Relena também, eu prometo.
_Eles acabaram de sair daqui… pelo que entendi, Heero vai deixar a Lena em casa e ir para o escritório resolver umas coisas.
_Esta manhã seu pai me informou que Heero vai tirar a semana de folga.
_Sério? O danado não falou nada para mim! –a surpresa de Akane era risonha. –Que bom que ele resolveu fazer assim! Por mais que eu quisesse, não iria conseguir fazer companhia para a Lena. –e isto fazia Akane genuinamente triste. Nunca antes quis ficar em Nova York como aquele Verão. Ter a vida universitária tão longe de casa mostrou sua única desvantagem de repente.
_É por isso então que ele quer ficar em casa? –o quadro se montava perante os olhos de Athina e passava a consolá-la de ter de assumir uma postura tão adversa a sua opinião.
_Certeza. –e estava satisfeita por ter tido a sugestão aceita, sua mãe não podia ver o sorriso de orelha a orelha que ela exibia, feito uma grande gata laranja.
E após mais alguns minutos de conversa, Akane encerrou a ligação.
Heero escolhia os caminhos mais incompreensíveis para sua mãe. Definitivamente, ele era como o pai.
-8-8-8-8-
_Manon, cheguei. –Relena trancava a porta enquanto anunciava, uma alegriazinha tímida se traindo em sua voz. –Manon? Tudo bem? –e diante da quietude do apartamento, deixou as malas e foi procurar a mulher.
Não havia ninguém em casa, de repente Relena se lembrou de que Manon poderia ter ido fazer compras para o jantar.
Deste modo, buscou suas malas e foi para o quarto ocupar-se em desfazê-las.
Destrancou a suíte da Primavera e a encontrou exatamente como havia deixado. Sorrindo, puxou as malas para perto do closet, abriu-as e começou a tomar decisões sobre o que iria para a lavanderia e o que retornaria aos cabides. Desembalou os sapatos, retirou os cosméticos para devolvê-los ao armário do banheiro, percebeu-se repleta de tarefas. Não se lembrava de que fazer as malas fora tão trabalhoso…
Um vislumbre de tecido vermelho tratou de fazê-la diminuir o ritmo das arrumações e se sentar no chão. Foi tirando da mala tudo que encobria o vestido dobrado adequadamente dentro da capa plástica e depois a apanhou para admirá-lo lacrado lá dentro, disforme, e mesmo assim, emanando sua exuberância. Provavelmente, jamais o usaria outra vez de tão marcante que ele sempre fora, só que o colocaria no armário, o manteria como memento. Ele guardava um pedaço de sua história.
Esforçou-se e sentiu-se orgulhosa de si mesma por conseguir espantar da mente os flashes dos acontecimentos ruins com os quais a roupa se associava. Respirou fundo, resolvida a não permitir que aquela noite fosse arruinada em suas lembranças. Trabalhara duro e criara uma experiência única através daquele evento aos convidados. O que houvera com ela fora apenas um detalhe a qual ela não se prenderia.
Tirou o vestido da embalagem. Não sentiria jamais raiva dele. Apagara tais impulsos. Diante do espelho, colocou o traje em sua frente e brincou com a saia. Experimentou sorrir e sentiu-se muito à vontade.
O vestido vermelho fora escolhido com grande carinho para ela e cumprira sua função com excelência assim como prometera. Ele a fizera linda; ali ela admitiu que estivera linda dentro do vestido.
_Relena… que bom vê-la! –Manon a surpreendeu por entrar no quarto. –Que vestido maravilhoso… foi este que usou na festa?
_Sim, ganhei de presente da Ane e das meninas.
_Com certeza ele ficou lindo em você…
Relena sorriu concordando agradecida.
_Precisa de ajuda? –e apesar do tom de oferecimento, Manon não esperou receber consentimento para começar a desfazer as malas.
Faltava um pouco menos de uma hora para o jantar quando Heero chegou ao apartamento. Não entendeu porque o vestido vermelho de Relena estava estendido no sofá. Sentiu que ele pousara ali como que propositalmente.
Reencontrá-lo tão cedo foi muito desagradável. Abandonou a mala no meio da sala para aproximar-se dele e reprimi-lo. Acabou alisando um pouco a saia da veste, pensativamente.
Relena achou Heero no meio dessa ação.
_Já está aqui… –murmurou, inocentemente.
Ele moveu os olhos para ela, soltou o tecido rubro e assentiu, montando-se em sua postura perfeita e enfiando as mãos no bolso. Sempre ficava um pouco ameaçador nessa pose.
_Está tudo bem. –ela afirmou, injustificadamente.
_Parece que sim. –e ele retomou o estudo do vestido. –O que vai fazer com ele?
_Vou guardá-lo, claro, mas não planejo usá-lo outra vez. Ele merece descansar. –e parecia até bem-humorada, Heero estranhou.
_Está certo.
_Você gostou dele. –ousou pontuar diante do que observara. Não conseguiria explicar o que a levara a tanto e não achava isso tão mal…
_O quê? –ele não quis entender e inquiriu.
_Achou o vestido bonito, não achou? –meiga sem perceber, ampliou sua ideia anterior, usando sempre mais de afirmação do que de interrogação.
_Como todos os outros. –apresentou, fácil e seco. –Nunca vi você feia. –e acrescentou de repente, mais sério do que deveria.
Dando um passinho para trás, Relena prendeu sua vista na dele. O que ele havia sugerido? Que inusitado…
Ela desmanchou o sorrisinho que vinha usando quando na verdade devia mantê-lo. Sua perplexidade acabou criando um desvio de atenção, muito pequeno, decerto, mas o suficiente para que Heero escapasse de seu laço e partisse para apanhar a bagagem e ir para seu quarto.
Heero agiu movido pelo momento – existe atitude mais genuína que a espontânea?
Claro que ele se pasmava consigo mesmo.
Contudo, já era tarde. Ela já havia feito suas interpretações, ele já havia se colocado em uma situação embaraçosa e, se existia embaraço, é porque existia algo mais. Assim, voltar atrás era inútil e muito pior e mais revelador.
Boa noite, leitores!
Confesso que tem dias que eu não sei o que escrever aqui.
Por isso, hoje vou agradecer e deixar vocês com o capítulo bem movimentado que eu preparei para vocês.
Quero agradecer a todos que leem, que comentam e que tem acompanhado a história.
Tenham certeza que a presença de vocês é muito querida.
Também, muito obrigada a minhas amigas pelo seu apoio sempre me motivador. S2
Estou no aguardo ansioso de suas opiniões, críticas e impressões!
Não se esqueçam de darem uma passadinha no Tumblr da fic, que está de endereço novo, no qual vocês podem deixar perguntas e comentários e encontrar conteúdo extra.
Amo vocês!
Beijos e abraços
