Só você para me sustentar.

Segunda Parte.

Advertência: Este capítulo contém cenas de violência e angústia. Recomenda-se sua leitura com reservas.

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O primeiro que Sirius sentiu ao abrir os olhos à escuridão que o rodeava, foi o sabor metálico que enchia sua boca até quase dar asco. Aturdido, permaneceu uns minutos no mesmo lugar tratando de recordar onde e porque se encontrava atirado sobre uns trilhos com o nariz machucado. Tratou de levantar-se e uma terrível dor lacerou a parte de atrás de sua cabeça. Tentando acalmá-lo, sujeitou-se com a mão e franziu o cenho ao ver que estava sangrando.

Fazendo um grande esforço, apoiou-se sobre as duras pedras ferindo suas mãos e joelhos em sua tentativa por pôr-se de pé. Quando ao fim o conseguiu, cambaleou em pequenos círculos até que os muitos caminhos que se mexiam em frente a ele se converteram em um. Olhou a seu ao redor. Ainda seguiam as duas fileiras de vagões em seu lugar e o animago percorreu com a mirada o longo trecho tratando de adivinhar como tinha ido a parar a esse lugar.

A extensa camada de lã cinza pesou-lhe demasiado quando começou a caminhar e ele lhe tirou para arrojar a um lado da via. Não tinha dado dois passos quando regressou por ela para buscar em seus bolsos sua varinha, que não encontrou. Amaldiçoando em silêncio, deixou a camada atirada e caminhou vários metros de norte a sul pelo trecho, buscando-a entre os muitos paus e pedras. Mareado pelo esforço e sustentando-se a ferida da cabeça com uma mão, o animago deu-se por vencido e se recostou sobre um dos vagões para descansar um momento antes de continuar buscando sua varinha.

Esforçando-se em vão por recordar, caminhou ao custado do vagão sem decolar-se dele para manter o equilíbrio. Confiava em que o caminho que acabava de tomar o levasse direto à estação, e daí a seu departamento. Só tinha avançado uns quantos metros quando lhe pareceu escutar vozes bem perto de onde ele se encontrava. Ainda que não estava armado, dar meia volta e regressar não lhe pareceu uma boa ideia. Permaneceu quieto em seu lugar, tratando de identificar o lugar de onde as vozes proviam.

Guiado por seu ouvido, Sirius acercou-se com todo o sigilo possível para descobrir que as vozes proviam do mesmo vagão onde ele se recargava. Mal visível desde o exterior, uma luz muito pequena o alumiava desde adentro. Amparado pela escuridão, Sirius assomou a cabeça e teve que retroceder ao instante ao chegar a ele o cheiro amargo da fumaça que golpeou suas fossas nasais, fazendo que quase voltasse a perder o sentido.

Deixou que quem estivessem aí terminassem de intoxicar-se com o que fosse que estivessem usando. Agachou-se para passar por embaixo da portão e assim evitar que o descobrissem. Um longo gemido proveniente do vagão deteve-o em seco e o animago permaneceu agachado, desejando que o que acaba de escutar só fosse produto da droga que esses homens estavam consumindo.

Mas os soluços continuaram, um depois de outro. Com um longo calafrio percorrendo sua coluna vertebral, Sirius esqueceu sua precaução e assomou meio corpo pela enorme porta do vagão. Em um rincão, uma bata oxidada com um pequeno fogo adentro pôde lhe servir de farol. E seu corpo ficou paralisado de dor, fúria e espanto ante o que seus olhos atingiram a descobrir.

Na esquina oposta, dois homens arrinconando a um jovem que de imediato reconheceu. Um deles sustentava a Erick contra o sujo andar do vagão, e o outro se dedicava a saciar com seu jovem corpo seus mais baixos instintos. Ocupados como estavam em seu labor, nenhum deles consertou na presença do animago.

Paralisado em seu lugar em frente à porta, as lembranças mais dolorosas de sua vida fizeram ato de presença na mente atormentada de Sirius, quem só pôde apertar os punhos e fechar os olhos, as lágrimas amargas correndo por suas bochechas.

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Já tinha passado muitas horas perseguindo sua snitch por todo o quarto, e começava a aborrecer-se. Decidido a buscar outra coisa em que entreter-se, guardou a bolinha com asas dentro de seu estojo e saiu de sua habitação para bisbilhotar pela Mansão, como tanto gostava de fazer. Não consertou em que a porta já não tinha um leão como guardião. Ele estava feliz de estar de volta em Grimmauld Place.

"De onde virá esse escândalo?" Perguntou-se enquanto percorria os corredores da Mansão Black em busca do lugar de onde uma música a todo volume alterava o silêncio, aumentando seu inata curiosidade. Deteve-se em frente à porta do salão. "Deve ser meu padrinho armando uma festa... Por que não me convidou?"

Posou sua mão sobre a maçaneta de ouro, que repousava entre as duas grandes folhas de madeira talhada em mogno pintada de negro. "Quando mudou a decoração?" Voltou a perguntar-se, fazendo um esforço em vão por abrir. Deu-se por vencido após várias tentativas e agachou-se ao nível do chão... tinha que se inteirar. Era um Gryffindor.

Escutou passos firmes que se detiveram a seu lado e ele girou sua mirada verde para o homem parado junto a ele. Mas dantes de que pudesse se levantar se sentiu içado pelo pescoço de sua capa. Molesto, tratou de girar-se para encarar a quem se atrevia a puxa-lo dessa maneira.

-Como se atreve...? –não pôde terminar sua pergunta. Viu-se arrastado para uma área da Mansão que desconhecia.

Uma crescente angústia começou a alojar-se em seu peito quando a escuridão de um corredor impediu que visse para onde se dirigiam. Estranhado ante uma porta negra que nunca antes tinha visto, escutou quando a voz profunda do homem a abriu com um feitiço para a fechar de imediato.

-Deixe-me sair! –forcejou entre seus braços e buscou sua varinha, seria necessário dar-lhe uma lição. Já veria esse estranho que com Harry Potter ninguém se metia. Buscou entre suas roupas sem encontrar sua arma, justo no instante em que era arrojado com força sobre um sujo catre, baixo uma pequena janela.

-Vamos passá-la muito bem, moleque –Harry franziu o cenho. Conhecia essa voz. A esperança renascia e um sorriso coqueta formou-se em seus lábios quando o homem o despojou de suas roupas e ele se recostou sobre o catre sem deixar de sorrir. Tinha que admitir que a capucha não lhe sentava nada mau.

Esperando com ânsias o que estava por vir, Harry fechou seus verdes olhos e deixou seu corpo a graça do homem em frente a ele. O que sentiu depois foi uma intensa dor, tão grande como não o tinha sentido nunca antes. Harry abriu os olhos assustado ao sentir-se lastimado dessa terrível maneira. Forcejou entre seus braços tratando de libertar-se, grossas lágrimas de dor percorrendo suas bochechas.

-Não se mova ou te irá pior...!

-Pare! Por favor! –Harry seguiu lutando, suas forças reduzidas ante a terrível dor que estava sentindo. –Por que me faz isto!?

Não obteve resposta. Seus verdes olhos abriram-se com temor quando um raio de lua entrou pela pequena janela. Jamais o tinha visto dessa maneira... nem a noite da última batalha quando o beijara com a máscara posta. A capa caiu e os negros e longos cabelos dispersaram-se sobre seu rosto, asfixiando-o. Viu seus olhos, e só isso lhe bastou para o descobrir.

-Você não é Severus! –Harry retorceu-se tratando de escapar do homem que o possuía com dureza, sem a doce consideração que acostumava seu companheiro. –Me solte!

-Isso é, pequeno... grite tudo o que queira...

-Não!

-Harry! Harry!

-Não! Me deixe! –aterrorizado, Harry viu como o rosto coberto com a máscara branca se desvanecia pouco a pouco até se ver rodeado pela escuridão. Pego entre os braços de Severus seguiu forcejando com todas suas forças, confundido entre o sono e a vigília. Severus falou-lhe outra vez, e a voz de seu casal lançou um calafrio que fez tremer todo seu corpo. –Me solte! Não me toque!

Severus soltou-o ao instante, e Harry afastou-se dele até ficar colado contra o respaldar da cama. Preocupado, o professor observou como seu jovem companheiro se envolvia com as cobertas formando uma barreira entre ambos corpos, como se lhe assustasse sua presença e sua cercania fosse uma ameaça. Não fez amago de voltar a se acercar a ele e em mudança, deixou passar uns minutos dando espaço a que se acalmasse.

O rosto de Harry era um mar de confusão. Ainda que consciente que todo tinha sido um pesadelo, ele ainda podia sentir a dor, o medo e a fúria crescer dentro dele. Sentimentos tão vívidos e profundos que o assustavam. Apertou as cobertas contra seu corpo e piscou, tratando de afastar de sua mente a lembrança desse sonho tão real. Severus só o observava, pendente de qualquer reação.

A tensão no rosto de Harry foi minguando e a cor regressou pouco a pouco a suas úmidas bochechas. Deixou as cobertas a um lado e estendeu as mãos, buscando às apalpadelas o refúgio que de imediato lhe brindou o cálido abraço de seu companheiro.

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Semidesnudo, com seu lastimado corpo sujeito contra a dura superfície de ferro e seu rosto sujo de ferrugem e lágrimas, Erick já não tinha forças para seguir lutando contra seus atacantes. Mareado pela fumaça tóxica que se condensava no lugar, soluçava já sem fôlego à cada dolorosa investida. Fechou os olhos desejando que ao os abrir só se tratasse de um pesadelo.

O homem que sujeitava seus braços o soltou e Erick permaneceu quieto sem poder se mover, quando o corpo que o possuía se separou de seu corpo deixando nele profundas feridas.

-É meu turno... é meu turno... –escutou dizer, e fechou seus olhos cafés esperando voltar a sentir essa terrível tortura outra vez. Sentiu-se alçado em xeque e seu rosto chocou contra o ferro. Seus quadris foram levantadas e voltou a soluçar, mas o tormento nunca chegou.

Eufórico pela droga em seu organismo, o homem preparava-se para consumar a violação quando um alarido por trás dele o distraiu. Surpreendido, soltou o corpo de Erick fazendo-lhe cair ao solo com um ruído seco. Com um grande esforço, o rapaz arrastou-se até o fundo do vagão tratando de afastar-se. A fria e grossa parede de metal esfriou suas costas quando chocou contra ela, lhe fazendo reagir.

Aterrorizado, cobriu sua boca com um punho para evitar que um grito surgisse dela. Em frente a ele, o homem que acabava do violar agonizava dessangrando-se pouco a pouco através de uma profunda ferida em seu pescoço. O enorme cão negro lançou-se contra o homem que acabava do soltar, as enormes fauces buscando sua garganta. Sirius sentiu uma terrível pulsada em alguma parte de seu corpo antes de atingir o frágil pescoço que rasgou, cego de fúria.

Erick viu quando a navalha de bolso escapou das mãos trémulas de seu atacante, ao mesmo tempo que o coração do homem se detinha. Desviou seu olhar café para o cão negro, que coxeou até onde Erick se encontrava deixando um rastro de sangue à cada passo. Assustado, o rapaz se agachou contra uma esquina e fechou os olhos esperando de uma hora para outra o ataque do animal, que não sucedeu. Quando os abriu, viu com enorme surpresa que o cão já não estava.

Tremendo de medo e dor, Erick não se atreveu a mover de seu lugar. Como se se tratasse de um espectador em frente a um filme de horror, o rapaz permaneceu encurralado no solo, as pernas nuas encolhidas contra seu peito. Em frente a ele, seus dois violadores jaziam dessangrados e ele agradeceu em silêncio ao enorme cão negro, antes de fechar os olhos e deixar que a negrura o envolvesse por completo.

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Em frente à lareira do Caldeirão Furado, Remus caminhava de um lado a outro como um leão enjaulado. Ainda que tinham passado pouco mais de trinta minutos desde que Harry acordasse-o, já eram horas para ele. Tom tinha-se dado por vencido em seu afã de oferecer-lhe algo que pudesse o acalmar, pois o rosto do licantropo era uma pálida máscara de nervosismo e grande preocupação.

Desesperado, consultou por enésima vez seu relógio antes de acercar ao recipiente dos pós para tomar um punhado. Arthur já se estava demorando demasiado. Tinha planejado ir a Hogwarts e buscar na biblioteca algum feitiço escuro que fosse capaz de lhe dizer onde se encontrava seu melhor amigo.

Estava por jogar os pós e mencionar seu destino, quando a cor dos lumes mudou e a figura de Arthur traspassou o nicho. Remus apertou os pós dentro de seu punho em um esforço por não se lançar para o Auror.

-Tens averiguado algo? –Arthur assentiu em silêncio e buscou no bolso de suas singelas túnicas um pergaminho, que estendeu ante o professor. –Que é isso?

-Não tem utilizado sua varinha, Remus. Mas acaba-se de detectar o uso de animagia em várias partes do Mundo Mágico e Muggle –Arthur assinalou vários pontos sobre o pergaminho, que resultou ser um grande mapa. –Mas nós iremos a este lugar.

-Ao Leste do Londres Muggle? –perguntou o professor, observando o lugar que o Auror assinalava no mapa. –Que te faz pensar que pudesse ser Sirius?

-Porque foi o único animago que os arquivos do Ministério não puderam identificar...

-Porque Sirius não é um animago reconhecido pelo Ministério. –concluiu Remus, seu semblante preocupado tornando a um comprazido. Sacudiu-se as mãos para desfazer dos pós que acabava de tomar. –Tem que ser ele, Arthur. Que estamos esperando?

O patriarca dos Weasley assentiu em silêncio e extraindo um objeto de seu bolso, ofereceu-lhe ao professor. Segundos depois desapareciam para aparecer de novo, esta vez sobre as vias da ferrovia. Sem preocupar-se por ser visto a essas horas da madrugada, Remus conjurou um Lumus com sua varinha e o resplendor alumiou o longo caminho de aço e pedras que compunha o caminho à estação.

-Que tão aproximado é o mapa que me mostraste? –perguntou o licantropo enquanto dirigia o Lumus para alumbrar o escuro caminho em frente a eles.

-Metros mais... metros menos –foi a vadia resposta do Auror. Remus deteve-se em seco e Arthur quase chocou contra ele quando o professor se agachou para recolher algo que acabava de encontrar atirado nas vias. –Que é isso?

-É uma capa... –Remus acercou a fina teia a seu nariz e entre o cheiro natural da lã pôde reconhecer o aroma do perfume francês de seu melhor amigo. Se alarmou ao ver que estava manchada de sangue. –É de Sirius! E parece que está ferido!

-Está seguro? –Arthur não recebeu resposta do licantropo, pois este já corria por entre as vias, a capa cinza apertada em sua mão e gritando o nome de Sirius a todo pulmão.

Encontrando-se sozinho e a escuras, o Auror suspirou com resignação e acendeu o Lumus de sua varinha para buscar com mais acalma da que Remus mostrava. Seguiu adiante, alumbrando o interior da cada vagão das duas longas fileiras que ainda continuavam estacionadas ao longo do caminho.

Vários metros mais atrás, Remus continuava gritando o nome de seu amigo. Vendo que Arthur se avocava à tarefa de revisar a cada vagão, ele se dedicou a buscar embaixo deles. Não demorou em encontrar a varinha de Sirius, abandonada e quase oculta entre as pedras. Examinou-a para verificar que se encontrasse em bom estado e a guardou no bolso da túnica cinza de seu amigo.

-Remus! –o licantropo quase saltou de seu lugar ao escutar o grito alterado do Auror. Correu os metros que o separavam dele, sentindo que seu coração se detinha com a cada trecho que avançava. Deteve-se em frente ao vagão onde Arthur se encontrava, sua varinha alumbrando para o rapaz que se achava no rincão, ainda inconsciente.

-Por Merlin! –exclamou com horror quando a varinha de Arthur se desviou de Erick para alumbrar aos dois corpos em frente a eles. Ambos se fizeram a um lado sem poder evitar um gesto de repulsão, quando seguiram o caminho do sangue que caía em delgados fios pela porta do vagão, formando um charco embaixo de seus pés-. Que foi o que ocorreu aqui?

Arthur apagou o Lumus de seu varinha e esquivando o charco de sangue, impulsionou-se para entrar ao vagão seguido de perto por Remus. Só foi necessário um ligeiro olhar a ambos corpos para se dar conta de que tinham morrido. Desviando sua mirada dos pescoços rasgados de ambos homens, Arthur se acercou ao jovem e o examinou com a ponta de sua varinha.

-Este rapaz foi violado...

Remus agachou-se a seu lado e viu com tristeza as claras impressões do ocorrido. Tirou-se sua própria capa e colocou-a sobre as coxas nuas do rapaz, que em sua inconsciência não notou o repentino calor da teia sobre seu corpo.

-Será melhor levar à enfermaria. –sugeriu o professor de Defesa. Arthur olhou-o com apreensão, o reclamo mudo em sua experiente mirada. –Não importa o que ele seja. Foi ultrajado e está ferido, será necessário que Poppy o atenda.

-E daí há de Sirius? –perguntou o Auror, que não tinha esquecido a razão pela que agora se encontravam aí. –Não podemos deixar de buscar.

-Talvez o rapaz saiba algo. –Remus se pôs de pé, percorrendo com a mirada o espaço a seu arredor e tratando de evitar a desagradável visão dos dois homens junto a ele. Colocou-se sobre as costas capa-a cinza de Sirius ao mesmo tempo em que voltava-se ao Auror. –Terá que o interrogar antes do levar com Poppy.

Arthur assentiu em silêncio e voltou a acercar a varinha ao rosto do rapaz.

-Enervate...

Os olhos cafés abriram-se pouco a pouco, e Erick piscou com dor quando suas irises foram feridas por uma deslumbrante luz que o assustou.

-Tranquilo, rapaz... –ao escutar a Arthur, Erick se revolveu em seu lugar, soluçando de dor e medo. –Tranquilo, não te faremos dano.

Erick manteve os olhos muito abertos, cobrindo seu corpo dolorido com a capa de Remus. Ao dar-se conta que se encontrava arroupado, seu coração se tranquilizou e então pôde descarregar sua vergonha e dor. Remus e Arthur observaram as lágrimas do rapaz com um respeitoso silêncio.

-Como se chama? –Erick não respondeu. Arthur compreendeu sua vergonha e decidiu não lhe insistir. –Quem te fez isto?

O rapaz levantou a cabeça e assinalou com mão trémula aos dois homens que ainda jaziam no mesmo lugar, como pôde comprovar antes de desviar de novo sua mirada, nauseado pela horrível visão. Remus separou-se de Arthur e acercou-se aos corpos. Com a varinha, alumbrou para o baixo ventre de um deles e comprovou que Erick dizia a verdade.

-Que foi o que sucedeu? –perguntou ao rapaz enquanto regressava a seu lugar junto a Arthur. Erick surpreendeu-se quando a mão de Remus lhe ofereceu uma caneca de chocolate quente. Intrigado por saber de onde pôde a ter sacado, a aceitou escutando a suave e serena voz que o tranquilizou como por arte de magia, o suficiente para poder pronunciar suas primeiras palavras.

-Nós... íamos de caminho à estação... quando eles... –deteve-se por um instante, relutante a ter que seguir recordando o ocorrido. –Eles... golpearam-nos e a mim meteram ao vagão e depois...

O jovem calou, e os dois magos em frente a ele se olharam o um ao outro, compreendendo seu silêncio.

-Está-nos dizendo que tinha alguém mais contigo? –o rapaz assentiu e o rosto de Remus mostrou uma grande preocupação. –Quem é? Onde está agora?

-Não o sei... só vi que o golpeavam e já não soube mais dele –Arthur e Remus cruzaram uma mirada inteligente e o Auror se pôs de pé enquanto o rapaz continuava. –Eu tinha que levar a sua casa porque tinha bebido demasiado... –cobriu-se a cara com as mãos, e as seguintes palavras que pronunciou fizeram que o coração de Remus quase se detivesse. –Se não tivesse sido por esse cão...

-Que cão? –Remus tomou os ombros do rapaz, que se revolveu evitando o contato. –Sinto muito... Disse que tinha um cão? Era negro? –o rapaz assentiu, e Remus apertou contra seu corpo a capa de Sirius. –Onde o viste?

-Remus... olha isto... –Arthur acercou-se ao professor e mostrou-lhe o que o licantropo reconheceu como a carteira de Sirius. –Assaltaram-nos, não há dúvida alguma.

-Mas... Onde está agora? –Remus levantou-se e começou a buscar com a mirada algum indício que pudesse lhe indicar onde o encontrar. O pequeno fogo de bata-a oxidada já não existia e grande parte do amargo tufo da droga que aí se consumia, se tinha desvanecido com o ar que entrava pela enorme porta do vagão. Voltou-se para o rapaz. –Onde viste ao cão negro?

-Aqui... esse homem o feriu antes de que... –ao recordar o ocorrido, o rapaz encolheu-se sobre si mesmo enquanto cobria seu corpo com a capa de Remus. –Foi esse cão negro... o que os matou a eles.

Remus voltou sua mirada para os corpos dos homens com o pescoço rasgado e a imagem ante ele cobrou outras dimensões. Mareado pela impressão que lhe causou imaginar a Sirius fazendo algo como isso, saiu a toda pressa do vagão. Precisava ar fresco. Se recostou sobre a superfície que minutos antes sustentasse o corpo de Sirius, enquanto ocultava seu rosto entre suas trémulas mãos.

-Remus... Está bem? –Arthur atingiu-o segundos depois. Remus descobriu seu rosto e o Auror pôde ver a mais clara desolação em seus olhos dourados.

-Que lhe ocorreu? –perguntou, mais para si mesmo que para o homem em frente a ele. –Que foi o que lhe passou pela cabeça para fazer algo tão terrível como isso?

Arthur guardou silêncio, sem achar uma resposta. Se Remus que era seu melhor amigo e o conhecia de quase toda a vida não o sabia... Como podia ele o saber? Após eternos segundos sem saber que fazer, Remus recuperou a compostura e se voltou ao Auror, seu rosto expressando um grande pesar.

-Está ferido, Arthur... preciso encontrá-lo –o Auror assentiu em silêncio, e surpreendeu-se quando Remus posou sua mão sobre seu ombro, sua mirada suplicante. –Escuta... ele passou doze anos em prisão sendo inocente... não quisesse que...

Arthur compreendeu o que Remus tratava de lhe dizer, e negou com a cabeça ao mesmo tempo em que palmeava a mão que ainda sustentava seu ombro.

-Antes que Auror, sou pai de família, Remus. Bem como ocorreu-lhe a esse jovenzinho, pôde ocorrer a minha filha... ou a qualquer de meus rapazes –Remus permaneceu em silêncio, escutando com atenção a cada uma de suas palavras. –Não sei o que passou pela mente de Sirius quando o fez, mas sim te posso dizer que se eu tivesse estado em seu lugar... um Kedavra não me tivesse bastado para castigar a esses malditos –a mirada de agradecimento que Remus lhe dirigiu, fez compreender a Arthur que tinha tomado a melhor decisão. –Encontra as impressões de sangue de Sirius e segue-as. Assim será mais fácil o encontrar –lhe sugeriu ao mesmo tempo em que se encaminhava para o interior do vagão.

-Que fará com eles? –perguntou-lhe o professor, assinalando o lugar com um ligeiro movimento de cabeça.

-Levarei ao rapaz à enfermaria. –foi a firme resposta do Auror. –Aos outros os deixarei aqui, mas antes me desfarei de qualquer coisa que possa envolver a Sirius com todo este desastre. Te verei no Castelo, De acordo?

Remus assentiu enquanto aferrava sua varinha, alumbrando tudo a seu ao redor. Caminhou uns quantos metros até que encontrou o rastro que buscava. Com o coração batendo a toda pressa seguiu as impressões que o sangue de Sirius deixasse, ao mesmo tempo em que elevava uma prece pelo bem-estar de seu grande amigo.

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Sentia-se lastimado, aterrorizado... perdido. A cada sombra que se atravessava em seu caminho o sobressaltava, e então o cão negro se agachava na escuridão e depois retomava seu voo. A ferida em uma de suas patas dianteiras era profunda e doía a cada vez mais.

Debilitado, lançou um tênue uivo lastimoso e voltou a ocultar-se por trás de uns grandes barris de diesel que custodiavam a entrada a uma adega, onde mais barris manchados de gordura mal deixaram espaço para que o assustado animal passasse, já sem forças para seguir escapando.

Tropeçando entre enormes parafusos oxidados que no passado fizessem parte de alguma locomotora, encontrou refúgio em um espaço livre e mal cômodo para se deixar cair, exausto. Lambeu a ferida de sua pata, que continuava sangrando e voltou a gemer, tremendo de frio e medo.

Após alguns minutos teve forças para deixar surgir ao mago e Sirius abraçou-se a si mesmo, sentindo mais frio ainda ao não ter a proteção de sua negra pelagem e em mudança uma delgada camisa que não o cobria nem sequer o necessário. Arrependeu-se de ter deixado atirada sua grossa capa de lã.

Examinou sua ferida, que sobre seu braço não se apreciava tão profunda. Sirius recostou sua cabeça contra a parede e fixou sua mirada azul em um enorme oco sobre ele, que fazia de janela. Ao longe, pôde escutar o ruído do comboio próximo de arribar à estação. Enquanto seguia o rítmico ruído da máquina que pouco a pouco se acercava, deixou que as lembranças do que acabava de viver se arreminaram em sua mente confundida.

Ele só tinha ido ao bar para beber uma taça. Tinha pensado retirar-se cedo a seu apartamento e entreter-se com algum programa na televisão. Mas nesse pequeno bar, a lembrança de Remus e Harry tão longe dele fizeram mais profunda sua solidão. Perdeu a conta das taças, e jamais se imaginou que essa seria a causa do que depois ocorreria.

A visão daquele jovem sendo violado tinha ressuscitado em sua mente o vivido por ele anos atrás. Não pensou no que fazia. Só sentiu uma imensa fúria e os rostos estranhos deixaram de ser em sua mente torturada, para ser cobertos por uma máscara branca. Lançou-se sobre eles cheio de ódio... sedento de vingança.

Sirius sentiu náuseas ao recordar o sabor metálico do sangue derramado nesse vagão por sua causa. Cobriu-se a cara com as mãos e um soluço desesperado escapou de sua garganta. Não sabia que tinha sido pior: Se o que esses dois homens fizeram ao rapaz, ou o que ele lhes fizesse a eles.

-Deus meu... Que tenho feito? –o soluço em sua garganta converteu-se em um longo gemido. Assustado por não ter sido capaz de controlar a parte irracional de seu forte caráter, sentiu um grande horror de si mesmo. –Sou um... monstro...

Um forte ruído fez que Sirius se sobressaltara. Escondido no pequeno espaço que o abrigava fechou os olhos e adotou sua forma animaga. Com toda segurança o buscavam para o levar preso pelo que acaba de fazer. Voltaria a Azkaban e esta vez seria por uma justa razão.

O ruído do comboio que nesse momento passava a uns metros da pequena adega, aquietou os fortes chamados de Remus. O solo retumbou embaixo deles ao passo da enorme locomotora, enquanto o licantropo lançava longe um tonel que estorvava a seu passo. No rincão, o cão encolheu-se uivando de medo e Remus sentiu que a alma regressava a seu corpo quando ao fim o encontrou.

-Sirius! Graças ao Céu! –no meio do estrondoso ruído da máquina, Sirius não o escutou. O Lumus de sua varinha refletiu sua própria sombra erguendo-se enorme sobre seu amigo e o cão encolheu-se mais sobre si mesmo. Remus sentiu vontades de chorar ao vê-lo tão assustado, e mais pequeno que nunca. Agachou-se a sua altura, o comboio afastando-se pouco a pouco até que só se escutou seu incessante chocalho na distância. –Padfoot... olha-me... sou eu, Remus.

Padfoot levantou sua mirada cristalina para a doce voz que o chamava. Remus alongou sua mão para ele e o cão se colou contra a parede, temendo lastima-lo também. Ao vê-lo, Remus manteve sua mão estendida e acercou-se pouco a pouco até sentar no rincão, a seu lado. Padfoot não se moveu de seu lugar. Sem temor, Remus colocou sua mão sobre sua cabeça, acariciando suas orelhas caídas.

Ante a doce caricia que seu amigo lhe dedicou, as defesas de Sirius caíram. Coxeando, buscou o colo de Remus e descansou sua cabeça sobre ele. O silêncio já reinava no lugar e Remus pôde escutar com clareza os tênues soluços que seu melhor amigo tratava de ocultar.

-Tudo está bem... não tenha medo –Remus seguiu acariciando sua cabeça, e fechou os olhos com agrado quando o suave pelagem baixo seus dedos mudou de textura. Enredou seus dedos nos despenteados cabelos de Sirius, sem deixar de falar-lhe. –Sei que está ferido, Por que não me deixa te curar enquanto me conta o que te ocorreu?

Sem esperar resposta, Remus apagou o Lumus de sua varinha. Com um feitiço de cura dos muitos que ele sabia, fechou pouco a pouco as feridas que ia encontrando no corpo de seu amigo. A ferida da cabeça foi a última que fechou, para depois esperar em paciente silêncio até que a voz avariada de Sirius se deixou escutar.

-Fiz algo muito mau esta noite... –um calafrio percorreu-o de pés a cabeça ao recordar aos dois homens que atacasse no vagão. Remus, que ainda o sustentava sobre seu colo, tomou sua mão e a apertou com força tratando do acalmar. –Não quero ir outra vez a Azkaban, Remus... não quero... não...

-Tranquilo... não voltará a esse lugar, Sirius. Prometo. –Sirius fechou os olhos e apertou a mão que sujeitava com força a sua. –Sei... o que você fez nesse vagão. Salvou a vida desse rapaz, isso é o que importa.

-Não é assim... não é –Remus franziu o cenho sem compreender o balbucio de seu amigo. –Cheguei tarde, Remus. A vida desse rapaz... já não será a mesma. Suas feridas... nunca sanarão.

-Arthur levou-o à enfermaria. –Sirius moveu a cabeça de um lado a outro, sentindo uma grande tristeza porque seu amigo não conseguia compreender. –A estas horas Poppy já deve ter curado suas feridas. Se recuperará, não o duvide.

-Você... não... entende. Ele não se recuperará... nunca. O que eles lhe fizeram... não se apagará nunca de sua mente.

-Não fale assim, Sirius –O repreendeu o licantropo, alheio a todo o que nesse momento passava pela cabeça de seu melhor amigo. –É jovem, tem toda uma vida por diante. Já verá que mais cedo do que pensa terá esquecido o ocorrido esta noite.

-Não o fará, Remus... –insistiu o animago, seus olhos azuis nublados de lágrimas e lembranças lutando por sair. Soltou-se da mão que o aferrava e girou de lado sobre o colo de Remus, se encolhendo sobre si mesmo enquanto lhe dava as costas. Seu amigo sentiu seu corpo tremer ao ritmo de seus soluços e fez a um lado seus negros cabelos. Sirius fechou os olhos, negando-se a olhar os dourados olhos de seu amigo. –Nunca é... suficiente o tempo para esquecer... você não sabe... não sabe...

-Que é o que não sei, Sirius? –Remus manteve sua mirada sobre o rosto de seu amigo. Dor e melancolia fazendo sombra nas facções que a ele tanto se lhe antojavam travessas, quase infantis apesar de sua maturidade. –Por favor... me diga que é o que não sei.

Na intimidem dessa solitária adega escutando a voz de seu amigo, sempre capaz de conter em seus momentos mais irascíveis e lhe alegrar os instantes mais sombrios, Sirius suspirou e deixou que as palavras surgissem sozinhas de seus lábios.

-A noite em que aquilo ocorreu... eu só tinha nove anos...

Cansado de manter seu coração fechado, cedeu ao fim ante aquele passado que ainda atormentava suas noites e mutilava em seus dias, lhe impedindo viver e deixar viver. Impedindo-lhe ser feliz e deixar ser felizes às pessoas que ele mais queria. Sustentando entre seus braços, Remus escutou em silêncio a cada uma de suas palavras até que rendido pelo cansaço, Sirius deixou que o sono o vencesse.

Remus continuou sustentando seu corpo dormido, velando seu sono. A noite era a cada vez mais fria e com cuidado o acobertou com capa cinza. Com o coração encolhido de tristeza acariciou os negros cabelos do animago e na escuridão desse pequeno quarto deixou que ao fim suas lágrimas fluíssem. E essa noite chorou por Sirius como em muitos anos não o fazia. Por sua inocência roubada, por sua alma carcomida pelo rancor. Chorou por seu melhor amigo, por seu irmão... pelo homem que alguma vez ele amasse.

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Terminado o efeito da última poção revitalizadora, Severus lutava contra o sono e o cansaço. Sentado a um lado da cama em frente à lareira, ainda esperava notícias de Arthur ou de Remus, desejando que chegassem antes de que Harry acordasse de novo. Tinha sido difícil convencê-lo de beber uma poção para dormir sem sonhar, e duvidava que seu companheiro quisesse voltar a conciliar o sono sem ter recebido notícias de Sirius.

Desviou a mirada do livro que lia para vigiar o sono do rapaz. Harry parecia dormir tranquilo, ainda que de vez em quando suspirava e contraía seu rosto em um gesto de profunda tristeza. Com toda segurança em alguma parte de sua subconsciente pensava em sua padrinho. Suspirou quando Harry soluçou entre sonhos, e acariciou sua mão até que o gesto de seu companheiro se suavizou.

Permaneceu sentado junto à cama observando ao jovem que dormia sobre ela, mal coberto pela coberta negra fazendo um sensual contraste com a clareza de sua tersa pele. Preocupava lhe o sono que acabava de lhe contar. Ambos sabiam que se tratando de Harry, qualquer coisa que sonhasse por muito estranha que parecesse, a maioria das vezes guardava algum significado. Prometeu-se perguntar-lhe a Remus mais adiante. Talvez ele pudesse lhe dizer algo.

Voltou sua leitura ao livro, tratando de concentrar-se no que lia. Cabeceou sobre a página várias vezes e deu-se por vencido quando as linhas começaram a dançar em frente a seus negros olhos. Fechou o livro inesperadamente e pôs-se de pé para despejar-se. Deu-se uma volta pelo laboratório, assegurando-se que todo estivesse bem. Se entreteve revisando seu inventario, comprazido ao ver que Draco o mantinha em perfeita ordem. Quando já não soube que mais fazer, regressou à habitação.

Harry parecia pequeno no meio de sua enorme cama, e Severus viu-se tentado a entrar nela para lhe fazer companhia. Seu desejo viu-se frustrado quando a voz de Arthur se escutou entre os lumes da lareira.

-Severus... Está aí? Está Harry contigo?

-Sim, mas está dormindo. –respondeu o professor baixinho para não acordar a seu companheiro. –Há notícias de Black?

-Remus já deve o ter encontrado. Estou na enfermaria. –Severus franziu o cenho com preocupação. Tinha algo no ambiente que lhe deixava uma sensação de Deija Vu. –Preciso que venha. Há algo que devemos discutir.

-Vou para lá. –Severus deu um último olhar ao rapaz dormindo, e confiando em que não acordaria cedo, tomou um punhado de pó para dirigir à enfermaria. Ao chegar, o primeiro que viu foi a Poppy e a seu auxiliar atendendo a um jovem ao que nunca tinha visto antes. –Quem é ele? Que lhe ocorreu?

-É um Muggle. Não sabemos seu nome. –antes de que Severus pudesse lhe reclamar, Arthur tomou o braço do professor para conduzir a um lugar privado. –Remus e eu o encontramos abandonado em um vagão. Sofreu abuso sexual. Não podíamos o deixar aí.

-E não puderam enviar a algum hospital Muggle? –Arthur negou com a cabeça. –Por que? Sabe bem que não é conveniente...

-Sei, sei. O teríamos feito, de não ser porque Sirius está envolvido –Severus olhou com seriedade aos olhos do Auror. Este soube interpretar seu gesto grave e negou com a cabeça. –Não é o que está pensando.

Arthur contou-lhe todo o ocorrido e quando terminou, o rosto de Severus mostrava uma grande preocupação. Em sua mente não deixava de rondar o sono que Harry acabava de lhe contar. De alguma estranha maneira sentia que em todo aquilo tinha uma grande conexão. Seus negros olhos se enfocaram na presença do rapaz, ao que Poppy tinha tido que dormir porque estava tão alterado que não deixava que o atendessem.

-Que passará com ele? –perguntou, desviando sua mirada de Erick para enfoca-la no Auror. –Pensa deixá-lo aqui?

-Por agora deixaremos que Poppy cure suas feridas, Remus não deve demorar em chegar com Sirius e preciso falar com ele. Será necessário conhecer sua versão dos fatos. –neste ponto, dirigiu uma mirada perturbada ao professor. –Tivesses visto o que lhes fez no pescoço a esses homens...

-Posso imaginá-lo –respondeu Severus, posando sua mão no antebraço onde se alguém se fixava bem, ainda podia se apreciar uma delgada cicatriz que evidenciava até onde podia ser capaz de chegar o animago quando se enfurecia. –Claro que sim...

-Acha que seja conveniente que Harry saiba tudo isto?

Severus não soube que responder. Por um lado, considerava que Harry tinha direito a se inteirar de tudo. Mas seria prudente que não soubesse a forma em que esses homens tinham morrido. Não queria que seu companheiro guardasse em sua mente a imagem de sua padrinho rasgando o pescoço de alguém.

-Ainda que sou seu companheiro conheço meus limites, e sei que há terrenos na vida de Harry nos quais não devo me intrometer. E um deles é sua relação com seu padrinho –respondeu após o pensar por um longo momento. –Acho que essa decisão devemos lhe deixar a Black. Considero pertinente que seja ele mesmo quem lhe conte o ocorrido, assim saberá que partes da história lhe dizer e daí partes omitir.

Arthur assentiu em silêncio, dando-lhe a razão. Severus deu um último olhar ao rapaz. Poppy já tinha terminado com ele e estava pelo levar a uma das habitações privadas. Quanto menos pessoas no Castelo soubessem de sua presença, seria muito melhor. O Auror acompanhou-o à lareira, prometendo-lhe que lhe chamaria assim que tivesse notícias de Sirius.

De qualquer forma, Severus não queria estar presente se o animago aparecia. Um confronto contra ele era o último que precisava. Como lhe aclarara a Remus, seu interesse radicava na importância que todo esse assunto tinha para Harry. De modo que depois de arribar pela lareira de suas habitações decidiu que já não tinha caso seguir acordado e se dispôs a lhe fazer companhia a seu companheiro, que não sentiu quando o homem se abraçou com firmeza a seu jovem corpo.

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De pé em frente à cama de Erick, Sirius observava com semblante culpado ao rapaz dormindo. Ainda que Remus tinha feito todo o possível por convencer de que ele não tinha a culpa, ainda se sentia responsável pelo que acabava de passar horas atrás. Junto à porta, a discreta figura de Remus desenhou-se embaixo do dintel e Sirius desviou sua mirada do rapaz para dirigir para seu amigo.

O professor acabava de voltar das habitações de Severus. Sem contar-lhe todos os detalhes do ocorrido, tinha tranquilizado a Harry lhe explicando que seu padrinho se encontrava bem. Mas ao sugerir-lhe que o atingisse na enfermaria, o rapaz se tinha negado de forma rotunda. Remus não quis insistir, compreendendo que ainda se encontrava molesto com ele por sua atitude para Severus.

De modo que depois de despedir-se do teimoso rapaz, o licantropo sozinho suspirou com tristeza dantes de voltar à enfermaria, encontrando ao animago na habitação do jovem Muggle. Arthur já se tinha retirado após lhe devolver sua carteira a Sirius e que este lhe contasse tudo com suas próprias palavras, lhe fazendo sentir um grande alívio quando após lhe perguntar se o ia levar preso a Azkaban, o Auror lhe respondesse que não. O Mundo Muggle não estava dentro de sua jurisdição.

Remus deixou seu lugar junto à porta para acercar-se ao animago. Desde seu regresso do Londres Muggle, não tinham voltado a mencionar nada daquele doloroso segredo que seu amigo lhe confessasse, e Remus não considerava que esse fosse o lugar e momento adequados para falar do tema. Mas estava consciente que ao respeito lhes ficava uma longa conversa pendente, que tarde ou cedo teriam que enfrentar.

Adivinhou a pergunta muda na mirada azul de seu amigo, e negou com um ligeiro movimento de cabeça. Sirius suspirou com tristeza e deixou-se cair sobre a cadeira a um lado da cama. Harry tinha-se negado a falar com ele e isso significava que ainda seguia molesto. Não podia culpar por seu ressentimento e inclusive podia compreender que o odiasse. Ele também se odiava a si mesmo.

-É o melhor... assim não terei que lhe contar o que fiz esta noite –Remus conjurou uma cadeira para se sentar junto ao animago, que se encolheu de ombros enquanto continuava. –De qualquer forma... duvido muito que se importasse.

-Ainda que não o creia, Harry estava muito preocupado por ti. Não nos teríamos inteirado de nada se não tivesse sido por seu empatia contigo.

Sirius não respondeu ao comentário de seu amigo, mas seu semblante mudou por um segundo, tempo que passou antes de voltar a recordar as duras palavras de sua afilhado no dia de sua partida. Talvez Harry não o odiava, mas também não o amava. Ele já não significava nada em sua vida.

Erick se revolveu entre sonhos, febril e soluçando incoerências. Sirius pôs-se de pé para acercar à cama e lhe sussurrou para tranquilizá-lo. Segundos depois girou-se para enfrentar a mirada de Remus, e este franziu o cenho ao ver a atitude decidida que se formou nas facções de seu amigo, enquanto extraía sua varinha do bolso de seu túnica e se voltava para o rapaz.

-Que vai fazer? –Remus pôs-se de pé de imediato e reteve a mão que sustentava a varinha. Soltou-a ao instante quando pôde ver que as lágrimas se deslizavam pelas bochechas de seu amigo. –Sirius?

-Faz muito tempo... que não faço o correto –Remus o observou com atenção, tratando de compreender o que seu amigo dizia. –Tenho vivido toda minha vida cometendo erro depois de erro. Atuando antes de pensar. Julgando antes de conhecer... e tudo isso por culpa de alguém cujo rosto não pude ver, mas que marcou meu corpo e minha mente para sempre.

Pelo suave sorriso que se desenhou no rosto de Remus, Sirius soube que pela primeira vez em muito tempo, ao fim estava fazendo algo correto. Apontou para Erick, cujo corpo se estremecia no meio de algum pesadelo.

Junto a ele, Remus também estendeu sua varinha para o rapaz. Não foram necessárias mais explicações. Os olhos azuis cruzaram-se com os dourados de seu amigo, e ambos pronunciaram a palavra mágica que com toda segurança, mudaria para sempre o destino daquele rapaz Muggle.

-Obliviate...

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No pequeno bar do "Urso" Huxley, o homem não deixava de olhar seu relógio com impaciência. Cinco horas tinham decorrido já desde que enviasse a Erick com seu cliente, e o rapaz não aparecia. Ainda que ainda não amanhecia de tudo, as ruas já começavam a cobrar vida com os transeuntes transcoados que pouco a pouco saíam das tabernas dos arredores para dirigir à estação.

Despediu ao último cliente que ficava e seus empregados se marcharam pouco tempo depois. Terminou de fazer as contas da noite e dispôs-se a fechar seu local. Passaria pela casa do rapaz para assegurar-se que se encontrasse bem e de passagem, o repreenderia por não ter regressado a trabalhar. Alguém tocou a porta de cristal, e um meio sorriso de alívio se desenhou em seus lábios quando Erick entrou fazendo caso omisso ao letreiro cartaz que rezava "fechado".

-Pode-se saber por que te aparece até esta horas? –perguntou-lhe com voz enérgica, ainda que aliviado por dentro. Erick respondeu a seu saúdo enquanto sentava-se em um banquinho em frente à barra, de onde tomou alguns doces de noz que se guardou no bolso. –Deixaste a meu cliente em seu departamento? –o rapaz assentiu. –E por que não regressaste para trabalhar?

-É que... esqueceu-me que devia regressar –Erick se recostou a cabeça, confundido. –Sabe? Nem sequer recordo que foi o que fiz após deixar a seu cliente.

O homem olhou-o por alguns segundos e seu rosto contraiu-se em uma careta de enojo.

-Fumaste outra vez essa porqueira? –Erick moveu a cabeça de um lado a outro, assustado. Essa época era longínqua, mal tinha doze anos e era sua primeira vez. Para sua desgraça, tinha sido o senhor Huxley quem encontrasse-o intoxicado com seu primeiro cigarro de maconha na mão. Mas entre ele e sua mãe se tinham encarregado de que não lhe ficassem vontades de voltar ao fazer.

-Não, senhor! Juro! –Erick encolheu-se em seu lugar em frente ao "Urso" Huxley, e pensou que melhor seria não lhe dizer que nem sequer recordava ter chegado com seu cliente à estação. –Para valer! Juro-lhe que não o voltei a fazer.

-Mais vale-te... –o homem terminou sua tarefa no local e dirigiu-se à porta acompanhado por um envergonhado Erick. Não podia seguir repreensão. Conhecia-o desde pequeno e sabia que era um bom rapaz e um bom filho. Sua mãe estava muito orgulhosa dele. –Um de meus garçons pediu licença, e precisarei sua ajuda esta noite.

-Aqui estarei, senhor –respondeu o rapaz, contente de receber outra oportunidade de trabalho. O homem olhou-o com seriedade, duvidando em se estaria fazendo o correto ao confiar em sua palavra. A noite anterior quase teve que fazer milagres para se dar abasto com sua freguesia. Erick compreendeu sua dúvida e levantou mano-a direita, solene. –Prometo-lhe que não o esquecerei esta vez.

-Hum... está bem –Erick lhe dirigiu um enorme sorriso de despedida dantes de partir. –Rapaz esquecido... –murmurou o senhor Huxley enquanto terminava de fechar seu local.

De volta a casa, Erick caminhava devagar com o cenho franzido. O único que recordava dessas últimas horas, era o momento em que acompanhava ao cliente do senhor Huxley à estação, enquanto tratava de evitar que desse de boca contra as vias. Após isso, seu acordar justo antes de chegar à estação a bordo do comboio que para sua surpresa já o trazia de regresso, e de onde se baixou muito confundido para ir direto para o bar.

Meteu as mãos nos bolsos de sua velha calça, advertindo a presença de uma grande quantidade de bilhetes em onde não deveria ter mais que umas quantas moedas. Estranhado, sacou o grosso gajo para examiná-lo. As lembranças chegaram inesperadamente a sua mente e então sorriu. Acabava de recordar que se tinha ficado conversando com o senhor Black em seu luxuoso apartamento, e horas depois o tinha acompanhado ele mesmo até a estação para que tomasse o comboio de regresso.

"Como se me pôde esquecer?" Perguntou-se, avivando o passo rumo a sua casa. O dinheiro que o senhor Black lhe desse como agradecimento pelo ter acompanhado até o outro lado da cidade lhe serviria para pagar em vários meses de aluguel. Sua mãe estaria contente, após repreende-lo por não chegar a dormir. Deu obrigado em silêncio ao cliente do senhor Huxley no instante que escutava a voz preocupada de sua mãe, que já o esperava.

"Tem muito cuidado quando caminhe de noite pelas vias." Recordando a grave advertência do senhor Black ao despedir-se dele, dirigiu uma última mirada a um cão negro que o tinha seguido muito de perto desde que arribara à estação. Olhou-o aos olhos e por alguma estranha razão soube que devia tomar em sério aquele conselho. Sacou um dos doces que tinha tomado do balcão e lhe ofereceu ao animal, que o aceitou guloso.

-Obrigado por acompanhar-me até aqui. –murmurou ao enorme cão enquanto fechava a porta e atendia o chamado preocupado de sua mãe.

O cão permaneceu alguns minutos mais em frente à porta de Erick, e marchou-se a passo lento quando já começava a clarear. A bordo do comboio que o levaria a seu apartamento, Sirius se sentia satisfeito porque as poções de Poppy e o feitiço de Ilusão tinham funcionado tão bem como o Obliviate. Se sua mãe tivesse feito o mesmo por ele, agora sua vida seria muito diferente.

-Mas o tivesse não existe... –murmurou com amargura. Fechou seus olhos azuis e suspirando, decidiu desfrutar o sabor do doce de noz que ainda permanecia em sua boca.

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Dois dias após o ocorrido com Sirius no Londres Muggle, Draco dirigia-se a toda pressa em busca de seu padrinho. Acabava de inteirar-se que essa mesma manhã, um incidente na classe de poções com o quarto ano de Ravenclaw e Gryffindor, tinha enviado à maioria dos alunos à enfermaria por leves queimaduras ocasionadas ao explodir seus caldeirões.

Ao sabê-lo, sua preocupação pelos incidentes ocorridos nos últimos dias fez-se bem mais patente. Algo mau estava passando com Severus e tinha que averiguá-lo o mais cedo possível. O loiro não esperou um convite. Entrou ao salão onde ainda ficavam sinais do ocorrido nas paredes e teto, e até ao quadro negro do professor. Severus não estava.

Passeou sua olhada cinza por todo o lugar e viu com surpresa que a maior parte das classes tinham resíduos do acidente. No quadro negro podiam ver-se as instruções da poção que os alunos deviam elaborar, e só um olhar precisou para se dar conta que seu padrinho tinha cometido um erro ao confundir um dos ingredientes.

Saiu do salão de poções e dirigiu-se ao laboratório. Encontrou-o trabalhando em uma habitação ao fundo outrora em desuso, e agora ampliado com magia e acondicionado para uso exclusivo de sua investigação. Usava em suas mãos umas luvas de pele de Dragão, para protegê-las enquanto analisava o veneno de Nagini.

Ao vê-lo entrar, o professor seguiu trabalhando sem fazer caso ao rapaz quando este se parou em frente a ele, exigindo sua atenção. Draco esperou com paciência a que o homem terminasse o que estava fazendo. Severus tirou-se as luvas e fez algumas anotações em um pergaminho. Foi até esse momento que enfocou seu interesse para seu afilhado.

-Soube o que ocorreu com os de quarto –Severus fez flutuar o pergaminho em frente a ele e continuou fazendo algumas anotações. –Sabe que o erro foi seu, Verdade?

-Tem algo de mau que me equivoque alguma vez? –perguntou o professor sem decolar a mirada do papel. –Não sou perfeito, sabe?

-Não o duvido, Severus. E por suposto que não tem nada de mau que te equivoque alguma vez. –neste ponto, Draco posou uma mão sobre o ombro de seu padrinho, fazendo que este levantasse seus negros olhos para ele. –Mas sabe bem que não é a primeira vez. Já são várias as ocasiões no que vai do curso.

-Qual o motivo tudo isso, Draco? –o rapaz pôde advertir um tom de incomodo na voz de seu padrinho. –Já Minerva me fez as devidas advertências. Não preciso mais do mesmo, De acordo?

-Está cansado, Severus. –o homem deixou de escrever sobre o pergaminho e deu as costas ao rapaz. Acercou-se a uma gaveta que jazia em um rincão, e que tinha enfeitiçado para conservar a uma temperatura muito baixa o que aí guardava. Extraiu um tubo de vidro com uma substância transparente e regressou a sua mesa para seguir trabalhando. –Precisa ajuda com suas classes, por que não me dá os três primeiros anos?

-Não pode dar classes em Hogwarts, Draco. Não tens um título de catedrático, e sabe muito bem que a segurança dos alunos em classe é responsabilidade da cada professor –com uma pipeta, introduziu no tubo a enzima que acabava de separar. Colocou a tampa e investiu-o com macieza várias vezes enquanto consultava seu relógio. –Não posso pôr semelhante ônus sobre suas costas. Ademais, já bastante tens com as poções e com os trabalhos que te dou para qualificar.

-Então busca a alguém que te ajude com o de Harry... não o sei... algum de seus melhores alunos de sétimo. Estou seguro que te ajudarão com gosto a mudança de alguns pontos para suas Casas.

O gesto de desilusão do professor não pôde ser maior quando ao examinar a mostra de plasma, viu que seguia tendo a mesma consistência líquida. Fez algumas anotações mais no pergaminho antes de regressar sua atenção o rapaz.

-De jeito nenhum. Não confio em ninguém para algo tão delicado como isso. –Draco não pôde evitar um suspiro de frustração ante a necedade do homem. –A vida de Harry está em jogo, e não a vou arriscar a deixando em mãos de nenhum inepto.

-Quantas noites leva sem dormir nas últimas semanas? –Severus não respondeu a sua pergunta, coisa que não foi necessário. Embaixo de seus negros olhos Draco pôde apreciar as impressões claras de sua desvelo. –Harry sabe?

-Não o creio. Sempre o encontro dormindo quando regresso.

-Não é para alarmar-te nem nada disso, mas... Que passará se te chega a enfermar? –Severus também não quis responder a essa pergunta. Enfermar-se estava bem longe de seus planos. Tal possibilidade era inaceitável para ele. –Como poderá ajudar a Harry então? De jeito nenhum, padrinho. –concluiu o loiro. –Não poderá o ajudar se fica doente. Precisa que alguém te ajude com esse projeto.

Cansado, Severus sentou-se e recostou a cabeça contra o respaldo de sua cadeira, enquanto fechava os olhos e suspirava. Draco tinha razão. As poções revitalizadoras já não lhe surtiam o mesmo efeito, o que significava que o cansaço de seu corpo já estava chegando a um extremo no que punha em risco sua saúde. Não podia enfermar-se. A cada hora do dia era demasiado valiosa para ele, como para desperdiça-la atirado em uma cama da enfermaria.

-Tens alguma sugestão? –Draco franziu o cenho ante a atitude vencida de Severus. Mas longe de alarmar-se alegrou-se por isso. O homem acabava de aceitar que precisava ajuda urgente. Sentou-se em frente a ele, lhe escutando com atenção. –Preciso a alguém comprometido com a vida de Harry. Não alguém que o queira, senão alguém que o ame o suficiente e que se obrigue a ser cuidadoso no trabalho de laboratório. E que esteja tão interessado como eu em sua recuperação.

-Poderia ser Lupin. –sugeriu o loiro sem duvidá-lo. Ele mesmo era testemunha de quanto amava o licantropo a seu amigo. Severus rebatia sua sugestão enquanto se enfocava de nova conta no veneno de Nagini.

-Ele já tem bastante com as classes de Defesa e Duelo. Sem contar com seu labor como Chefe de Gryffindor. –se colocou as luvas de pele de Dragão e com cuidado, tomou uma mostra do veneno para repetir todo o processo. –Também está ungindo como Subdiretor interino. Descarta.

-Weasley?

-Não. Demasiado trabalho e problemas com o assunto de Granger. Agora não tem cabeça para outras coisas. Pensando bem, nunca tem tido cabeça para outras coisas.

Draco sorriu por um breve instante, antes de que seu rosto voltasse a ensombrecer-se. Sentiu uma grande tristeza ao recordar que tinha uma pessoa com a capacidade suficiente para o ajudar. Era uma verdadeira pena que Hermione Granger agora se encontrasse em St. Mungo.

Outro nome rondó por sua cabeça, mas o só pensamento pareceu-lhe algo descabelado. Fazer semelhante sugestão a seu padrinho seria uma verdadeira idiotize. Mesmo assim, Draco decidiu-se a arriscar seus dentes, pois sabia muito bem que essa pessoa também amava a Harry. E amava-o o suficiente não só para se obrigar a ser cuidadosa em seu trabalho, senão também para estar o bastante consciente que essa seria talvez, a última oportunidade que teria para o recuperar.

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Desde a janela do vigésimo andar onde se encontrava, Sirius observava os enormes edifícios que obstruíam o passo do sol, enfatizando em tonalidades cinzas aquela tarde de sexta-feira no Londres Muggle. Sentado em um cadeirão a uns metros dele, Remus repassava distraído alguma revista, ignorante dos pensamentos que passavam pela mente de seu amigo.

Era a primeira vez que calcava esse lugar, e estava muito nervoso. Tinha vontade de sair correndo e baixar as intermináveis escadas que o conduziriam para a saída do edifício. Mas sabia muito bem que Remus lhe lançaria um feitiço paralisador antes de que conseguisse chegar ao primeiro degrau. Para ser sincero consigo mesmo, o licantropo era o principal causante de que agora se encontrasse nesse apresso.

Ansioso, posou suas mãos trémulas contra o cristal da janela, deixando nele a umidade de seu suor frio. Suspirando para controlar a sensação de vertigem, fechou os olhos e respirou com força. Ele não temia às alturas, pois um de suas passatempos favoritos em sua juventude sempre foi se elevar em sua vassoura o mais alto possível, até quase tocar as nuvens. Sua sensação de vertigem devia-se a outra razão.

Desde seu lugar no cadeirão, Remus levantou a mirada e a enfocou sobre a figura do animago. Sirius mantinha recargada seu frente contra o cristal, as mãos apertadas com tanta força que suas dedos se apreciavam brancos. Com um longo suspiro, deixou a revista a um lado e pôs-se de pé. Sirius decolou a frente da janela quando através dela distinguiu a figura de seu amigo por trás dele.

-É necessário que estejamos aqui? –Remus assentiu em silêncio e o animago ressopro, escondendo as mãos nos bolsos de seu grosso abrigo. –Não creio... poder fazê-lo, Remus.

-Mas deve fazê-lo. Por seu bem... e pelo de Harry. –ao escutar o nome de seu afilhado, Sirius assentiu em silêncio e seus azuis olhos se nublaram. Mais que por insistência de Remus ou por seu próprio bem, estava aí por ele. Por Harry. Por seu afilhado... por seu menino.

-Cries... que aqui poderão me ajudar a... já sabe...? –Remus voltou a assentir e então Sirius guardou silêncio, perdido em seus pensamentos.

Ao dia seguinte do ocorrido com aquele rapaz Muggle, ao fim tinha dado lugar a conversa pendente entre Remus e ele. Sirius não se arrependia de lhe ter confessado o segredo que guardasse desde seu infância, e Remus estava disposto ao ajudar a superar esse terrível episódio de sua vida. Mas tinha-lhe deixado muito claro que essa etapa dolorosa não poderia a superar só com sua ajuda. Também precisava ajuda profissional.

Sirius negou-se de forma rotunda. Bastante trabalho tinha-lhe custado abrir-se em frente a seu melhor amigo, e de jeito nenhum pensava fazê-lo recostado em um cadeirão em frente a um completo desconhecido. Remus não lhe insistiu demasiado e em mudança, lhe pediu que o considerasse. Mas os pesadelos noturnos espreitavam-no com mais frequência que antes, e Sirius não se atrevia a lhe contar nada.

Guardou silêncio ao respeito durante toda essa semana, até que no dia anterior Remus lhe contou que Harry tinha pesadelos pelas noites, sobre um homem com uma máscara branca que lhe fazia dano dentro de um quarto na Mansão Black. Assustado ao dar-se conta que seus pesadelos também lhe estavam afetando a seu afilhado, Sirius decidiu deixar suas apreensões a um lado e aceitar o conselho que seu amigo lhe desse.

E agora se encontrava no consultório do doutor Michael Sayers, um dos melhores em seu campo, e um Muggle. Assim o tinha decidido ele mesmo, pois não queria que ninguém no Mundo Mágico soubesse que receberia terapia com um psicólogo. Remus tinha-lhe feito o favor de lhe conseguir encontro com ele por recomendação de Ron, que já tinha o prazer do conhecer.

Remus tinha-se dado à tarefa de pesquisá-lo e assim soube que não só era um médico muito reconhecido em sua especialidade, senão que também era o esposo da doutora Sayers, a medimaga que atendia o caso de Hermione. Com esses dados, soube que deixaria a seu amigo em boas mãos.

A porta do consultório abriu-se e momentos depois a secretária consultava sua lista de encontros.

-Senhor Black, pode você passar. O doutor Sayers espera.

Sirius deu um salto em seu lugar ao escutar seu nome, e deixou passar quase um minuto antes de animar-se a dar um passo adiante. Remus advertiu sua dúvida e palmou seu ombro para infundir-lhe ânimos.

-Por que não vens comigo? –Remus sorriu com ligeireza ao mesmo tempo em que negava com a cabeça. Sirius suspirou com resignação, uma gota de suor frio escorregando por seu frente. –Estará aqui quando saia?

-Aqui estarei, não o duvide. –foi a firme promessa de Remus. –Já verá que tudo sairá bem.

Sua promessa pareceu tranquilizar um pouco a Sirius, quem respirou com força antes de dirigir-se com passo mais seguro para o consultório. A porta fechou-se por trás do animago e Remus teve o pressentimento de que a partir desse momento uma nova etapa iniciava na vida de seu melhor amigo.

Continuará...

Próximo Capítulo: Lutando contra fantasmas.

Notas:

Quero agradecer a todos por seus reviews, e por seguir lendo esta história.

Besitos.

Rebeca (K. Kinomoto)

Nota tradutor:

Oi bom dia!

Espero que vocês não estejam infelizes por terem dito uma continuação mais cedo, mas como eu disse no anterior recado estou começando um curso de competência no trabalho e administração, acho que devo ser rebelde para ter que aprender tudo isso :p

Mas enfim aqui esta mais um capitulo no ar… agora com toda a sinceridade do mundo prometo que terminarei essa fica antes de 2015 começar :D

Espero vocês no próximo capitulo que vira muito em breve "I promise"

Ate breve

Fui…