POV Snape
Assim que dispensei Jennifer da aula e perdi ela e sua amiga de vista, me arrependi amargamente, agora eu passaria a tarde toda inquieto, sem saber se ela estava bem ou não. Eu não deveria me preocupar, Dumbledore havia trazido Maria Tanner para o castelo justamente para que Jennifer fosse vigiada vinte e quatro horas por dia, mas eu ainda não conseguia me sentir tranquilo. Eu queria verificar com meus próprios olhos.
Observei atento todos os alunos desmiolados fazendo suas poções, apontando quando necessário alguma correção, mas felizmente não precisei desfazer nenhuma poção que ameaçava explodir, todos fizeram um trabalho aceitável.
Quando me dei por convencido que nenhum acidente pudesse acontecer ali, retornei à minha mesa para organizar alguns documentos e calcular as novas proporções dos medicamentos de Jennifer. Ela precisava mudar ainda esta noite para os medicamentos injetáveis, antes que começasse a ter problemas com fraqueza, por não manter nada no estômago.
Pensar nela me fez lembrar da promessa que havia feito de tentar permitir Potter se aproximar. Sem que eu pudesse me conter, meus olhos vagaram pela sala, buscando o garoto.
Meu estômago se contraiu.
Ele era uma réplica perfeita do intragável do pai dele, com exceção dos olhos. Ahh... Aqueles olhos.
Lily.
Minhas mãos se fecharam em punho, como eu desejava poder voltar no passado e fazer tudo diferente, como eu deseja não ter me vendido pela ganancia de poder, como eu desejava não ter me deixado levar pela humilhação e insultado a única que realmente me tratava bem, fazendo-a assim se afastar... Como eu deseja que estivesse viva...
Não importava se estivesse nos braços de outro, não importava se estivesse nos braços de Potter, eu só queria que ela estivesse viva.
"É por isso que não quer que Harry se aproxime? Por que ele te faz lembrar que ele deveria ter sido seu filho, mas ela preferiu Thiago?"
A voz de Jennifer invadiu minha mente deixando-me quase tonto. Como ela podia dizer aquilo? Eu jamais queria ter aquele moleque intragável como filho! Eu jamais suportaria... Eu...
Engolindo o gosto da bile que se formou em minha boca e fechando levemente os olhos fui obrigado a admitir.
Ela tinha razão.
Eu jamais imaginei formar uma família, levar o nome Snape adiante, ter uma esposa e envelhecer ao seu lado. Não. Eu nunca quis nada disso... Só com ela.
Lilian foi a única com quem me permiti sonhar desta maneira, mas a afastei de mim, magoando-a e então, ela havia partido meu coração ao escolher Potter. Dentre todas as pessoas, logo Potter.
Observei novamente com amargura o menino trabalhar em sua poção, ele era a cara de seu pai, mas tinha os olhos e, embora me custasse admitir, a bondade de sua mãe.
"Ora, isso é comovente, Severo. Você acabou se afeiçoando ao menino, afinal?"
A voz de Dumbledore veio em minha mente como um baque, seu tom quase debochado anos atrás, quando ele tratava Potter como um porco pronto para o abate. Olhei novamente o menino, não, o jovem homem trabalhando. Ele sempre seria uma réplica do pai, ele sempre me traria lembranças desonrosas e tormentas que talvez fossem impossíveis de se superar.
Entretanto, assim como a mãe dele fez, ele não teve medo nem hesitou quando descobriu que tinha que morrer por um bem maior. Lilian havia morrido para salvar aquele menino. Potter havia caminhado para morte para salvar o mundo bruxo.
Ele tinha muito mais da mãe do que eu gostaria de admitir.
Tempos especialmente difíceis se deram durante a guerra, eu nunca desejei sobreviver, sempre imaginei que depois de anos de escravidão e espionagem eu teria o descanso e a redenção, eu poderia finalmente me encontrar com Lilian novamente, pedir-lhe perdão pela maneira que havia tratado-a e receberia seu perdão depois de proteger o filho dela por todos esses anos. Mas, não. Aqui estava eu. Vivo. Não vivendo, mas apenas sobrevivendo a uma vida miserável e sem sentido quando muitos outros homens honrados que realmente tinha motivos para viver não tiveram essa sorte.
Então Jennifer Kimmel apareceu e tudo parece ter virado de cabeça para baixo. A menina, não, a jovem mulher, havia sacodido e atormentado completamente aquela minha vida desgranhenta. Ela havia me admirado e me respeitado mesmo com todas as minhas grosserias e injustiças. Ela havia cuidado de mim e se preocupado quando ninguém tinha feito. Ninguém a não ser ela... Lilian.
—Professor. – A voz de Granger tirou-me de meus devaneios. – Terminei a poção.
Levantei e me dirigi até sua mesa, surpreso por ter passado tanto tempo divagando. Assim que me aproximei de seu caldeirão constatei o que já imaginava, a poção estava perfeita. Granger era uma bruxa brilhante, embora eu jamais admitiria isso em voz alta. – Bom. – Declarei por fim me afastando. – Aqueles que terminarem engarrafem suas poções e podem se retirar.
Encarei novamente Potter.
—Menos você Potter. – Falei antes que eu pudesse pensar melhor. O garoto me olhou confuso, recebeu alguns olhares questionadores e até alguns risinhos de alguns sonserinos.
Potter continuou em sua mesa enquanto todos os alunos se retiram, apenas quando a sala estava vazia que ele se levantou e veio até minha mesa. – Queria falar comigo, professor?
Ora é claro que eu queria, garoto estúpido, ou não teria pedido para ficar! Reprimi a vontade de responder grosseiramente e assenti.
—Sim, senhor Potter. – Tentei manter a voz o mais amistosa possível. Desconcertado, me sentindo quase um estúpido por ter aquela conversa. – Sei que tem algumas coisas que gostaria de saber sobre sua mãe. – Fiz uma breve pausa. – E acredito que sou o único no momento que poderia lhe falar sobre ela.
A expressão de incredibilidade de Potter fez com que eu me sentisse ainda mais estúpido. Amaldiçoei Jennifer mentalmente. Quando estava pronto para mandar o garoto embora e que esquecesse aquela conversa infundada ele se pronunciou.
—O senhor faria isso, senhor? – A voz dele era quase emocionada. – O senhor realmente me falaria sobre minha mãe? – A princípio achei que ele estivesse debochando de minha cara com o pai dele certeiramente faria, mas seus olhos me mostravam um brilho intenso, esperançoso.
Senti-me desconcertado e assenti, ainda mantendo minha postura neutra. – Sim, senhor Potter. Gostaria de tomar um chá em meus aposentos após o jantar para conversarmos melhor?
Seus olhos encheram de lágrimas, o sorriso de Potter era enorme. – Obrigado senhor! Muito obrigado! – Ele falou feliz. – Eu adoraria! Eu realmente apreciaria muito, senhor.
A euforia do menino desconcertava-me. Será que Jennifer estava certa e o menino estava desesperado por minha atenção? Apenas assenti. – Esteja aqui as vinte horas em ponto. – Potter assentiu concordando. – Não se atrase, Potter. – Ordenei tentando arrancar aquele sorriso bobo do menino, ele não pareceu se intimidar.
—Sim, senhor. – Ele fez uma breve reverência, me surpreendendo. – Muito obrigado senhor!
—Pode ir agora, Potter. – Declarei dispensando-o. Nunca me senti tão desconcertado na presença do garoto como agora. Ele parecia realmente feliz com o convite. Emocionado, embora eu tenha percebido que ele tentava segurar a emoção.
Aquilo fez algo dentro de mim se aquecer. Talvez ele fosse mais filho de Lilian do que de Thiago afinal.
Sem pensar mais nisso, me dirigi ao meu laboratório e comecei o preparo dos novos medicamentos de Jennifer. Eu me sentia ansioso para encontrá-lo logo, as vezes esses sentimentos espontâneos me cansavam mais do que deveria. Eu não era mais um adolescente, pelo amor de Merlin.
Já estava quase a hora do jantar quando estava com todos os medicamentos prontos e Madame Pomfrey e eu estávamos preparando as prescrições dos medicamentos e um pequeno kit dos instrumentos necessário para as aplicações.
—Não esqueça de falar com Tanner de esterilizar o braço de Jennifer antes de fazer a aplicação. – Papoula pediu enquanto eu guardava o último frasco de poção na caixa. Assenti me segurando para não revirar os olhos. Papoula andava super protetora com Jennifer desde o descontrole.
—Vou explicar tudo corretamente Papoula. – Garanti paciente, eu sabia bem que Pomfrey preferia ela mesma fazer a demonstração a Maria Tanner de como fazer as aplicações, mas um acidente na aula de Trato de Criaturas Mágicas do terceiro ano havia deixada sobrecarregada de trabalho.
—Obrigada por tudo que tem feito pela menina Severo. – Agradeceu ela quando já estava para me retirar da enfermaria. Assenti tentando não transparecer meu desconforto. Ela jamais me agradeceria se soubesse que eu era o responsável por todos os males que atingiram a menina.
Sem dar chance para Papoula dizer mais nada rumei aos aposentos de Jennifer, ansioso para saber o estado da garota, divertindo-me só de imaginar o desespero da garota com as agulhas novamente, era completamente ridículo que a menina tivesse medo de agulhas enquanto se mutilava por qualquer coisa.
Assim que alcancei os aposentos de Jennifer bati na porta. Ouvi movimentos dentro do quarto e vozes baixas antes da porta ser aberta por Jennifer trajando um roupão. – Olá professor, entre por favor. – Ela deu passagem para que eu entrasse.
Senti meu rosto se aquecer, a menina abria a porta trajando apenas um roupão? O que diabos ela tinha na cabeça? Rapidamente desviei os olhos para o chão quando percebi que meus olhos tinham percorrido toda a extensão de seu corpo coberto pelo simples robe de seda. – Senhorita Kimmel! – Grunhi asperado.
Jennifer sorriu diante do meu visível desconcerto. – Desculpe minhas vestes, professor, tinha acabado de sair do banho quando o senhor bateu. – Explicou ela, sua voz sem um pingo de ressentimento. – Entre por favor.
—Vou aguardar aqui fora a senhorita se trocar. – Afirmei ainda tentando desviar os olhos de seu corpo.
—Ora, professor, pare de bobeira, o senhor já me viu nua, se esqueceu? – Sua declaração tão alta e clara, no meio do corredor fez-me encará-la descrente. Qual era o problema dela? O rosto de Jennifer era tranquilo, sereno, quase divertido com a situação. – Vamos, entre de uma vez. – Disse ela ao me puxar pelo braço para dentro.
Ao adentrar no quarto vi Maria Tanner sentada na poltrona em frente a lareira, vestida corretamente, lendo um livro. – Não poderia ter sido a senhorita Tanner a abrir a porta enquanto você terminava de se trocar? – Indaguei irritado. Jennifer havia feito de propósito.
—E perder sua cara de desconcerto? – Rebateu Jennifer ao se sentar na cama.
—O que houve? – Maria questionou fechando o livro e nos olhando com curiosidade.
—Severo ficou sem graça de me ver de roupão. – Explicou ela naturalmente, fazendo-me encará-la desacreditado. Ela falava com a amiga como se a amiga...
—Mas qual o problema nisso? – Indagou Maria interrompendo minha linha de pensamento. – Vocês já não transaram? Já se viram com muito menos roupa do que isso!
Engasguei sentindo meu rosto corar violentamente. Ela sabia? Como ela poderia saber... O pânico me dominou. Jennifer havia contato a Tanner! Quem mais saberia? O que a garota pensaria? Ela contaria ao diretor?
—Foi exatamente o que eu disse a ele. – Respondeu Jennifer tranquilamente. Ambas conversavam com tanta naturalidade completamente alheias ao meu desespero.
Bom Merlin, Jennifer Kimmel definitivamente seria minha morte!
—Bom, creio que o senhor veio me ensinar a fazer as aplicações na Jennifer, certo professor Snape? – Maria encerrou o assunto, o que agradeci mentalmente, eu não poderia lidar com perguntas ou mais comentários indiscretos sobre minha intimidade com Jennifer.
Pigarreei tentando assumir minha postura novamente. – Sim, se aproxime por favor. – Me aproximei de Jennifer, a qual estava sentada na cama, Maria fez o mesmo.
Senti quase meus lábios se formarem em um sorriso ao me lembrar que Jennifer tinha medo de agulhas, eu me vingaria por ter me deixado desconcertado e por me expor para a amiga. Abri a caixa com os instrumentos e as luvas.
—Você precisa vestir as luvas antes de qualquer procedimento, depois pegue o algodão com álcool e passe no braço onde será feita a aplicação, para esterilizar... – Fui explicando a Maria enquanto colocava as luvas e embebedava o álcool no algodão, quando estava prestes a levantar a manga do roupão de Jennifer ela me impediu.
—Espere professor... – Pediu ela manhosa. Sorri, eu só ia passar o algodão e ela já estava com medo?
—Vamos Jennifer, é apenas o algodão, não precisa se desesperar agora, nem preparei a agulha ainda. – Debochei, deleitando-me da situação. – Embora esse seu medo de agulhas seja muito estranho vez que a você está sempre se cortando, uma pequena agulha não deveria ser problema. – Sorri encontrando seus olhos, esperando ver ali apenas uma parte do constrangimento que ela havia me feito passar, mas não.
—Na verdade, professor. – Jennifer falou ignorando minha provação. Seu tom era suave, baixo. – Eu apenas pensei no que o senhor disse de manhã e acho que vou seguir seu conselho. – Conselho que conselho? Tentei recapitular tudo que falamos de manhã para entender do que falava. Mas antes que eu pudesse compreender suas palavras, Jennifer se deitou de bruços na cama e levantou o robe revelando suas nádegas cobertas por uma minúscula calcinha de renda preta. – Acho que prefiro a injeção em um lugar mais carnudo.
Senti meu rosco avermelhar rapidamente e o ar me faltou tamanha a descrença daquela situação. Olhei para aquelas pernas a mostra bem como para aquele traseiro perfeito a minha frente, sem conseguir reagir por um momento. Meu corpo inteiro reagindo aquela visão, fazendo-me parecer um adolescente vendo o traseiro de uma mulher pela primeira vez.
—SENHORITA KIMMEL! – Grunhi asperado quando finalmente consegui reagir, levantando-me e ficando de costas para as meninas. – Tenha a decência de se cobrir, pelo amor de Merlin! – Pedi em meio a respirações profundas, tentando fazer meus instintos masculinos voltassem a me obedecer.
Como ela podia se exibir desta maneira, ainda mais tento a amiga aqui no quarto. O que ela pensaria de nós? Será que ela acreditava que já havíamos nos aventurado as maiores loucuras como dois jovens inconsequentes? Ela acharia que eu era um pevertido, por Merlin!
Ouvi a risada aberta de Jennifer e o riso contido de Tanner fazendo a raiva me envolver, elas estavam rindo de mim!
—Ah Severo, pelo amor de Deus, - Jennifer falou sem muita paciência. – Você já viu pelada! Qual o problema?
Eu estava desacreditado que aquela situação toda estava acontecendo, meu corpo todo estava quente ao ponto deu desejar tirar o casaco tentando minimizar o calor.
—Você não tem juízo algum, garota? – Indaguei irritado. Ouvi Jennifer bufar.
—Foi você mesmo quem sugeriu de manhã. – Jennifer rebateu ainda tranquila, como se aquela situação fosse completamente normal. – Não quero meu braço doendo, especialmente agora que meus trabalhos serão teóricos, então terei muito o que escrever.
—Vista-se de uma vez mulher! – Exigi raivoso. Bom Merlin a menina me provocar quando estávamos sozinhos já era desconcertante o suficiente, mas fazer isso na frente da amiga só fazia com a vergonha em mim crescesse. – Sabe muito bem que só falei aquilo para te irritar.
Maria Tanner pela primeira vez se manifestou, parecendo divertida demais com a situação. Maldição!
—Professor se ela prefere assim, não podemos simplesmente acabar com isso? – A voz dela era mansa. – Ela tem razão, não tem nada ali que você já não tenha visto e a única que deveria estar sentindo-se constrangida é Jennifer, não o senhor.
Respirei fundo, ciente de que Jennifer fazia aquilo para me atormentar e não desistiria até que eu deixasse o quarto provando que me deixei levar ou fizesse do jeito dela. Mulher sangrenta!
Se Jennifer queria desta maneira eu faria, mas daria um jeito de me vingar, a se daria. Virei-me bruscamente assustando as duas e retornei a cama, forçando o corpo de Jennifer a voltar de bruços.
—Preste atenção Tanner. – Rugi severo. Sem dizer mais nada e sem gentileza alguma fiz a aplicação ouvido sem dar-lhe tempo para se preparar ou mudar de ideia e abaixei seu robe. Jennifer gritou, reclamando pela dor. – Caso a senhorita Kimmel esteja te dando muito problema por favor avise-me para transformar a aplicação em três ou quatro por doses. – Declarei friamente. – Não se demorem, pois, o jantar já está servido e Jennifer não pode perder nenhuma refeição. – Retirei as luvas bem como os materiais utilizados e os descartei. – Alguma dúvida Maria? – Perguntei sarcástico.
Ambas me olhavam levemente descrentes, pouco me importei, ainda estava irritado demais com a atitude de Jennifer para me importar.
—Não senhor. – Declarou Tanner. Assenti enquanto rapidamente deixava o quarto forçando minha mente a voltar aos eixos. Aquela mulher descraçada seria minha ruina.
Só um banho frio faria eu voltar a pensar com coerência com a cabeça de cima.
—Inferno de mulher! – Grunhi e me dirigi as masmorras.
Parece que a Jenny decidiu começar a fazer da vida do Snape miserável kkkk
Espero que tenham gostado!
Beijos,
Marry Black.*
