Frerin chegou a Esgaroth mais rápido do que jamais conseguira dantes. A pressa em providenciar ajuda ao irmão ditando o ritmo. Foi assim que o jovem anão arguiu incrédulo ao capitão khuzd que havia deixado na cidade durante sua ausência.
- Como assim meu pai não está na cidade?
- Recebeu um chamado urgente das Colinas de Ferro. Dirigiu-se para lá logo cedo – respondeu o capitão da guarda khuzd de Esgaroth.
- Não disse do que se tratava? – insistiu o jovem.
- Algo sobre a saúde de um parente, creio eu.
- Tal notícia veio em má hora, capitão.
Frerin permaneceu pensativo. O que poderia ter acontecido de tão grave? Colinas de Ferro? Seria algum parente de Frigga?
- O que houve, alteza? Parece preocupado.
O jovem uzbad suspirou por um momento. Não haveria tempo hábil para checar o destino do pai ou o que o demovera de Esgaroth. Thórin precisaria de toda ajuda possível.
- Convoque os soldados. Precisamos ir a Mirkwood. A caravana escoltada por meu irmão foi atacada por elfos.
- Elfos? – perguntou o capitão, sem conseguir acreditar no que ouvia.
- Prepare tudo para a partida.
- Imediatamente, uzbad – respondeu ainda relutante.
O ritmo de cavalgada do príncipe de Erebor era irreal. Nem ele mesmo sabia como o animal que montava conseguia imprimir a velocidade solicitada. Tinha ganas de passar ao fio da espada cada um daqueles 'primogênitos' de Ilúvatar, que o Único o perdoasse pelo ódio que lhe rasgava o peito.
O khuzd adentrou os limites da floresta sem se preocupar em se ocultar. De nada adiantaria. Sabia que os elfos mantinham suas terras muito bem guardadas. Por conta disso, quando já estava próximo ao palácio, foi abordado por uma guarda considerável, cujo capitão reconheceu imediatamente o senhor de Erebor.
- Qual o motivo de sua vinda até nós, meu senhor? – indagou com o arco armado, assim como os soldados que o acompanhavam.
- Onde está Thranduil? – perguntou entre os dentes mal conseguindo conter a fúria. Se, em situações corriqueiras, os filhos de Aule já não eram portadores da virtude da paciência, quando motivos se faziam presentes, sua ira os levava a beirar a insanidade.
- Diga-nos o que o traz aqui e levaremos o assunto ao rei – contemporizou o elfo - sem contudo, depor o arco.
- Eis o assunto – disse Thórin jogando à frente do eldar as flechas que trouxera nas mãos – quero que explique porque seus servos vêm abordando sistematicamente meu povo por essas estradas – concluiu andando com o pônei de um lado para o outro.
O primogênito apeou do cavalo, solicitando com o olhar que seus comandados o cobrissem enquanto verificava o material trazido pelo representante do Povo de Durin. Não havia dúvida de que se tratavam de flechas élficas. Chamou o soldado mais próximo, entregando um dos objetos na mão do mesmo.
- Informe o rei – ordenou.
O pônei montado por Thórin cavalgava inquietamente de um lado para o outro, refletindo a perturbação do seu cavaleiro. Os eldar seguiam com as flechas apontadas para o anão que, apesar de sozinho, poderia trazer problemas caso fosse negligenciado.
Os animais dos soldados élficos se inquietaram ante a aproximação do contingente comandado por Dwalin. Os elfos ergueram seus arcos. O comandante khuzd pôs-se ao lado do príncipe de Erebor empunhando o machado. Os guardas khazâd cercaram seu soberano. Thórin pediu que lhe dessem passagem.
- Mantenham-se atrás de mim – determinou. O herdeiro de Thrór não se sentia bem usando seus irmãos como escudo, pouco importava os argumentos que lhe apresentassem. Dwalin olhou-o de soslaio.
- Não é sensato, se expor assim, meu príncipe – disse, de modo a ser ouvido apenas pelo filho de Thráin.
- Sensatez nunca foi uma de nossas maiores virtudes, azaghâl - retorquiu o jovem senhor.
Após vários instantes de expectativa, o rei Thranduil surgiu no meio da trilha, acompanhado pelo filho. Ao ver Legolas, Thórin quase perdeu o controle ao lembrar de como chegara a confiar nele. O governante de Mirkwood rompeu o cerco aos anões formado pelos guardas élficos e se aproximou sem hesitação de Thórin, cujos olhos em fúria fitaram o rei. Legolas permanecia ao lado do pai.
- Fui colocado a par do assunto que o trouxe aqui, mestre anão, embora os fatos ainda estejam confusos. Poderia me fazer o favor de reiterá-los? – solicitou o rei.
- Não há nada a ser reiterado, elfo – disse entre os dentes o filho de Mahal – as flechas sob seus pés foram retiradas de anões e animais que faziam parte de uma caravana por nós conduzida. É você quem me deve explicações.
A total falta de cortesia e respeito irritou os eldar, contudo Thranduil viu a gravidade da situação e ignorou o tom beligerante do descendente de Dúrin, assim como sua disposição pessoal que em nada simpatizava com os filhos de Aule. Não estava totalmente desprovida de razão a fúria que via em seus olhos. As provas pareciam incontestes.
- Não existe a menor possibilidade, mestre anão, de um membro sequer de meu povo ter sido o responsável por tal ataque. A única saída que vejo para tal fato é que alguém tenha querido fazer-lhes algum mal, colocando a culpa no povo de Mirkwood.
- Bastante conveniente, não acha? – provocou o khuzd.
- Convenhamos, meu senhor, o que ganharíamos em atacá-los? Não vê que os acontecimentos são totalmente incongruentes? Pense bem antes de provocar um conflito que só poderia resultar em perdas para ambos os lados.
- Está nos ameaçando, elfo? – inquiriu o príncipe de Erebor, acompanhado por expressões agressivas de seus soldados, também eles compartilhando da indignação de seu líder.
- Não, Thórin, filho de Thráin, não se trata de uma ameaça, contudo, se não der ouvidos à razão, um embate será inevitável.
- E a que razão eu deveria dar ouvidos? Não são essas flechas a prova cabal de que elfos nos atacaram?
Thranduil fitou Legolas. O mais novo assentiu. A suspeita de ambos foi externada verbalmente.
- Todavia, recentemente recebemos uma encomenda, feita por um comerciante de Esgaroth. Uma partida de fechas lhe fora entregue. Um pedido inusitado, reconheço, contudo totalmente legítimo.
- Nunca ouvi dizer que elfos realizassem comércio de armas – disse Thórin secamente.
- Não é algo usual, todavia, nada há em nossas leis que não proíbam tais negociações.
- E quem era esse comerciante? – indagou Thórin buscando desesperadamente por um culpado a quem direcionar toda ira que o estava consumindo. Ao mesmo tempo receando que os primogênitos estivessem apenas tentando ganhar tempo ou zombando de seu povo.
- Infelizmente – admitiu Thranduil a contragosto – não tivemos mais notícias suas. Parece ter desaparecido.
- Que conveniente! – disse o anão – então sustento minha opinião de que um contingente élfico nos atacou e a prova aí está.
- Nossa palavra não tem peso algum? Não poderia nos dar o benefício da dúvida? – a tranquilidade do rei diante da total falta de cortesia do khuzd começava a impacientar seus súditos. O eldar, contudo, buscava a todo custo uma solução pacífica para a situação cada vez mais complexa que se materializava.
- Sua palavra? – questionou Thórin – a palavra de um elfo para mim não vale nada!
Os soldados eldar quase dispararam suas flechas e começaram a externar verbalmente sua indignação. Mesmo o rei levou a mão à espada, sendo detido pelo filho que lhe segurou o pulso. Este, contudo, também carregava no rosto o inconformismo diante da falta de consideração do khuzd. Tomou a dianteira do pai, que a cedera, admitindo que sua paciência e diplomacia se haviam esgotado.
- Não faça nada de que venha a se arrepender, Thórin – alertou Legolas.
- O único arrependimento que carrego, elfo, é o de um dia haver confiado em seu povo – disse entre os dentes, avançando em direção ao príncipe de Mirkwood.
Legolas viu-se sem acreditar na abordagem do herdeiro de Erebor. Foi o pai, dessa vez a interpor-se entre o anão e o filho. A espada élfica já desembainhada apontando em direção ao filho de Aule.
- Por Ilúvatar, mestre anão, retire-se daqui com seus soldados. Que este infeliz incidente seja por nós todos esquecido.
- Quem disse que eu quero esquecer alguma coisa? – indagou, levando sua espada ao encontro da arma élfica. O barulho do aço khuzd contra a lâmina eldar tornando-se prelúdio do inevitável confronto.
Thranduil apenas se defendeu, sem revidar o golpe, afastando-se de seu oponente. A relutância em iniciar o embate atiçando a ira incontida do filho de Thráin, ao lhe ser negada a reparação pelo mal causado a seu povo.
- Covarde! – gritou Thórin ao soberano de Mirkwood - Ishkhaqwi ai durugnul.*1 – a língua secreta dos khazâd era muito pouco conhecida entre os povos da Terra-Média, todavia, expressões como aquela que príncipe de Erebor evocara eram tão raras quanto odiadas. Estavam entre as pouquíssimas palavras compreendidas pelos eldar.
A ira até então contida dos primogênitos veio ao encontro do desejo de vingança que fora cultivado nos corações dos khazâd, fazendo com que anões e elfos se degladiassem na floresta. Os filhos de Aule estavam em menor número, contudo, menor não era sua ferocidade. O embate foi aguerrido. Thórin atacava Thranduil. No entanto, o anão estava cego pela raiva e foi derrubado de sua montaria pelo golpe certeiro do primogênito, tendo apontada para sua garganta a lâmina élfica que tanto odiava.
Vendo seu líder em tal condição, os anões foram obrigados a ceder.
-Já que não quis partir em paz, filho de Thráin – decretava o rei – ficará sob minha guarda até que o assunto seja devidamente esclarecido. Quanto a vocês – disse dirigindo-se a Dwalin e aos outros – serão escoltados até os limiares da floresta.
O príncipe de Erebor fora colocado de pé e não esboçou reação ante a incontestável desvantagem, contudo, não permitiu que os guardas de Thranduil o mantivessem seguro.
Inconformado, Dwalin quis reagir.
Thórin, preocupado com o que poderia acontecer com os seus, caso o confronto prosseguisse, o deteve.
- Dwalin! – foi tudo o que disse, fitando o amigo.
- Meu príncipe!
O comandante hesitou por alguns momentos, juntamente com os soldados Khazâd, todavia não poderiam se opor aos fatos. A comitiva khuzd foi escoltada para fora da floresta.
Antes de ser levado para o interior do palácio, Thórin mirou Legolas. O peito arfando de indignação. O eldar, gélido, diante daquele que julgara haver conquistado a amizade. Talvez seu pai estivesse certo. Uma amizade entre anões e elfos seria pedir demais.
As forças lideradas por Frerin chegaram apenas a tempo de encontrar Dwalin e seus homens na estrada fora da floresta que levava à Mirkwood. Após prestarem os cuidados possíveis, Dwalin soube do motivo pelo qual Thráin não estava presente. Estranhou o fato, contudo instruiu Frerin. Apesar deste ser hierarquicamente superior a ele, a experiência de Dwalin era respeitada pelo jovem príncipe, que o tinha como amigo e mentor.
- Fique em Esgaroth com seus guardas, Frerin. Não podemos nos arriscar a desguarnecer essas terras agora que tudo está tão incerto. Enviarei instruções tão logo chegue a Erebor.
As comitivas partiram. Incerteza reinando nos corações Khazâd. Seu soberano feito prisioneiro. Uma guerra iminente.
*1Ishkhaqwi ai durugnul: Eu cuspo sobre sua cova.
